segunda-feira, 2 de junho de 2025
domingo, 28 de maio de 2023
NO CENTENÁRIO DE EDUARDO LOURENÇO
NOTA : ASPARTESDOTODO CELEBRAM O CENTENÁRIO DE EDUARDO LOURENÇO COM ESTE TEXTO QUE, APESAR DO SEU CARÁCTER ACADÉMICO E DE NÃO SE DEBRUÇAR "APENAS" SOBRE O PENSAMENTO DA FIGURA MAIOR DA ENSAÍSTICA E DA FILOSOFIA PORTUGUESA DO SÉCULO XX, SOBRE ELE SE SUSTENTA E INCIDE NA SUA MAIOR PARTE.
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IDENTIDADE,
IDENTIDADE CULTURAL, MEMÓRIA E ESQUECIMENTO: EUROPA E O PORTUGAL EUROPEU
UM
Qualquer
reflexão sobre a temática da construção da cultura e da identidade europeias,
tem em conta uma série consagrada de marcadores, ou referentes matriciais que
se tornaram canónicos. Assim, a identidade cultural europeia – assumindo-se
aqui a fusão dos dois pólos da questão numa mesma expressão que, longe de gerar
uma entidade homogénea e unitária, produz realidades muito distintas, como
veremos mais tarde – aparece como uma aglomeração ou aglutinação de “heranças”:
a herança da Grécia, de Roma, da Cristandade, do Renascimento, do Iluminismo,
da Revolução Francesa, dos direitos do Homem, enfim, de uma miríade de
referentes cuja amálgama constituiria essa mesma identidade. Nesse sentido,
caberia às ciências humanas a tarefa ingrata de dar sentido a essa reunião heteróclita
de matrizes. Mas bastará esse, digamos assim, “amontoado” de origens para dar
conta do objecto a definir? Pelo contrário, a mera aceitação de algumas
evidências será suficiente para a construção de um discurso crítico, sólido e
fundamentado, em torno de um tema crucial e operativo no modo como cada um de
nós experiencia a sua pertença a uma comunidade política que reivindica para si
mesma ser continuadora de um legado tão vasto e tão heterogéneo? Os defensores
de taxinomias estritas argumentarão que o curso da história política, social e
cultural da Europa tem decorrido da integração sucessiva das suas diversas
matrizes referenciais e da conjugação mais ou menos bem sucedida de todos esses
influxos. E, na realidade, têm razão, pelo menos em parte; o repertório de
legados a que aludi sucintamente – e muitos outros podem ser acrescentados –
revela-se de grande utilidade como ponto de partida, sob condição de não
conduzir a uma aporia na qual a aceitação acrítica de todos os legados e a
passividade aproblemática com que se aceita que eles se integram sem conflitos
numa mesma totalidade explicativa equivale à passagem de uma ontologia a uma
metafísica perene, na qual o tratamento dos mesmos temas conduz inexoravelmente
às mesmas conclusões. Sem negar a utilidade do repertório matricial e a sua
operabilidade na construção de um horizonte de legibilidade e inteligibilidade
de uma identidade (ainda) em construção, constato e sublinho a premência de
duas questões de grande alcance que à partida emergem da sua aceitação
acrítica:
a) Todos
os elementos que, aglutinados, formam a cultura e a identidade europeias, têm o
mesmo peso e significado?
b) Constituirão
todos esses elementos uma rede de transferências conceptuais entre si? Se sim,
de que modo?
A obsessão
essencialista formada a partir de uma visão estrita do conjunto historicamente
consolidado de legados culturais cuja amálgama – e mesmo a hipotética
coalescência – teria resultado naquilo que designamos como “identidade cultural
europeia”, contaminada por uma fixidez que contraria o próprio espírito e
carácter dinâmico de que essa identidade deu provas substantivas.[1]
Assim,
a melhor maneira de abordar o problema é tomar como ponto de partida uma
declaração de Edgar Morin em “Pensar a Europa”, citada por Isabel Baltazar no
texto “Pensar a História da Europa: Reflexões Sobre a Construção Europeia de um
Destino Comum”: “A Europa é uma noção incerta, nascida da barafunda, com
fronteiras indefinidas, de geometria variável, sofrendo de deslizes, rupturas,
metamorfoses. Trata-se por conseguinte, de interrogar a ideia de Europa naquilo
que ela tem de incerto, de turvo, de contraditório, para tentar extrair daí a
identidade complexa”.
Como
se depreende, a escolha lexical de Edgar Morin não é inocente; “incerto”,
“variável”, “turvo”, “contraditório”, “identidade complexa”, escolhas que
remetem para um objecto em permanente construção e metamorfose, sujeito às mais
variadas interpretações – todas elas com pretensão a validade lógica e
universal – plural, aberto e, sobretudo, instável. O que me leva de volta ao
início deste texto: neste ambiente de não-fixidez, podemos reduzir a
interpretação da identidade cultural europeia a um jogo dialético de matrizes e
referentes canónicos?
Tenho
vindo a utilizar indistintamente a expressão “identidade cultural europeia”
como um conceito composto, no qual “identidade” e “cultura” parecem ter o mesmo
conteúdo, completarem-se e equivalerem-se. Mas esta utilização indiferenciada
não é, também ela, isenta de problematização. De facto, podem ser encaradas
como entidades autónomas e não redutíveis entre si. Diversos autores exprimem a
necessidade de pensar a cultura de um modo que a caracterize como suporte da
identidade. Isabel Baltazar, no texto já referido, é uma dessas vozes. Diz-nos
ela: “Para além de desesperadamente se procurar uma unidade na diversidade
cultural europeia, tão presente em Fernando Pessoa, é o reconhecimento da
cultura como elemento fundamental para definir a própria identidade europeia.”
[BALTAZAR, 2011, p. 216][2]. Em “A Identidade Cultural
Europeia”, Vasco Graça Moura aponta no mesmo sentido, quando diz: “Dada a
própria natureza das coisas, qualquer identidade relevante que se pretenda ver
num conjunto de nações que formam a Europa tem que ser também, necessariamente,
uma identidade cultural.” [MOURA, 2013, p. 12]
Neste
ponto, e para concluir esta secção, resta-me contrastar todas estas teses sobre
a identidade e a cultura europeias com o especialíssimo caso da identidade
cultural portuguesa e o modo como esta se confronta, adequa, adapta ou, pelo
contrário, se desajusta, se afasta da(s) sua(s) contraparte(s) europeia(s).
Antecedendo essas considerações, e enquadrando-as, adianto dois pressupostos
que se deduzem da literatura disponível:
a) Apesar
dos particularismos e características identitárias, decorrentes do imaginário
que a estrutura e lhe confere sentidos e interpretações próprios e originais, a
identidade cultural portuguesa sempre se sentiu atraída e determinada pelo
poderosíssimo centro de atracção gravitacional da identidade cultural europeia;
b) Contra
o pano de fundo da identidade cultural europeia, com o qual partilha os mesmos
referentes e matrizes, a identidade cultural portuguesa afirma-se primeiramente
pela sua excepcionalidade, mesmo se todos os outros povos europeus também se
percepcionam como excepcionais nalguma das suas características definidoras ou
ponto do seu percurso histórico.[3]
Não cabendo aqui
estabelecer um repertório integral dos elementos simbólicos, religiosos,
imaginários, etc. que fundamentam a crença na excepcionalidade da identidade
portuguesa, e que se manifestam em todas as dimensões e vertentes possíveis da
vivência colectiva, cristalizando-se quer na cultura popular, quer na esfera da
alta cultura[4],
como podemos finalmente caracterizar a identidade portuguesa? Segundo Eduardo
Lourenço, como uma “hiperidentidade”[5], uma tese formulada no
texto “Psicanálise Mítica do Destino Português” [LOURENÇO, 2022, pp. 23-66]. Esta
forma de questionamento da identidade portuguesa como hipertrofia de
determinados elementos constituintes dessa mesma identidade é para Eduardo
Lourenço um problema de grande magnitude; resulta de uma tensão constante entre
o espírito europeu universalizante e aberto e o fechamento que a
hiperidentidade implica. Aliás, este problema liga-se com uma outra dimensão
crítica de que Lourenço dá conta em diversos escritos, ao caracterizar a
cultura portuguesa como uma não-cultura, devido justamente ao facto de não ter
um carácter universal; na sua perspectiva, faltar-lhe-ia a vertente
especulativa e racional que resulta do labor filosófico, isentando-a,
isolando-a dos movimentos de pensamento que são, também eles ou principalmente
eles, uma das marcas de água da identidade e da cultura europeias. De tal forma
assim é, e Lourenço não deixa nunca de sentir o peso trágico dessa
circunstância, que chega a caracterizar essa, digamos assim, falha, como
“indigência ontológica”. De resto, esta interpretação no limite de um
pessimismo lúcido, veio a ser matizada no pensamento de Lourenço ao longo da
sua linha evolutiva: se nos anos 40 e 50 via o problema da identidade cultural
portuguesa dessa forma, na fase tardia da sua obra esse pessimismo, e a
ansiedade que lhe é concomitante, ampliam-se: já não é só a cultura portuguesa
que é uma não-cultura; toda a cultura europeia o é também, já que se
desenvolveu num ludismo sem transcendência e sem a aspiração à criação
universal de valores que tinha sido o seu apanágio.
Concluindo: a
identidade portuguesa assenta numa estrutura simbólica, que actualiza
permanentemente uma mitologia sempre renovada, uma estrutura profunda cuja
origem está ligada aos mitos fundadores da própria nacionalidade (o seu
carácter miraculoso e transcendente), passa pela exaltação mística e épica de
“Os Lusíadas”, é filtrada pelos mitos sebastianistas, resgatada pelas visões do
V Império, re-interpretada pela Geração de 70 – especialmente por Antero de
Quental –, assumida como determinante cultural pelo Estado Novo e plasmada na
Filosofia portuguesa e nos movimentos artísticos e culturais do século XX[6], como se essa estrutura
simbólica fosse uma latência sempre pronta a irromper na nossa vida (mental e
afectiva) comum sempre que nos confrontamos com crises e sobressaltos de ordem
política, social ou económica.
DOIS
Como temos vindo a
considerar, a memória cultural portuguesa é rica e complexa e, mesmo abstraindo
da percepção de excepcionalidade, da mitificação do passado, da ausência de uma
reflexão generalizada sobre o ser português, da imagem degradada
que os portugueses têm do seu presente – permanentemente contrastada com o
passado percepcionado como glorioso – e de uma subjetivação e territorialização
(para retomar o termo empregue por José Gil) que funcionam como forças de
bloqueio de uma vivência plena e realizada, actualizada, do seu potencial de
desenvolvimento, constitui o fundamento, sustentáculo e reforço da identidade
portuguesa. Esta memória colectiva compartilhada, mesmo geradora da
“hiperidentidade” que temos vindo a referir, e que foi identificada por Eduardo
Lourenço como predicado fenomenológico da identidade portuguesa, é ainda assim
o “cimento” de uma comunidade política que, de outro modo, tenderia para o
esquecimento. Se concordarmos com Eduardo Lourenço, seguindo-o na tese de que a
cultura europeia se deixa corroer pelo lúdico, o imediato e o material,
construindo monumentos à banalidade, teremos que aplicar o mesmo diagnóstico à
nossa dimensão.
Os fenómenos da urbanização
acelerada nas últimas décadas, cujos efeitos de desequilíbrio são amplamente
conhecidos, nomeadamente na desertificação e abandono de parcelas do território
e na perda de coesão social, a globalização e mudanças profundas nas estruturas
sociais, são factores de desagregação de uma identidade cultural que, nem por
ser “hiperidentidade”, escapa a uma evolução que tende a tornar menos densa e
significativa; os “lugares de memória” de que falava Pierre Nora tornam-se para
os portugueses meras cerimónias e rituais comemorativos, impondo a obrigação de
relembrar constantemente aquilo que se comemora. Por outro lado, a perda de
conexão com as raízes culturais, efeito de uma modernização que só o é à
superfície e que se manifesta em aspectos triviais da nossa vivência coletiva,
tem vindo a desligar os indivíduos do património comum e a tornar difusa e
evanescente a memória histórico e cultural. Na minha perspectiva, a memória e o
esquecimento desempenham papéis conjugados na identidade portuguesa. Sem desvalorizar
o influxo externo decorrente da abertura ao mundo, nem a pressão exercida pela
modernidade tecnológica, e sem esquecer que as identidades são dinâmicas,
importa considerar a aplicabilidade ao caso português das ideias de Paul
Ricoeur sobre a relação dialética da memória com o esquecimento, bem como a necessidade de considerar a importância central de
uma ars oblivionis com um estatuto paralelo com a ars memoriae. Aparentemente esta relação assenta num paradoxo: aquilo que Ricoeur designa
como “dever de memória” apresenta-se como “dever de lutar contra o
esquecimento” e assim anular ou minimizar aquilo que a natureza do esquecimento
representa de dano ou malefício. A primeira nota a reter no processo de exame
da temática do esquecimento é o propósito de ultrapassar aquilo que Ricoeur
designa como “polissemia opressiva”, ou uma patologia da linguagem, que
perturba a possibilidade de o visar (ao esquecimento) num horizonte que não
seja o da pura negatividade. A argumentação do filósofo é acerca dessa questão
muito clara: a representação do passado é problemática, desde logo porque se
coloca a questão da total confiabilidade da memória – Ricoeur chama-lhe mesmo
“ambição de confiabilidade da memória” e fala também em “enigma constitutivo da
lembrança” originado pela dialética ausência/presença na representação do
passado – e também do seu abuso: a memória que recorda tudo e que, pelo seu
carácter totalitário, se torna monstruosa. No limite, podemos pensá-lo, essa
memória que recorda tudo e que, nesse sentido, abarcaria a totalidade do Ser,
tornar-se-ia inútil, num sentido que Ricoeur sugere ser o da nossa coexistência
no passado e no presente. Assim sendo, considero que a ars oblivion
opera no caso português no sentido de atenuar – mas só à superfície e só no que
diz respeito ao rituais quotidianos, uma vez que as estruturas profundas não
mudam – os efeitos negativos da hipertrofia da identidade, por um lado, e por
outro a manter uma reserva (“esquecimento de reserva”) que permite o sentimento
de pertença a uma comunidade política e a uma entidade cultural que é maior do
que a soma dos indivíduos que dela, com maior ou menor grau de consciência do
legado de que são portadores, se reclamam. Sobretudo, porque permite esquecer
tudo aquilo que é inútil na compreensão da história e na atribuição de sentido
ao presente.
Arnaldo Mesquita
[1]
No ensaio “A Europa ou O Diálogo Que Nos Falta”, de 1949, Eduardo Lourenço faz
a seguinte reflexão: “(…) à Europa tudo lhe convém menos do que a resignação
hindu à inércia do extático”.
[2]
Torna-se desnecessário sublinhar que o conceito de “identidade” implica um
conjunto de particularismos e originalidades através dos quais se afirma,
esquecendo-se por vezes a realidade de transferências culturais que formam
também cada identidade. Por sua vez, o adjectivo “cultural” tem um sentido e
abrangência mais latos. Em “Gramática das Civilizações”, Fernand Braudel
caracteriza-o deste modo: “(…) designa o conjunto do conteúdo que abarca
simultaneamente civilizações e cultura. Nestas condições, dir-se-á de uma
civilização (ou cultura) que ela é um conjunto de bens culturais, que o
seu lugar geográfico é uma área cultural, que a sua história é uma história
cultural, que os tributos de uma civilização a outra civilização são tributos
ou transferts culturais, tanto materiais como espirituais.” [BRAUDEL, 1989,
p. 20]
[3]
Como muito bem notou Eduardo Lourenço na obra “Portugal Como Destino Seguido de
Mitologia da Saudade”: “Cada povo só o é por se conceber e viver justamente
como destino. Isto é, simbolicamente, como se existisse desde sempre e tivesse
consigo uma promessa de duração eterna. É essa convicção que confere a cada
povo, a cada cultura, pois ambos são indissociáveis, o que chamamos
«identidade». Como para os indivíduos, a identidade só se define na relação com
o outro. Como essa relação varia com o tempo – é o que chamamos a nossa
história –, a identidade é percebida e vivida por um povo em termos
simultaneamente históricos e trans-históricos.” [LOURENÇO,
2012, p. 9-10]
[4]
“O singular do povo português é viver-se enquanto povo como existência
miraculosa, objecto de uma particular predilecção divina. Dizer-se que se vive
como “povo de Deus” seria irrelevante, sobretudo hoje, que esse conceito tomou
um sentido mais vago. É como povo de Cristo, e não meramente cristão, que,
desde a sua irrupção na história medieval como reino independente, os
responsáveis pela sua primeira imagem e discurso mítico o representam.”
[LOURENÇO, 2012, p. 12]
“Não
há na cultura portuguesa discurso mais alucinatório e sublime que o de António
Vieira. É a síntese arrebatada, mas simbolicamente coerente, de cinco séculos
de vida colectiva vividos com a convicção arreigada – mas também culturalmente
cultivada – de que a própria existência de Portugal é da ordem não só do milagre,
como da profecia. Pela sua pública fidelidade crística, Portugal
profetiza.” [LOURENÇO, 2012, p. 21]
[5]
De resto, não é o único a fazê-lo. José Gil lê a identidade portuguesa como uma
força de bloqueio do nosso desenvolvimento colectivo e produtora de
“subjectividades autocomplacentes”, fechadas ao exterior – entenda-se, ao
exterior dessas subjectividades – territorializadas, construindo muros e
fronteiras mentais que provocam a paralisia do desassossego, que o filósofo
reputa como motor de uma dinâmica que permite mobilizar o presente e o futuro
num mesmo desígnio. Compare-se esta forma de pensar a problemática da nossa
identidade com aquela que Lourenço formula em “Nós E A Europa ou As Duas
Razões”, quando afirma: “Por um lado, subtrai os portugueses à consciência
deprimida que teriam de si sem esse passado; por outro, impede-os de investir
na sua vida real, no seu presente, uma energia e uma ambição que sempre
parecerão medíocres comparadas com as do século de esplendor, ou, pelo menos,
de dinamismo excepcional.” [LOURENÇO, 1994, p. 11-12].
Aliás,
refira-se que Gil utiliza uma metodologia de análise que, não sendo exactamente
similar à de Lourenço – ambos utilizam a terminologia e o tipo de exame das
profundidades, arcanos e análise da discursividade narrativa – lhe permite
chegar a conclusões semelhantes quando diz, por exemplo: “Não foi Eduardo
Lourenço que afirmou que, longe de sofrermos um défice, sofremos sim de um
excesso de identidade?” ou ainda “O nosso mal é a identidade” [GIL, 2009, p.
20].
[6]
Importaria referir a intervenção nesse processo de movimentos como o Saudosismo
e a centralidade da obra e do pensamento de Teixeira de Pascoaes no seu
ideário, o projecto ideológico da revista “A Águia” como divulgadora das
concepções da Renascença Portuguesa, intelectuais e filósofos como Jaime
Cortesão, Leonardo Coimbra, António Sérgio, etc., culminando no messianismo
sebastiânico expresso por Fernando Pessoa em “Mensagem”.
domingo, 18 de dezembro de 2022
AFINIDADES
São muito pouco conhecidas as relações entre Albert Camus e André Malraux, ofuscadas pela muito comentada e analisada até à exaustão extraordinária relação de amizade entre Camus e Jean-Paul Sartre e a ainda mais comentada ruptura entre os dois, provocada pela publicação de "O Homem Revoltado". A obra "Correspondance 1941-1959" vem por isso preencher essa lacuna. Trata-se de uma edição da NRF Gallimard de 2016 e, como é habitual nessa chancela, é de uma sobriedade total: limita-se a reproduzir a correspondência trocada entre os dois entre 1941 e 1959, exarando algumas notas de rodapé que enquadram as missivas trocadas no seu contexto histórico e nos respectivos percursos biográficos, deixando para o leitor a interpretação literal daquilo que uniu essas duas personalidades ímpares do século XX europeu. Agradecemos que assim seja, que sejamos livres para traçarmos o retrato dessas relações a partir das palavras dos próprios. Sophie Doudet, que organizou e apresenta a correspondência, limitou-se a organizá-la cronologicamente e, como já disse, a enquadrar o contexto em que ela ocorre, apresentando, isso sim, uma bibliografia que permite ao leitor, se assim o desejar, aprofundar o conhecimento da biografia e obra dos escritores.
A primeira coisa a reter é o papel fundamental desempenhado por Malraux na entrada de Camus na Gallimard e na publicação conjunta de "O Estrangeiro" e de "O Mito de Sísifo". Sabe-se que Camus prezava acima de tudo a triangulação que consistia em, sobre um determinado tema, escrever uma obra de ficção, um ensaio e uma peça de teatro. E sabe-se também que Gaston Gallimard não estava muito pelos ajustes na publicação do ensaio filosófico de um jovem a quem não reconhecia profundidade e sistematicidade suficientes para que as suas elaborações filosóficas tivessem bom acolhimento no ambiente da França ocupada e em grande tumulto. Já quanto ao romance era diferente: a recomendação de Malraux e de outros intelectuais de peso garantia a repercussão dessa obra inicial que inaugurava uma das mais extraordinárias aventuras do pensamento e da arte do século XX. É assim que ficamos a saber que Malraux recebeu um exemplar de "O Mito" com uma dedicatória que rezava:
"À André Malraux avec l'admiration et l'amitié d'Albert Camus"
É importante referir que Malraux é mencionado quatro vezes no ensaio sobre o Absurdo, o que atesta a admiração que Camus tinha por ele e também a amizade que o mais jovem sempre dedicou aquele que considerava como seu mestre. E, no entanto, e na verdade, o que poderia unir esses dois homens cujas vidas não poderiam diferir mais ? Malraux nasceu em Paris no seio da burguesia endinheirada, filho de uma civilização que depressa vai descobrir que é mortal. Quando Malraux parte para a Ásia e dá início a uma série quase inacreditável de aventuras, Camus é ainda uma criança pobre na Argélia francesa e quando "A Condição Humana" obtém o Prémio Goncourt de 1933, este último é um jovem estudante prometedor que, mais tarde, irá adaptar ao teatro "Le Temps du Mépris", e que, ainda não tendo publicado nada se vai medir com uma personalidade que ombreia com Dostoievski, Proust, Gide e com a elite dos intelectuais franceses que gravitavam em torno da NRF. Portanto, tudo os distinguia: a origem social, os estudos que fizeram, a idade, a intervenção pública: em 1936, quando Camus organiza a representação colectiva "A Revolta das Astúrias", que precede em muito a publicação de "L'Espoir", Malraux é já o comandante da aviação estrangeira que combateu do lado republicano na Guerra Civil espanhola; Camus "apenas" militava civicamente em prol da justiça e da liberdade. Podemos imaginar a emoção de Albert quando desembarcou em Paris e assistiu à exibição de "Espoir - Sierra de Teruel", realizado por Malraux e com origem na sua experiência no combate espanhol, um Malraux símbolo da resistência anti-fascista e no auge da sua glória literária. O que é certo , e disso esta correspondência dá conta, é que Camus e Malraux se admiravam mutuamente e que foram desenvolvendo uma amizade sem mácula ao longo do tempo, apesar de divergirem séria e profundamente no que concerne às respectivas posições políticas depois da Libertação. Porque antes disso, e no essencial, estavam de acordo. E como não estariam ? Certamente Malraux, ele próprio empenhado na denúncia do colonialismo francês na Indochina, admirava a denúncia que Camus fazia do colonialismo francês no Norte de África nos artigos publicados no jornal "Alger Républicain".
Uma das mais extraordinárias trocas de correspondência entre os dois ocorre quando Albert Camus lhe pede autorização para adaptar ao teatro e encenar no Théâtre du Travail "Le Temps du Mépris". A resposta de Malraux é peremptória e definita, consistindo numa única palavra: "Joue !", sem sequer cuidar de saber em que termos Camus iria adaptar e encenar o seu texto. O que atesta o nível de confiança na integridade de Camus e na certeza de que combatiam o mesmo combate. Ainda não se tinham encontrado pessoalmente. Esse encontro dá-se, como já foi dito, por ocasião da estreia em Paris do filme de Malraux, portanto sob o signo do apoio à causa republicana espanhola e à defesa da República; ambos denunciam - com os meios e recursos que tinham à sua disposição - o golpe de estado franquista e não se cansaram nunca de condenar veementemente o miserável abandono, a terrível negligência a que a comunidade internacional votou a República espanhola. Essas duas vertentes da sua intervenção pública - denúncia do colonialismo e condenação do fascismo espanhol - acabariam por cimentar ainda mais a amizade e admiração mútuas. E Malraux nunca se esqueceu do que viu em Espanha: as acções dos conselheiros soviéticos, mais preocupados em esmagar as veleidades não ortodoxas dos anarquistas e outras facções de esquerda do que em combaterem os franquistas. Foi aí que começou a deixar de ser um "compagnon de route" do Partido Comunista. E nunca voltou a Espanha. Olivier Todd, um dos grandes biógrafos de Malraux (cf. "André Malraux - Une Vie", Paris, Gallimard, 2001) conta que em 1972 recusou desembarcar em Cádiz aquando de um cruzeiro que fez no Mediterrâneo. Camus, pelo seu lado, demitiu-se em 1952 da Unesco por a organização ter aceite a Espanha franquista no seu seio.
Passo por alto as relações entre eles durante a II Guerra Mundial e a Ocupação, período em que as cartas entre ambos se tornam raras por motivos óbvios. Interessará saber que, em 1943, Malraux foi decisivo na escolha de Camus e Sartre como jurados do Prémio Literário Pléaide, criado pela Gallimard e pela escolha de Camus como integrante do comité de leitura da Gallimard, cargo que ocupará até à sua morte em 1960; que Camus ajudou inúmeras vezes Malraux nas suas acções como resistente; que, no jornal "Combat", em 1944, fez titular a primeira página com o anúncio "André Malraux est vivant", depois de ter sido anunciada a sua captura pelos alemães e o seu fuzilamento. Ferido, capturado e evadido para continuar o combate. Camus escrevia:
"Nous n'avions jamais accepté la nouvelle de sa mort. L'amitié a son espérance et ses raisons plus fortes que la raison. Car il était, "il est", de nos amis et l'idée qu'il pouvait être tombé dans une lutte qui était la sienne et la nôtre depuis tant d'années, avant de connaître la victoire, cette idée nous serrait le coeur et nous remplissait d'amertume (...) Quelques semaines avant la Libération, Malraux nous quittait pour la dernière fois, sur le Pont Royal, les cheveux sur le front, la cigarette vissée au coin de la bouche et l'imperméable volant au vent de la Seine (...) Nous avons dit "Veillez sur vous" et Malraux riait".
Este e outros textos podem ser lidos na indispensável recolha "Éditoriaux et Articles d'Albert Camus 1944-1947", edição estabelecida por Jacqueline Lévi-Valensi, Paris, Gallimard, 2002.
Termino, sem terminar, referindo a última troca de correspondência e a última interacção entre os dois. Ocorreu em 1959, quando Malraux era Ministre des Affaires Culturels (um ministério da cultura criado por De Gaulle à altura e dimensão da figura de Malraux), já no fim do ano. Malraux conseguiu desenredar as teias burocráticas e financeiras para a atribuição permanente de uma sala de teatro parisiense a Albert Camus, para que este a gerisse administrativa e artisticamente com toda a liberdade. Já não houve tempo; Camus morria a 4 de Janeiro de 1960.
sexta-feira, 9 de dezembro de 2022
HA
Dedicado à Matilde, minha querida filha e uma mente brilhante
Um destes dias, já não sei qual, fui à FLAD assistir ao lançamento do livro "Hannah Arendt - Uma Biografia" (Relógio d'Água, 2022) pela sua autora, a Prof. Samantha Rose Hill e lembrei-me que este blog estava a cometer uma enorme injustiça: se não me engano, nunca publicámos um texto sobre Hannah Arendt, uma das maiores pensadoras do século XX, cuja fecundidade de reflexão continua a ecoar em todos os problemas que se nos deparam, sejam eles de cariz político, sociológico ou filosófico. Talvez tenhamos feito referências esparsas à sua obra em outros textos, mas este é o momento de começar a preencher essa lacuna inadmissível. Não sendo eu um especialista no seu pensamento - não sou, aliás e ainda bem, especialista em nada - sou ainda assim um devoto leitor das suas obras e delas me tenho servido muitas vezes para me guiar no labirinto da contemporaneidade. E tenho, sobretudo, procurado compreender as suas posições e perspectivas em relação à acção política, sabendo que a filósofa o fez sempre a partir de um horizonte ético que se baseia sempre na interrogação primicial: como podem os homens agir em conjunto (portanto, política e publicamente) no sentido de expressarem o seu amor uns pelos outros e pelo mundo que habitam.
Não sendo, como já referi, um especialista no pensamento de Arendt, não procuro traçar um panorama completo desse pensamento, mas antes iniciar um série que se debruçará sobre aspectos da sua reflexão que se me oferecem como fundamentais, começando, como já adivinharam, pelo conceito de "amor mundi". Antes de me abalançar a tão arriscada tarefa, quero deixar uma nota introdutória que consiste em relembrar que, apesar dos tormentos pessoais que quase a fizeram colapsar (nomeadamente a sua fuga da Alemanha nazi, a sua fuga posterior de França quando esta foi invadida, a morte de Walter Benjamin, a sua chegada a Nova Iorque completamente desprovida de meios materiais, etc.) Hannah sempre foi uma pessoa com uma imensa alegria de viver e dotada de um incomensurável sentido de humor. E também quero assinalar que, apesar de ter estudado e convivido com os grandes peso-pesados da Filosofia do século XX - Martin Heidegger, Edmund Husserl, Karl Jaspers - manteve sempre uma enorme abertura de espírito e permanentemente procurou uma certa leveza que, sem prejudicar a profundidade, justeza e rigor do seu pensamento, a tornam mais próxima de nós, mais presente na nossa fragilidade e vulnerabilidade, mais ciente dos nossos erros e dos nossos fracassos. Em suma: mais humana.
Para início de conversa, relembro que a sua tese de doutoramento tem como título "O Conceito de Amor Em Santo Agostinho - Uma Reflexão Filosófica" (Instituto Piaget, 1997), texto no qual, distanciando-se da dimensão teológica, Arendt identifica e analisa uma das dimensões do conceito de "amor" em Agostinho: o princípio ético que vincula os homens uns aos outros e através do qual é possível formar comunidades. A questão, para a filósofa alemã consiste em determinar se esse conceito de amor é por si só capaz de gerar conexões sociais e determinar a acção política. Para o que aqui me traz, não me interessa desenvolver muito este tema, remetendo os eventuais interessados para a referida obra disponível numa excelente tradução e numa edição muito cuidada como é apanágio das edições do Instituto Piaget. O que me importa reter é a centralidade do conceito de amor em todo do pensamento de Arendt (desde esse texto de 1929) até ao seu fim. E também me importa assinalar que a apresentação que possa fazer do conceito de "amor mundi" ficará sempre aquém da complexidade e da profundidade da sua formulação.
Se, como diz Samantha Rose Hill, os sentimentos são perigosos em política, a solidariedade e o pensamento crítico são essenciais, teremos que concluir que o primeiro requisito é o de ver os outros tal como são, o que parece ser uma verdade banal, mas que já não o é tanto se reformularmos a expressão, acrescentando-lhe: "ver os outros tal como são, não em função do nosso próprio desejo ou a partir de uma concepção abstracta de mesmidade". O que Arendt visa acima de tudo (depois de ter analisado e desconstruído os dois tipos de amor que S. Agostinho concebia - o amor-desejo e o amor-memória - é o amor que ama o próximo e o mundo em toda a sua alteridade. E, provavelmente fruto das suas próprias experiências, amar o mundo significa amá-lo na sua totalidade, incluindo o sofrimento, a injustiça, a fealdade, a falta de verdade ,de justiça e de felicidade que, evidentemente, não são deste mundo.
O processo de Arendt é constituído por uma análise altamente sofisticada das patologias do amor, relembrando que o amor é muito mais do que o amado e o amante; há um mundo entre eles que tem que ser cuidado, num espaço político onde todos os actores estão presentes todo o tempo, interagindo e baralhando os dados de um sistema que só na aparência é robusto e eficaz. Na última obra que produziu - "A Vida do Espírito - Volume II Querer", Instituto Piaget, s.d.), Arendt volta a afirmar que o amor é o reconhecimento da alteridade dos nossos semelhantes e pré-condição para a criação do espaço político. Sublinhando que para Agostinho é o amor que transforma a vontade dividida, diz: "não existe uma afirmação mais forte de algo ou alguém do que amá-lo, ou seja, dizer: Quero que existas - Amo: volo ut sis".
É preciso, então, que voltemos a repensar esse conceito, para percebermos onde errámos, em que encruzilhada virámos na direcção errada, em que altura deixámos de ver com clareza e nos tornámos os autómatos da modernidade, os zombies da tecnologia, os arautos (mesmo que involuntários) da função, do empreendedorismo e de todas as outras barbaridades com que enfeitamos o nosso vazio existencial.
Aliás, deixo já aqui uma pista para um próxima abordagem do pensamento de Hannah Arendt:
Por que razão, depois dos grandes capítulos que se intitulam "Anti-Semistismo", "Imperialismo" e "Totalitarismo", termina "As Origens do Totalitarismo" com as seguintes palavras:
Mas o domínio totalitário como forma de governo é novo no sentido de que não se contenta com esse isolamento, e destrói também a vida privada. Baseia-se na solidão, na experiência de não se pertencer ao mundo, que é uma das mais radicais e desesperadas experiências que o homem pode ter.
A solidão, a sério ?
sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019
ESQUISSE
Arnaldo Mesquita
Publicado na Página Digital da Cinemateca - Museu do Cinema, na rubrica "Textos e Imagens".
segunda-feira, 19 de março de 2018
THE MASS ORNAMENT - SIEGFRIED KRACAUER
sexta-feira, 20 de junho de 2014
POST TENEBRAS LUX
segunda-feira, 25 de novembro de 2013
O MITO DE SÍSIFO
domingo, 24 de novembro de 2013
ANTOLOGIA DA ESTUPIDEZ (ABSOLUTA E TRÁGICA)
"os pobres não se manifestam, nem vão à televisão" - portas
"sejemos realistas" - coelho e cristas
"o pior já passou" - maduro
quinta-feira, 7 de novembro de 2013
O ABSURDO E A FELICIDADE
2. Dando-se conta do absurdo da condição humana numa obra que comporta as três dimensões – romanesca, filosófica e teatral – Camus empreende a tarefa de compreender o sentimento de estranheza que nasce do “divórcio entre o homem e a sua vida, entre o actor e o décor”, escreve em “O Mito de Sísifo, Ensaio Sobre o Absurdo”, publicado em 1942. A tomada de consciência do não-sentido da vida é para ele, pelos menos de início, a constatação de um fracasso : o desejo de clareza do homem bate de frente contra a irracionalidade do mundo. O seu encontro não faz sentido, é absurdo. Mas, segundo Camus, essa lucidez pode tornar-se o motor da liberdade que acompanha a necessidade de lutar pela felicidade. Como opera esta alquimia que torna compatíveis o absurdo e a felicidade ?
3. Em “Noces”, quatro ensaios poéticos em prosa publicados em 1939, Camus fornece uma primeira resposta. O primeiro, intitulado “Noces à Tipasa”, celebra o amor que assume os tons do mar e do sol, esse mar que o autor conheceu na Argélia natal: entrar em comunhão com a natureza equivale a ultrapassar a ausência de resposta do mundo. Vale a pena revisitar esse excerto de texto, profundamente luminoso e esclarecedor:
“Dans un sens, c’est bien ma vie que je joue ici, une vie à gout de Pierre chaude, pleine de soupirs de la mer et des cigales qui commencent à chanter maintenant. La brise est fraîche et le ciel bleu. J’aime cette vie avec abandon et veux en parler avec liberté: elle me donne l’orgueil de ma condition d’homme. Pourtant, on me l’a souvent dit : il n’y a pás de quoi être fier. Si, il y a de quoi: ce soleil, cette mer, mon coeur bondissant de jeunesse, mon corps au goût de sel et l’immense décor òu la tendresse et la gloire se recnontrent dans le jaune et le bleu. C’est à conquérir cela qu’il me faut appliquer ma force et mês ressources”.
Sob condição de abandonar a esperança vã de um outro mundo, a recusa do suicídio é uma outra resposta que é dada, mais uma vez, em “O Mito de Sísifo”, no qual o problema inicial consiste em “julgar se a vida vale ou não a pena ser vivida”. Com efeito, o absurdo poderia conduzir a uma motivação para o abandono da vida: todos nós pensámos nisso algum dia, escreve Camus. Mas é preciso não ceder ao desejo de anular a consciência, o que consistiria em redobrar o absurdo. O importante é conferir peso à vida pela acção “aqui e agora”, sem procurar a salvação algures, como a fé religiosa incita a fazer. Não nos podemos esquivar da morte, projectando a vida eterna, nem da vida, através de um divertimento no sentido que Pascal condenava no século XVII, ou seja, recorrendo a um desvio ou a uma recusa da ideia da nossa finitude. È a lucidez assumida que bane o suicídio e a esperança vã, e permite dizer sim à vida definitivamente. Reconhecer que a condição humana é sem esperança e sem amanhã convida o homem a viver plenamente a sua liberdade e a escolher a felicidade. Este caminho é balizado pelo nosso comprometimento físico, carnal, com o mundo, no qual o nosso corpo tem sempre um estádio de avanço sobre o espírito (“Habituamo-nos a viver antes de adquirirmos o hábito de pensar”). Aceitar a necessidade do absurdo, é avançar na espessura do mundo, indo colher a alegria lá, onde ela se encontra.
4. Camus cita Nietzsche a fim de ilustrar esta “moral de grandes ares” que descreve aquilo que merece ser vivido: o francês partilha com o filósofo alemão a sua hostilidade para com os grandes conceitos que devem conferir sentido à vida. Em vez de reflectir sobre Deus ou sobre as grandes abstracções conceptuais, Camus convida a falar sobre a vida, a bater-se por ela, num sentido altruísta, como precisam as teses de “O Homem Revoltado”, publicado em 1951. Matar inocentes, afirma, é um crime que desnatura a revolta. Se o absurdo do mundo não é um tema novo – Franz Kafka já o tinha cruamente retratado em inúmeros textos – jamais tinha sido encarado, antes de Albert Camus, como uma fonte de gratificação pessoal. Este novo hedonismo, individual e despojado de todo o artificialismo ideológico, está longe de ser o maior contributo de Camus para a antropologia filosófica do século XX, sendo, no entanto, aquele que mais me comove, e que me parece mais pertinente, neste dia em que se comemoram os 100 anos do seu nascimento e neste tempo em que não há no mundo claridade suficiente, nem sol, nem mar, nem nada.
Arnaldo Mesquita

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