quarta-feira, 7 de junho de 2023

ODE MARCIAL


 


A guerra, a guerra, a guerra realmente,

  Excessivamente aqui, horror, a guerra real...

    Com a sua realidade de gente que morre realmente,

      Com a sua estratégia realmente aplicada a exércitos reais compostos

de gente real,



E as suas consequências, não cousas contadas em livros,

 Mas frias verdades, de estragos realmente humanos, mortes de

   quem morre, na verdade,



E o Sol também real sobre a terra também real,

  Reais em acto e a mesma merda no meio disto tudo!


2 de Agosto de 1914


                              Álvaro de Campos





segunda-feira, 5 de junho de 2023

TAILS OF FISH


 



Algures em meados dos anos 80 passava horas na muralha do sítio de que tanto falam. Olhava para o calhau onde agora fica o porto e não me cansava de ver os meus amigos a surfarem as primeiras ondas. Mais do que a eles, e à sua bravura por cortarem ondas até três metros num fundo de pedra e rochas, eram os meninos dali que me encantavam. Os meus amigos tinham entre os quinze e os vinte e três, os meninos não tinham dez.
Imaginem um barco de papel e depois imaginem-no em lata sem a dobra que faz a vela. Eles faziam aqueles barcos dos bidons de combustível que cortavam e sentavam-se lá dentro a fazer as ondas mais pequenas num calhau mais pequenino mesmo ao lado do grande. Quando se construiu o grande porto as ondas desapareceram, os pescadores de Rabo de Peixe melhoraram a vida à volta da faina, os meus amigos cresceram, eu fui-me embora, e os meninos continuaram a fazer os seus barcos de lata até terem idade para pescar. Não a idade oficial mas a idade real. Naquela altura começava-se na faina à volta dos doze anos e não havia funcionário da secretaria da educação que os pusesse na escola outra vez. Porquê? Chama-se estigma. Uma marca invisível mas pior do que o fogo que designa o destino de gerações. Vou saltar umas décadas passando pelo sotaque dos Açores que é uma coisa que não existe e que me enerva quando até os próprios dizem isso aos continentais. Existe um sotaque do Continente? Ridículo, não é? Então, deixem-se de dizer disparates apesar disso não interessar para falar de estigmas. Aliás, tive que pôr legendas, anyway.
Chegamos a dois mil e vinte e imaginem quem furava os cercos sanitários e quase os queimavam em praça pública, hã? Iam pelo mar às compras à cidade da outra costa! Toda a gente,salvo honrosas excepções, os culpava de andarem a espalhar o bicho pela ilha grande. Uma das características dos estigmatizados é que dão a volta ao texto enquanto os outros não chegam à vírgula. E se tiverem características de ilhéu mais rápidos são.
Fartei-me de rir e chorar com a série. Estive a ouvir a entrevista com o produtor executivo, a estória de como chegou à história e a escrevê-la.
Achei cada personagem um mimo e depois fiquei a pensar numa coisa muito americana:
-Where the fork are the royalties for the village? ??
Ou seja, em vez de estarem a pensar nos cem quilos que faltam, que tal pagarem o dízimo à freguesia de rabo de peixe por cada vez que se fala neles? Já ajudava muito porque a vida continua, as desgraças continuam a acontecer, agora já não há coca mas a sintética está a matar gente de todas as ilhas. Um dízimo para o trabalho extraordinário que se tem feito nessa freguesia através da música e outras artes.
Um cêntimo por cada vez que dizem Rabo de Peixe sem saber como é que se faz canoas com o lixo dos outros.
E mais uma coisinha… passa pela cabeça de alguém que a maior parte dos habitantes dessa linda freguesia não tenham netflix? Parecemos a Maria Antonieta a dizer para darem brioches ao povo faminto! Há prioridades nas vidas simples e estas não passam pela televisão e muito menos pelos canais que só funcionam a tostões e com internet.

Elsa Bettencourt

domingo, 28 de maio de 2023

NO CENTENÁRIO DE EDUARDO LOURENÇO


  NOTA : ASPARTESDOTODO CELEBRAM O CENTENÁRIO DE EDUARDO LOURENÇO COM ESTE TEXTO QUE, APESAR DO SEU CARÁCTER ACADÉMICO E DE NÃO SE DEBRUÇAR "APENAS" SOBRE O PENSAMENTO DA FIGURA MAIOR DA ENSAÍSTICA E DA FILOSOFIA PORTUGUESA DO SÉCULO XX, SOBRE ELE SE SUSTENTA E INCIDE NA SUA MAIOR PARTE.


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IDENTIDADE, IDENTIDADE CULTURAL, MEMÓRIA E ESQUECIMENTO: EUROPA E O PORTUGAL EUROPEU


UM    

    Qualquer reflexão sobre a temática da construção da cultura e da identidade europeias, tem em conta uma série consagrada de marcadores, ou referentes matriciais que se tornaram canónicos. Assim, a identidade cultural europeia – assumindo-se aqui a fusão dos dois pólos da questão numa mesma expressão que, longe de gerar uma entidade homogénea e unitária, produz realidades muito distintas, como veremos mais tarde – aparece como uma aglomeração ou aglutinação de “heranças”: a herança da Grécia, de Roma, da Cristandade, do Renascimento, do Iluminismo, da Revolução Francesa, dos direitos do Homem, enfim, de uma miríade de referentes cuja amálgama constituiria essa mesma identidade. Nesse sentido, caberia às ciências humanas a tarefa ingrata de dar sentido a essa reunião heteróclita de matrizes. Mas bastará esse, digamos assim, “amontoado” de origens para dar conta do objecto a definir? Pelo contrário, a mera aceitação de algumas evidências será suficiente para a construção de um discurso crítico, sólido e fundamentado, em torno de um tema crucial e operativo no modo como cada um de nós experiencia a sua pertença a uma comunidade política que reivindica para si mesma ser continuadora de um legado tão vasto e tão heterogéneo? Os defensores de taxinomias estritas argumentarão que o curso da história política, social e cultural da Europa tem decorrido da integração sucessiva das suas diversas matrizes referenciais e da conjugação mais ou menos bem sucedida de todos esses influxos. E, na realidade, têm razão, pelo menos em parte; o repertório de legados a que aludi sucintamente – e muitos outros podem ser acrescentados – revela-se de grande utilidade como ponto de partida, sob condição de não conduzir a uma aporia na qual a aceitação acrítica de todos os legados e a passividade aproblemática com que se aceita que eles se integram sem conflitos numa mesma totalidade explicativa equivale à passagem de uma ontologia a uma metafísica perene, na qual o tratamento dos mesmos temas conduz inexoravelmente às mesmas conclusões. Sem negar a utilidade do repertório matricial e a sua operabilidade na construção de um horizonte de legibilidade e inteligibilidade de uma identidade (ainda) em construção, constato e sublinho a premência de duas questões de grande alcance que à partida emergem da sua aceitação acrítica:

a)    Todos os elementos que, aglutinados, formam a cultura e a identidade europeias, têm o mesmo peso e significado?

b)    Constituirão todos esses elementos uma rede de transferências conceptuais entre si? Se sim, de que modo?

 

A obsessão essencialista formada a partir de uma visão estrita do conjunto historicamente consolidado de legados culturais cuja amálgama – e mesmo a hipotética coalescência – teria resultado naquilo que designamos como “identidade cultural europeia”, contaminada por uma fixidez que contraria o próprio espírito e carácter dinâmico de que essa identidade deu provas substantivas.[1]

          Assim, a melhor maneira de abordar o problema é tomar como ponto de partida uma declaração de Edgar Morin em “Pensar a Europa”, citada por Isabel Baltazar no texto “Pensar a História da Europa: Reflexões Sobre a Construção Europeia de um Destino Comum”: “A Europa é uma noção incerta, nascida da barafunda, com fronteiras indefinidas, de geometria variável, sofrendo de deslizes, rupturas, metamorfoses. Trata-se por conseguinte, de interrogar a ideia de Europa naquilo que ela tem de incerto, de turvo, de contraditório, para tentar extrair daí a identidade complexa”.

          Como se depreende, a escolha lexical de Edgar Morin não é inocente; “incerto”, “variável”, “turvo”, “contraditório”, “identidade complexa”, escolhas que remetem para um objecto em permanente construção e metamorfose, sujeito às mais variadas interpretações – todas elas com pretensão a validade lógica e universal – plural, aberto e, sobretudo, instável. O que me leva de volta ao início deste texto: neste ambiente de não-fixidez, podemos reduzir a interpretação da identidade cultural europeia a um jogo dialético de matrizes e referentes canónicos?

          Tenho vindo a utilizar indistintamente a expressão “identidade cultural europeia” como um conceito composto, no qual “identidade” e “cultura” parecem ter o mesmo conteúdo, completarem-se e equivalerem-se. Mas esta utilização indiferenciada não é, também ela, isenta de problematização. De facto, podem ser encaradas como entidades autónomas e não redutíveis entre si. Diversos autores exprimem a necessidade de pensar a cultura de um modo que a caracterize como suporte da identidade. Isabel Baltazar, no texto já referido, é uma dessas vozes. Diz-nos ela: “Para além de desesperadamente se procurar uma unidade na diversidade cultural europeia, tão presente em Fernando Pessoa, é o reconhecimento da cultura como elemento fundamental para definir a própria identidade europeia.” [BALTAZAR, 2011, p. 216][2]. Em “A Identidade Cultural Europeia”, Vasco Graça Moura aponta no mesmo sentido, quando diz: “Dada a própria natureza das coisas, qualquer identidade relevante que se pretenda ver num conjunto de nações que formam a Europa tem que ser também, necessariamente, uma identidade cultural.” [MOURA, 2013, p. 12]

          Neste ponto, e para concluir esta secção, resta-me contrastar todas estas teses sobre a identidade e a cultura europeias com o especialíssimo caso da identidade cultural portuguesa e o modo como esta se confronta, adequa, adapta ou, pelo contrário, se desajusta, se afasta da(s) sua(s) contraparte(s) europeia(s). Antecedendo essas considerações, e enquadrando-as, adianto dois pressupostos que se deduzem da literatura disponível:

a)    Apesar dos particularismos e características identitárias, decorrentes do imaginário que a estrutura e lhe confere sentidos e interpretações próprios e originais, a identidade cultural portuguesa sempre se sentiu atraída e determinada pelo poderosíssimo centro de atracção gravitacional da identidade cultural europeia;

b)    Contra o pano de fundo da identidade cultural europeia, com o qual partilha os mesmos referentes e matrizes, a identidade cultural portuguesa afirma-se primeiramente pela sua excepcionalidade, mesmo se todos os outros povos europeus também se percepcionam como excepcionais nalguma das suas características definidoras ou ponto do seu percurso histórico.[3]

Não cabendo aqui estabelecer um repertório integral dos elementos simbólicos, religiosos, imaginários, etc. que fundamentam a crença na excepcionalidade da identidade portuguesa, e que se manifestam em todas as dimensões e vertentes possíveis da vivência colectiva, cristalizando-se quer na cultura popular, quer na esfera da alta cultura[4], como podemos finalmente caracterizar a identidade portuguesa? Segundo Eduardo Lourenço, como uma “hiperidentidade”[5], uma tese formulada no texto “Psicanálise Mítica do Destino Português” [LOURENÇO, 2022, pp. 23-66]. Esta forma de questionamento da identidade portuguesa como hipertrofia de determinados elementos constituintes dessa mesma identidade é para Eduardo Lourenço um problema de grande magnitude; resulta de uma tensão constante entre o espírito europeu universalizante e aberto e o fechamento que a hiperidentidade implica. Aliás, este problema liga-se com uma outra dimensão crítica de que Lourenço dá conta em diversos escritos, ao caracterizar a cultura portuguesa como uma não-cultura, devido justamente ao facto de não ter um carácter universal; na sua perspectiva, faltar-lhe-ia a vertente especulativa e racional que resulta do labor filosófico, isentando-a, isolando-a dos movimentos de pensamento que são, também eles ou principalmente eles, uma das marcas de água da identidade e da cultura europeias. De tal forma assim é, e Lourenço não deixa nunca de sentir o peso trágico dessa circunstância, que chega a caracterizar essa, digamos assim, falha, como “indigência ontológica”. De resto, esta interpretação no limite de um pessimismo lúcido, veio a ser matizada no pensamento de Lourenço ao longo da sua linha evolutiva: se nos anos 40 e 50 via o problema da identidade cultural portuguesa dessa forma, na fase tardia da sua obra esse pessimismo, e a ansiedade que lhe é concomitante, ampliam-se: já não é só a cultura portuguesa que é uma não-cultura; toda a cultura europeia o é também, já que se desenvolveu num ludismo sem transcendência e sem a aspiração à criação universal de valores que tinha sido o seu apanágio.

Concluindo: a identidade portuguesa assenta numa estrutura simbólica, que actualiza permanentemente uma mitologia sempre renovada, uma estrutura profunda cuja origem está ligada aos mitos fundadores da própria nacionalidade (o seu carácter miraculoso e transcendente), passa pela exaltação mística e épica de “Os Lusíadas”, é filtrada pelos mitos sebastianistas, resgatada pelas visões do V Império, re-interpretada pela Geração de 70 – especialmente por Antero de Quental –, assumida como determinante cultural pelo Estado Novo e plasmada na Filosofia portuguesa e nos movimentos artísticos e culturais do século XX[6], como se essa estrutura simbólica fosse uma latência sempre pronta a irromper na nossa vida (mental e afectiva) comum sempre que nos confrontamos com crises e sobressaltos de ordem política, social ou económica.

 

 

DOIS

 

Como temos vindo a considerar, a memória cultural portuguesa é rica e complexa e, mesmo abstraindo da percepção de excepcionalidade, da mitificação do passado, da ausência de uma reflexão generalizada sobre o ser português, da imagem degradada que os portugueses têm do seu presente – permanentemente contrastada com o passado percepcionado como glorioso – e de uma subjetivação e territorialização (para retomar o termo empregue por José Gil) que funcionam como forças de bloqueio de uma vivência plena e realizada, actualizada, do seu potencial de desenvolvimento, constitui o fundamento, sustentáculo e reforço da identidade portuguesa. Esta memória colectiva compartilhada, mesmo geradora da “hiperidentidade” que temos vindo a referir, e que foi identificada por Eduardo Lourenço como predicado fenomenológico da identidade portuguesa, é ainda assim o “cimento” de uma comunidade política que, de outro modo, tenderia para o esquecimento. Se concordarmos com Eduardo Lourenço, seguindo-o na tese de que a cultura europeia se deixa corroer pelo lúdico, o imediato e o material, construindo monumentos à banalidade, teremos que aplicar o mesmo diagnóstico à nossa dimensão.

Os fenómenos da urbanização acelerada nas últimas décadas, cujos efeitos de desequilíbrio são amplamente conhecidos, nomeadamente na desertificação e abandono de parcelas do território e na perda de coesão social, a globalização e mudanças profundas nas estruturas sociais, são factores de desagregação de uma identidade cultural que, nem por ser “hiperidentidade”, escapa a uma evolução que tende a tornar menos densa e significativa; os “lugares de memória” de que falava Pierre Nora tornam-se para os portugueses meras cerimónias e rituais comemorativos, impondo a obrigação de relembrar constantemente aquilo que se comemora. Por outro lado, a perda de conexão com as raízes culturais, efeito de uma modernização que só o é à superfície e que se manifesta em aspectos triviais da nossa vivência coletiva, tem vindo a desligar os indivíduos do património comum e a tornar difusa e evanescente a memória histórico e cultural. Na minha perspectiva, a memória e o esquecimento desempenham papéis conjugados na identidade portuguesa. Sem desvalorizar o influxo externo decorrente da abertura ao mundo, nem a pressão exercida pela modernidade tecnológica, e sem esquecer que as identidades são dinâmicas, importa considerar a aplicabilidade ao caso português das ideias de Paul Ricoeur sobre a relação dialética da memória com o esquecimento, bem como a necessidade de considerar a importância central de uma ars oblivionis com um estatuto paralelo com a ars memoriae.   Aparentemente esta relação assenta num paradoxo: aquilo que Ricoeur designa como “dever de memória” apresenta-se como “dever de lutar contra o esquecimento” e assim anular ou minimizar aquilo que a natureza do esquecimento representa de dano ou malefício. A primeira nota a reter no processo de exame da temática do esquecimento é o propósito de ultrapassar aquilo que Ricoeur designa como “polissemia opressiva”, ou uma patologia da linguagem, que perturba a possibilidade de o visar (ao esquecimento) num horizonte que não seja o da pura negatividade. A argumentação do filósofo é acerca dessa questão muito clara: a representação do passado é problemática, desde logo porque se coloca a questão da total confiabilidade da memória – Ricoeur chama-lhe mesmo “ambição de confiabilidade da memória” e fala também em “enigma constitutivo da lembrança” originado pela dialética ausência/presença na representação do passado – e também do seu abuso: a memória que recorda tudo e que, pelo seu carácter totalitário, se torna monstruosa. No limite, podemos pensá-lo, essa memória que recorda tudo e que, nesse sentido, abarcaria a totalidade do Ser, tornar-se-ia inútil, num sentido que Ricoeur sugere ser o da nossa coexistência no passado e no presente. Assim sendo, considero que a ars oblivion opera no caso português no sentido de atenuar – mas só à superfície e só no que diz respeito ao rituais quotidianos, uma vez que as estruturas profundas não mudam – os efeitos negativos da hipertrofia da identidade, por um lado, e por outro a manter uma reserva (“esquecimento de reserva”) que permite o sentimento de pertença a uma comunidade política e a uma entidade cultural que é maior do que a soma dos indivíduos que dela, com maior ou menor grau de consciência do legado de que são portadores, se reclamam. Sobretudo, porque permite esquecer tudo aquilo que é inútil na compreensão da história e na atribuição de sentido ao presente.


Arnaldo Mesquita


 



[1] No ensaio “A Europa ou O Diálogo Que Nos Falta”, de 1949, Eduardo Lourenço faz a seguinte reflexão: “(…) à Europa tudo lhe convém menos do que a resignação hindu à inércia do extático”.

[2] Torna-se desnecessário sublinhar que o conceito de “identidade” implica um conjunto de particularismos e originalidades através dos quais se afirma, esquecendo-se por vezes a realidade de transferências culturais que formam também cada identidade. Por sua vez, o adjectivo “cultural” tem um sentido e abrangência mais latos. Em “Gramática das Civilizações”, Fernand Braudel caracteriza-o deste modo: “(…) designa o conjunto do conteúdo que abarca simultaneamente civilizações e cultura. Nestas condições, dir-se-á de uma civilização (ou cultura) que ela é um conjunto de bens culturais, que o seu lugar geográfico é uma área cultural, que a sua história é uma história cultural, que os tributos de uma civilização a outra civilização são tributos ou transferts culturais, tanto materiais como espirituais.” [BRAUDEL, 1989, p. 20]

[3] Como muito bem notou Eduardo Lourenço na obra “Portugal Como Destino Seguido de Mitologia da Saudade”: “Cada povo só o é por se conceber e viver justamente como destino. Isto é, simbolicamente, como se existisse desde sempre e tivesse consigo uma promessa de duração eterna. É essa convicção que confere a cada povo, a cada cultura, pois ambos são indissociáveis, o que chamamos «identidade». Como para os indivíduos, a identidade só se define na relação com o outro. Como essa relação varia com o tempo – é o que chamamos a nossa história –, a identidade é percebida e vivida por um povo em termos simultaneamente históricos e trans-históricos.” [LOURENÇO, 2012, p. 9-10]

[4] “O singular do povo português é viver-se enquanto povo como existência miraculosa, objecto de uma particular predilecção divina. Dizer-se que se vive como “povo de Deus” seria irrelevante, sobretudo hoje, que esse conceito tomou um sentido mais vago. É como povo de Cristo, e não meramente cristão, que, desde a sua irrupção na história medieval como reino independente, os responsáveis pela sua primeira imagem e discurso mítico o representam.” [LOURENÇO, 2012, p. 12]

“Não há na cultura portuguesa discurso mais alucinatório e sublime que o de António Vieira. É a síntese arrebatada, mas simbolicamente coerente, de cinco séculos de vida colectiva vividos com a convicção arreigada – mas também culturalmente cultivada – de que a própria existência de Portugal é da ordem não só do milagre, como da profecia. Pela sua pública fidelidade crística, Portugal profetiza.” [LOURENÇO, 2012, p. 21]

 

[5] De resto, não é o único a fazê-lo. José Gil lê a identidade portuguesa como uma força de bloqueio do nosso desenvolvimento colectivo e produtora de “subjectividades autocomplacentes”, fechadas ao exterior – entenda-se, ao exterior dessas subjectividades – territorializadas, construindo muros e fronteiras mentais que provocam a paralisia do desassossego, que o filósofo reputa como motor de uma dinâmica que permite mobilizar o presente e o futuro num mesmo desígnio. Compare-se esta forma de pensar a problemática da nossa identidade com aquela que Lourenço formula em “Nós E A Europa ou As Duas Razões”, quando afirma: “Por um lado, subtrai os portugueses à consciência deprimida que teriam de si sem esse passado; por outro, impede-os de investir na sua vida real, no seu presente, uma energia e uma ambição que sempre parecerão medíocres comparadas com as do século de esplendor, ou, pelo menos, de dinamismo excepcional.” [LOURENÇO, 1994, p. 11-12].

Aliás, refira-se que Gil utiliza uma metodologia de análise que, não sendo exactamente similar à de Lourenço – ambos utilizam a terminologia e o tipo de exame das profundidades, arcanos e análise da discursividade narrativa – lhe permite chegar a conclusões semelhantes quando diz, por exemplo: “Não foi Eduardo Lourenço que afirmou que, longe de sofrermos um défice, sofremos sim de um excesso de identidade?” ou ainda “O nosso mal é a identidade” [GIL, 2009, p. 20].

[6] Importaria referir a intervenção nesse processo de movimentos como o Saudosismo e a centralidade da obra e do pensamento de Teixeira de Pascoaes no seu ideário, o projecto ideológico da revista “A Águia” como divulgadora das concepções da Renascença Portuguesa, intelectuais e filósofos como Jaime Cortesão, Leonardo Coimbra, António Sérgio, etc., culminando no messianismo sebastiânico expresso por Fernando Pessoa em “Mensagem”.


                                                       

sábado, 27 de maio de 2023

Fim de TardeOntem



 

 A pausa do trabalho que não falta faz-se aqui, a cinquenta metros da porta. Sento-me num tronco ou no meio da erva fofa e fico a pasmar. Estes companheiros são os cúmplices dos dias. Trazem-me paus, flores e lagartixas. Brincam às apanhadas em memória dum tempo em que uns caçavam os outros. Há um milhafre a pairar e a ver esta humana algo desajustada do rebuliço lá longe. Acho que um dia vai aproximar-se e juntar-se à brincadeira. Recolhemos amostras de galhos de várias árvores para um futuro trabalho. Recolhemos flores para identificar e secar. Verificámos o plantio em tocos de árvores caídas. É uma experiência constante esta de viver com galochas nos pés, tesoura e machete numa mão e bordão na outra. Se me chateio? Só se ligar as notícias. Sou como um caracol com esta concha que me protege.

Elsa Bettencourt

quinta-feira, 18 de maio de 2023

ARNALDO MESQUITA E A PALA DE WALSH

 

domingo, 7 de maio de 2023

TALVEZ PELO MAR FORA

 

É tão vasta a palavra “talvez” que cabe dentro dela uma existência inteira, uma expectativa no horizonte que nunca se aproximou, uma dor que doeu para lá do tempo que tinha, um desperdício aproveitado desprovido de justificação. Talvez um dia tenhamos chegado aqui vindos de não se sabe onde para uma viagem sem mapa nem bússola, um caminho de solavancos e encontrões cujo sentido só será conhecido quando já não fizer sentido nenhum. Talvez nos tenhamos encontrado nessa viagem atribulada quando dois comboios pararam na mesma estação em direcções diferentes. Duas janelas que coincidiram entre apeadeiros, olhares cruzados, rostos familiares e um apito ensurdecedor de partida a sublinhar uma despedida antes do reconhecimento. Talvez uma memória tivesse ficado esquecida, perdida no apagamento das coisas que não podiam ser lembradas. Talvez, como quem está numa praia onde o mar toma conta de tudo e a voz não se consegue ouvir. Talvez o Sol me tenha aquecido a falta do teu abraço antes das ondas embalarem as noites que não dormimos. Talvez os desencontros, as faltas de comparência e de sintonia tenham sido os sinais de todo este caminho onde, sabendo de nós, de alguma forma também sabíamos que nunca nos iríamos encontrar. Talvez o mar nos soubesse dizer alguma coisa mas se tenha esquecido da melhor forma de o fazer. Em vez disso deu-nos tranquilidade, silêncio, uma resposta vaga, um conselho imperceptível em forma ondulada de uma respiração permanente. Talvez a caminhada tivesse algum sentido e as ausências, as dores, os desencontros e os acidentes fossem lições que era necessário aprender. E o caminho foi percorrido, primeiro com medo, depois com raiva e por fim com resignação. Talvez tudo fosse uma ilusão extremamente real de saborear para que melhor se pudesse ultrapassar mais uma etapa. Talvez volte esta tarde ao mar e, desta vez fique por lá a deixar cair a noite, quieto sem me mexer, a ondular na respiração das ondas, a falar contigo através do vento. Talvez fique por lá e não volte e deixe em terra os desencontros e as ausências, as dores e as perguntas a que nunca consegui responder. Talvez no meio do ondular o corpo se desprenda e a voz se cale e tudo  fique inexplicavelmente parado como um comboio na sua última estação. Os passageiros a saírem em fluxo contínuo, as bagagens e, por fim as luzes desligam-se. O silêncio enche todo o espaço e só as memórias vão ficar por ali como pequenas marcas da passagem dos dias. Pequenas marcas que o tempo se encarregará de varrer de manhã enquanto prepara uma nova viagem. Talvez…

 

Artur

segunda-feira, 24 de abril de 2023

O ESTADO DA NOÇÃO


 Num texto publicado na revista do "Expresso" do último fim-de-semana, José Tavares afirmava a necessidade de libertar o 25 de Abril do Estado Novo para "amarrá-lo ao futuro".

Pelo contrário, e sem querer apoucar ou desmerecer a riquíssima e fecunda reflexão do autor, eu afirmo que é preciso libertar o 25 de Abril do 25 de Abril. E não me estou a referir - ou não me estou só a referir - ao mofo das comemorações institucionais: as habituais paradas militares, as múltiplas iniciativas locais que procuram esclarecer as crianças e os jovens sobre o significado e alcance do fenómeno histórico; os discursos na Assembleia da República na sessão solene (este ano mais ou menos abrilhantada pela presença do Presidente do Brasil, ocasião para o partido dos taberneiros e daquelas caras patibulares que nos enchem de nojo e de pavor nos brindar com o esplendor daquilo que pretende ser a sua agenda política e que não passa, afinal de contas, da exibição da sua indigência moral e intelectual);  de outras agendas , umas que se reclamam do 24 de Abril, outras, que embora reconheçam a importância da Revolução, lhe procuram apoucar o significado nos dias de hoje, chamando constantemente a atenção para aquilo que ficou por cumprir, ou preconizam um modelo de regime que se afasta notoriamente das ideias que a data evoca. "Não se comem ideias, não se mora em ideiais", grunhem eles do alto do seu pragmatismo encardido - a estes devotos do onanismo, que correm o risco de escorregar com as quatro patas no unto da sua própria mediocridade e servilismo, pode-se responder que, de facto, onde não se pode viver é nas ruínas do mundo que pretendem construir - ; as evocações elevadas da poesia de Sophia de Mello Breyner (sobretudo) e de Manuel Alegre (em menor grau, vá-se lá saber porquê) e outros rituais massificados que, à força de o serem, acabam esvaziados do seu conteúdo real e essencial.

De qualquer modo, defendo que é preciso libertar o 25 de Abril do 25 de Abril: libertá-lo, emancipá-lo do sentido tirânico do discurso que há 49 anos sobre ele se produz, desenredá-lo das teias peçonhentas que o prendem num emaranhado de significados que lhe não são adequados, adormecendo-o numa latência oca e vazia, numa retórica balofa cujo referente há muito se perdeu e que se alimenta a si mesma indefinidamente. Em suma, devolver-lhe o valor de verdade; a sua verdade (só a verdade, como dizia um revolucionário profissional, é revolucionária). E que verdade é essa ? É uma verdade em camadas sobrepostas, cuja primeira é a da acção. Terão reparado que a imagem que ilustra este texto é da velha espingarda automática G3, como símbolo dessa acção. Lembra-nos que não foram os intelectuais das pastelarias do Rossio; nem os jovens filhos-família dos movimentos católico-esquerdistas ou católico-centristas, não foi o PCP, nem o MRPP, nem o PS, nem o MDP-CDE; não foram os maoístas de pacotilha; nem os baladeiros no seu exílio dourado em Paris; não foi aquela gente encostadinha aos seus privilégios e às benesses que o regime salazarista/caetanista lhes proporcionava e garantia, não foram os democratas de todas as confissões que fizeram o 25 de Abril; os agentes da acção foram um punhado de jovens oficiais, sargentos e praças, muito, pouco ou nada politizados, vários já experimentados na Guerra de África, que resolveram acabar com o "estado a que isto chegou", para citar as palavras de Salgueiro Maia nessa madrugada, ainda em Santarém. Foram as Forças Armadas de Portugal que devolveram ao país a dignidade, a esperança e o futuro que os arcontes lhe negaram durante 48 longos anos. Os idiotas de serviço apontam sempre nas suas análises rascas a questão corporativa - o famoso Decreto que colocava como mais antigos os oficiais do QE, à frente daqueles que tinham saído da Academia Militar -. A esses, deve-se responder que lhes bastava terem preenchido um requerimento no famoso papel azul de 25 linhas, onde veladamente ameaçassem, sem se desonrarem, com decréscimo do nível operacional, para que as múmias lhes satisfizessem as suas reivindicações, sem necessidade de arriscarem as vidas e carreiras. As mesmas Forças Armadas que forjaram este milagre que se chama Portugal (milagre porque improvável, milagre porque contra tudo e contra todos) e que construíram a nação em armas que este país sempre foi. Aliás, só nesse século XX essas mesmas Forças Armadas já tinham suportado o inferno das trincheiras francesas e que durante 13 anos, com bravura, heroísmo e inteligência, se empenharam em três teatros de operações que distavam milhares de quilómetros entre si e milhares de quilómetros da chamada Metrópole para que o regime encontrasse uma solução política honrosa e vantajosa quer para Portugal, quer para os territórios então coloniais. O que não aconteceu, como se sabe, por razões intensamente debatidas, razões que tudo explicam, excepto a estupidez e a cegueira de governantes ensimesmados nas suas convicções e enleados nos seus compromissos com as elites que os manipulavam e condicionavam.

A outra verdade, capaz de libertar o 25 de Abril do 25 de Abril, consiste na convicção de que o acontecimento é um património da Esquerda, embora os devotos do onanismo empreguem esforços (gritaria selvática) a negá-lo. Basta ver com olhos de ver a coincidência entre os ideais do programa do Movimento das Forças Armadas e aquilo que a esquerda ideológica preconizava para o país e a coincidência tangencial - quando a há - com a visão da direita democrática. Aliás, "direita democrática" é um oxímoro, uma contradição nos termos; não existe, não se pode experimentar; existem aqueles que se acomodaram e adaptaram às novas circunstâncias, explorando os interstícios que o regime democrático lhes oferece para modelarem a sociedade portuguesa à medida de interesses particulares e a atolarem no lodaçal da sua própria imundície. Tal ficou bem patente na infame personagem que dá pelo nome de Passos Coelho e no seu (des)governo; a nostalgia do 24 de Abril que essa gente todos os dias exprimia através de um projecto de empobrecimento, dominação e subversão das liberdades individuais e colectivas, de transferência massiva de rendimentos do trabalho para o capital e de favorecimento dos grupos económicos em detrimento do bem público, entre outros actos de banditismo político e de generalizada bandalheira moral. Pergunta-se, então, em que é que esses actos e essas ideias coincidem com o espírito e projecto do 25 de Abril de 1974 ? De que modo se teria cumprido Abril se esse desígnio não tivesse sido interrompido pela vontade do povo português ? Que imagem teriam hoje os portugueses de si próprios se se tivessem revisto na representação dessas luminárias abstrusas ?

Libertar o 25 de Abril do 25 de Abril significa, finalmente, negar uma célebre proposição de Eduardo Lourenço segundo a qual os portugueses sempre estiveram ausentes da sua própria realidade. Significa aceitar a descontinuidade, a inquietação e o inacabamento dos discursos sobre nós próprios e aquilo que nos moldou; re-interpretar a heterogeneidade daquilo que nos foi acontecendo à luz de uma coerência que está velada e de um significado que nos está oculto, não como uma fatalidade, um fado ou um destino, mas como uma circunstância que inquina a nossa vida pública e nos impede de termos um discurso positivo sobre a possibilidade de um discurso verdadeiro sobre a nossa modernidade e sobre as suas crises, que evita que pensemos essa mesma modernidade como a própria morada da crise, que coloca um obstáculo a que visemos que a verdade constitui, em si mesma, um certo acto, acto cujo significado é irredutível à verdade que através dele é dita. É isso que significa, para mim, libertar o 25 de Abril de si mesmo. 


sábado, 25 de março de 2023

ROMEIROS


 


Vigésimo quinto dia do terceiro mes de dois mil e vinte e três.
Há quinhentos anos, entre a terra que tremia e a lava que escorria, tudo começou e acalmou a cada prece, a cada passo, dado com fé.
É impossível, mesmo sem credo, não nos sentirmos tocados pela pacificação que emana destes ranchos de romeiros que percorrem a ilha do Arcanjo nas sete semanas da quaresma.
Respondendo ao chamado do Filho percorrem as casas da Mãe. Rezam pelas almas dos seus e dos outros. Agradecem venturas e podem perdão, seguem cobertos por um xaile e um lenço de flores, com um saco ao ombro, um terço ao pescoço, outro na mão, e como apoio um bordão.
Com o pensamento e o coração nas romarias desta vida me recolho à concha da minha. São tempos de pesar, de trabalhar e aceitar o peso da cruz que se carrega até que seja leve, até que a alma se molde à sustentável medida de sermos como somos, sem artifícios nem desejos de queremos ser outros que não nós e com os dedos que apontam unidos aos outros em oração.


Elsa Bettencourt

quarta-feira, 8 de março de 2023

8 de MARÇO



 

 Oitavo dia do terceiro mês de dois mil e vinte e três

Às fêmeas das mátrias, às que escolheram sê-lo sem desígnio genético, às que deixaram de o ser apesar desse desígnio e sobretudo, acima de tudo, à nossa sensibilidade, à nossa resistência e à nossa fragilidade. À essência que nos designa acima de qualquer paradigma. À cumplicidade e à partilha de côdeas e tesouros. À nossa capacidade de transformar o terrível em belo ou o choro em gargalhada. À arte que nos compõe e nos desenha sorrisos nas adversidades, nos celebra em cânticos e danças, nos impele à contemplação do nada no buraco de cada pedra, ou a abençoar vida sobre todas as matanças. Às estrelas que iluminam o nosso caminhar, às que foram e hão-de voltar, à luz que há-de eternamente brilhar.
Elsa Bettencourt

(Na foto a sufragista, libertária e activista social Sylvia Prankhurst numa manifestação em Inglaterra no século XX)

segunda-feira, 6 de março de 2023

VIDA MILITAR




 Durante o tempo em que fui tropa, vivi sempre enrascado, como se diz em calão militar. Tudo me metia medo, os homens aos berros que ecoavam no quartel (era o Cibrão na secretaria); castigo para um lado, castigos para o outro; e as coisas negras, feias, agressivas, a parada, a caserna, as retretes. Levo para a cova a imagem daquelas retretes, como uma das coisas mais infames que conheci na vida. O inferno deve ser uma retrete de soldado em ponto maior...


Raul Brandão in "Vale de Josafat"

terça-feira, 21 de fevereiro de 2023

O ESQUECIMENTO DO SILÊNCIO

 


Talvez alguém se tenha esquecido de apagar a luz à saída. Talvez… É bem possível, mas não me lembro. Talvez alguém tenha dito ou ouvido alguma coisa antes da cidade ter ficado deserta, sem carros e sem pessoas. Só as luzes das ruas ficaram acesas para melhor iluminar a solidão urbana, os restos de uma chuva miudinha acabada de cair, os brilhos nocturnos que funcionam como pequenos espelhos, fragmentos invertidos, outra realidade. Talvez…

Talvez tudo isto não passe de um sonho, uma piada de mau gosto como muitos sonhos costumam ser. Mas se assim é deixemo-nos levar, aproveitar a viagem e explorar. Pode ser que se encontre algum bar aberto e não ter que pagar as bebidas. Pode ser que o peso do silêncio acabe por revelar alguma coisa. Pode ser que se consiga tirar algum proveito deste cenário imenso onde a única forma de movimento sou eu.

Se todos se foram embora é porque devem ter ido para algum lado. E por que caminho terão seguido? Pelo mar? Pelas estradas que saem da cidade?

Seja como for esqueceram-se de apagar a luz, esqueceram-se dos prédios, das ruas, esqueceram-se em suma. O que me leva a crer que foi uma partida apressada provocada por um medo qualquer. Mas as ruas continuam calmas, as luzes acesas e os carros estacionados.

A claridade da manhã começa a dar sinais. A noite vai partindo enquanto a cidade se ilumina com a luz natural. Até eu me começo a ver em espaços de transparência. Daqui  pouco já é dia e nada aconteceu a não ser o silêncio universal que dá à cidade um ar de transcendência. Para onde foi toda a gente? Não quero saber. Aproveito a sensação de vazio, ouço atentamente a voz do silêncio, saúdo em paz o dia que vai nascer.

Esqueceram-se de apagar a luz à saída e eu esqueço-me aos poucos de mim mesmo. O silêncio envolve-me como uma capa confortável. A luz vai aumentando, vai dando sentido a tudo o que nunca significou nada antes.

Aos poucos tudo parece encaixar-se numa razão absoluta e óbvia se bem que não consiga perceber nada daquilo que se está a passar. Flutuo, caminho no ar. Passo pela minha casa que fica no quinto andar e espreito pela janela da sala. Parece que me fui embora dali e deixei a luz por apagar…

 

Artur


(Imagem de Luis Pereira)

domingo, 12 de fevereiro de 2023

sábado, 11 de fevereiro de 2023

A TERRA TREME


 

A terra treme debaixo das solas do meu pisar.
Talvez do sobrado fraco, alicerçado há demasiado tempo para ser forte, ela treme magoada pela inconstante batida do músculo humano.
A terra treme debaixo das solas do meu pisar em ribombares tão surdos como estrondosos.
Talvez pelos alicerces desgastados da sobranceira caminhada dos ambiciosos, ela treme no ritmo compassado duma quase dança, duma quase valsa, duma ciranda intrépida sobre o terreiro dos amados.
Sobre os escombros do passado caminho.
Se a um passo me lembro, ao próximo esqueço.
O sol desponta no horizonte de mais um dia e eu agradeço.

Elsa Bettencourt

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2023

TEMPOS SUSPENSOS (A ESTAÇÃO)

 

O Tempo nunca passa duas vezes no mesmo lugar. Corre apressado pelo caminho que só ele conhece e deixa-nos para trás acompanhados por sombras e recordações. Antes tem ainda espaço para montar um cenário, vender-nos um bilhete em forma de idade e apresentar o espectáculo para cada dia. As emoções embarcam na montanha russa e vão subindo e descendo pelos cantos do nosso ser à medida que o desgastam, enfraquecem, envelhecem, aniquilam.

Uma estação onde apanhamos o transporte todos os dias. Para o trabalho, para visitar parentes, para férias, para partir de vez. E de cada vez o tempo é outro, é sempre outro seja pela estação do ano, pelo momento histórico, pela fase da nossa existência. Uma estação onde nos despedimos dos pais a caminho de uma guerra ou recebemos os netos para o Natal. Uma estação onde vimos partir quem nunca mais voltaríamos a ver ou desembarcámos felizes por estar de volta na nossa cidade.

Uma estação, paredes, comboios, anúncios em alto-falantes, painéis de horários, um relógio enorme no centro do átrio principal e gente, multidões de gente a correr em todas as direcções. Como o Tempo, cada uma com o seu destino, apressado, atrasado, controlado pelo relógio.

E a estação sempre igual, o mesmo espaço seja qual for o tempo. Sombras esgueiradas das paredes, vultos que espreitam nas esquinas, restos de cenários empilhados uns sobre os outros, memórias que sobem e descem pelos cantos, novilhos perdidos da manada.

Estação, um espaço que respira vários tempos, que mastiga estações do ano e momentos históricos, sempre igual. Armazém de memórias e épocas, ponto de encontro, de partida, regresso ou despedida.

O Tempo corre apressado todos os dias pelos corredores da estação sem voltar atrás. Nunca é o mesmo, nunca fica parado a não ser no espaço da estação que o recebe, regista e arquiva.

O Espaço é o biógrafo do Tempo…

 

Artur