quinta-feira, 9 de fevereiro de 2023
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2023
TEMPOS SUSPENSOS (DOIS HOMENS E UM BANCO)
Vamos ficar aqui só um pouco, sem falar, a olhar para a
água. Vamos suspender o Tempo e respirar sem pressa, esquecer tudo o que nos
atormenta, vamos ficar aqui só um pouco, secos de palavras, a ouvir o murmúrio da
brisa a acariciar o mar. O enfermeiro está noutra parte do hospital envolvido
com outras tarefas. Só volta daqui a um bocado, quando o nosso tempo suspenso
terminar. Não tenhas medo. Dei-lhe uma nota para se fazer oculto e, com o olhar
dei-lhe a entender que, se se armasse em atrevido, dava-lhe um enxerto.
Ajuda-me a fumar isto para ajudar o Tempo a ficar parado como quando nos escondíamos
na casa de banho da escola no intervalo antes da última aula. Não tenhas medo,
não há razão nenhuma para ter medo. Nunca houve. Nós é que pintámos os cenários
todos do medo e da angústia sem perceber. Por isso é tão importante suspender o
tempo, pegar no medo e pendura-lo num varal de roupa para deixar de nos
atormentar. Se tudo vai dar ao mesmo, se tudo termina como eu e tu, o medo
nunca existiu. Eram criações nossas vestidas de solidão e mágoa que desfilavam
no palco da existência para nos distrair, afastar do essencial. O essencial que
somos nós e uma história, uma longa história escrita nas páginas dos dias. Por
isso vamos ficar aqui durante a tarde a observar a água e o vento que baila
nela. Pode ser que até reparem em nós e queiram conversar. Dizer-nos que não há
morte nem medo, apenas a eternidade. Ou continuar entretidos no seu bailado até
chegar a noite. Vamos suspender o tempo por um instante como se nada mais
houvesse além deste banco, além de nós, do vento e do mar. Não ligues o oxigénio
antes de eu apagar esta merda para não explodirmos apesar de algumas vezes ter
sido essa a nossa vontade. Fica. Deixa-te estar por aí mesmo quando já tiveres
ido embora e diz ao mar por onde andas para que eu te possa ouvir. Enquanto
puder vou voltar todas as semanas e vou sentar-me aqui a falar contigo, a fumar
um, a suspender o Tempo. Enquanto me lembrar vou ficar aqui ao fim da tarde a
ouvir o barulho do vento a acariciar a água. Até ser a minha vez de mandar o
medo ficar oculto, dar-lhe uma nota e prometer-lhe um enxerto se ele não
cumprir a sua parte.
Vamos ficar só um pouco por aqui e suspender o tempo
recordando que houve uma história de que eu e tu fizemos parte. Uma história
que qualquer dia será pouco mais que nada. A história de dois amigos que não
tiveram medo. A história única de dois seres que só um banco, o vento e o mar
conseguirão contar, porque só eles são capazes de suspender o Tempo antes da
noite chegar.
Artur
Foto de Luis Pereira
domingo, 5 de fevereiro de 2023
sábado, 4 de fevereiro de 2023
TEMPOS SUSPENSOS (DOIS PÁSSAROS E UMA ÁRVORE)
Dois pássaros numa árvore enquanto a tarde termina e o frio
ganha espaço para ocupar a noite escura. Dois pássaros a sondarem espaços
escondidos, minhocas distraídas, um buraco onde se possam abrigar. Dois
pássaros, uma árvore e um tempo único parado no instante de um breve universo.
Verificam-se planos de voo intervalados por pios sinalizadores da rota a seguir.
Evocam-se memórias do ninho, do tempo em que tudo se resumia a esperar. Esperar
pelo Sol, esperar pela comida, esperar pelo primeiro dia da saída para a aprendizagem
do voo e o salto para outro mundo. Dois pássaros e uma árvore num instante
breve ao fim da tarde. E no entanto, apesar do frio, apesar da fome, apesar da
incerteza…cantam…ou piam. Cantam como quem domina uma linguagem, um tipo de
comunicação que liga dimensões, universos distantes. Cantam ao fim da tarde
empoleirados em galhos frágeis de árvores embalados pelo vento. Cantam num instante
perdido no tempo antes que a noite caia implacável e escura e o voo nocturno se
torne uma barreira muito mais árdua quase impossível. Cantam enquanto procuram
sobreviver, esconder-se por umas horas antes de nascer o dia e voltar a fazer
tudo outra vez. Cantam porque estão vivos na sua teimosia em continuar. Cantam
enquanto puderem antes que uma rajada de vento ou um vírus ou um gato mais expedito
lhes vier acabar a cantoria.
Dois pássaros numa árvore enquanto o dia vai chegando ao fim
capturados pelo instante que é uma vida inteira. Cantam juntando as pontas de
vários mundos, cantam para sinalizar a rota seguinte do seu voo. Cantam porque
estão vivos e celebram a vida no instante único em que pousam no galho de uma
árvore embalado pelo vento. Cantam…simplesmente.
Artur
sábado, 28 de janeiro de 2023
DO JEJUM E DA RAIVA REDONDA.
sexta-feira, 27 de janeiro de 2023
Papas-Tudo
Fruto dos tempos, ultimamente sobra-me tempo para pensar e “despensar”. A propósito de tudo e de nada, o limite está a transbordar de tanta papa que nos é dada com uma colher de pau gigante. E se não entra por cima, querem que entre por baixo, ou por onde a consigam enfiar.
Enquanto é enfiada e não é enfiada, magico na mágica negra da coisa e ainda…
No papa-palco.
No papa.
No palco.
Nos papas-tudo.
Nos palcos da vida.
Nos artistas (nesses e nos verdadeiros)
Nos inchados de coragem que com voz fininha, dizem que dão o peito às balas, agarradinhos ao escudo (ou euro) dos outros e de todos nós.
No bispo auxiliar que sem afastar o cálice, ficou muito magoado quando soube do valor do palco.
(E já agora… nos directores que quando sabem que foram nomeados, vão aflitos para o gabinete da CEO chorar).
Na ostentação de uma entidade caridosa, que não põe um cêntimo no palco patrocinado pelo dinheiro público de um estado laico.
Nos papas-tudo.
Nos que decidem corajosamente com o dinheiro dos outros e do nosso.
No presidente.
No primeiro ministro.
No presidente da câmara.
Nos vereadores.
Na alarvice disfarçada.
Nos papas-tudo.
Numa sequência de ministros, secretários de estado e afins.
Nos papas-tudo.
Na oposição.
Nos papas-tudo.
Nos funcionários da limpeza do município de Lisboa que têm dificuldade em fazer face ao aumento da prestação da casa.
Nos funcionários da limpeza do município de Lisboa que têm dificuldade em fazer face ao aumento do custo da energia.
Nos funcionários da limpeza dos outros municípios que têm dificuldade em fazer face ao aumento da prestação da casa.
Nos funcionários da limpeza dos outros municípios que têm dificuldade em fazer face ao aumento do custo da energia.
Nos outros contribuintes do município de Lisboa que têm dificuldade em fazer face ao aumento da prestação da casa.
Nos outros contribuintes do município de Lisboa que têm dificuldade em fazer face ao aumento do custo da energia.
Nos outros contribuintes dos outros municípios que têm dificuldade em fazer face ao aumento da prestação da casa.
Nos outros contribuintes dos outros municípios que têm dificuldade em fazer face ao aumento do custo da energia.
Na miséria envergonhada.
Nos papas-tudo.
Na pouca vergonha.
Nos papas-tudo.
Na inimputabilidade.
Nos papas-tudo.
Na impunidade.
Nos papas-tudo.
No que o Papa Francisco pensará dos €35.000.000,00 gastos na festa a que vem a Lisboa, onde os lugares sentados estão reservados ao alto clero, pagos de pé pelo povo que trabalha, que ao longe aplaude, acena e sorri.
Nos papas-tudo.
Na puta da ilusão.
Hélder Martins
sábado, 21 de janeiro de 2023
DAQUIDAILHADENTRODAILHA
terça-feira, 3 de janeiro de 2023
É PRECISO QUE TUDO MUDE
A tarde ia a meio, o Sol descia pela abertura da porta dando
aquele espaço um brilho que nunca lhe pertenceu. À volta da mesa os reformados batiam
as cartas sobre a mesa de mármore amolecida pelas poças do tempo e do vinho. Atrás
do balcão o dono inclinava a cabeça na direcção da televisão enquanto desenhava
círculos esquecidos com o pano sujo. Às vezes lá fora o ruído de um carro, ou
de uma mota. Às vezes lá fora uma mensagem do futuro em forma de anúncio. Outras
vezes na televisão em enquadramentos de promessas. E depois, tudo a regressar
ao interior daquela taberna, a mesma taberna de sempre. Escura, húmida e velha
como a maioria das vidas que por lá passavam. As promessas de dias melhores às
vezes passavam por ali mas ninguém fazia caso delas. De uma maneira ou de outra
voltava tudo a ser como era… como sempre tinha sido. Quando uma nuvem negra
desaparecia a televisão vomitava outra nova, baldes de medo e ansiedade eram
despejados todas as semanas e esses demoravam sempre mais tempo a passar.
Guerra, doenças, instabilidade, economia, impostos, crime, catástrofes em
geral. Ao fim de algum tempo ganhava-se imunidade a tudo aquilo. Ficava-se mais
velho, mais sábio, mais corajoso, mais indiferente. Um jogo de cartas com os
amigos, uns copos de tinto, ou umas bagaceiras valentes nos dias mais frios. A
velhice tornava os homens de tal maneira sábios que se esqueciam das próprias
maleitas, tendo às vezes que cansar a memória de forma prolongada até se
conseguirem lembrar em que parte do corpo tinha sido a última dor que os levou
ao médico. Uma vez por outra alguém deixava de aparecer. Sentia-se uma falta,
desfiava-se uma recordação e semanas depois não se voltava a falar nisso. Outro
viria preencher o lugar à mesa das cartas e do vinho. A televisão continuaria
acesa ininterruptamente a um ponto de já ninguém se conseguir lembrar quando é
que tinha sido comprada . Naquela tasca não
mudava nada a não ser o tempo, a sucessão das estações, o tempo de cada um
desde que começava a frequentar o estabelecimento até deixar de o fazer. O
resto continuava eterno e sem grandes variações. Havia o tempo dos homens e
havia o tempo do resto…que era sempre o mesmo. Várias vezes se sentia a
necessidade de mudar mas era apenas uma necessidade, nada mais do que isso.
Ninguém lhe dava muita importância. As necessidades são como gemidos breves libertados
pelo sono, ansiedades que não se conseguem perceber. Na tasca onde por vezes
era preciso que tudo mudasse, tudo acabava por mudar para que tudo pudesse
ficar na mesma.
Artur
sexta-feira, 23 de dezembro de 2022
domingo, 18 de dezembro de 2022
AFINIDADES
São muito pouco conhecidas as relações entre Albert Camus e André Malraux, ofuscadas pela muito comentada e analisada até à exaustão extraordinária relação de amizade entre Camus e Jean-Paul Sartre e a ainda mais comentada ruptura entre os dois, provocada pela publicação de "O Homem Revoltado". A obra "Correspondance 1941-1959" vem por isso preencher essa lacuna. Trata-se de uma edição da NRF Gallimard de 2016 e, como é habitual nessa chancela, é de uma sobriedade total: limita-se a reproduzir a correspondência trocada entre os dois entre 1941 e 1959, exarando algumas notas de rodapé que enquadram as missivas trocadas no seu contexto histórico e nos respectivos percursos biográficos, deixando para o leitor a interpretação literal daquilo que uniu essas duas personalidades ímpares do século XX europeu. Agradecemos que assim seja, que sejamos livres para traçarmos o retrato dessas relações a partir das palavras dos próprios. Sophie Doudet, que organizou e apresenta a correspondência, limitou-se a organizá-la cronologicamente e, como já disse, a enquadrar o contexto em que ela ocorre, apresentando, isso sim, uma bibliografia que permite ao leitor, se assim o desejar, aprofundar o conhecimento da biografia e obra dos escritores.
A primeira coisa a reter é o papel fundamental desempenhado por Malraux na entrada de Camus na Gallimard e na publicação conjunta de "O Estrangeiro" e de "O Mito de Sísifo". Sabe-se que Camus prezava acima de tudo a triangulação que consistia em, sobre um determinado tema, escrever uma obra de ficção, um ensaio e uma peça de teatro. E sabe-se também que Gaston Gallimard não estava muito pelos ajustes na publicação do ensaio filosófico de um jovem a quem não reconhecia profundidade e sistematicidade suficientes para que as suas elaborações filosóficas tivessem bom acolhimento no ambiente da França ocupada e em grande tumulto. Já quanto ao romance era diferente: a recomendação de Malraux e de outros intelectuais de peso garantia a repercussão dessa obra inicial que inaugurava uma das mais extraordinárias aventuras do pensamento e da arte do século XX. É assim que ficamos a saber que Malraux recebeu um exemplar de "O Mito" com uma dedicatória que rezava:
"À André Malraux avec l'admiration et l'amitié d'Albert Camus"
É importante referir que Malraux é mencionado quatro vezes no ensaio sobre o Absurdo, o que atesta a admiração que Camus tinha por ele e também a amizade que o mais jovem sempre dedicou aquele que considerava como seu mestre. E, no entanto, e na verdade, o que poderia unir esses dois homens cujas vidas não poderiam diferir mais ? Malraux nasceu em Paris no seio da burguesia endinheirada, filho de uma civilização que depressa vai descobrir que é mortal. Quando Malraux parte para a Ásia e dá início a uma série quase inacreditável de aventuras, Camus é ainda uma criança pobre na Argélia francesa e quando "A Condição Humana" obtém o Prémio Goncourt de 1933, este último é um jovem estudante prometedor que, mais tarde, irá adaptar ao teatro "Le Temps du Mépris", e que, ainda não tendo publicado nada se vai medir com uma personalidade que ombreia com Dostoievski, Proust, Gide e com a elite dos intelectuais franceses que gravitavam em torno da NRF. Portanto, tudo os distinguia: a origem social, os estudos que fizeram, a idade, a intervenção pública: em 1936, quando Camus organiza a representação colectiva "A Revolta das Astúrias", que precede em muito a publicação de "L'Espoir", Malraux é já o comandante da aviação estrangeira que combateu do lado republicano na Guerra Civil espanhola; Camus "apenas" militava civicamente em prol da justiça e da liberdade. Podemos imaginar a emoção de Albert quando desembarcou em Paris e assistiu à exibição de "Espoir - Sierra de Teruel", realizado por Malraux e com origem na sua experiência no combate espanhol, um Malraux símbolo da resistência anti-fascista e no auge da sua glória literária. O que é certo , e disso esta correspondência dá conta, é que Camus e Malraux se admiravam mutuamente e que foram desenvolvendo uma amizade sem mácula ao longo do tempo, apesar de divergirem séria e profundamente no que concerne às respectivas posições políticas depois da Libertação. Porque antes disso, e no essencial, estavam de acordo. E como não estariam ? Certamente Malraux, ele próprio empenhado na denúncia do colonialismo francês na Indochina, admirava a denúncia que Camus fazia do colonialismo francês no Norte de África nos artigos publicados no jornal "Alger Républicain".
Uma das mais extraordinárias trocas de correspondência entre os dois ocorre quando Albert Camus lhe pede autorização para adaptar ao teatro e encenar no Théâtre du Travail "Le Temps du Mépris". A resposta de Malraux é peremptória e definita, consistindo numa única palavra: "Joue !", sem sequer cuidar de saber em que termos Camus iria adaptar e encenar o seu texto. O que atesta o nível de confiança na integridade de Camus e na certeza de que combatiam o mesmo combate. Ainda não se tinham encontrado pessoalmente. Esse encontro dá-se, como já foi dito, por ocasião da estreia em Paris do filme de Malraux, portanto sob o signo do apoio à causa republicana espanhola e à defesa da República; ambos denunciam - com os meios e recursos que tinham à sua disposição - o golpe de estado franquista e não se cansaram nunca de condenar veementemente o miserável abandono, a terrível negligência a que a comunidade internacional votou a República espanhola. Essas duas vertentes da sua intervenção pública - denúncia do colonialismo e condenação do fascismo espanhol - acabariam por cimentar ainda mais a amizade e admiração mútuas. E Malraux nunca se esqueceu do que viu em Espanha: as acções dos conselheiros soviéticos, mais preocupados em esmagar as veleidades não ortodoxas dos anarquistas e outras facções de esquerda do que em combaterem os franquistas. Foi aí que começou a deixar de ser um "compagnon de route" do Partido Comunista. E nunca voltou a Espanha. Olivier Todd, um dos grandes biógrafos de Malraux (cf. "André Malraux - Une Vie", Paris, Gallimard, 2001) conta que em 1972 recusou desembarcar em Cádiz aquando de um cruzeiro que fez no Mediterrâneo. Camus, pelo seu lado, demitiu-se em 1952 da Unesco por a organização ter aceite a Espanha franquista no seu seio.
Passo por alto as relações entre eles durante a II Guerra Mundial e a Ocupação, período em que as cartas entre ambos se tornam raras por motivos óbvios. Interessará saber que, em 1943, Malraux foi decisivo na escolha de Camus e Sartre como jurados do Prémio Literário Pléaide, criado pela Gallimard e pela escolha de Camus como integrante do comité de leitura da Gallimard, cargo que ocupará até à sua morte em 1960; que Camus ajudou inúmeras vezes Malraux nas suas acções como resistente; que, no jornal "Combat", em 1944, fez titular a primeira página com o anúncio "André Malraux est vivant", depois de ter sido anunciada a sua captura pelos alemães e o seu fuzilamento. Ferido, capturado e evadido para continuar o combate. Camus escrevia:
"Nous n'avions jamais accepté la nouvelle de sa mort. L'amitié a son espérance et ses raisons plus fortes que la raison. Car il était, "il est", de nos amis et l'idée qu'il pouvait être tombé dans une lutte qui était la sienne et la nôtre depuis tant d'années, avant de connaître la victoire, cette idée nous serrait le coeur et nous remplissait d'amertume (...) Quelques semaines avant la Libération, Malraux nous quittait pour la dernière fois, sur le Pont Royal, les cheveux sur le front, la cigarette vissée au coin de la bouche et l'imperméable volant au vent de la Seine (...) Nous avons dit "Veillez sur vous" et Malraux riait".
Este e outros textos podem ser lidos na indispensável recolha "Éditoriaux et Articles d'Albert Camus 1944-1947", edição estabelecida por Jacqueline Lévi-Valensi, Paris, Gallimard, 2002.
Termino, sem terminar, referindo a última troca de correspondência e a última interacção entre os dois. Ocorreu em 1959, quando Malraux era Ministre des Affaires Culturels (um ministério da cultura criado por De Gaulle à altura e dimensão da figura de Malraux), já no fim do ano. Malraux conseguiu desenredar as teias burocráticas e financeiras para a atribuição permanente de uma sala de teatro parisiense a Albert Camus, para que este a gerisse administrativa e artisticamente com toda a liberdade. Já não houve tempo; Camus morria a 4 de Janeiro de 1960.
domingo, 11 de dezembro de 2022
NUM OUTONO DE TODAS AS FOLHAS
(Crónica de uma guerra qualquer)
A noite estava ainda fechada sobre a sua escuridão e o ar do
quarto era denso. Sentado aos pés da cama James olhava lá para fora através da
janela. Não tinha a certeza de ter acordado muito cedo ou se sequer tivesse
pregado olho. A chuva intensa das últimas horas tinha finalmente cessado, dando
lugar a um silêncio total, quase mágico. Envolvido no fumo do cigarro que lhe
ia ardendo entre os dedos estava incerto quanto ao que sentir. O seu pensamento
era vago tal como o olhar que, olhando, não conseguia ver nada, registar fosse
o que fosse. Deixou-se embriagar por instantes naquela atmosfera de vazio total
que o fazia sentir vagamente em paz. Os tempos eram pesados, a maior parte das
vezes incompreensíveis. A guerra tinha vindo como uma tempestade negra virar tudo
ao contrário. A vida das pessoas, o espaço vivido, e à medida que se instalou
foi toldando esperanças, interrompendo existências, eliminando expectativas.
Uma nova realidade passou a tomar conta dos dias obrigando todos a reformularem
os seus planos. A outrora promessa da arquitetura, especializada em restauro de
casas antigas, era agora um homem em uniforme dentro de uma hierarquia rígida
que recebia e cumpria missões de defesa do território do seu país tentando
abater o maior número de inimigos. Pelo menos voava, uma das actividades que dantes
mais prazer lhe dava nos tempos livres. Olhou para o lado onde Martha dormia
descontraída, indiferente à noite e ao mundo em geral. Lembrou-se da
intensidade das últimas horas vivida entre eles. Da loucura, da paixão bem como
da tremenda discussão no fim. Há cerca de três anos que se encontravam em
espaços escondidos, há três anos que desesperavam um pelo outro, há três anos
que se amavam apaixonadamente. James entendia que era hora de juntarem as suas
vidas. Martha, dez anos mais velha que ele, era casada. Amava-o mas não era
capaz de deixar o marido. Havia a sociedade, o contrato do casamento, as convenções
e mais um sem fim de razões que a prendiam. Não podia deitar tudo pela janela
fora por mais que gostasse dele. Um beco sem saída que James tolerava cada vez
menos. Se tudo tinha ficado virado do avesso com a guerra, se nada voltaria a
ser como dantes, para quê insistir em hábitos condenados a desparecer? Era
Martha que o amava, era Martha que não aguentava dois dias sem o ver, era
Martha que dormia despreocupada naquela cama ao seu lado… Mas era lady Clarence
que queria continuar a ser, era lady Clarence que se recusava a morrer para
deixar Martha livre de viver a sua vida com o homem que desejava.
Para James naquela noite tinha sido tudo dito. Daí para a
frente não tinha ainda uma ideia nítida do que iria fazer mas nada voltaria a
ser como antes. Tal como a varredura dos ventos de guerra que destroem uma
ordem e permitem que outra se erga sob as suas cinzas, a sua existência sofria
uma metamorfose sem desfecho previsível.
O que for, seria.
Levantou-se para apagar o cigarro no cinzeiro em cima da mesa
e viu o seu blusão de voo pendurado numa cadeira esquecida. Por cima,
entrelaçado, o cachecol branco de seda que ela lhe tinha oferecido no seu
último aniversário. Vestiu-se e vasculhou nos bolsos. Tirou um bloco de notas e
um pequeno lápis para fora e escreveu uma frase breve. Depois dobrou o cachecol
com muito cuidado e deixou-o sobre a mesa de cabeceira do lado dela. Arrancou a
folha onde tinha estado a escrever com um movimento seco, dobrou-a ao meio e
colocou-a sobre o cachecol. Observou o corpo dela meio destapado pela última
vez naquela noite. Uma perna pendurada para fora da cama, as costas livres, as
nádegas soltas. Martha emitiu um tímido gemido quando a empurrou levemente para
dentro e a tapou. De seguida aproximou- se dos seus lábios e beijou-a quase sem
lhe tocar para que continuasse a dormir.
Já cá fora sentiu o arrepio da madrugada nos ossos. Colocou
os óculos protectores e montou a motorizada que usava desde que se tinha dado
como voluntário para as fileiras. Empurrou-a com as pernas sem a ligar até
estar bastante longe da estalagem. Só depois o ruído do motor e o frio da
madrugada se tornaram seus companheiros de velocidade a caminho da base. Sem
saber porquê recordou a Biblioteca do pai, aquele espaço onde tinha passado
tantas tardes fascinado com os livros, os seus livros e os seus mistérios. Ali
tinha percebido a primeira noção de eternidade. E ali também a última conversa
com o pai que se ofereceu mais do que uma vez para lhe arranjar uma tarefa
menos perigosa, mais recuada da linha da frente. Com dois telefonemas resolvia
aquilo e não havia nenhuma razão para ele correr tantos riscos. Também se falou
de Martha mas o assunto foi rapidamente arrumado. James recusou a ajuda do pai.
Rupert, o irmão mais velho é que devia ser o alvo dessa protecção. Na qualidade
de mais velho tinha sido uma vida inteira preparado para suceder ao progenitor.
Ele não. Tinha trilhado o seu caminho e assim continuaria. Sem preparação para
Lord, sem formação para a actividade política, sem vocação nenhuma para
herdeiro. Ao fim de uma hora o pai compreendeu e acabou por aceitar as suas
razões. Concordava com elas sem o admitir, admirava-o sem o conseguir
expressar. Mas James conhecia-o, sabia ler nas esquinas das palavras que
ficavam a pairar no ar até aterrarem na lombada de um livro, uma vida inteira
depois de aprender a deixar as emoções tapadas. A sua despedida foi um enérgico
e seco aperto de mão onde os desejos de boa sorte e felicidades futuras ficaram
subentendidos. Como dois amigos de longa data. Quando os pais morressem era da
biblioteca que iria ter mais saudades.
Chegou com a primeira claridade da alvorada no horizonte. O
céu continuava escuro e a chuva ameaçava voltar outra vez em força. Ouviu o
briefing meio distraído, meteorologia, movimentos inimigos, previsões para
aquele dia em geral. Através da janela conseguia ver a cauda do seu avião
estacionado sobre a erva verde e húmida. Uma máquina extraordinária, fácil de
manobrar, suave e elegante. Com uma manutenção adequada podia fazer quase tudo
com ele. A previsão não era de grande actividade para aquele dia se bem que tudo
poderia mudar numa questão de minutos. No fim do briefing dirigiu-se à
cafetaria improvisada e decidiu-se por uma bebida quente. Além de Gilles, o
francês da esquadrilha que tinha já combatido nos céus de Espanha, James era o
único que preferia café quente ao chá tradicional daquelas paragens. Carrancudo e homem de poucas falas, Gilles
transportava sempre consigo um termos de café da Guiana. Convicto e destemido
dizia que o fascismo o tinha abatido uma vez e que não iria permitir que isso
se voltasse a repetir. Enquanto o dia ia nascendo trocaram algumas ideias
acerca da antevisão dos próximos tempos. Por enquanto estavam a aguentar o
ímpeto invasor, mas até quando? Se a América não se despachasse a entrar
rapidamente na guerra o seu esforço poderia não ser suficiente. Enquanto
falavam foram interrompidos pelo som da sirene estridente da base. Uma
esquadrilha de bombardeiros estava a caminho vinda de Leste. Com asas nos pés
todos os homens correram para os seus postos e em dez minutos toda a
esquadrilha estava no ar. Passada alguma turbulência o tecto das nuvens era
ultrapassado e o Sol iluminava o céu como se tivessem passado de um mundo para
outro. Ao fim de alguns minutos os aviões inimigos tinham sido avistados.
Seguiu-se mais uma batalha aérea, outra página do livro da Batalha de
Inglaterra. Enfrentaram primeiro uma barreira de caças inimigos. Depois foram
no encalço dos bombardeiros. Os aviões corriam em todas as direcções como
mosquitos ao som das explosões. Gilles acertou em cheio no depósito de um
bombardeiro inimigo, James contabilizou dois caças abatidos. Quando tudo
parecia estar a terminar, caça inimigo surgiu do lado do Sol e apontou ao seu
avião. Quando se apercebeu do que estava a acontecer já era tarde. O motor
tinha sido atingido, a seguir a hélice deixou de funcionar. Restava-lhe planar
para lugar seguro, perder rapidamente altitude e sair dali. Uma explosão
encheu-lhe o cockpit de fumo. Pelo rádio ainda teve tempo de ouvir o comandante
de esquadrilha aos gritos a dizer-lhe para saltar. James levantou um braço à
procura da alavanca para abrir a carlinga. Encontrou-a já a pique sobre o mar.
Tinha um minuto se tanto para conseguir sair e abrir o paraquedas com sucesso.
A mão continuou agarrada à pega de emergência. Não a abriu. Despenhou-se no mar
a uma velocidade vertiginosa que o mataria logo no impacto. A esquadrilha regressou
com menos três elementos naquela manhã. James passaria a número estatístico de
análise da batalha. Substantivo anónimo e colectivo no discurso político, herói
fantasma decorado com uma lápide e uma medalha. Mas James deixou de ser James
no momento em que o seu avião se despenhou no mar. Ou talvez porque o oceano o
reclamou tivesse deixado de pertencer a si próprio. Ou talvez nada em relação a
milhões de vidas que se encaminhavam numa direcção e que deixaram de ser só
porque alguma razão implacável as decidiu reclamar.
Martha acordou já a manhã ia alta. Espreguiçou-se e
sentou-se na cama. Olhou lá para fora a chuva que continuava sem fim. Relembrou
a noite anterior. A paixão e a conversa final. Pôs um robe por cima das costas
e acendeu um cigarro enquanto se dirigiu até à janela. Como se regressada de
uma longa viagem tentava alinhar as suas prioridades para os próximos dias.
Havia tanto para fazer que não sabia para onde se virar. James tinha partido
amuado mas era sua convicção que havia de lhe passar. A guerra dava cabo dos
nervos a todos. Era uma questão de tempo até se voltarem a encontrar. Ao mesmo
tempo que pensava isto sentiu um frio estranho alojar-se no peito, um tremor a
percorrer-lhe as costas como se alguém tivesse deixado uma janela aberta. Foi
quando se sentou de novo na cama que reparou no cachecol pousado na mesa de
cabeceira. Agarrou-o e encostou-o à cara sentindo ainda o cheiro dele. No chão
um pequeno papel dobrado chamou-lhe a atenção. Uma mensagem de despedida,
pensou, antes de o começar a ler. Abriu o papel
Se de alguma
forma quiseres honrar o tempo que estivemos juntos peço-te um último favor:
Nunca mais estejas com ninguém enquanto estiver a chover
James
sexta-feira, 9 de dezembro de 2022
HA
Dedicado à Matilde, minha querida filha e uma mente brilhante
Um destes dias, já não sei qual, fui à FLAD assistir ao lançamento do livro "Hannah Arendt - Uma Biografia" (Relógio d'Água, 2022) pela sua autora, a Prof. Samantha Rose Hill e lembrei-me que este blog estava a cometer uma enorme injustiça: se não me engano, nunca publicámos um texto sobre Hannah Arendt, uma das maiores pensadoras do século XX, cuja fecundidade de reflexão continua a ecoar em todos os problemas que se nos deparam, sejam eles de cariz político, sociológico ou filosófico. Talvez tenhamos feito referências esparsas à sua obra em outros textos, mas este é o momento de começar a preencher essa lacuna inadmissível. Não sendo eu um especialista no seu pensamento - não sou, aliás e ainda bem, especialista em nada - sou ainda assim um devoto leitor das suas obras e delas me tenho servido muitas vezes para me guiar no labirinto da contemporaneidade. E tenho, sobretudo, procurado compreender as suas posições e perspectivas em relação à acção política, sabendo que a filósofa o fez sempre a partir de um horizonte ético que se baseia sempre na interrogação primicial: como podem os homens agir em conjunto (portanto, política e publicamente) no sentido de expressarem o seu amor uns pelos outros e pelo mundo que habitam.
Não sendo, como já referi, um especialista no pensamento de Arendt, não procuro traçar um panorama completo desse pensamento, mas antes iniciar um série que se debruçará sobre aspectos da sua reflexão que se me oferecem como fundamentais, começando, como já adivinharam, pelo conceito de "amor mundi". Antes de me abalançar a tão arriscada tarefa, quero deixar uma nota introdutória que consiste em relembrar que, apesar dos tormentos pessoais que quase a fizeram colapsar (nomeadamente a sua fuga da Alemanha nazi, a sua fuga posterior de França quando esta foi invadida, a morte de Walter Benjamin, a sua chegada a Nova Iorque completamente desprovida de meios materiais, etc.) Hannah sempre foi uma pessoa com uma imensa alegria de viver e dotada de um incomensurável sentido de humor. E também quero assinalar que, apesar de ter estudado e convivido com os grandes peso-pesados da Filosofia do século XX - Martin Heidegger, Edmund Husserl, Karl Jaspers - manteve sempre uma enorme abertura de espírito e permanentemente procurou uma certa leveza que, sem prejudicar a profundidade, justeza e rigor do seu pensamento, a tornam mais próxima de nós, mais presente na nossa fragilidade e vulnerabilidade, mais ciente dos nossos erros e dos nossos fracassos. Em suma: mais humana.
Para início de conversa, relembro que a sua tese de doutoramento tem como título "O Conceito de Amor Em Santo Agostinho - Uma Reflexão Filosófica" (Instituto Piaget, 1997), texto no qual, distanciando-se da dimensão teológica, Arendt identifica e analisa uma das dimensões do conceito de "amor" em Agostinho: o princípio ético que vincula os homens uns aos outros e através do qual é possível formar comunidades. A questão, para a filósofa alemã consiste em determinar se esse conceito de amor é por si só capaz de gerar conexões sociais e determinar a acção política. Para o que aqui me traz, não me interessa desenvolver muito este tema, remetendo os eventuais interessados para a referida obra disponível numa excelente tradução e numa edição muito cuidada como é apanágio das edições do Instituto Piaget. O que me importa reter é a centralidade do conceito de amor em todo do pensamento de Arendt (desde esse texto de 1929) até ao seu fim. E também me importa assinalar que a apresentação que possa fazer do conceito de "amor mundi" ficará sempre aquém da complexidade e da profundidade da sua formulação.
Se, como diz Samantha Rose Hill, os sentimentos são perigosos em política, a solidariedade e o pensamento crítico são essenciais, teremos que concluir que o primeiro requisito é o de ver os outros tal como são, o que parece ser uma verdade banal, mas que já não o é tanto se reformularmos a expressão, acrescentando-lhe: "ver os outros tal como são, não em função do nosso próprio desejo ou a partir de uma concepção abstracta de mesmidade". O que Arendt visa acima de tudo (depois de ter analisado e desconstruído os dois tipos de amor que S. Agostinho concebia - o amor-desejo e o amor-memória - é o amor que ama o próximo e o mundo em toda a sua alteridade. E, provavelmente fruto das suas próprias experiências, amar o mundo significa amá-lo na sua totalidade, incluindo o sofrimento, a injustiça, a fealdade, a falta de verdade ,de justiça e de felicidade que, evidentemente, não são deste mundo.
O processo de Arendt é constituído por uma análise altamente sofisticada das patologias do amor, relembrando que o amor é muito mais do que o amado e o amante; há um mundo entre eles que tem que ser cuidado, num espaço político onde todos os actores estão presentes todo o tempo, interagindo e baralhando os dados de um sistema que só na aparência é robusto e eficaz. Na última obra que produziu - "A Vida do Espírito - Volume II Querer", Instituto Piaget, s.d.), Arendt volta a afirmar que o amor é o reconhecimento da alteridade dos nossos semelhantes e pré-condição para a criação do espaço político. Sublinhando que para Agostinho é o amor que transforma a vontade dividida, diz: "não existe uma afirmação mais forte de algo ou alguém do que amá-lo, ou seja, dizer: Quero que existas - Amo: volo ut sis".
É preciso, então, que voltemos a repensar esse conceito, para percebermos onde errámos, em que encruzilhada virámos na direcção errada, em que altura deixámos de ver com clareza e nos tornámos os autómatos da modernidade, os zombies da tecnologia, os arautos (mesmo que involuntários) da função, do empreendedorismo e de todas as outras barbaridades com que enfeitamos o nosso vazio existencial.
Aliás, deixo já aqui uma pista para um próxima abordagem do pensamento de Hannah Arendt:
Por que razão, depois dos grandes capítulos que se intitulam "Anti-Semistismo", "Imperialismo" e "Totalitarismo", termina "As Origens do Totalitarismo" com as seguintes palavras:
Mas o domínio totalitário como forma de governo é novo no sentido de que não se contenta com esse isolamento, e destrói também a vida privada. Baseia-se na solidão, na experiência de não se pertencer ao mundo, que é uma das mais radicais e desesperadas experiências que o homem pode ter.
A solidão, a sério ?
segunda-feira, 5 de dezembro de 2022
CRÓNICAS DE PASMAR E PEIXES POR AMANHAR
sábado, 26 de novembro de 2022
DA ESTUPIDEZ E DA IDEOLOGIA
I
DA ESTUPIDEZ
Nos dias de hoje, é muito comum ouvirmos expressões que têm como ponto de partida comum a denominada "honestidade intelectual" : "é preciso ser intelectualmente honesto"," por uma questão de honestidade intelectual", "a bem da honestidade intelectual", etc. Como todas as expressões linguísticas, e sobretudo aquelas que se tornaram chavões ou bordões, conviria esclarecer o seu sentido. Enfim, o que quer dizer "honestidade intelectual" ? Num primeiro nível (básico, muito básico), indicaria um acordo de princípio entre factos e discurso (ordum idearum, ordum rerum idem est). Mas, neste nível, com esta escassez de análise não chegamos a lado nenhum. Nietszche dizia que não existiam factos, mas apenas interpretações. Assim, a equação ficaria amputada de um dos seus termos. Num segundo nível, mais profundo - e por este me detenho - significaria um acordo da consciência consigo mesma. Aqui, estaríamos mais próximos de uma definição aceitável da tal "honestidade intelectual", desde que tal implicasse uma exteriorização da consciência, isto é, desde que ela fosse tornada pública e assim sujeita ao escrutínio dos vigilantes da honestidade, ainda por cima intelectual. O que, só por si, cria um paradoxo: sabe-se que os menos honestos dos seres humanos são justamente os intelectuais. Por outro lado, a honestidade é um valor sobrestimado, com um valor de mercado a que não corresponde nenhum valor seguro, nenhum depósito fiduciário.
Tudo isto para dizer que não é honestamente intelectual, ou intelectualmente honesto, dizer que o putin é louco, ou psicopata. Para além de fácil, tal explicação dos seus actos implicaria uma desresponsabilização que é injusta: um inimputável, por muito pernicioso e danoso que se revele, não é, de um ponto de vista jurídico, passível de ser perseguido e castigado de acordo com o código penal e, eticamente, é injusto aplicar-lhe penas correspondentes às aplicáveis a todos aqueles que são imputáveis. Assim para além de ser um político (?) pós-moderno e kitsch, o que ele é e digo-o sem medo das palavras, é um ser profundamente estúpido; ele é a Fossa das Marianas, o Evereste da estupidez. Com ele, a célebre frase de Einstein segundo a qual "há duas coisas infinitas: o universo e a estupidez humana e em relação ao universo não estou completamente certo" ganha um outro sentido. Assim como se aprofunda a resposta de Roland Barthes a um pedido de definição de estupidez, quando respondeu: "A estupidez é a euforia do lugar".
Para além disso, é um homem baixinho, com o complexo de o ser. As duas coisas (estatura e complexo) não se determinam necessariamente entre si. Ou seja, um homem baixinho não tem necessariamente que ser complexado; conheço alguns que não só não se importam de ser baixos, como ainda se agigantam quando as ocasiões o requerem. Ou seja, apesar da baixa estatura, estão à altura do que lhes acontece (passe o trocadilho). Não assim com o putinzinho; bombardear os outros, desfazer países, crivar de mísseis as populações civis, matar e tortura indiscriminadamente são outras tantas formas de acalmar o complexo da baixa estatura e a fealdade com que se olha ao espelho.
II
DA CLARIVIDÊNCIA
Em 1978, Alexander Zinoviev publicou em Paris um livro a que chamou "L'Avenir Radieux" (publicado em Portugal em 1987, pela D. Quixote, com o título "O Futuro Radioso"). Nessa altura, o pequeno putin ainda estava em Dresden a fingir que era um competente e patriótico espião ao serviço do KGB, e passeava pela "Democrática" Alemanha de Leste a sua baixa estatura e a sua ainda incipiente mas prometedora estupidez. Aquela que haveria de demonstrar na Chechénia, Geórgia, Síria e Ucrânia.
Zinoviev, por seu lado, construía uma poderosa fábula satírica, demolidora, sarcástica sobre o sistema soviético, representado em última instância pelos intelectuais: aqueles que estavam encarregados de demonstrar que a URSS era o melhor país do mundo, onde toda a gente exultava de felicidade e bem-estar, que o marxismo-leninismo era a única ideologia capaz de conduzir o homem à plenitude das suas faculdades e satisfazer todas as suas necessidades. Eram até encarregues de demonstrar que o país produzia tantos cereais que já não sabiam o que fazer deles (embora tivessem que comprar cereais ao Ocidente, pedinchando descontos e facilidades de pagamento). O que resulta numa demonstração prática da tese que acima enunciei e que liberta os intelectuais em geral, e os soviéticos em particular, de qualquer veleidade de honestidade (intelectual ou outra). O humor negro que pontua a obra resulta premonitório, assustadoramente premonitório. De entre as múltiplas personagens que vão comentando a situação, salienta-se um jovem poeta que vai escrevendo uns poemas satíricos sobre a sociedade soviética e os seus chefes. Obviamente, Zinoviev não conhecia o putinzinho, mas quem negará que este poema encaixa perfeitamente na personagem ?
O menor dos seus gestos é acontecimento histórico
O menor dos seus passos tem alcance mundial
Este teorizador não fez nada teórico
Nenhuma batalha foi ganha por este Marechal
Cada palavra que diz é revelação genial,
Sobre cada mistério um entender profundo
Uma evolução nova da doutrina final
Uma directiva sábia que dá a a todo o mundo
E o delírio eterniza-se de ano para ano
E ninguém tem coragem para dizer de caras.
Então não veêm que é um palhaço tolo,
Que só sabe fazer e dizer macacadas ?
III
DA IDEOLOGIA
Sabem os filósofos e sabemos nós o seguinte: existe uma distinção fundamental entre ideologia formal e ideologia real. E também sabemos que o cinismo não é um traço visível e marcante da natureza humana. O putinzito mostra-nos que é uma forma de ideologia que rege o seu comportamento. Na formação da sua personalidade o indivíduo pode chegar a esta ideologia se passar pelo conhecimento da verdade - coisa que o pequeno acha que aconteceu consigo, uma crença que decorre não da sua suposta psicopatologia, mas da sua estupidez, como espero ter demonstrado -, a escolha da sua posição - no caso deste pequerrucho, a posição ("a estupidez é a euforia do lugar") permite-lhe não só ter acesso aos meios para combater o seu complexo, como também lhe permite aceder aos bens tangíveis e materiais com que se tem vindo a locupletar com brio, ou, dito de outro modo, a roubar à vontade -, ou ainda pelo entorpecimento da sensibilidade emocional - esta última determinação está-lhe patente nas ventas; já vi barras de sabão-macaco com mais expressividade do que aquela face absolutamente desprovida de emoções. Tal significa, em última análise, que a ideologia do petiz - o cinismo, ou o ponto de vista do cão -não é uma ideologia real, mas uma reacção a um ideologia formal que, quando racional, o impediria de ser o que é. Este prognóstico, que não é minimamente arriscado, pois coincide necessariamente com os dados empíricos que temos disponíveis, pois, mesmo nas suas manifestações, digamos, mais "subtis", o homenzinho está sujeito às leis gerais da análise combinatória e da auto-conservação: retomando o título de um filme de Werner Herzog: "até os anões começaram pequenos".
Ainda mais: no caso deste homem pequenino, a ideologia formal (que ele tende a transformar em "oficial") é uma forma hipócrita, mas muito cómoda, que dissimula (pensa ele) aquilo que há de ignóbil na sua personalidade e que se resume aquilo que ele é e não ao que ele julga ser, o que significa que a sua monstruosa auto-afirmação e arrivismo (já pouco triunfante) alastram a toda a sociedade e poluem a vida comum, não só na Rússia, como no resto do mundo. Quando atrás disse que putin era um político pós-moderno, essa afirmação não foi fundamentada. Faço-o agora. A modernidade ensinou-nos que os indivíduos podem distinguir-se da massa que os gerou e da qual fazem parte e a considerarem-se assim valores intrínsecos. A história da civilização levou essa capacidade a um grau muito elevado. Por outro lado, a estrutura da nossa sociedade avança no sentido da despersonalização (total ou parcial). Desta tensão entre individuação e despersonalização decorrem, naturalmente, todas as formas monstruosas de auto-afirmação, de que o nosso pequenito constitui o clímax e que, sejamos intelectualmente honestos, não se distingue de todas essas nulidades que elevamos à categoria de génios, todas as intermináveis e insuportáveis auto-recompensas que permitimos a qualquer palhaço que se apresente bem vestido e bem falante, todos esses títulos que lhes atribuímos sem que minimamente os mereçam, em suma, todos aqueles a quem pagamos e recompensamos para que nos fodam a vida, todos aqueles gangsters que acabamos por dignificar e credibilizar são, todos sem excepção, pequenos putins sem as armas nucleares. Seria bom que refletíssemos um pouco mais sobre isto, sob pena de não percebermos que nenhum deles é uma personalidade; apenas querem ser percebidos como tal e essa percepção depende de nós mesmos, ou seja, depende de nós mesmos negar-lhes esse estatuto e mostrar-lhes que, tal como são, não podem ser percebidos como tal.
Como os eventuais leitores já perceberam, o putinzeco não é a face do Mal; não tem envergadura para tal (mais uma vez, peço desculpa pelo trocadilho involuntário).
sábado, 12 de novembro de 2022
CAMINHOS DE SILÊNCIO
Se insistirmos em falar com o passado, apesar de surdo e
distraído, há sempre um dia em que ele acaba por nos responder. Umas vezes não
dando a resposta que esperávamos, outras trazendo memórias tão óbvias que nunca
nos teriam ocorrido se não falássemos com ele.
Ao fim de uma vida intensa por esse mundo fora, repleta de
lugares e pessoas diferentes, Rodrigo viu-se de novo na sua cidade de sempre.
Mas a cidade já não era a mesma, tinha partes inteiras que não conseguia
reconhecer. As ruas estavam apinhadas de gente, trânsito, ruído. Não se
conseguia entrar normalmente num restaurante, numa loja, andar pela rua sem deparar
com multidões em todas as direcções como enxames de insectos. A cidade onde
sempre viveu definitivamente já não lhe pertencia. Vistas bem as coisas, se quisesse
colocar a questão de uma forma global, já nada lhe pertencia. Só ele a si
próprio e mesmo assim, temporariamente. Por isso falava com o Passado.
Lembrando-se, avaliando, julgando, mantendo um diálogo morno consigo enquanto o
conseguisse escutar. Interrogava-o nos livros que lia, chamava por ele nos
breves instantes antes de adormecer à noite, reconstruia memórias cheias de
espaços vazios que não conseguia preencher.
Decidiu mudar-se para uma casa no campo, herdada de uma tia
recentemente desaparecida, e estabelecer a partir daí a base dos seus dias. A
política de rescisões e despedimentos da empresa em situação económica difícil
permitiu-lhe um estatuto de pré-reforma devolvendo-lhe o tempo que nunca tinha
enquanto trabalhava. A profissão, a ex mulher, os filhos e até a cidade onde
sempre viveu já não lhe pertenciam, mas em contrapartida passou a ser dono do
seu tempo e da sua rotina. Uma nova ordem erguia-se sobre as cinzas de uma
ordem anterior. A velocidade abrandava, as obrigações diminuíam e os dias,
finalmente, pertenciam-lhe. Passou a dar longas caminhadas pelo campo fora, que
normalmente iam dar ao castelo onde tantas vezes brincou na sua infância
acompanhado pela Moody, uma “pastor alemão” de meia idade que o seguia como uma
sombra. Usando horários onde encontrasse menos visitantes entrava ou ao
amanhecer ou ao fim do dia. Depois escolhia um lugar para se sentar e ficava
por ali alguns minutos a contemplar o céu. Fechava os olhos e tentava imaginar o castelo em
outros tempos. As vozes dos habitantes, os cascos dos cavalos, o bater metálico
do ferreiro ao longe. Quase sem dar por isso passou a tirar uma fotografia do
interior das muralhas todos os dias. Ou de manhã ou ao entardecer. Depois à
noite seleccionava as melhores imagens e publicava-as num blogue que tinha construído
para o efeito. Em cada dia uma entrada. O Sol através das ameias, uma janela de
pedra aberta sobre o horizonte, tudo servia para preencher este seu novo hobby.
Foi após uma noite mal dormida que algo de novo aconteceu.
Levantou-se e saiu de casa pouco antes do amanhecer com a Moody atrás a farejar
todos os recantos do caminho, reclamando do sono interrompido e do pequeno-almoço
que ficou para mais tarde. Entrou no castelo quando o Sol já se fazia notar no
horizonte e subiu por umas escadas que levavam ao topo da muralha. Continuou a
andar até que encontrou a imagem daquele dia. O desenho de uma janela em
ruínas virada a Oeste estava ali, teimosamente erguida no vazio como último testemunho de uma
estrutura outrora completa, inteira. Esperou um pouco e preparou a câmara.
Deixou o Sol passar para a base do parapeito e disparou várias vezes. A meio
ouviu um rosnar da cadela mas não lhe ligou. Foi logo a seguir ao momento em
que julgou ver uma sombra, ou um vulto ou qualquer coisa do género do lado
superior esquerdo do enquadramento. Mais tarde já em casa ao rever as imagens
percebeu que não tinha sido só uma impressão. Era a sombra de uma cabeça de
mulher. Cabelos compridos e um resto de rosto. Resolveu ampliar, reenquadrou,
brincou com o contraste, inventou. No fim conseguiu construir um rosto sereno
de uma mulher nova, de cabelos ruivos e ondulados numa expressão tranquila. Um
sorriso meigo por baixo de um olhar doce, uma expressão de saudação a alguém
que reconhecia. Primeiro ficou curioso, depois deixou-se perturbar. Por fim
encarou tudo aquilo como uma viagem qualquer das muitas que tinham feito parte
da sua vida. Outros lugares, outras gentes, outras latitudes, outras
realidades. Talvez um soluço quântico do universo na hora de nascer o dia.
Talvez um encontro de impossibilidades que se tornou real numa fracção do
tempo. E que aconteceu, sobre isso não restavam dúvidas. A imagem registada e o
rosnar da cadela assim o indicavam.
Nessa noite sentiu um cansaço muito grande e resolveu
deitar-se cedo. Sonhou a noite toda, andou por várias paragens até que foi parar
outra vez ao castelo. Estava numa enorme sala de decoração medieval e envergava
uma capa branca. Estava cansado mas satisfeito. Ao fundo o dono do castelo
recebia a sua mulher após uma longa viagem. Nesse momento percebeu que aquela
mulher era a mulher que a tecnologia o havia ajudado a desenhar no computador.
O cabelo longo e ruivo, o sorriso meigo e a expressão tranquila. Observava toda
aquela cena apoiado na sua lança de cavaleiro. De repente a mulher notou a sua
presença. Olhou para ele e acenou com a cabeça sorrindo. E nesse instante
percebeu que a tinha escoltado até ali enquanto seu guarda pessoal. Que a sua
função era garantir a sua segurança ao longo daquela jornada. E por fim, percebeu
também pelo mexer dos lábios dela que lhe agradecia o seu empenho e a sua
tarefa que terminava naquele dia. Quando acordou decidiu transformar todo
aquele cenário numa breve alegoria. A de ter conduzido a sua existência até àquele
tempo e de ter desempenhado a sua tarefa de forma satisfatória. Pelo menos
havia alguém que lhe agradecia o esforço. Alguém que reconhecia o bom
desempenho da tarefa. Nem que esse alguém fosse um vulto indiferenciado ao
amanhecer que as várias modalidades da tecnologia transformassem numa
possibilidade real de um ser efectivo.
Artur

















