quarta-feira, 11 de setembro de 2019

1450 cm3 de João Nuno Teixeira




"Quem proclama uma teoria do progresso coloca-se irremediavelmente a si mesmo como participante, portador e ponto de culminação no drama do progresso. Quem mostra uma teoria da decadência faz-se valer a si mesmo como um afectados pelo drama da decadência, quer seja como aquele que protesta, se resigna ou aguenta. Quem diagnostica renascimentos ou épocas de mudança põe-se a si mesmo em jogo como parteira, como piloto da mudança ou até como candidato à reencarnação. E quem profetiza a ruína, declara-se como moribundo, como quem ajuda a morrer, como carpideira ou, por fim, como explorador dos restos da cultura que está agonizante."

Peter Sloterdijk 



Ante este estranho e fascinante objecto  - e chamo-lhe "objecto" à falta de outro substantivo que o possa subsumir, visto que  o próprio autor o classifica como um "não-livro" - confesso-me incapaz de constituir um discurso crítico, pelo menos no sentido tradicional e clássico que o cânone atribui a "crítico".
Assim, sinto-me tentado a classificá.lo como uma dose massiva de lucidez, um tipo de clarividência que o mundo contemporâneo parece rejeitar, mergulhado que está na estupidificação maciça e numa deriva que parece conduzir-nos para a apatia ou ataraxia generalizada, impelindo-nos para um beco sem saída ôntico e para um abismo para o qual corremos com brio e denodo, uivando alegremente com os lobos.
O projecto insano e maravilhoso de reescrever a História da Humanidade, a que o João Nuno se entrega com uma intensidade que é difícil ignorar e que somos compelidos pela leitura a acompanhar, não se compagina de nenhum modo com facilitismos e imediatismos. Requer, pelo contrário, que punhamos na leitura e na constituição do sentido o mesmo tipo de intensidade, o mesmo despojamento de regras, a mesma indiferença em relação a padrões que constituem o âmago de uma obra literária (objecto, não-livro, texto, tessitura, aquilo que entendermos que é) que está na sua génese e que prefere ignorar os limites e estabelecer o seu próprio padrão, a sua singular e irrepetível métrica.
A pergunta que me perseguiu desde a primeira leitura (e que não se atenuou com a segunda, e muito menos com a terceira) é : existirá uma modalidade rigorosamente lógica e demonstrável do conhecimento humano sobre esse mesmo ser humano que conhece ? A resposta de "1450 cm3" parece ser - arrisco.me mesmo muito nesta hipótese - não, não existe. Apontando para aquilo a que Hermann Broch chamava "desintegração axiológica, João Nuno Teixeira sustenta um mundo, uma "humanitas" que não é passível de ser representada como uma totalidade fixa, estável e para sempre cognoscível, afirmando que a suposta perenidade da condição humana, em vez de garantir essa mesma estabilidade, se constitui como o ponto de partida de uma interrogação permanente, de uma problematização que não cessa; Adão não acaba de acabar, coexiste permanentemente com os seus duplos e, até, com a sua negação.
Queira ou não queira o autor - e muitas vezes os autores não sabem exactamente aquilo que querem ou querem o contrário daquilo que obtêm - aquilo a que chega é à posição de um sujeito epistemológico e à constituição de um campo de observação que representa a personalidade humana na sua abstracção mais extrema, o que é equivalente a dizer: na sua concretude mais radical.
As pressões a que o autor sujeita a linguagem roçam por vezes os limites da inteligibilidade. É um risco assumido: desconstruir as estruturas linguísticas para depois as reconstruir indica uma incansável vontade de reconstituir o mundo através da linguagem e assim fazer com que esta "fale". Atente-se nesta passagem (capítulo IV "Fome de Infinito"): «Criador. O criador ? O criador ! A é a circunstância do tempo, modo e lugar. A quinta essência está nas mãos tenras de uma criança. As fossas nasais do demiurgo estavam perto. Por onde andaria ? [...] Espaço, Tempo. O espaço e o tempo inscrevem-se na obscuridade do paradoxo. Nada mais perverso que o tempo: tira o que não se tem e dá o que já se possui. inventando a sua proclamada lógica». Atente-se, então, na progressão das repetições, na musicalidade difusa que pretende, e consegue, criar um sentido a partir de uma permutação de relações metamórficas e de relações potenciais. Se cito esta passagem, podendo citar muitas outras, é porque ela me parece emblemática do tom geral da obra e de uma afirmação constante de que não existe nenhuma expressão, ou melhor, de que não existe nenhum código expressivo, cuja origem seja um vazio total; é assim que esta obra põe em jogo princípios de uma coerência tão difusa e multímoda que por vezes sentimos dificuldade em classificá-los ou incluí-los numa visão ordenada. Mas, perante esta obra, para que precisamos de um a visão ordenada ? Para coisa nenhuma, na realidade; basta que nos libertemos da "tirania do sentido" e nos deixemos embarcar no profundíssimo questionamento que oscila entre a hipótese transcendente do criacionismo e a criação humana como criação ex nihil sem porquê nem sentido que lhe seja anterior ou final; o velho sonho da libertação das teorias da causalidade não anda longe daqui. Felizmente.
Uma obra que põe em causa o sentido do sentido deveria fazer parte do currículo de qualquer cidadão que se respeite como tal. Desconheço, obviamente, qual será o destino desta obra - como será acolhida, quantos leitores encontrará, que reacções provocará. Quanto a mim, reputo-a como um dos mais estimulantes, exigentes e gratificantes livros portugueses dos últimos anos, merecendo figurar como um monumento à Ironia e à capacidade de desinstalação. O que não é dizer pouco: é através de obras como esta, que avançam por meio de uma prodigalidade de pressupostos teóricos, culturais e linguísticos, que o homem se pode libertar do tempo, superar momentaneamente a sua presença e o presente da sua própria morte pontual.




sábado, 17 de agosto de 2019

ALEXANDRE, O GRANDE EMPRESÁRIO E COMPANHIA

Morreu Alexandre Soares dos Santos.

O omnipresidente Marcelo evocou a personalidade singular de Alexandre Soares dos Santos e o seu relevante papel na vida económica, social e cultural portuguesa.
A última coisa que considero ser Marcelo, é desatento ou distraído. Mas aqui existe uma clara desconformidade na nota emitida à imprensa portuguesa. O relevante papel na vida económica, social e cultural que ele deveria mencionar, não é na portuguesa, mas sim na holandesa já que é na Holanda que o grupo Jerónimo Martins paga os seus impostos. Se for eu, não posso e até aconteceria essa minha eventual aspiração (que não tenho) ser olhada como antipatriótica. Um grande grupo económico, pode. E pode também pagar ordenados miseráveis aos seus funcionários. E pode também  exigir o cumprimento de horários e sacrifícios muito para além do humanamente aceitável.
Tal como Belmiro ou Amorim e outros ‘grandes empresários’ que já deixaram este plano da existência, a única coisa que devemos aprender com eles, é a forma como não repetir a sua acção e exemplo de responsabilidade para com quem para eles trabalha.
É por isso que o ‘branqueamento’ da memória de alguém após a sua morte, seja quem for, não passa de pura hipocrisia. No caso de Marcelo a este propósito, não é. É mais grave.
Na morte, o que fica é a memória de quem parte e as suas acções enquanto por cá andou.
O elogio marcelístico é redutor e formatador, contribuinte explicativo da pequenez de um Portugal absurdamente desigual.
Um lugar onde o sacrifício de milhares ou milhões de portugueses, é justificável no lucro de outros poucos, pouquíssimos, em milhares ou milhões.
Que esta gente na morte, encontre a paz que a ganância ilimitada não lhes permitiu em vida.

Em última análise, são estes os verdadeiros donos de Portugal e dos lugares onde se legisla e decide.

Ao povo, nada.

Hélder 

terça-feira, 13 de agosto de 2019

ENTÃO? AINDA CÁ ANDAS?





Naqueles tempos a Faculdade era um espaço estranho e grandioso para os seus alunos mais novos. Tinha tanto de fascinante como de fascizante no que às relações humanas dizia respeito. Por um lado era o último patamar da formação, o último desafio antes da vida adulta. A sabedoria, a cultura e as inteligências bailavam entre si fazendo-nos sentir importantes, proprietários progressivos de um pedaço de conhecimento…quase donos de um pedaço do universo. As estatísticas diziam que, naquele tempo, apenas cerca de 38% de cada geração chegava ali. Por outro lado a enorme quantidade das cargas de trabalho, as pautas sempre a nivelar por baixo e a vomitar notas baixas e muitos dos mestres distantes e austeros concorriam para a desmotivação e o desalento.
Ele era um merdas como tantos outros em todos os tempos e em todas as gerações. Um Assistente ainda novo que seguia o regente da cadeira como um cãozinho amestrado sempre disponível para qualquer recado, rir das piadas idiotas do velho, em suma, sempre pronto para qualquer habilidade requerida em nome de um doutoramento futuro. Por isso não só não lhe vou dar um nome como nem sequer uma alcunha. Era um merdas e pronto.
O Manuel da Horta (nome propositadamente fictício) era e é ainda hoje, um dos meus melhores amigos de sempre. Um tipo tranquilo, conciliador, afável, conversador e, acima de tudo, um dos seres mais inteligentes que conheci. Volta na volta surpreendia-nos com comportamentos fora do comum, como por exemplo fazer questão de atravessar a rua para cumprimentar pessoas de que não gostava. Ou fazer uma declaração de amor a uma betoneira das obras ( mas isso já em épocas “festivas”).
Chegámos à Faculdade convencidos que éramos uns geniozinhos e que, uma vez ali, o resto do caminho seria um pic nic no parque. Não foi. Um após outro fomos nos habituando ao sabor amargo da derrota, das notas negativas, dos chumbos. O Manuel foi o último a atravessar esta experiência dolorosa. Na oral do cadeirão do 1º ano, com o tal merdas, terminou o dia com um chumbo e um requinte de humilhação pela sua ignorância. Ficou de tal modo traumatizado que no ano lectivo seguinte resolveu não meter os papeis de dispensa e avançar para o SMO (Serviço Militar Obrigatório). Ofereceu-se voluntário para os Rangers.
Na altura, ao abrigo da lei militar havia a possibilidade de fazer o curso com marcações de exames todos os meses, uma forma de minimizar o impacto do afastamento quotidiano das aulas. O Manuel aproveitou esse regime.
A tropa é de certa maneira uma grande Faculdade da Vida onde se somam várias cadeiras de vários saberes. É também uma escola que nos ajuda a crescer de uma forma mais rápida e nos despe de muitas inibições. Corre-se de manhã em tronco nu com um frio glacial, caminham-se kilómetros, dão-se uns tiros, levam-se uns socos, etc,etc. Como dizia outro merdas de um Alferes que me deu recruta: “Procura-se que o instruendo termine a sua formação tendo adquirido uma certa “rusticidade”…”
Na segunda vez que o Manuel veio de Lamego foi directo à secretaria da Faculdade antes de ir a casa, não tendo sequer tirado a farda. Na fila viu que, mesmo à sua frente estava o merdas que o tinha chumbado na época anterior. Não pensou duas vezes. Alçou da mão e pregou-lhe uma palmada enorme nas costas que o fez saltar dois lugares na fila involuntariamente. – Então? Ainda cá andas? – o outro, meio atordoado virou-se para trás. – Ainda cá ando? Mas você conhece-me de algum lado? – O Manuel não perdeu a pose e ripostou: - Schh…vira-te para a frente e caladinho senão ainda levas outra. –
Nessa noite com mais um amigo e no meio das imperiais da cervejaria do bairro contou-nos a façanha como quem explica que foi comprar cigarros. Foi o que lhe saiu naquele momento e pronto. Estava feito. Eu e o outro amigo ficámos embasbacados a olhar para ele. Ainda ia repetir o exame. E se lhe calhasse outra vez aquele gajo? O Manuel mantinha-se tranquilo. Era muito azar levar duas vezes com o mesmo gajo numa oral. Ainda para mais ele estava fardado, de modo que nem o iria reconhecer.
Um mês depois o Manuel foi outra vez à oral da tal cadeira que tinha reprovado no ano anterior. Azar dos Távoras, o tipo que lá estava à espera dele era o mesmo que tinha levado a pantufada na fila da secretaria. O Manuel nem teve tempo de responder a nada. A primeira frase do outro foi: - Então ainda cá andas?


Artur

terça-feira, 30 de julho de 2019

I WAS INTERRUPTED




I WAS INTERRUPTED – NICHOLAS RAY ON MAKING MOVIES

Logo no início da Introdução ao volume, Susan Ray narra um episódio ocorrido no Festival de San Sebastián 1974 : depois da exibição do filme The Parallax View, o realizador Alan J. Pakula abordou Nicholas Ray, apertou-lhe calorosamente a mão, fez uma vénia e pronunciou a palavra “Maître”. O episódio, para além do valor simbólico e ilustrativo da relação de filiação entre uma nova geração de realizadores e o cineasta veterano que, de múltiplas formas, para essa mesma geração representava a potência e o acto do cinema, suscitou em Susan interrogações e perplexidades que expressa desta forma: “What is a Master and what makes Nick one ? And what this mastery of his mean to me ?”. Pois bem, este livro acaba por ser uma resposta cabal a tais interrogações, nascidas de uma perplexidade, ou de uma indeterminação, no conceito original de “Mestre”. De facto, o que ela (Susan) confessa é que à vida e à obra de Nicholas Ray faltaram alguns dos predicados que normalmente associamos ao conceito: a calma, a ordem e o controlo. Susan Ray poderia ter levado a sua perplexidade um pouco  mais longe e colocado a questão de uma outra forma, talvez com conotações políticas e sociológicas; o que significaria nessa época e nesse contexto ser visto como um Mestre ? Que poderes pessoais era preciso ter para que, num universo especificamente americano, tendencialmente irreverente e contestatário, ainda ser possível reconhecer essa figura, quando ressoavam os ecos dos brados “Plus de Maîtres !” que os estudantes franceses não se tinham cansado de gritar a plenos pulmões durante o Maio de 68. As duas questões – as dúvidas de Susan Ray e a dimensão político-social do problema – interpenetram-se e, como já dissemos, esta obra constitui-se como tentativa bem sucedida de encontrar uma resposta, já que o seu núcleo fundamental é constituído por transcrições de lições dadas por Nicholas Ray no Harpur College de Nova Iorque (a maior parte) e também no Lee Strasberg Institute da Universidade de Nova Iorque entre 1971 e 1978, com intermitências resultantes das circunstâncias tumultuosas da vida do cineasta. Numeradas de I a XV, essas “lições” apenas podem ser assim designadas por abuso ou facilidade de linguagem; de lições, no sentido estrito e académico do termo, nada têm. Não são, nem de longe nem de perto, modelos de transmissão de um saber, de uma “techne” ou de práticas que habilitem alguém a realizar um filme ou a nele interpretar uma personagem; não discutem teorias, nem procuram chegar à essência do cinema; não proclamam verdades eternas, nem sequer aquelas outras que são passíveis de debate e crítica; não emanam de nenhuma espécie de autoridade a quem prestar reverência.
A aura carismática de Nicholas Ray e o romance da “persona” no acto pedagógico constituem justamente o fulgurante carácter desta espécie de diálogos socráticos através dos quais Ray olha para os seus discípulos como iguais, fazendo-lhes mais perguntas do que aquelas que lhe são feitas. Um espantoso exemplo do seu “método” encontra-se na “Class V”. Ray não está completamente seguro de ter conseguido transmitir aquilo que entende por “acção” e o seu carácter de utensílio de interpretação dos actores. Compreende que é uma noção complexa, difícil, singular e pessoalíssima. E é através do diálogo com os seus discípulos que se vai progressivamente aproximando da noção e esclarecendo o seu conteúdo e alcance, densificando-a e clarificando-a em simultâneo: “PETE: Should the way in wich I carry out my action go along with what the action ? NICHOLAS RAY: It certainly should, because your action is an expression of the nature of your character. At the same time it helps clarify your character, his rhythm, how he does what he wants to do. Your action helps you make the transition from “If I were” to “I am”. Consider this dialectic: content determines form and form conditions content. Now apply it to your choice of action. What was your action here Nat ? NAT: Well, first I wanted to go to the couch. NR: Why ? NAT: So I could say hello. NR: Wouldn’t you say hello at the door ? NAT: I wanted to kiss her. NR: Why ? Are you deeply in love ? Is it the first chance you had to kiss her ? Is it the first time you’ve seen her ? Is it love at first sight ? Why ?”.
E o diálogo prossegue nesta toada até Ray conseguir extrair uma intuição, um acontecimento de lucidez e de compreensão, algo que só os verdadeiros Mestres obtêm, mesmo dos menos dotados dos seus discípulos.
Embora algo se tenha perdido na passagem a escrito destas emocionantes experiências maiêuticas de diálogo e aprendizagem mútua, ainda assim conseguimos captar as intensas vibrações de sentido e de intenção que perpassam como uma corrente eléctrica entre Nicholas Ray e os seus alunos. E voltamos às respostas às interrogações e perplexidades de Susan Ray: a calma e a ordem do Mestre são adquiridas por Ray em pleno exercício da função, não lhe são prévias, não existem antes de se exercerem, como se o magistério colocasse em suspensão e adiasse as angústias da luta contra o alcoolismo, a doença e a interminável agonia da sua obra nesses anos terminais.
Mestre, portanto. Não querendo fazer jogos de palavras, diríamos que a autoridade (auctoritas) de Ray como Mestre se fundamenta na sua “autoridade / autorismo” – aquilo que tem para ensinar é o seu próprio exemplo.
De resto, e para além das “classes” (?), o volume contém documentos e fragmentos extremamente valiosos para todos os que se interessam por cinema e pela obra de Ray (sendo as duas entidades sinónimos e consonâncias); reminiscências, excertos de argumentos, reflexões sobre alguns dos filmes que dirigiu, correspondência, constituindo o conjunto uma poderosa meditação sobre a arte cinematográfica. Seria imperdoável deixar de referir o brilhante esboço bio-filmográfico da autoria de Bernard Eisenschitz, um dos autores que melhor compreendeu Nicholas Ray.

No longínquo encontro de 1974, Alan Pakula dirigiu-se a Ray como “Maître”. Ainda bem que o fez, já que a alternativa em inglês teria sido “Master”.




quarta-feira, 24 de julho de 2019

RUTGER HAUER




                                                                      1944 - 2019

MEMÓRIA DE MIM




De repente e sem me esforçar muito, lembrei-me que era celta, lusitano e fenício. A memória inscrita nos meus genes era uma selecção ou uma mistura ou tudo a um tempo de uma história antiga de povos e culturas que trocaram mercadorias, ódios e aprendizagens. De correrias pelo mato, caminhadas por montanhas, trocas em mercados, campos cultivados, pescas, barcos navegados pelos caminhos do mar De gente que acabou por se misturar entre a vida e a morte num mesmo território. Depois, sem forçar a memória, percebi que era judeu, cristão e árabe. O meu Deus era um gajo que tinha várias camisolas que ia trocando ao sabor das estações e dos tempos mas era sempre o mesmo. Os tipos que achavam que falavam em nome dele é que eram apenas e só uma cor, uma camisola, uma coisa qualquer contra a outra cor, dividiam para dominar, entrar nas nossas vidas e dizer como as deveríamos viver. No fim as camisolas lutavam entre si, morriam e matavam em nome do mesmo Deus e os tipos que falavam em nome dele engordavam, enriqueciam, dominavam a maioria. Uma empresa com várias filiais mas um único presidente.
Sem fazer um grande esforço percebi que era português, castelhano, francês, que respirava o mesmo ar, dividia umas gargalhadas ao fim da tarde, numa paisagem mediterrânica desenhada a azeitonas, pão e vinho tinto. Que sofria o mesmo transtorno com as tempestades, que suava a mesma sede com as secas prolongadas, que batia o dente da mesma maneira quando chegavam os cortantes ventos do Inverno.
De repente percebi que era europeu, e africano e asiático, e a minha única dúvida era sobre qual deles teria sido primeiro.
E fui branco, preto, amarelo e vermelho e dancei as danças da chuva, rodopiei as voltas do folclore, fiquei nostálgico ao som dos blues, saltei com o bater dos tambores, deixei que a música fosse falando por mim, deixei a música tocar a sua única melodia.
Percebi que para ser um teria que ser  tudo e todos. Em breve serei nada…

Artur

domingo, 14 de julho de 2019

ATÉ QUE A MANHÃ NOS RECORDE




Tudo o que nos resta são memórias. Tudo o que nos resta, tudo o que nos sustenta, tudo o que nos identifica. Somos feitos de passado e recordação,  o único património que realmente importa. Continuaremos a recordar, a lembrar, a visitar o que aconteceu atravessando a escuridão da noite, o negro da insónia, agitado e imparcial, aterrador e absurdo até ao regresso da luz, até que a manhã nos recorde.

E na travessia que seria supostamente uma desculpa para uma busca de qualquer coisa, um suposto encontro anunciado, vamos percebendo que não há nada para encontrar…tudo para construir. O caminho não é uma busca mas uma acto criativo permanente onde nos vamos inventando um pouco todos os dias. Com pedaços do passado, memórias, mágoas e alegrias, tudo apontado num caderno cada vez mais gasto de tanto escrever.

Passamos a vida a dizer adeus porque nada fica junto a nós eternamente. Passamos a vida a encontrar e a perder e sempre a recordar. Somos feitos de memórias, esse é o nosso cimento. Quando caímos aqui não somos nada, não nos reconhecemos em lado nenhum, não somos parte nem todo. Insistimos em caminhar, hesitantes, frágeis. Damos a mão a companheiros de percurso para evitar cair, para prender alguma coisa … Passamos metade da vida confusos, desajustados e com medo. Medo do vazio, medo do outro, medo de nós. E no medo plantamos a coragem, na hesitação a certeza, na memória o reencontro. O voltar ao que sempre fomos reforçados pela experiência da travessia. A celebração de um novo Ser reforçado, recriado e fortalecido.

Passo a passo vamos construindo alguma coisa, alguma coisa que nunca dura para sempre, que se gasta, consome, afasta e acaba por terminar. Somos feitos de memórias e passamos metade da vida a recordar, a lembrar o que já não temos, a mastigar despedidas e outra metade a erigir o edifício novo em que nos tornamos…para logo a seguir terminar. Puta de vida tão estranha.

E continuaremos obstinados a criar qualquer coisa que seremos para não ficar presos em becos sem saída feitos de lágrimas e respostas mortas antes de nascer.

Recordaremos pela noite fora, até que um dia a manhã nos recorde.

Levantados do chão, a caminho do mar, para conquistar o céu.


Artur

terça-feira, 9 de julho de 2019

IN MEDIA RES




Editados conjuntamente pela Midas, os filmes "Alumbramiento" e "La Mort Rouge" de Victor Erice são acompanhados por "Victor Erice : Paris-Madrid Aller-Retous", de Alain Bergala, que integrou a mítica série documental "Cinéma de Notre Temps", concebida e dirigida por André S. Labarthe. 
Em "La Mort Rouge", o cineasta relata em 32 minutos a sua experiência cinematográfica, aos cinco anos de idade, quando assistiu ao filme "The Scarlet Claw / A Garra Vermelha", realizado por Roy William Neill em 1944, exibido num local mítico e majestoso (além de assombrado), o velho Cinema Kursaal em San Sebastián. A voz do cineasta, a voz do narrador, relata aquilo que fundou permanentemente a sua "relação com as imagens em movimento", retomando a pulsação dos temas a três tempos da suas obras anteriores: o medo, a infância, o cinema ("O Espírito da Colmeia", 1973, "El Sur", 1982) referindo-se à sua história pessoal e à da Espanha no pós-guerra civil. É um filme composto de fotografias e de imagens de arquivo, propondo uma inscrição precisa no passado (data, local, eventos), com um enorme poder evocativo, capaz de desvelar aquilo que pode existir naqueles buracos que a acção do tempo cruza tanto na memória pessoal como nos livros de História. Na realidade, o subtítulo, ou título alternativo, "Solilóquio" remete para um "documentário interior", com escolhas múltiplas na imagem (filmagem no presente, imagens de arquivo, reconstituição dos tempos entre 1946 e 2005) e no som (alternância por vezes ambígua entre a primeira e terceira pessoa do singular) e na montagem que insistem no seu conjunto sobre a "proximidade e o afastamento entre o adulto no presente e a criança no passado" e que resultam numa extraordinária perturbação que dá conta da inconsistência do sujeito: "Quem é aquele que se recorda ?", pergunta o cineasta. Renovando o seu compromisso com "a relação - e a oposição - que se estabelece entre história e poesia" nos seus filmes, Victor Erice junta-se a uma vasta corrente historiográfica (e cinematográfica) interessada nos mecanismos de ligação entre o passado e o presente e pelo carácter aporético de qualquer reconstituição integral que não poder ser abordada senão através de estilhaços, pequenos fragmentos de verdade. Parece-me, assim - e é isso que, provavelmente, mais me perturba no filme - que "La Mort Rouge" procura refazer em laboratório, como se se tratasse de uma experiência científica, as operações ambíguas e incertas da memória. É assim que o filme repousa sobre o princípio daquilo que poderíamos chamar de "vai-e-vem" estruturado entre 1946 e 2005 - ou seja entre o tempo da criança sobre a qual pesa a dor universal de uma sociedade devastada e o tempo do narrador, que pergunta sobre aquilo em que "estes fantasmas se transformaram". É assim que se forma um exemplo daquilo que é possível fazer com o tempo: dar-lhe forma e sentido, abri-lo à compreensão dos outros, de tal modo que o passado se encarna na continuidade do presente. No écrã, essa encarnação do tempo é ela mesma figurada por um local, teatro da primeira emoção cinematográfica de Erice. O cineasta estabelece com esse décor uma primeira camada do tempo: aquela sobre a qual foi deposta a "experiência crucial" dos seus cinco anos de idade. A experiência de projecção do Gran Kursaal não anda longe de uma ideia do cinema como lugar de expressão de um "trauma", trauma esse que não se pode definir simplesmente como um acontecimento externo, por muito violento e aterrorizante que seja, mas como uma ligação do perigo interno ao perigo externo, do presente ao passado. Para um cineasta que afirma que a história do cinema é um elemento da nossa memória que se confunde com a história do século na nossa própria biografia, o filme que restitui a sua primeira experiência cinematográfica carrega consigo o pesado fardo de reencontrar aquilo que se perdeu na Espanha de Franco : uma relação vital entre o cinema e o mundo.
Colocados ao longo de uma escala temporal muito longa da história da Espanha entre 1973 e 2001,as obras de Erice anteriores a "La Mort Rouge" parecem, de modo retrospectivo, serem relançadas num mesmo tempo - o do "pacto de esquecimento", selado em 1939 pela vitória nacionalista, de "construir sem olhar para trás", prolongado muito para além da morte do pequeníssimo, insignificante, medíocre e mesquinho ditador. Por sua vez, o filme de 2005 liga-se a uma nova sociedade preocupada em estabelecer uma narrativa comum do passado. Seja como for, é um dos mais belos, intensos e emocionantes filmes da história do cinema.

quinta-feira, 20 de junho de 2019

Diário Laboratório (primeira entrada) de 18/3/2018

(Primeira Entrada)
Cumprir-se o variegado da vida mas em escrita. É essa plurivocidade que alimenta - de que se deve alimentar - a ficção.

sábado, 15 de junho de 2019

Diário Laboratório (quarta entrada) 16/3/2018

(Quarta Entrada)
Pensa de outro modo, vale a pena. Podem não gostar de ti e perseguirem-te. Tirarem-te a fazenda ou manterem-te na penúria.
Mas, vale a pena porque, então, poderás reencontrar os clássicos.

domingo, 9 de junho de 2019

Diário Laboratório (terceira entrada) 16/3/2018

(Terceira Entrada)
A grande virtude do vício é que obriga à repetição obsessiva.

Para seres escritor - não interessa se bom, se mau - basta sentires que a literatura é um filtro narcótico qualquer.

quarta-feira, 5 de junho de 2019

THE TRAIL OF TEARS






   The Brave Cherokee By John Howard Payne

O’ soft fills the dew on the twilight descending
And night over the distant forest is bending
Like the storm spirit, dark o’er the tremulous rain
But midnight enshrouded my lone heart in it’s dwelling
A tumult of woe in my bosom is swelling
And tear unbefitting the warrior is telling
That hope has abandoned the brave Cherokee
  
Can a tree that is torn from its root by the fountain
The pride of the valley; green spreading and fair
Can it flourish, removed to the rock of the mountain
Unwarmed by the sun and unwatered by care?
Though vesper be kind, her sweet dews in bestowing
No life giving Brook in its shadows is flowing
And when the chill winds of the desert are blowing
So droops the transplanted and lone Cherokee
    Sacred graves pf my sires, and I left you forever
How melted my heart when I bade you adieu
Shall joy light the face of the Indian? Ah, never
While memory sad has the power to renew.

As flies the fleet deer when the bloodhound has started
So fled the winged hope from the poor broken hearted
Oh, could she have turned ere forever departing
And beckons with smiles to her sad Cherokee
Is it the low wind through the wet willows rushing
That fills with wild numbers my listening ear?
Or is it some hermit rill in the solitude gushing
The strange playing minstrel, whose music I hear?
Tis the voice of my father, slow, solemnly stealing
I see his dim form by yon meteor kneeling
To the God of the White man, the Christian appealing
He prays for the foe of the dark Cherokee
Great spirit of good, whose abode is in Heaven,
Whose wampum of peace is the bow in the sky
Wilt though give to the wants of the calmorous ravens,
Yet turn a deaf ear to my piteous cry?
O'er the ruins of home, o'er my heart's desolation
No more shalt though hear my unblest lamentation
For death's dark encounter, I make preperation
He hears the last groan of the wild Cherokee


domingo, 26 de maio de 2019

O URSO ABSTENCIONISTA



No único dia em que todos os cidadãos são iguais ao exercer os seus direitos, segundo o que o primeiro-ministro de Portugal disse esta manhã (não concordo e por defeito porque a “igualdade” é utópica, mais ainda se me quiser comparar a um político), a força ou fraqueza política portuguesa incontestavelmente vencedora foi a ABSTENÇÃO.
Entretanto, os comentadeiros que vão bolsando opiniões nos vários canais generalistas, desvalorizam a descredibilização a que este resultado realmente vota a classe política, porque não vêem (não querem ver nem querem que se veja assim) a abstenção como um acto de revolta e repúdio pelo regabofe generalizado dos alarves à volta do ‘tacho nostri’ mas exclusivo deles.

Assinado,
O Urso