sábado, 25 de março de 2023

ROMEIROS


 


Vigésimo quinto dia do terceiro mes de dois mil e vinte e três.
Há quinhentos anos, entre a terra que tremia e a lava que escorria, tudo começou e acalmou a cada prece, a cada passo, dado com fé.
É impossível, mesmo sem credo, não nos sentirmos tocados pela pacificação que emana destes ranchos de romeiros que percorrem a ilha do Arcanjo nas sete semanas da quaresma.
Respondendo ao chamado do Filho percorrem as casas da Mãe. Rezam pelas almas dos seus e dos outros. Agradecem venturas e podem perdão, seguem cobertos por um xaile e um lenço de flores, com um saco ao ombro, um terço ao pescoço, outro na mão, e como apoio um bordão.
Com o pensamento e o coração nas romarias desta vida me recolho à concha da minha. São tempos de pesar, de trabalhar e aceitar o peso da cruz que se carrega até que seja leve, até que a alma se molde à sustentável medida de sermos como somos, sem artifícios nem desejos de queremos ser outros que não nós e com os dedos que apontam unidos aos outros em oração.


Elsa Bettencourt

quarta-feira, 8 de março de 2023

8 de MARÇO



 

 Oitavo dia do terceiro mês de dois mil e vinte e três

Às fêmeas das mátrias, às que escolheram sê-lo sem desígnio genético, às que deixaram de o ser apesar desse desígnio e sobretudo, acima de tudo, à nossa sensibilidade, à nossa resistência e à nossa fragilidade. À essência que nos designa acima de qualquer paradigma. À cumplicidade e à partilha de côdeas e tesouros. À nossa capacidade de transformar o terrível em belo ou o choro em gargalhada. À arte que nos compõe e nos desenha sorrisos nas adversidades, nos celebra em cânticos e danças, nos impele à contemplação do nada no buraco de cada pedra, ou a abençoar vida sobre todas as matanças. Às estrelas que iluminam o nosso caminhar, às que foram e hão-de voltar, à luz que há-de eternamente brilhar.
Elsa Bettencourt

(Na foto a sufragista, libertária e activista social Sylvia Prankhurst numa manifestação em Inglaterra no século XX)

segunda-feira, 6 de março de 2023

VIDA MILITAR




 Durante o tempo em que fui tropa, vivi sempre enrascado, como se diz em calão militar. Tudo me metia medo, os homens aos berros que ecoavam no quartel (era o Cibrão na secretaria); castigo para um lado, castigos para o outro; e as coisas negras, feias, agressivas, a parada, a caserna, as retretes. Levo para a cova a imagem daquelas retretes, como uma das coisas mais infames que conheci na vida. O inferno deve ser uma retrete de soldado em ponto maior...


Raul Brandão in "Vale de Josafat"

terça-feira, 21 de fevereiro de 2023

O ESQUECIMENTO DO SILÊNCIO

 


Talvez alguém se tenha esquecido de apagar a luz à saída. Talvez… É bem possível, mas não me lembro. Talvez alguém tenha dito ou ouvido alguma coisa antes da cidade ter ficado deserta, sem carros e sem pessoas. Só as luzes das ruas ficaram acesas para melhor iluminar a solidão urbana, os restos de uma chuva miudinha acabada de cair, os brilhos nocturnos que funcionam como pequenos espelhos, fragmentos invertidos, outra realidade. Talvez…

Talvez tudo isto não passe de um sonho, uma piada de mau gosto como muitos sonhos costumam ser. Mas se assim é deixemo-nos levar, aproveitar a viagem e explorar. Pode ser que se encontre algum bar aberto e não ter que pagar as bebidas. Pode ser que o peso do silêncio acabe por revelar alguma coisa. Pode ser que se consiga tirar algum proveito deste cenário imenso onde a única forma de movimento sou eu.

Se todos se foram embora é porque devem ter ido para algum lado. E por que caminho terão seguido? Pelo mar? Pelas estradas que saem da cidade?

Seja como for esqueceram-se de apagar a luz, esqueceram-se dos prédios, das ruas, esqueceram-se em suma. O que me leva a crer que foi uma partida apressada provocada por um medo qualquer. Mas as ruas continuam calmas, as luzes acesas e os carros estacionados.

A claridade da manhã começa a dar sinais. A noite vai partindo enquanto a cidade se ilumina com a luz natural. Até eu me começo a ver em espaços de transparência. Daqui  pouco já é dia e nada aconteceu a não ser o silêncio universal que dá à cidade um ar de transcendência. Para onde foi toda a gente? Não quero saber. Aproveito a sensação de vazio, ouço atentamente a voz do silêncio, saúdo em paz o dia que vai nascer.

Esqueceram-se de apagar a luz à saída e eu esqueço-me aos poucos de mim mesmo. O silêncio envolve-me como uma capa confortável. A luz vai aumentando, vai dando sentido a tudo o que nunca significou nada antes.

Aos poucos tudo parece encaixar-se numa razão absoluta e óbvia se bem que não consiga perceber nada daquilo que se está a passar. Flutuo, caminho no ar. Passo pela minha casa que fica no quinto andar e espreito pela janela da sala. Parece que me fui embora dali e deixei a luz por apagar…

 

Artur


(Imagem de Luis Pereira)

domingo, 12 de fevereiro de 2023

sábado, 11 de fevereiro de 2023

A TERRA TREME


 

A terra treme debaixo das solas do meu pisar.
Talvez do sobrado fraco, alicerçado há demasiado tempo para ser forte, ela treme magoada pela inconstante batida do músculo humano.
A terra treme debaixo das solas do meu pisar em ribombares tão surdos como estrondosos.
Talvez pelos alicerces desgastados da sobranceira caminhada dos ambiciosos, ela treme no ritmo compassado duma quase dança, duma quase valsa, duma ciranda intrépida sobre o terreiro dos amados.
Sobre os escombros do passado caminho.
Se a um passo me lembro, ao próximo esqueço.
O sol desponta no horizonte de mais um dia e eu agradeço.

Elsa Bettencourt

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2023

TEMPOS SUSPENSOS (A ESTAÇÃO)

 

O Tempo nunca passa duas vezes no mesmo lugar. Corre apressado pelo caminho que só ele conhece e deixa-nos para trás acompanhados por sombras e recordações. Antes tem ainda espaço para montar um cenário, vender-nos um bilhete em forma de idade e apresentar o espectáculo para cada dia. As emoções embarcam na montanha russa e vão subindo e descendo pelos cantos do nosso ser à medida que o desgastam, enfraquecem, envelhecem, aniquilam.

Uma estação onde apanhamos o transporte todos os dias. Para o trabalho, para visitar parentes, para férias, para partir de vez. E de cada vez o tempo é outro, é sempre outro seja pela estação do ano, pelo momento histórico, pela fase da nossa existência. Uma estação onde nos despedimos dos pais a caminho de uma guerra ou recebemos os netos para o Natal. Uma estação onde vimos partir quem nunca mais voltaríamos a ver ou desembarcámos felizes por estar de volta na nossa cidade.

Uma estação, paredes, comboios, anúncios em alto-falantes, painéis de horários, um relógio enorme no centro do átrio principal e gente, multidões de gente a correr em todas as direcções. Como o Tempo, cada uma com o seu destino, apressado, atrasado, controlado pelo relógio.

E a estação sempre igual, o mesmo espaço seja qual for o tempo. Sombras esgueiradas das paredes, vultos que espreitam nas esquinas, restos de cenários empilhados uns sobre os outros, memórias que sobem e descem pelos cantos, novilhos perdidos da manada.

Estação, um espaço que respira vários tempos, que mastiga estações do ano e momentos históricos, sempre igual. Armazém de memórias e épocas, ponto de encontro, de partida, regresso ou despedida.

O Tempo corre apressado todos os dias pelos corredores da estação sem voltar atrás. Nunca é o mesmo, nunca fica parado a não ser no espaço da estação que o recebe, regista e arquiva.

O Espaço é o biógrafo do Tempo…

 

Artur

 

 


segunda-feira, 6 de fevereiro de 2023

TEMPOS SUSPENSOS (DOIS HOMENS E UM BANCO)


 


Vamos ficar aqui só um pouco, sem falar, a olhar para a água. Vamos suspender o Tempo e respirar sem pressa, esquecer tudo o que nos atormenta, vamos ficar aqui só um pouco, secos de palavras, a ouvir o murmúrio da brisa a acariciar o mar. O enfermeiro está noutra parte do hospital envolvido com outras tarefas. Só volta daqui a um bocado, quando o nosso tempo suspenso terminar. Não tenhas medo. Dei-lhe uma nota para se fazer oculto e, com o olhar dei-lhe a entender que, se se armasse em atrevido, dava-lhe um enxerto. Ajuda-me a fumar isto para ajudar o Tempo a ficar parado como quando nos escondíamos na casa de banho da escola no intervalo antes da última aula. Não tenhas medo, não há razão nenhuma para ter medo. Nunca houve. Nós é que pintámos os cenários todos do medo e da angústia sem perceber. Por isso é tão importante suspender o tempo, pegar no medo e pendura-lo num varal de roupa para deixar de nos atormentar. Se tudo vai dar ao mesmo, se tudo termina como eu e tu, o medo nunca existiu. Eram criações nossas vestidas de solidão e mágoa que desfilavam no palco da existência para nos distrair, afastar do essencial. O essencial que somos nós e uma história, uma longa história escrita nas páginas dos dias. Por isso vamos ficar aqui durante a tarde a observar a água e o vento que baila nela. Pode ser que até reparem em nós e queiram conversar. Dizer-nos que não há morte nem medo, apenas a eternidade. Ou continuar entretidos no seu bailado até chegar a noite. Vamos suspender o tempo por um instante como se nada mais houvesse além deste banco, além de nós, do vento e do mar. Não ligues o oxigénio antes de eu apagar esta merda para não explodirmos apesar de algumas vezes ter sido essa a nossa vontade. Fica. Deixa-te estar por aí mesmo quando já tiveres ido embora e diz ao mar por onde andas para que eu te possa ouvir. Enquanto puder vou voltar todas as semanas e vou sentar-me aqui a falar contigo, a fumar um, a suspender o Tempo. Enquanto me lembrar vou ficar aqui ao fim da tarde a ouvir o barulho do vento a acariciar a água. Até ser a minha vez de mandar o medo ficar oculto, dar-lhe uma nota e prometer-lhe um enxerto se ele não cumprir a sua parte.

Vamos ficar só um pouco por aqui e suspender o tempo recordando que houve uma história de que eu e tu fizemos parte. Uma história que qualquer dia será pouco mais que nada. A história de dois amigos que não tiveram medo. A história única de dois seres que só um banco, o vento e o mar conseguirão contar, porque só eles são capazes de suspender o Tempo antes da noite chegar.

 

Artur

Foto de Luis Pereira


sábado, 4 de fevereiro de 2023

TEMPOS SUSPENSOS (DOIS PÁSSAROS E UMA ÁRVORE)


 


Dois pássaros numa árvore enquanto a tarde termina e o frio ganha espaço para ocupar a noite escura. Dois pássaros a sondarem espaços escondidos, minhocas distraídas, um buraco onde se possam abrigar. Dois pássaros, uma árvore e um tempo único parado no instante de um breve universo. Verificam-se planos de voo intervalados por pios sinalizadores da rota a seguir. Evocam-se memórias do ninho, do tempo em que tudo se resumia a esperar. Esperar pelo Sol, esperar pela comida, esperar pelo primeiro dia da saída para a aprendizagem do voo e o salto para outro mundo. Dois pássaros e uma árvore num instante breve ao fim da tarde. E no entanto, apesar do frio, apesar da fome, apesar da incerteza…cantam…ou piam. Cantam como quem domina uma linguagem, um tipo de comunicação que liga dimensões, universos distantes. Cantam ao fim da tarde empoleirados em galhos frágeis de árvores embalados pelo vento. Cantam num instante perdido no tempo antes que a noite caia implacável e escura e o voo nocturno se torne uma barreira muito mais árdua quase impossível. Cantam enquanto procuram sobreviver, esconder-se por umas horas antes de nascer o dia e voltar a fazer tudo outra vez. Cantam porque estão vivos na sua teimosia em continuar. Cantam enquanto puderem antes que uma rajada de vento ou um vírus ou um gato mais expedito lhes vier acabar a cantoria.

Dois pássaros numa árvore enquanto o dia vai chegando ao fim capturados pelo instante que é uma vida inteira. Cantam juntando as pontas de vários mundos, cantam para sinalizar a rota seguinte do seu voo. Cantam porque estão vivos e celebram a vida no instante único em que pousam no galho de uma árvore embalado pelo vento. Cantam…simplesmente.

 

Artur


sábado, 28 de janeiro de 2023

DO JEJUM E DA RAIVA REDONDA.



 

 

Vigésimo sétimo dia do primeiro mês de dois mil e vinte e três.
1º Só escrevo de manhã. Escrevo sobre os detritos dos acontecimentos que me trocam, seja a pena dum pássaro pequenino que os gatos não engoliram, a bosta da égua que varro debaixo das estrelas, o cidrão maior do meu quintal, as mudanças de ano, lugar ou humor, a minha tap e a minha gente, a minha ilha agora ou antigamente, e sobre o planeta que desta forma obtusa o estragam tão radicalmente.
2º Só escrevo em jejum. As palavras têm que circular entre a cabeça e o estômago livremente. Debatem-se e ajustam-se, encolhem e expandem-se. Ribombam nas entranhas como roqueiras de São João e adquirem a fonética do local onde se encontram seja qual for a pressão atmosférica.
3º Só publico aqui o que escrevo aqui. O que escrevo nos meus cadernos são outras estórias sobre pessoas e acontecimentos históricos que se cruzaram comigo da forma mais surreal possível. Chego muitas vezes a pensar que isto acontece por ser atenta ao ponto de não parecer ter nenhum tipo de atenção ou por um distúrbio fisiológico que nunca me foi diagnosticado.
4º Escrevi o primeiro ponto para chegar ao palco de todas as preocupações ou sobre o facto das pessoas se irritarem com assuntos cruzados. Exemplo- a prima da Maria perdeu a casa para o banco. A Maria tem a prima a viver lá em casa para não lhe acontecer o mesmo. A Maria perdeu o marido em 2020 com uma infecção respiratória e tem uma filha que precisa de cuidados permanentes por sequelas da mesma infecção. O José, marido da prima da Maria, trabalha nas obras a recuperar casas para o patrão que as vende a peso de ouro. A prima da Maria trabalha a dias em casa da ex mulher do patrão do José. A ex mulher não a declara à segurança social para não perder uma fatia da pensão de alimentos que o ex marido paga aos cinco filhos que estão num colégio particular. A Maria está a acabar o subsídio de desemprego e as refeições da casa são-lhe fornecidas por uma associação para quem ela está a costurar bandeiras para receber o papa.
A filha da Maria gostaria de ter a benção de sua santidade mas teme que o facto de ser russa seja um impedimento para chegar perto do palco quanto mais ser abençoada por ele.
A filha da Maria perdeu o pai e a saúde no ano em que lhe prometeram que ia ficar tudo bem. Vai ver tudo pelo telemóvel e receber as bênçãos pela internet. O presencial já não é tão importante assim e dizem-lhe que as epidemias vão voltar. Talvez ao fim do dia lhe tragam uma bandeirinha benta com promessas duma saúde melhor.
5º Escrevo nos bastidores de todas as preocupações. Ao fim do dia que já vai ficando mais longo, arregaço as mangas. A erva está alta, na cidade ao longe tenho mudanças para fazer e decisões para tomar. Se andar cinquenta metros para fora da porta tenho com que me alimentar, água para beber e ar para respirar. As preocupações não são coisas redondas mas têm todas um princípio e um fim. O egoísmo tem que tocar o altruísmo para nos podermos deitar sossegados na hora de ir dormir.
Que o fim da semana seja o princípio duma melhor e que as receitas do espetáculo não sejam para armas mas para resoluções de verdadeira fé.

Elsa Bettencourt

sexta-feira, 27 de janeiro de 2023

Papas-Tudo




Fruto dos tempos, ultimamente sobra-me tempo para pensar e “despensar”. A propósito de tudo e de nada, o limite está a transbordar de tanta papa que nos é dada com uma colher de pau gigante. E se não entra por cima, querem que entre por baixo, ou por onde a consigam enfiar.

Enquanto é enfiada e não é enfiada, magico na mágica negra da coisa e ainda…

No papa-palco.

No papa.

No palco.

Nos papas-tudo.

Nos palcos da vida.

Nos artistas (nesses e nos verdadeiros)

Nos inchados de coragem que com voz fininha, dizem que dão o peito às balas, agarradinhos ao escudo (ou euro) dos outros e de todos nós.

No bispo auxiliar que sem afastar o cálice, ficou muito magoado quando soube do valor do palco.

(E já agora… nos directores que quando sabem que foram nomeados, vão aflitos para o gabinete da CEO chorar).

Na ostentação de uma entidade caridosa, que não põe um cêntimo no palco patrocinado pelo dinheiro público de um estado laico.

Nos papas-tudo.

Nos que decidem corajosamente com o dinheiro dos outros e do nosso.

No presidente.

No primeiro ministro.

No presidente da câmara.

Nos vereadores.

Na alarvice disfarçada.

Nos papas-tudo.

Numa sequência de ministros, secretários de estado e afins.

Nos papas-tudo.

Na oposição.

Nos papas-tudo.

Nos funcionários da limpeza do município de Lisboa que têm dificuldade em fazer face ao aumento da prestação da casa.

Nos funcionários da limpeza do município de Lisboa que têm dificuldade em fazer face ao aumento do custo da energia.

Nos funcionários da limpeza dos outros municípios que têm dificuldade em fazer face ao aumento da prestação da casa.

Nos funcionários da limpeza dos outros municípios que têm dificuldade em fazer face ao aumento do custo da energia.

Nos outros contribuintes do município de Lisboa que têm dificuldade em fazer face ao aumento da prestação da casa.

Nos outros contribuintes do município de Lisboa que têm dificuldade em fazer face ao aumento do custo da energia.

Nos outros contribuintes dos outros municípios que têm dificuldade em fazer face ao aumento da prestação da casa.

Nos outros contribuintes dos outros municípios que têm dificuldade em fazer face ao aumento do custo da energia.

Na miséria envergonhada.

Nos papas-tudo.

Na pouca vergonha.

Nos papas-tudo.

Na inimputabilidade.

Nos papas-tudo.

Na impunidade.

Nos papas-tudo.

No que o Papa Francisco pensará dos €35.000.000,00 gastos na festa a que vem a Lisboa, onde os lugares sentados estão reservados ao alto clero, pagos de pé pelo povo que trabalha, que ao longe aplaude, acena e sorri.

Nos papas-tudo.

Na puta da ilusão.


Hélder Martins 

sábado, 21 de janeiro de 2023

DAQUIDAILHADENTRODAILHA


 



Chegar ao fim do dia com o trabalho feito, seja com a recolha do estrume da égua, com casa limpa ou terra semeada, é a mais pura das satisfações, como a folha branca dum poema por escrever. E pelo meio ajudar quem precisa, preparar o peixe que nos chega do mar, amassar o pão nosso de cada dia, um fio de azeite, dar graças e alegria. Chegar ao principio do dia de faina e de flora, abrir um frasco de doce de amora e pensar na doçura ou agrura como um presente que demora, na importância do agora.

Elsa Bettencourt