quarta-feira, 28 de julho de 2021

DORMÊNCIAS E FINS DE TARDE

 



Há uma dormência estranha que se instala pela casa dentro, entra pelas frestas das janelas e por baixo da porta como uma neblina persistente. Vai arrefecendo vontades, anulando energias, desligando esperanças. Pouco a pouco aumenta a indecisão das formas e os móveis vão-se dissipando numa mancha quase uniforme de fumo e humidade tornando tudo cada vez mais indiferente. As sombras dançam sem se deterem no mesmo lugar. A dança da chuva, a dança dos solstícios, da vida e da morte. E nada parece querer sair do vazio onde nunca esteve, onde nunca existiu. O abismo de nada ser, nada querer, a vontade de mergulhar um poço sem fundo e a mistura definitiva com o universo. Sem penas nem mágoas, apenas a vontade de voltar a qualquer coisa, um lugar onde as pressas andam devagar e as obrigações são facultativas. A  tarde vai caindo lentamente, em breve será noite, em breve será o nada feito de estrelas e ruídos escondidos, indecifráveis.  Já se faz tarde para fazer balanços, juízos de valor, escolher épocas melhores ou piores. A casa enche-se dessa neblina que, sem nada definir nos devolve esta sensação de absoluto. Como se tudo que foi fosse exactamente aquilo que deveria ter sido. E um barco velho de madeira no recanto habitual, escondido pelas canas e pelo nevoeiro diz-nos :Olá. Como um velho amigo de muitos anos, companheiro de esforço e derivas na corrente. Entremos então, ajeitemos os remos na sua posição de navegar e com um empurrão seco instalemo-nos no rio sem pressa sob a luz do luar. A todos os que amei deixo o meu amor convosco, a minha lembrança tímida das alegrias e tristezas partilhadas. A todos os buracos onde caí o meu mais sincero agradecimento pelo que aprendi com eles. Não há aqui nenhum drama nem nenhuma tristeza, apenas um cansaço extremo de quem por vezes consegue sintonizar a sua existência com a do universo. E nesses momentos que somos muito mais que simples linhas de tempo, muito mais que microscópicos seres que respiram e amam e odeiam e lutam para se continuar a sentir vivos, somos coisa nenhuma com decorações de eternidade. Tudo acaba e desaparece e não há drama nenhum nisso. Nem as imagens, nem a música, nem os livros, nem os quadros, nada fica cá nem sequer as memórias. E depois? A maior parte das nossas tristezas e sofrimentos vem precisamente de contrariarmos essa lei única e absoluta. Daqui a cem anos não estará cá nada de nós, nem sequer as memórias. O que talvez possa ficar a pairar por aí é uma espécie de brisa onde se escondem ideias ou sentimentos que, eventualmente, poderão aterrar na cabeça de alguém e voltar a existir. Por isso quando a bruma insistente nos começa a invadir a casa ao fim da tarde é tempo de partir e encontrar o barco velho de madeira que nos levará pelo rio fora, para um lado ou para o outro ao sabor da corrente. Ou aceitar quando o barco nos vem buscar escondidos num recanto da vida e nos estende amavelmente os remos

 

  Temos que ir andando

 

E vamos, devagarinho porque não há pressa nenhuma, rio acima até à nascente, ou rio abaixo a caminho do mar.

 

Artur

segunda-feira, 12 de julho de 2021

ENTRE SAUDADES

 

Décimo primeiro do sétimo mês de dois mil e vinte um. Tenho saudades tuas.
Tantas que gasto a câmara e o som desta manigância do diacho.
Tinha saudades das minhas gatas. Tantas que as fui buscar numa semana e voltei mais depressa do que fui.
Tantas saudades do que seremos daqui a nada, do que somos juntos a cada instante.
Nos intervalos da chuva sento-me a escrevinhar e a debruar o papel com florzinhas e corações.
- Elsa, já tens idade para ser mais cínica! Diz-me a voz a que nunca prestei atenção. Nunca fui dada a cinismos senão quando acometida por gasturas do fígado que certos humanos me provocam.
A Gaya já me virou o iPad da mesa das orquídeas brancas. E claro que caiu de vidro virado para baixo com as devidas consequências. Milagre! Ainda dá para escrever!
E eu continuo com saudades dela, mesmo com ela ao meu lado a desafiar o Lucky que se vai aproximando. A Lua vai mais devagar e rosna como uma pantera debaixo da cama ou de cima do armário.
Tantas saudades que eu não tinha dos prédios, do ar seco, dos sorrisos tensos e dos aviões. Compensam os filhos e amigas chegadas, os vizinhos e os sorrisos atrás das máscaras.
Tenho tantas saudades minhas quando não estou contigo. Falo mansinho e de rijo, sorrio até à gargalhada a pensar no dia da tua chegada.
Já se abriram as janelas de mais de metade das casas. As ruas estão povoadas com habitantes que já foram como eu, aqueles que esperam que um dia seja de vez. É num instante, basta contar até três!
O correio ainda não chegou, o fuso horário diz-me que ele ainda não acordou. Eu aguardo, sem aguardar nem desesperar. Não é possível o desespero quando se está onde se quer. No meio do mar, no meio do verde, com as daninhas agarradas às pernas e aos vestidos comprados nos saldos e na feira da Salvaterra. Forro gavetas com óleos citricos e papéis cheios de jardins lá dentro. Gasto mais solas do que gasolina, mais dedos do que palavras.
Tenho tantas saudades tuas que dou por mim no cais à espera do recorte dum barco no horizonte. Depois arranco para o Terminal só para ver as chegadas e emocionar-me com os abraços dos outros. São como aqueles que dei aos filhos e amigas que não via há tanto tempo, cheios de lágrimas e de esperança, cheios de tudo o que não nos permitimos sentir nestes tempos pandémicos e loucos.
Volto à mata, ao bosque de poemas, pelo portão do coração e permito-me espalhar as saudades pela terra vermelha, com a certeza de que um dia breve serão as plantas mais bonitas deste lugar reconstruído com tanto amor e paciência.
Elsa Bettencourt

domingo, 4 de julho de 2021

EU E AS BIOGRAFIAS

 

Tive sempre com as biografias uma relação difícil ao longo da vida. Primeiro porque reflectem obrigatoriamente um ponto de vista deixando de fora parcelas importantes da realidade retratada (ou por informação incompleta, ou por serem supervisionadas pelos próprios ainda em vida, ou por simples incompetência dos biógrafos), e em segundo lugar porque destapam buracos mais negros que , não interessando a ninguém, acabam por minimizar ou destruír imagens construídas de referência existencial que muitos deixarão de seguir. Um dia pegamos num título de um autor, ficamos amigos dele, e em pouco tempo já lemos uma obra inteira com a satisfação de o ter como exemplo a seguir. Mas o que acontece na maioria das vezes é que entre as obras e as vidas dos autores as coisas nunca se passam da mesma maneira. Lembro-me de um dia ter conhecido uma prima direita de um dos meus autores preferidos do séc. XX e de lhe transmitir essa mesma admiração. Uma conversa muito curta após o seu primeiro comentário :

 

- O meu primo? Esse tipo era um bêbado e um machista perverso sem respeito nenhum pelas mulheres…

 

Tendo feito recentemente uma excepção na minha aversão a biografias resolvi começar a ler uma. Apesar de já saber muita coisa ali retratada, houve outro tanto que preferia que tivesse ficado no anonimato. Um autor que era mitómano inveterado e que misturava a realidade com a ficção sem critério; outro que parecia um rebelde à prova de bala e que uma vez confrontado com a polícia política tentou safar a pele mentido acerca de um dos seus actos pelos quais havia sido detido; os movimentos estéticos e a sua permanente hegemonia de tentar ditar a lei sobre o que devia e não devia ser arte válida (uma alegoria ao desentendimento e desorganização entre as diversas facções de oposição política ao Estado Novo); os egos e as invejas, as relações de amizade e de família corrompidas ,etc, etc.

 

Dir-me-ão: Uma coisa é a obra do artista, outra coisa é o seu percurso enquanto pessoa. Não há nada de errado nessa frase desde que se estivesse a falar de vender imóveis ou sabonetes. De Literatura, não. E não porque a obra é obrigatoriamente um reflexo da vida e das circunstâncias do seu criador. Não se fabricou sozinha numa fábrica, não se construiu com fórmulas de exactidão matemática nem resultou de um qualquer expediente laboral. A obra ou a criação literária neste caso, nasce da necessidade de quem se sente muito mais do que uma identidade, um elemento isolado e que tem necessidade de registar o caminho dos outros, comunicar com eles, alcançar de alguma forma a consciência do colectivo.

 

A contrario do que disse no início desta crónica, houve um autor que sempre me recusei a ler por causa das suas opções políticas. O verdadeiro preconceito literário. Um dia finalmente li um dos seus melhores trabalhos e senti-me estúpido. O homem escrevia de forma divinal e retratava o ser humano com um realismo e uma crueza cristalina. Nessa altura pouco me importaram as suas escolhas políticas que o condenaram ao ostracismo  e comprometeram irremediavelmente a sua carreira literária. Pela sua verticalidade em não abandonar as suas crenças (que estão nos antípodas das minhas) até ao fim, mereceu o meu eterno respeito.

 

Na Literatura passa-se um pouco o que vamos lendo nas redes sociais (salvaguardadas, claro está, as devidas distâncias). Vidinhas bonitas, imaculadas, cheias de boas intenções, a maioria vende uma biografia que corresponderá não aquilo que serão na realidade mas àquilo que gostariam que as suas vidas fossem, sendo essa a que querem que o mundo leia. Em tudo isto consigo ler uma obsessão pela aceitação social associada a uma enorme dose de solidão e incompetência existencial.

 

Não consegui chegar a nenhuma conclusão definitiva com tudo isto. Não sei se voltarei a ler biografias ou se simplesmente me ficarei pela obra, isto é, o caderno existencial de intenções de cada um. Cada história que me encantar, cada enredo que me seduzir será uma voz de um amigo. Até aquele que reconheço como o meu Mestre nestas lides é um tipo insuportável cheio de si próprio que adora fazer citações e referir comportamentos de autores famosos para reforçar o seu discurso. A esse, se algum dia conseguisse falar com ele, dir-lhe-ia:

 

- Muito obrigado Mestre por tudo o que aprendi consigo, não pelo que me ensinou. Amo-o de forma incondicional mesmo sabendo que é um cagão vaidoso e um peneirento de merda…

 

 

Artur

domingo, 20 de junho de 2021

ANGOCHE (Os Fantasmas do Império)


 

 

 


 


 Carlos Vale Ferraz

 

Porto Editora, Maio de 2021

 

 

Confesso que li este livro sem parar, coisa que já não me acontecia há muito tempo. Da mesma maneira que os cemitérios estão cheios de heróis e pessoas saudáveis, os impérios fazem-se de atrocidades, sacrifícios e razões duvidosas. A glória, a superioridade moral e a lenda são os elementos usados para construír posteriormente a narrativa que os justifica. No meio correm existências, vidas de pessoas apanhadas no tempo que lhes foi concedido e que por sua vez actuam conforme as circunstâncias. As que se lhes apresentam e as que transportam na bagagem da sua personalidade. Mas vamos por partes.

A 23 de Abril de 1971 parte do porto de Nacala (Moçambique) um navio mercante português com destino a Porto Amélia (hoje, Pemba) levando consigo a tripulação e um civil num total de vinte e quatro ocupantes, além de um carregamento de material de guerra destinado ao exército português no Ultramar. No dia seguinte de madrugada, um petroleiro encontra esse mesmo navio, de seu nome "Angoche", à deriva, incendiado e sem ninguém a bordo. A PIDE/DGS abre um inquérito e ao longo do tempo vão-se acumulando várias versões. Os possíveis culpados vão-se alinhando sucessivamente embora sem provas. Mais tarde, depois do 25 de Abril, os relatórios da PIDE desaparecem. Se existiram testemunhas elas permanecem em silêncio adensando o mistério deste navio fantasma. É a partir daqui que Carlos Vale Ferraz (CVF) vai desenvolver um romance puramente ficcional cujas linhas narrativas acabarão por se cruzar a todo o instante com a realidade. Entre os serviços de informação, as operações clandestinas e mais uma série de protagonistas, debaixo de um cenário de guerra condicionado pelos subterrâneos da diplomacia e do xadrez internacional da região o romance abre-nos uma vasta paisagem de acções e intervenções em relação à quais as visitas ao rigor histórico não só são permanentes como se apresentam vestidas da sua roupagem ficcional nos momentos em que é difícil chegar à sua comprovação concreta. O mistério aprofunda-se ainda mais quando após várias viradas do processo histórico, por um lado não se consegue chegar a uma conclusão definitiva nem por outro ninguém ousou reclamar os louros dos acontecimentos. Ficam as memórias, os testemunhos e o silêncio. Um silêncio profundo, quase religioso, entre aqueles que poderiam ter alguma informação pertinente sobre o navio fantasma.

Mas "Angoche" é muito mais que uma passagem "wagneriana" nas páginas da nossa história colectiva, muito mais que um simples jogo de "passa-culpas" entre as forças existentes. Trata-se da materialização alegórica do fim de um ciclo protagonizado por personagens, ficcionais ou não, que são antes de mais o testemunho humano do fim do império.  Através do processo ficcional CVF vai construindo uma teia de silêncios que se adensa no comportamento dos seus personagens mas que ao mesmo tempo nos ajuda a interpretar não só aquele trágico evento como todo o cenário mais vasto de um mundo que acaba por ser engolido pelos ventos da História. Na sua fase inicial os impérios produzem heróis, mártires e génios de todo o tipo. Na sua fase final limitam-se a fabricar fantasmas, testemunhos pálidos de uma tragédia inevitável. E quer na primeira quer na última fase o grande conflito de cada um estabelece entre a moral e o egoísmo a contenda maior que os irá acompanhar até ao fim dos seus dias.

O romance é todo ele um tributo à lucidez e ao realismo pragmático de que são feitos os homens. Homens que, uma vez conscientes do seu papel de fantasmas acabam por aceitar o seu destino seja ele qual for. As suas memórias, os seus ódios e os seus amores acabarão por morrer com eles fechando desta forma o ciclo da sua existência. O Futuro cantará a cantigas que quiser ao sabor do Tempo e da conveniência dos regimes em vigor. Mas a verdade morrerá com aqueles que com ela privaram como uma amante fugaz e despreocupada de alguns dias. Se foi amor, desporto ou se nem aconteceu, só eles saberão. Os barcos vazios encontrados à deriva no mar não falam. E a História é uma velha caprichosa que só conta o que lhe apetece contar. Resta aos romances apanhar os pedaços narrativos e estimular a inteligência dos seus leitores…

 

Artur

segunda-feira, 14 de junho de 2021

REGRESSOS

 

Décimo nono dia do quinto mês de dois mil e vinte e um ( a última vez que escrevi aqui no diário que passou a mensário). O meu despertador interior, as minhas inquietações, ou o anjo da guarda ( como dizia a minha mãe), acorda-me a tempo de assistir ao renascimento da luz de hoje. Há muito tempo, há quase doze anos, decidi reger-me pelo que me contenta. Se a felicidade se juntar ao contentamento então melhor ainda. Estar contente com o que alcanço, com quem me alcança, é o que me faz sentir quase sempre em estado de graça ( às vezes é só uma hora por dia). As minhas dores, os meus desesperos, as minhas fúrias e revoltas, deixo-as para as batalhas campais, para o corpo a corpo, para as armas que escolher. Quem me conhece sabe que a minha doçura equivale aos vapores que emano pelas ventas quando irritada.
Quando regressei à ilha mãe há quase sete meses, vim extenuada e pronta para lamber as minhas feridas até sararem. Vim para acompanhar a minha filha mais nova o mais à distância possível. Vim para preparar a terra que sofre com a ausência de cuidados. Não estou instalada no passado morgadio da família paterna, nem a abanar-me com achaques à espera que a tormenta passe. Choveu dentro de casa quase todo o inverno e eu só acrescentei a quantidade de vasilhas para recolher a água que caía. Encontrei um desumidificador, uma máquina de secar e uma de lavar. Um colchão ortopédico, um pirógrafo, canetas e tintas, sementes e bolbos. E mais um monte de coisas que contribuem para a minha sanidade mental, entre as quais um machado,uma motoserra e uma roçadeira. Alguns livros e muitos cadernos. Tudo coisas que me capacitam além do tempo para me sentar em qualquer rocha a desfrutar do espetáculo divino que se apresenta diante do meu olhar. A primavera chegou, o verão aproxima-se, e o cansaço dissipou-se.
Cair e levantar, andar e dançar, dormir e acordar, ligar e desligar, ver e observar, ouvir e ser ouvida,escrever e descrever, viver e deixar viver, amar e ser amada, orar e agradecer, são movimentos vitais para manter a humanidade no núcleo da minha existência. Qualquer falha neste processo é como menos uma pedra na calçada., como um caminho que se faz irreversivelmente diferente. Por isso tantas vezes coxeio. E por isso às vezes tenho dores. Por isso me corrijo e emendo. E me dou permissão de aceitar a mão que se estende.
No décimo primeiro dia do sexto mês de dois mil e vinte um, recomeço. Continuo o movimento contínuo que me trouxe de volta ao lugar onde sempre quis regressar. 

Elsa Bettencourt

terça-feira, 8 de junho de 2021

Diário Laboratório 2021

12/1/2021

Contudo, é evidente que se sofre de um tipo de bloqueio que é, aliás, muito profundo: o bloqueio pela proliferação disforme do fragmento.

domingo, 6 de junho de 2021

Diário Laboratório de 2021

 11/1/2021

Talvez se possa recorrer, mesmo, à noção de destino: o destino do escritor é um destino de predestinação e pouca coisa haverá que se possa fazer quanto a isso. Ou se nasceu para a escrita ou não. Todavia, além do trabalho intenso, a completude dos projectos e a consequente multiplicação das publicações permitirão, quiçá, multiplicar também as chances que propiciem o encontro supremamente feliz com aquelas circunstâncias que vindiquem uma existência dedicada às letras.

quarta-feira, 2 de junho de 2021

Diário Laboratório de 2021

 10/1/2021

Mais ainda: nem é só, o mais das vezes, o livro o único fiel de um texto. O livro-projecto é, tão-só, a unidade de avaliação da escrita, pois também o todo-da-obra é critério valorativo enquanto contexto constitutivo mais geral onde se inserem cada texto e cada livro.

terça-feira, 1 de junho de 2021

Diário Laboratório de 2021

 9/1/2021

Na verdade, a única possibilidade de análise valorativa será, porventura, a aferição da fidelidade entre projecto ideado e escrita consubstanciada em livro terminado, ainda que na modalidade de obra aberta...

segunda-feira, 31 de maio de 2021

Diário Laboratório de 2021

8/1/2021

De resto, quanto ao gosto, este oscila. Está sujeito a modas, depende da subjetividade do leitor. É, assim, rigorosamente, inefável.

 

segunda-feira, 24 de maio de 2021

Diário Laboratório de 2021

 7/1/2021

Na escrita importa, apenas, acabar os projectos-de-livro. A Arte não tem, seguramente, critério e a literatura é, talvez, de todas as formas de expressão artística aquela que, porventura, está mais afastada de um qualquer critério de fidelidade mimética (se essa for, aliás, uma exigência, coisa de que se poderá prescindir). Por isso, em rigor, a única condição da escrita é a da sua completude, a da fidelidade ao seu projecto interno ou, no limite, a adesão a um conjunto de condições, ex ante facto, autoimpostas pelo escritor segundo a sua proposta estética.

domingo, 16 de maio de 2021

OF MICE AND MEN


 

 

Quando somos novos tudo vibra no máximo de intensidade, tudo é uma corrida entre a vida e a morte para chegar ao fim de qualquer coisa. O caminho está cheio de escolhas…ou armadilhas, o que vai dar ao mesmo. Em cada canto há também uma eternidade para descobrir. Uma eternidade que só tem um instante para ser encontrada e que depois desaparece para sempre. Daí ser tudo uma questão para resolver entre a vida e a morte. Umas vezes era o mundo que nos caía em cima da cabeça, outras era apenas uma encruzilhada de caminhos que se nos oferecia para escolher. Por aqui ou por ali? Por aqui ou por ali..?

Algarve em pleno Verão ao fim da tarde, um calor enorme e a vontade de adormecer, um calor enorme e a vontade de derreter a consciência no calor e não pensar em mais nada. A cabeça vazia e a necessidade de a encher para que não queimasse, as ruas vazias de gente, vazias de… O pó em vez da resina, o pó em vez da resina. O pó mais caro, mais viciante e mais destruidor. O pó que não queríamos e uma mota, uma ideia no ar. Vamos comprar a Gibraltar? Os caminhos e as escolhas, a vontade de eternidade, o instante para a agarrar, a estrada e o caminho. O bafo quente do vento pela estrada fora, o cheiro inconfundível do Sul nas nossas caras e em pouco tempo Espanha. O mar de um lado e o deserto do outro, parques de campismo, saídas para outras cidades, Huelva, antepassados meus, piratas do Mediterrâneo e a serenidade do anoitecer sobre nós. E o destino alcançado. A zona das docas é sempre igual em todas as cidades portuárias, Roterdão, Lisboa, Barcelona, Gibraltar. De dia a azáfama de mercadorias, cargas e descargas, navios que entram e saem sem parar, guindastes, contentores. De noite uma outra fauna, um outro mercado. Marinheiros bêbados, vagabundos, marginais, putas. Contrabando variado, armas, drogas, sexo.

 

  Ratita, quieres ratita?

 

 Mulheres de roupas leves e maquilhagem carregada. Nós em cima da mota sem a desligar

 

  No,no. Chocolate…tienes chocolate?

 

E os preços, as alturas, as quantidades, o pagamento sem desligar a mota e a saída breve dali no momento em que uma delegação de zombies se aproximava para nos fazer o inventário. O arranque sem pressa nem grande alarido para não dar nas vistas e numa praia mais próximo uma paragem técnica para abastecimento. O mar e a cabeça a encher-se de vazio enquanto expulsava as angústias e os medos

 

A andar daqui faz favor, vamos embora que já é tarde

 

E o vazio a crescer, as gargalhadas por coisa nenhuma, o mar, um som ao longe de uma banda local

 

  Entre dos tierras estas, y no dejas aire que respirar

 

E sempre entre duas terras e em terra de ninguém, entre escolhas e a frustração de escolher, entre as eternidades que te dizem

 

a chave do amor

 

ou que te oferecem por um preço

 

ratita, quieres ratita?

 

ou o passado e o presente, as memórias e as falhas, os caminhos ou ainda o tremendo vazio que não te deixa dar um passo mas que te faz rir quando nada te consegue animar. As vitórias e as derrotas no terreiro da batalha que se apaga em três tempos e te dá alcunhas sinónimos de nada quando pensas ter sido alguma coisa. A mota e o dia a nascer e o universo a celebrar-se a si próprio em apoteótico amanhecer. O universo a que pertences mesmo quando julgas que não existes ou que não tens importância nenhuma. A mota de novo na estrada e o calor, sempre esse calor mágico que te beija perfumado de Sul. A saída para Huelva outra vez

 

Confecções Morgado, de manhã não abre, à tarde está encerrado

 

E as tendas de campistas adormecidos, as tropas de Tariq Ziyad a caminho da invasão da Hispânia Visigótica, entre prisioneiros e libertadores, entre religiões, entre dos tierras, uma visigoda atrevida para uma sentinela muçulmana

 

Ratita?

 

E um campista distraído, um presbítero com insónias, o bafo do deserto e o mar traiçoeiro a beijar a areia da praia

 

Chocolate ?

 

De alguma forma tudo encaixado na sua respectiva caixa, tudo a fazer sentido no universo, mesmo quando parece que só existe caos e tragédia. De alguma forma tudo encaixava sem que conseguíssemos perceber, de alguma forma os mundos bailavam entre eles, os tempos garantiam que a noite sucedia ao dia, os antepassados viviam através de nós por mais inúteis que nos conseguíssemos sentir.

O calor era sempre forte e aparecia em datas marcadas, o Sul perfumava-se com o bafo do deserto e o mar esticava e encolhia ao ritmo da Terra que respirava. Não havia grandes equações para resolver. Os nossos netos acabariam por trilhar os mesmos caminhos e ter os mesmos medos, as mesmas frustrações e não havia nada que alterasse isso.

 

A mota descansava por fim na garagem. Amanhã era dia de trabalho. Numa viagem de ida e volta atravessámos galáxias pela fronteira permanente entre duas terras, entre dois tempos, entre nós e o futuro. Sobrevivemos, regressámos vivos. Continuaremos, e quando deixarmos de continuar talvez uma visigoda distraída nos venha receber, talvez uma profissional de docas, talvez a morte vestida com roupas leves e maquilhagem carregada se aproxime devagar

 

Ratita?

 

Artur

 

 

quinta-feira, 13 de maio de 2021

ATÉ AO BOSQUE DE POEMAS

 

 
 
Décimo dia do quinto mês de dois mil e vinte um. Cada dia me faz menos sentido usar o ecrã senão para dar os abraços que não posso dar pessoalmente porque vocês estão longe. Creiam que me continuo a mover nesta pequena ilha como antes pelo planeta. E que a forma como o faço, e o que que me impele, vem do lugar onde o meu coração está plantado.
Quando cheguei mal tinha forças para pegar numa mala de dez quilos. Toda a minha estrutura se desmanchava, se dobrava, com risco de se partir. Caí duas vezes no meio do terreno, de costas, e fiquei plantada a olhar para as estrelas. Era noite e tinha chovido, era de dia e eu não olhava para os pés. Hoje a tão negligenciada memória muscular é como o bordão dum romeiro, como a bengala dum cego. A terceira vez que caí arranjou-se o joelho direito que tanto incomodava. A rótula fez clac quando a perna ficou debaixo de mim, et voilá! Tudo deixou de doer.
Além de todos os episódios que me enfraqueceram para depois me fortalecer, apareceram-me uns anjos que me dão a mão da forma mais surpreendente. Deixei de ter dúvidas sobre o que mais me encanta nas pessoas e deixei de ter medo disso mesmo. E com este pensamento continuo a amanhecer.
 
Elsa Bettencourt



domingo, 25 de abril de 2021

A ABRILAR


 

 

Era o vigésimo quinto dia de abril de mil novecentos e setenta e quatro e era aqui que estávamos. Não fui à escola e a mãe pousou a agulha no inicio da quinta faixa das Cantigas do Maio. Tocou todo o dia sem se gastar. Começou com volume medroso e acabou no máximo a saltar nas poeiras que caíam do teto. Esse LP tinha vindo de Paris um ano antes, juntamente com o meu conjunto de marcenaria. Da cidade preferida dela, o lugar do mundo onde tinha sido tão feliz ao ponto de inspirar três livros de poesia escritos pela mão dum amor anterior ao meu pai.
Era o vigésimo quarto dia de abril de dois mil e dezoito e eu esperava-te no aeroporto da Portela, já com o nome de internacional de Lisboa, mas que eu ignorava como a todos os idiotas. Aos saltos, como a menina que em setenta e quatro gastou um disco de tanto o dançar. Estava sol e a cidade tinha-se vestido com a melhor luz para te receber. As nossas sombras eram de meio dia e assim ficaram até ao nascer da estrelas. Enchi as mãos de cravos vermelhos no mercado mais próximo da assembleia e deixamos um à Rosa que trabalhava na geladaria mais saborosa daquele quarteirão. Passeamos pela cidade sempre a pé, entre o Museu da Cruz Vermelha e o cais onde os avós não partiram no fim da segunda guerra mundial. Caminhamos até casa com o Tejo pela esquerda, com os olhos cheios de interrogações sobre aquela estória que é resumo da grande história, a que se viveu e se perdeu, a que aconteceu e desapareceu, a que encontramos entre os escombros duma casa abandonada, nas mãos duma apaixonante camarada, nas memórias dos vizinhos da rua Sousa Martins, nas minhas e nas tuas, nas de todos que se lembram e nas de todos que se esqueceram.
É hoje o vigésimo quarto dia do quarto mês de dois mil e vinte um. Gozo a minha liberdade de porta aberta, com um vendaval que tenta derrubar o resto da árvore meio partida. Tenho ferramentas que não vieram de Paris e as cantigas de abril e maio a tocar em loop desde o início do mês. Uso o machete com vontade de descobrir a alma da única planta que não se parte perante nenhuma rajada.
O bambu tornou-se em tudo o que quero ser nos próximos anos. Forte, flexível e cheia de fábulas.
Sem cravos vermelhos colhidos, oferecidos, ou comprados, festejo a liberdade com o pensamento na paz que encontrei neste jardim cheio dos meus mantras verdes. Tenho todas as flores que possíveis e cidrões do tamanho da ponta do meu dedo mindinho. O tal que adivinha quase tudo e me trouxe de volta ao aconchego do meu lugar.
 
Elsa Bettencourt

25 DE ABRIL SEMPRE


 


     Em novas coutadas
                

                              Junto de uma hera
 

                                             Nascem flores vermelhas
 

                                                                     Pela Primavera
 

                                                                   Assim tu souberas
 

                                                           Irmã cotovia
 

                                                                               Dizer-me se esperas
 

                                                                Pelo nascer do dia  

 

 

                                              José Afonso

domingo, 18 de abril de 2021

HELEN McCRORY 1968 - 2021

NA GARIMPAGEM DOS DIAS


 

Décimo sétimo dia do quarto mês de dois mil e vinte e um. Quando começo o dia neste lugar com além no nome é maior a sensação de lembrança do que a de esquecimento. Na dúvida tenho bordões, canas e paus, espalhados pela terra, e a copa das árvores a indicar-me o caminho. Não deixo migalhas porque nunca regresso pelo mesmo trajeto, sei que são petiscos para as asas que nidificam nesta micro amazónia, e porque gosto de me perder, seguindo rumos que só a alma desconfia. A vida ensina que é a melhor forma de nos encontrarmos. Esta vivência em nada me é estranha. O conforto é o essencial para não habituar o traseiro ao comodismo, a atenção não se perde dentro da caixa das notícias. e os auscultadores jamais tiveram lugar em nenhum dos meus ouvidos.
Se tenho saudades do Tejo, voo em pensamento até ele. Agarro nas imagens que tenho dele e, como a um amor há muito longe dos meus braços, deixo que o coração vagueie até à foz que o trará a mim. Até que nos encontremos outra vez é o mantra desta caminhada. Não vai ser agora que vou encarnar a saudosista, não agora que estou exatamente onde sempre suspirei para estar. Não por um homem lindo, nem pela mais bela caneta de aparo, nem por mil pedras preciosas. Aqui mesmo neste silêncio, manso como a superfície do lago Annecy, suave como a esteira duma canoa no Rio Negro. Dou por mim a dar meia volta ao planeta até voltar ao Bugio. E afinal já dei tanta sem nunca ter ficado tonta. Não mais do que antes, talvez menos do que depois. E como um pássaro, desses que seguem rotas geneticamente traçadas, pairo e plano até este cais de lava firme. De vez em quando dou um ar de graça pelo burgo, abraço com a força de antigamente as almas tão confinadas como a minha e, sem combinações prévias, encontramo-nos a pasmar para o mesmo pôr do sol, para o mesmo rebate de luz, para as pequenas flores que despontam tão cheias de primavera. O meu rádio de pilhas desliga-se sempre à hora certa. As notícias chegam-me por quem eu deixo. Censuro as minhas leituras como quem cata gorgulho num alguidar de milho. É a única forma de me ajudar e à farinha que dará melhor pão. É tudo farinha do mesmo saco.
De resto, com a lembrança em meia dúzia de projetos, e com outros tantos já bem consolidados, cuido de cada momento como às sementes que acabaram de me chegar, com carinho e cuidados, sejam bons ou maus. Porque sim.
 
Elsa Bettencourt

sábado, 10 de abril de 2021

A BATALHA DE LA LYS/ O NEVOEIRO E AS SOMBRAS

 

       A propósito de mais um aniversário sobre a batalha de La Lys, deixo aqui a entrada para o meu romance "O Nevoeiro e as Sombras" no dia da inauguração oficial do monumento aos mortos da Grande Guerra.

 

 

 

Naquela ensolarada manhã de Primavera todos os recantos das principais artérias da cidade de Lisboa exalavam um inequívoco cheiro a festa. Os ruídos faziam-se sentir de forma esporádica, entre longos intervalos de silêncio, e o passo dos transeuntes arrastava-se sem pressa, ao contrário de um dia normal de trabalho. Pouco antes do meio-dia a Avenida da Liberdade ia-se enchendo de gente aglomerada pelos passeios. Homens, mulheres e crianças com as suas vestes domingueiras esperavam pela abertura da cerimónia, esticando por vezes o pescoço em bicos de pés, para um lado e para o outro, na tentativa divinatória do início dos festejos. Muitos seguravam nas mãos pequenas bandeiras verde-rubras de papel que tremelicavam sopradas pela brisa, tal como as folhas das árvores que os protegiam com a sua sombra. Outros acotovelavam-se nas janelas decoradas por colchas de várias cores, penduradas dos parapeitos. As atenções concentravam-se em frente da Rua da Alegria, onde tinham sido erguidas três tribunas rodeadas por canteiros de verduras, flores e bandeiras. Ao centro ficava a do Presidente da República e dos membros do Governo. À direita, a dos membros do Corpo Diplomático, e à esquerda a dos Generais e da Comissão dos Padrões da Grande Guerra. Do lado de dentro da Avenida, mesmo em frente da tribuna presidencial, um buraco com cerca de três metros de profundidade constituía a essência daquela festa. Seria naquele cabouco que daí a instantes se faria a inauguração simbólica do monumento aos mortos da Grande Guerra. Uma obra de estatuária do escultor Maximiano Alves e dos arquitectos Guilherme e Carlos Rebelo de Andrade, onde iriam figurar, ao alto em pedra, a Pátria a coroar o soldado em bronze mais abaixo. No nível inferior, mais duas figuras de pedra, uma de cada lado, sustentariam a primeira. Na base ficaria a legenda: “ Ao serviço da Pátria, o esforço da Grei”. Embora a inauguração do monumento tivesse tido lugar em 22 de Novembro de 1931, as cerimónias do lançamento da primeira pedra ocorreram naquela tarde de 9 de Abril de 1923, no mesmo dia em que passavam exactamente cinco anos sobre a batalha de La Lys.

Em pouco tempo o trote de um esquadrão de cavalaria da GNR encheu o espaço com o som dos cascos dos cavalos, abafando a respiração ruidosa da multidão. A pompa transbordava na garbosidade dos cavaleiros, nas crinas e caudas meticulosa e artisticamente entrançadas dos cavalos, no brilho dos dourados e no ondular sincronizado de plumas e penachos de um só andamento. Logo atrás vinha a carruagem aberta do Presidente da República, correctamente sentado, costas direitas e braços esticados à frente apoiados na bengala. Parada a carruagem, assim que tocou com os pés no chão o ancião republicano foi entusiasticamente aplaudido. António José de Almeida agradeceu o cumprimento colectivo levantando a cartola da cabeça enquanto acenava para a multidão. O rosto, outrora redondo, sinal de contentamento e boa nutrição, havia perdido parte substancial da sua curvatura para dar lugar a um semblante mais magro e triangular, cavado pelas rugas. Os eternos bigodes arredondados nas pontas e a barbicha pendurada do queixo em forma de “V”, eram agora mais fartos e completamente brancos, compensando o alargamento e a profundidade da calva. O grande revolucionário de outros tempos estava velho e magro, deslocando-se com a ajuda da bengala, como se transportasse sobre os ombros todo o peso das contradições, do desgaste e das traquinices de uma jovem república que tinha ajudado a nascer. A sua chegada formalizava a abertura da cerimónia ao som dos primeiros acordes de “ A Portuguesa”, imediatamente correspondidos em coro pela multidão ali presente. Os homens tiravam os chapéus da cabeça e os militares faziam a continência perante o olhar espantado de algumas crianças. A nação valente e imortal levantava de novo o seu esplendor transmitindo às gerações mais novas um passado de glória e orgulho, bem como uma identidade para o futuro... pelo menos durante aqueles breves instantes em que entoava o seu hino.

Discretamente, junto à tribuna presidencial tinha sido reservado um espaço com algumas dezenas de metros de extensão, onde agora se perfilava um grupo de cinquenta a sessenta pessoas que se destacavam das restantes pela negritude das suas vestes. Viuvas, orfãos, estropiados ou simples veteranos, todos tinham em comum a marca da Grande Guerra tatuada nas almas. Mulheres relativamente novas escondiam a sua tristeza atrás de véus negros de renda caídos das abas dos chapéus ou envolviam o rosto em lenços da mesma cor, fechados em forma de nó sob o queixo, conforme as origens. As crianças substiuiam os olhares atónitos das outras por uma frieza quase indiferente das órbitas, num lugar onde a esperança não tinha espaço para acontecer. Algumas traziam no peito as condecorações que os pais não tiveram tempo de receber. Os homens tinham o rosto fechado em expressões empedernidas, desprovidas de ódio ou de ternura. Sentados em cadeiras de rodas, amparados por muletas, com mangas de casaco dobradas na ausência dos braços ou sem mazelas evidentes, compunham o pedaço da nação valente sacrificado na última afirmação de esforço colectivo. Pareciam estar todos ali, não por eles, mas para contar o sacrifício e a lembrança dos que não voltaram. Para dizer que o esforço do desconhecido que passou a morar para sempre em câmara ardente no Mosteiro da Batalha foi o esforço de milhares de lares na sequência de uma longa noite de escuridão em que um continente inteiro mergulhou durante quatro anos.

Entre esses sobreviventes contavam-se alguns protagonistas de uma das mais duras batalhas em que esteve envolvido o exército português, precisamente aquela que hoje comemora o seu quinto aniversário, a de La Lys. Era o caso do cabo de artilharia na reserva Manuel Paiva, que agora tentava acompanhar o hino. No lugar da letra emitia uns gemidos semelhantes à melodia, incapaz de se recordar das palavras. Embora sentado numa cadeira de rodas, mantinha intactos o seu corpo bem como a capacidade locomotora. Era o seu cérebro que não conseguia andar. Padecia daquilo a que mais tarde se viria a chamar “fadiga”, ou “stress de guerra” ou ainda “ stress pós-traumático”, passando os dias num hospital psiquiátrico sentado a uma janela a ver o rio. O escuro vazio da expressão do seu rosto era ao de leve interrompido por um brilho tímido, pelo trinado de um canário colocado na enfermaria à revelia das regras. – Umas vezes melhor, outras pior... – era tudo o que a enfermeira sabia dizer a Vicente, antigo camarada de armas que o tinha ido buscar nessa manhã para a cerimónia. No camião do exército que o transportou até à Avenida da Liberdade, fizeram todo o trajecto em silêncio ao lado de outros veteranos ainda em terapia de recuperação das sequelas deixadas pela guerra. Para Vicente, o ex-cabo não era maluco. Estava apenas separado do mundo por uma barreira invisível que só seria derrubada quando ele quisesse voltar ao lado de cá. Pouco ou nada dizia, embora no seu olhar se percebesse que compreendia quando falavam com ele. Tanto podia de repente passar para o lado de cá como podia continuar atrás daquele muro para sempre. Umas vezes melhor, outras pior...

Quando o encontraram julgaram-no morto. Estava deitado na cratera de um morteiro, olhar vago apontado ao céu. Manteve-se fechado naquela expressão numa cama de hospital de campanha durante duas semanas. Só se começou a mexer quando voltou a ver o sargento Vicente de Jesus à cabeceira, equilibrado em duas muletas, a transportar uma perna inteira em gêsso e um enorme penso em diagonal sobre o lado direito da testa. Olharam-se por breves instantes sem dizer nada. Instintivamente, as mãos direitas de cada um aproximaram-se uma da outra, abraçando-se pelos polegares. Foi a primeira vez que se tocaram depois de um morteiro alemão ter caído nas proximidades da sua bateria de metralhadoras, soprando-os pelo ar. Só eles os dois tinham sobrevivido. Desse dia 9 de Abril de 1918, Vicente guardava a marca rectilínea de uma cicatriz na testa, bem como um ligeiro coxear da perna direita, que lhe doía sempre que havia mudança do tempo. Embora com 28 anos, o seu rosto desenhava um homem que se aproxima a passos largos dos 40. No peito ostentava a Cruz de Guerra de segunda classe e a Distinguished Conduct Medal, atribuída pelo exército britânico.

A batalha de La Lys, ponto de passagem obrigatória dos discursos daquele dia, constituía uma das páginas mais sangrentas e mais corajosas de toda a prestação do exército português na I Guerra Mundial. Incorporada no XI Corpo de Exército Britânico, a 2ª divisão do Corpo Expedicionário Português estava incumbida da defesa de um sector de 11Km de desenvolvimento na planície da Flandres, entre a 40ª Divisão britânica a Norte e a 55ª a Sul. À beira do esgotamento físico, com um grande desfalque de efectivos e afectados por uma enormidade de carências, as tropas portuguesas resistiram como puderam às sucessivas investidas de artilharia e infantaria germânicas. No fim, entre mortos e prisioneiros contaram-se sete mil e trezentos. A trágica previsão do emprego da Divisão portuguesa, comunicada a 8 de Abril aos comandantes de brigada pelo chefe do XI Corpo Britânico de Exército, o Tenente General Haking, tinha-se confirmado: “ A Divisão deve morrer na linha B”. As imagens chegavam inevitáveis, dos confins da memória ao ritmo das evocações. Na noite de 8 para 9 de Abril o ânimo era elevado com a chegada da notícia de rendição breve das nossas tropas. Por falta de efectivos e na ausência de reforços, havia quem já estivesse na linha da frente há dois e três meses. A alegria terminou por volta das quatro da manhã, quando a artilharia alemã fez chover as suas primeiras descargas de morteiros. Quatro horas depois a infantaria saltou das trincheiras, percorrendo num àpice a terra de ninguém, até chegar às primeiras linhas dos sectores luso-britânicos. A seu favor o exército alemão contava com um inesperado e poderoso aliado: o nevoeiro. O nevoeiro através do qual chegavam as primeiras explosões da barragem de artilharia; o nevoeiro que cobriu a progressão dos soldados na segunda fase da ofensiva; o nevoeiro que não deixava perceber se quem lá vinha era o inimigo ou alguém que batia em retirada. Vicente recordava-se de estar agarrado às metralhadoras, o corpo a estremecer ao ritmo das rajadas, perdido na indefinição dos vultos que lhe surgiam à frente. Ao fim de quase dois anos enfiado naqueles buracos lamacentos, o instinto dizia-lhe que era preciso disparar sobre tudo o que mexesse. Em caso de dúvida... matava-se primeiro. Foi o que fizeram na sua bateria, contribuindo dessa forma para repelir a primeira investida dos alemães.

“ Ajoelho piedosamente ante a memória dos heróis, símbolos augustos da Pátria! quem foram eles? Ninguém o sabe nem importam os seus nomes. Os verdadeiros grandes homens não têm nome. Vivem impulsionados pelo amor de todos, como as ondas do mar ao sabor da ventania...”

As palavras do Presidente da Comissão dos Padrões da Grande Guerra, dr. Magalhães Lima, provocaram em Vicente um resmungo irreprimível. - Filho da puta... - ao nevoeiro da batalha seguia-se o nevoeiro da memória. Os guerreiros só tinham direito a ter um nome antes de serem arrancados às familias e posteriormente despejados no talho gigantesco que é a guerra. Depois de mortos passavam convenientemente à categoria de anónimos, sendo apenas nessa condição dignos de homenagem. O Manuel, o António e o Joaquim mudavam o nome para “desconhecidos”, passando a morar todos numa campa só, no Mosteiro da Batalha. Era com essa identidade que passariam a figurar nos discursos e nas cerimónias oficiais. Para os lembrar com o nome que os pais lhes haviam dado existia aquele bando de espantalhos, camaradas e familiares. Como aquela delegação de mutilados que agora cumprimentava o Presidente da República, antes de este descer ao buraco onde mais tarde assentaria o monumento.

Um ângulo de Sol incidiu por momentos no fundo do cabouco. Lá em baixo podia ver-se um pequeno cofre de mármore ainda aberto, onde tinham sido colocados o documento que registava o auto de cerimónia e um exemplar de cada moeda em circulação naquela data. António José de Almeida desceu por uma escada improvisada de madeira com alguma lentidão. Um dos auxiliares forneceu-lhe uma colher de prata e um martelo para que pudesse colocar a tampa no cofre e calafetá-lo com cimento. Depois deu-lhe três pancadas simbólicas, passando os apetrechos ao Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, que o imitou. Repetindo o ritual das pancadas seguiram-se o Presidente do Governo e o Ministro da Guerra. Dois rapazes orfãos de guerra aproximaram-se então a passo lento, segurando entre si uma enorme coroa de flores que depuseram sobre o cofre. Visivelmente emocionado o Presidente da República beijou-os nas faces.

Desde as quatorze horas que estavam formadas, ao longo das Avenidas da República e Fontes Pereira de Melo, as forças da Guarnição de Lisboa. O desfile decorreu ao longo da Avenida da Liberdade na direcção do Rossio, assim que terminou a colocação da coroa de flores pelos orfãos. Ao som dos tambores, os estandartes e as bandeiras abriram o desfile para gáudio de cerca de vinte mil pessoas espalhadas pela Avenida.

De pé na sua tribuna, o Presidente da República recebia a continência das várias forças em parada. Vicente baixava-se ao ouvido do seu antigo camarada de armas, explicando-lhe quem era cada força que passava como o pai que tenta integrar o filho num espectáculo até aí inédito para ele. O batalhão da Armada, os regimentos de infantaria... O ex-cabo Manuel Paiva esboçava aqui e ali um sorriso tímido, apontando com o indicador um ou outro pormenor que só ele conhecia, que nascia e morria nele. Estava a desfilar o Regimento de Lanceiros com as suas flâmulas vermelhas ao vento na ponta das lanças, num trote curto e elegante das montadas, quando para os lados do castelo de S.Jorge um estrondo de canhão encheu o ar.

Não é nada Manuel – tranquilizou Vicente – é só um tiro de salva. Olha! Parou tudo. Vês?

-  Como previsto, o disparo de artilharia marcava o breve período de dois minutos de silêncio pelos mortos em combate. O Regimento de Lanceiros estacou mesmo em frente da tribuna presidencial, os militares fizeram a continência e os civis descobriram-se. O silêncio invadiu a cidade. No Rossio houve quem tivese ouvido o cantar dos galos na Praça da Figueira e, àqueles que estavam no alto da Avenida da Liberdade, chegaram distintamente os sons dos sinos da igreja de S.Roque. Todos os veículos civis pararam, ficando os seus ocupantes de pé no exterior. Até a companhia Carris cortou a corrente, imobilizando toda a sua frota de eléctricos. Como que de propósito, as nuvens taparam o Sol pela primeira vez naquela tarde. A cidade ficava suspensa como se de repente tivesse atravessado os campos da morte. O ex-cabo Paiva olhava em redor interrogativo. Depois abriu a boca para grunhir qualquer coisa, parando de imediato com uma festa na cabeça. A mão de Vicente surpreendeu-o.

Agora não Manuel – indicador à frente dos lábios – Agora não.

-  Com outro tiro de uma divisão de artilharia, o desfile retomou o seu curso e a cidade voltou a respirar. Os Lanceiros prosseguiram o seu trote a toques de clarim, seguidos pelas outras tropas. Nessa tarde as cerimónias terminaram com uma missa por alma dos mortos da guerra na igreja de S.Domingos.

Vicente deixou a Avenida no fim do desfile, depois de entregar o ex-cabo Paiva à unidade de transporte militar colocada para o efeito à disposição dos veteranos.

- Adeus rapaz. As melhoras. Eu depois vou lá ver-te, está bem? – Manuel sorriu-lhe com os olhos vazios, focados em lado nenhum. Pelo menos reconhecia-o, pensava Vicente. Pelo menos tinha uma ideia, ainda que mínima, do que se passava à sua volta. O seu olhar no entanto, parecia querer dizer que não lhe apetecia saír de onde estava para voltar a ver o lugar de onde partira. Umas vezes melhor, outras pior...

 

Artur

 

 

quinta-feira, 18 de março de 2021

A CHEIRAR A PRIMAVERA.

 

 
Décimo sexto dia do terceiro mês de dois mil e vinte e um.
Hoje o céu até aqui está azul. Acordei com o rebuliço dos pássaros no telhado, fiz a caminhada matinal com o cão-lobo a meu lado, dei farinha aos pintos; à mãe e à tia deles. Fiz o pequeno almoço depois dum duche reparador e levamos a mais nova ao trabalho. Daqui até lá não demora mais de dez minutos a não ser que passe alguma manada a mudar de pasto. Voltei para casa com passagem pela Loja do Doutor Jorge que agora é minimercado e o café Caravela. Tem uma mesa corrida cá fora onde me sento com o cão a degustar a única cafeína do dia. Tudo isto com a paisagem verde estonteante e as casas dum presépio que sempre fez parte das minhas mais recônditas memórias. No dia oito nasceu uma menina que é o membro mais recente da minha família de coração desta ilha abençoada. Longe da Amazónia que tanto amo, esta menina recebeu um nome tupi-guarani de senhora das águas, de sereia do rio amazonas. Que seja abençoada por todos de lá até aqui.
Da galinha que cuidei, e dei abrigo nas noites de tempestade, vieram três pintos mesclados de todas as raças do galinheiro do vizinho. Ele, vendo o meu cuidado com a dita, ofereceu-me a família. Não disse que sim nem que não, mas sou madrinha. Também salvei da ira das outras galinhas da capoeira uma galinha castanha que é a mais descarada de todas. Perante os ataques das outras, e as tentativas dos galos para montá-la, fez-se de morta a cinquenta metros dos meus olhos. As outras ainda lhe arrancaram metade da crista à bicada para se certificarem da morte súbita da pobre esfrangalhada. Como ela não se mexia foram-se embora comer para outro canto do pomar. Abri a porta do galinheiro e chamei-a. Ela ressuscitou e correu para a liberdade. Toma conta do quintal e dos sobrinhos, desafia o cão e deixa que lhe faça festas nas penas novas. A crista já está quase sarada. Descobri que não é brincadeira, mas disputa pela minha atenção, que leva o galináceo e o cão a uma dança de quase capoeira. Ainda há quem pergunte se me falta televisão com este “National Geographic” campestre...
Continuo sem ver notícias além das locais e das que me dão diretamente. Desejo-nos o melhor.
 
 
Elsa Bettencourt,

 

domingo, 28 de fevereiro de 2021

A TROCAR AS VOLTAS


 

 

 

Vigésimo sexto dia do segundo mês de dois mil e vinte e um.
Piada local, quando me deparo com os vizinhos destes caminhos e canadas, é que estou farta de sol e nunca me esqueço do protetor solar. O facto é que, desde que cheguei, as sardas voltaram ao lugar onde estavam , e os pensos rápidos vão alternando nos dedos da mão direita. Imagino que este seja um inverno de teste para locais longe do estado de emergência. Talvez um castigo, talvez uma prova, ou somente um acaso. Nestes tempos que correm, mascarados e nebulosos, estar na ilha mãe que por sinal é a ilha que pariu o meu pai e todos os nossos antepassados até ao décimo quinto tio avô Velho, é a maior benção
Da nossa família, num lugar em que somos todos parentes, os mais ligados à terra são os Figueiredos e os Falcões. Nunca conheci nenhum muito chegado às artes de marear e quando, ainda miúda, comecei a ir mar adentro, a minha mãe dizia-me que era herança do lado madeirense. Nem vou divagar mais sobre as minhas andanças entre cabos, velames, e tormentas. Outro dia em que esteja com os pés na água salgada e sem ver terra vermelha há pelo menos uma semana. Agora, com quatro meses daqui, o apelo da terra é tão grande que me esqueço de ir ver o mar e de que estou num torrão de noventa e sete quilómetros quadrados no meio dele. O cheiro dos rebentos floridos toma conta de mim como a própria primavera. Com a chuva nas duas mãos e o sol no pensamento, passeio sob a lua com um lobo como sombra. Juntos farejamos a passagem das estações, das matas e das pastagens. A erva molhada, os excrementos bovinos, o intenso aroma doce da respiração das flores adormecidas, o fumo das criptomérias, dos incensos e outras madeiras azóricas que ardem em fornos com promessas de pão quente. Há manhãs em que ele me traz um ovo e o deposita depois do portão, outras em que se refastela a comê-lo deitado qual nababo em pleno Rajastão. E é entre estas meadas de estórias que desfio os dias sem parar senão para o ímpeto da contemplação. Das notícias só o que me contam ou vou lendo por aqui. Aos meus colegas e amigos desejo-lhes força e coragem para as decisões que tomarem. Apesar de estar reformada por uma rasteira do destino, estou aqui porque desenvolvi a arte de aproveitar a festa da vida até ao apanhar da última cana do último foguete. Estou aqui porque dou pouco uso tanto ao indicador como ao dedo médio para o respetivo pirete. Estou aqui porque a dormência não me adormeceu aquilo que é preciso para seguir em frente, alongar-me e desbravar caminho. E estou aqui porque tenho uma médica de família, maravilhosa, que me acompanhou sempre e percebeu que eu estava a ficar deprimida, me receitou o que era preciso para eu me ir equilibrando perante as decisões irreversíveis que o destino tomou por mim, e me fez ver que uma incapacidade não diminui mas pode adicionar, apurar, o melhor que temos. Por isso acordo com chuva e digo que estou farta de sol, até o dia em que estiver farta de chuva.
 
 Elsa Bettencourt

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

PORQUE É QUE PORQUÊ ?


 

Daqui a uns meses o tema mudará…muda sempre. O virus pandémico acabará por ser neutralizado por uma vacina, por imunidade colectiva ou, discretamente sairá de cena dando como encerrados os seus trabalhos. Algumas partes dos teóricos da conspiração acabarão por se revelar verdadeiras, outras não. Nessa altura outro medo nascerá, outra tragédia nos irá encher os dias para que a nossa condição de ovelhas assustadas não seja alterada. Se pararmos para pensar e respirar um bocadinho a maior parte das coisas passa a ter outro sentido, o medo torna-se menos intenso e aquilo que achamos ser fica posto em causa. Não passamos de um cagagésimo de tempo a viver num cagagésimo de espaço no meio do universo. Porque é que haveríamos de ser importantes? Porque é que havemos de acreditar sem espírito crítico outros como nós que dirigem o circo enquanto nos sujeitamos sempre a montar as bancadas? Um circo que está sempre em perigo, ora pelo fogo, ora pelas chuvas, ora pelo vento, ora pela falta de pessoas na assistência?

E porque é que não aproveitamos a vivência de tempos anormais para nos realinharmos no plano da existência e do comportamento ? Porquê ? Primeiro porque aquilo que nos acontece, a maior parte das vezes não tem nada a ver com a nossa vontade. Por mais que amemos alguém ele morrerá sem que nada possa ser feito por nós para o evitar. Se a Economia entra em crise, o nosso contributo de pouco ou nada valeu para isso acontecer. Por mais atentos que possamos estar em relação à preservação do ambiente, nunca chega. A degradação continua bem como o complexo de culpa que nos metem na repetição do discurso como se dependesse de nós. Não depende.  Os fenómenos da conjuntura são sempre insondáveis mas acabam sempre mal e com as piores consequências sobre os mais fracos. Sempre. Dá ideia de estarmos dentro de um jogo de futebol com um árbitro corrupto que e engana sempre para o mesmo lado.

O medo é orientado em vagas que se aproximam e afastam para melhor controle das multidões. Não percebemos nada do que se passa nem nunca vamos perceber.

 

 

 

 

 

 

Assumamos pois o cagagésimo que somos para cagar de alto neste cenário absurdo e sem sentido onde fomos obrigados a viver. Não saindo dele mas subvertendo-o através de acções e comportamentos com os quais nos consigamos identificar. Com razões de benefício e partilha com os outros, de conciliação com o ambiente, respeitando a vida e os mais fracos. Equilibrando as relações de trabalho. Transformando o Absurdo numa coisa mais agradável em que a ausência de sentido deveria premiar quem sempre o quis encontrar. Qualquer coisa deste género…

 

Artur

 

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

ENTRE HERÓIS E ASSASSINOS


 

 

A propósito de heróis e de assassinos, a propósito de julgamentos simplistas e dificuldade em digerir o passado colectivo, a propósito de homens que carregaram consigo os seus fantasmas deixo-vos um extracto do meu último romance. Fala de um personagem fictício mas a história que conta pertence à realidade. Pertence a alguém que conheci. Como morreu este ano tomei a liberdade de a certificar. Vão com calma, leiam muito, ouçam bastante. Nada é como vos dizem...nunca. 


"

Lembro-me do tio Armando toda a vida a empurrar um escritório de contabilidade com mais dois economistas, um lugar escuro num rés-do-chão na Estrada de Benfica a cem metros do Jardim Zoológico. Falava muito pouco, vivia sozinho com os seus fantasmas ou com as suas vozes. Vozes que só conseguia calar com várias imperiais no café da esquina ao fim da tarde antes voltar para casa. As suas histórias chegavam a nós em pedaços de cada vez que nos encontrávamos num aniversário ou em qualquer outra ocasião para uma reunião de família. Sem nunca vacilar ou dar indícios de estar bêbado era a sua língua que se ia soltando movida pela viagem daquele dia pelos corredores da memória. Tinha sido casado mas separou-se assim que voltou da guerra. Durante anos não conseguiu ver o filho e, muitos anos depois foi o filho que não o quis ver mais. Soubemos que tinha voltado de África com uma Cruz de Guerra no peito e uma depressão que demorou anos a tratar. Quando bebia dizia-nos várias coisas

 

      Nunca acredites em nada do que te dizem.

 

Soltava pedaços do seu passado pouco se importando se alguém os apanhava no caminho. Falava de histórias povoadas de hipocrisia, de como ser jovem é quase igual a ser um idiota, um crédulo que espera dos outros um discurso de apoio e verdade, uma mão amiga que o ajude a entrar na vida. Falava de coisas horrorosas que se passaram na guerra sem as especificar. Usava metáforas, pintava os episódios com traços gerais

 

       Nunca acredites em nada do que te dizem porque é tudo mentira

 

Os pais dele e os pais da tia Amélia convenceram-nos que deviam casar, que era o melhor para eles, para o seu futuro. Convenceram-nos que não havia mais nada para procurar nos territórios das opções e eles acreditaram. O seu casamento foi uma união frutífera para todos menos para eles os dois. Depois foi a guerra. Convenceram-no que era preciso avançar, defender Portugal fora de Portugal, marchar para um espaço que só conhecia nos mapas. E ele acreditou, e ele foi. Três anos depois a sua rotina era um calvário de comprimidos de todas as cores, os internamentos a rotina dos meses, o ódio pela mulher e pelo filho uma força constante que o queimava por dentro. 

 

    Nunca acredites em nada do que te dizem porque é tudo mentira.

 

O tio Armando nos aniversários de rosto fechado atrás de uma garrafa de whisky a querer dizer, a imaginar que iria conseguir

 

   filho

 

mas a sua boca cerrada como um túmulo, os olhos vagamente focados, a palavra que lhe saía da boca mas que acabava por se esconder, a família à volta, a algazarra e no entanto nos dedos, nos gestos mais simples

 

  filho

 

a palavra que nunca chegou a sair por que nada valia a pena e era tudo mentira. Um homem esmagado sobre si próprio que a família cuidava como se de um móvel raro se tratasse, com muito cuidado e respeito, as consultas e os internamentos em psiquiatria. A mãe sempre a desviar a atenção

 

   O vosso tio está muito cansado, é só isso

 

E as reuniões, os almoços de veteranos, as rixas nos bares mais manhosos da cidade, a policia a ligar lá para casa. O pai a caminho da esquadra, os dois de regresso no carro e quando mais entorpecido pelas drogas quase que um braço estendido, quase que uma palavra que dizia

 

  filho

 

uma palavra que nunca disse, uma palavra que  foi deixando desaparecer até não ser palavra nenhuma, um olhar vago com cada vez menos interesse e o filho a desaparecer também para uma cidade do interior sem ligações nem telefones nem mensagens no Natal

 

muito cansado para responder ou estabelecer qualquer tipo de contacto

muito cansado, só isso

 

Até que um dia o tio Armando tapado por uma bandeira nacional e dentro de uma caixa de madeira debaixo de um enorme aguaceiro no crematório municipal, vários camaradas de armas, rostos fechados como o dele, a família, o filho que veio já no fim com dois netos pela mão, as condolências, o fumo que da chaminé do crematório a serpentear no meio da chuva, o fumo que parecia querer dizer

 

filho

 

mas não disse

 

 o fumo que parecia querer dizer

 

Não acredites em nada do que te dizem porque é tudo mentira

 

As cinzas no fim que também queriam dizer qualquer coisa mas não disseram limitando-se a ficar ali dentro da sua cor cinzenta numa caixa prateada, as cinzas que pareciam querer dizer

 

filho

 

mas que se calaram como de resto todos os outros ali presentes enquanto decorria a cremação     

 

             as cinzas que quando mais tarde se precipitavam no mar em pleno nevoeiro da Praia Grande noutro dia de chuva e vento, as cinzas que por fim desabafaram antes de se despedir que houve uma operação na Guiné há muitos anos, um ataque de surpresa ao inimigo em que duas crianças de oito anos apareceram de repente no caminho. Duas crianças que rapidamente dariam o alarme comprometendo a operação, colocando as vidas deles em risco, não poderiam ser libertadas de maneira nenhuma. Duas crianças encostadas a uma árvore com as cabeças ligeiramente tombadas e um risco vermelho a atravessar o pescoço, duas crianças e um jogo macabro de quem tira a sorte naquele dia, e a faca de mato do tio Armando pendurada de uma mão a pingar

 

filho

 

de modo que nenhum pai gritou naquela noite, nenhuma árvore chorou, nenhum soldado chamou

 

filho

 

duas crianças que ficaram para ali para sempre encostadas a uma árvore de pescoço cortado na cabeça do soldado a quem tocou em sorte eliminá-las, duas crianças que nunca mais deixariam o soldado aproximar-se do seu filho sem se lembrar delas, duas crianças que viveram sempre com ele até ao fim. Isto contaram as cinzas enquanto a espuma das ondas as enrolava, enquanto o vento as espalhava para longe, isto tudo contava uma tarde fria e chuvosa de nevoeiro na Praia Grande, isto contavam várias vozes, vozes de um veterano perturbado pelos seus fantasmas, vozes de duas crianças sentadas na base de uma árvore antes de uma operação muito importante de que já ninguém se lembrava, isto contou aquele dia de cinzas e mar. E na praia, nos nossos passos silenciosos a areia repetia-nos sem pressa

 

nunca acreditem em nada que vos dizem porque é tudo mentira."

 

Artur