1
O medo, o medo, o medo. A angústia como desinstalação civilizacional no esquizofrénico-colectivo. As pulsões niilistas na sua máxima expressão. A hiper-ansiedade é isso: a radical incerteza, quando a convivência com a peste, enquanto estrutura psíquica da civilização, se perdeu com o advento da ciência moderna. Não são só os anticorpos que inexistem perante uma nova peste, são também as estruturas mentais e culturais para lidar com ela que foram esquecidas.
2
As linhas de transformação civilizacional são múltiplas (são em número indefinidamente extenso) e em inter-relação umas com as outras, pelo que apenas pode haver um vislumbre das mutações que se irão operar.
Uma dessas linhas transformativas respeita ao paradigma do trabalho que deixará de ser presencial para ser virtual. Como pensar essa metamorfose se ela está no cerne (directa ou indirectamente e mesmo para os desempregados) da relação do homem com o mundo e com os outros?
3
A dimensão da catástrofe é medida pela penetração perturbadora de um acontecimento nos sistemas e estruturas sociais. Tal perturbação pode ir, desde a disrupção de todos os hábitos quotidianos (o que já está a acontecer) até ao desencadear de situações (para além da infecção que é um perigo em si mesmo) que põem em risco a sobrevivência.
4
É uma nova era de escassez: a escassez patogênica em que haverá, doravante, a possibilidade de um bio-fascismo repressivo.
sábado, 21 de março de 2020
sexta-feira, 20 de março de 2020
Diário da Peste 12/3/2020 (segunda parte)
3
É certo que, em poucos dias, se foi violentamente expurgado do tempo. Há uma semana viveu-se um passado longínquo. Talvez, irrecuperável.
Entrou-se, de qualquer modo, num presente de suspensão civilizacional, um presente sem hora que é já o futuro.
4
Aquilo que mais impressiona, assim, é a extensão da transformação, a sua rapidez, a sensação invasiva que se experimenta, sem qualquer transição, um futuro distópico. É um longo pesadelo, lento até para um pesadelo, pois não ficará resolvido numa noite, nem se sabe, agora, quando se irá dele acordar, essa a distopia presente que se instalou de súbito e sem avisar.
5
As coisas ainda irão piorar antes de melhorarem. Resta saber quão fundo se irá chegar, o grau de disrupcão que se vai experimentar e que direitos serão postergados. Deus queira que não haja um fechamento radical como em Itália.
6
A consciência de que se está a viver um pesadelo e uma situação de total imprevisibilidade permite duas posturas opostas: a esperança do alívio quando tudo passar e a preocupação de que a distopia se agrave ou perpetue.
7
É impressionante a fragilidade de tudo. O desmoronar quase instantâneo, ante o perigo e o medo, das estruturas sociais pondo a nu a sua inefável fragilidade.
quinta-feira, 19 de março de 2020
Diário da Peste 12/3/2020 (primeira parte)
1
Isolamento social. Quão depressa mudam os costumes. O indivíduo, uma ilha rodeada de vírus por todos os lados.
2
Um tempo de radical incerteza, já se sabe, tem uma dinâmica própria. Há uma suspensão do acontecer mas isso induz a um acumular de potencialidades que, enquanto dura o transe, não se manifestam, pelo menos, não expressamente. Porém, essa suspensão irá produzir mudança, as coisas talvez não voltem a ser as mesmas ainda que o possa parecer. Na realidade, a acumulação de forças transformativas impõe um choque rápido em que algumas dessas várias potências constituirão um tempo novo. Ora, a imprevisibilidade não deixa sequer entrever o que sairá vitorioso mas há motivo para apreensão pois há, naturalmente, certas tendências que já existem e que estão na posição ideal para se tornarem dominantes, ou até, hegemónicas.
Quando este problema passar — resta saber com que sequelas e traumas e crises, económicas e não só — qual será a dinâmica repressiva motivada por uma desconfiança radical do outro, o poder de um Estado entretanto tornado autoritário pela exigência sanitária, porém, ensaiado num Estado de excepção continuado, a atomização social e o fechamento do indivíduo na sua esfera privada, cada vez mais impotente para agir no contexto do todo colectivo e dos países nas suas fronteiras, a própria mutação das relações sociais em que, após um período de medo e de isolamento social se passa a uma cautela social reforçando os factores do «fascismo higiénico»? São, por isso, grandes motivos de apreensão. Isto, sem falar de outras incógnitas mais vastas, fenómenos à escala global que, de tão vastos, são ainda mais difusos.
quarta-feira, 18 de março de 2020
Diário da Peste 11/3/2020
1
Possivelmente o estado mundial de excepção vai ao encontro das reivindicações, expressas ou implícitas, da extrema direita populista. Assim, por via do reacender de certo «fascismo higiénico» (um «bio-fascismo»?) instalar-se-á um populismo, propriamente, político.
2
O estado de excepção implica uma torção da ordem normal das coisas. Isto pode vir a criar, se o estado de excepção sanitário se prolongar, uma predisposição natural e psicológica para um permanente estado de excepção político-cívico, trazido pelas novas correntes de um tecno-fascismo que é sinónimo dos populismos de direita (desde que eles as saibam aproveitar). Aqui serão cruciais as dimensões de higiene social como nova moralidade, a «higiene cívica» que pode vir a implicar a perseguição de minorias ou de «cidadãos impuros», a criação de párias como reflexo de uma moralidade penal, a imposição de uma ordem tecno-distópica que não poderá ser questionada. E uma irreprimível pulsão para o fechamento, de fronteiras, de ataque ao cosmopolitismo, da intelectualidade como movimento de abertura do pensamento e de isolamento ou «distanciamento» individual pois é na atomização dos indivíduos e com o reforço da comunicação virtual (que, aliás, pode ser facilmente interceptada, monitorizada, controlada) que se criará a nova ordem social aceite.
Esperemos, claro está, que isso não aconteça.
Diário da Peste - Introdução
1
Comecei este diário no dia 11 de Março quando esta pandemia se começava a impor na ordem existencial de todos, quando ainda havia a esperança (talvez um pouco ingénua) de que pudesse ser contida. Tal não aconteceu (escrevo esta introdução no dia 18 de Março). De qualquer modo, as ideias são de análise e de um esforço para antever o que será, o que é um exercício sempre arriscado mas que, neste caso, é inevitável. Infelizmente, alguma dessa antevisão já se cumpriu com uma velocidade surpreendente embora se desejasse, a todo o momento, que o engano significasse uma perspectiva mais positiva e que assim estes escritos fossem mais um exercício de fantasia literária do que de realidade histórica.
2
Por que se chamou «Diário da Peste»? Porque o propósito do título é inscrever esta pandemia numa tradição cultural que, durante muitos séculos, foi a da «peste», com toda a ressonância simbólica que esse termo adquiriu. Na verdade, com a ausência de vacina e de terapia específica, num certo sentido, voltou-se a um estado pré-moderno e pré-médico onde as medidas que restam são as adquiridas ao longo de uma larga história da «peste» como sejam o isolamento e as quarentenas.
3
Isto não é um exercício nem apocalíptico nem pessimista mas, o que contiver de violência e de pessimismo, é também um contágio destes estranhos tempos sem que se tenha, ainda, uma visão distanciada e, por conseguinte, mais serena.
domingo, 15 de março de 2020
Diário Laboratório 9/2/2020
1
Às vezes, até os abismos do desespero têm algo de reconfortante. Verter isso em escrita, é um propósito como outro qualquer.
2
Nada há de tão difícil na arte do que pensar o impensado. Descobrir a ideia, se quisermos evocar o platonismo, deduzi-la se enveredarmos por um método racionalista. Ou, pura e simplesmente, tropeçar nela.
O resto, enfim, requer trabalho, paciência mas é, comparativamente, simples.
Ser-se artista é enceta a busca dessa ideia-fundamental, é também estar preparado para nunca a encontrar.
3
O desenvolvimento espiritual, se lhe retirarmos toda a transcendência, resume-se à procura da serenidade.
quinta-feira, 12 de março de 2020
Diário Laboratório 8/2/2020
A dança da vida, a dança da morte. Dança, contra-dança. Uma, um corrupio, a outra, tão mais violenta.
segunda-feira, 9 de março de 2020
Diário Laboratório 7/2/2020
Renovação da vida, mas de vida-toda-nova. Para quando, porém? Tantas vezes, tantas vezes o propósito ficou inacabado.
sábado, 7 de março de 2020
Diário Laboratório 6/2/2020
1
As lágrima que de era-má são o sossego. Não se deve, porém, sempre viver rememorando.
2
Vejo-me, nesta demencial fragmentação de escrita como num espelho quebrado que só reflectisse o esgar e o grito suspenso do que quereria dizer num murmúrio.
sexta-feira, 6 de março de 2020
Diário Laboratório 5/2/2020
Na escrita as fórmulas vagas são as melhores porque permitem evitar a vertigem do absoluto, do concreto, e do definitivo.
quinta-feira, 5 de março de 2020
quarta-feira, 4 de março de 2020
Diário Laboratório 3/2/2020
1
A perfeição é a sensação do irreversível. Nada a mais e nada a menos, porque o que está é inevitável e bom. Que maravilhoso seria ter isso na escrita, eliminar todo o non sequitur que é o que acontece quando há resíduos que se imiscuem na tessitura textual, ou quando o propósito falha completamente porque enferma de vícios ou, afinal, quando a ideia anda à deriva, de si, do leitor ou, mesmo, do próprio autor. Nesses casos, subjaz a suspeita que há algo espúrio, ou por excesso ou por defeito, e que por ali não andaram os anjos, os daimones nem as musas ou, talvez, as Moiras ou as Parcas lhes tenham cortado os fios.
Sem ela, tudo é reles, tudo é triste, tudo é frustre e tudo é pouco.
2
Repito: a escrita deve dar a sensação de que cada palavra é, naquele sítio, inevitável. Por isso é coisa demorada, de radical e funda ponderação.
terça-feira, 3 de março de 2020
MAIS CRÓNICAS DO BAIRRO…
Um escritor é um tipo que faz do
centro da sua vida a Literatura, que respira, digere, anseia, chora e ama
literáriamente, que explora a linguagem enquanto ferramenta, que se dedica à
nobre arte da escrita desde que se levanta até que se deita. Outra coisa, outro
conceito completamente diferente é o de "contador de histórias". O
contador de histórias é um tipo que só escreve quando tem tempo ou lhe apetece,
que gosta de fazer mais actividades, que nunca tem tempo, que não consegue uma
palavra de reconhecimento pelo seu trabalho nos meios especializados e, por
fim, um tipo que gosta de misturar a realidade e a ficção como quem faz um bolo
para o lanche. O objectivo é encantar, distraír, recordar, estimular emoções,
despertar sentidos. Neste blog é possível encontrar estes dois conceitos entre
o trabalho do João Matos e o meu. Eu sou um contador de histórias, um
cozinheiro de ficções e realidades e, nas horas vagas, um cronista libertário.
Serve a presente introdução para
voltar aos tempos de onde nunca saí, aos tempos em que não havia dinheiro mas
havia tempo, gargalhadas, invenção permanente. Tempos em que tudo era chupado
até ao tutano, gasto até à extinção até não haver mais nada para fazer ali e
partir para a próxima experiência. Tal como em serões de "família"
com os nossos filhos e sobrinhos, já não nos preocupamos em explicar realmente
o que aconteceu. Já nos habituámos aquelas expressões tipo: "ou estes
tipos eram completamente virados da marmita ou são uns grandes
mentirosos". Nem uma coisa nem outra. Somos apenas aquele bando de
adolescentes que de vez em quando gosta de voltar ao pátio do recreio
e…recordar. Posto isto, passemos à crónica de hoje.
Tinha passado mais um ano e o
Johny (todos os nomes são fictícios; quem se lembra identifica, quem não sabe
segue a orientação) decidiu que não queria estudar mais. Antes de comunicar aos
pais ofereceu-se voluntário para os comandos. Assim ganhava tempo de se desviar
de uma bolachada ou de um sermão maior acerca dos níveis de desemprego e um
questionário cerrado acerca do "que é que pensas que vais fazer a seguir?
vais viver do ar?", etc, etc. Só que a jogada de antecipação correu
relativamente bem até certo ponto. A incorporação nos comandos só iria ocorrer
em Março e ainda se estava nos princípios de Janeiro. Seriam três meses à boa
vida se o pai dele estivesse distraído. Só que não estava e para não sustentar
madraços até à Primavera o Johny tinha que arranjar trabalho até lá. Ou
arranjava ele ou o pai o punha nas obras. Tinha uma semana. E pronto, estava
montada a tragédia. Não sei como nem porquê havia alguém que conhecia alguém
que poderia saber de uma vaga não sei aonde…a rede do bairro começou a operar .
Antes de terminado o prazo dado pelo pai do Johny abriu uma vaga numa escola de
crianças deficientes, a escola Jean Monet que matriculava na sua maioria
crianças com trissomia 21. O habitual condutor da carrinha tinha-se reformado e
a escola estava com dificuldade em arranjar outro. Fintando o pai e as obras o
Johny recebeu um cruzamento milimétrico para o golo e arranjou contrato até
chegar a data da incorporação. Os tempos foram passando e a relação com os
directores e o Johny cresceu favoravelmente. Era um tipo educado, pontual, e,
sobretudo muito estimado pelos alunos que transportava bem como pelos
monitores. Ao fim de um mês o Johny sugeriu levar a carrinha à oficina do Manel
Sem Pescoço para afinar o ralenti. Mas como a utilização durava todos os dias
úteis só era possível fazê-lo ao fim de semana. Sem cobrar nada. No primeiro
fim de semana a carrinha voltou não só na melhor das afinações como vinha
lavada e a brilhar por dentro e por fora. Em breve, de quinze em quinze dias a
carrinha passava a fazer uma estadia na oficina do Manel Sem Pescoço ao fim de
semana. Só que a essa estadia não era de repouso permanente, era preciso
experimentá-la, fazer ensaios ao motor, estabelecer rotas como por exemplo
desde o bairro até ao 2001 no autódromo do Estoril, ou até ao Mister Green a
caminho da costa, ou ao Seagull ou ao Tunel. Para verificar as afinações claro
está… E foi assim que o nosso grupo resolveu o problema do transporte da cidade
para algumas catedrais da diversão fora de portas. Tudo correu sem incidentes
até o Johny entrar para a tropa. Carrinha devolvida, salário em dia e a promessa
de recolocação no regresso à vida civil.
Houve apenas um pequeníssimo
detalhe nesta história toda que podendo ter corrido mal acabou em bem. Numa
noite de Sábado para Domingo aí pelas três da manhã a Brigada de Trânsito
estava ali na àrea de Oeiras. Vendo uma carrinha de transporte escolar, coisa
que não dava nada nas vistas mandaram pará-la. O Johny estava limpo, não bebia
para não ser entalado. Apresentação de documentos, teste do balão, tudo nos
conformes. Ao ler novamente o livrete o guarda repetia em voz alta:
"Transporte de crianças deficientes…muito bem." Depois espetou a
cabeça lá para dentro e deu com cinco móinas, uns a dormir de boca aberta
outros com o olhar no infinito. Virou-se para o Johny. "Então e
aqueles?" O Johny com o mesmo ar de senhor educado e colaborante que
costumava exibir quando se sentia apertado, olhou para trás e depois para o
guarda.
"Aqueles
ali…chumbaram."
Artur
segunda-feira, 2 de março de 2020
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