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sábado, 20 de janeiro de 2024

O CIRCO DE OLISIPO




𝙎𝙖𝙗𝙞𝙖 𝙦𝙪𝙚... ⁉️
🔻…𝙊 𝘾𝙞𝙧𝙘𝙤 𝙙𝙚 𝙊𝙡𝙞𝙨𝙞𝙥𝙤 ocupava a área da actual Praça D. Pedro IV, ou Rossio e a sua envolvente, em Lisboa.
▪️Foi no século II d.C que este
monumental edifício público romano foi construído fora dos limites da cidade de 𝙁𝙚𝙡𝙞𝙘𝙞𝙩𝙖𝙨 𝙄𝙪𝙡𝙞𝙖 𝙊𝙡𝙞𝙨𝙞𝙥𝙤 e ao lado da sua necrópole noroeste (identificada, por exemplo, na actual Praça da Figueira).
▪️Era no 𝘾𝙞𝙧𝙘𝙤 que se desenrolavam os “ludi circenses”, como as corridas de bigas e quadrigas (em carros de dois e quatro cavalos, respectivamente) ou as lutas de animais.
. Era também palco de eventos comemorativos oficiais.
▪️Os primeiros vestígios do 𝘾𝙞𝙧𝙘𝙤 surgiram em 1961, durante as obras do Metropolitano, na Praça da Figueira.
. Nessa altura, no entanto, o elemento construtivo com 6 m de largura identificado, foi erroneamente interpretado como parte de uma estrada ou de um cais.
👉 Apenas em 1994 essa perspectiva foi revista, quando se encontraram novas evidências, na escavação arqueológica associada à obra do Metropolitano, no Rossio.
👉 Efetivamente, a 6,5m de profundidade, reconheceu-se parte da arena e um novo troço do que agora se confirmou ser a 𝙨𝙥𝙞𝙣𝙖 – o muro largo que divide longitudinalmente o 𝘾𝙞𝙧𝙘𝙤 em duas metades, em torno do qual decorrem as corridas de cavalos.
▪️A 𝙨𝙥𝙞𝙣𝙖 fazia parte de um complexo que incluía 𝙚𝙪𝙧𝙞𝙥𝙪𝙨 - bacias de água com uma função simultaneamente decorativa e prática, nas quais os cavalos se podiam refrescar.
▪️Em associação, foi também posto a descoberto um plinto, provavelmente de uma estátua, como era característico.
❗️Embora não esteja visível actualmente, quem se deslocar ao Rossio pode imaginar o 𝘾𝙞𝙧𝙘𝙤 𝙙𝙚 𝙊𝙡𝙞𝙨𝙞𝙥𝙤 no local com o auxílio da informação disponibilizada através de um QRCode instalado em duas placas colocadas no pavimento, uma em cada lado da Praça D. Pedro IV.
🔺️ Mas, para já, não precisa de imaginar…👇
❗️Veja o vídeo inserido no website www.lisboaromana.pt
com a reconstituição do 𝘾𝙞𝙧𝙘𝙤 e de parte da necrópole noroeste da cidade de 𝙁𝙚𝙡𝙞𝙘𝙞𝙩𝙖𝙨 𝙄𝙪𝙡𝙞𝙖 𝙊𝙡𝙞𝙨𝙞𝙥𝙤 em: https://lisboaromana.pt/imovel/circo-1#search
📸 Imagens extraídas de 𝙊 𝘾𝙞𝙧𝙘𝙤 𝙙𝙚 𝙊𝙡𝙞𝙨𝙞𝙥𝙤 (https://vimeo.com/470515952
), episódio disponível no site do projecto 𝙇𝙞𝙨𝙗𝙤𝙖 𝙍𝙤𝙢𝙖𝙣𝙖 - 𝙁𝙚𝙡𝙞𝙘𝙞𝙩𝙖𝙨 𝙄𝙪𝙡𝙞𝙖 𝙊𝙡𝙞𝙨𝙞𝙥𝙤 (https://lisboaromana.pt/technical-record
), produzido para o município lisboeta (DPC/CAL Centro de Arqueologia de Lisboa) pela @eraarqueologiasa, realizado por @raul_losada_film com coordenação científica do nosso colega arqueólogo do CAL @Rodrigo Banha da Silva e recriação arqueológica 3D da autoria de @cesar_figueiredo.

sábado, 10 de abril de 2021

A BATALHA DE LA LYS/ O NEVOEIRO E AS SOMBRAS

 

       A propósito de mais um aniversário sobre a batalha de La Lys, deixo aqui a entrada para o meu romance "O Nevoeiro e as Sombras" no dia da inauguração oficial do monumento aos mortos da Grande Guerra.

 

 

 

Naquela ensolarada manhã de Primavera todos os recantos das principais artérias da cidade de Lisboa exalavam um inequívoco cheiro a festa. Os ruídos faziam-se sentir de forma esporádica, entre longos intervalos de silêncio, e o passo dos transeuntes arrastava-se sem pressa, ao contrário de um dia normal de trabalho. Pouco antes do meio-dia a Avenida da Liberdade ia-se enchendo de gente aglomerada pelos passeios. Homens, mulheres e crianças com as suas vestes domingueiras esperavam pela abertura da cerimónia, esticando por vezes o pescoço em bicos de pés, para um lado e para o outro, na tentativa divinatória do início dos festejos. Muitos seguravam nas mãos pequenas bandeiras verde-rubras de papel que tremelicavam sopradas pela brisa, tal como as folhas das árvores que os protegiam com a sua sombra. Outros acotovelavam-se nas janelas decoradas por colchas de várias cores, penduradas dos parapeitos. As atenções concentravam-se em frente da Rua da Alegria, onde tinham sido erguidas três tribunas rodeadas por canteiros de verduras, flores e bandeiras. Ao centro ficava a do Presidente da República e dos membros do Governo. À direita, a dos membros do Corpo Diplomático, e à esquerda a dos Generais e da Comissão dos Padrões da Grande Guerra. Do lado de dentro da Avenida, mesmo em frente da tribuna presidencial, um buraco com cerca de três metros de profundidade constituía a essência daquela festa. Seria naquele cabouco que daí a instantes se faria a inauguração simbólica do monumento aos mortos da Grande Guerra. Uma obra de estatuária do escultor Maximiano Alves e dos arquitectos Guilherme e Carlos Rebelo de Andrade, onde iriam figurar, ao alto em pedra, a Pátria a coroar o soldado em bronze mais abaixo. No nível inferior, mais duas figuras de pedra, uma de cada lado, sustentariam a primeira. Na base ficaria a legenda: “ Ao serviço da Pátria, o esforço da Grei”. Embora a inauguração do monumento tivesse tido lugar em 22 de Novembro de 1931, as cerimónias do lançamento da primeira pedra ocorreram naquela tarde de 9 de Abril de 1923, no mesmo dia em que passavam exactamente cinco anos sobre a batalha de La Lys.

Em pouco tempo o trote de um esquadrão de cavalaria da GNR encheu o espaço com o som dos cascos dos cavalos, abafando a respiração ruidosa da multidão. A pompa transbordava na garbosidade dos cavaleiros, nas crinas e caudas meticulosa e artisticamente entrançadas dos cavalos, no brilho dos dourados e no ondular sincronizado de plumas e penachos de um só andamento. Logo atrás vinha a carruagem aberta do Presidente da República, correctamente sentado, costas direitas e braços esticados à frente apoiados na bengala. Parada a carruagem, assim que tocou com os pés no chão o ancião republicano foi entusiasticamente aplaudido. António José de Almeida agradeceu o cumprimento colectivo levantando a cartola da cabeça enquanto acenava para a multidão. O rosto, outrora redondo, sinal de contentamento e boa nutrição, havia perdido parte substancial da sua curvatura para dar lugar a um semblante mais magro e triangular, cavado pelas rugas. Os eternos bigodes arredondados nas pontas e a barbicha pendurada do queixo em forma de “V”, eram agora mais fartos e completamente brancos, compensando o alargamento e a profundidade da calva. O grande revolucionário de outros tempos estava velho e magro, deslocando-se com a ajuda da bengala, como se transportasse sobre os ombros todo o peso das contradições, do desgaste e das traquinices de uma jovem república que tinha ajudado a nascer. A sua chegada formalizava a abertura da cerimónia ao som dos primeiros acordes de “ A Portuguesa”, imediatamente correspondidos em coro pela multidão ali presente. Os homens tiravam os chapéus da cabeça e os militares faziam a continência perante o olhar espantado de algumas crianças. A nação valente e imortal levantava de novo o seu esplendor transmitindo às gerações mais novas um passado de glória e orgulho, bem como uma identidade para o futuro... pelo menos durante aqueles breves instantes em que entoava o seu hino.

Discretamente, junto à tribuna presidencial tinha sido reservado um espaço com algumas dezenas de metros de extensão, onde agora se perfilava um grupo de cinquenta a sessenta pessoas que se destacavam das restantes pela negritude das suas vestes. Viuvas, orfãos, estropiados ou simples veteranos, todos tinham em comum a marca da Grande Guerra tatuada nas almas. Mulheres relativamente novas escondiam a sua tristeza atrás de véus negros de renda caídos das abas dos chapéus ou envolviam o rosto em lenços da mesma cor, fechados em forma de nó sob o queixo, conforme as origens. As crianças substiuiam os olhares atónitos das outras por uma frieza quase indiferente das órbitas, num lugar onde a esperança não tinha espaço para acontecer. Algumas traziam no peito as condecorações que os pais não tiveram tempo de receber. Os homens tinham o rosto fechado em expressões empedernidas, desprovidas de ódio ou de ternura. Sentados em cadeiras de rodas, amparados por muletas, com mangas de casaco dobradas na ausência dos braços ou sem mazelas evidentes, compunham o pedaço da nação valente sacrificado na última afirmação de esforço colectivo. Pareciam estar todos ali, não por eles, mas para contar o sacrifício e a lembrança dos que não voltaram. Para dizer que o esforço do desconhecido que passou a morar para sempre em câmara ardente no Mosteiro da Batalha foi o esforço de milhares de lares na sequência de uma longa noite de escuridão em que um continente inteiro mergulhou durante quatro anos.

Entre esses sobreviventes contavam-se alguns protagonistas de uma das mais duras batalhas em que esteve envolvido o exército português, precisamente aquela que hoje comemora o seu quinto aniversário, a de La Lys. Era o caso do cabo de artilharia na reserva Manuel Paiva, que agora tentava acompanhar o hino. No lugar da letra emitia uns gemidos semelhantes à melodia, incapaz de se recordar das palavras. Embora sentado numa cadeira de rodas, mantinha intactos o seu corpo bem como a capacidade locomotora. Era o seu cérebro que não conseguia andar. Padecia daquilo a que mais tarde se viria a chamar “fadiga”, ou “stress de guerra” ou ainda “ stress pós-traumático”, passando os dias num hospital psiquiátrico sentado a uma janela a ver o rio. O escuro vazio da expressão do seu rosto era ao de leve interrompido por um brilho tímido, pelo trinado de um canário colocado na enfermaria à revelia das regras. – Umas vezes melhor, outras pior... – era tudo o que a enfermeira sabia dizer a Vicente, antigo camarada de armas que o tinha ido buscar nessa manhã para a cerimónia. No camião do exército que o transportou até à Avenida da Liberdade, fizeram todo o trajecto em silêncio ao lado de outros veteranos ainda em terapia de recuperação das sequelas deixadas pela guerra. Para Vicente, o ex-cabo não era maluco. Estava apenas separado do mundo por uma barreira invisível que só seria derrubada quando ele quisesse voltar ao lado de cá. Pouco ou nada dizia, embora no seu olhar se percebesse que compreendia quando falavam com ele. Tanto podia de repente passar para o lado de cá como podia continuar atrás daquele muro para sempre. Umas vezes melhor, outras pior...

Quando o encontraram julgaram-no morto. Estava deitado na cratera de um morteiro, olhar vago apontado ao céu. Manteve-se fechado naquela expressão numa cama de hospital de campanha durante duas semanas. Só se começou a mexer quando voltou a ver o sargento Vicente de Jesus à cabeceira, equilibrado em duas muletas, a transportar uma perna inteira em gêsso e um enorme penso em diagonal sobre o lado direito da testa. Olharam-se por breves instantes sem dizer nada. Instintivamente, as mãos direitas de cada um aproximaram-se uma da outra, abraçando-se pelos polegares. Foi a primeira vez que se tocaram depois de um morteiro alemão ter caído nas proximidades da sua bateria de metralhadoras, soprando-os pelo ar. Só eles os dois tinham sobrevivido. Desse dia 9 de Abril de 1918, Vicente guardava a marca rectilínea de uma cicatriz na testa, bem como um ligeiro coxear da perna direita, que lhe doía sempre que havia mudança do tempo. Embora com 28 anos, o seu rosto desenhava um homem que se aproxima a passos largos dos 40. No peito ostentava a Cruz de Guerra de segunda classe e a Distinguished Conduct Medal, atribuída pelo exército britânico.

A batalha de La Lys, ponto de passagem obrigatória dos discursos daquele dia, constituía uma das páginas mais sangrentas e mais corajosas de toda a prestação do exército português na I Guerra Mundial. Incorporada no XI Corpo de Exército Britânico, a 2ª divisão do Corpo Expedicionário Português estava incumbida da defesa de um sector de 11Km de desenvolvimento na planície da Flandres, entre a 40ª Divisão britânica a Norte e a 55ª a Sul. À beira do esgotamento físico, com um grande desfalque de efectivos e afectados por uma enormidade de carências, as tropas portuguesas resistiram como puderam às sucessivas investidas de artilharia e infantaria germânicas. No fim, entre mortos e prisioneiros contaram-se sete mil e trezentos. A trágica previsão do emprego da Divisão portuguesa, comunicada a 8 de Abril aos comandantes de brigada pelo chefe do XI Corpo Britânico de Exército, o Tenente General Haking, tinha-se confirmado: “ A Divisão deve morrer na linha B”. As imagens chegavam inevitáveis, dos confins da memória ao ritmo das evocações. Na noite de 8 para 9 de Abril o ânimo era elevado com a chegada da notícia de rendição breve das nossas tropas. Por falta de efectivos e na ausência de reforços, havia quem já estivesse na linha da frente há dois e três meses. A alegria terminou por volta das quatro da manhã, quando a artilharia alemã fez chover as suas primeiras descargas de morteiros. Quatro horas depois a infantaria saltou das trincheiras, percorrendo num àpice a terra de ninguém, até chegar às primeiras linhas dos sectores luso-britânicos. A seu favor o exército alemão contava com um inesperado e poderoso aliado: o nevoeiro. O nevoeiro através do qual chegavam as primeiras explosões da barragem de artilharia; o nevoeiro que cobriu a progressão dos soldados na segunda fase da ofensiva; o nevoeiro que não deixava perceber se quem lá vinha era o inimigo ou alguém que batia em retirada. Vicente recordava-se de estar agarrado às metralhadoras, o corpo a estremecer ao ritmo das rajadas, perdido na indefinição dos vultos que lhe surgiam à frente. Ao fim de quase dois anos enfiado naqueles buracos lamacentos, o instinto dizia-lhe que era preciso disparar sobre tudo o que mexesse. Em caso de dúvida... matava-se primeiro. Foi o que fizeram na sua bateria, contribuindo dessa forma para repelir a primeira investida dos alemães.

“ Ajoelho piedosamente ante a memória dos heróis, símbolos augustos da Pátria! quem foram eles? Ninguém o sabe nem importam os seus nomes. Os verdadeiros grandes homens não têm nome. Vivem impulsionados pelo amor de todos, como as ondas do mar ao sabor da ventania...”

As palavras do Presidente da Comissão dos Padrões da Grande Guerra, dr. Magalhães Lima, provocaram em Vicente um resmungo irreprimível. - Filho da puta... - ao nevoeiro da batalha seguia-se o nevoeiro da memória. Os guerreiros só tinham direito a ter um nome antes de serem arrancados às familias e posteriormente despejados no talho gigantesco que é a guerra. Depois de mortos passavam convenientemente à categoria de anónimos, sendo apenas nessa condição dignos de homenagem. O Manuel, o António e o Joaquim mudavam o nome para “desconhecidos”, passando a morar todos numa campa só, no Mosteiro da Batalha. Era com essa identidade que passariam a figurar nos discursos e nas cerimónias oficiais. Para os lembrar com o nome que os pais lhes haviam dado existia aquele bando de espantalhos, camaradas e familiares. Como aquela delegação de mutilados que agora cumprimentava o Presidente da República, antes de este descer ao buraco onde mais tarde assentaria o monumento.

Um ângulo de Sol incidiu por momentos no fundo do cabouco. Lá em baixo podia ver-se um pequeno cofre de mármore ainda aberto, onde tinham sido colocados o documento que registava o auto de cerimónia e um exemplar de cada moeda em circulação naquela data. António José de Almeida desceu por uma escada improvisada de madeira com alguma lentidão. Um dos auxiliares forneceu-lhe uma colher de prata e um martelo para que pudesse colocar a tampa no cofre e calafetá-lo com cimento. Depois deu-lhe três pancadas simbólicas, passando os apetrechos ao Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, que o imitou. Repetindo o ritual das pancadas seguiram-se o Presidente do Governo e o Ministro da Guerra. Dois rapazes orfãos de guerra aproximaram-se então a passo lento, segurando entre si uma enorme coroa de flores que depuseram sobre o cofre. Visivelmente emocionado o Presidente da República beijou-os nas faces.

Desde as quatorze horas que estavam formadas, ao longo das Avenidas da República e Fontes Pereira de Melo, as forças da Guarnição de Lisboa. O desfile decorreu ao longo da Avenida da Liberdade na direcção do Rossio, assim que terminou a colocação da coroa de flores pelos orfãos. Ao som dos tambores, os estandartes e as bandeiras abriram o desfile para gáudio de cerca de vinte mil pessoas espalhadas pela Avenida.

De pé na sua tribuna, o Presidente da República recebia a continência das várias forças em parada. Vicente baixava-se ao ouvido do seu antigo camarada de armas, explicando-lhe quem era cada força que passava como o pai que tenta integrar o filho num espectáculo até aí inédito para ele. O batalhão da Armada, os regimentos de infantaria... O ex-cabo Manuel Paiva esboçava aqui e ali um sorriso tímido, apontando com o indicador um ou outro pormenor que só ele conhecia, que nascia e morria nele. Estava a desfilar o Regimento de Lanceiros com as suas flâmulas vermelhas ao vento na ponta das lanças, num trote curto e elegante das montadas, quando para os lados do castelo de S.Jorge um estrondo de canhão encheu o ar.

Não é nada Manuel – tranquilizou Vicente – é só um tiro de salva. Olha! Parou tudo. Vês?

-  Como previsto, o disparo de artilharia marcava o breve período de dois minutos de silêncio pelos mortos em combate. O Regimento de Lanceiros estacou mesmo em frente da tribuna presidencial, os militares fizeram a continência e os civis descobriram-se. O silêncio invadiu a cidade. No Rossio houve quem tivese ouvido o cantar dos galos na Praça da Figueira e, àqueles que estavam no alto da Avenida da Liberdade, chegaram distintamente os sons dos sinos da igreja de S.Roque. Todos os veículos civis pararam, ficando os seus ocupantes de pé no exterior. Até a companhia Carris cortou a corrente, imobilizando toda a sua frota de eléctricos. Como que de propósito, as nuvens taparam o Sol pela primeira vez naquela tarde. A cidade ficava suspensa como se de repente tivesse atravessado os campos da morte. O ex-cabo Paiva olhava em redor interrogativo. Depois abriu a boca para grunhir qualquer coisa, parando de imediato com uma festa na cabeça. A mão de Vicente surpreendeu-o.

Agora não Manuel – indicador à frente dos lábios – Agora não.

-  Com outro tiro de uma divisão de artilharia, o desfile retomou o seu curso e a cidade voltou a respirar. Os Lanceiros prosseguiram o seu trote a toques de clarim, seguidos pelas outras tropas. Nessa tarde as cerimónias terminaram com uma missa por alma dos mortos da guerra na igreja de S.Domingos.

Vicente deixou a Avenida no fim do desfile, depois de entregar o ex-cabo Paiva à unidade de transporte militar colocada para o efeito à disposição dos veteranos.

- Adeus rapaz. As melhoras. Eu depois vou lá ver-te, está bem? – Manuel sorriu-lhe com os olhos vazios, focados em lado nenhum. Pelo menos reconhecia-o, pensava Vicente. Pelo menos tinha uma ideia, ainda que mínima, do que se passava à sua volta. O seu olhar no entanto, parecia querer dizer que não lhe apetecia saír de onde estava para voltar a ver o lugar de onde partira. Umas vezes melhor, outras pior...

 

Artur

 

 

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

ENTRE HERÓIS E ASSASSINOS


 

 

A propósito de heróis e de assassinos, a propósito de julgamentos simplistas e dificuldade em digerir o passado colectivo, a propósito de homens que carregaram consigo os seus fantasmas deixo-vos um extracto do meu último romance. Fala de um personagem fictício mas a história que conta pertence à realidade. Pertence a alguém que conheci. Como morreu este ano tomei a liberdade de a certificar. Vão com calma, leiam muito, ouçam bastante. Nada é como vos dizem...nunca. 


"

Lembro-me do tio Armando toda a vida a empurrar um escritório de contabilidade com mais dois economistas, um lugar escuro num rés-do-chão na Estrada de Benfica a cem metros do Jardim Zoológico. Falava muito pouco, vivia sozinho com os seus fantasmas ou com as suas vozes. Vozes que só conseguia calar com várias imperiais no café da esquina ao fim da tarde antes voltar para casa. As suas histórias chegavam a nós em pedaços de cada vez que nos encontrávamos num aniversário ou em qualquer outra ocasião para uma reunião de família. Sem nunca vacilar ou dar indícios de estar bêbado era a sua língua que se ia soltando movida pela viagem daquele dia pelos corredores da memória. Tinha sido casado mas separou-se assim que voltou da guerra. Durante anos não conseguiu ver o filho e, muitos anos depois foi o filho que não o quis ver mais. Soubemos que tinha voltado de África com uma Cruz de Guerra no peito e uma depressão que demorou anos a tratar. Quando bebia dizia-nos várias coisas

 

      Nunca acredites em nada do que te dizem.

 

Soltava pedaços do seu passado pouco se importando se alguém os apanhava no caminho. Falava de histórias povoadas de hipocrisia, de como ser jovem é quase igual a ser um idiota, um crédulo que espera dos outros um discurso de apoio e verdade, uma mão amiga que o ajude a entrar na vida. Falava de coisas horrorosas que se passaram na guerra sem as especificar. Usava metáforas, pintava os episódios com traços gerais

 

       Nunca acredites em nada do que te dizem porque é tudo mentira

 

Os pais dele e os pais da tia Amélia convenceram-nos que deviam casar, que era o melhor para eles, para o seu futuro. Convenceram-nos que não havia mais nada para procurar nos territórios das opções e eles acreditaram. O seu casamento foi uma união frutífera para todos menos para eles os dois. Depois foi a guerra. Convenceram-no que era preciso avançar, defender Portugal fora de Portugal, marchar para um espaço que só conhecia nos mapas. E ele acreditou, e ele foi. Três anos depois a sua rotina era um calvário de comprimidos de todas as cores, os internamentos a rotina dos meses, o ódio pela mulher e pelo filho uma força constante que o queimava por dentro. 

 

    Nunca acredites em nada do que te dizem porque é tudo mentira.

 

O tio Armando nos aniversários de rosto fechado atrás de uma garrafa de whisky a querer dizer, a imaginar que iria conseguir

 

   filho

 

mas a sua boca cerrada como um túmulo, os olhos vagamente focados, a palavra que lhe saía da boca mas que acabava por se esconder, a família à volta, a algazarra e no entanto nos dedos, nos gestos mais simples

 

  filho

 

a palavra que nunca chegou a sair por que nada valia a pena e era tudo mentira. Um homem esmagado sobre si próprio que a família cuidava como se de um móvel raro se tratasse, com muito cuidado e respeito, as consultas e os internamentos em psiquiatria. A mãe sempre a desviar a atenção

 

   O vosso tio está muito cansado, é só isso

 

E as reuniões, os almoços de veteranos, as rixas nos bares mais manhosos da cidade, a policia a ligar lá para casa. O pai a caminho da esquadra, os dois de regresso no carro e quando mais entorpecido pelas drogas quase que um braço estendido, quase que uma palavra que dizia

 

  filho

 

uma palavra que nunca disse, uma palavra que  foi deixando desaparecer até não ser palavra nenhuma, um olhar vago com cada vez menos interesse e o filho a desaparecer também para uma cidade do interior sem ligações nem telefones nem mensagens no Natal

 

muito cansado para responder ou estabelecer qualquer tipo de contacto

muito cansado, só isso

 

Até que um dia o tio Armando tapado por uma bandeira nacional e dentro de uma caixa de madeira debaixo de um enorme aguaceiro no crematório municipal, vários camaradas de armas, rostos fechados como o dele, a família, o filho que veio já no fim com dois netos pela mão, as condolências, o fumo que da chaminé do crematório a serpentear no meio da chuva, o fumo que parecia querer dizer

 

filho

 

mas não disse

 

 o fumo que parecia querer dizer

 

Não acredites em nada do que te dizem porque é tudo mentira

 

As cinzas no fim que também queriam dizer qualquer coisa mas não disseram limitando-se a ficar ali dentro da sua cor cinzenta numa caixa prateada, as cinzas que pareciam querer dizer

 

filho

 

mas que se calaram como de resto todos os outros ali presentes enquanto decorria a cremação     

 

             as cinzas que quando mais tarde se precipitavam no mar em pleno nevoeiro da Praia Grande noutro dia de chuva e vento, as cinzas que por fim desabafaram antes de se despedir que houve uma operação na Guiné há muitos anos, um ataque de surpresa ao inimigo em que duas crianças de oito anos apareceram de repente no caminho. Duas crianças que rapidamente dariam o alarme comprometendo a operação, colocando as vidas deles em risco, não poderiam ser libertadas de maneira nenhuma. Duas crianças encostadas a uma árvore com as cabeças ligeiramente tombadas e um risco vermelho a atravessar o pescoço, duas crianças e um jogo macabro de quem tira a sorte naquele dia, e a faca de mato do tio Armando pendurada de uma mão a pingar

 

filho

 

de modo que nenhum pai gritou naquela noite, nenhuma árvore chorou, nenhum soldado chamou

 

filho

 

duas crianças que ficaram para ali para sempre encostadas a uma árvore de pescoço cortado na cabeça do soldado a quem tocou em sorte eliminá-las, duas crianças que nunca mais deixariam o soldado aproximar-se do seu filho sem se lembrar delas, duas crianças que viveram sempre com ele até ao fim. Isto contaram as cinzas enquanto a espuma das ondas as enrolava, enquanto o vento as espalhava para longe, isto tudo contava uma tarde fria e chuvosa de nevoeiro na Praia Grande, isto contavam várias vozes, vozes de um veterano perturbado pelos seus fantasmas, vozes de duas crianças sentadas na base de uma árvore antes de uma operação muito importante de que já ninguém se lembrava, isto contou aquele dia de cinzas e mar. E na praia, nos nossos passos silenciosos a areia repetia-nos sem pressa

 

nunca acreditem em nada que vos dizem porque é tudo mentira."

 

Artur

 

 

quarta-feira, 5 de junho de 2019

THE TRAIL OF TEARS






   The Brave Cherokee By John Howard Payne

O’ soft fills the dew on the twilight descending
And night over the distant forest is bending
Like the storm spirit, dark o’er the tremulous rain
But midnight enshrouded my lone heart in it’s dwelling
A tumult of woe in my bosom is swelling
And tear unbefitting the warrior is telling
That hope has abandoned the brave Cherokee
  
Can a tree that is torn from its root by the fountain
The pride of the valley; green spreading and fair
Can it flourish, removed to the rock of the mountain
Unwarmed by the sun and unwatered by care?
Though vesper be kind, her sweet dews in bestowing
No life giving Brook in its shadows is flowing
And when the chill winds of the desert are blowing
So droops the transplanted and lone Cherokee
    Sacred graves pf my sires, and I left you forever
How melted my heart when I bade you adieu
Shall joy light the face of the Indian? Ah, never
While memory sad has the power to renew.

As flies the fleet deer when the bloodhound has started
So fled the winged hope from the poor broken hearted
Oh, could she have turned ere forever departing
And beckons with smiles to her sad Cherokee
Is it the low wind through the wet willows rushing
That fills with wild numbers my listening ear?
Or is it some hermit rill in the solitude gushing
The strange playing minstrel, whose music I hear?
Tis the voice of my father, slow, solemnly stealing
I see his dim form by yon meteor kneeling
To the God of the White man, the Christian appealing
He prays for the foe of the dark Cherokee
Great spirit of good, whose abode is in Heaven,
Whose wampum of peace is the bow in the sky
Wilt though give to the wants of the calmorous ravens,
Yet turn a deaf ear to my piteous cry?
O'er the ruins of home, o'er my heart's desolation
No more shalt though hear my unblest lamentation
For death's dark encounter, I make preperation
He hears the last groan of the wild Cherokee


sábado, 22 de agosto de 2015

Á SAÚDE DO MANECAS





    Nos anos 60 eu andava de bibe, ia à escola e adormecia cedo. Nos anos 60 ainda não tinha acontecido o 25 de Abril, todos falavam por meias palavras, vários livros tinham sido escondidos e havia uma guerra. Uma guerra que nos entrava pela porta dentro de várias maneiras e que nos afectava a todos mesmo que usássemos um bibe, fossemos à escola e nos deixássemos adormecer pouco depois do jantar. A guerra visitava-nos levando alguém (o meu pai, os meus primos mais velhos da mesma geração) por algum tempo, ou, algumas vezes, não devolvendo todos os que levava (o namorado de uma tia minha desapareceu durante uma operação de pára-quedistas e nunca mais ninguém o viu). Outra forma de a guerra entrar nas nossas casas era quando se aproximava o Natal e as tropas apareciam a deixar os seus votos de boas festas na rádio e na televisão. Lembro-me vagamente de a minha avó me acordar para ouvir a voz do meu pai no rádio perto da uma da manhã. Na televisão era mais cedo, logo após o telejornal. E ao Sábado a seguir ao almoço passava uma súmula da semana inteira. Um dos meus primos, o Manecas, estava na Marinha na Guiné e apareceu na televisão numa Terça Feira. O pai dele, o meu tio avô Manuel, não tinha conseguido ver. De modo que no Sábado seguinte, logo a seguir ao almoço, deslocou uma poltrona e uma pequena mesinha de apoio para um metro à frente da televisão para ter a certeza que não perdia a mensagem de Natal do filho. Em cima da mesa colocou uma garrafa de vinho do Porto e um pequeno cálice. Mas a emissão tardava em começar de maneira que o meu tio ia aquecendo com um cálice antecipado.
                       
                           Á saúde do Manecas

E a emissão continuava com publicidade e mais aquele programa antes das mensagens, mais o directo de onde não se passava nada. E o meu tio prolongando o aquecimento.

                             Á saúde do Manecas

Quando finalmente começaram a chegar as mensagens de boas festas das nossas tropas já o meu tio enfrentava uma guerra feroz em se manter acordado. Os olhos fechavam contra vontade, a cabeça descia sobre o peito para se voltar a erguer num esticão. Uma genica breve que depressa dava lugar ao amolecimento. Por fim o corpo rendia-se e o sono reclamava a sua vitória incondicional e absoluta. Os militares sucediam-se no ecran a preto e branco até que, para grande alegria da família, o Manecas apareceu pela segunda vez naquela semana. Mas nessa altura a única coisa que o tio Manuel conseguia fazer era ressonar despudoradamente. Mais tarde quando confrontado com a situação o meu tio nunca aceitou que estivesse a dormir. Antes pelo contrário, lembrava-se perfeitamente de ver o filho na televisão. Pormenores é que não havia porque aparecia sempre um assunto muito mais urgente na conversa.
Muitos anos mais tarde num encontro de família tive ocasião de contar esta história ao Manecas e de dividir uma enorme gargalhada com ele. Ainda bem. Hoje foi o funeral do Manecas e a maneira que encontrei de lhe dizer o quanto o estimo foi esta pequena história passada com o pai dele num tempo em que eu usava bibe, ia á escola e adormecia logo a seguir ao jantar.

                              À tua saúde Manecas…


Artur

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

O CRISTO DAS TRINCHEIRAS


O mito só se torna legível quando explode no interior do Ser em absoluta significação. A lenda só se consegue aceitar desde que seja a sinceridade a construí-la. De mitos e de lendas vivem os povos, de mitos e de lendas se distinguem uns dos outros. A História faz-se daquilo que consegue atravessar o tempo e chegar ao presente. Documentos, objectos, construções, imagens, testemunhos…o que não chegar ao presente nunca aconteceu.
Em Portugal somos únicos a lidar com a morte, a tragédia, a adversidade em geral. Encenamos a morte em espectáculos seculares como a tourada com a possibilidade sempre presente dela aparecer. A tragédia, gostamos de a cantar desde as cantigas de amigo da Idade Média. Como se ao aproximar o sofrimento conseguíssemos melhor suportar a dor. Talvez por isso sejamos o único povo que conta anedotas em velórios sem que isso signifique nenhum desrespeito pelo defunto.
A batalha de La Lys (9 de Abril de 1918) foi talvez uma das piores tragédias colectivas a que estivemos sujeitos durante o século XX. A nossa participação na I Guerra Mundial não terminará nesse dia mas a força do CEP será praticamente insignificante a partir daí dado o peso enorme das baixas verificadas.


Situado numa intersecção de estradas no sector português da Flandres, entre Lacouture e Neuve Chapelle encontrava-se a figura de um Cristo na cruz, elemento familiar de quem por ali passava todos os dias. Em 9 de Abril de 1918, com a ofensiva alemã todo aquele sector foi fortemente fustigado pela artilharia. No final do dia a imagem perdera parte das pernas, uma das mãos e tivera o peito trespassado por uma bala. Embora tombado o Cristo permaneceu no mesmo lugar. Se o Cristo ficou naquele estado imagine-se os soldados. Mais de 7500 morreram naquele dia.

Em 1958 o Governo Português solicitou ao Governo Francês que deixasse vir a imagem do Cristo para Portugal. Foi o que aconteceu a 4 de Abril de 1958. Dias depois a imagem seguiria de carro para a sua morada definitiva, o Mosteiro de Santa Maria da Vitória (ou, muito simplesmente da Batalha).
Sobre o túmulo do Soldado Desconhecido ali ficou, tal e qual como terminou o dia 9 de Abril de 1918, a imagem de um Cristo companheiro dos nossos soldados.
Num local simbólico para a nacionalidade portuguesa o anónimo cidadão repousa aos pés de um Cristo que se manteve de pé como uma esperança, um conceito de Paz num cenário negro e aterrador de irracionalidade.


Artur




domingo, 12 de outubro de 2014

PEDRO DE PEDRA


Uma das lendas que corre amiúde, nas bocas das gentes da Foz do Arelho, é a história do velho Pedro, pescador que com o passar dos anos se foi isolando da sua comunidade até um desfecho cruel.
Dizia o povo que tinha sido enfeitiçado por uma bela donzela que por ali passara e por quem ficara embeiçado.
Na aldeia notara-se o seu crescente acabrunhamento.
Nunca, nem em novo, tinha sido um homem muito expansivo.

Naquele dia, uma comitiva real que se deslocava pela praia, de passagem da vila do Baleal para o mosteiro de Alcobaça, levava uma jovem aia de doces olhos claros.
Terá este pequeno grupo pedido a Pedro para os levar à margem norte da Lagoa de Óbidos. Foi assim que a vista de Pedro pousou em Lucinda, dama de companhia de uma senhora da corte, por quem imediatamente se perdeu de amores.
Como era final do Outono, fazia frio e a noite caía rápida, viu Pedro a oportunidade de se acercar de Lucinda, se oferecesse abrigo aos forasteiros.
Era pequena a sua casa mas pouco mais havia em léguas a redor. Talvez nas Caldas da Rainha encontrassem aposentos mais condicentes com a posição da condessa, mas ainda levariam umas horas a chegar lá e o dia depressa dava lugar à noite.
Estavam todos a dormir e acercou-se Pedro de Lucinda, na esperança que esta jovem de outro meio reparasse em si. Falou-lhe com toda a sabedoria que tinha para falar com uma mulher. Apesar de o coração lhe chegar à boca, faltavam-lhe as palavras, e o saber e o jeito eram poucos. Percebia mais de pesca e de vociferar contra o mar revolto que por vezes lhe recusava o que ele queria. 
Lucinda, mais habituada a outro trato, impressionou-se com Pedro mas não da forma que ele esperava. Revoltado com a incompreensão da jovem, Pedro tornou-se cada vez mais brusco, como se com um mar tormentoso lidasse.
Ora Lucinda também era mais do que aparentava ser, e sabia defender-se melhor das investidas de Pedro, bem além que aquilo que ele poderia supor nos seus mais inimagináveis sonhos.
Eram tempos de brumas e magias, e Lucinda tinha aprendido algumas, deixando-o por momentos acercar-se mais próximo de si, e fazendo-o pensar que estava rendida, soprou-lhe baixinho umas palavras que ele não percebeu nem ouviu até ao fim, porque só no dia seguinte, já o sol ia alto e o grupo a horas de caminho, acordou perdido e atordoado e com um enorme vazio no coração.
Não se tinha esquecido dos profundos olhos claros de Lucinda onde se sentira afogar. Nem da sua conduta que agora à luz do dia o envergonhava. Sentia-se como alguém que tinha acabado de destruir atabalhoadamente o tesouro mais importante de toda a sua existência. A oportunidade, a única, de ser feliz. Irremediavelmente.
Não mais falaria Pedro, definhando na sua mágoa que lhe encovava os olhos, a cara e o corpo.
Meses passaram, anos passaram, tornando-se numa sombra do que fora.
A única coisa que crescia era o vazio no peito.
Cada vez mais rígido, apático ao que o rodeava, insensível a tudo, parecia estar a tornar-se numa pedra.


Um dia, inexplicavelmente, apareceu um rochedo no sítio onde ele vivia.
De Pedro nunca mais nada se soube.
Reparava quem o conhecera, num vislumbre do seu rosto no alto da pedra, e no enorme buraco no sítio onde deveria estar o seu coração.
O Penedo Furado na Foz do Arelho, sendo de arenito vai-se desfazendo, como se esboroa a vontade dos homens que se deixam vencer pelas vicissitudes da vida.
Pedro de pedra está lá para quem o quiser ver, até que se desmorone vergado aos ventos da passagem do Tempo, engolido pelo vazio que ele próprio criou.

Hélder