quinta-feira, 22 de outubro de 2026

TEMPO TECIDO


 


Vigésimo primeiro dia do décimo mês de dois mil e vinte seis.
Alheada do mundo, consumida pela natureza que me rodeia, esquecida da função de ser humana, são frases que me rodeiam quando apanho a frequência de algum mundo dentro desta caixa azul ou lá fora no trânsito das vacas que mudam de pastagem. Sinto que vivi várias vidas dentro desta e que continuo a vivê-las, com a graça de Deus, dos deuses de todo o Olimpo, dos orixás deste terreiro, das fadas desta floresta, dos Atlantes deste mar, dos seres brilhantes deste espaço que é tanto teto como chão. Com a graça de todos os avatares, continuo a viver várias vidas dentro de uma e, quando morrer, morrerá só uma porque as outras vão continuar. Lá está ela, lá está ela, lá está ela a divagar, enquanto outros se estão a passar. Será que perderam o tino quando dizem que é bem feito os acampados levarem umas cacetadas, ou as mulheres umas porradas? Ah, e as montras da "Chez je ne sais pas quoi", desde quando é que são mais importantes do que qualquer inocente assassinado num lugar que desprezam só porque sim? É nesta altura que começo a dizer palavrões ou solto a poesia que vive comigo, como os animais que a acompanham? Antes de defenderem as fardas defendam o coração que toca no mesmo compasso. Reparem que há fardas que se têm despido para se juntar à luta comum que pede mais humanidade. Há formas mais bonitas de mostrar solidariedade do que andarmos a urrar pelas nossas cores ou a limpar o cotão dos nossos umbigos.
-No intervalo dos acontecimentos vamos ali lavar a alma com um detergente adstringente, altamente potente, daqueles que nos põem a brilhar como gente.
Continuamos. Maria leva uma bastonada. José leva uma porrada. Mais ao lado, duas pessoas apaixonam-se por estarem a cantar a mesma canção. Momentos depois cai um petardo que impossibita essa paixão. Morre um poeta que nos ensinou sobre resistência mesmo quando não havia nada para resistir. Nos antípodas deste lugar um pássaro de penas incandescentes pega fogo ao último oásis. Aguarda-se notícias sobre as consequências destes pássaros junto à flora de todo o planeta. Aqui ao lado os melros negros aprendem o canto do galo solitário. Mais atrás, a multidão abate um muro com a força dos ombros unidos e dos punhos fechados. Ainda cheira a carne queimada em cada forno de cada campo. Os sapatos empilham- se, sem par. As valas comuns enchem-se de ossadas que antes eram pessoas a passear de mãos dadas. Cheira a pão quente, acabado de cozer e ela nem teve tempo para o comer. Distraiu-se pelo caminho a seguir o rasto duma lesma que ia ao encontro dum primo caracol acabado de falecer. Deixou-lhe a casa, uma família para sustentar e uma couve por nascer.
Dez fronteiras depois, uma menina pede uma bicicleta pelo Natal apesar do endereço ser em palafita, terra alagada e pantanal. Um rouxinol japonês morre de saudades pela mulher que o resgatou. No cais das colunas, a mãe dela entra na água, convicta de que assim voltará a casa.
Uma fotografia de 1945, dentro duma moldura intacta, é encontrada pela neta, debaixo do roupeiro de mogno, duma casa abandonada. Tem 20 anos, a guerra acabou e não há forma de festejar longe de casa com a família que já não existe. Se voltar ao seu país será fuzilada certamente. Na fotografia está uma jovem mulher com um sorriso na boca e choro no olhar. As covinhas nas bochechas revelam a timidez perante o fotógrafo que assinou em baixo, a vermelho, as suas iniciais e a data do acontecimento. Dezoito anos mais tarde seriam marido e mulher.
Entre as mãos tenho o chá que ela me ensinou a fazer, na chávena da babcia Helena, e bebo-o a ferver, como o avô ensinou. Não querendo contribuir para um maior mal estar do planeta, deixamos os aviões para mais tarde, para outra vida, com vagar, com tempo para estar. As manifestações acontecem, os pássaros cantam, a terra treme, os dias sucedem-se às noites e os grilos ainda cantam. Ainda ontem dei um mergulho e a água está quente. Na semana passada comecei a dançar a chamarrita, fiz crónicas cómicas com os mosqueteiros deste lugar do meio do mar. A chuva começou e a máquina de secar já está a trabalhar.
Regresso a mim, a ti, a nós, devagarinho a pôr as letras fora do papel como quem dependura os cogumelos a secar na janela virada a nascente.
O único ettrog cresce a olhos vistos para este succot. Fui eu que o plantei a partir do primeiro que me ofereceste e que secou debaixo das minhas almofadas de todos os países onde fui. A kufyia acompanha-me já sem alguns fios, as gatas gostam de se deitar nela depois de a tirar do pescoço ou da cabeça. Cheira a mim, aquela que acolhe inteira cada ser que vem aos pedaços, que se manifesta pelo bem comum, aquela que já caiu mais vezes do que os araçás desta árvore, aquela que perde o sono porque há um ditador em vias de ganhar eleições num país irmão.
A menina conseguiu a bicicleta e agora luta pelas ruas da capital pelo direito de continuar a sonhar.
José leva porrada, Maria uma bastonada, morreram mais inocentes bombardeados do que com fome e Herodes é o nome do meio de cada um dos donos disto tudo. É proibido gritar. É proibido cantar. É proibido entoar sussurros de compaixão. Não tarda nada vai ser novamente proibido abraçar. Não tarda nada vai ser permitido outra vez. É proibido ser quem és, sejas quem fores, só porque eles não querem que percebamos que somos iguais nas nossas diferenças. Não tarda nada voltaremos a ser e acontecer.
No intervalo dos acontecimentos tudo acontece.
Alheada do mundo dentro da caixa , sigo diferente, igual a cada um, acampada e acantonada na casa de todos nós.

Elsa Bettencourt