sábado, 25 de março de 2023
ROMEIROS
quinta-feira, 16 de março de 2023
quarta-feira, 8 de março de 2023
8 de MARÇO
Oitavo dia do terceiro mês de dois mil e vinte e três
segunda-feira, 6 de março de 2023
VIDA MILITAR
Durante o tempo em que fui tropa, vivi sempre enrascado, como se diz em calão militar. Tudo me metia medo, os homens aos berros que ecoavam no quartel (era o Cibrão na secretaria); castigo para um lado, castigos para o outro; e as coisas negras, feias, agressivas, a parada, a caserna, as retretes. Levo para a cova a imagem daquelas retretes, como uma das coisas mais infames que conheci na vida. O inferno deve ser uma retrete de soldado em ponto maior...
Raul Brandão in "Vale de Josafat"
terça-feira, 21 de fevereiro de 2023
O ESQUECIMENTO DO SILÊNCIO
Talvez alguém se tenha esquecido de apagar a luz à saída.
Talvez… É bem possível, mas não me lembro. Talvez alguém tenha dito ou ouvido
alguma coisa antes da cidade ter ficado deserta, sem carros e sem pessoas. Só
as luzes das ruas ficaram acesas para melhor iluminar a solidão urbana, os
restos de uma chuva miudinha acabada de cair, os brilhos nocturnos que
funcionam como pequenos espelhos, fragmentos invertidos, outra realidade.
Talvez…
Talvez tudo isto não passe de um sonho, uma piada de mau
gosto como muitos sonhos costumam ser. Mas se assim é deixemo-nos levar,
aproveitar a viagem e explorar. Pode ser que se encontre algum bar aberto e não
ter que pagar as bebidas. Pode ser que o peso do silêncio acabe por revelar
alguma coisa. Pode ser que se consiga tirar algum proveito deste cenário imenso
onde a única forma de movimento sou eu.
Se todos se foram embora é porque devem ter ido para algum
lado. E por que caminho terão seguido? Pelo mar? Pelas estradas que saem da
cidade?
Seja como for esqueceram-se de apagar a luz, esqueceram-se dos
prédios, das ruas, esqueceram-se em suma. O que me leva a crer que foi uma
partida apressada provocada por um medo qualquer. Mas as ruas continuam calmas,
as luzes acesas e os carros estacionados.
A claridade da manhã começa a dar sinais. A noite vai
partindo enquanto a cidade se ilumina com a luz natural. Até eu me começo a ver
em espaços de transparência. Daqui pouco
já é dia e nada aconteceu a não ser o silêncio universal que dá à cidade um ar
de transcendência. Para onde foi toda a gente? Não quero saber. Aproveito a
sensação de vazio, ouço atentamente a voz do silêncio, saúdo em paz o dia que
vai nascer.
Esqueceram-se de apagar a luz à saída e eu esqueço-me aos
poucos de mim mesmo. O silêncio envolve-me como uma capa confortável. A luz vai
aumentando, vai dando sentido a tudo o que nunca significou nada antes.
Aos poucos tudo parece encaixar-se numa razão absoluta e
óbvia se bem que não consiga perceber nada daquilo que se está a passar. Flutuo,
caminho no ar. Passo pela minha casa que fica no quinto andar e espreito pela
janela da sala. Parece que me fui embora dali e deixei a luz por apagar…
Artur
(Imagem de Luis Pereira)
domingo, 12 de fevereiro de 2023
sábado, 11 de fevereiro de 2023
A TERRA TREME
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2023
TEMPOS SUSPENSOS (A ESTAÇÃO)
O Tempo nunca passa duas vezes no mesmo lugar. Corre
apressado pelo caminho que só ele conhece e deixa-nos para trás acompanhados
por sombras e recordações. Antes tem ainda espaço para montar um cenário, vender-nos
um bilhete em forma de idade e apresentar o espectáculo para cada dia. As
emoções embarcam na montanha russa e vão subindo e descendo pelos cantos do
nosso ser à medida que o desgastam, enfraquecem, envelhecem, aniquilam.
Uma estação onde apanhamos o transporte todos os dias. Para
o trabalho, para visitar parentes, para férias, para partir de vez. E de cada
vez o tempo é outro, é sempre outro seja pela estação do ano, pelo momento
histórico, pela fase da nossa existência. Uma estação onde nos despedimos dos
pais a caminho de uma guerra ou recebemos os netos para o Natal. Uma estação
onde vimos partir quem nunca mais voltaríamos a ver ou desembarcámos felizes por
estar de volta na nossa cidade.
Uma estação, paredes, comboios, anúncios em alto-falantes,
painéis de horários, um relógio enorme no centro do átrio principal e gente,
multidões de gente a correr em todas as direcções. Como o Tempo, cada uma com o
seu destino, apressado, atrasado, controlado pelo relógio.
E a estação sempre igual, o mesmo espaço seja qual for o
tempo. Sombras esgueiradas das paredes, vultos que espreitam nas esquinas, restos
de cenários empilhados uns sobre os outros, memórias que sobem e descem pelos
cantos, novilhos perdidos da manada.
Estação, um espaço que respira vários tempos, que mastiga
estações do ano e momentos históricos, sempre igual. Armazém de memórias e
épocas, ponto de encontro, de partida, regresso ou despedida.
O Tempo corre apressado todos os dias pelos corredores da
estação sem voltar atrás. Nunca é o mesmo, nunca fica parado a não ser no
espaço da estação que o recebe, regista e arquiva.
O Espaço é o biógrafo do Tempo…
Artur
quinta-feira, 9 de fevereiro de 2023
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2023
TEMPOS SUSPENSOS (DOIS HOMENS E UM BANCO)
Vamos ficar aqui só um pouco, sem falar, a olhar para a
água. Vamos suspender o Tempo e respirar sem pressa, esquecer tudo o que nos
atormenta, vamos ficar aqui só um pouco, secos de palavras, a ouvir o murmúrio da
brisa a acariciar o mar. O enfermeiro está noutra parte do hospital envolvido
com outras tarefas. Só volta daqui a um bocado, quando o nosso tempo suspenso
terminar. Não tenhas medo. Dei-lhe uma nota para se fazer oculto e, com o olhar
dei-lhe a entender que, se se armasse em atrevido, dava-lhe um enxerto.
Ajuda-me a fumar isto para ajudar o Tempo a ficar parado como quando nos escondíamos
na casa de banho da escola no intervalo antes da última aula. Não tenhas medo,
não há razão nenhuma para ter medo. Nunca houve. Nós é que pintámos os cenários
todos do medo e da angústia sem perceber. Por isso é tão importante suspender o
tempo, pegar no medo e pendura-lo num varal de roupa para deixar de nos
atormentar. Se tudo vai dar ao mesmo, se tudo termina como eu e tu, o medo
nunca existiu. Eram criações nossas vestidas de solidão e mágoa que desfilavam
no palco da existência para nos distrair, afastar do essencial. O essencial que
somos nós e uma história, uma longa história escrita nas páginas dos dias. Por
isso vamos ficar aqui durante a tarde a observar a água e o vento que baila
nela. Pode ser que até reparem em nós e queiram conversar. Dizer-nos que não há
morte nem medo, apenas a eternidade. Ou continuar entretidos no seu bailado até
chegar a noite. Vamos suspender o tempo por um instante como se nada mais
houvesse além deste banco, além de nós, do vento e do mar. Não ligues o oxigénio
antes de eu apagar esta merda para não explodirmos apesar de algumas vezes ter
sido essa a nossa vontade. Fica. Deixa-te estar por aí mesmo quando já tiveres
ido embora e diz ao mar por onde andas para que eu te possa ouvir. Enquanto
puder vou voltar todas as semanas e vou sentar-me aqui a falar contigo, a fumar
um, a suspender o Tempo. Enquanto me lembrar vou ficar aqui ao fim da tarde a
ouvir o barulho do vento a acariciar a água. Até ser a minha vez de mandar o
medo ficar oculto, dar-lhe uma nota e prometer-lhe um enxerto se ele não
cumprir a sua parte.
Vamos ficar só um pouco por aqui e suspender o tempo
recordando que houve uma história de que eu e tu fizemos parte. Uma história
que qualquer dia será pouco mais que nada. A história de dois amigos que não
tiveram medo. A história única de dois seres que só um banco, o vento e o mar
conseguirão contar, porque só eles são capazes de suspender o Tempo antes da
noite chegar.
Artur
Foto de Luis Pereira
domingo, 5 de fevereiro de 2023
sábado, 4 de fevereiro de 2023
TEMPOS SUSPENSOS (DOIS PÁSSAROS E UMA ÁRVORE)
Dois pássaros numa árvore enquanto a tarde termina e o frio
ganha espaço para ocupar a noite escura. Dois pássaros a sondarem espaços
escondidos, minhocas distraídas, um buraco onde se possam abrigar. Dois
pássaros, uma árvore e um tempo único parado no instante de um breve universo.
Verificam-se planos de voo intervalados por pios sinalizadores da rota a seguir.
Evocam-se memórias do ninho, do tempo em que tudo se resumia a esperar. Esperar
pelo Sol, esperar pela comida, esperar pelo primeiro dia da saída para a aprendizagem
do voo e o salto para outro mundo. Dois pássaros e uma árvore num instante
breve ao fim da tarde. E no entanto, apesar do frio, apesar da fome, apesar da
incerteza…cantam…ou piam. Cantam como quem domina uma linguagem, um tipo de
comunicação que liga dimensões, universos distantes. Cantam ao fim da tarde
empoleirados em galhos frágeis de árvores embalados pelo vento. Cantam num instante
perdido no tempo antes que a noite caia implacável e escura e o voo nocturno se
torne uma barreira muito mais árdua quase impossível. Cantam enquanto procuram
sobreviver, esconder-se por umas horas antes de nascer o dia e voltar a fazer
tudo outra vez. Cantam porque estão vivos na sua teimosia em continuar. Cantam
enquanto puderem antes que uma rajada de vento ou um vírus ou um gato mais expedito
lhes vier acabar a cantoria.
Dois pássaros numa árvore enquanto o dia vai chegando ao fim
capturados pelo instante que é uma vida inteira. Cantam juntando as pontas de
vários mundos, cantam para sinalizar a rota seguinte do seu voo. Cantam porque
estão vivos e celebram a vida no instante único em que pousam no galho de uma
árvore embalado pelo vento. Cantam…simplesmente.
Artur
sábado, 28 de janeiro de 2023
DO JEJUM E DA RAIVA REDONDA.
sexta-feira, 27 de janeiro de 2023
Papas-Tudo
Fruto dos tempos, ultimamente sobra-me tempo para pensar e “despensar”. A propósito de tudo e de nada, o limite está a transbordar de tanta papa que nos é dada com uma colher de pau gigante. E se não entra por cima, querem que entre por baixo, ou por onde a consigam enfiar.
Enquanto é enfiada e não é enfiada, magico na mágica negra da coisa e ainda…
No papa-palco.
No papa.
No palco.
Nos papas-tudo.
Nos palcos da vida.
Nos artistas (nesses e nos verdadeiros)
Nos inchados de coragem que com voz fininha, dizem que dão o peito às balas, agarradinhos ao escudo (ou euro) dos outros e de todos nós.
No bispo auxiliar que sem afastar o cálice, ficou muito magoado quando soube do valor do palco.
(E já agora… nos directores que quando sabem que foram nomeados, vão aflitos para o gabinete da CEO chorar).
Na ostentação de uma entidade caridosa, que não põe um cêntimo no palco patrocinado pelo dinheiro público de um estado laico.
Nos papas-tudo.
Nos que decidem corajosamente com o dinheiro dos outros e do nosso.
No presidente.
No primeiro ministro.
No presidente da câmara.
Nos vereadores.
Na alarvice disfarçada.
Nos papas-tudo.
Numa sequência de ministros, secretários de estado e afins.
Nos papas-tudo.
Na oposição.
Nos papas-tudo.
Nos funcionários da limpeza do município de Lisboa que têm dificuldade em fazer face ao aumento da prestação da casa.
Nos funcionários da limpeza do município de Lisboa que têm dificuldade em fazer face ao aumento do custo da energia.
Nos funcionários da limpeza dos outros municípios que têm dificuldade em fazer face ao aumento da prestação da casa.
Nos funcionários da limpeza dos outros municípios que têm dificuldade em fazer face ao aumento do custo da energia.
Nos outros contribuintes do município de Lisboa que têm dificuldade em fazer face ao aumento da prestação da casa.
Nos outros contribuintes do município de Lisboa que têm dificuldade em fazer face ao aumento do custo da energia.
Nos outros contribuintes dos outros municípios que têm dificuldade em fazer face ao aumento da prestação da casa.
Nos outros contribuintes dos outros municípios que têm dificuldade em fazer face ao aumento do custo da energia.
Na miséria envergonhada.
Nos papas-tudo.
Na pouca vergonha.
Nos papas-tudo.
Na inimputabilidade.
Nos papas-tudo.
Na impunidade.
Nos papas-tudo.
No que o Papa Francisco pensará dos €35.000.000,00 gastos na festa a que vem a Lisboa, onde os lugares sentados estão reservados ao alto clero, pagos de pé pelo povo que trabalha, que ao longe aplaude, acena e sorri.
Nos papas-tudo.
Na puta da ilusão.
Hélder Martins





.jpg)










