quarta-feira, 6 de abril de 2022

QUARTO DIA DO QUARTO MÊS

 Quarto dia do quarto mês de dois mil e vinte e dois.

Os dias agora contam-se de forma diferente.
Vejam bem o que nos fizeram e nós sem sabermos quem nem porquê. Primeiro obrigam-nos a ficar em casa , depois fazem-nos medo por sair dela, proíbem o toque e a interação, e resumem as vidas dentro dum ecrã.
Os repórteres de todos os canais tornam-se nos emissários responsáveis por trazer tudo o que está para lá da porta da rua. A nossa imaginação, atordoada por dois anos de dramas, doenças, confinamentos e vacinas,responsabiliza-se pelo resto. Um dia lá longe alguém há-de estudar o stress pós traumático coletivo por estes anos de obscurantismo.
O número de mortos pelo virus passou a segundo plano e aquela guerra lá longe mas que dizem ser perto é tratada como se fosse à nossa porta.
Corremos para as filas do combustível como para a do papel higiénico. Uma semana baixa, outra semana sobe, e nós fantoches seguimos a onda num drop de iludido controle. A fome continua em África e morre-se dela mais do que em todas as batalhas na Europa. Há inundações na cidade maravilhosa e, que eu saiba, ainda não se descobriu nenhuma forma de solidariedade que canalize as venturas para as desventuras, nem transforme o dinheiro da guerra em fundos fiduciários mais concretos para o drama do Mediterrâneo central. Há os fundos da seca e os fundos de todas as calamidades. Aqui ao lado há um vulcão indeciso e gente assustada. Nem sei se alguém está a cuidar do coração dos que mais precisam. Ainda ontem vi um senhor a chorar porque os santos da igreja quase vazia estavam no chão como precaução dum abalo que pode vir mais forte ou não.
Não sei que máscara deva usar ou se lhe junte uma venda com tampões acoplados. Fico-me pelo botão vermelho do lado direito do comando e desligo.
Há uma casa por acabar e terra por plantar.
Quanto aos senhores disto tudo desgosto tanto duns como doutros. Nem o autocrata, nem o ator, nem o velhinho se safam do mar das mentiras. Nem nós.
Elsa Bettencourt a plantar o que semeou