terça-feira, 1 de julho de 2008


JOYEUX NOEL
Christian Clarion
França, Alemanha, Reino Unido (2005)


Um desafio de futebol no meio de uma guerra seria um dos cenários mais improváveis de imaginar. No entanto, esse e outros acontecimentos menos ortodoxos ilustraram uma das partes mais caricatas da I Guerra Mundial, mais concretamente no Natal de 1914. Mas comecemos pelo princípio, pelas personagens. Nikolaus Sprink é um jovem tenor de sucesso na ópera de Berlim que vê a sua carreira subitamente interrompida pelo recrutamento para a guerra; Audebert, um jovem tenente do exército francês deixa para trás a mulher grávida numa região do Norte da França entretanto ocupada pelos alemães, o que o impede de ter notícias da família; Palmer, um padre anglicano escocês decide alistar-se e acompanhar o jovem Jonathan, que o costumava ajudar na missa, para o tentar proteger.
Começada no fim do Verão a “Grande Guerra Civil Europeia” está a entrar no seu primeiro Inverno. Com a chegada das primeiras neves aproxima-se a noite de natal, a primeira nas trincheiras, para milhares de homens longe de casa. Na noite escura os homens tentam compensar a tristeza da melhor forma possível. Acompanhados das gaitas de foles os homens do Corpo Expedicionário escocês começam a cantar canções de Natal. Do lado alemão o tenor Sprink resolve responder da mesma moeda. Timidamente, o mesmo Sprink decide colocar um abeto, símbolo natalício por excelência, na “terra de ninguém”. Aos poucos, alemães, escoceses e franceses vencem o medo e começam a sair de dentro das trincheiras. Em pouco tempo os oficiais dos vários exércitos combinam uma trégua para aquela noite que se irá prolongar pelo dia seguinte. Os homens trocam chocolate, champanhe, mostram as fotografias das famílias. Ergue-se um altar improvisado e Palmer celebra uma missa campal dedicada ao aniversário de Cristo. No dia seguinte, dia de Natal, a trégua é prolongada para que os corpos dos que ficaram na terra de ninguém possam ser resgatados e enterrados condignamente. Pelo meio há ainda tempo de organizar uma partida de futebol. Ao tomar conhecimento destes acontecimentos as altas patentes reagem com mão de ferro sobre toda aquela insubordinação. Há castigos, fuzilamentos por traição e, no caso dos alemães, envio forçado para a frente russa.
Baseado em documentos e testemunhos presenciais, este Natal aconteceu mesmo contrariando todas as regras e todas as lógicas que presidem à gigantesca carnificina que é qualquer guerra. O episódio é retirado do livro Batailles de Flandres et d’Artois 1914-1918, mais concretamente do capítulo L’incroyable Noel de 1914. Muito antes dos célebres motins de 1917, este episódio da noite de Natal de 1914 encerra em si apenas uma vontade: a de tréguas numa fase ainda pouco definida da guerra, funcionando enquanto elemento simbólico da loucura e da condição humanas, perdidas entre fogos civilizacionais. Homens comuns são retirados às suas vidas para servir com a própria vida uma quantidade de interesses que nada lhes dizem respeito. Decidido, discutido e ordenado nas suas costas os soldados limitam-se a seguir o curso previamente trilhado. No entanto, simbolicamente numa noite de Natal a sua humanidade vem ao de cima fazendo imperar por algumas horas a boa vontade solidária. Ao contrário da exploração e análise da crueldade (PATHS OF GLORY, Stanley Kubrick), ou da exibição do desperdício de uma geração inteira (A OESTE NADA DE NOVO), JOYEUX NOEL funciona aqui como uma pausa simbólica, um raio de lucidez que rasga por instantes a tirania das trevas, uma pausa no absurdo da loucura da carnificina. A simplicidade da sua história é reforçada pelo facto de ter sido contada por uma testemunha presencial. Além de premiado nos festivais internacionais de Valladolid e Leeds (2005), o filme foi também nomeado para o melhor Óscar de filme estrangeiro (2006), melhor filme de língua estrangeira dos prémios BAFTA (2006) além de várias nomeações para os Césares (óscares do cinema francês).

ARTUR

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