quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

KAFKA EM JERUSALÉM



"O Messias só virá quando já não for necessário, só virá um dia depois da sua chegada, não virá no último dia, mas no último dos últimos"
Franz Kafka

A obra de Franz Kafka torna-se completamente inteligível quando é pensada a partir da sua situação assente numa tripla factura: um escritor checo que pensa e se expressa em alemão e que mantém com o judaísmo uma relação complexa e tortuosa. Por vezes, a fractura torna-se sutura, um permanente esforço de mediação; a maior parte do tempo, no entanto, alarga-se em imagens dialécticas sem circulação, numa espécie de impossibilidade que se expressa de forma notável na seguinte reflexão de Walter Benjamin:

"Já puderam perceber que, em toda a obra de Kafka, o nome "Deus" não aparece. E nada há mais vão do que introduzi-lo na interpretação dessa obra. Quem não entende o que proíbe a Kafka usar esse nome não entende uma linha sequer deste autor"

Compreendemos plenamente a ambiguidade da relação de Kafka com o judaísmo a partir da atmosfera anti-romântica em que a sua personalidade se forma, a que se vem misturar a religião e cultura judaicas como fonte da sua obra. Gershom Scholem chama a esta ambiguidade "teologia negativa": no universo de "O Processo" e "O Castelo", no mundo do indivíduo esmagado pela opressão da burocracia, do Estado e da "justiça", o Messias revela-se pela sua ausência brutal, pela negatividade do seu silêncio. A configuração do mundo contemporâneo, caracterizado pela ausência de liberdade e pela omnipresença da máquina estatal, não pode ser redimido, nem transformado, o que remete para uma concepção anarquizante do processo histórico: a História terá que "explodir", terminar, extinguir-se. Só então virá o Messias, depois do último dia. Assim, a relação de Kafka com Jerusalém caracteriza-se essencialmente pela inextricável relação entre uma dimensão teológico-política negativa, da qual a esperança parece estar ausente, manifestando-se numa recusa permanente de estabelecer uma relação efectiva entre o pensamento messiânico redentor, característico do pensamento judaico da Europa central, e o ideal utópico anarquizante, uma relação que poderiamos legitimamente esperar numa consciência que, de forma tão absoluta, percebeu a alienação do homem contemporâneo às mãos de um poder de tal modo totalitário que escapa à compreensão do senso comum. Registe-se, com alguma perplexidade da minha parte, não existir em toda a obra do escritor (pelo menos que eu tenha conhecimento) nenhuma referência ao universo judeu, nenhuma personagem judaica, uma única menção à fantástica atmosfera da Praga judaica. E, no entanto, Kafka tornou-se ele próprio o Judeu Errante, esse ser que não encontra em lado nenhum a sua pátria, em parte alguma a redenção da alma atormentada. E, no entanto, ninguém deixa de ficar arrepiado de horror premonitório quando lê "Na Colónia Penal" a descrição da sentença que é tatuada na pele do prisioneiro, ou a total arbritariedade do sistema judicial em "O Processo", ou inúmeros outros exemplos de como os pesadelos se tornaram realidade num século XX que não deixou de coleccionar catástrofe após catástrofe e de acumular ruína sobre ruína.

8 comentários:

Anónimo disse...

O título deste post lembrou-me um livro “Kafka à beira mar” de Haruki Murakami. É um livro encantador, no verdadeiro sentido da palavra, leva-nos a um mundo de fantasia e de encantamento ao jeito de Gabriel García Márquez, para mim o mestre dos sonhos e mundos fantasiosos. Recomendo. Beijos

Artur Guilherme Carvalho disse...

Arnaldo : Um belíssimo texto sobre alguém perdido no fundo de um quarto escuro mas com uma cabeça e uma sensibilidade do tamanho do Farol de Alexandria. Um homem a quem já considero um amigo, dada a generosidade e alcance de tantas coisas que me deu com as suas palavras e pensamentos. Só é pena não apareceres mais vezes por aqui. Um abraço.
SARA: o Murakami é um espectáculo embora um tanto ou quanto alucinado. Mas o KAFKA é fundamental em literatura...para tudo.Volçte sempre
ARTUR

Anónimo disse...

Artur: alucinado!! eheheh, é mesmo!! basta referir que neste livro chovem sardinhas... :)é completamente passado...

bafata disse...

arnaldo: welcome back... man !

Anónimo disse...

Arnaldo: nunca me desiludes. Excelente texto, muitos parabéns por esta abordagem original do universo kafkiano.

Nuno

Anónimo disse...

Arnaldo, meu caro, vê lá mas é se vais fazer o exame de Ética II e se fazes o trabalho de seminário. Bom texto ! Muito bem vista a questão do messianismo e da "teologia negativa". A Molder havia de gostar...

Um grande abraço

Anónimo disse...

Arnaldo: Sim, senhor, grande texto. É pena seres tão preguiçoso, tão deixa-andar, tão "je-m'en foutisme" militante. Vê se apareces pelo Seminário. Estamos com saudades tuas e, quem sabe, os professores relembrem a tua cara e os teus ditos espirituosos. Bjs.

apodius disse...

Caríssimo Arnaldo,

Kafka diria: Todos, à parte ou raios partam os totalitaristas.
Texto essencial, algo de transcedental. Um fragrância de impulse...Anos 80.
Cá espero o convite.
Abraço,
João Nuno