quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

ESTILO TRANSCENDENTAL

 


Com “Transcendental Style In Film: Ozu, Bresson, Dreyer” (publicado pela primeira vez em 1972), constituiu Paul Schrader uma poderosa ferramenta de análise conceptual que joga com os conceitos de “transcendental” e de “estilo”, unificando-os num terceiro conceito, designado como “estilo transcendental” que forma o fecho de abóbada de uma teoria que progride dialeticamente. De facto, o autor apresenta uma reflexão que divide em fases concatenadas e sucessivas (o quotidiano, a disparidade e a “stasis”[1]) formando um movimento estético que se desloca dos “meios abundantes” para os “meios escassos”. Esta terminologia é atribuída ao filósofo católico Jacques Maritain, citado por Schrader (Schrader, 1972, p. 154). Maritain afirmara que os meios abundantes se preocupam com o carácter prático do mundo profano, enquanto os meios escassos “estão menos sobrecarregados pela matéria...porque...são meios escassos pela virtude do espírito (Schrader, 1972, p. 154). Para Schrader (1972, p. 157-159), os meios abundantes que refere em termos cinematográficos ao “realismo inerente ao cinema”, pertencem às suas propriedades imitativas, representacionais e experienciais. Nessa perspectiva, tal inclui a expressividade dos dispositivos narrativos geralmente empregues em filmes de estilo classicamente talhado para manter os espectadores interessados e empaticamente comprometidos. Assim, em oposição total, os meios escassos referem-se a uma estética austera e despojada, desprovida de tais dispositivos narrativos de cativação do espectador. Na sua forma extrema, os meios escassos transformam-se em “stasis”; o movimento dos meios abundantes para os meios escassos inicia-se através de um esvaziamento do simbolismo e de técnicas de distanciação, resultando esta estilização numa transformação profunda na natureza abundante do cinema.
É esta grelha de análise que Schrader aplica à obra de Yasujiro Ozu, Robert Bresson e, em menor grau, à de Carl Th. Dreyer, cineastas que, em distintas regiões geográficas e em diferentes contextos culturais, desenvolveram uma forma cinematográfica comum, determinada por um fim singular: expressar artisticamente o Transcendente, bem como a própria natureza do medium cinematográfico. Ou seja, esses cineastas utilizam meios temporais precisos – ângulos de câmara, diálogos, montagem, etc – a fim de expressarem fins transcendentais.
Na “Introdução” à edição de 1972, Schrader reconhece explícita e implicitamente a dificuldade que a teoria cinematográfica enfrenta ao operar com o conceito de “transcendente”, tal a vastidão de significados que abrange e a imprecisão que comporta, já para não falar do carácter não-funcional do conceito. De resto, “estilo” é igualmente problemático, já que pode abranger todas as particularidades formais. No entanto, reconhece também que o terceiro conceito (“estilo transcendental”) é uma poderosa ferramenta crítica, indispensável no que concerne à obra dos três cineastas. De facto, não só considera que tal conceito é indispensável à compreensão total da obra desses autores, como afirma que saber o que significa “transcendental” e “estilo” é compreender o método crítico através do qual é possível analisar o estilo específico que configura e determina os filmes por eles dirigidos. Chega-se assim a uma fórmula que define “estilo transcendental”: uma forma geral de representação cinematográfica que expressa o transcendental. O método crítico assenta assim em duas premissas básicas: existem fenómenos hierofanicos [2] que são as expressões do transcendente na sociedade e existem formas de representação artística comuns, partilhadas por culturas diferentes. O estilo transcendental é cada uma delas e ambas em conjunto. A teoria geral que resulta da configuração e desenvolvimentos das duas instâncias é expressa por Schrader desta forma:
“O estudo do estilo transcendental revela uma forma universal de representação. Essa forma é notavelmente unificada: a expressão comum do Transcendente no cinema. As diferenças entre os filmes de Ozu, Bresson e Dreyer são culturais e pessoais; as similitudes são estilísticas, e representam uma reflexão unficada do Transcendente no cinema.”
 
[1] Schrader emprega o termo grego “stasis” no sentido de um equilíbrio entre diversas forças que conduz a uma situação estática.
[2] Muito daquilo que Schrader entende por hierofania sustenta-se na formulação  de Mircea Eliade, segundo a qual a hierofania demonstra como o transcendente se pode manifestar num objecto e ser reconhecido nesse objecto “como algo completamente diferente do profano” (Mircea Eliade, “O Sagrado e o Profano”, Lisboa, Livros do Brasil, s.d., p, 25). De resto, e indo ao encontro do pensamento de Schrader, Eliade afirma nessa obra: “A fim de indicarmos o acto da manifestação do sagrado, propusemos o termo hierofania. Este termo é cómodo, porque não implica qualquer precisão complementar: exprime apenas o que está implicado no seu conteúdo etimilógico a saber, que algo de sagrado se nos mostra”.
Substancialmente, o estilo transcendental, exemplificado no Oriente pela obra de Yasujiro Ozu e no Ocidente pelas de Robert Bresson e Carl Dreyer, procura maximizar o mistério da existência, rejeitando todas as representações convencionais da realidade: realismo, naturalismo, psicologismo, romantismo, expressionismo, impressionismo e, sobretudo, racionalismo. Nas próprias palavras de Schrader: “Para o artista transcendental o racionalismo é apenas um dos muitos modos de abordagem da vida, não um imperativo (Schrader, 1972, p. 42).
É importante sublinhar que ao longo do ensaio Schrader contrasta permanentemente o estilo transcendental dos cineastas estudados com outras formas de expressão artística: os filmes de Ozu são comparados com as artes Zen da pintura, jardinagem e “haiku”; os de Bresson com a iconografia bizantina e os de Dreyer com a arquitectura gótica, o que demonstra a determinação do autor de situar o seu conceito de estilo transcendental no seio de teorias estéticas anteriormente existentes (no que diz respeito às artes) e em doutrinas teológicas (no que diz respeito à meditação sobre o sagrado).
Sumariamente descritas a profundidade e riqueza das teses expostas no ensaio, interessa-nos agora referir uma importante metamorfose do texto, introduzida na segunda edição datada de 1998. Schrader incluiu nessa segunda edição um capítulo intitulado “Rethinking Transcendental Style”, no qual explica novamente o “método crítico” que criou e determina a sua evolução nos 26 anos que decorreram entre as duas edições: O influxo da obra de Andrei Tarkovski e do pensamento de Gilles Deleuze. Numa das secções deste novo capítulo, justamente intitulada “Enter Deleuze” (1998, p. 3-6), Schrader sublinha a capital importância das obras “Cinéma I – L’Image-Mouvement” e “Cinéma II – L’Image-Temps” [1], especialmente desta última, na comprensão da evolução do cinema no pós II Guerra Mundial, ou do desejo criativo de associar imagens no tempo e o modo como essa associação pretende comunicar com o inconsciente e a consequente relação com memórias, sonhos e fantasias. O principal impacto de pensamento de Deleuze na teorização de Schrader consubstancia-se no conceito de “duração” invocando o “Outro” sagrado. Se em “Transcendental Style” Schrader se pronuncia sobre as mensagens evocadas pelo estilo (transcendental), Deleuze acrescenta a explicação sobre o modo como tudo se processa.
Quanto a Tarkovski, Schrader considera que , tal como Deleuze, o cineasta procurou incorporar a mudança de paradigma  introduzida pela evolução do uso do tempo no cinema (e a consequente estilização desse uso). Em conjunto, a obra do filósofo e os filmes do cineasta sociético estão no centro de um novo paradigma cinematográfico que se expande em múltiplas direcções e confere novos significados aos conceitos de “transcendental”e “estilo” e ao conceito unificador de “estilo transcendental”.
Para finalizar, deixamos um desafio aos leitores da obra, sob a forma de uma pergunta para a qual cada um encontrará a sua resposta: o que é que se torna pertinente para uma compreensão secularizada do “estilo transcendental” quando o conceito de “hierofania” ainda puder ser aplicado a objectos depois de todas as conotações religiosas terem sido removidas?


 
Arnaldo Mesquita
 

Texto originalmente publicado na página da Cinemateca Portuguesa - Museu do Cinema

terça-feira, 29 de dezembro de 2020

HÁ MAR

 


Vigésimo sétimo e oitavo dia do décimo segundo mês de dois mil e vinte. O cheiro das brasas por ser, o mar no seu lugar, o cão à espera, e as ondas a cantar de mansinho. Não há mastros ao longe, estão perto, a interpor-se com o horizonte coberto de nuvens. Um homem ouve os relatos de vários futebóis e eu controlo a audição, e a irritação, debaixo do cachecol. Sei que o silêncio incomoda a uns e os relatos da bola a outros. Um bando de gaivotas partilha a carcaça dum peixe e seguem em fila em direção a outra probabilidade marinha. A última está coxa, mas a voar é a primeira. Imagino que o golpe de asa compense o manquejar. Pouco a pouco chega mais gente, e a esplanada vazia vai-se enchendo. É domingo e sente-se no ar. Pago e parto, em direção à Vila com um urso-lobo na bagageira. Treinamos uns passos pelos passeios do dia, mas ainda não é altura de o fazer. Mesmo com acepipes na algibeira ele arranca com força e as minhas costas dão sinal. Volto aos treinos no meio do campo e nos caminhos vazios. Metros que se fazem quilómetros entre árvores e pequenas encostas. As galinhas respeitam a distância e evitam a horta por já saberem que ele não deixa. Se arriscarem treinarão novo voo a pique até à capoeira com uma rasante sobre a minha cabeça.
Volta e meia recebo telefonemas de amigos que me conhecem menos e me perguntam com alguns rodeios se me sinto só. Os amigos que me conhecem mais já sabem que estou a curtir como uma menina todas as brincadeiras deste natal e que o ano inteiro me trouxe. Continuo a pensar em voz alta como quem fala sózinha. Abraço árvores,cães, e gente com pouco contacto humano, como a minha vizinha de noventa e quatro anos que me diz todos os dias que tem medo de morrer. Digo-lhe de volta que temos todos e quem disser o contrário mente. De manhã ouço as notícias no pequeno rádio de pilhas,faço projetos para o dia todo, e cumpro metade. A chuva e o tempo pouco agradável não me deixam fazer sem ficar encharcada. Por isso mantenho-me a seco e vou pintando a manta, madeiras, telas e chão. Algumas paredes, com a ajuda do desumidificador.
Hoje voltou a ser segunda e tudo passou num ápice. Cheguei há dois meses e parece que foi ontem. Melancolia zero numa ilha que dizem com pouca alegria dado o estado climático deste início de inverno. Parece que faz sol aí, sei que neva, sei que é verão. Escrevo para quem me lê, para ti que tens saudades da minha presença, para ti de quem tenho mais do que saudades. Há uma dorzinha que se instala como uma pequena farpa quando penso neste assunto e que me impele a fazer mais e melhor. Faz frio e as meias de lã aquecem-me os pés. Todos os dias se esburacam, todos os dias as remendo. O olhar cor de canela sobrepõe-se ao teu enquanto uma pata me puxa para o meio do pomar. As estrelas envergonhadas iluminam por entre as nuvens e a lua faz crescer as nossas sombras. Sobre os teus passos caminham os meus, de meias rotas e botas de biqueira escancarada, a rir à gargalhada desta noite mansa que nos outros é desassossegada. O tempo tornou-se um mil folhas intemporal e a distância mora aqui ao lado. Falamos de janela para janela, debruçados sobre o atlântico e o mediterrâneo,a gritar pregões e promessas em língua de marejar. Há mar.
 
 
Elsa Bettencourt

segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

UMA RÁDIO CHAMADA CHAN DÔ

 


A ideia original tinha sido do "El P" numa noite de imperiais e bifanas. Uma ideia que pegou de imediato ampliando ondas de entusiasmo e euforia. Porque é que não poderíamos fazer uma rádio pirata lá no bairro? Cada um para seu lado começou a contabilizar recursos, ideias, e em pouco tempo havia um projecto sólido e bem estruturado. Nos anos 80 as rádios piratas saltavam do chão como cogumelos e sobre esse assunto nós tínhamos uma palavra a dizer. O sotão/águas furtadas do "Pickles" passava de sala de  jogos de cartas e cervejas para estúdio rapidamente decorado com caixas de ovos e cortiça para isolar. Os equipamentos foram aparecendo à medida que o sistema de som de alguns dos nossos pais sofreram desvios. Havia amplificadores, microfone, auscultadores e, mais adiante uma mesa de mistura e uma antena adquiridas no comércio do Casal Ventoso a um preço adequado. No segundo ano de Engenharia  o Tonho acertava cabos e ligações com uma grade de minis ao lado e nunca falhava. E mais ou menos nos finais de Janeiro daquele ano (julgo que 84) a Rádio Chan Dô fazia a sua primeira emissão experimental com faixas do Sgt. Peppers dos Beatles e The Dark Side of The Moon dos Pink Floyd. Sem locução, apenas para afinar a qualidade do sinal. O Snoopy andava no carro com a namorada em tentativas de sintonia.

 

 Está fraco, ouve-se muito mal.

 

Enquanto em cima do telhado alguém dançava um tango acidentado de equilíbrio com a antena…

Na semana seguinte já se conseguia ouvir em toda a Av. Infante Santo mas perdia-se a partir do rio. Em Monsanto estava ótimo. E assim, duas vezes por semana entre as 22 e as 00 horas a Rádio Chan Dô estava no ar. Foi um tempo extraordinário de aventura e descoberta que entusiasmou a malta. Gostávamos de música e de festas animadas e ali podíamos colocar aquilo que era raro ouvir nas rádios oficiais. Eu e o Figueredo fazíamos as "Horas do Rock" onde misturávamos consagrados com os novos projectos do Rock português que na altura dava os primeiros passos. Os pais do "Pickles" eram extraordinariamente colaborantes com uma paciência ilimitada para nos aturar. A antena passou a ficar arrumada durante o dia na dispensa entre as compotas e os enlatados. O pai gostava de se aproximar de nós sorrateiro, pendurado num eterno cigarro, ora para avaliar a mão das cartas de alguém ora para perceber qual era a música que tocava naquela noite. A Carolina estudava piano e violino desde a escola primária e acedeu a dar-nos uma mãozinha nos clássicos para não dizerem que só passávamos berraria, tambores e electricidade. Nessa noite tocou-me a mim por a antena lá fora. A emissão arrancou sem apresentações e em breves instantes ficámos parados suspensos no que estávamos a ouvir. O "Quebra Nozes" de Tchaikovsky. Sentei-me no telhado perto da janela. Do lado de dentro, o Figueiredo contemplava o rio e as luzes da ponte lá ao fundo enquanto ia fumando o seu charro tranquilo. O pai do "Pickles" apareceu por trás dele e ficou também contagiado com a música. O Figueiredo estava tão longe que sem se virar estendeu a ganza para trás pensando que se tratava de algum de nós. O pai do "Pickles" continuou a fumar o seu SG e disse baixinho:

 

Então tu não sabes que eu não fumo sputnyks ?

 

E podia ter havido debate naquele instante, desenvolvimentos, desculpas, justificações, reprimendas. Mas não. Tudo continuou em silêncio ao sabor do clássico e não se falou mais nisso nem em sputnyks nem em nada.

Aos poucos o bairro começava a falar na Rádio Chan Dô. Havia todo o tipo de opiniões. A questão mais abordada era a da origem do emissor. Todos falavam na rádio menos nós. Para todos os efeitos era ilegal e se nos apanhassem era confisco do material e multa garantida. Ainda para mais houve um dia que entrámos inadvertidamente na frequência dos bombeiros o que deu logo razão de alarido acerca dos inconscientes que punham em causa a segurança da população e outras barbaridades afins. Normalmente eram duas horas seguidas de música sem interrupções nem conversa tirando aquela vez que o Rodrigo inventou uma entrevista ao Fernando Pessoa e fazia as duas vozes. Nela o poeta queixava-se do estacionamento em cima dos passeios e da sujidade das ruas. Um programa que pôs novamente o bairro à conversa sobre a rádio.

 

Fernando Pessoa? Então mas esse gajo não morreu há uma data de anos?

Morreu mas a casa dele era ali na Rua Coelho da Rocha…E quanto à limpeza das ruas o homem não deixa de ter razão…

 

E os programas continuaram. Com a Blitz seguíamos o calendário dos concertos, no Rock em Stock registávamos as novidades, com gravadores de bolso tentámos captar um ou outro espectáculo mais clandestino se bem a qualidade do som fez-nos desistir da ideia rapidamente. Para muitos foi o primeiro contacto com uma quantidade de estilos e  tipos de música. Os discos do pai do "El P" introduziram-nos ao Jazz do Miles Davis e do Chet Baker, com a informação da Carolina fomos aprendendo  a distinguir épocas e estilos dos clássicos. Com o Rock libertávamos a imaginação e a energia acumulada pelas hormonas.

No início de Março recebi a convocatória para a tropa, a namorada do Snoopy ficou grávida e eles tiveram que ir morar para um sítio entre Queluz e Sintra, a Carolina foi continuar os estudos dela para fora. Aos poucos a voz da Rádio Chan Dô foi perdendo o volume até que deixou de existir já em plena Primavera. No entanto, para aqueles que estiveram envolvidos no projecto foram horas extraordinárias de paz e harmonia em comunhão com o bairro. Nunca ninguém soube onde era o emissor.

O Figueredo tornou-se produtor no ramo da música e a Carolina andou pelo mundo, profissionalizou-se e, da última vez que soube dela era  solista na orquestra da Gulbenkian.

Mais do que as ideias, os projectos uniam as pessoas e uma das maiores lições daquele tempo foi que por mais diferentes que possamos ser há sempre uma via para conseguir ouvir e compreender o outro. Assim haja tempo e disponibilidade.

Naqueles três meses julgo que fomos felizes.

 

Artur


quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

terça-feira, 22 de dezembro de 2020

DIÁRIO(S)

 

Vigésimo segundo dia do décimo segundo mês de dois mil e vinte. Nada será como dantes nem se voltarmos a ontem. Todas as decisões que tomamos, se deparadas com a possibilidade de voltar atrás, nunca serão idênticas.
O caminho é sempre em frente, mesmo com regressos extemporâneos e sem bilhetes de volta marcados.
O jardim por acontecer está povoado de memórias. Ainda existem os galhos altos onde a menina mais pequena se refugiava, assim como os troncos marcados a canivete pela menina do meio. A menina maior já não precisa de lanterna nas noites de lua nova. As outras deixaram-lhe o caminho traçado sem fios nem migalhas que os pássaros possam esconder. Há pegadas que seguem o desígnio na terra vermelha.
De vez em quando, no intervalo da chuva, há uma borboleta branca a bater as asas para
secá-las. Ela agarra nela e leva-a para o departamento de veraneio onde as plantas se enraizam, ciente da existência efémera da criatura alada. Outras vezes há o gato que lhe mia um pedido de socorro, por se ter aventurado para longe de casa. Num instante é levado de volta à origem, sem grandes alaridos. Nada será como dantes e tudo poderá ser melhor, mesmo que não pareça. Ontem descobrimos que as festas que as pessoas não fazem umas nas outras são compensadas no lobo-urso que nos encontrou. “ posso tocar nele?””ele faz mal?”, são interrogações que caem por terra antes que eu responda. O olhar doce dele é a própria resposta. Torna-se uma festa quando há consciência (da necessidade) do toque, e quando o retorno acontece.
Um xaile quente envolve a caminhada, uma oração pelas partidas deste ano, uma prece pelas chegadas. Tudo se cumpre.
Elsa Bettencourt. Hoje.

BEM VINDA ELSA

 Caros amigos e leitores,


Vamos dar as boas vindas à Elsa, a última aquisição deste blog. Amiga de longa data, contadora de histórias, desenhadora de palavras, encantadora de sensações. O seu toque feminino, a sua veia açoreana bem como o seu espírito andarilho vão trazer-nos textos de grande qualidade que nos irão alegrar os dias.

Bem vinda Elsa.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

DO TEMPO E DOS LIVROS

 

Com o tempo a nossa relação com as coisas em geral vai mudando. Aquilo que somos é aquilo que seremos sempre, a única coisa que muda é a intensidade. Quando éramos novos as discussões de café normalmente terminavam á porta do Verbo, isto é, após a sagrada pergunta: "Onde é que foste buscar essa ideia?" a resposta certa era "vinha publicado no jornal" ou ainda "li no livro tal". A partir desta fase da conversa mandava-se vir mais um café e mudava-se de assunto. Os livros sempre foram objectos multifuncionais muito para além da simples leitura. Lembro-me de usar os livros da biblioteca do meu avô e de os posicionar alinhados na carpete da sala para construir pistas de carrinhos antes de desenvolver animadas corridas de Grande Prémio; lembro-me de usar um livro velho para calço da perna curta de uma mesa da cozinha. Os livros andaram sempre connosco de uma maneira ou de outra, ora como janelas de fuga e evasão, ora como amigos, ora como sombras chatas antes dos exames. Entre mim e os meus amigos desenvolveu-se um hábito aceite por todos. Roubávamos livros uns aos outros. Às escondidas ou à vista desarmada, o certo é que os livros viajavam de um lado para o outro sem que ninguém se importasse com isso. De um dizia-se " Este tem a casa cheia de buracos…todos os livros que lá entram, desaparecem.". Outra frase instituída a propósito das viagens dos livros era  a que se referia ao otário do dono. "Fulano tinha este livro , mas deixou de o ter e ainda não sabe". É claro que a livre circulação do conhecimento nunca deixou ninguém pendurado num exame nem contribuiu de modo nenhum para nos azedar a vida. Para isso havia o nosso clube a perder ao Domingo à tarde, as gajas e os ácidos da Damaia que como toda a gente sabe vendem viagens só de ida. E quem dizia livros, dizia discos. A cultura e a arte circulavam entre nós sob um manto de alguma marginalidade havendo mesmo dias em que perdíamos completamente o paradeiro da obra. Aí já pouco haveria a fazer a não ser declarar a perda irremediável de mais uma aquisição, mais um membro da família que partia. Com o tempo a relação com os livros, tal como todas as outras relações, foi mudando, desacelerou, essencializou-se. Hoje olhamos para a estante e percebemos que já não vamos conseguir ler metade daquilo que está nas prateleiras até morrer. Depois olhamos para os nossos filhos que sem o dizer vão já avisando que todo aquele entulho de papel terá a porta da rua como destino visto que só ocupa espaço, ganha pó, não é vegan e tudo o que informa pode ser obtido num computador. Não discuto. Não por entender que têm razão ou deixam de ter mas porque é inútil trocar tempos tão diferentes no que toca à forma como chegamos ao conhecimento.

Nas limpezas vamos encontrando relíquias que pareciam para sempre desaparecidas. Vinis cheios de pó, K7s,CD's e claro, livros. Continuamos a falar uns com os outros só que agora ninguém rouba livros aos amigos. Antes os oferecemos. "Já li e não vou voltar a ler"; "aquele livro que te emprestei e que nunca mais devolveste? Fica com ele".

Torna-se lastro inútil que é preciso ir despachando seja para ganhar espaço seja porque não tem mais nenhuma utilidade. Num país tão pequeno como o nosso é espantoso o volume e a qualidade da nossa produção cultural, a qualidade dos nossos romancistas, poetas, realizadores, dramaturgos, etc. A criação cultural é talvez a mais generosa das actividades humanas especialmente num país tão pequeno como este, dirigido por gente tão pequena e tão bimba como esta. Aos criadores ninguém lhes pediu nada, ninguém sabe que criam nem quer saber se apesar de criarem conseguem sobreviver. Um país que apesar de tudo faz questão em se manter vivo em deixar obra, em deixar testemunho de qualidade para as gerações seguintes que vão encontrar nisso o alívio da estupidez dos dias que a que forçosamente estarão condenados como nós estivemos. Antero de Quental, Jaime Batalha Reis, Mário de Sá Carneiro, Fernando Pessoa, Raul Brandão Virgílio Ferreira, Luis de Sttau Monteiro, Miguel Rovisco e tantos, tantos mais. Criaturas solitárias e anónimas perdidas na solidão dos seus mundos enquanto vivos que apesar de tudo fizeram questão de nos deixar o seu trabalho, a sua criação, alvos de homenagens e fanfarras depois de mortos. A única criação cultural que interessa é esta. O brinquedo ignorado, o nosso clube derrotado, o amor não correspondido para o reconhecimento tardio. A criação cultural é isto. Um tremendo despojo do ego que mantém viva uma linha que pensa, que entretém, que fascina, para que não nos esqueçamos. Somos um somatório de dias sem história mas somos também muito mais coisas. Somos um pensar colectivo que insiste em manter-se de pé, somos uma tradição de épocas que dependem umas das outras, somos uma identidade que não morre. Os livros que queremos possuír, como as pessoas que amamos, acabam por chegar a um ponto em que percebemos que só conseguem pertencer a si próprios, naquilo que significam, naquilo que ensinam…naquilo que fascinam. E assim as ideias voam, as histórias encantam, dão vida a outras histórias e, teimosamente, vivem em toda a parte.

 

Artur




sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

O CHUVEIRO E A ESCADA






                                                                      Sofia
 

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

EDUARDO LOURENÇO


 

 

                                                                           1923 - 2020

segunda-feira, 30 de novembro de 2020

ESTENDAIS




  


                                                                      Sofia

sábado, 14 de novembro de 2020

DES)(ENCONTROS



 

 

Diz-me a que horas é que não nos vamos encontrar, na praça dos passos perdidos pelas ruas cheias de ninguém, relembra-me as memórias enterradas na areia fina de uma praia esquecida pelo mar ao entardecer. Estica o passado numa corda onde se penduram as histórias que não aconteceram antes de secarem ao vento que as foi esquecendo. Levarei comigo o sonho embrulhado num pacote de realidade, decorado com uma fita azul de esperança que foi secando até ficar quase branca e desaparecida. Uma casa sem morada com lareira e um gato sonolento, e uma manta no chão onde ninguém se deitou iluminada por velas tímidas como amantes educados.

Aponta-me a direcção do Tempo para que lhe possa fazer uma ou duas perguntas que ele não me saberá responder deixando-se estar naquele estado incompreensível em que se decidiu suspender sem aviso. Fala-me outra vez da morte, das razões e das justificações que não se conseguem dar, de um fim que sabemos não terminar mas que ainda assim termina antes de começar. E eu responder-te-ei com a inteligência da estupidez que a tragédia se constrói quase sem querer e que se mata e ama ao mesmo tempo que se respira sem que alguém se preocupe, que somos criaturas rídiculas cheias de si como um balão que se esvazia num som estridente e familiar e arrancaremos uma gargalhada  ao silêncio da noite escura, filha do impossivel e do absurdo.

Pela estrada que nunca foi percorrida ao som daquela balada absoluta a Lua espreita atrevida e explica que se levanta todas as noites para que o Sol possa brilhar de manhã…outra vez…e outra e outra ainda apesar de mim e de ti, apesar de todos nós e muito depois disso.

No tempo onde nunca estivémos fomos vida em abraços e beijos, fomos lágrimas e risos, fomos vento e amanhecer, registo e esquecimento. Conhecemos o medo e o ódio e as esquinas da sua intoxicação, ouvimos a musica e o mar, vimos a montanha, lemos todos aqueles livros e, ao mesmo tempo, não vimos nada, não percebemos nada, não conseguimos guardar uma única memória que se deixasse ficar para falarmos nas noites de Inverno.

Hoje tentamos agarrar o Tempo até que ele nos responda, queremos estar sem saber onde, as ruas por onde andámos não se lembram de lá termos passado, os dias vividos são como parentes afastados de quem esquecemos o rosto, o fim do caminho não está lá à frente, foi um parceiro de viagem desde a primeira hora. O Tempo, o Fim, o Princípio a Viagem, todos ao mesmo tempo sentados à mesa em frente a uma lareira de uma casa onde ninguém morou, iluminada por velas tímidas que por mais fracas chamas que tenham nunca se apagam. Uma refeição em que todos falam ao mesmo tempo e ninguém se consegue fazer ouvir. E nós no meio daquilo tudo, tão esclarecidos como no dia em que nascemos a tentar perceber o que não se consegue explicar mas que no entanto não deixa de existir numa lógica qualquer guardada numa caixa de ferramentas esquecida que ninguém sabe onde está.

 

Artur

 

segunda-feira, 5 de outubro de 2020

FELIZMENTE, O MAR


 

 

Chego de manhã quando ainda não se vê ninguém na praia. Olho lá para o fundo e avalio a agitação, ouço o seu ronco e tento interpretar a respiração. Começo-me a vestir na traseira do carro, pego na prancha e vamos a isto. Quinze minutos, meia hora sem palavras, pensamento a zeros, limpeza geral de depressões, ansiedades, questões filosóficas. Subir e descer, sentir a cabeça a latejar dentro da água fria e agitada, ensaiar equilíbrios…Quando não tenho respostas tenho o Mar, quando o pensar me cansa, quando as respostas se escondem, quando tudo é uma sombra permanente sem luz à vista. No mar não se pensa nem se sofre. No mar é-se simplesmente. Um com o todo oceânico, movimento complementar de nós próprios onde o erro se paga no imediato sem contemplações. Os instantes só nascem uma vez e é preciso sintonia total para não os perder de vista, a onda ideal, a pausa para progredir, todas as decisões são momentos únicos, instintivos. No mar sou um Eu muito maior do que peso, muito maior do que meço, sou tudo aquilo que sobra em mim e que não me dói por falta de espaço. Sou qualquer coisa, um significado qualquer que faz sentido, uma justificação que o universo me atribui…ou faz relembrar. Não tenho que pensar nem elaborar construções complicadas para justificar os dias. Sou a parte desse universo que tem o seu lugar, a sua função, a sua razão de ser. E respiro, e movimento-me e Sou com ele sendo ele a um tempo. E a onda que me avisa que da sua aproximação, a preparação rápida, o equilíbrio breve, a flutuação mínima que parece uma eternidade e o mergulho final nos braços de espuma onde se celebram todos os nascimentos, todas as mortes.   Depois o peso dos braços e a respiração da antiguidade vão aumentando obrigando-me a flutuar no movimento de saída. Regresso ao mesmo mundo que deixei há pouco tempo. Tudo na mesma, nada muda nem nada vai mudar nunca. Só eu estou diferente como uma peça de roupa que esteve naquela gigantesca máquina de lavar num programa de lavagem de onde saiu quase como nova. Numa sequência de enxaguamento, detergente e centrifugação que a tornou à saída como quase nova por estrear. Depois o ar e o Sol encarregar-se-ão de lhe devolver a idade e o tempo que continuará a descontar até deixar de ter utilidade e desaparecer do verbo utilizar. Quando nada faz sentido, quando me canso de pensar, quando não tenho respostas…tenho o mar.

 

Artur

 

sexta-feira, 2 de outubro de 2020

CONFINAMENTO EQUÍDEO





 

                                                                  Sofia

quinta-feira, 17 de setembro de 2020

ENCENAÇÕES E VIAGENS

 



 

 

 

E devagarinho, um a um, com ou maior ou menor alarido, vamos saíndo de cena. Como numa peça de teatro em que o autor nos vai retirando, esgotada a nossa participação. O autocarro encosta discreto na paragem a duas esquinas da nossa rua e deixa a porta entreaberta com vista para uma lista de nomes que se pode ver de fora. Para uns será um mergulho no vazio, um corolário lógico da viagem inerente a tudo o que o que mexe ou respira, para outros o campo de férias vai encerrar e vamos voltar para casa. O que assusta por um lado e entristece, contrasta com uma péssima estadia da qual nos queremos esquecer no abraço dos nossos pais. Na porta da rua a ceifeira mor aponta-nos o indicador esquelético e encolhe-o na sua direcção. Não a chamar mas a atribuir a vez. No cais de embarque o barqueiro grego interroga-nos acerca da moeda para a viagem. E tanto que deixamos para trás…tanto que ficou por fazer…os sonhos, os amores, as raivas. E se lamentamos alguma coisa não é o espaço vivido nem o currículo construído nem o caminho que percorremos. Lamentamos os outros que andaram connosco, que dividiram o caminho, o peso das mochilas nas caminhadas, os que no dormitório nos disseram para não nos preocuparmos. As coisas acabariam por se resolver de uma forma ou de outra sem razão para medo ou lágrimas.

Para trás ficou o pântano dos idiotas dirigidos por loucos. Os idiotas que nunca se questionaram, que não reflectiram, que não se importaram, que não foram donos de um pensamento a que conseguissem chamar seu. Os idiotas que nada criando, nada produzindo foram meticulosamente construindo a sua aldeia de mediocridade que os protegia uns aos outros. Os idiotas que transportando consigo as potencialidades que fazem a diferença nada conseguiram fazer. Ou por preguiça ou por medo ou por todas as razões que os impediram de conseguir ser. Fomos nós numa maneira muito peculiar de nos sermos que desenhámos uma breve linha colorida pelo destino e pela contrariedade, uma linha que irá apagando com o passar do tempo e da memória. Fomos nós, acertando ou falhando em cheio que (talvez) conseguimos aprender alguma coisa, perceber alguma coisa, compreender. Conhecimentos adquiridos que nos chegaram fora de prazo e para os quais não conseguimos encontrar nenhuma utilidade.

Vamos saíndo sabendo que a peça vai continuar. E isso que importa? Importas tu meu irmão com quem dividi cigarros e gargalhadas, importas tu pai, mãe, tia que me acarinhaste e me ensinaste a dominar o medo, a viver com a frustração, a valorizar a auto-estima. Importam vocês as personagens da peça contínua, os que saíram antes e os que ainda ficam. Sim o mais importante de tudo isto são os actores. Sem eles não havia peça, sem eles não havia teatro. É o criador que precisa de nós e não o contrário. Tem que nos inventar para poder valorizar o seu trabalho. Não é a peça que interessa mas esta relação de dependência que nos transforma nele e ele se multiplica em nós.

Por isso vamos um a um, com mais ou menos alarido, regressar a casa, ao nosso quarto, as nossos livros, aos nossos pais e continuaremos regressando a nós próprios nessa imensa unidade que se multiplica e divide e se volta a unificar. Para quê? Paraguai…

 

Artur

quarta-feira, 2 de setembro de 2020

PELA ESTRADA FORA


 

 

     pour que le soleil n'arrête pas de briller

     la lune se léve chaque nuit.

 

                Paris 1985

 

 

Hoje tropecei neste livro. Tirei-o da estante e folheei-o. Era um tempo de andar na estrada à procura de tudo e mais alguma coisa, depois da tropa, daqui até Londres. Tinha a mania de escrever nos livros (todos tínhamos essa mania) e esse exemplar do Kerouac, que me acompanhou todo esse ano em que estive fora, foi um dos mais escrevinhados. Encontrei esta frase escrita por ti : "para que o Sol não deixe de brilhar a Lua levanta-se todos os dias… Paris 1985". De repente voltei a ser Paris sem um tostão no bolso, as capelas e as capelinhas de qualquer roteiro turístico, a campa do Jim Morrison em Pére Lachaise, voltei a ser eu sozinho a olhar para o futuro, voltaste a ser tu e um cavalete no meio da rua a pintar caricaturas dos turistas…e um jantar quente pela primeira vez em muitos dias e a tua casa até voltar à estrada. De repente não tinha acontecido nada em trinta e tal anos e a vida vivida era um enorme vazio sem etapas nem referências que nos comeu a todos. Havia uma gata que dormia sempre perto da aparelhagem e uma janela com uma vista fabulosa sobre a cidade. Cheirava a tintas e a diluentes, a ovos mexidos e a torradas de manhã. Havia um sorriso meigo e moreno nas tuas palavras, no teu discurso despreocupado de quem se está a cagar para o mundo, para o futuro, para a vida e para a morte ao mesmo tempo. Eras livre como a camisa larga e transparente que te acariciava esvoaçante com as correntes de ar. Havia reproduções na parede, Van Gohg, Matisse, Miró. Ao jantar havia Camus, Hemingway, e Kafka…sempre Kafka. Trocámos ideias, trocámos autores, trocámos vontades, trocámos os corpos numa valsa lenta e ao mesmo tempo ofegante. Para mim a vida cabia toda naquelas águas furtadas com uma janela aberta sobre  a cidade. Enquanto acariciava outra vez aquele meu companheiro impresso de viagem saltava no tempo trinta anos e tudo era outra vez possível embora na altura nada quisesse, nada invejasse, nada me desse qualquer impulso de conquista. Era eu e a estrada e pouco mais. Três dias depois arrumei o saco e fui apanhar o metro  para a estação onde paravam os camiões que partiam em todas as direcções. Levei dois dias a chegar a Londres. A tua frase só a conheci já quase um mês depois ao folhear o livro pela enésima vez. Perguntar pela felicidade ao passado não faz sentido nenhum. A questão mais pertinente é a de saber se alguma vez existimos, quando a memória se vai perdendo, quando as pessoas vão morrendo, quando não formos mais do que memórias no coração de alguém, quando já não houver ninguém para nos recordar. Seremos outra vez o nada que éramos antes de nascer.

E no entanto a Lua levanta-se todas as noites para que o Sol nunca deixe de brilhar.

 

Artur

 

LITTLE AMERICA


 

segunda-feira, 31 de agosto de 2020

O MININHA


 

 

No tempo da escola Primária, comecei por fazer ginástica no C.A.C.O. com o teu irmão Vasco, o Mina, mais tarde o "Minão" por distinção hierárquica de teu irmão mais velho, sendo tu o "Mininha", o mais novo. Naquela fase da vida as diferenças de idades afastam-nos muito uns dos outros dada a pressão do "expediente", as fases de aprendizagem, etc. Nessa altura o "Mininha" era o irmão mais novo do Vasco, um puto tranquilo a quem cumprimentávamos na rua. Havia três anos de diferença…uma distância abismal. A vossa casa cor de rosa que acompanhava a curva na estrada de Sintra antes da ponte e da entrada em Colares era uma referência para os nossos passeios de mota. Se te querias referir a determinada localização era frequente usar a expressão "antes da casa dos Minas" ou "depois da casa dos Minas". Não tendo crescido juntos sabíamos da existência uns dos outros, dizíamos "olá" quando no encontrávamos no bairro ou nos cafés da Praia das Maçãs no Verão. O Arnaldo morava no mesmo prédio que vocês. Mais tarde correu rápida a notícia que marcou o teu percurso adolescente. Alguém soube que o "Mininha "tinha fugido de casa, ninguém sabia dele. Sabia-se que tinha levado uns livros do Camus e umas cassetes dos Doors. Como numa canção do Tê e do Rui Veloso escrita muitos anos depois para o album "Mingos e os Samurais". Tu como muitas outras criaturas do bairro tinhas também esse dom amaldiçoado de ver e ser muito antes de qualquer um. Só que aos do bairro ninguém liga… A GNR acabou por te encontrar a dormir numa praia  e "devolver à procedência", mas para nós, a partir dali o "Mininha" tinha conquistado o seu lugar na galeria dos notáveis da época. Mais tarde volto a encontrar-te na mesma empresa onde ambos trabalhámos uma vida e a partir daí tivémos um relacionamento regular que muito prezo.

Estou a tentar colar bocados do Tempo num misto de tristeza e alegria como quem revê um filme sabendo de cor cada deixa dos actores, cada localização do cenário exterior. Uma força empurra-me as mãos sobre o teclado, outra puxa-me a cadeira e diz-me para me ir deitar porque as palavras não chegam, as recordações não chegam, nada chega quando acordamos de manhã a ler a notícia da tua morte, nada chega quando ouço o Renato do outro lado do telefone a disfarçar as lágrimas. Nada chega. A Vida veste-nos com um casaco de mangas compridas, as calças ficam muito acima do chão, o colarinho da camisa sufoca-nos. Às vezes somos demasiado grandes para uma vida só, temos espaço a mais para o espaço que podemos percorrer, sobra-nos mundo dentro dos limites da existência, às vezes sobramos dentro de nós. E tu eras assim…demasiado Ser para uma vida só, demasiada lucidez para tanta cegueira. E em vez de rei eras um príncipe como te chamou o Janjan, o nosso Principezinho, frágil e corajoso, habitante único do teu planeta, curioso e exigente, lúcido e consciente dos outros e do mundo. Demasiado consciente…

Contigo a trabalhar no Porto só nos víamos muito raramente. Para mim era como se te tivesses tornado num verdadeiro mestre da fuga, um tipo que de vez em quando se põe a andar como quando eras adolescente para o planeta onde só tu moravas, mas que acaba sempre por voltar. E era como se nada se passasse…ou tivesse passado. A mesma gargalhada, o mesmo humor refinado, a mesma inteligência e lucidez a olhar o mundo, o mesmo olhar meigo e duro de quem exige sempre o máximo de si próprio. Desta vez não vais regressar. Mas regressaremos nós um dia para continuar as nossas conversas.

 

Artur

 

sábado, 15 de agosto de 2020

FILOSOFIA NO ESTÁDIO

No discurso religioso somos culpados assim que nascemos por via de outros que fizeram qualquer coisa; no discurso tributário somos culpados assim que conseguimos algum rendimento do nosso trabalho; no discurso desportivo somos culpados e castigados a torto e a direito porque pagamos quotas e bilhetes e ainda nos arriscamos a ver a nossa equipa perder. Como na religião, em Kafka a culpa não é uma questão voluntária de escolha do indivíduo, basta este existir para ser culpado ("O Processo"). A vida é uma sucessão de encontros e desencontros com o castigo e a punição sem se chegar a perceber bem porquê. Em Dostoyevsky o homem é culpado voluntariamente se assim o decidir na sua consciência, marcando-se desta forma a responsabilidade de cada um ao fazer o seu destino.

Mas nada como o mundo da bola para nos iluminar o esclarecimento e ilustrar o labirinto do comportamento humano. Mesmo não esclarecendo nada não deixa de dizer muito acerca dos paradoxos da existência. É num estádio de futebol que muitas vezes se escondem as mais inesperadas surpresas acerca de quem somos, do que somos, enfim, aprende-se muito quando estamos dentro de uma multidão.

Há muitos anos, era eu ainda um adolescente em fim de carreira quando fui até ao estádio da Luz assistir a um jogo entre duas selecções, Portugal e Suécia. Contrariamente ao que era habitual fui parar lá abaixo às primeiras filas da bancada do peão, uma área onde se consegue ver o jogo quase ao mesmo nível dos jogadores em campo. Agitação habitual após o tocar dos hinos nacionais, apito para início do jogo e…um fotojornalista dentro do perímetro do campo resolve sentar-se numa das caixas de som do estádio e apontar a câmara para obter o melhor ângulo das jogadas. Ora acontece que o jornalista, mesmo sentado bloqueava uma parte da visão de jogo da nossa bancada. As bocas começaram a voar, primeiro num tom civilizado ("Sai da frente…cabeçudo…olha aí que a gente não vê…) até que se percebeu que o jornalista não nos ouvia. Mudou-se a intensidade e o tom ("Ó boi, baixa a corneta…ó filha da p…ó urso do c…sai da frente que a malta quer ver o jogo…"). Ás tantas o jornalista percebe que estavam a falar com ele e olhou para nós. A gritaria aumentava. O jornalista não teve melhor ideia do que nos mostrar o dedo do meio. Nessa altura já ninguém queria saber do jogo. Era o holocausto, a terceira guerra mundial, o ataque final. Começavam as ameaças de levar uma tareia, de ser chacinado já ali, um ou dois   abanavam a cerca de arame e tentavam saltar para o lado de dentro. Entretanto chegou um polícia atraído pelo barulho. Alguém se lembrou de falar com o polícia.

- Ó chô guarda, diga aí a esse gajo que saia da frente que a malta não consegue ver o jogo. - outros mais exaltados pediam-lhe que o prendesse, era um ordinário que tinha estado a gozar com o povo da bancada.

  O policia foi até ao jornalista e trocou umas breves palavras e gestos com ele. Quando se dirigia outra vez à assistência o jornalista sentou-se no chão, facto que motivou uma salva de palmas da parte daquele pequeno grupo da bancada. Foi então que o polícia se dirigiu a nós em tom pedagógico.

   - O homem é um jornalista sueco. Por isso não percebia nada do que vocês estavam a dizer. Se calhar pensou que estavam a gozar com ele. Mas pronto, agora ficou tudo resolvido.

O holocausto foi adiado, as bombas nucleares recolhidas e o linchamento cancelado. Os comentários no entanto continuavam, dada a força da excitação não se conseguir apagar de um momento para o outro. "O homem é sueco como é que haveria de perceber o que a gente estava a dizer" "Bem se podia estar aqui a gritar o resto da noite que não se conseguia chegar a lado nenhum" "O rapaz afinal está ali a fazer o seu trabalho, nem percebeu que nos estava a tapar a vista", etc,etc,etc.

Meia hora depois, já todos de volta ao foco no jogo, houve alguém que decidiu encerrar o episódio com algum brilhantismo. Esperou-se que o jornalista olhasse de novo para a bancada e, em jeito de assinatura do fim das hostilidades, alguém gritou:

 

"Ó cámone…tira aí uma fotografia à gente…

 

Artur

 

(Publicado na revista MORDAZ # 005 sob o tema "Culpa e Castigo" )

 

quarta-feira, 12 de agosto de 2020

MOVIMENTO

 O braço...esticado, parado a meio do movimento, com vontade própria não me obedece, uma luta cerrada entre mim e ele. O movimento que ficou suspenso à espera de alguma coisa que não chega. A ideia de alcançar, querer chegar ali e não chegar. Insisto, obrigo-me a tentar, obrigo-me a insistir a tentar chegar ali a cima da mesa para agarrar aquele objecto...abjecto...dejecto. Parado ali mesmo á minha frente e eu sem lá chegar, obrigando-me a tentar. mais uma vez, e outra, e outra. O braço sem vontade, o movimento parado sem andar, e volto a tentar. Às tantas um pequeno coice, um breve estremecimento, um iniciar muito lento de manobra e por fim parece que...quase que ia jurar que...O movimento que ficou suspenso à espera de alguma coisa, de alguma coisa que acabou por chegar. O braço finalmente, o movimento. E o esforço de nada valer porque apesar do movimento, apesar da tal coisa que acabou por chegar a minha ideia do que queria cansou-se de estar à espera e partiu. Agora mexo o braço mas esqueci-me do que queria fazer com ele...


Artur

A CHAMA

 

À volta da fogueira sentados no chão em plena floresta; à volta da lareira de pedra entre pratos de madeira e castanhas que assam nas brasas; à volta de uma conversa eterna com copos de vinho na mão e aparelhos electrónicos desligados, remetidos ao silêncio. Sobre a mesa do Tempo deitamos as nossas cartas, de jogo, de navegação, de direcções para cumprir o plano. Em silhueta de mulher que dança embriagada pelas sombras celebrando a Vida e a força da consciência de todas as criaturas da floresta. Em corpo de homem celebrando a força do mar, o peso da montanha e as cambalhotas da sobrevivência.  Amanhã tu irás aquele lugar mas não o vais fazer sozinho. Ninguém vai e vem sem levar alguém consigo. Eternos perdedores, ovelhas permanentes no sacrifício das derrotas,de quem escolhe sempre o lado que perde. Numa manhã de nevoeiro atrás da paliçada ouvimos os gritos do invasor vindos da floresta sabendo que aquele será o nosso último amanhecer dessa vida. O discurso do inquisidor dilui-se num som único que faz antever a condenação e a fogueira. E não há palavras nem gestos nem ninguém que o possa impedir. Partimos outra vez para voltar outra vez. Num naufrágio, numa epidemia, numa guerra e mesmo até raramente de razão natural ou velhice. Em qualquer uma delas arranjamos sempre forma de nos encontrarmos para nos podermos ajudar, para com a nossa presença relembrar ao que viémos. Aqui, oficina negra e malcheirosa, depósito daquilo que de mais atrasado e negativo pode ainda existir, aqui voltamos para trabalhar e tentar evoluír de uma forma mais consistente e segura. Como um curso que se vai fazendo, cadeira após cadeira, existência lectiva após existência lectiva. As fogueiras na floresta, as lareiras em torno das quais nos juntamos são as breves pausas da cantina entre aulas. São o espaço de comparar relatórios, avaliar progressos, alinhar estratégias futuros. Mesmo que só se digam disparates e a conversa seja do mais mundano  que pode haver. Porque somos todos um apenas que se multiplica quando desce para fazer a sua formação, acumular as experiências. Estabelecemos equipas, distribuímos papeis, atribuímos funções. Não há exames nem chumbos mas apenas repetições até que se fique a perceber a matéria ou que a semente que plantámos comece a crescer sozinha.

Por isso quando nos abanam com o medo de morrer, respondemos : "Eu sou a morte!" Quando nos tentarem vender o líquido da eterna juventude : "Eu sou a vida!" E somos tudo não sendo nada, breves passagens anónimas por esta realidade absurda e caótica que divide a realidade em dois e que não deixa perceber para além do imediato, do supérfulo, do cruel.

As nossas conversas à volta da lareira são os pequenos pontos de referência onde o universo é glorificado pelas partes que celebram o Todo, que se torna Uno pela força do amor. Por isso nos continuamos a juntar, por isso seguimos juntos até finalmente nos encontrarmos de novo no mesmo Ser naquele lugar a que chamamos casa.

 

Artur

terça-feira, 14 de julho de 2020

VOU...










                                                                      Sofia

quinta-feira, 2 de julho de 2020

O TEMPO GUARDA-SE EM QUALQUER LUGAR





A Terra respira nas ondas do mar, o vento embala o voo das gaivotas, dá significado ao caminho que percorrem. Os teus passos embalam recordações e sorrisos matinais, deslizam suaves sobre a areia molhada. Os homens previnem a vida em busca de alimento. E assim se vai desenrolando o Tempo enquanto as palavras se desenham, primeiro hesitantes, depois mais seguras de si. Vamos e regressamos tantas vezes ao mesmo lugar como quem respira e não sabe outra coisa para continuar vivo. Trazemos as memórias no saco e algumas dores na toalha que se estende a gemer artroses. Mas voltamos sempre ao mar como a casa de família da qual nunca esquecemos o caminho de regresso. Temos tempo, gastamos o tempo, lamentando com um sorriso. Para trás um caminho feito de histórias e gente, um filme cada vez maior e com mais actores. Um filme que anda sempre ao nosso lado como uma sombra, uma prova de que fomos vivos. O Tempo guarda-se em qualquer lugar.

Artur

segunda-feira, 29 de junho de 2020

O CICLO DE COISA NENHUMA


O espaço esvazia-se, a utilidade perde-se, a vida respira muito baixinho numa fraqueza que diz: "…façam de conta que não estou aqui." E enrola-se sobre si mesma numa manta de medo e solidão. Se alguém vier…se alguém quiser saber dela vai ter muito onde procurar. Sobre o lodo da maré vazia a carcaça do barco vai apodrecendo desfiando-se com o tempo. Em breve será nada e nem uma memória restará para o lembrar. Primeiro é ausência…depois sofrimento…a seguir rotina e por fim esquecimento.
Falta água a este barco, falta um telhado naquela casa e no entanto as plantas continuam vivas, a vida continua a crescer apesar da ausência, apesar do fim. Talvez alguém venha um dia procurar qualquer coisa que já não existe. Uma memória teimosa e persistente empenhada em recordar. Mas só vai encontrar o espaço vazio, uma utilidade perdida, qualquer coisa que já respirou muito baixinho como que a dizer: "…façam de conta que não estou aqui." E enrolada na sua própria ausência, de forma muito tímida foi deixando de ser.

Artur







sexta-feira, 26 de junho de 2020

MAL DE ARQUIVO

A ideia de que o objecto da história e, em particular, os objectos da história de arte, tenham origem num movimento rememorativo, ao mesmo tempo que preenche uma expectativa de redenção, dá conta de uma catástrofe que não se pode evitar, a saber, a transformação da vida em cinzas. Na verdade, a história trata com cinzas, restos funerários e não é possível pôr entre parêntesis a dominância destrutiva desse elemento catastrófico. Benjamin di-lo da melhor maneira: “O que passou, o já não existir, trabalha apaixonadamente no seio das coisas. A isso confia o historiador o seu interesse. Ele tira partido dessa força e conhece as coisas tal como são no instante em que já não são.”(Das Passagen-Werk, [D. 41]) 
Maria Filomena Molder,
Dia Alegre, Dia Pensante, Dias Fatais 


Este texto reconhece uma dívida e agradece a inspiração na obra Mal d’Archive de Jacques Derrida. A dívida, como é óbvio, inicia-se logo no título. Pese embora a homografia e a quase homofonia de “mal”, o pathos do vocábulo francês invoca o desejo, quase a obsessão apaixonada com o arquivo, descartando a relação que a palavra portuguesa mantém com categorias ético-morais; o mais aproximado a que podemos chegar na nossa língua é a expressão “mal de amor”. Queremos manter o significado da língua francesa e lá chegaremos, se tudo correr bem, ao paralelismo com a língua portuguesa.

Voltando ao texto de Derrida, convirá saber que o mesmo é a transcrição de uma conferência proferida pelo filósofo em Junho de 1994, em Londres, por ocasião de um colóquio internacional intitulado: Memória: a questão dos arquivos, organizado por René Major e Elizabeth Roudinesco, sob os auspícios da Sociedade Internacional de História da Psiquiatria e da Psicanálise, do Museu Freud e do Instituto de Arte Courtauld. A conferência-ensaio procurava reelaborar o conceito de arquivo na actualidade numa única configuração que englobasse as dimensões política, técnica, ética e jurídica. O pendor problematizante do pensamento de Derrida conduz a questão para os terrenos de uma metafísica difusa, afirmando, mais ou menos nestes termos, que nunca conseguimos renunciar, mesmo que inconscientemente, a exercer poder sobre o documento, a sua posse, retenção ou interpretação. Acreditamos que esta linha de problematização dialoga com uma formulação que Michel Foucault desenvolve em A Arqueologia do Saber, obra na qual o filósofo francês analisa a questão do documento e a sua transformação em monumento, ou seja, “a história tende à arqueologia – a descrição intrínseca do documento”. Como se percebe, a fulgurante inteligência francesa, pela voz dos dois filósofos, desloca a problemática do arquivo; embora o nome “arquivo” ainda conserve a memória do arkhê grego, conserva-se ao abrigo dessa memória, esforçando-se por esquecê-la: a passagem dos arquivos da esfera privada para a esfera pública, a sua abertura a investigadores e não-investigadores – idealmente, a todos os cidadãos que os requeiram – retirou-lhes o carácter de secretismo e confidencialidade que conferia poder exclusivo a quem os detinha, ou seja, esvaziou de conteúdo uma outra concepção de arkhê que remete para o comando e o domínio sobre uma comunidade exercidos pelos arcontes (os primeiros guardiões) dos arquivos. Como se vê, a família semântica de arquivo tem uma dimensão física (a morada dos documentos), histórica (tudo o que é relativo, já que o absoluto não tem história), normativa (a faculdade de exercer poder concernente ao controlo e manipulação dos arquivos) e ontológica (o ser do arquivo remete para tudo aquilo que é primordial, originário, original, para os aristotélicos “primeiros princípios”). 
É aqui que nos despedimos de Jacques Derrida; a “vontade de poder” dá lugar à vontade de saber e ao desejo de verdade. Que verdade ? Uma conhecida lei da Física estabelece que não é possível conhecer simultaneamente a velocidade e posição de um determinado objecto (partícula) já que, para conhecer a sua posição é preciso “iluminá-lo” e quando isso acontece, ele muda de posição e de velocidade. Significa isto que a observação afecta sempre a “verdade do objecto”. Ao longo do ano de 2018 – Ano Europeu do Património Cultural e 70. Aniversário da Cinemateca Portuguesa –, e parte do ano de 2019, “gente da casa” e outra, que dela não sendo, dela não deixa de o ser, seleccionou, pensou e escreveu, debaixo da rubrica Textos & Imagens, sobre diversos objectos que representam os vários arquivos que constituem o arquivo do CDI (segundo a feliz formulação de Teresa Borges), afectando-os e revelando o desejo de memória e o desejo de verdade de que falávamos; o arquivo de arquivos move-se, tem dinâmicas e lógicas internas que se ocultam e desocultam à medida do trabalho que sobre ele e a partir dele se desenvolve. As novas perspectivas que todos esses contributos trouxeram a objectos que pareciam fixos e instalados em categorias comuns e que, mercê desse trabalho, mudaram de posição e de velocidade, permanecem os mesmos, sendo já outros. 
Como todos os arquivos, o do CDI requer uma domiciliação e um suporte estável, o que o liga de certo modo à inescapável determinação topográfica dos arquivos desde tempos imemoriais (a arkhê dos arquivos à guarda dos arcontes). Supõe também a dimensão comum a essa arkhê, a arqueologia. Exceptuando algumas instâncias determinadas pela necessidade de conservação da integridade dos documentos/monumentos, ou jurídico-legais, está totalmente aberto à comunidade, sinal de uma modernidade e de uma actualidade perenes, que dispensam o estabelecimento de uma autoridade hermenêutica legítima com acesso privilegiado a fontes recusadas a não-especialistas; o desejo de verdade é cosmopolita e democrático; o poder arcôntico que detinha em exclusividade as funções de unificação, identificação e classificação caminha a par e passo com o poder de consignar, isto é, de reunir os signos num sistema de sincronia ideal, no qual não existe distanciação absoluta, heterogeneidade ou segredo que o separe dessa consignação, ou da sua função institucional. Não cabe aqui discutir – embora fosse interessante fazê-lo – o impacto deste arquivo sobre a historiografia do cinema em Portugal e talvez também o impacto sobre a historiografia do arquivo e do arquivismo. É um trabalho que está por fazer e que, certamente, será feito um dia. De uma coisa estamos certos: este projecto de saber, de prática e de instituição, de comunidade e consignação é atravessado na totalidade do campo por uma questão política: a da res publica. 
A Cinemateca é assim uma imensa sala de projecção, não só dos filmes, mas de tudo aquilo que com eles se relaciona, recusando a falsa aproblematicidade dos objectos; eles são, no fim de contas, uma inesgotável “planície de verdade” cuja pensabilidade nunca se esgota; ocultam-se e desvelam-se como enigmas; criam novos valores, sendo a sala de projecção não só a possibilidade de experiência dos objectos, mas a condição dos próprios objectos da experiência. Precisamos urgentemente de voltar à presença e à familiaridade. 
Começámos agora a era do medo, sobretudo o medo de perdermos o controlo das circunstâncias e rotinas da nossa vida diária. Compreendemos que, talvez, já não sejamos só nós que já não conseguimos moldar as nossas vidas, conferir-lhes sentido, dar-lhes um rumo, mas que também quem nos governa tenha perdido o controlo, para forças que os transcendem e que se situam no domínio do inimaginável. Estamos, sem dúvida, garantidamente menos confiantes nos nossos objectivos e aspirações comuns. Como celebremente comentou o politólogo John Dunn, o passado está um pouco melhor iluminado que o futuro; vemo-lo com mais nitidez. Mais do que nunca, vamos precisar de instituições públicas sólidas, credíveis, poderosas no que toca à criação de confiança comunitária – confiança no projecto colectivo –, capazes de fornecerem serviços fiáveis fornecidos por um sector público devidamente financiado. Algumas dessas instituições já existem.
Arnaldo Mesquita

* Texto publicado originalmente na página da Cinemateca Portuguesa - Museu do Cinema, na secção "Sala de Projeção". A fotografia pertence ao filme "Toute la Mémoire du Monde" de Alain Resnais.