quarta-feira, 29 de julho de 2026

A CURVA QUIETA


  

 

 

I’m gonna ride this bike to the edge of town 

Roll to the bridge with my eyes shut and spit at the stars(*) 

 

Há um barzinho discreto a poucos metros da estrada frequentado por meia dúzia de pessoas ou de personagens, cada uma com uma história inscrita no passado, presa como uma sombra que acompanha os seus passos. Uma história que ninguém está interessado em contar. Vão aparecendo e ficando por ali, em torno de uma bebida, a olhar para o bosque lá fora adivinhando o mar que não fica longe. Fala-se o mínimo necessário, geralmente com o dono do bar e o empregado atrás do balcão para fazer o pedido. Há quadros nas paredes, há gravuras antigas, cartazes de concertos e emblemas de clubes de futebol.  Duas ou três mesas onde se jogam partidas de xadrez que duram pela noite fora, podem demorar dias e algumas vezes mudam de jogadores. Permanente paira apenas a música num volume discreto, maioritariamente Rock de vários tempos que embala os silêncios de cada um. Ali, na CURVA QUIETA, as pessoas procuram um lugar onde ninguém as consiga ver ou reconhecer. Um lugar onde se desaparece na harmonia de uma música, onde se encontra o anonimato no fundo de uma garrafa, ou simplesmente o silêncio absoluto de quem se encontra consigo mesmo. 

 

And screaming into the dark 

There’s nothing I can do to change it now 

But if I cut myself open, baby 

You can read all my scars (*) 

 

 

 

O Dono 

Este bar começou por ser uma pequena taberna frequentada ao fim da tarde pelos operários do estaleiro que ficava a menos de cem metros daqui. Depois da crise o estaleiro fechou. Eu nasci mais ou menos nessa altura. Quando o meu pai voltou da guerra não aguentou a rotina familiar e saiu de casa. Alugou um quarto numa aldeia perto da nossa casa, andou de cá para lá durante muitos ano sem trabalho nem poiso fixo até que resolveu abrir o bar com uns amigos. Às vezes trazia-me aqui a mim e ao meu irmão. Era um espaço para veteranos como ele. Tipos enormes, calados, solitários que andavam de mota e ostentavam tatuagens com motivos militares nos braços. Como o André, um motard com quase oitenta anos, que se costumava sentar ao pé da lareira mas que eu tive que convencer a mudar de lugar dada a proximidade da garrafa de oxigénio que o mantém vivo e as chamas 

Bom, mas não vos vou cansar com histórias que nunca mais acabam. Vou resumir dizendo apenas que depois de o meu pai morrer achei que a CURVA QUIETA era um projecto que se devia continuar. Tanto para homenageá-lo a ele como aos amigos que não tinham mais lado nenhum para onde ir...ou sentirem-se bem, o que vai dar ao mesmo. Desde muito novo que percebi que aqui havia uma atmosfera única, um espaço onde todos cabiam, um divã terapêutico onde a música está sempre a tocar, onde se fala quando se quer ou se fica em silêncio durante horas. Com o tempo os amigos do meu pai foram desaparecendo e outros começaram a frequentar o bar. Amigos e conhecidos, familiares. Quem se encaixasse neste ambiente voltava. Quem não pertencesse aqui só cá passava uma vez. Como o Luis, antigo piloto comercial, agora reformado. Passa aqui todas as semanas, normalmente à sexta feira à noite. Bebe sempre o mesmo whiskey (Jameson) da garrafa dele. Dois ou três copos. Depois liga a máquina de karaoke e escolhe sempre a mesma canção. BITTER TASTE do Billy Idol. Canta-a, pousa o microfone, agradece quando há palmas, monta-se na sua Indian Chieftain e vai-se embora. Porque é que isto acontece? Por várias razões. Há alguns anos apareceu aí, bebeu uns copos e gostou do bar. Na segunda vez em que voltou propôs-me um negócio. Pagava a instalação da maquinaria de Karaoke com uma condição. Que uma vez por semana pudesse cantar BITTER TASTE. Não vi nenhum problema nisso. Nem eu nem a população habitual. Por outro lado percebi que era uma forma de aliviar o seu fardo do passado. Quando era mais novo vivia com a mulher que trabalhava na mesma empresa. Todos os anos faziam férias num lugar diferente. Numa delas a dar um volta pelos alpes franceses tiveram um brutal acidente de viação. Ele partiu uma perna e ela morreu. Foi o que me contou numa noite em que estava virado para o passado. Na altura tinha uma Kawasaky Ninja. São bichos maravilhosos que não estão feitos para a estrada mas para as pistas de corrida. Atingem velocidades muito altas rapidamente e é preciso muita perícia e experiência para os dominar. Isso contou-me mais tarde o Rafael, mecânico de uma vida e motard de sempre. É claro que ninguém lhe disse isto, foi só aqui nos comentários depois do Luis sair naquela noite. Por isso a minha ideia é que ele canta aquela música que fala de acidentes e motas e é uma forma de aliviar o sofrimento e a culpa por aquilo que aconteceu. Digo eu... 

 

I’m gonna ride this bike till the break of day 

Rollin through the garden like the fountain won’t take it away 

I’m not gonna change 

I’m gonna live so hard, these broken wings 

Will lift me to the sun so I can burn in the flames 

Again and again (*) 

 

O Luis 

Estou reformado há cinco anos. Ando por aí na mota sem rota planeada ou passo dias e dias em casa a olhar para uma televisão sem som e a dormir bêbado no sofá. Quase sempre vou até ao mar e penso neste tempo sem obrigações que poderia ter sido nosso. Penso que não somos donos de nada e as coisas viram ao contrário de um momento para o outro. Penso em ti em frente ao mar, penso em ti quando acordo e quando afogo a tua recordação em whiskey à noite antes de adormecer. Com o tempo a dor vai diminuindo mas a ferida fica sempre aberta. Habituamo-nos a tudo, ao silêncio, à ausência, à perda. Nunca me consegui habituar ao desperdício de deixar de te ter. Aos dias que poderiam ser agora, aos passeios juntos. A isso nunca me irei habituar. Tenho pena que não tenhas conhecido a Indian Chieftain que me acompanha agora. Tudo vira de um momento para o outro. Um camionista adormecido fora de mão, uma guinada a mais para fugir do impacto, um acidente, uma estupidez. Mas o que me mantém vivo é a certeza de que nos voltaremos a encontrar. Isso ninguém me tira. Por isso não desisto de te lembrar, de falar contigo. A grande vantagem da vida é ter a certeza que a nossa dor vai terminar um dia. Até lá vou ali àquele bar que tu também já conheces e canto aquela música como se fosse uma oração, um hino à tua memória. Porque sei que me estás a ouvir. E enquanto vou cantando vou falando contigo, vou preenchendo o espaço vazio que me afasta de ti. E, cantando sempre  a mesma canção acabo por te dizer coisas diferentes.  

 

Artur 

(*) BITTER TASTE (Lyrics) - Billy Idol