quinta-feira, 13 de janeiro de 2022

Teogonia Dois: 2. Um Deus Cansado

Tinha toda a eternidade, mas impacientava-se. Como? Um deus impaciente? Talvez por capricho, impulsividade e poder que ele o contrário à sua vontade nunca foi de admitir mas, mais do que isso, mesmo no que criasse era imperfeito. A modelação do barro genésico requer calma, a exacta e reflectida ponderação. Não basta dizer «faça-se» que a coisa fica feita. Quero dizer, feita ainda pode ficar, não será, contudo, coisa de que se orgulhe depois.

Era, pois, um deus imperfeito. Mas, não se iludam, era naquele panteão magnífico, um dos mais fortes e poderosos, temido pelos homens, e pelos outros deuses. Capaz de vergar a Natureza ao seu capricho, desafiava Fortuna e destino, impondo o que quisesse até mesmo às Parcas. Coitadas, cortavam o fio do que será quando ele mandava e não quando devia ser. E ele queria-o muitas vezes porque era, já o sabeis, impaciente como ninguém.

Mas era a descomunal potência genésica o seu principal atributo.

Criava animais exóticos e inverosímeis cuja função era desconhecida até mesmo para eles que, depois de experimentarem o que era viver, logo se deixavam morrer, após a angústia da perplexidade e sem deixar descendência. Eram rudes esses bichos. Não houvera tempo para detalhes na tamanha impaciência do deus e a bestialidade das criaturas , magníficas de pujança, além de suicidárias, tornava-as cruéis. Ainda bem que duravam pouco. De outro modo, seriam  o terror dos homens e dos outros animais que assistiam, incrédulos, àquela proliferação de monstros.

Em contrapartida, quando saiam plantas das suas mãos criadoras, elas espalhavam-se por todo o lado de modo incontrolável, ameaçando sufocar, na sua exuberância, todo o mundo. Porém, mais uma vez, porque eram imperfeitamente formadas, logo feneciam às primeiras chuvas ou, então, era esta nossa divindade que se irritava e as apagava da face da terra enviando um grande cataclismo que não poupava ninguém.

O pior era que tais fracassos, ferindo-lhe o orgulho, o tornavam ainda mais impulsivo e impaciente, ao ponto de uma exasperação endemoninhada o dominar. E assim lhe crescia uma fúria, tão descontrolada que nenhuma hecatombe ou vingança, castigo ou generosidade lhe podiam aplacar o ódio.

 

segunda-feira, 10 de janeiro de 2022

Diário Laboratório 2021: 15 /1/2021

 Há, porém, outras fontes de bloqueio para o texto longo (sobretudo na ficção narrativa):

1. O facto dos escritos-de-base estarem «perdidos» ou muito fragmentados, etc.

2. Existirem várias versões concorrentes, a ponto de o projecto se tornar incoerente.

3. Receio de falta de verosimilhança narrativa.

4. Tédio de trabalhar muito tempo no mesmo projecto.

5. Convicção na falta de originalidade da ideia-de-base.

domingo, 9 de janeiro de 2022

A PREPARAR O ROLO PARA CONTINUAR A PINTAR.

 Oitavo dia do primeiro mês de dois mil e vinte e um.

Sei que não é efeito da dose de reforço mas efeito da vida a acontecer. Há partidas inevitáveis e chegadas também. Há um todo que não se controla e outro tanto que se pode controlar. E há a falsa sensação de controle que existe como um placebo que cuida de todos os anseios e disfarça todas as incapacidades. Cheguei a casa a correr para me agarrar a um paracetamol só porque quero terminar o que já comecei antes que comecem os calafrios que nem sei se vão acontecer. A gata do meio brincava com o que me parecia um rato e não a contrariei até perceber que voa. Por isso relembro-me do dia em que encontrei um pintarroxo no meio do caminho agrícola das courelas. Estava aflito duma asa e não conseguia recuperar o voo. Parei o carro, saí e peguei nele. Nem tentou fugir e pu-lo no meu colo de encontro ao peito e à pele, no lugar onde as mães confortam os filhos. No dia seguinte já estava recuperado mas mal protegido da gatinha lambona. Fiz-lhe uma pira e encomendei-lhe o espírito esvoaçante ao deus dos pássaros e a São Francisco. Nesse dia voltei atrás, a todos os pássaros que se cruzaram comigo ao longo da vida até chegar ao primeiro, aquele que escondi dentro da gaveta da minha cómoda para poder cuidar dele. Quando começou a piar a minha mãe deu por ele. Fizemos uma papa de farelos e demos-lhe água. Ela disse-me pela primeira vez que, se interferimos com a natureza ao ponto de salvar um animal,temos que ser responsáveis por ele até estar em condições de voltar a ela. Corri para a gata do meio, a Gaya, e tirei-lhe o pardal moribundo da boca. Chorei até encharcar-lhe as penas mas não o larguei até ao último pulsar do peito pequeno que estava de encontro ao Monte de Vénus da minha mão esquerda. Fiz o que todos queremos para o nosso último suspiro que é o conforto duma mão amada. Nestes tempos em que se banalizou a morte em tempo recorde, que se legislou a ausência de toque, que se obrigou a existência asséptica da convivência dos corpos, resta a empatia como exercício de sobrevivência do espírito que se quer límpido. E resta muito se soubermos dar músculo à memória mais antiga da nossa existência. Relembro-me, novamente, dos últimos pedidos de minha mãe. Desses pedidos ressalvo o mais importante. Ela repetiu-o ao longo da minha criação, durante 38 anos, que foi a idade com que me teve e a idade que eu tinha quando ela se foi. Sabia que eu era uma “cabeca no ar” e reforçou a ideia até que, quando chegou o momento, eu não me esqueci de lhe pedir a extrema unção. Vi a agitação e a calma, o antes e o depois. Pergunto-me se, nestes tempos de máscaras e álcool , plásticos e painéis,isolamentos e muito medo, essa unção tão  necessária estará a ser feita. Onde fica a espiritualidade e a benção de existir no meio desta loucura pandémica? Onde fica o toque, a pele, o calor do peito dum ente amado, o conforto duma mão apertada sem luva nem desinfetante? 

Não sei se é efeito do reforço, da terceira dose, ou da minha condição de quase eremita, ou dum pequeno pássaro que tive a honra de untar a fronte com as lágrimas da minha incapacidade.

Elsa Bettencourt

Diário Laboratório 2021: 14/1/2021

 O bloqueio fundo do tormento do fragmento provém do terror ínsito ao infinito da possibilidade.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

Teogonia Dois: 1. Um Deus Impaciente

 Tinha toda a eternidade, mas impacientava-se. Como? Um deus impaciente? Talvez por capricho, impulsividade e poder que ele o contrário à sua vontade nunca foi de admitir mas, mais do que isso, mesmo no que criasse era imperfeito. A modelação do barro genésico requer calma, a exacta e reflectida ponderação. Não basta dizer «faça-se» que a coisa fica feita. Quero dizer, feita ainda pode ficar, não será, contudo, coisa de que se orgulhe depois.

Era, pois, um deus imperfeito. Mas, não se iludam, era naquele panteão magnífico, um dos mais fortes e poderosos, temido pelos homens, e pelos outros deuses. Capaz de vergar a Natureza ao seu capricho, desafiava Fortuna e destino, impondo o que quisesse até mesmo às Parcas. Coitadas, cortavam o fio do que será quando ele mandava e não quando devia ser. E ele queria-o muitas vezes porque era, já o sabeis, impaciente como ninguém.

Mas era a descomunal potência genésica o seu principal atributo.

Criava animais exóticos e inverosímeis cuja função era desconhecida até mesmo para eles que, depois de experimentarem o que era viver, logo se deixavam morrer, após a angústia da perplexidade e sem deixar descendência. Eram rudes esses bichos. Não houvera tempo para detalhes na tamanha impaciência do deus e a bestialidade das criaturas, magníficas de pujança, além de suicidárias, tornava-as cruéis. Ainda bem que duravam pouco. De outro modo, seriam  o terror dos homens e dos outros animais que assistiam, incrédulos, àquela proliferação de monstros.

Em contrapartida, quando saiam plantas das suas mãos criadoras, elas espalhavam-se por todo o lado de modo incontrolável, ameaçando sufocar, na sua exuberância, todo o mundo. Porém, mais uma vez, porque eram imperfeitamente formadas, logo feneciam às primeiras chuvas ou, então, era esta nossa divindade que se irritava e as apagava da face da terra enviando um grande cataclismo que não poupava ninguém.

O pior era que tais fracassos, ferindo-lhe o orgulho, o tornavam ainda mais impulsivo e impaciente, ao ponto de uma exasperação endemoninhada o dominar. E assim lhe crescia uma fúria, tão descontrolada que nenhuma hecatombe ou vingança, castigo ou generosidade lhe podiam aplacar o ódio.

 

quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

Diário Laboratório 2021: 13/1/2021

Pensai no pluri-vário da vida. É tal, indefinidamente, extenso. E o que é indefinidamente extenso assemelha-se ao infinito. Por isso, a literatura é fonte manante, inesgotável de possibilidade. Porque há inúmeros modos de contar inúmeras histórias, reais, irreais ou com mistura.


sexta-feira, 24 de dezembro de 2021

FELIZ NATAL

 



                          Este blog deseja a todos os que por aqui vão passando um Feliz Natal.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2021

ROGÉRIO SAMORA


 

                                                                            1958 - 2021

Décimo sexto dia do décimo segundo mês de dois mil e vinte e um. No mês em que renasce a esperança morreste. Vejo desta janela fria a dor que os amigos põem nas palavras pelos que partiram sem aviso prévio. Aos próximos ligo para chorarmos, rir, e dar abraços fortes no ar que nos separa. A minha mãe dizia que a esperança era a última a morrer foi com ela que aprendi sobre humildade e aceitação. Não conheço ninguém que tenha sofrido tanto tempo antes de partir, nem ninguém com um sorriso maior. Se é possível transformar dor em amor ela fê-lo e sempre com a melhor nota. Só quem privou com ela é que sabe do que falo.
Para a querida Ana e Vanda saibam que o meu coração está com o vosso. Para a querida Isabel e Roberto que o saibam também.
Para a Leonor que ele ia visitar sempre que ia a nossa casa que o saiba também. Fizemos as pazes atempadamente e não ficou nada por dizer.
É uma ironia quando alguém nos deixa neste mês. É-o em qualquer mês. Que a esperança nunca o faça.
Gosto muito de vocês!
Elsa Bettencourt



domingo, 5 de dezembro de 2021

NA NOVA FORMA DE PROCRASTINAR


 


Terceiro dia do décimo segundo mês de dois mil e vinte e um. Há um debate silencioso instalado a meias no meu espírito e massa cinzenta. Não sei se é ainda a readaptação às raizes ou a readaptação plena. Só sei que, neste universo, o conforto é o considerado na minha vida passada, entre países estrangeiros e um Portugal de patine burguesa, um quase desconforto. Na vida que eu não sabia ser um mero estágio para a reforma (por invalidez) preparei-me para aquilo que o meu filho Millenial chama de zombie war. Quando dei o passo seguinte foi como se tivesse quase todas as “armas” para me instalar neste admirável mundo novo. Quando a pandemia deu as primeiras tréguas eu pus-me a caminho da ilha com uma mala cheia de utilidades e o mínimo de roupa para vestir. Foi o inverno mais difícil da minha vida e o mais chuvoso na ilha do sol. Andei a pé e de carro alugado por longos períodos até decidir mandar vir o transporte que me aguardava na porta errada. Não sei se é de estar (quase)sempre a rir que leva as pessoas a pensar que eu estou de férias, que sou milionária, ou sou só tola e muito disponível. No primeiro inverno a casa tinha um chão de cimento pintado e eu nunca tinha vivido nela. No quarto do fundo tinha um soalho de pinho de 1937. Quando, na primeira semana de estadia, a minha cama cedeu até pensei que era o pé dela, mas não. Foi uma tábua do tal chão tão antigo. Fiquei a rir-me sózinha do tragicómico da situação. Mais três tábuas caía lá em baixo. Das coisas que não tinha na casa o lava-loiças era uma delas. O duche por estrear serviu bem para o efeito. E a velha pia rachada lá fora quando não chovia. Quando chovia às vezes punha a chuva a fazer o meu trabalho. Não tinha cadeiras mas tinha um banco corrido dos impérios. Não tinha mesa mas tinha cavaletes e tábuas com fartura das camas por montar. Não tinha fogão mas tinha uma cataplana elétrica porque tinha eletricidade. Não tinha forno mas tinha uma cloche do tempo de algumas avós. E tinha sobretudo, e com fartura, muita dormência na mão direita e as chamadas dores neuropaticas próprias de quem foi intervencionado na C8. Para isso tomava uns químicos receitados pelos meus preocupados médicos. Fiz desmame dos mesmos após algumas sessões de banhos de mar. A vitamina mar é uma evidência por mim comprovada para a eliminação de qualquer dor. A guerreira em mim debate-se com imposições e disposições. Pelos caminho salvei um cão que mais parece um lobo e que faz de mim o capuchinho vermelho. Tive que ficar mais forte para poder ajudar quem precisa de mim. Tive que ser caçadora dos meus medos e aprender com eles. Tive que reaprender a viver com a curva que tanto nos eleva como deita abaixo.
Entretanto dois dias voaram ao sabor do último eclipse deste ano e tanto EU nas últimas palavras perdeu o sentido. Já pousei no quinto dia do decimo segundo mês. Do debate silencioso resta o silêncio e os pensamentos algo ruidosos que substituo com os cantautores das linguas que conheço. Prefiro sempre as cantigas de intervenção às de amor porque essas sim são de paixão. As causas vivo-as andando por todos os caminhos que percorro porque é neles que me detenho e quem neles encontro é quem me move. Torno-me o efeito da causa num ápice,num ai, num repente. É nesse instante que constato aquilo que me trouxe a esta janela virada para o varal com criptomerias e pinheiros a enquadrá-lo. O grito do vizinho milhafre que assinala a caça adivinho-o por debaixo das palavras cantadas da Mafalda que diz que há que penar para aprender a viver , que a vida é feita de cada entrega alucinada para receber daquilo que aumenta o coração. Há que viver uma hora de cada vez e não ter medo nem de procrastinar. Há mesmo que ter um horário para a procrastinação que eu considero mais contemplação. E há que evitar o fechamento desse eu tão subvalorizado e oferecer ajuda nem que seja com o saber escutar cada palavra que nos querem dizer. Das escutas mais significativas que tive este ano foi dum homem permanentemente ébrio. Acho que o álcool já faz parte do sistema circulatório dele. Eu fazia-lhe perguntas e um amigo traduzia o que ele dizia através da boca gretada com dois dentes em muito mau estado. A maior parte da tradução era para italiano ou francês. O meu amigo também só tem quatro dentes mas fala mais de quatro línguas. Em todas as línguas o homem dizia que tinha mais de mil anos e contou estórias inacreditáveis. Cada vez que me cruzo com o senhor ele cumprimenta-me e faz menções de tirar o chapéu que não tem. Eu respondo com o acenar típico da ilha com a mão sobre o volante e quatro dedos que se elevam. Nunca vi alguém tão pisado nem nas minhas deambulações mundo fora. Nas cidades grandes o olhar já não é triste e é vazio de brilho. Este é cheio de dor e perda. E não quer qualquer ajuda senão meiozinho de tinto e algum papo-seco misto. E atenção, porra! Quem não?

Elsa Bettencourt




quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

SOLIDÃO

 



Não há nada mais poético e mais solitário do que uma estação de comboios num dia feriado ou num Domingo. Sem pessoas nem máquinas a decorar a paisagem restam apenas as estruturas, a imensidão do apeadeiro, um banco ou dois, os carris sem nada para fazer. E, no entanto, todo esse vazio que o nosso andar vagaroso experimenta revela-se numa imensidão de sentidos, informações, mensagens tranquilas escritas pela caneta da ausência. Uma partida madrugadora depois de um adeus forçado, o frio a pedir uma sala aquecida pela lareira, um grito desesperado de fechar definitivamente as contas com a vida e partir para outro destino, reencontros, corridas apressadas para esperanças prestes a partir. Não há nada mais poético nem mais digno do que a espera em solidão pelas respostas que a ausência interroga. Sozinhos na plataforma, assim nascemos e morremos percebendo exactamente a mesma coisa no fim do que percebíamos no princípio. Nada. Aparte isso, viagens e mais viagens, multidões apressadas de sensações, ruídos estridentes de expectativas, avisos sonoros sobre a nossa cabeça, agitação, confusão e caos. Por isso a estação vazia e o regresso à calma de sermos aquilo que sempre fomos amparados pelo braço do silêncio.

Não há nada mais digno nem mais confortável do que não ter ninguém à nossa volta a não ser os nossos pensamentos, o diálogo interior sem nada que o consiga interromper. O mundo de onde nunca deveríamos ter saído assombrados pela ideia de que nunca lá poderíamos voltar. As voltas e voltas à procura de uma explicação, de um sentido, uma razão por mínima que seja para conseguir compreender o que se passa.

Não há nada mais confortável nem mais profícuo do que alguns momentos de solidão para conseguir ver com muito mais lucidez tudo aquilo que a algazarra dos dias, a multidão e o frenesim para lado nenhum não permitem.

Numa plataforma isolada a única coisa que faz sentido é a própria forma das coisas. Descansada, silenciosa, embrulhada na razão do seu próprio ser. E a mochila pousada ao lado das botas cansadas em intervalo de caminhadas. Cheira-se o vento em busca de uma direcção, afina-se o tempo ouvindo os sinais do corpo, acende-se um cigarro lento enquanto as palavras se vão arrumando à volta daquilo que se pensa. No fim outra coisa surgirá. Outra direcção, outra viagem, outro caminho dará início ao desenho dos próximos dias.

Não há nada mais poético nem mais estimulante do que um homem sozinho numa plataforma sem gente, a interrogar o destino com um cigarro lento nas mãos. A escolher entre o passado e o futuro, entre a vida e a morte. E à sua volta o tempo fica parado à espera de uma decisão, o frio cala-se por instantes e o mundo vai lá fora enquanto nada acontece. Amanhã tudo voltará a acontecer…de uma maneira ou de outra. Amanhã o homem voltará a ouvir o seu nome pronunciado pelo vento nas folhas das árvores. E será ele outra vez.

 

Artur


terça-feira, 30 de novembro de 2021

OITENTA E SEIS ANOS DEPOIS


 


Escrever é esquecer. A literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida. A música embala, as artes visuais animam, as artes vivas (como a dança e a arte de representar) entretêm. A primeira, porém, afasta-se da vida por fazer dela um sono; as segundas, contudo, não se afastam da vida - umas porque usam de fórmulas visíveis e portanto vitais, outras porque vivem da mesma vida humana.
Não é o caso da literatura. Essa simula a vida. Um romance é uma história do que nunca foi e um drama é um romance dado sem narrativa. Um poema é a expressão de ideias ou de sentimentos em linguagem que ninguém emprega, pois que ninguém fala em verso.

Fernando Pessoa

sexta-feira, 26 de novembro de 2021

DA BANDA DE AQUÉM

 Vigésimo quarto dia do décimo primeiro mês de dois mil e vinte e um. Ontem à noite os relâmpagos voltaram sózinhos a iluminar as copas das árvores que emolduram a janela do quarto. No princípio da madrugada já Júpiter brilhava na terceira vidraça superior sem nuvens a atrapalhar. É assim viver no princípio da banda de além, é ficar mais aquém de cada fenómeno que antes só se revelava através de filmes de oito milímetros, ou de histórias contadas pelos avós mais antigos. Muitas vezes me vem o impulso a que não cedo de tapar os espelhos da casa. Os olhos curiosos dos animais sossegam-me e quando há sinal de perigo é atrás de mim que se escondem. As gatas da cidade são agora leoas ferozes que me agradecem com ratinhos, grilos e baratas. Felizmente tive uma mãe comparável à maior maga das ciências naturais. Treinou a sua única filha para lidar com todos os seres vertebrados e invertebrados, de sangue quente e de sangue frio. Costumava amarrar um cordel à cauda dum murganho para eu poder passear com ele ou a apanhar lagartixas dando um nó de corrediço nas ervas mais compridas. Tornei-me uma pescadora exímia de lagartixas ao sol. No dia em que resolvi lavar as minhocas na banheira da casa acho que percebeu que a minha curiosidade seria sempre maior do que o meu pudor. Tinha então três anos e só tinha medo da sombra nas escadas para o segundo andar. Hoje até as sombras são sempre o lado onde a luz está por chegar.

A chuva voltou com força enquanto preparo o primeiro assado deste forno. Continuo com a sensação de estar isolada do resto do mundo das notícias que não vejo nem leio. Por tal alheamento descobri há pouco que a nossa amiga e colega está a necessitar de cuidados por causa do malfadado vírus. Os meus pensamentos e orações estão na tua direção, minha querida, e já te ouço a trautear umas notas de Alcafozes ao Loreto. Os padres italianos que se preparem.
Entretanto lembrei-me dos idos anos 90 do século passado. Eu com menos que meia dúzia de anos de voo e um passageiro conhecido orador seropositivo. Ele sentou-se por engano no lugar de descolagem e aterragem de tripulação na coxia da fila da janela de emergência do Boeing 737. A colega desse lugar pediu-me para lhe dizer que ele estava enganado e disse-me que não queria sentar-se nesse lugar. Perguntei se estava com medo de alguma coisa e ela respondeu-me que não queria apanhar SIDA. Ofereci-me para fazer a descolagem e aterragem no lugar dela,informei o senhor que o lugar dele era ao meio e que se poderia sentar na nossa coxia durante o voo. Não me lembro do nome dele nem dela. Tenho demasiados amigos engolidos por esse virus tão medonho como castigador e sempre soube que não era por partilharmos uma cadeira, assim como sempre soube que não engravidamos pela graça de nos sentarmos na mesma sanita do namorado. Éramos muitos no escritório voador e felizmente eram poucos os que padeciam de falta de informação e sensibilidade.
As rajadas de vento têm vindo a aumentar. O meu lençol já secou e molhou-se umas seis vezes. A toalha já resvalou a nau catrineta. O cão continua a achar que ao pé de mim as tempestades não o afetam. Eu continuo a achar que ao pé dele também não.
Estar a fazer o quê neste fim do mundo é o que me perguntam às vezes. A maior parte das vezes nem ouvem a resposta. Da banda de além à banda de aquém é num ai. Vale tanto a soma como o que se subtrai.
O forno já está aprovado para o mês que vai entrar. As pinhas já estão espalhadas pela mata. A noite caiu agora que me levanto. Nem a senti, nem ela a mim. É assim.
Elsa Bettencourt

quinta-feira, 18 de novembro de 2021

AUTOVOUCHER OU A ALEGORIA DO FILHO DO PADEIRO

 



Na aldeia onde passo agora a maior parte do tempo, o padeiro costuma passar uma vez (às vezes duas) em passeio triunfal, qual parada medieval de outrora. Estaciona na cabeceira da rua principal e agarra-se à buzina como se quisesse anunciar um ataque nuclear eminente, tendo as pessoas dois minutos para correr para o abrigo. Aguarda uns instantes que os idosos se aproximem munidos do porta-moedas e do saquinho de plástico, fica ali a dar dois dedos de conversa e arranca até ao outro extremo da rua para repetir o ritual. Buzinadela estridente e prolongada, aproximação da população idosa, o estado do tempo, o futebol e ala para a próxima aldeia. Confesso que ao princípio me assustava tanta algazarra desnecessária quando uma simples combinação de horário poderia resolver a questão. Depois comecei-me a habituar com espasmos cada vez menos pronunciados e palavrões em escala decrescente.

Nos últimos tempos o padeiro deixou de vir diariamente, talvez por ter outros afazeres, talvez porque resolveu abrandar o ritmo da volta às aldeias. Em seu lugar mandou o filho, um miúdo tranquilo que aproveita as horas vagas da escola embora muito menos sociável do que o pai. O ritual não mudou a não ser na rapidez com que se desenvolve. É que isto de atender o público não é uma capacidade inata em ninguém…leva o seu tempo. Há sempre aquele cliente que reclama das carcaças que comprou ontem, o outro que deita um longo olhar para dentro da caixa da carrinha para de seguida se pôr a pedir aquilo que não há, já para não falar na epopeia dos trocos que, como todos sabemos, além de difíceis de arranjar ninguém parece ter. O rapaz chega à entrada da rua, agarra-se à buzina da carrinha como se não houvesse amanhã e, logo de seguida, arranca em direcção à outra ponta da rua. Os primeiros potenciais compradores têm apenas tempo para pôr o nariz de fora para se aperceberem que se quiserem pão vão ter que ir à padaria.

Ao fim do dia não faço ideia que contas é que pai e filho farão e qual o balanço diário da padaria itinerante. Mas a atitude do filho do padeiro faz-me lembrar o “autovoucher” do Governo para minimizar o impacto do aumento dos combustíveis. Por cada pipa de massa que gastar a consumir o seu combustível, traga a factura e troque por um apoio…zinho de 0,00005 %.

Ou seja, o consumidor é toureado com todo o cenário que indica precisamente o contrário. Temos padaria, temos serviço itinerante ao cliente…o que não temos é pão.

Faz lembrar uma piada antiga do Herman José em que era anunciado um concurso de sugestões para acabar com a burocracia. Quem quisesse participar teria que enviar um formulário devidamente preenchido com uma exposição de quinze páginas a explicar porque é que se devia acabar com a burocracia, acompanhado de uma fotografia de corpo e meio junto a um pastor alemão albino.

O chefe do governo e alguns dos seus ministros podem personificar a relação do padeiro e do seu filho. Um mais diligente, ou mais calculista, outros mais incompetentes, mais apressados, menos atentos. Ao fim do dia a panificadora terá que fazer o balanço das diversas estratégias aplicadas e assumir as falhas do sistema. Mais depressa ou mais devagar, em loja fixa ou itinerante. Os consumidores cá estarão, sempre os mesmos, com a mesmas necessidades de comer pão todos os dias. Se não nesta padaria…noutra qualquer…

Artur


domingo, 14 de novembro de 2021

O REGRESSO DA TERTÚLIA

 





No próximo Sábado, dia 20, a Tertúlia Regressa a Braço de Prata. Na primeira sessão vamos estar à conversa com José Guedes. "Na Rota do Yankee Clipper", "O Aviador" e "Carlos Bleck" serão os títulos em debate. Dos "Gloriosos Malucos das Máquinas Voadoras" até à Aeronáutica em geral, experiências de vida, livros, memórias e mais que na altura se verá. Estão todos convidados.

quarta-feira, 20 de outubro de 2021

PORQUE SIM

 Décimo oitavo dia do décimo mês de dois mil e vinte e um.

Confesso que estou a ressacar dos anos de trabalho e de lazer, de saúde e de doencas, de alegrias e tristezas, de reuniões e separações. A ressaca da vida é como a do mar, deixa detritos e erosões, sulcos e convulsões, presentes e subtrações. Sem dúvidas de que este é o grande jogo e quando se move uma peça tudo se altera. A certeza de ontem pode tornar-se a dúvida de amanhã. E ao contrário também. É esta a beleza da vida a ser vivida, a ser consumida ao ritmo do tempo que temos, a aproveitar cada gota que a maresia projeta contra nós, a de não parar, a de ficar na mera contemplação das horas, ou simplesmente aproveitar duas horas de insónia para fazer o bolo preferido dele, sem forno e com metade dos ingredientes. Felizmente a minha mãe apresentou-me a cloche no idos anos oitenta e eu aprendi a mudar a resistência para cima de modos a não ter meia delícia carbonizada. Já estou com tiques de avó apesar da eterna enamorada dos braços que me apoiam. É esta a beleza dos anos que passam e do que aprendemos com eles. Neste momento continuo a consolidar raizes e alicerces, a tentar explicar aos que se seguirão, com mais actos e menos palavras, a melhor forma de nos levantarmos após a queda, seja grande ou pequena. A poesia continua, as letras não me largam, tanto como a circulação que me impele cada segundo. Hoje chove e amanhã faz sol. As gatas dormem e o cão dorme. Ele constrói as minhas certezas com a mestria dum professor. A minha mãe vai ser bisavó e a minha mais velha vai conhecer os segredos dum amor maior. É a vida a ser vivida como é. Simples.


Elsa Bettencourt