sexta-feira, 24 de dezembro de 2021

FELIZ NATAL

 



                          Este blog deseja a todos os que por aqui vão passando um Feliz Natal.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2021

ROGÉRIO SAMORA


 

                                                                            1958 - 2021

Décimo sexto dia do décimo segundo mês de dois mil e vinte e um. No mês em que renasce a esperança morreste. Vejo desta janela fria a dor que os amigos põem nas palavras pelos que partiram sem aviso prévio. Aos próximos ligo para chorarmos, rir, e dar abraços fortes no ar que nos separa. A minha mãe dizia que a esperança era a última a morrer foi com ela que aprendi sobre humildade e aceitação. Não conheço ninguém que tenha sofrido tanto tempo antes de partir, nem ninguém com um sorriso maior. Se é possível transformar dor em amor ela fê-lo e sempre com a melhor nota. Só quem privou com ela é que sabe do que falo.
Para a querida Ana e Vanda saibam que o meu coração está com o vosso. Para a querida Isabel e Roberto que o saibam também.
Para a Leonor que ele ia visitar sempre que ia a nossa casa que o saiba também. Fizemos as pazes atempadamente e não ficou nada por dizer.
É uma ironia quando alguém nos deixa neste mês. É-o em qualquer mês. Que a esperança nunca o faça.
Gosto muito de vocês!
Elsa Bettencourt



domingo, 5 de dezembro de 2021

NA NOVA FORMA DE PROCRASTINAR


 


Terceiro dia do décimo segundo mês de dois mil e vinte e um. Há um debate silencioso instalado a meias no meu espírito e massa cinzenta. Não sei se é ainda a readaptação às raizes ou a readaptação plena. Só sei que, neste universo, o conforto é o considerado na minha vida passada, entre países estrangeiros e um Portugal de patine burguesa, um quase desconforto. Na vida que eu não sabia ser um mero estágio para a reforma (por invalidez) preparei-me para aquilo que o meu filho Millenial chama de zombie war. Quando dei o passo seguinte foi como se tivesse quase todas as “armas” para me instalar neste admirável mundo novo. Quando a pandemia deu as primeiras tréguas eu pus-me a caminho da ilha com uma mala cheia de utilidades e o mínimo de roupa para vestir. Foi o inverno mais difícil da minha vida e o mais chuvoso na ilha do sol. Andei a pé e de carro alugado por longos períodos até decidir mandar vir o transporte que me aguardava na porta errada. Não sei se é de estar (quase)sempre a rir que leva as pessoas a pensar que eu estou de férias, que sou milionária, ou sou só tola e muito disponível. No primeiro inverno a casa tinha um chão de cimento pintado e eu nunca tinha vivido nela. No quarto do fundo tinha um soalho de pinho de 1937. Quando, na primeira semana de estadia, a minha cama cedeu até pensei que era o pé dela, mas não. Foi uma tábua do tal chão tão antigo. Fiquei a rir-me sózinha do tragicómico da situação. Mais três tábuas caía lá em baixo. Das coisas que não tinha na casa o lava-loiças era uma delas. O duche por estrear serviu bem para o efeito. E a velha pia rachada lá fora quando não chovia. Quando chovia às vezes punha a chuva a fazer o meu trabalho. Não tinha cadeiras mas tinha um banco corrido dos impérios. Não tinha mesa mas tinha cavaletes e tábuas com fartura das camas por montar. Não tinha fogão mas tinha uma cataplana elétrica porque tinha eletricidade. Não tinha forno mas tinha uma cloche do tempo de algumas avós. E tinha sobretudo, e com fartura, muita dormência na mão direita e as chamadas dores neuropaticas próprias de quem foi intervencionado na C8. Para isso tomava uns químicos receitados pelos meus preocupados médicos. Fiz desmame dos mesmos após algumas sessões de banhos de mar. A vitamina mar é uma evidência por mim comprovada para a eliminação de qualquer dor. A guerreira em mim debate-se com imposições e disposições. Pelos caminho salvei um cão que mais parece um lobo e que faz de mim o capuchinho vermelho. Tive que ficar mais forte para poder ajudar quem precisa de mim. Tive que ser caçadora dos meus medos e aprender com eles. Tive que reaprender a viver com a curva que tanto nos eleva como deita abaixo.
Entretanto dois dias voaram ao sabor do último eclipse deste ano e tanto EU nas últimas palavras perdeu o sentido. Já pousei no quinto dia do decimo segundo mês. Do debate silencioso resta o silêncio e os pensamentos algo ruidosos que substituo com os cantautores das linguas que conheço. Prefiro sempre as cantigas de intervenção às de amor porque essas sim são de paixão. As causas vivo-as andando por todos os caminhos que percorro porque é neles que me detenho e quem neles encontro é quem me move. Torno-me o efeito da causa num ápice,num ai, num repente. É nesse instante que constato aquilo que me trouxe a esta janela virada para o varal com criptomerias e pinheiros a enquadrá-lo. O grito do vizinho milhafre que assinala a caça adivinho-o por debaixo das palavras cantadas da Mafalda que diz que há que penar para aprender a viver , que a vida é feita de cada entrega alucinada para receber daquilo que aumenta o coração. Há que viver uma hora de cada vez e não ter medo nem de procrastinar. Há mesmo que ter um horário para a procrastinação que eu considero mais contemplação. E há que evitar o fechamento desse eu tão subvalorizado e oferecer ajuda nem que seja com o saber escutar cada palavra que nos querem dizer. Das escutas mais significativas que tive este ano foi dum homem permanentemente ébrio. Acho que o álcool já faz parte do sistema circulatório dele. Eu fazia-lhe perguntas e um amigo traduzia o que ele dizia através da boca gretada com dois dentes em muito mau estado. A maior parte da tradução era para italiano ou francês. O meu amigo também só tem quatro dentes mas fala mais de quatro línguas. Em todas as línguas o homem dizia que tinha mais de mil anos e contou estórias inacreditáveis. Cada vez que me cruzo com o senhor ele cumprimenta-me e faz menções de tirar o chapéu que não tem. Eu respondo com o acenar típico da ilha com a mão sobre o volante e quatro dedos que se elevam. Nunca vi alguém tão pisado nem nas minhas deambulações mundo fora. Nas cidades grandes o olhar já não é triste e é vazio de brilho. Este é cheio de dor e perda. E não quer qualquer ajuda senão meiozinho de tinto e algum papo-seco misto. E atenção, porra! Quem não?

Elsa Bettencourt




quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

SOLIDÃO

 



Não há nada mais poético e mais solitário do que uma estação de comboios num dia feriado ou num Domingo. Sem pessoas nem máquinas a decorar a paisagem restam apenas as estruturas, a imensidão do apeadeiro, um banco ou dois, os carris sem nada para fazer. E, no entanto, todo esse vazio que o nosso andar vagaroso experimenta revela-se numa imensidão de sentidos, informações, mensagens tranquilas escritas pela caneta da ausência. Uma partida madrugadora depois de um adeus forçado, o frio a pedir uma sala aquecida pela lareira, um grito desesperado de fechar definitivamente as contas com a vida e partir para outro destino, reencontros, corridas apressadas para esperanças prestes a partir. Não há nada mais poético nem mais digno do que a espera em solidão pelas respostas que a ausência interroga. Sozinhos na plataforma, assim nascemos e morremos percebendo exactamente a mesma coisa no fim do que percebíamos no princípio. Nada. Aparte isso, viagens e mais viagens, multidões apressadas de sensações, ruídos estridentes de expectativas, avisos sonoros sobre a nossa cabeça, agitação, confusão e caos. Por isso a estação vazia e o regresso à calma de sermos aquilo que sempre fomos amparados pelo braço do silêncio.

Não há nada mais digno nem mais confortável do que não ter ninguém à nossa volta a não ser os nossos pensamentos, o diálogo interior sem nada que o consiga interromper. O mundo de onde nunca deveríamos ter saído assombrados pela ideia de que nunca lá poderíamos voltar. As voltas e voltas à procura de uma explicação, de um sentido, uma razão por mínima que seja para conseguir compreender o que se passa.

Não há nada mais confortável nem mais profícuo do que alguns momentos de solidão para conseguir ver com muito mais lucidez tudo aquilo que a algazarra dos dias, a multidão e o frenesim para lado nenhum não permitem.

Numa plataforma isolada a única coisa que faz sentido é a própria forma das coisas. Descansada, silenciosa, embrulhada na razão do seu próprio ser. E a mochila pousada ao lado das botas cansadas em intervalo de caminhadas. Cheira-se o vento em busca de uma direcção, afina-se o tempo ouvindo os sinais do corpo, acende-se um cigarro lento enquanto as palavras se vão arrumando à volta daquilo que se pensa. No fim outra coisa surgirá. Outra direcção, outra viagem, outro caminho dará início ao desenho dos próximos dias.

Não há nada mais poético nem mais estimulante do que um homem sozinho numa plataforma sem gente, a interrogar o destino com um cigarro lento nas mãos. A escolher entre o passado e o futuro, entre a vida e a morte. E à sua volta o tempo fica parado à espera de uma decisão, o frio cala-se por instantes e o mundo vai lá fora enquanto nada acontece. Amanhã tudo voltará a acontecer…de uma maneira ou de outra. Amanhã o homem voltará a ouvir o seu nome pronunciado pelo vento nas folhas das árvores. E será ele outra vez.

 

Artur


terça-feira, 30 de novembro de 2021

OITENTA E SEIS ANOS DEPOIS


 


Escrever é esquecer. A literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida. A música embala, as artes visuais animam, as artes vivas (como a dança e a arte de representar) entretêm. A primeira, porém, afasta-se da vida por fazer dela um sono; as segundas, contudo, não se afastam da vida - umas porque usam de fórmulas visíveis e portanto vitais, outras porque vivem da mesma vida humana.
Não é o caso da literatura. Essa simula a vida. Um romance é uma história do que nunca foi e um drama é um romance dado sem narrativa. Um poema é a expressão de ideias ou de sentimentos em linguagem que ninguém emprega, pois que ninguém fala em verso.

Fernando Pessoa

sexta-feira, 26 de novembro de 2021

DA BANDA DE AQUÉM

 Vigésimo quarto dia do décimo primeiro mês de dois mil e vinte e um. Ontem à noite os relâmpagos voltaram sózinhos a iluminar as copas das árvores que emolduram a janela do quarto. No princípio da madrugada já Júpiter brilhava na terceira vidraça superior sem nuvens a atrapalhar. É assim viver no princípio da banda de além, é ficar mais aquém de cada fenómeno que antes só se revelava através de filmes de oito milímetros, ou de histórias contadas pelos avós mais antigos. Muitas vezes me vem o impulso a que não cedo de tapar os espelhos da casa. Os olhos curiosos dos animais sossegam-me e quando há sinal de perigo é atrás de mim que se escondem. As gatas da cidade são agora leoas ferozes que me agradecem com ratinhos, grilos e baratas. Felizmente tive uma mãe comparável à maior maga das ciências naturais. Treinou a sua única filha para lidar com todos os seres vertebrados e invertebrados, de sangue quente e de sangue frio. Costumava amarrar um cordel à cauda dum murganho para eu poder passear com ele ou a apanhar lagartixas dando um nó de corrediço nas ervas mais compridas. Tornei-me uma pescadora exímia de lagartixas ao sol. No dia em que resolvi lavar as minhocas na banheira da casa acho que percebeu que a minha curiosidade seria sempre maior do que o meu pudor. Tinha então três anos e só tinha medo da sombra nas escadas para o segundo andar. Hoje até as sombras são sempre o lado onde a luz está por chegar.

A chuva voltou com força enquanto preparo o primeiro assado deste forno. Continuo com a sensação de estar isolada do resto do mundo das notícias que não vejo nem leio. Por tal alheamento descobri há pouco que a nossa amiga e colega está a necessitar de cuidados por causa do malfadado vírus. Os meus pensamentos e orações estão na tua direção, minha querida, e já te ouço a trautear umas notas de Alcafozes ao Loreto. Os padres italianos que se preparem.
Entretanto lembrei-me dos idos anos 90 do século passado. Eu com menos que meia dúzia de anos de voo e um passageiro conhecido orador seropositivo. Ele sentou-se por engano no lugar de descolagem e aterragem de tripulação na coxia da fila da janela de emergência do Boeing 737. A colega desse lugar pediu-me para lhe dizer que ele estava enganado e disse-me que não queria sentar-se nesse lugar. Perguntei se estava com medo de alguma coisa e ela respondeu-me que não queria apanhar SIDA. Ofereci-me para fazer a descolagem e aterragem no lugar dela,informei o senhor que o lugar dele era ao meio e que se poderia sentar na nossa coxia durante o voo. Não me lembro do nome dele nem dela. Tenho demasiados amigos engolidos por esse virus tão medonho como castigador e sempre soube que não era por partilharmos uma cadeira, assim como sempre soube que não engravidamos pela graça de nos sentarmos na mesma sanita do namorado. Éramos muitos no escritório voador e felizmente eram poucos os que padeciam de falta de informação e sensibilidade.
As rajadas de vento têm vindo a aumentar. O meu lençol já secou e molhou-se umas seis vezes. A toalha já resvalou a nau catrineta. O cão continua a achar que ao pé de mim as tempestades não o afetam. Eu continuo a achar que ao pé dele também não.
Estar a fazer o quê neste fim do mundo é o que me perguntam às vezes. A maior parte das vezes nem ouvem a resposta. Da banda de além à banda de aquém é num ai. Vale tanto a soma como o que se subtrai.
O forno já está aprovado para o mês que vai entrar. As pinhas já estão espalhadas pela mata. A noite caiu agora que me levanto. Nem a senti, nem ela a mim. É assim.
Elsa Bettencourt

quinta-feira, 18 de novembro de 2021

AUTOVOUCHER OU A ALEGORIA DO FILHO DO PADEIRO

 



Na aldeia onde passo agora a maior parte do tempo, o padeiro costuma passar uma vez (às vezes duas) em passeio triunfal, qual parada medieval de outrora. Estaciona na cabeceira da rua principal e agarra-se à buzina como se quisesse anunciar um ataque nuclear eminente, tendo as pessoas dois minutos para correr para o abrigo. Aguarda uns instantes que os idosos se aproximem munidos do porta-moedas e do saquinho de plástico, fica ali a dar dois dedos de conversa e arranca até ao outro extremo da rua para repetir o ritual. Buzinadela estridente e prolongada, aproximação da população idosa, o estado do tempo, o futebol e ala para a próxima aldeia. Confesso que ao princípio me assustava tanta algazarra desnecessária quando uma simples combinação de horário poderia resolver a questão. Depois comecei-me a habituar com espasmos cada vez menos pronunciados e palavrões em escala decrescente.

Nos últimos tempos o padeiro deixou de vir diariamente, talvez por ter outros afazeres, talvez porque resolveu abrandar o ritmo da volta às aldeias. Em seu lugar mandou o filho, um miúdo tranquilo que aproveita as horas vagas da escola embora muito menos sociável do que o pai. O ritual não mudou a não ser na rapidez com que se desenvolve. É que isto de atender o público não é uma capacidade inata em ninguém…leva o seu tempo. Há sempre aquele cliente que reclama das carcaças que comprou ontem, o outro que deita um longo olhar para dentro da caixa da carrinha para de seguida se pôr a pedir aquilo que não há, já para não falar na epopeia dos trocos que, como todos sabemos, além de difíceis de arranjar ninguém parece ter. O rapaz chega à entrada da rua, agarra-se à buzina da carrinha como se não houvesse amanhã e, logo de seguida, arranca em direcção à outra ponta da rua. Os primeiros potenciais compradores têm apenas tempo para pôr o nariz de fora para se aperceberem que se quiserem pão vão ter que ir à padaria.

Ao fim do dia não faço ideia que contas é que pai e filho farão e qual o balanço diário da padaria itinerante. Mas a atitude do filho do padeiro faz-me lembrar o “autovoucher” do Governo para minimizar o impacto do aumento dos combustíveis. Por cada pipa de massa que gastar a consumir o seu combustível, traga a factura e troque por um apoio…zinho de 0,00005 %.

Ou seja, o consumidor é toureado com todo o cenário que indica precisamente o contrário. Temos padaria, temos serviço itinerante ao cliente…o que não temos é pão.

Faz lembrar uma piada antiga do Herman José em que era anunciado um concurso de sugestões para acabar com a burocracia. Quem quisesse participar teria que enviar um formulário devidamente preenchido com uma exposição de quinze páginas a explicar porque é que se devia acabar com a burocracia, acompanhado de uma fotografia de corpo e meio junto a um pastor alemão albino.

O chefe do governo e alguns dos seus ministros podem personificar a relação do padeiro e do seu filho. Um mais diligente, ou mais calculista, outros mais incompetentes, mais apressados, menos atentos. Ao fim do dia a panificadora terá que fazer o balanço das diversas estratégias aplicadas e assumir as falhas do sistema. Mais depressa ou mais devagar, em loja fixa ou itinerante. Os consumidores cá estarão, sempre os mesmos, com a mesmas necessidades de comer pão todos os dias. Se não nesta padaria…noutra qualquer…

Artur


domingo, 14 de novembro de 2021

O REGRESSO DA TERTÚLIA

 





No próximo Sábado, dia 20, a Tertúlia Regressa a Braço de Prata. Na primeira sessão vamos estar à conversa com José Guedes. "Na Rota do Yankee Clipper", "O Aviador" e "Carlos Bleck" serão os títulos em debate. Dos "Gloriosos Malucos das Máquinas Voadoras" até à Aeronáutica em geral, experiências de vida, livros, memórias e mais que na altura se verá. Estão todos convidados.

quarta-feira, 20 de outubro de 2021

PORQUE SIM

 Décimo oitavo dia do décimo mês de dois mil e vinte e um.

Confesso que estou a ressacar dos anos de trabalho e de lazer, de saúde e de doencas, de alegrias e tristezas, de reuniões e separações. A ressaca da vida é como a do mar, deixa detritos e erosões, sulcos e convulsões, presentes e subtrações. Sem dúvidas de que este é o grande jogo e quando se move uma peça tudo se altera. A certeza de ontem pode tornar-se a dúvida de amanhã. E ao contrário também. É esta a beleza da vida a ser vivida, a ser consumida ao ritmo do tempo que temos, a aproveitar cada gota que a maresia projeta contra nós, a de não parar, a de ficar na mera contemplação das horas, ou simplesmente aproveitar duas horas de insónia para fazer o bolo preferido dele, sem forno e com metade dos ingredientes. Felizmente a minha mãe apresentou-me a cloche no idos anos oitenta e eu aprendi a mudar a resistência para cima de modos a não ter meia delícia carbonizada. Já estou com tiques de avó apesar da eterna enamorada dos braços que me apoiam. É esta a beleza dos anos que passam e do que aprendemos com eles. Neste momento continuo a consolidar raizes e alicerces, a tentar explicar aos que se seguirão, com mais actos e menos palavras, a melhor forma de nos levantarmos após a queda, seja grande ou pequena. A poesia continua, as letras não me largam, tanto como a circulação que me impele cada segundo. Hoje chove e amanhã faz sol. As gatas dormem e o cão dorme. Ele constrói as minhas certezas com a mestria dum professor. A minha mãe vai ser bisavó e a minha mais velha vai conhecer os segredos dum amor maior. É a vida a ser vivida como é. Simples.


Elsa Bettencourt

terça-feira, 19 de outubro de 2021

A NOITE SANGRENTA, CEM ANOS DEPOIS


 

Passam hoje cem anos sobre uma trágica data da nossa História recente onde, na sequência de um golpe de estado, um aparentemente indisciplinado e selvático grupo de soldados do lado vitorioso deu largas a uma série de execuções de personalidades políticas e militares da época. Nos anos noventa resolvi tentar escrever a história desses acontecimentos e transformar esse trabalho no argumento para uma longa-metragem. Enquanto argumento o filme ganhou dois prémios embora nunca tenha conseguido passar à fase seguinte, isto é, à produção e conversão em imagens. Deixo-vos a sua expressão mais curta em forma de texto (Sinopse) enquanto modesto contributo de homenagem às vítimas e, principalmente, em homenagem a uma mulher incrível (Berta Maia) que nunca descansou enquanto não descobriu a “mão” por trás dos acontecimentos aparentemente fortuitos que de fortuitos nada tinham.

Este trabalho foi escrito em parceria com o cineasta João Matos Silva.

 

Artur Guilherme Carvalho

 

 

 

 

 

 

 

 

A NOITE SANGRENTA

 

                                   (Sinopse)

 

 

   No dia 19 de Outubro de 1921 a jovem República fundada com a Revolução de 1910 sofria mais um rude golpe. Na sequência de um tempo atribulado, sem soluções duradouras e eficazes, com a falência da credibilidade das instituições, golpes de estado e governos sucediam-se a uma cadência alucinante.

   Três anos depois de uma participação activa na I Guerra Mundial, pouco reconhecida na Conferência de Paz pelas potências europeias vencedoras, dois anos após o assassinato de um dos mais carismáticos presidentes da república, Sidónio Pais, e com uma situação económica cada vez mais enfraquecida pela corrupção e pela subida da inflacção, a sociedade portuguesa cada vez mais dividida, atravessa um período difícil da sua História marcado pela errância e pelo acaso, ao sabor das suas próprias convulsões.

   Na noite que se seguiu ao golpe de 19 de Outubro de 1921, cinco personalidades públicas prestigiadas são barbaramente assassinadas por tropas revolucionárias indisciplinadas, aparentemente desirmanadas da sua cadeia de comando. O Presidente do Ministério (Primeiro Ministro), que assina a sua demissão pelas 13 horas do dia 19 acaba por ser assassinado no Alfeite da Marinha nessa mesma noite. Para além do dr. António Granjo, homens como o Almirante Machado Santos, herói revolucionário do 5 de Outubro de 1910 e várias vezes Ministro, o Comandante Carlos da Maia, o coronel de cavalaria Botelho de Vasconcellos e o Comandante Feitas da Silva juntam-lhes os seus nomes numa macabra lista que terá sido tudo menos obra do acaso, levantando desde o início sérias e preocupantes dúvidas quanto à sua origem.

Comovendo a sociedade portuguesa de uma forma global, a “Noite Sangrenta”, como ficou conhecida, tomou assento durante algum tempo, quer nos jornais, quer nos tribunais durante o julgamento. Desde as campanhas públicas a favor dos familiares das vítimas até às mais díspares e inflamadas afirmações, a “Noite Sangrenta” marcou de forma profunda todos aqueles que viveram nesse tempo. Após os funerais e os traumas, todos se empenharam no apuramento das responsabilidades dos trágicos acontecimentos daquela noite de má memória. Em circunstâncias pouco usuais, o Tribunal Militar de Sta. Clara será palco para o julgamento presidido por um tribunal misto, civil e militar. Para além de um júri composto por cinco oficiais generais, o tribunal é presidido pelo General Camacho tendo como auditor o dr. Almeida Ribeiro e como Promotor de Justiça o General Carmona, mais tarde Presidente da República. Suspensa na imprensa da época a sociedade portuguesa vai seguindo atentamente o desenrolar dos acontecimentos.

   Precisamente por ser só quase nos jornais que se encontra concentrado o material de pesquisa histórica referente à “Noite Sangrenta”, o único personagem ficcional que integra o filme desde o princípio é um jornalista. Desde o golpe de estado que ele acompanhará a evolução dos acontecimentos. As suas dúvidas e os seus raciocínios estabelecem a ligação entre o entendimento do espectador e o desenrolar da acção.

 

II

   O processo terá vários julgamentos, sendo apenas dois exclusivamente referentes à “Noite Sangrenta”. Num serão julgados os oficiais revolucionários responsáveis pelos seus subordinados, bem como pela segurança e ordem nas ruas da cidade no decorrer do golpe de estado. Noutro, o grupo dos praças um oficial e dois sargentos, todos eles tripulantes da tragicamente famosa “Camionette Fantasma”, uma carrinha utilizada para transportar algumas das vítimas desde as suas residências até às execuções. Se no primeiro caso, por falta de provas, todos serão absolvidos, no segundo as penas aplicadas reflectem o reconhecimento da autoria material dos crimes.

   Desde sempre que no grupo de guardas e marinheiros que compunham a “equipa de extermínio” se destaca um líder. Trata-se do Cabo marinheiro Abel Olímpio, o “Dente de Ouro”, principal instigador e orientador das movimentações do grupo. Durante o julgamento negará todas as acusações em bora acabe por ser condenado a vários anos de prisão.

  

 

III

   Após o julgamento, Berta Maia, a viúva de uma das vítimas, o Comandante Carlos da Maia, não se satisfaz com a execução da justiça sobre o homem que lhe levou o marido de casa pela última vez. Convencida de que os crimes perpetrados com arrepiante minúcia na escolha das vítimas não foram obra apenas de um bando de marinheiros embriagados, a viúva perseguirá o “Dente de Ouro” no seu cativeiro em busca da verdade. Durante várias conversas entre os dois, já no ano de 1926, assassino e viúva da vítima estabelecem uma curiosa relação de remorso e persistência que é a o mesmo tempo um enorme combate entre a vontade de descobrir a verdade e a consciência do verdugo. Ao longo das sessões que se prolongarão entre Maio e Novembro de 1926, desgastado pela determinação da viúva o “Dente de Ouro” vacila e acaba por fazer importantes revelações a propósito dos acontecimentos em que tomou parte. Embora algumas delas já fossem conhecidas, outras houve que vêm a revelar uma elaborada conspiração preparada muito antes dos trágicos acontecimentos. A lista das vítimas a abater não só existia como era muito mais extensa, e só não foi cumprida porque muitos levaram a sério as ameaças de que foram alvo. A conspiração era maioritariamente de carácter monárquico, apadrinhada por um jornal lisboeta, por dois importantes capitalistas e por um padre que contratava os assassinos.

   Dos vários nomes referidos pelo “Dente de Ouro” à viúva de Carlos da Maia nenhum foi importunado. A sociedade portuguesa estava satisfeita com a sua prestação de justiça e não admitia que factos novos tivessem a relevância suficiente para reabrir os inquéritos. A cronologia histórica também não é favorável. As conversas entre a viúva e o assassino do seu marido começam no mês em que ocorre a revolução que pôs termo à República e dará origem ao estabelecimento de um regime autoritário de ditadura que irá durar até aos anos 70.

   Nas suas memórias Berta Maia escreveu:

 

  “Não, o Abel Olímpio foi apenas um instrumento! Ele não foi o criminoso. Infinitamente piores do que ele foram esses que o aliciaram, que lhe deram dinheiro, que o incitaram à matança e que o abandonaram num cárcere.

   Falo para Deus e para o meu filho que um dia saberá compreender quanto fiz para esclarecer a razão da morte do meu sacrificado marido, mas estou certa que muitos corações imaculados de ódio – que ainda os há, felizmente na nossa terra – saberão sentir a razão de ser suprema destas páginas que, mais do que um protesto, são um desabafo.”

 

   Talvez por razões de pudor histórico a “Noite Sangrenta” tem sido sistematicamente evitada ou superficialmente abordada nos compêndios de História. No entanto o seu estudo revela-se de uma importância acutilante se quisermos perceber o fim do regime republicano democrático e a instauração do regime totalitário que se lhe seguiu.

   Conspiração monárquica vingativa integrada por um jornal lisboeta dirigido por um padre suspeito, aristocratas e capitalistas, ajuste de contas antigas entre elementos republicanos resultante de combates entre linhas adversárias da própria Maçonaria, a “Noite Sangrenta” foi antes de mais o último golpe mortal que lançou o descrédito total sobre um regime que se aproximava a passos largos do seu fim.

   Ao pretender representar este trágico episódio da história portuguesa do princípio do século XX, presta-se justa homenagem àqueles que foram prematuramente varridos pelos ventos da História, bem como à coragem de uma mulher que contra tudo lutou para saber quem foram os mandantes da sua desgraça.

 

 

segunda-feira, 18 de outubro de 2021

A MORTE É A CURVA DA ESTRADA


A morte é a curva da estrada,

Morrer é só não ser visto.

Se escuto, eu te oiço a passada

Existir como eu existo.

A terra é feita de céu.

A mentira não tem ninho.

Nunca ninguém se perdeu.

Tudo é verdade e caminho.

23-5-1932

Fernando Pessoa

sábado, 16 de outubro de 2021

A DANÇA DO CAOS

 

 

 

Enquanto o caos vai tomando conta da decoração dos dias vou tentando aproveitar o tempo, ter espaço para respirar e viajar para dentro de mim. A situação já não é nova (nunca foi) só que desta vez tenho a possibilidade do isolamento como um nadador veterano que já não sente tão forte a necessidade de mergulhar todos os dias no mar. Enquanto nada muda para melhor e tudo regressa em vagas sucessivas de falta de lógica e de destruição vou-me aproximando rapidamente do fim de um ciclo, o meu ciclo. E, sinceramente não tenho medo nenhum nem vontade de voltar atrás. Haveria ainda muito para viver ou aprender vivendo? Com certeza que sim, mas a viagem está sempre em movimento e as lições não se apresentam todas da mesma forma nem sequer ao mesmo tempo. A razão transformou-se num concurso de feira em que vende mais o comerciante que berrar mais alto. O Conhecimento foi transformado em apenas mais uma bugiganga que se questiona ou vende como qualquer mercadoria anónima.  As referências dissolveram-se, a mediocridade continua a sua marcha triunfal. Somos seres imperfeitos e muito confortáveis com a nossa imperfeição. Toda a nossa energia está concentrada nas mais primárias necessidades e na obsessiva e imediata satisfação do ego. Basicamente faço parte de uma espécie animal que destrói muito para lá daquilo que necessita, seja para se alimentar seja para o seu habitat. Uma pertença que não me dá qualquer motivo de orgulho e que me cansa cada vez mais.  Dias houve em que conseguia lidar bem com isso. Dias houve em que condescendia sempre na esperança de dias diferentes, na escolha de alternativas. Dias houve em que me remetia ao silêncio ou à concordância por omissão. Hoje acabou-se essa tolerância. Não quero ver nem falar com ninguém para lá do estritamente necessário. Tenho livros que cheguem para passar o tempo, tenho música, tenho filmes. Quando me apagar tudo isto ficará por aqui na mesma que sempre foi. Pessoas, planeta, animais, plantas, caos, destruição, reconstrução, esperança, degradação e caos outra vez.

Todos querem saber de si e ninguém quer saber de nada. A banalidade do mal, a irracionalidade da condição humana que só se consegue corrigir (ainda que de forma temporária) à força de morte e destruição. Este movimento permanente de extermínio da espécie sobre si própria que nunca enfraquece, este asilo de loucos orientados por lógicas absurdas, esta demolição permanente de se poder viver com qualidade e equilíbrio.

Um índio perdido na noite executa a dança da chuva em frente a uma fogueira, uma velha de costas curvadas carrega através da neve um molho de lenha para se poder aquecer, uma criança desenha a figura da mãe a giz no chão num orfanato para poder dormir ao pé dela. E a corrida de nós todos contínua, sem parar a caminho de lado nenhum, sem tempo para reflectir, sem olhos para ver, sem mãos a medir. O caminho desenfreado do ciclo de cada um a caminho do fim e a ausência de razão num inferno permanente.

Um índio perdido na noite executa a dança da chuva, um homem isolado escreve desenfreado as insónias que o assombram e depois é Natal, e depois mete-se o Verão. E vai e volta, vai e volta até ser fim.

 

Artur

quinta-feira, 7 de outubro de 2021

INACTUAIS - NUNCA, PARA SEMPRE !

 Em 1945, depois de ter conduzido o Reino Unido através da hecatombe da II Guerra Mundial, Churchill perdeu as eleições legislativas. O povo, farto da inenarrável miséria em que viveu desde a era da Revolução Industrial, decidiu que era altura de testar a mudança, de procurar novas formas de governo, que os trabalhistas prometiam e cumpriram: puseram em marcha a construção do estado social que haveria de erradicar a miséria até à chegada ao governo de Margaret Thatcher. Como se costuma dizer, o povo foi sábio. Sobre esse período, veja-se o magnífico filme "O Espírito de 45" de Ken Loach, para se perceber em toda a plenitude as condições materiais de miséria e de exploração e o sentimento que levou a essa escolha.
A propósito, Ken Loach foi recentemente expulso do Partido Trabalhista; estava demasiado alinhado à esquerda...
Em 2021, Fernando Medina perdeu as eleições para a Câmara Municipal de Lisboa. As razões para tal são demasiado complexas para a minha capacidade de análise e, quiçá, inescrutáveis. Pergunta-se: "qual a relação entre os dois fenómenos ( o de 1945 e o de 2021) ?". À excepção da escala e da sua importância relativa, têm em comum a virtude "heróica" da democracia, ou seja a capacidade de o povo decidir pela mudança, optar por alternativas, alterar o rumo dos acontecimentos.
O fenómeno de 45 - que os sectores conservadores alcunharam de "ingratidão", "perfídia", etc - representou uma mudança estrutural de proporções gigantescas, capaz de alterar profundamente as condições de vida de uma população que vinha a ser esmagada pela primeira fase do capitalismo predador e implacável. Levou décadas a mudar, mas mudou.
O fenómeno de 2021, insisto, ainda por explicar, conduzirá a alterações para pior. Dir-se-á que é cedo para tais vaticínios. Certamente. Mas a personalidade que encarna a "mudança", o seu cadastro, não augura nada de bom. Muito pelo contrário.
Moedas é um tecnocrata frio e um tecnocrata ambicioso e é uma banalidade dizê-lo, embora a reputação de que goza a banalidade seja por vezes injusta: a ele Lisboa não interessa nada; é apenas um trampolim para vir a ser chefe do gang PSD e a seguir primeiro-ministro. E ser chefe do governo tem um único propósito: concluir o projecto de transformar o país à medida dos desígnios do seu patrão (o coelho) que, por sua vez, cumpria os desígnios que os seus patrões lhe encomendaram: um país mais desigual, sem direitos (a não ser para os grandes agentes económicos), sem esperança e sem futuro.
Eduardo Lourenço avisou durante décadas, em numerosos ensaios, que o nosso ser (o ser português) é feito de esquecimento (a não-inscrição no dizer de José Gil). Esquecemos tudo, sobretudo aquilo que é importante. Somos feitos de pó, pedras e farrapos de tecido, também eles nos avisaram. Mas quem é que liga aos filósofos ? Eles não "postam" no Facebook, no Twiter ou no Instagram, portanto, nada do que dizem tem importância e os seus diagnósticos carecem do encanto de uma língua feita à podoa e do brilho das inanidades, parvoíces e imbecilidades de que a nossa contemporaneidade se compõe.
O povo de Lisboa, fazendo jus à nossa natureza, esqueceu e trocou um homem bom, honesto e com uma visão da cidade por essa amostra de político criado em laboratório, cheio de ideias (nenhuma elas boa). Esqueceu tudo o que Medina fez por Lisboa, tornando-a uma cidade mais funcional, amigável e bela, descontando os erros que são a marca de todo o empreendimento humano; isentos de erros só os ungidos de Deus, estes iluminados que se julgam modernos e que não passam de cadáveres reciclados.
O povo de Lisboa esqueceu, decidiu e mudou. Está servido.

quinta-feira, 23 de setembro de 2021

#5 Considerações: Cul-de-Sac

 13. 

A solidão ante o fim, a desventura, a inevitável decadência também oprimem, são horizonte férreo, inelutável. É curta e pequena a consciência que o sabe — que muitos também chamam de espírito ou de alma — sabendo ainda que nada pode fazer, excepto talvez procurar e encontrar uma resignação funda, tão funda que nada a perturbará, finalmente imune ao que é torpe e inútil e aziago assim como é indiferente a tudo o mais. E se disso se exuda alguma paz tal é precioso e frágil, mas permanente se houver firmeza e propósito. Não querer é a chave, não sentir é um bálsamo, não fugir é o bem. 

14. 
Por isto, por tudo isto o desânimo como condição vital sabe instalar-se, também ele insidioso e daninho, tenaz. É força e poder manso que pouco a pouco vai encerrando o horizonte da possibilidade, toldado óculo sem amplitude por onde se verá um mundo-pouco, apequenado e, porventura, distorcido. É alma sem carne, ou carne sem alma, mas de muito peso. Irmão e talvez pai do letargo, do imobilismo funesto, da vontade inane de fuga. Quisera ser lavado disso, talvez, inaugurar um tempo novo, das vistas largas e não já cerradas e torpes e esbatidas. Sim, um hausto feroz e fresco, uma liberdade toda outra, uma pulsão para o mundo e não este cansaço que é só torpor e desistência. Desistir da abdicação, avançar sem medo, responder ao pavor de existir com a serena força de um entusiasmo, quiçá, perdido sabe-se lá onde ou então pela erosão quotidiana e pelos traumas que toda a biografia vai acumulando pelo mau uso que lhe dá o tempo. 

15. 
Assim, este livro é feito da conjugação de todas essas forças, da obsessão centrípeta, da queda inerte, por vezes lenta, por vezes rápida, rapidíssima, um momento perene que se fixa pela persistência do trauma. E também no amor abunda o mau juízo, a impossível subjectividade, o que na vida é frustre, a terrível dimensão do não acontecido.

quarta-feira, 22 de setembro de 2021

#4 Considerações: Cul-de-Sac

 10. 

Por isso, aqui vos digo que há que resistir e lutar, fazer arte da vida, que é esse combate. É que a raiz de todo o mal é o desespero. Em primeiro lugar, o desespero de ser. Em segundo, o de padecer, e em terceiro, o de aguardar tudo o que é nefasto e pesado de malogro e que encerra a luz em um espaço diminuto onde se nem consegue respirar. 

11. 
Mas, ainda, há o letargo. Outro modo da desistência ante tudo o que oprime. É bem verdade, que o cansaço sobrevém a tanta luta, é na altura em que se baixam os braços, se descrê no futuro, tudo é um horizonte gris perante tal malogro, a aprazada queda, a inutilidade de agir. Não se tiram nunca férias da existência. Há que porfiar mais um dia, sempre mais um dia, sem uma suspensão agregadora de forças, pausa lustral, ou sequer um corte com a circunstância. É um fluido contínuo, ainda que cíclico, sem nenhuma possibilidade de obter uma verdadeira perspectiva, externa ao si, em suspensão benéfica, imobilista. Sim, o Santo Imobilismo também é ou pode ser isso. É o seu lado salutar e bom, ultrapassado o evitamento sistemático gerado pelo medo, é um imobilismo produtivo, mas como deveis calcular, improvável ou até impossível. 
 
12. 
A angústia é mesmo um aperto. Invade o espaço vital. Torna-se totalitária. Contínua. Coisa outra, toda outra, seria um hausto livre, entusiasmo e ar aberto. Um conceito vivido de radical abertura. Sim, sem peso e pavor e ainda assim, com a âncora telúrica a emprestar densidade ao mundo visto pela lente onírica da possibilidade. Não mais esse abatimento falho de energia, um letargo absoluto que vê passar o tempo como de longe e que, depois, se questiona para onde foi. E o tempo é rio-de-sentido-único, não se repete e não volta, não se acelera nem se sustém a não ser pelas variações subjectivas da sua observação. E esta observação alheada fá-lo rapidíssimo e difuso ou, por vezes, suspenso, estagnado e muito triste. E, nem assim, lhe captamos a demora.

terça-feira, 21 de setembro de 2021

JOSÉ-AUGUSTO FRANÇA 1922-2021


 

Julgamos que a personalidade e a obra de José-Augusto França dispensam apresentações. No entanto, convirá relembrar alguns factos que, a vários títulos, permitem valorar e sublinhar a importância e a qualidade da reflexão de um dos ensaístas que, ombreando com Eduardo Lourenço, melhor e mais profundamente cartografou a modernidade e a contemporaneidade portuguesas. O facto de ser um “estrangeirado”[1] conferiu-lhe uma distância crítica em relação à realidade artística e social portuguesa que atribuiu às suas análises uma desapaixonada acuidade e construiu um ponto de vista relativamente descomprometido, na justa medida em que tal é possível, face à natureza e às determinações do objecto de estudo. Como veremos, em José-Augusto França há sempre uma tensão para, um intendere que coloca sempre em primeiro plano o seu intendum. A esse propósito, citamos a nota de Roland Barthes no relatório do júri que apreciou a tese L’Art Dans La Société Portugaise du XXe Siècle[2], apresentada em 1963 à École Pratique des Hautes Études (Paris) para a obtenção do diploma do curso de Sociologia da Arte:
«O autor deu um duplo objectivo ao seu trabalho: por um lado quis esclarecer as relações profundas da arte e da história política de Portugal desde o século XIX; e por outro examinar as reacções de um pequeno país aos principais movimentos da pintura europeia. Quanto às relações entre a arte a história, J.-A. França evitou sempre pôr em equação um conteúdo estético e um conteúdo histórico; preferiu confrontar ritmos, mostrando que os avanços do modernismo (futurismo ou surrealismo) corresponderam em cada caso, a uma crise das instituições. O autor aborda assim, de uma maneira concreta, dois problemas históricos importantes: o dos “períodos”, “durées” ou estruturas, e o dos “atrasos” de civilização.»
Menos conhecido será, talvez, o papel desempenhado por França na constituição, desenho e desenvolvimento da secção cinematográfica do JUBA (Jardim Universitário de Belas Artes). A esse propósito, remetemos o leitor para os números 16 e 21 desta rubrica Textos & Imagens, nos quais se explicita com algum pormenor a acção do ensaísta nessa organização e nas suas actividades.
À obra que hoje nos ocupa – Dez Anos de Cinema – não são estranhos, muito pelo contrário, as duas vertentes do labor multifacetado do autor (ensaio, romance, intervenção pública, etc.), nem os pontos de vista que desenvolveu no decurso da sua colaboração com o JUBA, como esperamos demonstrar ao longo deste texto.
A primeira nota a reter é o facto de França tender a considerar infrutíferas quaisquer tentativas de pensar a modernidade prescindindo do cinema, e tal tese é sustentada pelo período cronológico abrangido, constituído por textos publicados na revista Seara Nova entre 1949 e 1959, precisamente “quando o cinema começou a ser moderno”. Esta tendência é vincada pelo próprio autor na breve Introdução:
«Começados há dez anos, quando a crítica cinematográfica decente, em Portugal, quase se limitava a um nome, o de Roberto Nobre, terminam-se estes balanços agora, na altura em que parece estar a nascer uma nova crítica. Eles cobrem um período, por assim dizer intervalar, durante o qual se gerou e desenvolveu o movimento dos cineclubes e ao fim do qual despontou uma gente mais nova, de formação cineclubista e com interesses culturais, estéticos e sociológicos alargados, uma consciência crítica atenta aos valores da modernidade.» (pp. 7-8)
Ou seja, todo um programa contido num único parágrafo: por um lado, a consciência da pobreza (ou, talvez, da ingenuidade e desatenção) da crítica cinematográfica portuguesa, cujas lacunas estes modestamente designados «balanços» parecem destinados a colmatar; a percepção do limiar de uma nova era que corrigirá a anterior através da emergência de uma nova geração oriunda do cineclubismo (França confere aos cineclubes uma ímpar importância pedagógica e formativa); a noção da relação determinante do cinema com as dimensões estética, cultural e sociológica e, como já referimos, a inextricável valorização da arte cinematográfica na compreensão e interpretação da modernidade estética e sociológica.
 
[1] Doutoramento em Letras e Ciências Humanas pela Universidade de Paris-Sorbonne (tese Le Romantisme Au Portugal – Étude de Structures Socio-Culturelles), Doutoramento em História pela mesma Universidade (tese Une Ville des Lumières: la Lisbonne de Pombal, editada pela École des Hautes Études, diploma em Ciências Sociais-Sociologia da Arte pela École Pratique des hautes Études.
[2] A tese foi traduzida em português e publicada em 1978 pela editora Livros Horizonte, com o título A Arte e a Sociedade Portuguesa no Século XX.
A nível de estrutura, estes balanços – como França os designa, embora o seu carácter vá muito para além daquilo que como tal se costuma designar – são anuais e compreendem a evocação que nesse período temporal o impressionou positiva ou negativamente na produção nacional e internacional, enquadrando sempre as obras no contexto social, político e cultural em que foram produzidas e avaliando o seu  impacto na definição da modernidade nos termos que temos vindo a referir. Nesse sentido, a visão de França em relação ao panorama cinematográfico português, anterior ao chamado “cinema novo”, é amarga e pessimista, como se pode constatar na seguinte declaração:
«Cinema português, não. Perdido em problemas económicos e anedotas financeiras, ele tem aos ombros a tragédia da falta de gente que o realize. Que venha outra, nova, porque a que há (e exceptuando Manuel de Oliveira), de todo em todo não presta.» (p. 204)
Para compreender este diagnóstico, ou este retrato em tons negros da cinematografia nacional, é preciso ler de fio a pavio cada um dos «balanços» e verificar o modo exigente como o autor avalia em cada ano a produção portuguesa, a sua aflitiva indigência de meios económicos e expressivos, a falta de argumentos sólidos e a ausência de autores, sobretudo quando contrastada com as realidades europeia e norte-americana; uma tendência que é marca de água da sua metodologia analítica e que é expressa em termos definitivos na nota de Roland Barthes que acima reproduzimos. Como se compreende, França aplica ao cinema a mesma metodologia que emprega na avaliação da situação e evolução da arte portuguesa ao longo do século XX: sempre em relação de oposição ou tentativa de confluência com as suas congéneres de outras latitudes.
De qualquer modo,a sua finíssima intuição apresenta-lhe já o obrigatório e iminente surgimento de uma nova geração, de novas perspectivas, enfim, de autores capazes de iniciarem uma revolução no estado de coisas da nossa cinematografia. Como sabemos hoje, essa intuição foi certeira e realizou-se. Aliás, é no próprio devir do cinema que França encontra a sua maior virtude modernista; reconhecendo que todo o saber, independentemente do seu objecto, é sempre provisório, admite que a arte cinematográfica tem um significado sociológico imediato, comprometido e indomado, tornando-se assim um elemento fundamental da fenomenologia do século XX e remetendo para uma atenção constante a esse sociológico que atravessa todos estes «balanços»: o sociológico é aqui sociologia do espectador, patente na seguinte afirmação:
«Feito para o público “que tem sempre razão” pelo que quer e pelo que necessita, ele cria-lhe os desejos e as necessidades. Elemento número um de uma mito-sociologia actual, o cinema rodeia-nos invisivelmente, explica-nos o mundo, enche-nos o sonhar colectivo, espreita-nos e fabrica-nos.» (p. 194)
Outra característica determinante no pensamento do autor no que diz respeito à década cinematográfica que analisa, é a constatação de que o cinema, pela primeira vez, se incorpora num movimento universal de expressão, podendo agora intervir, actuar para além dos limites que absurdamente lhe foram impostos e das proposições que lhe foram atribuídas. Tal movimento de expressão universal é por ele fulgurantemente definido nestes termos:
«No romance que se diria pós-faulkeriano (e pós-becketeano, desde já), no teatro de novas vias de conhecimento, e de proposição de uma nova consciência, de Beckett, de Adamov, de Ionesco e de Sheadé, na poesia, depois de Ezra Pound, na pintura de um Bazaine, de uma Vieira da Silva, de um Bissière, de um De Staël, em correntes da música e do ballet contemporâneos, novas estruturas psicológicas estão a traduzir-se, efabulativamente ou não, na criação de um espaço e de um tempo ambíguos – que a ciência física e a filosofia verificam.»[1]
Ou seja, França pensa a modernidade cinematográfica também pela via do fim de um desligamento do cinema pela problemática estética geral e pela adesão total aos valores da vida (valores viventes). E, ainda, pela exigência e interrogação. Se, como alguém disse, a crise é a tónica e a característica determinante da modernidade, toda a crise é, para além do pessimismo e do optimismo entorpecedores, criativa e fecunda. É este – julgamos nós – o maior dos ensinamentos destes escritos que, como todos os grandes textos da contemporaneidade, assumem plenamente o estatuto provisório do saber que procuram alcançar e comunicar. Para finalizar, não resistimos a reproduzir, como corolário, aquilo que Hervé Bazin afirmou a propósito da obra Charles Chaplin – Le Self-Made Myth[2]:
«Voici un travail critique capital auquel on ne pourra désormais manquer de se référer. Ses 250 pages de réflexions méthodiques sur le mystère chaplinesque constituent sans doute l’effort critique le plus poussé et le plus complet sur le phénomène Chaplin considéré dans sa signification éthique et sociologique.»[3]
 
Arnaldo Mesquita
 
José-Augusto França, Dez anos de cinema. Lisboa, Sequência, [s.d.], 218 p.
Tipologia documental: livro
Cota: 70
 
[1][1] José-Augusto França, Oito Ensaios Sobre Arte Contemporânea. Mem Martins, Publicações Europa-América, 1967, p. 198.
[2] Publicado em Portugal pela editora Livros Horizonte, sob o título Charles Chaplin, O “Self-made-Myth”. Também disponível para consulta na Biblioteca.
[3] «Eis aqui um trabalho crítico fundamental ao qual não poderemos futuramente deixar de nos referir. As suas 250 páginas de reflexões metódicas sobre o mistério chaplinesco constituem sem dúvida o esforço crítico levado mais longe e mais completo sobre o fenómeno Chaplin no seu significado ético e sociológico.». Citado na introdução ao texto O Cinema Italiano e Eu, publicado na revista Estudos Italianos Em Portugal, Lisboa, Instituto Italiano de Cultura de Lisboa, Nova Série, número 11.



PUBLICADO ORIGINALMENTE EM MAIO NA PÁGINA WEB DA CINEMATECA PORTUGUESA E REPUBLICADO EM SETEMBRO COMO FORMA DE HOMENAGEM A JOSÉ-AUGUSTO FRANÇA:

segunda-feira, 20 de setembro de 2021

PESCADOR DE INSTANTES

 



 Saio a horas desencontradas e percorro as ruas da cidade. Umas vezes tropeço nas sombras, outras fico especado perante a avalanche de movimento e ruído em determinados locais. A câmara do telemóvel vai sempre ligada até acabar a bateria. No regresso já em casa, selecciono aquilo que julgo aproveitável. Há no entanto em tudo isto uma estranha sensação distanciada de estar a registar uma realidade da qual já não faço parte. Antigamente saíamos oito, dez, quinze pessoas e uma câmara de vídeo, passávamos uma noite inteira nas docas com um carro alugado e uma autorização num papel oficial para poder filmar…e no fim tínhamos um documentário, uma curta, um clip de uma banda. Hoje saio eu sozinho com um telemóvel e chego ao fim e não tenho nada além de um tremendo vazio. Há emoções, há comédia e drama mas falta sempre qualquer coisa. Há edifícios antigos e humanoides saídos das rábulas mais imaginativas; há luzes e sombras que bailam entre si como sempre houve; há gajos que sorriem para a objectiva ou que lhe mostram o dedo do meio; há solidão, há muitos a falar sozinhos… mas falta sempre qualquer coisa. Acho que falta força, intensidade, esperança. Acho que falta Vida essencialmente. Não por considerar morto este tempo mas talvez por me ter matado a mim. Ligo a alguém de vez em quando. Alguém que filmou comigo.

 

Vi este cenário na Baixa Pombalina e lembrei-me daquela vez em que pusemos o Pesssoa a cambalear a caminho de casa a chamar o Ricardo Reis. Devias ter visto. Um gajo de oculinhos e gabardina coçada aos tombos.

 

Ou ligo a outra

 

Estou na Rua onde fizemos aquele clip com a chuva artificial da mangueira dos bombeiros. O quartel já não existe. Lembras-te da seca que foi segurar aquela mangueira e regar o casal de namorados para fazer crer que era chuva?

 

Às vezes lembram-se, outras limitam-se a esconder-se naquela expressão

 

É pá…isso já foi há tanto tempo…

 

Cumprimento um bêbado a caminho de casa, contemplo a árvore de Natal das luzes da cidade sobre o rio, faço o reconhecimento de novos espaços que nunca conheci apesar de viver nesta cidade desde que nasci. Volto para casa.

Lembramo-nos todos de muita coisa, ou de coisa nenhuma, a vontade de voltar a fazer foi ficando cada vez mais pequena, o tempo encolheu e deixou-nos no seu lugar um sujeito macambúzio sem expressão, um substituto sonolento e mandrião. Sobram as imagens e os sons, sobram os ângulos da cidade, sobra tanta coisa e não se consegue aproveitar nada.

Ponho as imagens a correr e vou selecionando como um funcionário diligente em frente a uma pilha de documentos. As paisagens, as caras, os sons, está tudo muito bem mas falta qualquer coisa. A ideia de documentário a surgir e a afogar-se num mar de gente adormecida, cabeça caída sobre as redes. Os textos sobrevivem às cinco primeiras linhas, as imagens têm cinco minutos de atenção. E as cabeças saltam de imediato para o texto seguinte, para o filme que se segue. Sons e imagens rodam no teclado como papel higiénico no pendurador. Rasga, limpa, deita fora, e volta tudo a rolar, rasga, limpa, deita fora. Não há paragens, não há silêncios, mas apenas um frenesim eterno e inconsequente que não consegue reter nada. Um míssil disparado que não pára, não regista nem consegue comunicar.

Volto às imagens na tentativa de construir alguma coisa com elas. Tal como com as palavras. Mas falta sempre qualquer coisa. Naquele rosto, naquela paisagem, naquele movimento. Sento-me para trás e não consigo afastar-me, não consigo deixar de tentar juntar “qualquer coisa em forma de assim”, como dizia o O’Neil.

Não são as imagens que não têm vida…É a vida que se vai esgotando dentro de mim…

 

Artur