quinta-feira, 23 de setembro de 2021

#5 Considerações: Cul-de-Sac

 13. 

A solidão ante o fim, a desventura, a inevitável decadência também oprimem, são horizonte férreo, inelutável. É curta e pequena a consciência que o sabe — que muitos também chamam de espírito ou de alma — sabendo ainda que nada pode fazer, excepto talvez procurar e encontrar uma resignação funda, tão funda que nada a perturbará, finalmente imune ao que é torpe e inútil e aziago assim como é indiferente a tudo o mais. E se disso se exuda alguma paz tal é precioso e frágil, mas permanente se houver firmeza e propósito. Não querer é a chave, não sentir é um bálsamo, não fugir é o bem. 

14. 
Por isto, por tudo isto o desânimo como condição vital sabe instalar-se, também ele insidioso e daninho, tenaz. É força e poder manso que pouco a pouco vai encerrando o horizonte da possibilidade, toldado óculo sem amplitude por onde se verá um mundo-pouco, apequenado e, porventura, distorcido. É alma sem carne, ou carne sem alma, mas de muito peso. Irmão e talvez pai do letargo, do imobilismo funesto, da vontade inane de fuga. Quisera ser lavado disso, talvez, inaugurar um tempo novo, das vistas largas e não já cerradas e torpes e esbatidas. Sim, um hausto feroz e fresco, uma liberdade toda outra, uma pulsão para o mundo e não este cansaço que é só torpor e desistência. Desistir da abdicação, avançar sem medo, responder ao pavor de existir com a serena força de um entusiasmo, quiçá, perdido sabe-se lá onde ou então pela erosão quotidiana e pelos traumas que toda a biografia vai acumulando pelo mau uso que lhe dá o tempo. 

15. 
Assim, este livro é feito da conjugação de todas essas forças, da obsessão centrípeta, da queda inerte, por vezes lenta, por vezes rápida, rapidíssima, um momento perene que se fixa pela persistência do trauma. E também no amor abunda o mau juízo, a impossível subjectividade, o que na vida é frustre, a terrível dimensão do não acontecido.

quarta-feira, 22 de setembro de 2021

#4 Considerações: Cul-de-Sac

 10. 

Por isso, aqui vos digo que há que resistir e lutar, fazer arte da vida, que é esse combate. É que a raiz de todo o mal é o desespero. Em primeiro lugar, o desespero de ser. Em segundo, o de padecer, e em terceiro, o de aguardar tudo o que é nefasto e pesado de malogro e que encerra a luz em um espaço diminuto onde se nem consegue respirar. 

11. 
Mas, ainda, há o letargo. Outro modo da desistência ante tudo o que oprime. É bem verdade, que o cansaço sobrevém a tanta luta, é na altura em que se baixam os braços, se descrê no futuro, tudo é um horizonte gris perante tal malogro, a aprazada queda, a inutilidade de agir. Não se tiram nunca férias da existência. Há que porfiar mais um dia, sempre mais um dia, sem uma suspensão agregadora de forças, pausa lustral, ou sequer um corte com a circunstância. É um fluido contínuo, ainda que cíclico, sem nenhuma possibilidade de obter uma verdadeira perspectiva, externa ao si, em suspensão benéfica, imobilista. Sim, o Santo Imobilismo também é ou pode ser isso. É o seu lado salutar e bom, ultrapassado o evitamento sistemático gerado pelo medo, é um imobilismo produtivo, mas como deveis calcular, improvável ou até impossível. 
 
12. 
A angústia é mesmo um aperto. Invade o espaço vital. Torna-se totalitária. Contínua. Coisa outra, toda outra, seria um hausto livre, entusiasmo e ar aberto. Um conceito vivido de radical abertura. Sim, sem peso e pavor e ainda assim, com a âncora telúrica a emprestar densidade ao mundo visto pela lente onírica da possibilidade. Não mais esse abatimento falho de energia, um letargo absoluto que vê passar o tempo como de longe e que, depois, se questiona para onde foi. E o tempo é rio-de-sentido-único, não se repete e não volta, não se acelera nem se sustém a não ser pelas variações subjectivas da sua observação. E esta observação alheada fá-lo rapidíssimo e difuso ou, por vezes, suspenso, estagnado e muito triste. E, nem assim, lhe captamos a demora.

terça-feira, 21 de setembro de 2021

JOSÉ-AUGUSTO FRANÇA 1922-2021


 

Julgamos que a personalidade e a obra de José-Augusto França dispensam apresentações. No entanto, convirá relembrar alguns factos que, a vários títulos, permitem valorar e sublinhar a importância e a qualidade da reflexão de um dos ensaístas que, ombreando com Eduardo Lourenço, melhor e mais profundamente cartografou a modernidade e a contemporaneidade portuguesas. O facto de ser um “estrangeirado”[1] conferiu-lhe uma distância crítica em relação à realidade artística e social portuguesa que atribuiu às suas análises uma desapaixonada acuidade e construiu um ponto de vista relativamente descomprometido, na justa medida em que tal é possível, face à natureza e às determinações do objecto de estudo. Como veremos, em José-Augusto França há sempre uma tensão para, um intendere que coloca sempre em primeiro plano o seu intendum. A esse propósito, citamos a nota de Roland Barthes no relatório do júri que apreciou a tese L’Art Dans La Société Portugaise du XXe Siècle[2], apresentada em 1963 à École Pratique des Hautes Études (Paris) para a obtenção do diploma do curso de Sociologia da Arte:
«O autor deu um duplo objectivo ao seu trabalho: por um lado quis esclarecer as relações profundas da arte e da história política de Portugal desde o século XIX; e por outro examinar as reacções de um pequeno país aos principais movimentos da pintura europeia. Quanto às relações entre a arte a história, J.-A. França evitou sempre pôr em equação um conteúdo estético e um conteúdo histórico; preferiu confrontar ritmos, mostrando que os avanços do modernismo (futurismo ou surrealismo) corresponderam em cada caso, a uma crise das instituições. O autor aborda assim, de uma maneira concreta, dois problemas históricos importantes: o dos “períodos”, “durées” ou estruturas, e o dos “atrasos” de civilização.»
Menos conhecido será, talvez, o papel desempenhado por França na constituição, desenho e desenvolvimento da secção cinematográfica do JUBA (Jardim Universitário de Belas Artes). A esse propósito, remetemos o leitor para os números 16 e 21 desta rubrica Textos & Imagens, nos quais se explicita com algum pormenor a acção do ensaísta nessa organização e nas suas actividades.
À obra que hoje nos ocupa – Dez Anos de Cinema – não são estranhos, muito pelo contrário, as duas vertentes do labor multifacetado do autor (ensaio, romance, intervenção pública, etc.), nem os pontos de vista que desenvolveu no decurso da sua colaboração com o JUBA, como esperamos demonstrar ao longo deste texto.
A primeira nota a reter é o facto de França tender a considerar infrutíferas quaisquer tentativas de pensar a modernidade prescindindo do cinema, e tal tese é sustentada pelo período cronológico abrangido, constituído por textos publicados na revista Seara Nova entre 1949 e 1959, precisamente “quando o cinema começou a ser moderno”. Esta tendência é vincada pelo próprio autor na breve Introdução:
«Começados há dez anos, quando a crítica cinematográfica decente, em Portugal, quase se limitava a um nome, o de Roberto Nobre, terminam-se estes balanços agora, na altura em que parece estar a nascer uma nova crítica. Eles cobrem um período, por assim dizer intervalar, durante o qual se gerou e desenvolveu o movimento dos cineclubes e ao fim do qual despontou uma gente mais nova, de formação cineclubista e com interesses culturais, estéticos e sociológicos alargados, uma consciência crítica atenta aos valores da modernidade.» (pp. 7-8)
Ou seja, todo um programa contido num único parágrafo: por um lado, a consciência da pobreza (ou, talvez, da ingenuidade e desatenção) da crítica cinematográfica portuguesa, cujas lacunas estes modestamente designados «balanços» parecem destinados a colmatar; a percepção do limiar de uma nova era que corrigirá a anterior através da emergência de uma nova geração oriunda do cineclubismo (França confere aos cineclubes uma ímpar importância pedagógica e formativa); a noção da relação determinante do cinema com as dimensões estética, cultural e sociológica e, como já referimos, a inextricável valorização da arte cinematográfica na compreensão e interpretação da modernidade estética e sociológica.
 
[1] Doutoramento em Letras e Ciências Humanas pela Universidade de Paris-Sorbonne (tese Le Romantisme Au Portugal – Étude de Structures Socio-Culturelles), Doutoramento em História pela mesma Universidade (tese Une Ville des Lumières: la Lisbonne de Pombal, editada pela École des Hautes Études, diploma em Ciências Sociais-Sociologia da Arte pela École Pratique des hautes Études.
[2] A tese foi traduzida em português e publicada em 1978 pela editora Livros Horizonte, com o título A Arte e a Sociedade Portuguesa no Século XX.
A nível de estrutura, estes balanços – como França os designa, embora o seu carácter vá muito para além daquilo que como tal se costuma designar – são anuais e compreendem a evocação que nesse período temporal o impressionou positiva ou negativamente na produção nacional e internacional, enquadrando sempre as obras no contexto social, político e cultural em que foram produzidas e avaliando o seu  impacto na definição da modernidade nos termos que temos vindo a referir. Nesse sentido, a visão de França em relação ao panorama cinematográfico português, anterior ao chamado “cinema novo”, é amarga e pessimista, como se pode constatar na seguinte declaração:
«Cinema português, não. Perdido em problemas económicos e anedotas financeiras, ele tem aos ombros a tragédia da falta de gente que o realize. Que venha outra, nova, porque a que há (e exceptuando Manuel de Oliveira), de todo em todo não presta.» (p. 204)
Para compreender este diagnóstico, ou este retrato em tons negros da cinematografia nacional, é preciso ler de fio a pavio cada um dos «balanços» e verificar o modo exigente como o autor avalia em cada ano a produção portuguesa, a sua aflitiva indigência de meios económicos e expressivos, a falta de argumentos sólidos e a ausência de autores, sobretudo quando contrastada com as realidades europeia e norte-americana; uma tendência que é marca de água da sua metodologia analítica e que é expressa em termos definitivos na nota de Roland Barthes que acima reproduzimos. Como se compreende, França aplica ao cinema a mesma metodologia que emprega na avaliação da situação e evolução da arte portuguesa ao longo do século XX: sempre em relação de oposição ou tentativa de confluência com as suas congéneres de outras latitudes.
De qualquer modo,a sua finíssima intuição apresenta-lhe já o obrigatório e iminente surgimento de uma nova geração, de novas perspectivas, enfim, de autores capazes de iniciarem uma revolução no estado de coisas da nossa cinematografia. Como sabemos hoje, essa intuição foi certeira e realizou-se. Aliás, é no próprio devir do cinema que França encontra a sua maior virtude modernista; reconhecendo que todo o saber, independentemente do seu objecto, é sempre provisório, admite que a arte cinematográfica tem um significado sociológico imediato, comprometido e indomado, tornando-se assim um elemento fundamental da fenomenologia do século XX e remetendo para uma atenção constante a esse sociológico que atravessa todos estes «balanços»: o sociológico é aqui sociologia do espectador, patente na seguinte afirmação:
«Feito para o público “que tem sempre razão” pelo que quer e pelo que necessita, ele cria-lhe os desejos e as necessidades. Elemento número um de uma mito-sociologia actual, o cinema rodeia-nos invisivelmente, explica-nos o mundo, enche-nos o sonhar colectivo, espreita-nos e fabrica-nos.» (p. 194)
Outra característica determinante no pensamento do autor no que diz respeito à década cinematográfica que analisa, é a constatação de que o cinema, pela primeira vez, se incorpora num movimento universal de expressão, podendo agora intervir, actuar para além dos limites que absurdamente lhe foram impostos e das proposições que lhe foram atribuídas. Tal movimento de expressão universal é por ele fulgurantemente definido nestes termos:
«No romance que se diria pós-faulkeriano (e pós-becketeano, desde já), no teatro de novas vias de conhecimento, e de proposição de uma nova consciência, de Beckett, de Adamov, de Ionesco e de Sheadé, na poesia, depois de Ezra Pound, na pintura de um Bazaine, de uma Vieira da Silva, de um Bissière, de um De Staël, em correntes da música e do ballet contemporâneos, novas estruturas psicológicas estão a traduzir-se, efabulativamente ou não, na criação de um espaço e de um tempo ambíguos – que a ciência física e a filosofia verificam.»[1]
Ou seja, França pensa a modernidade cinematográfica também pela via do fim de um desligamento do cinema pela problemática estética geral e pela adesão total aos valores da vida (valores viventes). E, ainda, pela exigência e interrogação. Se, como alguém disse, a crise é a tónica e a característica determinante da modernidade, toda a crise é, para além do pessimismo e do optimismo entorpecedores, criativa e fecunda. É este – julgamos nós – o maior dos ensinamentos destes escritos que, como todos os grandes textos da contemporaneidade, assumem plenamente o estatuto provisório do saber que procuram alcançar e comunicar. Para finalizar, não resistimos a reproduzir, como corolário, aquilo que Hervé Bazin afirmou a propósito da obra Charles Chaplin – Le Self-Made Myth[2]:
«Voici un travail critique capital auquel on ne pourra désormais manquer de se référer. Ses 250 pages de réflexions méthodiques sur le mystère chaplinesque constituent sans doute l’effort critique le plus poussé et le plus complet sur le phénomène Chaplin considéré dans sa signification éthique et sociologique.»[3]
 
Arnaldo Mesquita
 
José-Augusto França, Dez anos de cinema. Lisboa, Sequência, [s.d.], 218 p.
Tipologia documental: livro
Cota: 70
 
[1][1] José-Augusto França, Oito Ensaios Sobre Arte Contemporânea. Mem Martins, Publicações Europa-América, 1967, p. 198.
[2] Publicado em Portugal pela editora Livros Horizonte, sob o título Charles Chaplin, O “Self-made-Myth”. Também disponível para consulta na Biblioteca.
[3] «Eis aqui um trabalho crítico fundamental ao qual não poderemos futuramente deixar de nos referir. As suas 250 páginas de reflexões metódicas sobre o mistério chaplinesco constituem sem dúvida o esforço crítico levado mais longe e mais completo sobre o fenómeno Chaplin no seu significado ético e sociológico.». Citado na introdução ao texto O Cinema Italiano e Eu, publicado na revista Estudos Italianos Em Portugal, Lisboa, Instituto Italiano de Cultura de Lisboa, Nova Série, número 11.



PUBLICADO ORIGINALMENTE EM MAIO NA PÁGINA WEB DA CINEMATECA PORTUGUESA E REPUBLICADO EM SETEMBRO COMO FORMA DE HOMENAGEM A JOSÉ-AUGUSTO FRANÇA:

segunda-feira, 20 de setembro de 2021

PESCADOR DE INSTANTES

 



 Saio a horas desencontradas e percorro as ruas da cidade. Umas vezes tropeço nas sombras, outras fico especado perante a avalanche de movimento e ruído em determinados locais. A câmara do telemóvel vai sempre ligada até acabar a bateria. No regresso já em casa, selecciono aquilo que julgo aproveitável. Há no entanto em tudo isto uma estranha sensação distanciada de estar a registar uma realidade da qual já não faço parte. Antigamente saíamos oito, dez, quinze pessoas e uma câmara de vídeo, passávamos uma noite inteira nas docas com um carro alugado e uma autorização num papel oficial para poder filmar…e no fim tínhamos um documentário, uma curta, um clip de uma banda. Hoje saio eu sozinho com um telemóvel e chego ao fim e não tenho nada além de um tremendo vazio. Há emoções, há comédia e drama mas falta sempre qualquer coisa. Há edifícios antigos e humanoides saídos das rábulas mais imaginativas; há luzes e sombras que bailam entre si como sempre houve; há gajos que sorriem para a objectiva ou que lhe mostram o dedo do meio; há solidão, há muitos a falar sozinhos… mas falta sempre qualquer coisa. Acho que falta força, intensidade, esperança. Acho que falta Vida essencialmente. Não por considerar morto este tempo mas talvez por me ter matado a mim. Ligo a alguém de vez em quando. Alguém que filmou comigo.

 

Vi este cenário na Baixa Pombalina e lembrei-me daquela vez em que pusemos o Pesssoa a cambalear a caminho de casa a chamar o Ricardo Reis. Devias ter visto. Um gajo de oculinhos e gabardina coçada aos tombos.

 

Ou ligo a outra

 

Estou na Rua onde fizemos aquele clip com a chuva artificial da mangueira dos bombeiros. O quartel já não existe. Lembras-te da seca que foi segurar aquela mangueira e regar o casal de namorados para fazer crer que era chuva?

 

Às vezes lembram-se, outras limitam-se a esconder-se naquela expressão

 

É pá…isso já foi há tanto tempo…

 

Cumprimento um bêbado a caminho de casa, contemplo a árvore de Natal das luzes da cidade sobre o rio, faço o reconhecimento de novos espaços que nunca conheci apesar de viver nesta cidade desde que nasci. Volto para casa.

Lembramo-nos todos de muita coisa, ou de coisa nenhuma, a vontade de voltar a fazer foi ficando cada vez mais pequena, o tempo encolheu e deixou-nos no seu lugar um sujeito macambúzio sem expressão, um substituto sonolento e mandrião. Sobram as imagens e os sons, sobram os ângulos da cidade, sobra tanta coisa e não se consegue aproveitar nada.

Ponho as imagens a correr e vou selecionando como um funcionário diligente em frente a uma pilha de documentos. As paisagens, as caras, os sons, está tudo muito bem mas falta qualquer coisa. A ideia de documentário a surgir e a afogar-se num mar de gente adormecida, cabeça caída sobre as redes. Os textos sobrevivem às cinco primeiras linhas, as imagens têm cinco minutos de atenção. E as cabeças saltam de imediato para o texto seguinte, para o filme que se segue. Sons e imagens rodam no teclado como papel higiénico no pendurador. Rasga, limpa, deita fora, e volta tudo a rolar, rasga, limpa, deita fora. Não há paragens, não há silêncios, mas apenas um frenesim eterno e inconsequente que não consegue reter nada. Um míssil disparado que não pára, não regista nem consegue comunicar.

Volto às imagens na tentativa de construir alguma coisa com elas. Tal como com as palavras. Mas falta sempre qualquer coisa. Naquele rosto, naquela paisagem, naquele movimento. Sento-me para trás e não consigo afastar-me, não consigo deixar de tentar juntar “qualquer coisa em forma de assim”, como dizia o O’Neil.

Não são as imagens que não têm vida…É a vida que se vai esgotando dentro de mim…

 

Artur


#3 Considerações: Cul-de-Sac

 7. 

Sim, escrever é inscrever-se, agir pela consubsatanciação da intenção em acto, mesmo que possa parecer encerrado, para sempre, no plano teórico. Mas, o que é agir senão sair, para fora, para o mundo, da casa natural da nossa intimidade? Se se age por acções ou pela descrição delas é, porventura, indiferente, no sentido em que ambas vão tocar a realidade, transformando-a. 

8.
São plúrimos, na vida, os modos de aperto, de aflição. A começar pelas condições civilizacionais contemporâneas e terminando nessa desorientação íntima, por nós criada a contragosto, mas com tão perene força que se diria que é mais um constrangimento externo do que um desassossego interior. De permeio, existem aquelas condições universais do malogro que originaram religiões, filososofias e seitas. É uma opressão que acompanha a consciência enquanto tal, pois a evidência da sua finitude e da sua iminente fragilidade dói e magoa, assusta e não dá paz. Nem adianta pensar que isso é conatural ao pensamento, que é de todos os tempos e de alcance total. Cada um sofre por si e o sofrimento expande-o no sentido em que a morte anulará, do ponto de vista subjectivo, o próprio cosmo. Talvez haja uma sobrevivência qualquer, mas isso não é mais do que esperança vaga, difusa. Aqui temos já o que é palpável, depois logo se vê. Enquanto isso há que viver e sofrer e procurar um módico de tranquilidade, um inconstante equilíbrio entre a certeza da corrupção e as forças anímicas que tentam alcançar a renovação possível no ciclo caleidoscópico dos dias que se sucedem, sem um momento de pausa, uma dilação onde se respire e haja o ensejo de pensar, a um nível profundo, na miríade de escolhas ou tão só que permita fixar a atenção nos fugidios momentos que passam para lhes fixar, deveras, a essência. 

9.
O ânimo vital é tudo. Só ele permite combater as potências da decadência e da corrupção, afinal, ínsitas à existência. De outro modo será caminho sem saída, subjugação ao peso do quotidiano e à delapidação do tempo, que soe erodir como ele só, daninho e cruel, persistente e insidioso, paciente e tenaz. É fúria mansa essa do tempo, Cronos a devorar os próprios filhos e ninguém é Zeus para escapar ao repasto.

domingo, 19 de setembro de 2021

#2 Considerações: Cul-de-Sac

4.

Tudo isto parecem generalidades a propósito de um livro, mas se tudo é vago, na vida, por que não deveria ser vago, na literatura? Estamos sempre envolvidos em sensações difusas, um supor emocional que não dá paz nem sossego, nem sequer, amiúde, confiança em um tempo melhor, excepto por esse optimismo doido dos sonhadores que acredita sem provas, que arquitecta planos sem evidências, que é teimoso em não aceitar a derrota quando, pela razão, já nada há a fazer. É um fervor de felicidade suposta e lânguida que existe apenas na imaginação e é vivida apenas nela, triste e leda condição virtual que tem o dom de ocupar a vida sem que esta seja vivida. Ainda assim, pretende-se que a escrita seja reacção lúcida a tais devaneios, modo quase telúrico de procurar um caminho, vertendo em palavras o queixume da vida fruste, não entendendo, porém, que esse esforço lúcido é de um realismo paradoxal -- ao entender o sonho cristalizamo-nos na crítica desperta aos estados de imaginosa fuga não vendo, então, que isso é também alienação nossa.


5. 
Sobre a questão há, ainda, algo a dizer. É poético, é plenamente poético, o que que é fora-do-mundo, e a prosa deste livro é poética porque não há nele verdade, mas devaneio. Catarse pelo delírio, tratando-se os males do irrealismo com outro modo de o ser que é esta escrita. Mas que contém, talvez, alguma eficácia confessional ainda que suposta. 

6. 
Pois bem, dizer é já um modo de ser. Ténue acção, é verdade, mas quem tropeça nessa modalidade comum de vida prática encontra na comunicação disso não só um bálsamo para a inevitável melancolia que daí advém, como uma solução suposta para a sua inscrição no mundo.

sábado, 18 de setembro de 2021

#1 Considerações: Cul-de-Sac


 1. 

As declinações dessa opressão vital que acomete o vivente. Ser é estar cerrado na existência. E se isso dói, há que encontrar uma catarse qualquer. E essa bem pode ser a escrita nas suas variações infinitas, na capacidade de declarar o que é subtil, mas também o que é complexo, condições fundamentais para a exploração intrapsíquica dessa tal angústia ou aperto essencial. 

2. 
Poderia ser diferente? A vida usada levemente sem o peso esmagador da simples condição de ser? Em raros momentos ou em raras pessoas, talvez. Porém, no geral e comum, a angústia é o plano do real, eixo de densidade onde, parece, nos afundamos. E na fugacidade do desejo não há solo nem qualquer chão, tudo é fluido e se torna distante e nem se consegue agarrar o que é amado nem sequer a própria vida, desperdiçada em errâncias e nos labirintos que nós próprios engendramos. 

3.
Disto, liberta-se um fantasma de tristeza e melancolia que nos comeria vivos se não houvesse reacção ao fenómeno. E é difícil esse combate porque é insidioso o desânimo e, assim, há uma resistência natural às melhores intenções de liberdade e vida plena, ou tão-só de um melhoramento suave das suas condições anímicas. De resto, também as circunstâncias exteriores são obstáculo perene, dificuldades previstas ou imprevistas que nada acrescentam, mas existem com a resistência tenaz da realidade, embora sejam tão contextuais que, passado pouco tempo, se não entende já porque foram.

segunda-feira, 16 de agosto de 2021

O SER ESDRÚXULO

 


Décimo quinto dia do oitavo mês de dois mil e vinte e um. Dizem que a meio da oração, neste dia, apareceu Santa Maria, exatamente a ilha onde estou agora, a ilha de Gonçalo Velho Cabral, mais coisa menos coisa, meu décimo quinto tio avô. O que é que isto diz senão o chamado da raíz? Quando me perguntam que raio estou aqui a fazer, eu respondo que estou. Estar é das coisas mais difíceis de ser. Ser, e ser verdadeira, é um lugar muito esdrúxulo para se estar, sobretudo quando nos olhamos de fora, mas nunca quando olhamos para fora. Há pouco tempo perguntaram-me como é que eu conseguia viver numa caravana ou numa casa em reconstrução, conhecendo tanto mundo, de dentro de tanto hotel de cinco estrelas.


Respondi que por isso mesmo, que quando estamos no lugar certo pode ser qualquer um, desde que em paz connosco e com os nossos. É como quando se fala de amor, tanto pode ser príncipe como pescador. E o amor soma-se ou divide-se? O amor acrescenta sem contas nenhumas. Se não acrescentar deixa de usar esse nome e passa a todos os diminutivos.



Ser verdadeira é ser livre, só ou acompanhada, ser a assunção de nós próprias, a aceitação das nossas forças e fraquezas, sabendo que às últimas temos a capacidade de as converter em mais força. É preciso cortar o cordão umbilical da culpa com que nos arrastaram durante séculos pelos recantos do planeta. E ser esdrúxula com convicção.


Elsa Bettencourt

domingo, 1 de agosto de 2021

CONTANDO FEIJÕES

 



Trigésimo primeiro dia do sétimo mês de dois mil e vinte um. Hoje é o dia do meu pai Leão. O dia em que cumpre as noventa e três voltas ao sol. Há quase vinte anos que o seu corpo não o faz mas enquanto houver memória o seu espírito as cumprirá. Eu sei que o tempo não conta mas eu conto. Conto estórias. Conto feijões. Conto como gente e como animal. Na realidade conto pouco, matemáticamente falando. Se contasse ficava louca. Se contasse as perdas até ficava rouca. A essas ponho-as na barra olímpica que já pesa nove quilos e ganho músculo. Nós é que contamos, sabias? O mal que fazemos dilui-se nas águas do bem do tempo. É por isso que à distância parecemos quase santos sem ordem papal. Na realidade não há mal se não for capital. Há circunstâncias que transformam os acontecimentos conforme a química de cada um e a física de cada encontro.
Sem ti eu não existiria, sem mim tu também não. Vamos dar uma volta ao Cais ou a Santo Antão?

quarta-feira, 28 de julho de 2021

DORMÊNCIAS E FINS DE TARDE

 



Há uma dormência estranha que se instala pela casa dentro, entra pelas frestas das janelas e por baixo da porta como uma neblina persistente. Vai arrefecendo vontades, anulando energias, desligando esperanças. Pouco a pouco aumenta a indecisão das formas e os móveis vão-se dissipando numa mancha quase uniforme de fumo e humidade tornando tudo cada vez mais indiferente. As sombras dançam sem se deterem no mesmo lugar. A dança da chuva, a dança dos solstícios, da vida e da morte. E nada parece querer sair do vazio onde nunca esteve, onde nunca existiu. O abismo de nada ser, nada querer, a vontade de mergulhar um poço sem fundo e a mistura definitiva com o universo. Sem penas nem mágoas, apenas a vontade de voltar a qualquer coisa, um lugar onde as pressas andam devagar e as obrigações são facultativas. A  tarde vai caindo lentamente, em breve será noite, em breve será o nada feito de estrelas e ruídos escondidos, indecifráveis.  Já se faz tarde para fazer balanços, juízos de valor, escolher épocas melhores ou piores. A casa enche-se dessa neblina que, sem nada definir nos devolve esta sensação de absoluto. Como se tudo o que foi fosse exactamente aquilo que deveria ter sido. E um barco velho de madeira no recanto habitual, escondido pelas canas e pelo nevoeiro diz-nos :Olá. Como um velho amigo de muitos anos, companheiro de esforço e derivas na corrente. Entremos então, ajeitemos os remos na sua posição de navegar e com um empurrão seco instalemo-nos no rio sem pressa sob a luz do luar. A todos os que amei deixo o meu amor convosco, a minha lembrança tímida das alegrias e tristezas partilhadas. A todos os buracos onde caí o meu mais sincero agradecimento pelo que aprendi com eles. Não há aqui nenhum drama nem nenhuma tristeza, apenas um cansaço extremo de quem por vezes consegue sintonizar a sua existência com a do universo. E nesses momentos que somos muito mais que simples linhas de tempo, muito mais que microscópicos seres que respiram e amam e odeiam e lutam para se continuar a sentir vivos, somos coisa nenhuma com decorações de eternidade. Tudo acaba e desaparece e não há drama nenhum nisso. Nem as imagens, nem a música, nem os livros, nem os quadros, nada fica cá nem sequer as memórias. E depois? A maior parte das nossas tristezas e sofrimentos vem precisamente de contrariarmos essa lei única e absoluta. Daqui a cem anos não estará cá nada de nós, nem sequer as memórias. O que talvez possa ficar a pairar por aí é uma espécie de brisa onde se escondem ideias ou sentimentos que, eventualmente, poderão aterrar na cabeça de alguém e voltar a existir. Por isso quando a bruma insistente nos começa a invadir a casa ao fim da tarde é tempo de partir e encontrar o barco velho de madeira que nos levará pelo rio fora, para um lado ou para o outro ao sabor da corrente. Ou aceitar quando o barco nos vem buscar escondidos num recanto da vida e nos estende amavelmente os remos

 

  Temos que ir andando

 

E vamos, devagarinho porque não há pressa nenhuma, rio acima até à nascente, ou rio abaixo a caminho do mar.

 

Artur

segunda-feira, 12 de julho de 2021

ENTRE SAUDADES

 

Décimo primeiro do sétimo mês de dois mil e vinte um. Tenho saudades tuas.
Tantas que gasto a câmara e o som desta manigância do diacho.
Tinha saudades das minhas gatas. Tantas que as fui buscar numa semana e voltei mais depressa do que fui.
Tantas saudades do que seremos daqui a nada, do que somos juntos a cada instante.
Nos intervalos da chuva sento-me a escrevinhar e a debruar o papel com florzinhas e corações.
- Elsa, já tens idade para ser mais cínica! Diz-me a voz a que nunca prestei atenção. Nunca fui dada a cinismos senão quando acometida por gasturas do fígado que certos humanos me provocam.
A Gaya já me virou o iPad da mesa das orquídeas brancas. E claro que caiu de vidro virado para baixo com as devidas consequências. Milagre! Ainda dá para escrever!
E eu continuo com saudades dela, mesmo com ela ao meu lado a desafiar o Lucky que se vai aproximando. A Lua vai mais devagar e rosna como uma pantera debaixo da cama ou de cima do armário.
Tantas saudades que eu não tinha dos prédios, do ar seco, dos sorrisos tensos e dos aviões. Compensam os filhos e amigas chegadas, os vizinhos e os sorrisos atrás das máscaras.
Tenho tantas saudades minhas quando não estou contigo. Falo mansinho e de rijo, sorrio até à gargalhada a pensar no dia da tua chegada.
Já se abriram as janelas de mais de metade das casas. As ruas estão povoadas com habitantes que já foram como eu, aqueles que esperam que um dia seja de vez. É num instante, basta contar até três!
O correio ainda não chegou, o fuso horário diz-me que ele ainda não acordou. Eu aguardo, sem aguardar nem desesperar. Não é possível o desespero quando se está onde se quer. No meio do mar, no meio do verde, com as daninhas agarradas às pernas e aos vestidos comprados nos saldos e na feira da Salvaterra. Forro gavetas com óleos citricos e papéis cheios de jardins lá dentro. Gasto mais solas do que gasolina, mais dedos do que palavras.
Tenho tantas saudades tuas que dou por mim no cais à espera do recorte dum barco no horizonte. Depois arranco para o Terminal só para ver as chegadas e emocionar-me com os abraços dos outros. São como aqueles que dei aos filhos e amigas que não via há tanto tempo, cheios de lágrimas e de esperança, cheios de tudo o que não nos permitimos sentir nestes tempos pandémicos e loucos.
Volto à mata, ao bosque de poemas, pelo portão do coração e permito-me espalhar as saudades pela terra vermelha, com a certeza de que um dia breve serão as plantas mais bonitas deste lugar reconstruído com tanto amor e paciência.
Elsa Bettencourt

domingo, 4 de julho de 2021

EU E AS BIOGRAFIAS

 

Tive sempre com as biografias uma relação difícil ao longo da vida. Primeiro porque reflectem obrigatoriamente um ponto de vista deixando de fora parcelas importantes da realidade retratada (ou por informação incompleta, ou por serem supervisionadas pelos próprios ainda em vida, ou por simples incompetência dos biógrafos), e em segundo lugar porque destapam buracos mais negros que , não interessando a ninguém, acabam por minimizar ou destruír imagens construídas de referência existencial que muitos deixarão de seguir. Um dia pegamos num título de um autor, ficamos amigos dele, e em pouco tempo já lemos uma obra inteira com a satisfação de o ter como exemplo a seguir. Mas o que acontece na maioria das vezes é que entre as obras e as vidas dos autores as coisas nunca se passam da mesma maneira. Lembro-me de um dia ter conhecido uma prima direita de um dos meus autores preferidos do séc. XX e de lhe transmitir essa mesma admiração. Uma conversa muito curta após o seu primeiro comentário :

 

- O meu primo? Esse tipo era um bêbado e um machista perverso sem respeito nenhum pelas mulheres…

 

Tendo feito recentemente uma excepção na minha aversão a biografias resolvi começar a ler uma. Apesar de já saber muita coisa ali retratada, houve outro tanto que preferia que tivesse ficado no anonimato. Um autor que era mitómano inveterado e que misturava a realidade com a ficção sem critério; outro que parecia um rebelde à prova de bala e que uma vez confrontado com a polícia política tentou safar a pele mentido acerca de um dos seus actos pelos quais havia sido detido; os movimentos estéticos e a sua permanente hegemonia de tentar ditar a lei sobre o que devia e não devia ser arte válida (uma alegoria ao desentendimento e desorganização entre as diversas facções de oposição política ao Estado Novo); os egos e as invejas, as relações de amizade e de família corrompidas ,etc, etc.

 

Dir-me-ão: Uma coisa é a obra do artista, outra coisa é o seu percurso enquanto pessoa. Não há nada de errado nessa frase desde que se estivesse a falar de vender imóveis ou sabonetes. De Literatura, não. E não porque a obra é obrigatoriamente um reflexo da vida e das circunstâncias do seu criador. Não se fabricou sozinha numa fábrica, não se construiu com fórmulas de exactidão matemática nem resultou de um qualquer expediente laboral. A obra ou a criação literária neste caso, nasce da necessidade de quem se sente muito mais do que uma identidade, um elemento isolado e que tem necessidade de registar o caminho dos outros, comunicar com eles, alcançar de alguma forma a consciência do colectivo.

 

A contrario do que disse no início desta crónica, houve um autor que sempre me recusei a ler por causa das suas opções políticas. O verdadeiro preconceito literário. Um dia finalmente li um dos seus melhores trabalhos e senti-me estúpido. O homem escrevia de forma divinal e retratava o ser humano com um realismo e uma crueza cristalina. Nessa altura pouco me importaram as suas escolhas políticas que o condenaram ao ostracismo  e comprometeram irremediavelmente a sua carreira literária. Pela sua verticalidade em não abandonar as suas crenças (que estão nos antípodas das minhas) até ao fim, mereceu o meu eterno respeito.

 

Na Literatura passa-se um pouco o que vamos lendo nas redes sociais (salvaguardadas, claro está, as devidas distâncias). Vidinhas bonitas, imaculadas, cheias de boas intenções, a maioria vende uma biografia que corresponderá não aquilo que serão na realidade mas àquilo que gostariam que as suas vidas fossem, sendo essa a que querem que o mundo leia. Em tudo isto consigo ler uma obsessão pela aceitação social associada a uma enorme dose de solidão e incompetência existencial.

 

Não consegui chegar a nenhuma conclusão definitiva com tudo isto. Não sei se voltarei a ler biografias ou se simplesmente me ficarei pela obra, isto é, o caderno existencial de intenções de cada um. Cada história que me encantar, cada enredo que me seduzir será uma voz de um amigo. Até aquele que reconheço como o meu Mestre nestas lides é um tipo insuportável cheio de si próprio que adora fazer citações e referir comportamentos de autores famosos para reforçar o seu discurso. A esse, se algum dia conseguisse falar com ele, dir-lhe-ia:

 

- Muito obrigado Mestre por tudo o que aprendi consigo, não pelo que me ensinou. Amo-o de forma incondicional mesmo sabendo que é um cagão vaidoso e um peneirento de merda…

 

 

Artur

domingo, 20 de junho de 2021

ANGOCHE (Os Fantasmas do Império)


 

 

 


 


 Carlos Vale Ferraz

 

Porto Editora, Maio de 2021

 

 

Confesso que li este livro sem parar, coisa que já não me acontecia há muito tempo. Da mesma maneira que os cemitérios estão cheios de heróis e pessoas saudáveis, os impérios fazem-se de atrocidades, sacrifícios e razões duvidosas. A glória, a superioridade moral e a lenda são os elementos usados para construír posteriormente a narrativa que os justifica. No meio correm existências, vidas de pessoas apanhadas no tempo que lhes foi concedido e que por sua vez actuam conforme as circunstâncias. As que se lhes apresentam e as que transportam na bagagem da sua personalidade. Mas vamos por partes.

A 23 de Abril de 1971 parte do porto de Nacala (Moçambique) um navio mercante português com destino a Porto Amélia (hoje, Pemba) levando consigo a tripulação e um civil num total de vinte e quatro ocupantes, além de um carregamento de material de guerra destinado ao exército português no Ultramar. No dia seguinte de madrugada, um petroleiro encontra esse mesmo navio, de seu nome "Angoche", à deriva, incendiado e sem ninguém a bordo. A PIDE/DGS abre um inquérito e ao longo do tempo vão-se acumulando várias versões. Os possíveis culpados vão-se alinhando sucessivamente embora sem provas. Mais tarde, depois do 25 de Abril, os relatórios da PIDE desaparecem. Se existiram testemunhas elas permanecem em silêncio adensando o mistério deste navio fantasma. É a partir daqui que Carlos Vale Ferraz (CVF) vai desenvolver um romance puramente ficcional cujas linhas narrativas acabarão por se cruzar a todo o instante com a realidade. Entre os serviços de informação, as operações clandestinas e mais uma série de protagonistas, debaixo de um cenário de guerra condicionado pelos subterrâneos da diplomacia e do xadrez internacional da região o romance abre-nos uma vasta paisagem de acções e intervenções em relação à quais as visitas ao rigor histórico não só são permanentes como se apresentam vestidas da sua roupagem ficcional nos momentos em que é difícil chegar à sua comprovação concreta. O mistério aprofunda-se ainda mais quando após várias viradas do processo histórico, por um lado não se consegue chegar a uma conclusão definitiva nem por outro ninguém ousou reclamar os louros dos acontecimentos. Ficam as memórias, os testemunhos e o silêncio. Um silêncio profundo, quase religioso, entre aqueles que poderiam ter alguma informação pertinente sobre o navio fantasma.

Mas "Angoche" é muito mais que uma passagem "wagneriana" nas páginas da nossa história colectiva, muito mais que um simples jogo de "passa-culpas" entre as forças existentes. Trata-se da materialização alegórica do fim de um ciclo protagonizado por personagens, ficcionais ou não, que são antes de mais o testemunho humano do fim do império.  Através do processo ficcional CVF vai construindo uma teia de silêncios que se adensa no comportamento dos seus personagens mas que ao mesmo tempo nos ajuda a interpretar não só aquele trágico evento como todo o cenário mais vasto de um mundo que acaba por ser engolido pelos ventos da História. Na sua fase inicial os impérios produzem heróis, mártires e génios de todo o tipo. Na sua fase final limitam-se a fabricar fantasmas, testemunhos pálidos de uma tragédia inevitável. E quer na primeira quer na última fase o grande conflito de cada um estabelece entre a moral e o egoísmo a contenda maior que os irá acompanhar até ao fim dos seus dias.

O romance é todo ele um tributo à lucidez e ao realismo pragmático de que são feitos os homens. Homens que, uma vez conscientes do seu papel de fantasmas acabam por aceitar o seu destino seja ele qual for. As suas memórias, os seus ódios e os seus amores acabarão por morrer com eles fechando desta forma o ciclo da sua existência. O Futuro cantará a cantigas que quiser ao sabor do Tempo e da conveniência dos regimes em vigor. Mas a verdade morrerá com aqueles que com ela privaram como uma amante fugaz e despreocupada de alguns dias. Se foi amor, desporto ou se nem aconteceu, só eles saberão. Os barcos vazios encontrados à deriva no mar não falam. E a História é uma velha caprichosa que só conta o que lhe apetece contar. Resta aos romances apanhar os pedaços narrativos e estimular a inteligência dos seus leitores…

 

Artur

segunda-feira, 14 de junho de 2021

REGRESSOS

 

Décimo nono dia do quinto mês de dois mil e vinte e um ( a última vez que escrevi aqui no diário que passou a mensário). O meu despertador interior, as minhas inquietações, ou o anjo da guarda ( como dizia a minha mãe), acorda-me a tempo de assistir ao renascimento da luz de hoje. Há muito tempo, há quase doze anos, decidi reger-me pelo que me contenta. Se a felicidade se juntar ao contentamento então melhor ainda. Estar contente com o que alcanço, com quem me alcança, é o que me faz sentir quase sempre em estado de graça ( às vezes é só uma hora por dia). As minhas dores, os meus desesperos, as minhas fúrias e revoltas, deixo-as para as batalhas campais, para o corpo a corpo, para as armas que escolher. Quem me conhece sabe que a minha doçura equivale aos vapores que emano pelas ventas quando irritada.
Quando regressei à ilha mãe há quase sete meses, vim extenuada e pronta para lamber as minhas feridas até sararem. Vim para acompanhar a minha filha mais nova o mais à distância possível. Vim para preparar a terra que sofre com a ausência de cuidados. Não estou instalada no passado morgadio da família paterna, nem a abanar-me com achaques à espera que a tormenta passe. Choveu dentro de casa quase todo o inverno e eu só acrescentei a quantidade de vasilhas para recolher a água que caía. Encontrei um desumidificador, uma máquina de secar e uma de lavar. Um colchão ortopédico, um pirógrafo, canetas e tintas, sementes e bolbos. E mais um monte de coisas que contribuem para a minha sanidade mental, entre as quais um machado,uma motoserra e uma roçadeira. Alguns livros e muitos cadernos. Tudo coisas que me capacitam além do tempo para me sentar em qualquer rocha a desfrutar do espetáculo divino que se apresenta diante do meu olhar. A primavera chegou, o verão aproxima-se, e o cansaço dissipou-se.
Cair e levantar, andar e dançar, dormir e acordar, ligar e desligar, ver e observar, ouvir e ser ouvida,escrever e descrever, viver e deixar viver, amar e ser amada, orar e agradecer, são movimentos vitais para manter a humanidade no núcleo da minha existência. Qualquer falha neste processo é como menos uma pedra na calçada., como um caminho que se faz irreversivelmente diferente. Por isso tantas vezes coxeio. E por isso às vezes tenho dores. Por isso me corrijo e emendo. E me dou permissão de aceitar a mão que se estende.
No décimo primeiro dia do sexto mês de dois mil e vinte um, recomeço. Continuo o movimento contínuo que me trouxe de volta ao lugar onde sempre quis regressar. 

Elsa Bettencourt

terça-feira, 8 de junho de 2021

Diário Laboratório 2021

12/1/2021

Contudo, é evidente que se sofre de um tipo de bloqueio que é, aliás, muito profundo: o bloqueio pela proliferação disforme do fragmento.