sexta-feira, 5 de dezembro de 2025
A UM SOL QUE BRILHA AGORA
terça-feira, 3 de dezembro de 2024
DEZEMBRO FELIZ
terça-feira, 9 de julho de 2024
PORQUE É VERÃO
No nono dia do sétimo mês de dois mil e vinte e quatro entra o vento pelo balcão adentro e a folhagem das árvores dança em frente. A Dora trota feliz entre o jardim e o pomar, parando só para pôr o focinho no ar que traz o cheiro equino da vizinhança mais ao lado. Serão póneis, serão cavalos ? São amigos certamente, que relincham à presença dela, à visão dos flancos e das curvas delineados pelo sol nascente.
sábado, 27 de janeiro de 2024
INDO COM AS FOLHAS QUE SE SOLTARAM
segunda-feira, 11 de dezembro de 2023
AFLUENTE DE UM SERENO DEVIR
quarta-feira, 1 de novembro de 2023
1 DE NOVEMBRO DE 1755
Hoje faz 268 anos que era Sábado e nessa manhã, Lisboa foi arrasada.
Era 1 de Novembro de 1755 e, apesar de ser Dia de Todos os Santos, nem eles, conseguiriam evitar a catástrofe. O Sismo de 1755, destruiu a cidade e provocou incêndios. Muitas pessoas fugiram em direcção ao Rio e foram engolidas por um Tsunami.
Nessa manhã de Sábado de 1755, logo cedo, centenas de igrejas começaram a encher-se de povo. Milhares de velas acesas. Repentinamente, comecou a ouvir-se um rugido, uma vibração semelhante à passagem de milhares de cavalos e carruagens. No ar, um odor a enxofre e, subitamente, durante sete minutos, a cidade foi sacudida três vezes. Os abalos provocaram o desmoronamento de Casas, Igrejas, Conventos((Carmo e Trindade) e nem o Paço Real, a Patriarcal e a recém inaugurada Opera do Tejo, escaparam. (D. José escapou porque, nesse dia estava na Real Quinta de Belém mas, não ganhou para o susto.... A partir desse dia, decidiu nunca mais viver num Palácio de Pedra. Por sua vontade, a familia Real e a Corte, viveriam na Real Barraca da Ajuda, onde faleceu em 1777.)
Devido a geometria da cidade , ainda um pouco medieval, o fogo facilmente se espalhou e, em minutos, toda a cidade ardia.
Pelas ruas milhares de pessoas perdidas, fugiam sem saber para onde. Tentavam chegar ao rio, ao Terreiro do Paço. Muitos tentavam embarcar nos barcos ancorados no rio.
De repente, o povo viu algo que nunca ninguém tinha testemunhado. As aguas do rio, recuaram, deixando a descoberto destroços de navio afundados no Tejo.
Apreensivos, os mais corajosos, atreveram-se a atravessar o rio.
De subito, um ruido, um urro que foi aumentando à medida que se aproximava do Terreiro do Paço.
Do Tejo, uma colossal parede de água escura, entrando barra adentro varreu a cidade por três vezes, levando tudo e todos à sua frente, apagando alguns incêndios, mas, matando milhares de pessoas. Pensa-se que o total, contando com desabamentos, incêndio e doenças, tenha sido entre 20.000 a 100.000. À data, a cidade de Lisboa tinha cerca de 250.000 habitantes.
De acordo com os estudos, o Terramoto de Lisboa não terá tido uma magnitude tão grande como se pensa. Ter-se-á situado nos 7,7 da escala de Ritcher e, terá tido o seu epicentro a Sul do Cabo São Vicente, possivelmente no banco de Gorrinje.
Devido à sua origem oceanica, provocou o Tsunami que não só varreu o litoral Português, como o Sul de Espanha, Marrocos, na Europa, o Sul de Inglaterra foi varrido por ondas de 3 Metros, Escócia, Finlândia.
O Tsunami também se fez sentir nas Caraíbas.
Três anos depois da Catástrofe, Lisboa já tinha um plano para a sua reconstrução. Seria o famoso plano de 1758, que se revelaria um verdadeiro terramoto na sociedade Portuguesa, afectando em particular a Alta Nobreza, sendo o motivo dos vários atentados contra o Rei e o seu Ministro...
terça-feira, 24 de outubro de 2023
FRIENDS WILL BE FRIENDS...
Se não houvesse espaço para uma pausa tudo seria muito mais
difícil de aguentar. De vez em quando fazemos uma. Esquecemos o mundo e a vida
por umas horas e juntamo-nos como costumamos fazer há uma vida inteira. Um
jantar, um jogo de futebol na televisão e umas garrafas de vinho. As conversas
de sempre que nunca se repetem, algumas memórias trocadas, a novidade dos netos
para alguns. O nosso pequeno mundo construído em conjunto ao longo de décadas,
a nossa bolha onde nada nos pode acontecer enquanto estivermos juntos, cada um
vigilante do seu canto na mesma casa. Depois de levantar a mesa e colocar a
louça na máquina, depois dos cafés, os sofás da sala e uma garrafa de whisky
irlandês para ver o resumo dos golos. Por fim a breve assembleia com um único
ponto na ordem de trabalhos: “O que é que vamos ouvir hoje?” E em breves
instantes é eleita uma banda, um concerto para a continuidade do serão.
É sempre bom fazer uma pausa e falar um pouco à mesa do
jantar com esta família onde todos têm lugar, onde todos se conhecem à
exaustão, não havendo por isso, espaço nenhum para surpresas. Uma espécie de
lar que fica na casa de cada um quando nos encontramos. Uma breve conversa e um
longo silêncio porque não é preciso acrescentar mais nada que não se saiba já.
Fica a música e a garrafa de whisky irlandês em cima da mesa, ficamos nós em
cima do sofá com os gatos a passear pelos nossos colos como vigilantes do turno
da noite a certificar que tudo está a correr bem. E por vezes viajamos dali
para uma praia onde fomos adolescentes e corríamos o dia todo como selvagens
sem nunca nos cansarmos, do mar para a areia, da areia para o mar, da mata a
apanhar paus para uma fogueira, de uma paixão para a outra. Mas sempre nós,
tribo antiga e solidária, especialista em pausas, especialistas em horas de
alegria e bem estar. Ou continuamos a viajar com o Rock em som de fundo e vamos
parar ao recreio da escola, à bicicleta que batia todos os recordes, às motas.
Estremeço e regresso ao sofá. A Joana cabeceia o vazio de olhos fechados,
depois acorda também. Olhamos um para o outro e sorrimos. O Pedro e a Mariana
discutem acerca da utilização do comando da televisão. São onze da noite e
parece que já são duas. Conseguimos ainda ouvir mais uma música antes de
começarmos a sinfonia do Uber para nos levar a casa. Despedimo-nos uns dos
outros entre risota e bocejos. Atiramos datas prováveis para o próximo encontro.
Abraços e beijos e vamos indo que temos pressa de nos deitar.
A filha do Pedro um dia perguntou-me se tinha alguma ideia
em relação ao segredo da longevidade da nossa amizade. Ao todo seremos uns dez
ou quinze que se conhecem desde a adolescência, outros ainda mais atrás. Não foi
preciso reflectir muito e a resposta saiu-me no automático :
“Acho que foi tomarmos conta uns dos outros…” respondi.
Se não foi isso que decidimos foi aquilo que fizemos ao
longo de uma vida inteira. Não é interesse, não é amor, não é tristeza nem
solidão. É algo muito maior que nos fez ter sempre a mão estendida para o outro,
a observação distante mas atenta, a disponibilidade, a palavra solidária no
tempo necessário. É qualquer coisa enraizada entre a tribo e a família e ao
mesmo tempo muito mais antiga que a nossa própria noção de existência. Por
vezes não foi suficiente e houve um ou outro que teve que sair mais cedo.
Quando a força do exterior foi superior à nossa.
Nascemos numa realidade caótica e difícil de compreender,
atravessámos essas terras do caos em quase toda a nossa existência e
dificilmente teríamos sobrevivido se não nos tivéssemos uns aos outros . Não
conseguimos compreender a morte mas isso pouco importa porque também nunca
compreendemos a vida. Sairemos daqui no meio do caos e da destruição tal e qual
como entrámos. Não interessa. Cá dentro de mim há algo que me diz que os que
foram à frente vão estar à nossa espera para continuarmos o caminho. E também
me parece que nesse trajecto não vão faltar concertos de Rock e whisky irlandês.
Artur
Imagens de Luis Pereira
terça-feira, 15 de agosto de 2023
REFLEXÕES DE VERÃO
(vigésimo oitavo dia do sexto mês de dois mil e vinte e três. )
quarta-feira, 12 de julho de 2023
A PROPÓSITO DE LEVEZAS INSUSTENTÁVEIS
Depois de Sartre, depois de Camus, depois do ensino
secundário, mais ou menos entre o segundo ano da Faculdade e a tropa, diria que
a obra de Milan Kundera entrou nas nossas vidas na mesma altura em que demos
entrada na vida adulta. Não se poderá dizer que foi um passeio agradável ou
sequer uma catástrofe mas, uma das primeiras lições que a obra de Kundera me
transmitiu foi a de que havia vidas bem piores que a minha. O C foi o primeiro
a ler “A Insustentável Leveza do Ser” e passava noites a fio a elogiar a obra. Era
a continuação das leituras anteriores, era Kafka e Nietzsche no melhor de cada
um, era o novo marco na literatura europeia. Numa noite de Sábado, finalmente,
emprestou-me o livro com todo o cuidado, como quem passa uma relíquia sagrada
de uma igreja para outra. Sem ter ainda largado o livro ainda houve tempo para
uma breve advertência: o livro não estava completo, faltavam-lhe mais ou menos
umas dez, quinze páginas. Depois me explicaria a razão, agora não era o tempo
disso. Não liguei e quase que lhe arranquei o livro dos dedos ainda indecisos.
O C era feito de mistérios e enredos inacabados. Claro que devorei o livro
mesmo sem as páginas referidas o que me obrigaria a reler mais duas ou três
vezes, agora já na forma completa. O romance apoiado numa estrutura fragmentada
faz cruzar personagens e ambientes de uma forma fluída, cujo sentido se vai
fortalecendo como um curso de água que desce de montanhas escarpadas e
irregulares para se espraiar num amplo estuário, misto de suavidade e angústia.
Fala de amor e lealdade, de liberdade e opressão, caricatura do comportamento
humano, desventuras e breves alegrias. Fala na busca da felicidade e das várias
transformações em que ela se vai tornando. Entre os dois mundos do tempo da
Guerra Fria as pessoas procuram desesperadamente a sua felicidade carregando
consigo os fantasmas do passado exigindo da existência coisas diferentes. Um
pouco autobiográfico “A Insustentável Leveza do Ser” é contada a partir do lado
de lá da cortina de ferro onde a liberdade é um sonho e os conceitos se
confundem de acordo com as leituras oficiais do partido único. Do lado de cá
também não se poderá falar exactamente do Paraíso na Terra, havendo bastantes
contradições e manchas a assinalar. De um lado e de outro os sistemas
desfazem-se sobre as suas próprias contradições devorando gerações, uma a
seguir à outra.
As fronteiras do silêncio voltavam a fechar-se sobre a
Europa, e a Grande Marcha já não desfilava senão em cima de um pequeno estrado
no centro do planeta. As multidões que outrora se acotovelavam ao pé do estrado
tinham partido há muito e a Grande Marcha continuava sozinha e sem espectadores…..
…..a Grande Marcha continua, apesar da indiferença do
mundo, mas está a tornar-se nervosa, febril, ontem contra a ocupação do Vietname
pelos americanos, hoje contra a ocupação do Cambodja pelos vietnamitas, ontem
para apoiar Israel, hoje pelos palestinianos, ontem para apoiar Cuba, amanhã
contra Cuba, e sempre contra a América, sempre contra os massacres e sempre em
apoio a outros massacres, continua a Europa sempre a desfilar, e para poder
acompanhar o ritmo dos acontecimentos sem falhar um único acelera cada vez mais
o passo, de modo que a Grande Marcha já só é um cortejo de gente apressada a
desfilar a galope, e a cena cada vez se encolhe mais, até ao dia em que finalmente
há-de tornar-se apenas um ponto sem dimensões.
(A Insustentável Leveza do Ser)
Não vou perder aqui
tempo a descrever todos os aspectos do romance. Limitar-me-ei a referir a sua
grande importância no momento em que surgiu na medida em que abriu um caminho
onde o humor, a memória, e a percepção da beleza podem reclamar um novo Homem,
uma nova Literatura desde que combinados num padrão de exigência e rigor que se
eleve acima da espuma dos dias. Claro que não aconteceu nada como é habitual. A
mediocridade e o kitsh político e social prosseguiram o seu caminho como
sempre. A arte é feita de sobressaltos ocasionais em que a estrutura abana mas
não cai, a evolução espreita mas depois vai esconder-se a correr. Sobre os
personagens sopram os ventos da História interferindo nos seus percursos mais
ou menos intensos, mais ou menos elaborados, varrendo-os de qualquer maneira da
mesa onde depositaram as suas aspirações iniciais.
O optimismo é o ópio do género humano! O espírito são
tresanda a estupidez. Viva Trotski
Ludvik
(A Brincadeira)
Seguiram-se mais romances que fui devorando ao longo dos
anos. O primeiro de todos da sua biografia, “A Brincadeira”, escrito entre 1962
e 1965. Marketa e Ludvik são estudantes universitários em Praga. Ela
identificava-se com tudo o que vivia, o campo de férias num castelo na Boémia,
as aulas de ginástica os programas do partido em geral para os jovens. Ludvik
até concordava com ela mas naquele instante queria era que estivessem juntos em
Praga e não suportava a ideia de que ela estaria mais feliz no campo de férias.
Resolve ser irónico. Numa breve piada
escrita num postal para a namorada num campo de férias tudo acaba por se
precipitar indo parar a um campo de reeducação e ficando com a sua vida virada
de pernas para o ar. Para sempre… Acaba
por encontrar Lúcia com quem se envolve mas sem a conseguir amar ou sequer
tratar bem. Em cima de uma pilha de mal-entendidos, cada um transportará a sua
verdade ,
alheia à verdade dos outros, todas elas devastadas pelos
ventos da História.
Kundera reflecte, caricaturiza, compadece-se, odeia, explode
de raiva e resigna-se, e pelo caminho retrata pessoas e o mundo como quem
relata um combate no qual todos acabamos por perder no fim. A sua obra marca
uma época que já não existe embora a maior parte das angústias e do sofrimento
sejam os mesmos. O cenário mudou mas a peça será sempre a mesma.
Muitos anos depois perguntei ao C o que é que tinha
acontecido às páginas perdidas da “Insustentável Leveza do Ser”. Fez um ar
solene e inspirou fundo. Estava no fim da recruta, ne semana de campo. A certa
altura no meio do mato deu-lhe aquele ataque inequívoco e imprescindível de se
ter que agachar atrás de uma moita. No fim, o único papel disponível era o do livro
que o acompanhava dentro da mochila. Uma história que Kundera poderia ter
escrito.
Artur










