terça-feira, 3 de novembro de 2026

FOGEM-ME ÁS VEZES AS PALAVRAS

 Fogem-me às vezes as palavras. Escondem-se por aí pelos cantos da casa, atrás dos móveis à espera que as encontre. Umas escondem-se melhor que outras, deixam escapar risinhos de troça. Procuro-as umas vezes entretido, outras desesperado. Preciso delas para construír as frases das ideias que vou tendo.

Fogem-me ás vezes as memórias. Um rosto perfeitamente conhecido mas sem nome, uma época por identificar entre o "antes de" e o "depois".
Dá uma trabalheira escrever um livro. É preciso ler vários para lhe dar credibilidade, não repetir ideias, construir harmonias narrativas, inventar personagens que a realidade consiga admitir como seus.
É como assaltar um condomínio e bater a várias portas até que uma se abra e nos deixe espreitar lá para dentro. Observar registar e trazer aquilo que interessa para o trabalho específico.
Foge-me muitas vezes a razão. De permanecer, de insistir, de ser, a razão do esforço e do tempo gastos para nada. De inventar para rostos indiferentes, criar para o vazio, construir com a fragilidade dos materiais, uivar à Lua.
Foge-nos tanta coisa quando queremos dizer tudo que nunca nada está definitivamente acabado. É por isso que se escreve.
Para juntar pedras, levantar estruturas, combinar imaginações, trocar imagens, conversar no silêncio acerca da obra que nunca termina.
Foge-me todos os dias a Vida, o tempo de existir e cada vez corro menos atrás deles. Cada vez me interessa menos apanhar aquilo que nunca se consegue alcançar.
E é durante toda esta correria sempre atrás de alguma coisa que me resguardo atrás de uma pausa e tomo a minhas notas, aponto as minhas experiências, escrevo as minhas histórias.
Sinalizo o caminho para os que vierem a seguir. Deixo a minha observação da jornada. O registo pessoal e incompleto, o guia emocional de um percurso individual que porventura encontrará eco em alguém que o leia, alguém que tenha pensado ou sentido como eu no seu trajecto a seguir. Uma espécie de encontro sem gente, uma conversa sem palavras, um amor num espaço vazio.
Fogem-me às vezes o significado dos comportamentos, os "porquês" de uma tarefa inútil, os encontros em linhas de tempo improváveis.
E recosto-me na cadeira do pensamento permanente que nunca está calado que me sussurra ao ouvido:
"Se te foge alguma coisa, isso é porque a vais encontrar mais tarde ou mais cedo"
Artur...