terça-feira, 19 de outubro de 2021

A NOITE SANGRENTA, CEM ANOS DEPOIS


 

Passam hoje cem anos sobre uma trágica data da nossa História recente onde, na sequência de um golpe de estado, um aparentemente indisciplinado e selvático grupo de soldados do lado vitorioso deu largas a uma série de execuções de personalidades políticas e militares da época. Nos anos noventa resolvi tentar escrever a história desses acontecimentos e transformar esse trabalho no argumento para uma longa-metragem. Enquanto argumento o filme ganhou dois prémios embora nunca tenha conseguido passar à fase seguinte, isto é, à produção e conversão em imagens. Deixo-vos a sua expressão mais curta em forma de texto (Sinopse) enquanto modesto contributo de homenagem às vítimas e, principalmente, em homenagem a uma mulher incrível (Berta Maia) que nunca descansou enquanto não descobriu a “mão” por trás dos acontecimentos aparentemente fortuitos que de fortuitos nada tinham.

Este trabalho foi escrito em parceria com o cineasta João Matos Silva.

 

Artur Guilherme Carvalho

 

 

 

 

 

 

 

 

A NOITE SANGRENTA

 

                                   (Sinopse)

 

 

   No dia 19 de Outubro de 1921 a jovem República fundada com a Revolução de 1910 sofria mais um rude golpe. Na sequência de um tempo atribulado, sem soluções duradouras e eficazes, com a falência da credibilidade das instituições, golpes de estado e governos sucediam-se a uma cadência alucinante.

   Três anos depois de uma participação activa na I Guerra Mundial, pouco reconhecida na Conferência de Paz pelas potências europeias vencedoras, dois anos após o assassinato de um dos mais carismáticos presidentes da república, Sidónio Pais, e com uma situação económica cada vez mais enfraquecida pela corrupção e pela subida da inflacção, a sociedade portuguesa cada vez mais dividida, atravessa um período difícil da sua História marcado pela errância e pelo acaso, ao sabor das suas próprias convulsões.

   Na noite que se seguiu ao golpe de 19 de Outubro de 1921, cinco personalidades públicas prestigiadas são barbaramente assassinadas por tropas revolucionárias indisciplinadas, aparentemente desirmanadas da sua cadeia de comando. O Presidente do Ministério (Primeiro Ministro), que assina a sua demissão pelas 13 horas do dia 19 acaba por ser assassinado no Alfeite da Marinha nessa mesma noite. Para além do dr. António Granjo, homens como o Almirante Machado Santos, herói revolucionário do 5 de Outubro de 1910 e várias vezes Ministro, o Comandante Carlos da Maia, o coronel de cavalaria Botelho de Vasconcellos e o Comandante Feitas da Silva juntam-lhes os seus nomes numa macabra lista que terá sido tudo menos obra do acaso, levantando desde o início sérias e preocupantes dúvidas quanto à sua origem.

Comovendo a sociedade portuguesa de uma forma global, a “Noite Sangrenta”, como ficou conhecida, tomou assento durante algum tempo, quer nos jornais, quer nos tribunais durante o julgamento. Desde as campanhas públicas a favor dos familiares das vítimas até às mais díspares e inflamadas afirmações, a “Noite Sangrenta” marcou de forma profunda todos aqueles que viveram nesse tempo. Após os funerais e os traumas, todos se empenharam no apuramento das responsabilidades dos trágicos acontecimentos daquela noite de má memória. Em circunstâncias pouco usuais, o Tribunal Militar de Sta. Clara será palco para o julgamento presidido por um tribunal misto, civil e militar. Para além de um júri composto por cinco oficiais generais, o tribunal é presidido pelo General Camacho tendo como auditor o dr. Almeida Ribeiro e como Promotor de Justiça o General Carmona, mais tarde Presidente da República. Suspensa na imprensa da época a sociedade portuguesa vai seguindo atentamente o desenrolar dos acontecimentos.

   Precisamente por ser só quase nos jornais que se encontra concentrado o material de pesquisa histórica referente à “Noite Sangrenta”, o único personagem ficcional que integra o filme desde o princípio é um jornalista. Desde o golpe de estado que ele acompanhará a evolução dos acontecimentos. As suas dúvidas e os seus raciocínios estabelecem a ligação entre o entendimento do espectador e o desenrolar da acção.

 

II

   O processo terá vários julgamentos, sendo apenas dois exclusivamente referentes à “Noite Sangrenta”. Num serão julgados os oficiais revolucionários responsáveis pelos seus subordinados, bem como pela segurança e ordem nas ruas da cidade no decorrer do golpe de estado. Noutro, o grupo dos praças um oficial e dois sargentos, todos eles tripulantes da tragicamente famosa “Camionette Fantasma”, uma carrinha utilizada para transportar algumas das vítimas desde as suas residências até às execuções. Se no primeiro caso, por falta de provas, todos serão absolvidos, no segundo as penas aplicadas reflectem o reconhecimento da autoria material dos crimes.

   Desde sempre que no grupo de guardas e marinheiros que compunham a “equipa de extermínio” se destaca um líder. Trata-se do Cabo marinheiro Abel Olímpio, o “Dente de Ouro”, principal instigador e orientador das movimentações do grupo. Durante o julgamento negará todas as acusações em bora acabe por ser condenado a vários anos de prisão.

  

 

III

   Após o julgamento, Berta Maia, a viúva de uma das vítimas, o Comandante Carlos da Maia, não se satisfaz com a execução da justiça sobre o homem que lhe levou o marido de casa pela última vez. Convencida de que os crimes perpetrados com arrepiante minúcia na escolha das vítimas não foram obra apenas de um bando de marinheiros embriagados, a viúva perseguirá o “Dente de Ouro” no seu cativeiro em busca da verdade. Durante várias conversas entre os dois, já no ano de 1926, assassino e viúva da vítima estabelecem uma curiosa relação de remorso e persistência que é a o mesmo tempo um enorme combate entre a vontade de descobrir a verdade e a consciência do verdugo. Ao longo das sessões que se prolongarão entre Maio e Novembro de 1926, desgastado pela determinação da viúva o “Dente de Ouro” vacila e acaba por fazer importantes revelações a propósito dos acontecimentos em que tomou parte. Embora algumas delas já fossem conhecidas, outras houve que vêm a revelar uma elaborada conspiração preparada muito antes dos trágicos acontecimentos. A lista das vítimas a abater não só existia como era muito mais extensa, e só não foi cumprida porque muitos levaram a sério as ameaças de que foram alvo. A conspiração era maioritariamente de carácter monárquico, apadrinhada por um jornal lisboeta, por dois importantes capitalistas e por um padre que contratava os assassinos.

   Dos vários nomes referidos pelo “Dente de Ouro” à viúva de Carlos da Maia nenhum foi importunado. A sociedade portuguesa estava satisfeita com a sua prestação de justiça e não admitia que factos novos tivessem a relevância suficiente para reabrir os inquéritos. A cronologia histórica também não é favorável. As conversas entre a viúva e o assassino do seu marido começam no mês em que ocorre a revolução que pôs termo à República e dará origem ao estabelecimento de um regime autoritário de ditadura que irá durar até aos anos 70.

   Nas suas memórias Berta Maia escreveu:

 

  “Não, o Abel Olímpio foi apenas um instrumento! Ele não foi o criminoso. Infinitamente piores do que ele foram esses que o aliciaram, que lhe deram dinheiro, que o incitaram à matança e que o abandonaram num cárcere.

   Falo para Deus e para o meu filho que um dia saberá compreender quanto fiz para esclarecer a razão da morte do meu sacrificado marido, mas estou certa que muitos corações imaculados de ódio – que ainda os há, felizmente na nossa terra – saberão sentir a razão de ser suprema destas páginas que, mais do que um protesto, são um desabafo.”

 

   Talvez por razões de pudor histórico a “Noite Sangrenta” tem sido sistematicamente evitada ou superficialmente abordada nos compêndios de História. No entanto o seu estudo revela-se de uma importância acutilante se quisermos perceber o fim do regime republicano democrático e a instauração do regime totalitário que se lhe seguiu.

   Conspiração monárquica vingativa integrada por um jornal lisboeta dirigido por um padre suspeito, aristocratas e capitalistas, ajuste de contas antigas entre elementos republicanos resultante de combates entre linhas adversárias da própria Maçonaria, a “Noite Sangrenta” foi antes de mais o último golpe mortal que lançou o descrédito total sobre um regime que se aproximava a passos largos do seu fim.

   Ao pretender representar este trágico episódio da história portuguesa do princípio do século XX, presta-se justa homenagem àqueles que foram prematuramente varridos pelos ventos da História, bem como à coragem de uma mulher que contra tudo lutou para saber quem foram os mandantes da sua desgraça.

 

 

segunda-feira, 18 de outubro de 2021

A MORTE É A CURVA DA ESTRADA


A morte é a curva da estrada,

Morrer é só não ser visto.

Se escuto, eu te oiço a passada

Existir como eu existo.

A terra é feita de céu.

A mentira não tem ninho.

Nunca ninguém se perdeu.

Tudo é verdade e caminho.

23-5-1932

Fernando Pessoa

sábado, 16 de outubro de 2021

A DANÇA DO CAOS

 

 

 

Enquanto o caos vai tomando conta da decoração dos dias vou tentando aproveitar o tempo, ter espaço para respirar e viajar para dentro de mim. A situação já não é nova (nunca foi) só que desta vez tenho a possibilidade do isolamento como um nadador veterano que já não sente tão forte a necessidade de mergulhar todos os dias no mar. Enquanto nada muda para melhor e tudo regressa em vagas sucessivas de falta de lógica e de destruição vou-me aproximando rapidamente do fim de um ciclo, o meu ciclo. E, sinceramente não tenho medo nenhum nem vontade de voltar atrás. Haveria ainda muito para viver ou aprender vivendo? Com certeza que sim, mas a viagem está sempre em movimento e as lições não se apresentam todas da mesma forma nem sequer ao mesmo tempo. A razão transformou-se num concurso de feira em que vende mais o comerciante que berrar mais alto. O Conhecimento foi transformado em apenas mais uma bugiganga que se questiona ou vende como qualquer mercadoria anónima.  As referências dissolveram-se, a mediocridade continua a sua marcha triunfal. Somos seres imperfeitos e muito confortáveis com a nossa imperfeição. Toda a nossa energia está concentrada nas mais primárias necessidades e na obsessiva e imediata satisfação do ego. Basicamente faço parte de uma espécie animal que destrói muito para lá daquilo que necessita, seja para se alimentar seja para o seu habitat. Uma pertença que não me dá qualquer motivo de orgulho e que me cansa cada vez mais.  Dias houve em que conseguia lidar bem com isso. Dias houve em que condescendia sempre na esperança de dias diferentes, na escolha de alternativas. Dias houve em que me remetia ao silêncio ou à concordância por omissão. Hoje acabou-se essa tolerância. Não quero ver nem falar com ninguém para lá do estritamente necessário. Tenho livros que cheguem para passar o tempo, tenho música, tenho filmes. Quando me apagar tudo isto ficará por aqui na mesma que sempre foi. Pessoas, planeta, animais, plantas, caos, destruição, reconstrução, esperança, degradação e caos outra vez.

Todos querem saber de si e ninguém quer saber de nada. A banalidade do mal, a irracionalidade da condição humana que só se consegue corrigir (ainda que de forma temporária) à força de morte e destruição. Este movimento permanente de extermínio da espécie sobre si própria que nunca enfraquece, este asilo de loucos orientados por lógicas absurdas, esta demolição permanente de se poder viver com qualidade e equilíbrio.

Um índio perdido na noite executa a dança da chuva em frente a uma fogueira, uma velha de costas curvadas carrega através da neve um molho de lenha para se poder aquecer, uma criança desenha a figura da mãe a giz no chão num orfanato para poder dormir ao pé dela. E a corrida de nós todos contínua, sem parar a caminho de lado nenhum, sem tempo para reflectir, sem olhos para ver, sem mãos a medir. O caminho desenfreado do ciclo de cada um a caminho do fim e a ausência de razão num inferno permanente.

Um índio perdido na noite executa a dança da chuva, um homem isolado escreve desenfreado as insónias que o assombram e depois é Natal, e depois mete-se o Verão. E vai e volta, vai e volta até ser fim.

 

Artur

quinta-feira, 7 de outubro de 2021

INACTUAIS - NUNCA, PARA SEMPRE !

 Em 1945, depois de ter conduzido o Reino Unido através da hecatombe da II Guerra Mundial, Churchill perdeu as eleições legislativas. O povo, farto da inenarrável miséria em que viveu desde a era da Revolução Industrial, decidiu que era altura de testar a mudança, de procurar novas formas de governo, que os trabalhistas prometiam e cumpriram: puseram em marcha a construção do estado social que haveria de erradicar a miséria até à chegada ao governo de Margaret Thatcher. Como se costuma dizer, o povo foi sábio. Sobre esse período, veja-se o magnífico filme "O Espírito de 45" de Ken Loach, para se perceber em toda a plenitude as condições materiais de miséria e de exploração e o sentimento que levou a essa escolha.
A propósito, Ken Loach foi recentemente expulso do Partido Trabalhista; estava demasiado alinhado à esquerda...
Em 2021, Fernando Medina perdeu as eleições para a Câmara Municipal de Lisboa. As razões para tal são demasiado complexas para a minha capacidade de análise e, quiçá, inescrutáveis. Pergunta-se: "qual a relação entre os dois fenómenos ( o de 1945 e o de 2021) ?". À excepção da escala e da sua importância relativa, têm em comum a virtude "heróica" da democracia, ou seja a capacidade de o povo decidir pela mudança, optar por alternativas, alterar o rumo dos acontecimentos.
O fenómeno de 45 - que os sectores conservadores alcunharam de "ingratidão", "perfídia", etc - representou uma mudança estrutural de proporções gigantescas, capaz de alterar profundamente as condições de vida de uma população que vinha a ser esmagada pela primeira fase do capitalismo predador e implacável. Levou décadas a mudar, mas mudou.
O fenómeno de 2021, insisto, ainda por explicar, conduzirá a alterações para pior. Dir-se-á que é cedo para tais vaticínios. Certamente. Mas a personalidade que encarna a "mudança", o seu cadastro, não augura nada de bom. Muito pelo contrário.
Moedas é um tecnocrata frio e um tecnocrata ambicioso e é uma banalidade dizê-lo, embora a reputação de que goza a banalidade seja por vezes injusta: a ele Lisboa não interessa nada; é apenas um trampolim para vir a ser chefe do gang PSD e a seguir primeiro-ministro. E ser chefe do governo tem um único propósito: concluir o projecto de transformar o país à medida dos desígnios do seu patrão (o coelho) que, por sua vez, cumpria os desígnios que os seus patrões lhe encomendaram: um país mais desigual, sem direitos (a não ser para os grandes agentes económicos), sem esperança e sem futuro.
Eduardo Lourenço avisou durante décadas, em numerosos ensaios, que o nosso ser (o ser português) é feito de esquecimento (a não-inscrição no dizer de José Gil). Esquecemos tudo, sobretudo aquilo que é importante. Somos feitos de pó, pedras e farrapos de tecido, também eles nos avisaram. Mas quem é que liga aos filósofos ? Eles não "postam" no Facebook, no Twiter ou no Instagram, portanto, nada do que dizem tem importância e os seus diagnósticos carecem do encanto de uma língua feita à podoa e do brilho das inanidades, parvoíces e imbecilidades de que a nossa contemporaneidade se compõe.
O povo de Lisboa, fazendo jus à nossa natureza, esqueceu e trocou um homem bom, honesto e com uma visão da cidade por essa amostra de político criado em laboratório, cheio de ideias (nenhuma elas boa). Esqueceu tudo o que Medina fez por Lisboa, tornando-a uma cidade mais funcional, amigável e bela, descontando os erros que são a marca de todo o empreendimento humano; isentos de erros só os ungidos de Deus, estes iluminados que se julgam modernos e que não passam de cadáveres reciclados.
O povo de Lisboa esqueceu, decidiu e mudou. Está servido.

quinta-feira, 23 de setembro de 2021

#5 Considerações: Cul-de-Sac

 13. 

A solidão ante o fim, a desventura, a inevitável decadência também oprimem, são horizonte férreo, inelutável. É curta e pequena a consciência que o sabe — que muitos também chamam de espírito ou de alma — sabendo ainda que nada pode fazer, excepto talvez procurar e encontrar uma resignação funda, tão funda que nada a perturbará, finalmente imune ao que é torpe e inútil e aziago assim como é indiferente a tudo o mais. E se disso se exuda alguma paz tal é precioso e frágil, mas permanente se houver firmeza e propósito. Não querer é a chave, não sentir é um bálsamo, não fugir é o bem. 

14. 
Por isto, por tudo isto o desânimo como condição vital sabe instalar-se, também ele insidioso e daninho, tenaz. É força e poder manso que pouco a pouco vai encerrando o horizonte da possibilidade, toldado óculo sem amplitude por onde se verá um mundo-pouco, apequenado e, porventura, distorcido. É alma sem carne, ou carne sem alma, mas de muito peso. Irmão e talvez pai do letargo, do imobilismo funesto, da vontade inane de fuga. Quisera ser lavado disso, talvez, inaugurar um tempo novo, das vistas largas e não já cerradas e torpes e esbatidas. Sim, um hausto feroz e fresco, uma liberdade toda outra, uma pulsão para o mundo e não este cansaço que é só torpor e desistência. Desistir da abdicação, avançar sem medo, responder ao pavor de existir com a serena força de um entusiasmo, quiçá, perdido sabe-se lá onde ou então pela erosão quotidiana e pelos traumas que toda a biografia vai acumulando pelo mau uso que lhe dá o tempo. 

15. 
Assim, este livro é feito da conjugação de todas essas forças, da obsessão centrípeta, da queda inerte, por vezes lenta, por vezes rápida, rapidíssima, um momento perene que se fixa pela persistência do trauma. E também no amor abunda o mau juízo, a impossível subjectividade, o que na vida é frustre, a terrível dimensão do não acontecido.

quarta-feira, 22 de setembro de 2021

#4 Considerações: Cul-de-Sac

 10. 

Por isso, aqui vos digo que há que resistir e lutar, fazer arte da vida, que é esse combate. É que a raiz de todo o mal é o desespero. Em primeiro lugar, o desespero de ser. Em segundo, o de padecer, e em terceiro, o de aguardar tudo o que é nefasto e pesado de malogro e que encerra a luz em um espaço diminuto onde se nem consegue respirar. 

11. 
Mas, ainda, há o letargo. Outro modo da desistência ante tudo o que oprime. É bem verdade, que o cansaço sobrevém a tanta luta, é na altura em que se baixam os braços, se descrê no futuro, tudo é um horizonte gris perante tal malogro, a aprazada queda, a inutilidade de agir. Não se tiram nunca férias da existência. Há que porfiar mais um dia, sempre mais um dia, sem uma suspensão agregadora de forças, pausa lustral, ou sequer um corte com a circunstância. É um fluido contínuo, ainda que cíclico, sem nenhuma possibilidade de obter uma verdadeira perspectiva, externa ao si, em suspensão benéfica, imobilista. Sim, o Santo Imobilismo também é ou pode ser isso. É o seu lado salutar e bom, ultrapassado o evitamento sistemático gerado pelo medo, é um imobilismo produtivo, mas como deveis calcular, improvável ou até impossível. 
 
12. 
A angústia é mesmo um aperto. Invade o espaço vital. Torna-se totalitária. Contínua. Coisa outra, toda outra, seria um hausto livre, entusiasmo e ar aberto. Um conceito vivido de radical abertura. Sim, sem peso e pavor e ainda assim, com a âncora telúrica a emprestar densidade ao mundo visto pela lente onírica da possibilidade. Não mais esse abatimento falho de energia, um letargo absoluto que vê passar o tempo como de longe e que, depois, se questiona para onde foi. E o tempo é rio-de-sentido-único, não se repete e não volta, não se acelera nem se sustém a não ser pelas variações subjectivas da sua observação. E esta observação alheada fá-lo rapidíssimo e difuso ou, por vezes, suspenso, estagnado e muito triste. E, nem assim, lhe captamos a demora.

terça-feira, 21 de setembro de 2021

JOSÉ-AUGUSTO FRANÇA 1922-2021


 

Julgamos que a personalidade e a obra de José-Augusto França dispensam apresentações. No entanto, convirá relembrar alguns factos que, a vários títulos, permitem valorar e sublinhar a importância e a qualidade da reflexão de um dos ensaístas que, ombreando com Eduardo Lourenço, melhor e mais profundamente cartografou a modernidade e a contemporaneidade portuguesas. O facto de ser um “estrangeirado”[1] conferiu-lhe uma distância crítica em relação à realidade artística e social portuguesa que atribuiu às suas análises uma desapaixonada acuidade e construiu um ponto de vista relativamente descomprometido, na justa medida em que tal é possível, face à natureza e às determinações do objecto de estudo. Como veremos, em José-Augusto França há sempre uma tensão para, um intendere que coloca sempre em primeiro plano o seu intendum. A esse propósito, citamos a nota de Roland Barthes no relatório do júri que apreciou a tese L’Art Dans La Société Portugaise du XXe Siècle[2], apresentada em 1963 à École Pratique des Hautes Études (Paris) para a obtenção do diploma do curso de Sociologia da Arte:
«O autor deu um duplo objectivo ao seu trabalho: por um lado quis esclarecer as relações profundas da arte e da história política de Portugal desde o século XIX; e por outro examinar as reacções de um pequeno país aos principais movimentos da pintura europeia. Quanto às relações entre a arte a história, J.-A. França evitou sempre pôr em equação um conteúdo estético e um conteúdo histórico; preferiu confrontar ritmos, mostrando que os avanços do modernismo (futurismo ou surrealismo) corresponderam em cada caso, a uma crise das instituições. O autor aborda assim, de uma maneira concreta, dois problemas históricos importantes: o dos “períodos”, “durées” ou estruturas, e o dos “atrasos” de civilização.»
Menos conhecido será, talvez, o papel desempenhado por França na constituição, desenho e desenvolvimento da secção cinematográfica do JUBA (Jardim Universitário de Belas Artes). A esse propósito, remetemos o leitor para os números 16 e 21 desta rubrica Textos & Imagens, nos quais se explicita com algum pormenor a acção do ensaísta nessa organização e nas suas actividades.
À obra que hoje nos ocupa – Dez Anos de Cinema – não são estranhos, muito pelo contrário, as duas vertentes do labor multifacetado do autor (ensaio, romance, intervenção pública, etc.), nem os pontos de vista que desenvolveu no decurso da sua colaboração com o JUBA, como esperamos demonstrar ao longo deste texto.
A primeira nota a reter é o facto de França tender a considerar infrutíferas quaisquer tentativas de pensar a modernidade prescindindo do cinema, e tal tese é sustentada pelo período cronológico abrangido, constituído por textos publicados na revista Seara Nova entre 1949 e 1959, precisamente “quando o cinema começou a ser moderno”. Esta tendência é vincada pelo próprio autor na breve Introdução:
«Começados há dez anos, quando a crítica cinematográfica decente, em Portugal, quase se limitava a um nome, o de Roberto Nobre, terminam-se estes balanços agora, na altura em que parece estar a nascer uma nova crítica. Eles cobrem um período, por assim dizer intervalar, durante o qual se gerou e desenvolveu o movimento dos cineclubes e ao fim do qual despontou uma gente mais nova, de formação cineclubista e com interesses culturais, estéticos e sociológicos alargados, uma consciência crítica atenta aos valores da modernidade.» (pp. 7-8)
Ou seja, todo um programa contido num único parágrafo: por um lado, a consciência da pobreza (ou, talvez, da ingenuidade e desatenção) da crítica cinematográfica portuguesa, cujas lacunas estes modestamente designados «balanços» parecem destinados a colmatar; a percepção do limiar de uma nova era que corrigirá a anterior através da emergência de uma nova geração oriunda do cineclubismo (França confere aos cineclubes uma ímpar importância pedagógica e formativa); a noção da relação determinante do cinema com as dimensões estética, cultural e sociológica e, como já referimos, a inextricável valorização da arte cinematográfica na compreensão e interpretação da modernidade estética e sociológica.
 
[1] Doutoramento em Letras e Ciências Humanas pela Universidade de Paris-Sorbonne (tese Le Romantisme Au Portugal – Étude de Structures Socio-Culturelles), Doutoramento em História pela mesma Universidade (tese Une Ville des Lumières: la Lisbonne de Pombal, editada pela École des Hautes Études, diploma em Ciências Sociais-Sociologia da Arte pela École Pratique des hautes Études.
[2] A tese foi traduzida em português e publicada em 1978 pela editora Livros Horizonte, com o título A Arte e a Sociedade Portuguesa no Século XX.
A nível de estrutura, estes balanços – como França os designa, embora o seu carácter vá muito para além daquilo que como tal se costuma designar – são anuais e compreendem a evocação que nesse período temporal o impressionou positiva ou negativamente na produção nacional e internacional, enquadrando sempre as obras no contexto social, político e cultural em que foram produzidas e avaliando o seu  impacto na definição da modernidade nos termos que temos vindo a referir. Nesse sentido, a visão de França em relação ao panorama cinematográfico português, anterior ao chamado “cinema novo”, é amarga e pessimista, como se pode constatar na seguinte declaração:
«Cinema português, não. Perdido em problemas económicos e anedotas financeiras, ele tem aos ombros a tragédia da falta de gente que o realize. Que venha outra, nova, porque a que há (e exceptuando Manuel de Oliveira), de todo em todo não presta.» (p. 204)
Para compreender este diagnóstico, ou este retrato em tons negros da cinematografia nacional, é preciso ler de fio a pavio cada um dos «balanços» e verificar o modo exigente como o autor avalia em cada ano a produção portuguesa, a sua aflitiva indigência de meios económicos e expressivos, a falta de argumentos sólidos e a ausência de autores, sobretudo quando contrastada com as realidades europeia e norte-americana; uma tendência que é marca de água da sua metodologia analítica e que é expressa em termos definitivos na nota de Roland Barthes que acima reproduzimos. Como se compreende, França aplica ao cinema a mesma metodologia que emprega na avaliação da situação e evolução da arte portuguesa ao longo do século XX: sempre em relação de oposição ou tentativa de confluência com as suas congéneres de outras latitudes.
De qualquer modo,a sua finíssima intuição apresenta-lhe já o obrigatório e iminente surgimento de uma nova geração, de novas perspectivas, enfim, de autores capazes de iniciarem uma revolução no estado de coisas da nossa cinematografia. Como sabemos hoje, essa intuição foi certeira e realizou-se. Aliás, é no próprio devir do cinema que França encontra a sua maior virtude modernista; reconhecendo que todo o saber, independentemente do seu objecto, é sempre provisório, admite que a arte cinematográfica tem um significado sociológico imediato, comprometido e indomado, tornando-se assim um elemento fundamental da fenomenologia do século XX e remetendo para uma atenção constante a esse sociológico que atravessa todos estes «balanços»: o sociológico é aqui sociologia do espectador, patente na seguinte afirmação:
«Feito para o público “que tem sempre razão” pelo que quer e pelo que necessita, ele cria-lhe os desejos e as necessidades. Elemento número um de uma mito-sociologia actual, o cinema rodeia-nos invisivelmente, explica-nos o mundo, enche-nos o sonhar colectivo, espreita-nos e fabrica-nos.» (p. 194)
Outra característica determinante no pensamento do autor no que diz respeito à década cinematográfica que analisa, é a constatação de que o cinema, pela primeira vez, se incorpora num movimento universal de expressão, podendo agora intervir, actuar para além dos limites que absurdamente lhe foram impostos e das proposições que lhe foram atribuídas. Tal movimento de expressão universal é por ele fulgurantemente definido nestes termos:
«No romance que se diria pós-faulkeriano (e pós-becketeano, desde já), no teatro de novas vias de conhecimento, e de proposição de uma nova consciência, de Beckett, de Adamov, de Ionesco e de Sheadé, na poesia, depois de Ezra Pound, na pintura de um Bazaine, de uma Vieira da Silva, de um Bissière, de um De Staël, em correntes da música e do ballet contemporâneos, novas estruturas psicológicas estão a traduzir-se, efabulativamente ou não, na criação de um espaço e de um tempo ambíguos – que a ciência física e a filosofia verificam.»[1]
Ou seja, França pensa a modernidade cinematográfica também pela via do fim de um desligamento do cinema pela problemática estética geral e pela adesão total aos valores da vida (valores viventes). E, ainda, pela exigência e interrogação. Se, como alguém disse, a crise é a tónica e a característica determinante da modernidade, toda a crise é, para além do pessimismo e do optimismo entorpecedores, criativa e fecunda. É este – julgamos nós – o maior dos ensinamentos destes escritos que, como todos os grandes textos da contemporaneidade, assumem plenamente o estatuto provisório do saber que procuram alcançar e comunicar. Para finalizar, não resistimos a reproduzir, como corolário, aquilo que Hervé Bazin afirmou a propósito da obra Charles Chaplin – Le Self-Made Myth[2]:
«Voici un travail critique capital auquel on ne pourra désormais manquer de se référer. Ses 250 pages de réflexions méthodiques sur le mystère chaplinesque constituent sans doute l’effort critique le plus poussé et le plus complet sur le phénomène Chaplin considéré dans sa signification éthique et sociologique.»[3]
 
Arnaldo Mesquita
 
José-Augusto França, Dez anos de cinema. Lisboa, Sequência, [s.d.], 218 p.
Tipologia documental: livro
Cota: 70
 
[1][1] José-Augusto França, Oito Ensaios Sobre Arte Contemporânea. Mem Martins, Publicações Europa-América, 1967, p. 198.
[2] Publicado em Portugal pela editora Livros Horizonte, sob o título Charles Chaplin, O “Self-made-Myth”. Também disponível para consulta na Biblioteca.
[3] «Eis aqui um trabalho crítico fundamental ao qual não poderemos futuramente deixar de nos referir. As suas 250 páginas de reflexões metódicas sobre o mistério chaplinesco constituem sem dúvida o esforço crítico levado mais longe e mais completo sobre o fenómeno Chaplin no seu significado ético e sociológico.». Citado na introdução ao texto O Cinema Italiano e Eu, publicado na revista Estudos Italianos Em Portugal, Lisboa, Instituto Italiano de Cultura de Lisboa, Nova Série, número 11.



PUBLICADO ORIGINALMENTE EM MAIO NA PÁGINA WEB DA CINEMATECA PORTUGUESA E REPUBLICADO EM SETEMBRO COMO FORMA DE HOMENAGEM A JOSÉ-AUGUSTO FRANÇA:

segunda-feira, 20 de setembro de 2021

PESCADOR DE INSTANTES

 



 Saio a horas desencontradas e percorro as ruas da cidade. Umas vezes tropeço nas sombras, outras fico especado perante a avalanche de movimento e ruído em determinados locais. A câmara do telemóvel vai sempre ligada até acabar a bateria. No regresso já em casa, selecciono aquilo que julgo aproveitável. Há no entanto em tudo isto uma estranha sensação distanciada de estar a registar uma realidade da qual já não faço parte. Antigamente saíamos oito, dez, quinze pessoas e uma câmara de vídeo, passávamos uma noite inteira nas docas com um carro alugado e uma autorização num papel oficial para poder filmar…e no fim tínhamos um documentário, uma curta, um clip de uma banda. Hoje saio eu sozinho com um telemóvel e chego ao fim e não tenho nada além de um tremendo vazio. Há emoções, há comédia e drama mas falta sempre qualquer coisa. Há edifícios antigos e humanoides saídos das rábulas mais imaginativas; há luzes e sombras que bailam entre si como sempre houve; há gajos que sorriem para a objectiva ou que lhe mostram o dedo do meio; há solidão, há muitos a falar sozinhos… mas falta sempre qualquer coisa. Acho que falta força, intensidade, esperança. Acho que falta Vida essencialmente. Não por considerar morto este tempo mas talvez por me ter matado a mim. Ligo a alguém de vez em quando. Alguém que filmou comigo.

 

Vi este cenário na Baixa Pombalina e lembrei-me daquela vez em que pusemos o Pesssoa a cambalear a caminho de casa a chamar o Ricardo Reis. Devias ter visto. Um gajo de oculinhos e gabardina coçada aos tombos.

 

Ou ligo a outra

 

Estou na Rua onde fizemos aquele clip com a chuva artificial da mangueira dos bombeiros. O quartel já não existe. Lembras-te da seca que foi segurar aquela mangueira e regar o casal de namorados para fazer crer que era chuva?

 

Às vezes lembram-se, outras limitam-se a esconder-se naquela expressão

 

É pá…isso já foi há tanto tempo…

 

Cumprimento um bêbado a caminho de casa, contemplo a árvore de Natal das luzes da cidade sobre o rio, faço o reconhecimento de novos espaços que nunca conheci apesar de viver nesta cidade desde que nasci. Volto para casa.

Lembramo-nos todos de muita coisa, ou de coisa nenhuma, a vontade de voltar a fazer foi ficando cada vez mais pequena, o tempo encolheu e deixou-nos no seu lugar um sujeito macambúzio sem expressão, um substituto sonolento e mandrião. Sobram as imagens e os sons, sobram os ângulos da cidade, sobra tanta coisa e não se consegue aproveitar nada.

Ponho as imagens a correr e vou selecionando como um funcionário diligente em frente a uma pilha de documentos. As paisagens, as caras, os sons, está tudo muito bem mas falta qualquer coisa. A ideia de documentário a surgir e a afogar-se num mar de gente adormecida, cabeça caída sobre as redes. Os textos sobrevivem às cinco primeiras linhas, as imagens têm cinco minutos de atenção. E as cabeças saltam de imediato para o texto seguinte, para o filme que se segue. Sons e imagens rodam no teclado como papel higiénico no pendurador. Rasga, limpa, deita fora, e volta tudo a rolar, rasga, limpa, deita fora. Não há paragens, não há silêncios, mas apenas um frenesim eterno e inconsequente que não consegue reter nada. Um míssil disparado que não pára, não regista nem consegue comunicar.

Volto às imagens na tentativa de construir alguma coisa com elas. Tal como com as palavras. Mas falta sempre qualquer coisa. Naquele rosto, naquela paisagem, naquele movimento. Sento-me para trás e não consigo afastar-me, não consigo deixar de tentar juntar “qualquer coisa em forma de assim”, como dizia o O’Neil.

Não são as imagens que não têm vida…É a vida que se vai esgotando dentro de mim…

 

Artur


#3 Considerações: Cul-de-Sac

 7. 

Sim, escrever é inscrever-se, agir pela consubsatanciação da intenção em acto, mesmo que possa parecer encerrado, para sempre, no plano teórico. Mas, o que é agir senão sair, para fora, para o mundo, da casa natural da nossa intimidade? Se se age por acções ou pela descrição delas é, porventura, indiferente, no sentido em que ambas vão tocar a realidade, transformando-a. 

8.
São plúrimos, na vida, os modos de aperto, de aflição. A começar pelas condições civilizacionais contemporâneas e terminando nessa desorientação íntima, por nós criada a contragosto, mas com tão perene força que se diria que é mais um constrangimento externo do que um desassossego interior. De permeio, existem aquelas condições universais do malogro que originaram religiões, filososofias e seitas. É uma opressão que acompanha a consciência enquanto tal, pois a evidência da sua finitude e da sua iminente fragilidade dói e magoa, assusta e não dá paz. Nem adianta pensar que isso é conatural ao pensamento, que é de todos os tempos e de alcance total. Cada um sofre por si e o sofrimento expande-o no sentido em que a morte anulará, do ponto de vista subjectivo, o próprio cosmo. Talvez haja uma sobrevivência qualquer, mas isso não é mais do que esperança vaga, difusa. Aqui temos já o que é palpável, depois logo se vê. Enquanto isso há que viver e sofrer e procurar um módico de tranquilidade, um inconstante equilíbrio entre a certeza da corrupção e as forças anímicas que tentam alcançar a renovação possível no ciclo caleidoscópico dos dias que se sucedem, sem um momento de pausa, uma dilação onde se respire e haja o ensejo de pensar, a um nível profundo, na miríade de escolhas ou tão só que permita fixar a atenção nos fugidios momentos que passam para lhes fixar, deveras, a essência. 

9.
O ânimo vital é tudo. Só ele permite combater as potências da decadência e da corrupção, afinal, ínsitas à existência. De outro modo será caminho sem saída, subjugação ao peso do quotidiano e à delapidação do tempo, que soe erodir como ele só, daninho e cruel, persistente e insidioso, paciente e tenaz. É fúria mansa essa do tempo, Cronos a devorar os próprios filhos e ninguém é Zeus para escapar ao repasto.

domingo, 19 de setembro de 2021

#2 Considerações: Cul-de-Sac

4.

Tudo isto parecem generalidades a propósito de um livro, mas se tudo é vago, na vida, por que não deveria ser vago, na literatura? Estamos sempre envolvidos em sensações difusas, um supor emocional que não dá paz nem sossego, nem sequer, amiúde, confiança em um tempo melhor, excepto por esse optimismo doido dos sonhadores que acredita sem provas, que arquitecta planos sem evidências, que é teimoso em não aceitar a derrota quando, pela razão, já nada há a fazer. É um fervor de felicidade suposta e lânguida que existe apenas na imaginação e é vivida apenas nela, triste e leda condição virtual que tem o dom de ocupar a vida sem que esta seja vivida. Ainda assim, pretende-se que a escrita seja reacção lúcida a tais devaneios, modo quase telúrico de procurar um caminho, vertendo em palavras o queixume da vida fruste, não entendendo, porém, que esse esforço lúcido é de um realismo paradoxal -- ao entender o sonho cristalizamo-nos na crítica desperta aos estados de imaginosa fuga não vendo, então, que isso é também alienação nossa.


5. 
Sobre a questão há, ainda, algo a dizer. É poético, é plenamente poético, o que que é fora-do-mundo, e a prosa deste livro é poética porque não há nele verdade, mas devaneio. Catarse pelo delírio, tratando-se os males do irrealismo com outro modo de o ser que é esta escrita. Mas que contém, talvez, alguma eficácia confessional ainda que suposta. 

6. 
Pois bem, dizer é já um modo de ser. Ténue acção, é verdade, mas quem tropeça nessa modalidade comum de vida prática encontra na comunicação disso não só um bálsamo para a inevitável melancolia que daí advém, como uma solução suposta para a sua inscrição no mundo.

sábado, 18 de setembro de 2021

#1 Considerações: Cul-de-Sac


 1. 

As declinações dessa opressão vital que acomete o vivente. Ser é estar cerrado na existência. E se isso dói, há que encontrar uma catarse qualquer. E essa bem pode ser a escrita nas suas variações infinitas, na capacidade de declarar o que é subtil, mas também o que é complexo, condições fundamentais para a exploração intrapsíquica dessa tal angústia ou aperto essencial. 

2. 
Poderia ser diferente? A vida usada levemente sem o peso esmagador da simples condição de ser? Em raros momentos ou em raras pessoas, talvez. Porém, no geral e comum, a angústia é o plano do real, eixo de densidade onde, parece, nos afundamos. E na fugacidade do desejo não há solo nem qualquer chão, tudo é fluido e se torna distante e nem se consegue agarrar o que é amado nem sequer a própria vida, desperdiçada em errâncias e nos labirintos que nós próprios engendramos. 

3.
Disto, liberta-se um fantasma de tristeza e melancolia que nos comeria vivos se não houvesse reacção ao fenómeno. E é difícil esse combate porque é insidioso o desânimo e, assim, há uma resistência natural às melhores intenções de liberdade e vida plena, ou tão-só de um melhoramento suave das suas condições anímicas. De resto, também as circunstâncias exteriores são obstáculo perene, dificuldades previstas ou imprevistas que nada acrescentam, mas existem com a resistência tenaz da realidade, embora sejam tão contextuais que, passado pouco tempo, se não entende já porque foram.

segunda-feira, 16 de agosto de 2021

O SER ESDRÚXULO

 


Décimo quinto dia do oitavo mês de dois mil e vinte e um. Dizem que a meio da oração, neste dia, apareceu Santa Maria, exatamente a ilha onde estou agora, a ilha de Gonçalo Velho Cabral, mais coisa menos coisa, meu décimo quinto tio avô. O que é que isto diz senão o chamado da raíz? Quando me perguntam que raio estou aqui a fazer, eu respondo que estou. Estar é das coisas mais difíceis de ser. Ser, e ser verdadeira, é um lugar muito esdrúxulo para se estar, sobretudo quando nos olhamos de fora, mas nunca quando olhamos para fora. Há pouco tempo perguntaram-me como é que eu conseguia viver numa caravana ou numa casa em reconstrução, conhecendo tanto mundo, de dentro de tanto hotel de cinco estrelas.


Respondi que por isso mesmo, que quando estamos no lugar certo pode ser qualquer um, desde que em paz connosco e com os nossos. É como quando se fala de amor, tanto pode ser príncipe como pescador. E o amor soma-se ou divide-se? O amor acrescenta sem contas nenhumas. Se não acrescentar deixa de usar esse nome e passa a todos os diminutivos.



Ser verdadeira é ser livre, só ou acompanhada, ser a assunção de nós próprias, a aceitação das nossas forças e fraquezas, sabendo que às últimas temos a capacidade de as converter em mais força. É preciso cortar o cordão umbilical da culpa com que nos arrastaram durante séculos pelos recantos do planeta. E ser esdrúxula com convicção.


Elsa Bettencourt

domingo, 1 de agosto de 2021

CONTANDO FEIJÕES

 



Trigésimo primeiro dia do sétimo mês de dois mil e vinte um. Hoje é o dia do meu pai Leão. O dia em que cumpre as noventa e três voltas ao sol. Há quase vinte anos que o seu corpo não o faz mas enquanto houver memória o seu espírito as cumprirá. Eu sei que o tempo não conta mas eu conto. Conto estórias. Conto feijões. Conto como gente e como animal. Na realidade conto pouco, matemáticamente falando. Se contasse ficava louca. Se contasse as perdas até ficava rouca. A essas ponho-as na barra olímpica que já pesa nove quilos e ganho músculo. Nós é que contamos, sabias? O mal que fazemos dilui-se nas águas do bem do tempo. É por isso que à distância parecemos quase santos sem ordem papal. Na realidade não há mal se não for capital. Há circunstâncias que transformam os acontecimentos conforme a química de cada um e a física de cada encontro.
Sem ti eu não existiria, sem mim tu também não. Vamos dar uma volta ao Cais ou a Santo Antão?

quarta-feira, 28 de julho de 2021

DORMÊNCIAS E FINS DE TARDE

 



Há uma dormência estranha que se instala pela casa dentro, entra pelas frestas das janelas e por baixo da porta como uma neblina persistente. Vai arrefecendo vontades, anulando energias, desligando esperanças. Pouco a pouco aumenta a indecisão das formas e os móveis vão-se dissipando numa mancha quase uniforme de fumo e humidade tornando tudo cada vez mais indiferente. As sombras dançam sem se deterem no mesmo lugar. A dança da chuva, a dança dos solstícios, da vida e da morte. E nada parece querer sair do vazio onde nunca esteve, onde nunca existiu. O abismo de nada ser, nada querer, a vontade de mergulhar um poço sem fundo e a mistura definitiva com o universo. Sem penas nem mágoas, apenas a vontade de voltar a qualquer coisa, um lugar onde as pressas andam devagar e as obrigações são facultativas. A  tarde vai caindo lentamente, em breve será noite, em breve será o nada feito de estrelas e ruídos escondidos, indecifráveis.  Já se faz tarde para fazer balanços, juízos de valor, escolher épocas melhores ou piores. A casa enche-se dessa neblina que, sem nada definir nos devolve esta sensação de absoluto. Como se tudo o que foi fosse exactamente aquilo que deveria ter sido. E um barco velho de madeira no recanto habitual, escondido pelas canas e pelo nevoeiro diz-nos :Olá. Como um velho amigo de muitos anos, companheiro de esforço e derivas na corrente. Entremos então, ajeitemos os remos na sua posição de navegar e com um empurrão seco instalemo-nos no rio sem pressa sob a luz do luar. A todos os que amei deixo o meu amor convosco, a minha lembrança tímida das alegrias e tristezas partilhadas. A todos os buracos onde caí o meu mais sincero agradecimento pelo que aprendi com eles. Não há aqui nenhum drama nem nenhuma tristeza, apenas um cansaço extremo de quem por vezes consegue sintonizar a sua existência com a do universo. E nesses momentos que somos muito mais que simples linhas de tempo, muito mais que microscópicos seres que respiram e amam e odeiam e lutam para se continuar a sentir vivos, somos coisa nenhuma com decorações de eternidade. Tudo acaba e desaparece e não há drama nenhum nisso. Nem as imagens, nem a música, nem os livros, nem os quadros, nada fica cá nem sequer as memórias. E depois? A maior parte das nossas tristezas e sofrimentos vem precisamente de contrariarmos essa lei única e absoluta. Daqui a cem anos não estará cá nada de nós, nem sequer as memórias. O que talvez possa ficar a pairar por aí é uma espécie de brisa onde se escondem ideias ou sentimentos que, eventualmente, poderão aterrar na cabeça de alguém e voltar a existir. Por isso quando a bruma insistente nos começa a invadir a casa ao fim da tarde é tempo de partir e encontrar o barco velho de madeira que nos levará pelo rio fora, para um lado ou para o outro ao sabor da corrente. Ou aceitar quando o barco nos vem buscar escondidos num recanto da vida e nos estende amavelmente os remos

 

  Temos que ir andando

 

E vamos, devagarinho porque não há pressa nenhuma, rio acima até à nascente, ou rio abaixo a caminho do mar.

 

Artur

segunda-feira, 12 de julho de 2021

ENTRE SAUDADES

 

Décimo primeiro do sétimo mês de dois mil e vinte um. Tenho saudades tuas.
Tantas que gasto a câmara e o som desta manigância do diacho.
Tinha saudades das minhas gatas. Tantas que as fui buscar numa semana e voltei mais depressa do que fui.
Tantas saudades do que seremos daqui a nada, do que somos juntos a cada instante.
Nos intervalos da chuva sento-me a escrevinhar e a debruar o papel com florzinhas e corações.
- Elsa, já tens idade para ser mais cínica! Diz-me a voz a que nunca prestei atenção. Nunca fui dada a cinismos senão quando acometida por gasturas do fígado que certos humanos me provocam.
A Gaya já me virou o iPad da mesa das orquídeas brancas. E claro que caiu de vidro virado para baixo com as devidas consequências. Milagre! Ainda dá para escrever!
E eu continuo com saudades dela, mesmo com ela ao meu lado a desafiar o Lucky que se vai aproximando. A Lua vai mais devagar e rosna como uma pantera debaixo da cama ou de cima do armário.
Tantas saudades que eu não tinha dos prédios, do ar seco, dos sorrisos tensos e dos aviões. Compensam os filhos e amigas chegadas, os vizinhos e os sorrisos atrás das máscaras.
Tenho tantas saudades minhas quando não estou contigo. Falo mansinho e de rijo, sorrio até à gargalhada a pensar no dia da tua chegada.
Já se abriram as janelas de mais de metade das casas. As ruas estão povoadas com habitantes que já foram como eu, aqueles que esperam que um dia seja de vez. É num instante, basta contar até três!
O correio ainda não chegou, o fuso horário diz-me que ele ainda não acordou. Eu aguardo, sem aguardar nem desesperar. Não é possível o desespero quando se está onde se quer. No meio do mar, no meio do verde, com as daninhas agarradas às pernas e aos vestidos comprados nos saldos e na feira da Salvaterra. Forro gavetas com óleos citricos e papéis cheios de jardins lá dentro. Gasto mais solas do que gasolina, mais dedos do que palavras.
Tenho tantas saudades tuas que dou por mim no cais à espera do recorte dum barco no horizonte. Depois arranco para o Terminal só para ver as chegadas e emocionar-me com os abraços dos outros. São como aqueles que dei aos filhos e amigas que não via há tanto tempo, cheios de lágrimas e de esperança, cheios de tudo o que não nos permitimos sentir nestes tempos pandémicos e loucos.
Volto à mata, ao bosque de poemas, pelo portão do coração e permito-me espalhar as saudades pela terra vermelha, com a certeza de que um dia breve serão as plantas mais bonitas deste lugar reconstruído com tanto amor e paciência.
Elsa Bettencourt

domingo, 4 de julho de 2021

EU E AS BIOGRAFIAS

 

Tive sempre com as biografias uma relação difícil ao longo da vida. Primeiro porque reflectem obrigatoriamente um ponto de vista deixando de fora parcelas importantes da realidade retratada (ou por informação incompleta, ou por serem supervisionadas pelos próprios ainda em vida, ou por simples incompetência dos biógrafos), e em segundo lugar porque destapam buracos mais negros que , não interessando a ninguém, acabam por minimizar ou destruír imagens construídas de referência existencial que muitos deixarão de seguir. Um dia pegamos num título de um autor, ficamos amigos dele, e em pouco tempo já lemos uma obra inteira com a satisfação de o ter como exemplo a seguir. Mas o que acontece na maioria das vezes é que entre as obras e as vidas dos autores as coisas nunca se passam da mesma maneira. Lembro-me de um dia ter conhecido uma prima direita de um dos meus autores preferidos do séc. XX e de lhe transmitir essa mesma admiração. Uma conversa muito curta após o seu primeiro comentário :

 

- O meu primo? Esse tipo era um bêbado e um machista perverso sem respeito nenhum pelas mulheres…

 

Tendo feito recentemente uma excepção na minha aversão a biografias resolvi começar a ler uma. Apesar de já saber muita coisa ali retratada, houve outro tanto que preferia que tivesse ficado no anonimato. Um autor que era mitómano inveterado e que misturava a realidade com a ficção sem critério; outro que parecia um rebelde à prova de bala e que uma vez confrontado com a polícia política tentou safar a pele mentido acerca de um dos seus actos pelos quais havia sido detido; os movimentos estéticos e a sua permanente hegemonia de tentar ditar a lei sobre o que devia e não devia ser arte válida (uma alegoria ao desentendimento e desorganização entre as diversas facções de oposição política ao Estado Novo); os egos e as invejas, as relações de amizade e de família corrompidas ,etc, etc.

 

Dir-me-ão: Uma coisa é a obra do artista, outra coisa é o seu percurso enquanto pessoa. Não há nada de errado nessa frase desde que se estivesse a falar de vender imóveis ou sabonetes. De Literatura, não. E não porque a obra é obrigatoriamente um reflexo da vida e das circunstâncias do seu criador. Não se fabricou sozinha numa fábrica, não se construiu com fórmulas de exactidão matemática nem resultou de um qualquer expediente laboral. A obra ou a criação literária neste caso, nasce da necessidade de quem se sente muito mais do que uma identidade, um elemento isolado e que tem necessidade de registar o caminho dos outros, comunicar com eles, alcançar de alguma forma a consciência do colectivo.

 

A contrario do que disse no início desta crónica, houve um autor que sempre me recusei a ler por causa das suas opções políticas. O verdadeiro preconceito literário. Um dia finalmente li um dos seus melhores trabalhos e senti-me estúpido. O homem escrevia de forma divinal e retratava o ser humano com um realismo e uma crueza cristalina. Nessa altura pouco me importaram as suas escolhas políticas que o condenaram ao ostracismo  e comprometeram irremediavelmente a sua carreira literária. Pela sua verticalidade em não abandonar as suas crenças (que estão nos antípodas das minhas) até ao fim, mereceu o meu eterno respeito.

 

Na Literatura passa-se um pouco o que vamos lendo nas redes sociais (salvaguardadas, claro está, as devidas distâncias). Vidinhas bonitas, imaculadas, cheias de boas intenções, a maioria vende uma biografia que corresponderá não aquilo que serão na realidade mas àquilo que gostariam que as suas vidas fossem, sendo essa a que querem que o mundo leia. Em tudo isto consigo ler uma obsessão pela aceitação social associada a uma enorme dose de solidão e incompetência existencial.

 

Não consegui chegar a nenhuma conclusão definitiva com tudo isto. Não sei se voltarei a ler biografias ou se simplesmente me ficarei pela obra, isto é, o caderno existencial de intenções de cada um. Cada história que me encantar, cada enredo que me seduzir será uma voz de um amigo. Até aquele que reconheço como o meu Mestre nestas lides é um tipo insuportável cheio de si próprio que adora fazer citações e referir comportamentos de autores famosos para reforçar o seu discurso. A esse, se algum dia conseguisse falar com ele, dir-lhe-ia:

 

- Muito obrigado Mestre por tudo o que aprendi consigo, não pelo que me ensinou. Amo-o de forma incondicional mesmo sabendo que é um cagão vaidoso e um peneirento de merda…

 

 

Artur

domingo, 20 de junho de 2021

ANGOCHE (Os Fantasmas do Império)


 

 

 


 


 Carlos Vale Ferraz

 

Porto Editora, Maio de 2021

 

 

Confesso que li este livro sem parar, coisa que já não me acontecia há muito tempo. Da mesma maneira que os cemitérios estão cheios de heróis e pessoas saudáveis, os impérios fazem-se de atrocidades, sacrifícios e razões duvidosas. A glória, a superioridade moral e a lenda são os elementos usados para construír posteriormente a narrativa que os justifica. No meio correm existências, vidas de pessoas apanhadas no tempo que lhes foi concedido e que por sua vez actuam conforme as circunstâncias. As que se lhes apresentam e as que transportam na bagagem da sua personalidade. Mas vamos por partes.

A 23 de Abril de 1971 parte do porto de Nacala (Moçambique) um navio mercante português com destino a Porto Amélia (hoje, Pemba) levando consigo a tripulação e um civil num total de vinte e quatro ocupantes, além de um carregamento de material de guerra destinado ao exército português no Ultramar. No dia seguinte de madrugada, um petroleiro encontra esse mesmo navio, de seu nome "Angoche", à deriva, incendiado e sem ninguém a bordo. A PIDE/DGS abre um inquérito e ao longo do tempo vão-se acumulando várias versões. Os possíveis culpados vão-se alinhando sucessivamente embora sem provas. Mais tarde, depois do 25 de Abril, os relatórios da PIDE desaparecem. Se existiram testemunhas elas permanecem em silêncio adensando o mistério deste navio fantasma. É a partir daqui que Carlos Vale Ferraz (CVF) vai desenvolver um romance puramente ficcional cujas linhas narrativas acabarão por se cruzar a todo o instante com a realidade. Entre os serviços de informação, as operações clandestinas e mais uma série de protagonistas, debaixo de um cenário de guerra condicionado pelos subterrâneos da diplomacia e do xadrez internacional da região o romance abre-nos uma vasta paisagem de acções e intervenções em relação à quais as visitas ao rigor histórico não só são permanentes como se apresentam vestidas da sua roupagem ficcional nos momentos em que é difícil chegar à sua comprovação concreta. O mistério aprofunda-se ainda mais quando após várias viradas do processo histórico, por um lado não se consegue chegar a uma conclusão definitiva nem por outro ninguém ousou reclamar os louros dos acontecimentos. Ficam as memórias, os testemunhos e o silêncio. Um silêncio profundo, quase religioso, entre aqueles que poderiam ter alguma informação pertinente sobre o navio fantasma.

Mas "Angoche" é muito mais que uma passagem "wagneriana" nas páginas da nossa história colectiva, muito mais que um simples jogo de "passa-culpas" entre as forças existentes. Trata-se da materialização alegórica do fim de um ciclo protagonizado por personagens, ficcionais ou não, que são antes de mais o testemunho humano do fim do império.  Através do processo ficcional CVF vai construindo uma teia de silêncios que se adensa no comportamento dos seus personagens mas que ao mesmo tempo nos ajuda a interpretar não só aquele trágico evento como todo o cenário mais vasto de um mundo que acaba por ser engolido pelos ventos da História. Na sua fase inicial os impérios produzem heróis, mártires e génios de todo o tipo. Na sua fase final limitam-se a fabricar fantasmas, testemunhos pálidos de uma tragédia inevitável. E quer na primeira quer na última fase o grande conflito de cada um estabelece entre a moral e o egoísmo a contenda maior que os irá acompanhar até ao fim dos seus dias.

O romance é todo ele um tributo à lucidez e ao realismo pragmático de que são feitos os homens. Homens que, uma vez conscientes do seu papel de fantasmas acabam por aceitar o seu destino seja ele qual for. As suas memórias, os seus ódios e os seus amores acabarão por morrer com eles fechando desta forma o ciclo da sua existência. O Futuro cantará a cantigas que quiser ao sabor do Tempo e da conveniência dos regimes em vigor. Mas a verdade morrerá com aqueles que com ela privaram como uma amante fugaz e despreocupada de alguns dias. Se foi amor, desporto ou se nem aconteceu, só eles saberão. Os barcos vazios encontrados à deriva no mar não falam. E a História é uma velha caprichosa que só conta o que lhe apetece contar. Resta aos romances apanhar os pedaços narrativos e estimular a inteligência dos seus leitores…

 

Artur

segunda-feira, 14 de junho de 2021

REGRESSOS

 

Décimo nono dia do quinto mês de dois mil e vinte e um ( a última vez que escrevi aqui no diário que passou a mensário). O meu despertador interior, as minhas inquietações, ou o anjo da guarda ( como dizia a minha mãe), acorda-me a tempo de assistir ao renascimento da luz de hoje. Há muito tempo, há quase doze anos, decidi reger-me pelo que me contenta. Se a felicidade se juntar ao contentamento então melhor ainda. Estar contente com o que alcanço, com quem me alcança, é o que me faz sentir quase sempre em estado de graça ( às vezes é só uma hora por dia). As minhas dores, os meus desesperos, as minhas fúrias e revoltas, deixo-as para as batalhas campais, para o corpo a corpo, para as armas que escolher. Quem me conhece sabe que a minha doçura equivale aos vapores que emano pelas ventas quando irritada.
Quando regressei à ilha mãe há quase sete meses, vim extenuada e pronta para lamber as minhas feridas até sararem. Vim para acompanhar a minha filha mais nova o mais à distância possível. Vim para preparar a terra que sofre com a ausência de cuidados. Não estou instalada no passado morgadio da família paterna, nem a abanar-me com achaques à espera que a tormenta passe. Choveu dentro de casa quase todo o inverno e eu só acrescentei a quantidade de vasilhas para recolher a água que caía. Encontrei um desumidificador, uma máquina de secar e uma de lavar. Um colchão ortopédico, um pirógrafo, canetas e tintas, sementes e bolbos. E mais um monte de coisas que contribuem para a minha sanidade mental, entre as quais um machado,uma motoserra e uma roçadeira. Alguns livros e muitos cadernos. Tudo coisas que me capacitam além do tempo para me sentar em qualquer rocha a desfrutar do espetáculo divino que se apresenta diante do meu olhar. A primavera chegou, o verão aproxima-se, e o cansaço dissipou-se.
Cair e levantar, andar e dançar, dormir e acordar, ligar e desligar, ver e observar, ouvir e ser ouvida,escrever e descrever, viver e deixar viver, amar e ser amada, orar e agradecer, são movimentos vitais para manter a humanidade no núcleo da minha existência. Qualquer falha neste processo é como menos uma pedra na calçada., como um caminho que se faz irreversivelmente diferente. Por isso tantas vezes coxeio. E por isso às vezes tenho dores. Por isso me corrijo e emendo. E me dou permissão de aceitar a mão que se estende.
No décimo primeiro dia do sexto mês de dois mil e vinte um, recomeço. Continuo o movimento contínuo que me trouxe de volta ao lugar onde sempre quis regressar. 

Elsa Bettencourt

terça-feira, 8 de junho de 2021

Diário Laboratório 2021

12/1/2021

Contudo, é evidente que se sofre de um tipo de bloqueio que é, aliás, muito profundo: o bloqueio pela proliferação disforme do fragmento.

domingo, 6 de junho de 2021

Diário Laboratório de 2021

 11/1/2021

Talvez se possa recorrer, mesmo, à noção de destino: o destino do escritor é um destino de predestinação e pouca coisa haverá que se possa fazer quanto a isso. Ou se nasceu para a escrita ou não. Todavia, além do trabalho intenso, a completude dos projectos e a consequente multiplicação das publicações permitirão, quiçá, multiplicar também as chances que propiciem o encontro supremamente feliz com aquelas circunstâncias que vindiquem uma existência dedicada às letras.

quarta-feira, 2 de junho de 2021

Diário Laboratório de 2021

 10/1/2021

Mais ainda: nem é só, o mais das vezes, o livro o único fiel de um texto. O livro-projecto é, tão-só, a unidade de avaliação da escrita, pois também o todo-da-obra é critério valorativo enquanto contexto constitutivo mais geral onde se inserem cada texto e cada livro.