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sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

A UM SOL QUE BRILHA AGORA


 

Quarto dia do décimo segundo mês de dois mil e vinte cinco.
Tenho escrito bastante e publicado por aqui muito pouco. A minha passagem de ano foi no primeiro de outubro e os maiores presentes chegaram nesse mês como no Natal. Agora é consolidar o trabalho de mais de dois anos em terapia, o cuidado, o respeito, o mimo, a paciência com mãos cheias de amor, para comigo. Estar rodeada por água num torrão de terra que é tão berço como aprendizagem não é coisa leve, não é para meninas de cabeça de vento e sim para senhoras que sabem o que fazem, para onde caminham mesmo na escuridão. Há que ter competências, priorizar sempre o amor próprio e o conforto extremo dentro do desconforto de não estar a um braço de distância daqueles que me tocam mais. Ao longo do ano que agora termina fui priorizando afetos dentro das causas, consolidando laços dentro dos projetos, verbalizando necessidades dentro da abundância, enumerei faltas dentro das presenças, partilhei sentimentos e pensamentos em momentos que tudo parecia feito e dito. Há como uma medula nova dentro deste corpo que se recria em espírito musculado, dando especial atenção ao sentir e pressentir.
Vejo muita tristeza, muita luta inglória, muito desgaste no mostrar em vez de ser, muita afirmação colada e copiada vivida no vazio do conteúdo digital.
Nos intervalos, que são maiores do que cada episódio, remeto-me às obrigações do lar, impostas de mim para mim sem nenhuma intervenção do ego e para o colocar no devido sítio. Desde limpar o pó a lavar o chão de quatro com o afinco de quem faz uma mandala, a cavar um metro de terra ou a fazer casas para os residentes alados e terrestres com a dedicação duma arqueóloga acabada de formar, vale tudo até a educação complementar dos animais que são a família mais próxima e a minha maior responsabilidade. Pelo caminho apanho espinafres selvagens, lancho capuchinhas, recolho pinhas para eventos natalícios, catalogo as árvores novas, tomo um duche gelado, leio a poesia que me sustenta, bebo chá de alecrim que é alegria e pensamento aguçado, sento-me a meditar entre os amigos peludos que me acompanham. Aí converso, neste silêncio, com os meus passados que já desencarnaram, viajo com eles dentro de todas as palavras que trocamos antes e trago-as até ao presente. O sol que brilha agora, antes era uma chama pequenina atrás dum céu cheio de nuvens. Essa luz faz diferença entre o dia e a noite, e é ínfima perante a luz que tenho que manter acesa no centro da existência. É o santo graal de cada um de nós, a responsabilidade de ser melhor, mais gentil, para conosco. Amem-se, não se distraiam com o ruído digital. Cuidem-se, não deixem nenhum milímetro por cuidar. Procurem ajuda técnica para os pensamentos corrosivos. Aceitem uma massagem pelas mãos de quem sabe recolocar a vossa essência no lugar. Combatam os movimentos ditatoriais com movimentos amorosos para com o próximo. Abracem mais, dancem muito, cantem pra caraças até abrir cada alvéolo pulmonar. Estiquem-se. Dobrem-se. Alonguem-se até à folha mais alta e agradeçam até à raiz mais profunda.
Com Amor.

terça-feira, 3 de dezembro de 2024

DEZEMBRO FELIZ


 

Neste dia primeiro do décimo segundo mês de dois mil e vinte e quatro escrevo já tarde. Está um frio bom lá fora e tenho as estrelas limpídas a brilhar sobre a cabeça. Este ano, cada dia dele, foi de muita gratidão e aprendizagem, talvez por ter sido um ano de muita dor, muita terapia, muito amor, silêncio encoberto por gargalhadas sonoras. Nenhuma das minhas melhores amigas, nem um dos meus melhores amigos,está aqui,nem o meu filho, nem as minhas filhas, nem a minha neta. Sou filha única e órfã de pai e mãe há demasiados anos para sequer contar com um abraço que conforte qualquer queda. A segurança do vosso amor é que me desenha cada passada e me ampara todas as quedas. A lembrança dos vossos abraços é como o calor destas estrelas que sobre mim brilham tão límpidas no céu de veludo escuro.
Brindo aos amores passados com um chá a ferver entre as mãos e novamente agradeço, mesmo aos que me magoaram, porque aos que eu magoei já lhes pedi perdão. Ganhei músculo contra déspotas com pelugem fofinha e instagramável.
Sou tão voluntariosa como apaixonada e isso leva-me a cuidados redobrados com esta menina que dança debaixo da pele de senhora de meia idade. Trago comigo os ensinamentos de casa,da escola, da praia e das tempestades,dos voos, duma vida cheia de tudo e dos livros,filmes e músicas que vou devorando ao longo dos anos que são bastante inferiores ao número de hemáceas que compõem a minha corrente sanguínea mas não renováveis a cada cento e vinte dias.
Aprendi, finalmente, a não me deixar para trás, nunca. No fim do dia, antes de me deitar, depois duma caminhada noturna com os animais que fazem parte deste lugar, recolho-me da vida como é e embrenho-me naquilo que também me compete. As linhas diárias de escrita, os lençóis aquecidos pelo ferro de engomar, as portadas das janelas fechadas, a máquina de roupa pronta a rodar, a cama do lobo esticada ao lado da minha, as plantas regadas, a louça a pensar se vai ser lavada, as panelas ainda quentes dos sabores partilhados. Sou pessoa de muitas pessoas, sou uma solitária que adora gente por cada característica que as compõe.
Amanheci ainda antes do céu abrir neste dia terceiro do último mês. Há nuvens com pinceladas de cor de laranja sobre as árvores na quadrícula esquerda da janela da cozinha. Está frio e o café acorda-me docemente enquanto a visão de mais um dia bom alegra-me o acordar. A cada dia novos amigos aparecem e antigos amigos reaparecem. Preparo as botas e a camisola mais quente. As tarefas aqui são como o trânsito na segunda circular, lentas. De resto em nada se comparam.
Dezembro feliz!

Elsa Bettencourt

terça-feira, 9 de julho de 2024

PORQUE É VERÃO


 No nono dia do sétimo mês de dois mil e vinte e quatro entra o vento pelo balcão adentro e a folhagem das árvores dança em frente. A Dora trota feliz entre o jardim e o pomar, parando só para pôr o focinho no ar que traz o cheiro equino da vizinhança mais ao lado. Serão póneis, serão cavalos ? São amigos certamente, que relincham à presença dela, à visão dos flancos e das curvas delineados pelo sol nascente.

É verão e a natureza das coisas simples a despertar os sentidos da estação mais quente.
Os gatos dormitam pela casa e quase se incomodam com a passagem abrupta de vassouras e aspiradores. Resmungam e passam para o lado de fora a tremer os maxilares para a próxima presa enquanto eu caço do lado de dentro as palavras e as poeiras, as teias esquecidas e a contas perdidas, bilhetes e cartas de amor escritas antes de eu nascer.
Tudo isto vai da grande realidade onde sou até às pequenas onde vou. O meu núcleo vai-se abrindo a cada dia às funções repetidas e às por fazer, como a ondulação gerada pela pedra que atiramos ao lago. Há um efeito para cada pequeno feito e é assim que vou andando, já que perguntam e dizem que têm saudades, hoje melhor do que ontem e menos bem do que amanhã.
Tocou o despertador e esta tarefa terminou. Os gatos voltaram aos seus lugares, a Dora aguarda a taça de cereais e o Lucky dorme profundamente atrás de mim. Os pássaros aumentaram a sinfonia anunciando um dia melhor.

Elsa Bettencourt

sábado, 27 de janeiro de 2024

INDO COM AS FOLHAS QUE SE SOLTARAM


 


Vigésimo sétimo dia do primeiro mês de dois mil e vinte e quatro
Hoje o vento sopra e ruge como os animais das fábulas infantis. As árvores dançam, vergam-se, endireitam-se, balançam e aquietam-se entre expirações. Inspiro. A floresta é a minha vizinha mais próxima e é comigo que ela conversa, é com ela que eu desabafo. Sinto-me a guardiã deste lugar na minha pequenez quase insignificante. O tronco do incenso serve para medir a intensidade do sopro e se a copa passa para o primeiro vídro de cima da janela de guilhotina então o lobo está furioso.
-Vou soprar e soprar até a tua casa abaixo deitar!
-Vais soprar e soprar até perderes o ar. Estás só a passar!
Há raizes soltas e árvores doentes, árvores novas acabadas de romper desta terra abençoada. Há árvores saudáveis que seguram as irmãs até à queda. Quando a queda acontece, se acontecer, elas transformam-se e passam a gerar mil outras formas de vida. Por isso uma árvore morre sempre de pé, mesmo que caia.
Esta é a continuação da quinta feira de amigas que festejamos aqui nos Açores. Árvores ou mulheres, lobos ou contratempos. Somos geradoras de muita vida e empatia. Somos cuidadoras e guardiãs, tecedeiras de afetos e cumplicidades. Somos bailarinas, semeamos danças e plantamos castelos. Reconstruímos a nossa essência como a aranha faz a teia. Somos sangue, seiva, artéria e veia. Rimos das nossas desgraças e choramos com os nosso disparates. E marchamos contra todos os ventos que não venham do coração. E deixamo-nos ir a ficar, deixando-nos ficar a ir.
É este o vento que sopra hoje. Eu fico e vou. Voo com as folhas que se soltaram e fico bem aqui dentro de mim.

Elsa Bettencourt

segunda-feira, 11 de dezembro de 2023

AFLUENTE DE UM SERENO DEVIR


 


Décimo primeiro dia do décimo segundo mês de dois mil e vinte e três.
Neste mês de todas as esperanças anima-me o olhar da temperança e o sorriso da minha criança.
Gostaria de descobrir o tal botão de ligar e desligar, igual ao da televisão, um interruptor que evitasse andar sempre de coração na mão. Dizem que depois da tempestade vem a bonança, que as provações são procedidas de alegrias aos milhões e que a paciência não se constrói sobre rebeliões. Todas as semanas, por duas vezes em cada uma, tenho tratado do que me atormenta, como se eu fosse a única bomba que rebenta, o único farol iluminado por dentro da densa bruma.
Redescobri a respiração consciente, as partidas da mente e uma forma de ser mais congruente comigo e não com toda a gente.
Neste mês de todas as esperanças e no ano que finda, ambos se revelaram os piores no que diz respeito a expectativas, porém há muito, e sempre haverá, onde me debruçar, nem que seja para me ajudar a levantar, um dia de cada vez, passo a passo, golpe de asa a golpe de asa, há o sol por detrás de cada nuvem, a estrela teimosa, a brisa serena e o calor dum abraço e, sobretudo o sorriso da minha criança hoje, dos meninos que nascerão apesar de todos os Herodes e dos que morrem por culpa de carrascos sem coração.
Passo a passo, compasso e dou-me espaço, respiro e abraço. Rio-me sendo rio, alongo-me entre as montanhas,
estendo-me até à foz do meu presente.
Sou dádiva, ávida de vida e do que há-de vir, afluente dum sereno devir.

Elsa Bettencourt

quarta-feira, 1 de novembro de 2023

1 DE NOVEMBRO DE 1755


 


Hoje faz 268 anos que era Sábado e nessa manhã, Lisboa foi arrasada.
Era 1 de Novembro de 1755 e, apesar de ser Dia de Todos os Santos, nem eles, conseguiriam evitar a catástrofe. O Sismo de 1755, destruiu a cidade e provocou incêndios. Muitas pessoas fugiram em direcção ao Rio e foram engolidas por um Tsunami.

Nessa manhã de Sábado de 1755, logo cedo, centenas de igrejas começaram a encher-se de povo. Milhares de velas acesas. Repentinamente, comecou a ouvir-se um rugido, uma vibração semelhante à passagem de milhares de cavalos e carruagens. No ar, um odor a enxofre e, subitamente, durante sete minutos, a cidade foi sacudida três vezes. Os abalos provocaram o desmoronamento de Casas, Igrejas, Conventos((Carmo e Trindade) e nem o Paço Real, a Patriarcal e a recém inaugurada Opera do Tejo, escaparam. (D. José escapou porque, nesse dia estava na Real Quinta de Belém mas, não ganhou para o susto.... A partir desse dia, decidiu nunca mais viver num Palácio de Pedra. Por sua vontade, a familia Real e a Corte, viveriam na Real Barraca da Ajuda, onde faleceu em 1777.)
Devido a geometria da cidade , ainda um pouco medieval, o fogo facilmente se espalhou e, em minutos, toda a cidade ardia.
Pelas ruas milhares de pessoas perdidas, fugiam sem saber para onde. Tentavam chegar ao rio, ao Terreiro do Paço. Muitos tentavam embarcar nos barcos ancorados no rio.
De repente, o povo viu algo que nunca ninguém tinha testemunhado. As aguas do rio, recuaram, deixando a descoberto destroços de navio afundados no Tejo.
Apreensivos, os mais corajosos, atreveram-se a atravessar o rio.
De subito, um ruido, um urro que foi aumentando à medida que se aproximava do Terreiro do Paço.
Do Tejo, uma colossal parede de água escura, entrando barra adentro varreu a cidade por três vezes, levando tudo e todos à sua frente, apagando alguns incêndios, mas, matando milhares de pessoas. Pensa-se que o total, contando com desabamentos, incêndio e doenças, tenha sido entre 20.000 a 100.000. À data, a cidade de Lisboa tinha cerca de 250.000 habitantes.

De acordo com os estudos, o Terramoto de Lisboa não terá tido uma magnitude tão grande como se pensa. Ter-se-á situado nos 7,7 da escala de Ritcher e, terá tido o seu epicentro a Sul do Cabo São Vicente, possivelmente no banco de Gorrinje.
Devido à sua origem oceanica, provocou o Tsunami que não só varreu o litoral Português, como o Sul de Espanha, Marrocos, na Europa, o Sul de Inglaterra foi varrido por ondas de 3 Metros, Escócia, Finlândia.
O Tsunami também se fez sentir nas Caraíbas.

Três anos depois da Catástrofe, Lisboa já tinha um plano para a sua reconstrução. Seria o famoso plano de 1758, que se revelaria um verdadeiro terramoto na sociedade Portuguesa, afectando em particular a Alta Nobreza, sendo o motivo dos vários atentados contra o Rei e o seu Ministro... 

Ricardo Santos

terça-feira, 24 de outubro de 2023

FRIENDS WILL BE FRIENDS...




 

Se não houvesse espaço para uma pausa tudo seria muito mais difícil de aguentar. De vez em quando fazemos uma. Esquecemos o mundo e a vida por umas horas e juntamo-nos como costumamos fazer há uma vida inteira. Um jantar, um jogo de futebol na televisão e umas garrafas de vinho. As conversas de sempre que nunca se repetem, algumas memórias trocadas, a novidade dos netos para alguns. O nosso pequeno mundo construído em conjunto ao longo de décadas, a nossa bolha onde nada nos pode acontecer enquanto estivermos juntos, cada um vigilante do seu canto na mesma casa. Depois de levantar a mesa e colocar a louça na máquina, depois dos cafés, os sofás da sala e uma garrafa de whisky irlandês para ver o resumo dos golos. Por fim a breve assembleia com um único ponto na ordem de trabalhos: “O que é que vamos ouvir hoje?” E em breves instantes é eleita uma banda, um concerto para a continuidade do serão.

É sempre bom fazer uma pausa e falar um pouco à mesa do jantar com esta família onde todos têm lugar, onde todos se conhecem à exaustão, não havendo por isso, espaço nenhum para surpresas. Uma espécie de lar que fica na casa de cada um quando nos encontramos. Uma breve conversa e um longo silêncio porque não é preciso acrescentar mais nada que não se saiba já. Fica a música e a garrafa de whisky irlandês em cima da mesa, ficamos nós em cima do sofá com os gatos a passear pelos nossos colos como vigilantes do turno da noite a certificar que tudo está a correr bem. E por vezes viajamos dali para uma praia onde fomos adolescentes e corríamos o dia todo como selvagens sem nunca nos cansarmos, do mar para a areia, da areia para o mar, da mata a apanhar paus para uma fogueira, de uma paixão para a outra. Mas sempre nós, tribo antiga e solidária, especialista em pausas, especialistas em horas de alegria e bem estar. Ou continuamos a viajar com o Rock em som de fundo e vamos parar ao recreio da escola, à bicicleta que batia todos os recordes, às motas. Estremeço e regresso ao sofá. A Joana cabeceia o vazio de olhos fechados, depois acorda também. Olhamos um para o outro e sorrimos. O Pedro e a Mariana discutem acerca da utilização do comando da televisão. São onze da noite e parece que já são duas. Conseguimos ainda ouvir mais uma música antes de começarmos a sinfonia do Uber para nos levar a casa. Despedimo-nos uns dos outros entre risota e bocejos. Atiramos datas prováveis para o próximo encontro. Abraços e beijos e vamos indo que temos pressa de nos deitar.

A filha do Pedro um dia perguntou-me se tinha alguma ideia em relação ao segredo da longevidade da nossa amizade. Ao todo seremos uns dez ou quinze que se conhecem desde a adolescência, outros ainda mais atrás. Não foi preciso reflectir muito e a resposta saiu-me no automático :

“Acho que foi tomarmos conta uns dos outros…” respondi.

Se não foi isso que decidimos foi aquilo que fizemos ao longo de uma vida inteira. Não é interesse, não é amor, não é tristeza nem solidão. É algo muito maior que nos fez ter sempre a mão estendida para o outro, a observação distante mas atenta, a disponibilidade, a palavra solidária no tempo necessário. É qualquer coisa enraizada entre a tribo e a família e ao mesmo tempo muito mais antiga que a nossa própria noção de existência. Por vezes não foi suficiente e houve um ou outro que teve que sair mais cedo. Quando a força do exterior foi superior à nossa.

Nascemos numa realidade caótica e difícil de compreender, atravessámos essas terras do caos em quase toda a nossa existência e dificilmente teríamos sobrevivido se não nos tivéssemos uns aos outros . Não conseguimos compreender a morte mas isso pouco importa porque também nunca compreendemos a vida. Sairemos daqui no meio do caos e da destruição tal e qual como entrámos. Não interessa. Cá dentro de mim há algo que me diz que os que foram à frente vão estar à nossa espera para continuarmos o caminho. E também me parece que nesse trajecto não vão faltar concertos de Rock e whisky irlandês.

 

Artur


Imagens de Luis Pereira


terça-feira, 15 de agosto de 2023

REFLEXÕES DE VERÃO

 (vigésimo oitavo dia do sexto mês de dois mil e vinte e três. )

Falta amor, digam o que disserem, falta compaixão, digam o que disserem, falta esta força mãe de todas as forças, como a água falta à terra e a luz a cada folha.
A humanidade transformou-se numa bizarria disfarçada de empatia onde raramente dá um passo, diz uma palavra, dá um abraço, de graça.
O que me interessa é que o fluxo seja contínuo e fluido nas quatro cavidades que me sustentam. Que todos os verbos de dar sejam sempre a somar. É assim que combato as guerrilhas da apatia e esquecimento que proliferam como o plasmodium que em tempos me atingiu.
Créditos, visualizações, somatórios para uma existência que se quer positiva mas se desdobra mil vezes negativa.
(Vigésimo sexto dia do sétimo mês de dois mil e vinte e três.)
Entre uma frase e um aquecer de água para chá dobro um pano esquecido do fundo do cesto interminável como a história. Já não sinto a chuva na pele há pelo menos quatro dias e as neblinas só as vejo se as procurar.
A chaleira apita e corro para o fundo da cozinha como antes corria para a quinta estação. A direcção era sempre a mesma e a urgência um ponto por picar. Ouço as queixas dos amigos ao longe sobre o excesso de gente em todos os lugares e ouço novamente o lamento dos meus pensamentos sobre a ausência de humanidade. Afinal havia outro pano por dobrar e a constatação de ter uma cesta interminável. Combato a humidade com lavagens e secagens na esquinas mais ventosas. Posso ter ar de patroa mas sou a minha melhor empregada. Sei o lugar de tudo e a quem pertence. Sei a estória de cada fronha e de quem deitou a cabeça nela. Sei os porquês sem nunca os indagar, sem saber porquê todas as verdades me caem na cabeça como naquela história do pinto que achava que o céu estava a cair.
Hoje ao deixar de olhar para a cesta e de me aparecer mais um pano por dobrar voltarei à casa que em breve será minha e irei pintar mais uma trave, mais uma porta, e deixarei entrar mais um pedaço de luz da primeira rua da minha existência.
É natural que me caia mais uma lasca de céu pela cabeça abaixo, certeira até ao peito. É essa pequena queda que me levantará até ao lugar dos bons pensamentos e das boas pessoas.
Décimo primeiro dia do oitavo mês de dois mil e vinte e três.
Voltou a chuva, o nevoeiro e a humidade no olhar. Os pensamentos estalam-me como no princípio da fogueira e voam para paragens longínquas que antes eram tão próximas e param na Penn Station em Newark há mais de dez anos. Corpos vazios vagueiam no eco da estação. Vestem roupas de ouvir gospel, olham para o vazio e gritam com as paredes enquanto se abrigam do frio. Eram mais de dez e eu novamente a tentar entender os porquês. Hoje, depois de tantos anos passados e antes do que comecei a escrever, entendi. Perdi horas de sono e dias de paz. Perdi mergulhos no mar cristalino e banhos de sol, mas entendi. Perdi horas de escrita que são as horas mais minhas e o motivo de aqui estar,para começar a entender.
Porém ganhei muito entre tanto perder. E aprendi ainda mais sobre o valor das mãos que se estendem e dos braços que nos acolhem. São o triplo daqueles que se recolhem.
Em breve o sol voltará e eu voltarei às coisas por fazer que são a minha terapia ocupacional. Por cada uma, e são tantas,um gospel e a gratidão às fadas que me rodeiam. Um batalhão delas contra o empardecer de cada olhar.
Elsa Bettencourt

quarta-feira, 12 de julho de 2023

A PROPÓSITO DE LEVEZAS INSUSTENTÁVEIS


 


 

Depois de Sartre, depois de Camus, depois do ensino secundário, mais ou menos entre o segundo ano da Faculdade e a tropa, diria que a obra de Milan Kundera entrou nas nossas vidas na mesma altura em que demos entrada na vida adulta. Não se poderá dizer que foi um passeio agradável ou sequer uma catástrofe mas, uma das primeiras lições que a obra de Kundera me transmitiu foi a de que havia vidas bem piores que a minha. O C foi o primeiro a ler “A Insustentável Leveza do Ser” e passava noites a fio a elogiar a obra. Era a continuação das leituras anteriores, era Kafka e Nietzsche no melhor de cada um, era o novo marco na literatura europeia. Numa noite de Sábado, finalmente, emprestou-me o livro com todo o cuidado, como quem passa uma relíquia sagrada de uma igreja para outra. Sem ter ainda largado o livro ainda houve tempo para uma breve advertência: o livro não estava completo, faltavam-lhe mais ou menos umas dez, quinze páginas. Depois me explicaria a razão, agora não era o tempo disso. Não liguei e quase que lhe arranquei o livro dos dedos ainda indecisos. O C era feito de mistérios e enredos inacabados. Claro que devorei o livro mesmo sem as páginas referidas o que me obrigaria a reler mais duas ou três vezes, agora já na forma completa. O romance apoiado numa estrutura fragmentada faz cruzar personagens e ambientes de uma forma fluída, cujo sentido se vai fortalecendo como um curso de água que desce de montanhas escarpadas e irregulares para se espraiar num amplo estuário, misto de suavidade e angústia. Fala de amor e lealdade, de liberdade e opressão, caricatura do comportamento humano, desventuras e breves alegrias. Fala na busca da felicidade e das várias transformações em que ela se vai tornando. Entre os dois mundos do tempo da Guerra Fria as pessoas procuram desesperadamente a sua felicidade carregando consigo os fantasmas do passado exigindo da existência coisas diferentes. Um pouco autobiográfico “A Insustentável Leveza do Ser” é contada a partir do lado de lá da cortina de ferro onde a liberdade é um sonho e os conceitos se confundem de acordo com as leituras oficiais do partido único. Do lado de cá também não se poderá falar exactamente do Paraíso na Terra, havendo bastantes contradições e manchas a assinalar. De um lado e de outro os sistemas desfazem-se sobre as suas próprias contradições devorando gerações, uma a seguir à outra.

 

As fronteiras do silêncio voltavam a fechar-se sobre a Europa, e a Grande Marcha já não desfilava senão em cima de um pequeno estrado no centro do planeta. As multidões que outrora se acotovelavam ao pé do estrado tinham partido há muito e a Grande Marcha continuava sozinha e sem espectadores…..

…..a Grande Marcha continua, apesar da indiferença do mundo, mas está a tornar-se nervosa, febril, ontem contra a ocupação do Vietname pelos americanos, hoje contra a ocupação do Cambodja pelos vietnamitas, ontem para apoiar Israel, hoje pelos palestinianos, ontem para apoiar Cuba, amanhã contra Cuba, e sempre contra a América, sempre contra os massacres e sempre em apoio a outros massacres, continua a Europa sempre a desfilar, e para poder acompanhar o ritmo dos acontecimentos sem falhar um único acelera cada vez mais o passo, de modo que a Grande Marcha já só é um cortejo de gente apressada a desfilar a galope, e a cena cada vez se encolhe mais, até ao dia em que finalmente há-de tornar-se apenas um ponto sem dimensões.

(A Insustentável Leveza do Ser)

 

 Não vou perder aqui tempo a descrever todos os aspectos do romance. Limitar-me-ei a referir a sua grande importância no momento em que surgiu na medida em que abriu um caminho onde o humor, a memória, e a percepção da beleza podem reclamar um novo Homem, uma nova Literatura desde que combinados num padrão de exigência e rigor que se eleve acima da espuma dos dias. Claro que não aconteceu nada como é habitual. A mediocridade e o kitsh político e social prosseguiram o seu caminho como sempre. A arte é feita de sobressaltos ocasionais em que a estrutura abana mas não cai, a evolução espreita mas depois vai esconder-se a correr. Sobre os personagens sopram os ventos da História interferindo nos seus percursos mais ou menos intensos, mais ou menos elaborados, varrendo-os de qualquer maneira da mesa onde depositaram as suas aspirações iniciais.

 

 

 

O optimismo é o ópio do género humano! O espírito são tresanda a estupidez. Viva Trotski

Ludvik

 (A Brincadeira)

 

Seguiram-se mais romances que fui devorando ao longo dos anos. O primeiro de todos da sua biografia, “A Brincadeira”, escrito entre 1962 e 1965. Marketa e Ludvik são estudantes universitários em Praga. Ela identificava-se com tudo o que vivia, o campo de férias num castelo na Boémia, as aulas de ginástica os programas do partido em geral para os jovens. Ludvik até concordava com ela mas naquele instante queria era que estivessem juntos em Praga e não suportava a ideia de que ela estaria mais feliz no campo de férias.  Resolve ser irónico. Numa breve piada escrita num postal para a namorada num campo de férias tudo acaba por se precipitar indo parar a um campo de reeducação e ficando com a sua vida virada de pernas para o ar. Para sempre…  Acaba por encontrar Lúcia com quem se envolve mas sem a conseguir amar ou sequer tratar bem. Em cima de uma pilha de mal-entendidos, cada um transportará a sua verdade ,

alheia à verdade dos outros, todas elas devastadas pelos ventos da História.

Kundera reflecte, caricaturiza, compadece-se, odeia, explode de raiva e resigna-se, e pelo caminho retrata pessoas e o mundo como quem relata um combate no qual todos acabamos por perder no fim. A sua obra marca uma época que já não existe embora a maior parte das angústias e do sofrimento sejam os mesmos. O cenário mudou mas a peça será sempre a mesma.

Muitos anos depois perguntei ao C o que é que tinha acontecido às páginas perdidas da “Insustentável Leveza do Ser”. Fez um ar solene e inspirou fundo. Estava no fim da recruta, ne semana de campo. A certa altura no meio do mato deu-lhe aquele ataque inequívoco e imprescindível de se ter que agachar atrás de uma moita. No fim, o único papel disponível era o do livro que o acompanhava dentro da mochila. Uma história que Kundera poderia ter escrito.

 

Artur


segunda-feira, 10 de julho de 2023

AUTORETRATO DO ESQUECIMENTO E DAS COISAS QUE ME ALEMBRAR


A espuma cuspia-me na cara mesmo com a proteção dos braços da minha mãe. O meu peito ressoava mais forte do que as ondas lá embaixo contra as rochas e contra o casco.
O barco içado pelo guindaste no cais molhado balançava ao ritmo do vento forte. No intervalo das rajadas ficava o frio do medo e do tempo, e a esperança do chão aproximava-se lenta, custosa e incerta. Quando a terra finalmente aconteceu, o cheiro a vomitado ficou para trás e os gritos de alegria sobrepuseram-se aos de agonia.
Os credos passaram a bênçãos, os braços que me seguravam antes elevaram-me ao céu em agradecimento ao Espírito Santo.
- Benzá Deus!
Gritavam as vozes agradecidas entre choro e alegria.
Minha mãe procurou um lugar seco, juntamente com as onze famílias que iam seguir viagem, para nos enxugarmos e apanhar um carro de praça até ao Terminal. A pobreza era sinónimo de humildade e asseio, e não íamos entrar num carro para sujar os bancos com indisposições e água do mar.
Uma barra de sabão azul e branco, uma fralda de pano com outro uso de tão puída por ele mas seca e molhada nas gotas que caiam dos beirais. Uma muda de roupa vinda da terra para onde íamos e estávamos prontos para continuar viagem. Meu pai compôs os meus dois irmãos maiores com o pente que trazia na algibeira, uma réstia de sabão molhado para prender os fios de cabelo que teimavam em eriçar-se. Deixou-se para o fim na manobra dos asseios usando o resto do resto de sabão e as gotas que terminavam de pingar.
O cabelo rijo e negro ficou brilhante como os calhaus da ribeira cheia em dia de irmos lavar a roupa.
Quando pus os pés no chão já estava calçada com as botas que nos tinham mandado no barril da América. Eram dois números acima mas aguentavam-se nos meus pés graças às folhas de jornal que faziam de palmilhas. Meu irmão acima de mim estava pior porque, além de não estar habituado a sapatos, os dele eram um número abaixo. Não engordamos com papas de carrilho mas crescíamos de tamanho e de pés.
Meu pai levantou os olhos para olhar nos de Jaime que começava a ficar afogueado com os apertos e não precisou dizer nada. Fez-lhe uma festa na cabeça a endireitar a mecha de cabelo que fugia para a testa e pôs-lhe a mão no ombro. Meu irmão Joaquim, onze meses mais velho, pôs-se ao lado dele, disse-lhe um escuto, pôs-lhe a mão no outro ombro e agarrou na mão de minha mãe que segurava a minha.
O carro de praça chegou e sentamo-nos todos atrás.
Meu pai arrumou a mala pequena que ia pela metade com tudo o tínhamos e sentou-se ao lado do condutor simpático que nos levou ao aeroporto.
Eu, Maria José, tinha cinco anos, meu irmão Jaime, oito e Joaquim em breve teria nove.
-Parece que já estamos na América! Mas pechinchinha!
Dizia o condutor.
-Os americanos deixaram estas lembranças aqui para termos vontade de continuar até à América maior.
Subimos a estrada da Birmânia a arregalar os olhos pelo caminho fora do Açucareiro até ao Terminal, passamos por casas de lata pintadas de branco cor de farinha, outras compridas como metades de tubos gigantes com jardins cheios de flores e erva verde que só tinha visto nas pastagens da minha ilha mas sem vacas à vista.
Em frente à piscina o senhor José abrandou ainda mais para vermos melhor. Passamos um edifício grande de madeira e por rapazes a correr para ele, todos vestidos de branco, a vir da piscina mais acima, duma prova de mergulhos que estava a acontecer. Olhamos à direita logo a seguir e, apesar das luzes ainda não estarem acesas e de eu não saber o que era luz elétrica senão mais tarde, pasmamos.
-Cinema! Gritaram Jaime e Joaquim ao mesmo tempo.
-Mêpai, está uma senhóra naquele vidro que parece nhamãe.
O condutor José parou para me dar razão.
-A pequenina tem razão. Parece a sua senhora já americana. Com os cabelos ripados, um sorriso parecido pintado de vermelho cereja.
Já não sentíamos a humidade no corpo e quando olhei para minha mãe ela sorria como a senhora do cartaz.
- Se os senhores se não se importarem, e como este é o meu último serviço, gostava de os convidar para um prato de sopa em minha casa. A minha senhora já deve ter a mesa posta.
O avião é depois de amanhã e os senhores precisam descansar e ganhar forças para essa viagem tão comprida.
O Terminal está cheio de famílias a dormir pelos bancos e eu gostava que a vossa família ficasse com a minha. Ao menos uma há-de descansar melhor do que as outras. O quarto da minha falecida mãe está vazio e tem espaço para os senhores e para os pequenos.
Sempre é melhor do que os bancos duros da espera.
Assim foi. Meu pai, Jeremias Figueiredo,homem de poucas palavras e de muito trabalho, sempre ajudou quem pode apesar de não termos nada e minha mãe ajudava-o sempre a repartir o nada por todos, deixando-se sempre ficar para o fim até adormecer de estômago vazio, dia após dia, noite após noite. Salgava os peixes que a gente pescava no calhau da nossa ilha até ao último grão de sal, nos dias de verão. Cozia pão quando recebia farinha em troca dos seus serviços de costura e empregada de quartos na casa grande.
Era tudo muito pouco, o sal, a farinha, os peixes, o conduto. Os escudos eram uma visão rara que passavam da mão dos senhores para a mão de meu pai que os dava a minha mãe, que por sua vez ia pagar o fiado à loja e voltava com nada.
Quando chegamos a casa do tio José, a sua senhora também Maria como minha mãe e eu, parecia que nos esperava.
Não havia telefones mas ela conhecia o homem que a escolheu para mulher desde os bancos de escola.
Protegia-a das reguadas do professores de todas as formas possíveis, até errando de propósito para malharem nele em vez de malharem nela.
Aquela família parecia a nossa. Quando dei por minha mãe já estava na cozinha a ajudar a senhora Maria comigo agarrada à saia dela, a tirar pratos, a juntar água à sopa, a partir pão. Nunca tinha visto uma torneira que não fosse a da fonte onde íamos buscar água em púcaros para encher o talhão feito do barro de Santa Maria. Lavei as mãos na pia da cozinha e não parava de cheirá-las enquanto faziam tanta espuma como as nuvens do céu.
A luz daquela casa e daquele lugar que se chama Aeroporto, não vinha da chama das candeias, das velas, ou dos candeeiros de petróleo. Vinha pelos fios e chegava aos globos de vidro que brilhavam como pequenos sóis. Estávamos todos pasmados por tudo o que nunca tínhamos visto mas eu era a única a abrir a boca o mais que podia, até a minha mãe me segurar no queixo,
empurrando-o devagarinho para cima com o indicador.
Meus irmãos estavam contidos pelo olhar de meu pai enquanto ajudavam o senhor José a acartar cobertores para fazerem camas no chão.
-Mêpai vê-se tudo lá fora como se fora quase dia e ainda falta para chegar a manhã.
Dizia Jaime.
-Mêpai esta luz é mais forte que a do candeeiro de petróleo da nossa casa e nunca se acaba.
Dizia Joaquim.
Ti José falou por ele.
- Na vossa próxima casa, com a graça de Deus, a luz será assim, a água vai correr assim, a comida não há-de faltar, nem a saúde, nem a união desta vossa família.
Os pés vão caber nos sapatos e a roupa há-de ser à medida.
Nosso senhor não nos deu filhos para podermos acolher os que por nós passam como se filhos fossem. O que eu aprendi com o meu avô foi de ouvir da boca de meu pai. Só se pode aprender ouvindo com atenção e com o coração. Eu ensino a quem passa, como um pai a um filho que sabe ouvir e aprendo com quem ensino que estamos no caminho certo.
Há muitos caminhos errados e um único certo que é o do bem. A luz que ilumina as nossas famílias é maior do que a que ilumina estas casas ou o caminho lá fora. Está cá dentro de nós e é esta que nunca se apaga dentro do caminho certo.
-Obrigada Ti José, seja pela sua saúde e dos seus.
Disse Mêpai.
- Agora vamos comer que vocês devem estar esganados e eu também. E muito mais cansados do que eu.
Nhamãe deu graças pelo abrigo e comida, eu acrescentei graças pelo vinho doce e pela bondade dos novos tios. Depois do Amen as colheres começaram a ouvir-se e Mêpai, do outro lado da mesa, levantou os olhos para meus irmãos e pra mim.
-Bem sei, Mêpai desculpe, mas está mesmo poderes de bum.
Quase adormeci à mesa à medida que a barriga se enchia de canja de peixe. A minha cabeça já tombava para dentro do prato quando Mermão Jaime a segurou e Mermão Joaquim me amparou.
-Zézinha já come e sonha e antes só sonhava que comia.
De certeza que ainda não estamos na América?
Disse Jaime
- Zézinha mais a gente, atravessamos o mar bravo até chegar aqui. Já vimos mais nestas duas horas do que na vida toda!De certeza que ainda não chegamos à América?
Disse Joaquim.
Meus irmãos seguiam o pensamento um do outro como se gémeos verdadeiros fossem. As palavras e as frases trocavam-se e completavam-se. O gosto pela leitura foi passado pelo senhor padre da nossa freguesia em troca de ajuda na missa e dos arranjos nos paramentos que Nhamãe fazia. Aprenderam a ler num ai para me contarem as histórias dos santos e lerem as cartas que Mêtio Jebedias mandava da América.
O galo escondido cantou o amanhecer e meus pais já não estavam na cama. Meus irmãos dormiam a sono solto e eu gritei por minha mãe:
-Nhamãe onde é que estou?
-Nhamãe onde é que está?
Minha mãe estava nas traseiras da casa com tia Maria a estender roupa debaixo dum sol que nunca mais senti assim. O calor naquele lugar vinha perfumado de poejos e hortelã.
A tia tinha molhos de ervas amarrados e dependurados num telheiro que filtrava a luz às fatias e os secava entre a sol e a sombra. Mal vi a água na pia da roupa e senti o cheiro de sabão azul e branco, atirei os braços lá para dentro para lavar a cara.
-Vais lavar-te com a roupa, Zézinha?
Perguntou a tia ao mesmo tempo que me içava com os seus braços e fazia jeitos de me aboiar para todos os lados.
-Esta está bem “bua”,tia Maria!
E lá fui eu já em coiro, de cabeça, até me puxarem pra cima.
Elsa Bettencourt.
Conto escrito para a Associação Daniel de Sá há alguns anos e que nunca enviei por estar sempre a fazer coisas pelos outros. Agora é por mim e pela minha ilha mal lembrada. Aquela que até o verão se esqueceu.

segunda-feira, 5 de junho de 2023

TAILS OF FISH


 



Algures em meados dos anos 80 passava horas na muralha do sítio de que tanto falam. Olhava para o calhau onde agora fica o porto e não me cansava de ver os meus amigos a surfarem as primeiras ondas. Mais do que a eles, e à sua bravura por cortarem ondas até três metros num fundo de pedra e rochas, eram os meninos dali que me encantavam. Os meus amigos tinham entre os quinze e os vinte e três, os meninos não tinham dez.
Imaginem um barco de papel e depois imaginem-no em lata sem a dobra que faz a vela. Eles faziam aqueles barcos dos bidons de combustível que cortavam e sentavam-se lá dentro a fazer as ondas mais pequenas num calhau mais pequenino mesmo ao lado do grande. Quando se construiu o grande porto as ondas desapareceram, os pescadores de Rabo de Peixe melhoraram a vida à volta da faina, os meus amigos cresceram, eu fui-me embora, e os meninos continuaram a fazer os seus barcos de lata até terem idade para pescar. Não a idade oficial mas a idade real. Naquela altura começava-se na faina à volta dos doze anos e não havia funcionário da secretaria da educação que os pusesse na escola outra vez. Porquê? Chama-se estigma. Uma marca invisível mas pior do que o fogo que designa o destino de gerações. Vou saltar umas décadas passando pelo sotaque dos Açores que é uma coisa que não existe e que me enerva quando até os próprios dizem isso aos continentais. Existe um sotaque do Continente? Ridículo, não é? Então, deixem-se de dizer disparates apesar disso não interessar para falar de estigmas. Aliás, tive que pôr legendas, anyway.
Chegamos a dois mil e vinte e imaginem quem furava os cercos sanitários e quase os queimavam em praça pública, hã? Iam pelo mar às compras à cidade da outra costa! Toda a gente,salvo honrosas excepções, os culpava de andarem a espalhar o bicho pela ilha grande. Uma das características dos estigmatizados é que dão a volta ao texto enquanto os outros não chegam à vírgula. E se tiverem características de ilhéu mais rápidos são.
Fartei-me de rir e chorar com a série. Estive a ouvir a entrevista com o produtor executivo, a estória de como chegou à história e a escrevê-la.
Achei cada personagem um mimo e depois fiquei a pensar numa coisa muito americana:
-Where the fork are the royalties for the village? ??
Ou seja, em vez de estarem a pensar nos cem quilos que faltam, que tal pagarem o dízimo à freguesia de rabo de peixe por cada vez que se fala neles? Já ajudava muito porque a vida continua, as desgraças continuam a acontecer, agora já não há coca mas a sintética está a matar gente de todas as ilhas. Um dízimo para o trabalho extraordinário que se tem feito nessa freguesia através da música e outras artes.
Um cêntimo por cada vez que dizem Rabo de Peixe sem saber como é que se faz canoas com o lixo dos outros.
E mais uma coisinha… passa pela cabeça de alguém que a maior parte dos habitantes dessa linda freguesia não tenham netflix? Parecemos a Maria Antonieta a dizer para darem brioches ao povo faminto! Há prioridades nas vidas simples e estas não passam pela televisão e muito menos pelos canais que só funcionam a tostões e com internet.

Elsa Bettencourt

sábado, 28 de janeiro de 2023

DO JEJUM E DA RAIVA REDONDA.



 

 

Vigésimo sétimo dia do primeiro mês de dois mil e vinte e três.
1º Só escrevo de manhã. Escrevo sobre os detritos dos acontecimentos que me trocam, seja a pena dum pássaro pequenino que os gatos não engoliram, a bosta da égua que varro debaixo das estrelas, o cidrão maior do meu quintal, as mudanças de ano, lugar ou humor, a minha tap e a minha gente, a minha ilha agora ou antigamente, e sobre o planeta que desta forma obtusa o estragam tão radicalmente.
2º Só escrevo em jejum. As palavras têm que circular entre a cabeça e o estômago livremente. Debatem-se e ajustam-se, encolhem e expandem-se. Ribombam nas entranhas como roqueiras de São João e adquirem a fonética do local onde se encontram seja qual for a pressão atmosférica.
3º Só publico aqui o que escrevo aqui. O que escrevo nos meus cadernos são outras estórias sobre pessoas e acontecimentos históricos que se cruzaram comigo da forma mais surreal possível. Chego muitas vezes a pensar que isto acontece por ser atenta ao ponto de não parecer ter nenhum tipo de atenção ou por um distúrbio fisiológico que nunca me foi diagnosticado.
4º Escrevi o primeiro ponto para chegar ao palco de todas as preocupações ou sobre o facto das pessoas se irritarem com assuntos cruzados. Exemplo- a prima da Maria perdeu a casa para o banco. A Maria tem a prima a viver lá em casa para não lhe acontecer o mesmo. A Maria perdeu o marido em 2020 com uma infecção respiratória e tem uma filha que precisa de cuidados permanentes por sequelas da mesma infecção. O José, marido da prima da Maria, trabalha nas obras a recuperar casas para o patrão que as vende a peso de ouro. A prima da Maria trabalha a dias em casa da ex mulher do patrão do José. A ex mulher não a declara à segurança social para não perder uma fatia da pensão de alimentos que o ex marido paga aos cinco filhos que estão num colégio particular. A Maria está a acabar o subsídio de desemprego e as refeições da casa são-lhe fornecidas por uma associação para quem ela está a costurar bandeiras para receber o papa.
A filha da Maria gostaria de ter a benção de sua santidade mas teme que o facto de ser russa seja um impedimento para chegar perto do palco quanto mais ser abençoada por ele.
A filha da Maria perdeu o pai e a saúde no ano em que lhe prometeram que ia ficar tudo bem. Vai ver tudo pelo telemóvel e receber as bênçãos pela internet. O presencial já não é tão importante assim e dizem-lhe que as epidemias vão voltar. Talvez ao fim do dia lhe tragam uma bandeirinha benta com promessas duma saúde melhor.
5º Escrevo nos bastidores de todas as preocupações. Ao fim do dia que já vai ficando mais longo, arregaço as mangas. A erva está alta, na cidade ao longe tenho mudanças para fazer e decisões para tomar. Se andar cinquenta metros para fora da porta tenho com que me alimentar, água para beber e ar para respirar. As preocupações não são coisas redondas mas têm todas um princípio e um fim. O egoísmo tem que tocar o altruísmo para nos podermos deitar sossegados na hora de ir dormir.
Que o fim da semana seja o princípio duma melhor e que as receitas do espetáculo não sejam para armas mas para resoluções de verdadeira fé.

Elsa Bettencourt