Devo esta honestidade de viver o poema ao invés de o publicar.Devo a vós meus filhos, neta, amigos,pais e avós.
domingo, 6 de novembro de 2022
NA BANDA DE ALÉM E AQUÉM
domingo, 23 de outubro de 2022
Cinco Poemas do Livro Lacrimae Rerum de João Pereira de Matos com Tradução* para o Italiano de Frabrizio Boscaglia
Sia la ventura
di uno stimolo
qualunque.
Lo stato vegetativo
della vita procrastinata
non è bello.
Ché, se il tedio
fosse bello,
la rinuncia
un prodigio,
allora il paradiso
sarebbe il mondo.
La paura
una ventura,
quel che fugge
il vero tesoro
e l’Inverno
l’allegria
di un rinnovamento.
[Haja a ventura / De um estímulo / Qualquer. // O estado vegetativo / Da vida adiada / Não é belo. // Pois, se o tédio / Fosse belo, / A renúncia / Um prodígio, / Então o paraíso / Seria o mundo. / O medo / Uma ventura, / O que escapa / O verdadeiro tesouro / E o Inverno / A alegria / De uma renovação.]
***
Quanto feroce
è il tempo?
Quanto funerea
è la vita?
Vorrei strappare
i miasmi della
paura,
raggiungere
mille orgasmi
di Sole.
[Quão feroz / É o tempo? / Quão funérea / É a vida? // Quisera rasgar / Os miasmas do / medo, / Alcançar / Mil orgasmos / de sol.]
***
Ascoltate:
la vera radice
della penuria
è quel che
si ruba
alla coscienza.
[Escutai: / A vera raiz / Da penúria / É aquilo que / Se furta / À consciência.]
***
Che non vi sia passaggio
delle ore.
Il tempo è ristagno,
o ruota e dismisura.
Il momento fugge,
l’occaso giunge.
Un tempo vi era luce,
e mare e cielo e orizzonte.
[Não haja passagem / Das horas. / O tempo é estanque, / Ou roda e desmesura. // O momento foge, / O ocaso chega. / Outrora havia luz / E mar e céu e horizonte.]
***
L’urgenza sgorga
dal volere
il mondo.
Forse per questo,
certe cose dello
spirito,
sono
nel pieno
indugio.
[A urgência brota / De querer / O mundo. / Talvez por isso, / Certas coisas do / espírito, / Sejam / Na plena / demora.]
*Occaso: voci poetiche dal Portogallo é uma rubrica do blog bottega portosepolto.it, com a curadoria de Fabrizio Boscaglia.
terça-feira, 13 de setembro de 2022
Devaneios do Fim d’Estio
quarta-feira, 31 de agosto de 2022
COLHEITA DE AGOSTO NO TRIGÉSIMO PRIMEIRO DIA
quinta-feira, 11 de agosto de 2022
ATREVENDO-ME A NADA QUERER SER
Atrevo-me a dizer que não me apetece dizer nada. Ficar
esquecido num canto e deixar esgotar o frenesim que foi toda uma vida a correr
atrás de metas, sonhos, objectivos nunca alcançados, ou conquistados mas nunca
conseguidos. Atrevo-me a dizer que me sinto melhor quando estou calado a
observar o tempo que acontece, a folha da árvore que ondula com a brisa, o gato
a espreguiçar-se sobre o muro. Ter muito para dizer e não haver recipiente onde
o despejar torna-se inútil, frustrante, deprimente. As histórias escrevem-se
para serem transmitidas a um receptor, pressupõem uma reacção, uma resposta. As
histórias são breves pedaços de comunicação, memórias partilhadas, tempo
dividido. Mas a ligação do indivíduo que simplesmente se cala e observa o tempo
a acontecer, a Natureza que se manifesta, é também uma espécie de comunicação.
Dizem que o Universo mantém um diálogo permanente connosco desde
o dia que nascemos. Na maior parte das vezes estabelece essa comunicação
através de sinais. Imagens, números, estruturas, o comportamento do corpo,
sonhos, leituras, etc, que provocam em nós alguma reacção, actuam um sistema
qualquer que…dá sinal. Podem ser avisos em relação ao caminho que se apresenta
adiante. Podem ser necessidades de corrigir a rota ou pode ser simplesmente que
exista dentro de nós uma linguagem sinalizadora que funciona como a sala de
navegação de uma existência. Normalmente não se conseguem decifrar com a razão…sentem-se,
fazem pressentir, ressoam, tornam-se reconhecíveis. Por isso levam algum tempo
até se conseguirem esclarecer. Se houver algum caminho a percorrer neste
universo e se for essa a nossa tarefa permanente, então os sinais são para
interpretar enquanto grupo de regras dessa viagem. O caminho, esse, continua
sempre, sem se interromper, sem hesitações, indiferente à decifração.
Deixemos no ar enigmas e mensagens cifradas ou, muito
simplesmente, comunicações que não fazem sentido nenhum. Aparentemente acabarão
por o fazer em algum lugar, em algum tempo.
Atrevo-me a dizer que na maior parte das vezes não me
apetece dizer nada, guardo as memórias numa caixa e fico a ver a coloração de
uma flor ou a caminhada do gato sobre o muro assim que estão encerradas as
cerimónias da sua higiene diária. E distraio-me ao fim da tarde com o melro
pontual que aterra sobre a relva do jardim em busca de uma minhoca para o
jantar. Tudo já foi inventado, para quê pretender a forma original, para quê
escrever melhor que o outro? Escreve-se e pronto. Quando me apetece, quando a
voz interior fala mais alto e sai pelas entranhas, quando me lembro daquela
história que ouvi, daquela personagem que cruzou o meu caminho. Não que tenha
interesse nenhum para ninguém querer ouvir. Simplesmente resulta de um acto de
higiene diária que se executa sobre o muro que separa o absurdo do racional, a
vontade da inércia, a vida da morte. O muro fica, os passos da saída sobre ele
são executados com estilo e o Sol volta a descer no horizonte enquanto um melro
atrevido nos olha encantado com uma minhoca pendurada no bico.
Artur
segunda-feira, 4 de julho de 2022
segunda-feira, 30 de maio de 2022
DE SAÍDA TUDO VAI ANDANDO
A realidade, o quotidiano em geral, a vida como a conhecemos
está de saída. Fica de pé à porta do nosso quarto, dá-nos alguns minutos para
fazer o saco vai lá para fora à espera Não que nos ralemos muito com o assunto.
Continuamos a viver exactamente da mesma maneira, a cometer os mesmos erros e a
desprezar aquilo a que deveríamos dar valor. Que se lixe. As pragas vão caíndo
uma a seguir à outra, a guerra e a consequente destruição total vai pairando em
cima das nossas cabeças mas ninguém se rala desde que não lhe toque pela porta.
Van Gogh escreveu a certa altura que a humanidade tinha sido uma experiência
que correu mal ao Criador. Nos dias que correm podemos imaginar o Criador
a recolher os tubos de ensaio, a lavar as amostras e a limpar o laboratório
antes de desligar as luzes e ir à sua vida. E mesmo estes tempos apocalípticos
acabam por ter as suas vantagens. Há uma quantidade de imbecis que nunca mais
voltaremos a ver, um sem fim de dores que irão desaparecer e se voltarmos a
acordar noutro lado qualquer saberemos que estamos vivos de alguma maneira. Não
que tudo seja mau na humanidade…de maneira nenhuma. O problema é que no cenário
em que nos encontramos foi sempre o pior de nós que prevaleceu, foram sempre as
qualidades mais negativas a ter mais força e a dominar os dias. Por isso não
estou preocupado com coisa nenhuma. Se for o vazio total será a consciência
zero e a preocupação nula, se for outro tipo de existência, dá-me a sensação
que não vou ter que pagar impostos. Por isso, marchemos contentes e felizes a
caminho da destruição final porque nada mais há a fazer.
Artur
sexta-feira, 20 de maio de 2022
quarta-feira, 18 de maio de 2022
DA SABEDORIA EM GERAL
“A Sabedoria edificou a sua casa,
lavrou as suas sete colunas.”
Livro dos Provérbios, IX.I
Para perceber é preciso tempo,
diria alguém mais velho ou mais sábio a alguém menos entendido. Ou talvez não.
Talvez aqueles quem têm alguma coisa a dizer, algum conselho a dar não sejam
exactamente homens sábios. Talvez sejam simplesmente “sabedores” em vez de sábios,
tipos que relatam partes do caminho a quem chega lá de trás e ainda não o
conhece no local em que se encontra.
(ganda seca, até faz lembrar a entrada daquela
famosa série “Lin Chung O Justiceiro” do final dos anos 70, onde cenas
colossais de pancadaria eram interrompidas por citações de Confúcio ou de um
outro sábio qualquer para grande azar do espectador adolescente que queria era
ver acção, isto é, tareia da boa)
Talvez essa espécie de pessoas
(os sábios) sejam tipos de uma fibra diferente que faz passar a sua mensagem de
todas as maneiras menos através da palestra, do conselho, da aula. Talvez sejam
tipos capazes de com um breve apontamento, uma história, uma alegoria,
conseguir fazer passar um tratado de conceitos, filosofias, aspectos
existenciais que o receptor consegue apreender com rapidez e evoluír mais um
bocado no seu trajecto.
(Por acaso, nos tempos que correm
não faço a mínima ideia do que será bom senso, lógica determinativa, evolução,
desenvolvimento no que à nossa espécie diz respeito. Para onde vamos, o que é
que andamos aqui a fazer, quem é que apagou a luz, como é que tudo é desprovido
de sentido são as questões que mais me assaltam quando me lembro do sítio onde
estou).
Devo ter conhecido dois ou três
sábios ao longo da minha vida. Um deles, o padre Viana, era um jesuíta que passou
três anos na paróquia da área onde eu morava em miúdo. De manhã levantava-se e
empurrava a estante dos livros até à janela aberta porque entendia que eles
precisavam de apanhar ar. Ao fim da tarde voltava a empurá-los de volta ao
sítio original. Era o recordista das confissões (actividade que detestava). As
velhas de sempre mal tinham tempo de se ajoelhar já eram bombardeadas com a
penitência e a absolvição e toca a andar que ele tinha mais que fazer. Era um
erudito, dava aulas de Teologia na Universidade e o seu mundo era o estudo, o conhecimento
e a espiritualidade. Não julgava, não criticava nem impunha. Limitava-se a
responder acerca daquilo que lhe perguntavam, a executar a sua tarefa
profissional de forma institucional sem se deixar envolver. Eu, como outros do
bairro, rapidamente nos rendíamos aquela figura peculiar de padre do
conhecimento, muito mais empenhado em explicar os mistérios do universo do
pensamento do que em impor condutas, julgar comportamentos, elencar o caderno
dos castigos para aqueles que se portavam mal. Às vezes era visto à noite em
passada larga à volta da igreja a apanhar ar antes de ir dormir. Um autêntico
comboio a deitar fumo do seu cachimbo ao qual nos juntávamos por vezes. Nessas
voltas eternas em torno da igreja falava-se de tudo e de nada. Nenhum tema era
incómodo para ele. Temas da actualidade social e política, temas de outras
religiões, espiritismo, fenómenos estranhos, Filosofia, História, etc. De vez em quando uma pausa para contemplar a
margem Sul do Tejo e o Seminário de Almada onde tinha feito os seus estudos
antes de ingressar na Ordem. Recordava as tardes de jogatinas de futebol ao fim
de semana e da alegria que isso lhe dava. A vontade de rir a correr com mais
vinte alunos de batina até aos pés e sapatos de trabalho, dado que era proibido
o uso de calções ou camisolas adequadas à prática desportiva. Graças ao padre
Viana fiquei a saber os clássicos gregos com uma ótima nota a Filosofia no fim
do secundário. Em marcha rápida às voltas e voltas ao redor da igreja ia-se visitando
a Escola de Atenas como quem vai a casa da família de um amigo. Sócrates,
Platão, Aristóteles, eram-nos apresentados de uma forma desassombrada, as
razões de ser da forma como pensavam, o tempo em que viviam, etc, etc.
Em poucas sessões nocturnas
acabámos por nos tornar amigos. De tal maneira que, uma vez por outra, combinávamos
um jantar. Havia no entanto duas épocas específicas em que não se podia contar
com ele. Em Outubro e em Junho o padre Viana fazia o seu retiro nos arredores
de Lisboa. Durante uma semana numa cela fria e húmida de um convento abandonado
praticava o jejum e a meditação a kilómetros de distância da povoação mais
próxima. Ora acontece que esse convento era conhecido por estar associado a
acontecimentos bizarros que ocorriam na sua proximidade. Em grupos de amigos
havia sempre alguém que tinha uma história para contar, normalmente assustadora.
Ou de corujas que se atravessavam na estrada e desapareciam, gritos de vozes ao
longe, até mesmo a falha mecânica temporária de um carro que deixou de
trabalhar de um momento para o outro. Quando soubemos do paradeiro dos retiros
do padre Viana, o Rodrigo que era mais velho e que já tinha lido mais alguns
livros do que o resto da malta lançou-lhe o desafio num jantar.
- Não tem medo de estar sozinho
num local daqueles de que se contam histórias terríveis e assustadoras ? – ao que
ele respondia descontraído
- Oh meu amigo, eu sou padre.
Acredito em Deus. É na graça dele que me entrego. Se tivesse dúvidas ou medo de
alguma coisa tinha que escolher outra profissão.
E ficávamos por ali sem mais
esclarecimentos. Havia água num regato que por lá passava que lhe mataria a
sede. De resto só levava um missal, um terço e um saco-cama. O resto era
meditação e oração. Purificação para uma nova época. Mito urbano ou espaço
assombrado o certo é que até eu me aventurei (de dia) por aquelas bandas com
mais dois “valentões” numa tarde primaveril. Por sugestão ou puro cagaço, o
certo é que não nos aproximámos mais do que uns cinquenta metros do local.
Voltámos para trás com a ideia reforçada da coragem e singularidade daquele
homem de meia-idade que nunca contava tudo o que sabia.
Numa noite de festa de fim de ano
lectivo e santos populares voltámos a jantar todos juntos. Talvez devido ao
calor toda a gente bebeu mais um pouco do que devia. Após a breve troca de
informações (as notas finais e os desejos de continuidade escolar), já depois
das sobremesas o padre Viana anunciou que depois do Verão seria colocado numa
nova paróquia ainda por determinar. Nós seríamos sempre bem-vindos se o
quiséssemos visitar. Na semana seguinte faria mais um dos seus retiros. Ficámos
calados a digerir o jantar e a informação. Olhámos uns para os outros como quem
interroga quem é que vai fazer a pergunta. O Rodrigo voltou a avançar. Contou a
nossa breve aventura de cagarolas e de como não nos conseguimos aproximar do
convento em ruínas. E disse qualquer coisa como nunca o iríamos esquecer, nem a
sua amizade nem a sua coragem de asceta em permanecer sozinho num lugar
daqueles. O padre Viana sorriu, mandou vir uma bagaceira e acendeu o cachimbo.
Depois olhou em redor.
- Já que para o ano não vou estar
cá quero-vos deixar uma lembrança antes de partir. Aquele lugar de que vocês
tanto falam em ignorância e medo foi em tempos habitado por um grupo de monges
que fazia voto de silêncio. Viviam do que produziam numa horta e dedicavam o
seu tempo à meditação e oração. Durante as invasões francesas houve um
esquadrão de cavalaria inimigo que passou por ali. Quando deram com o convento
roubaram os mantimentos, pilharam as poucas relíquias que lá existiam, incendiaram
o edifício e massacraram todas aquelas duas dezenas de almas que lá viviam. Desde
esse trágico dia nunca mais ninguém lá viveu. Ficaram as paredes e o regato
como únicos testemunhos do que uma vez terá sido um espaço habitado por alguém.
E agora digam-me vocês..? Que espécie de
vibrações é que poderia ter um lugar onde tudo isto aconteceu?
Artur
quarta-feira, 6 de abril de 2022
QUARTO DIA DO QUARTO MÊS
Quarto dia do quarto mês de dois mil e vinte e dois.
quarta-feira, 23 de março de 2022
sábado, 19 de março de 2022
LETRAS DOS AÇORES
sexta-feira, 18 de março de 2022
O AQUÁRIO
Janta-se em silêncio na cervejaria do bairro a contar as
luzes lá fora através do aquário das sapateiras em estado de semivida, às
voltas no mesmo sítio. Rostos de sempre e outros que não conheço distribuem-se
ao longo do balcão, olham com ar científico para o telemóvel enquanto esperam
pela imperial e, por cima das nossas cabeças a eterna televisão a debitar
imagens de guerra, de vidas destruídas, manobras diplomáticas, tácticas de
progressão no terreno. A bola ficou guardada por instantes no armário do Inconsciente
Colectivo, à espera de melhores dias. A
guerra é como aquelas visitas indesejadas que se sentam à nossa mesa sem ninguém
as convidar e em três tempos estão a dirigir os temas da conversa, não deixam
ninguém falar e fazem cair uma tremenda azia sobre o nosso apetite. Às vezes
como no balcão, outras apanho esta mesa que fica mesmo em cima da janela ampla
para a rua onde posso comer em silêncio a olhar lá para fora. Na cervejaria
onde sempre vim, logo a seguir à esquina, primeiro pela mão do meu pai antes
dele partir para Angola, lembro-me perfeitamente de um jantar em silêncio horas
antes dele embarcar. Não podia haver choraminguices dado que se estava num
local público. E como também não havia razões para comemorar, comia-se calado a
olhar lá para fora poucos anos antes de chegar o aquário dos crustáceos. Os
carros eram diferentes, as pessoas vestiam-se de outra maneira, mas a televisão
encavalitada num canto do tecto debitava imagens de África, helicópteros,
paradas militares, mensagens de boas festas dos soldados em Dezembro, um
almirante muito velho a distribuir medalhas em Junho. As imperiais, os bitoques
e o senhor Amadeu agarrado à alavanca da cerveja e a rosnar pelo canto do olho
Puta da guerra
Porque um filho dele lá, depois outro, felizmente voltaram
vivos. O meu pai também, mas o Luis que namorava a minha tia, não voltou.
Casavam daí a meses, a minha tia andou anos a carregar uma depressão. Depois
tudo acabou e voltou a bola, os títulos, os lances que não eram penalty, tudo
aos berros em nome de clubes e cores. Depois as cores passaram a partidos
políticos, havia noite de festa nas eleições, cada um debitava a sua posta enquanto
a televisão debitava concelhos, distritos, percentagens, números de deputados. E
com os partidos políticos veio também um aquário enorme que o sr. Amadeu
colocou mesmo em frente à vitrine com o intuito de chamar a clientela. Uma
inovação que só as hábeis e diligentes mãos do Aurélio conseguiam manipular.
Desde o ritual da manga arregaçada até à luva de borracha as primeiras
operações anfíbias eram espectáculo garantido com todos os presentes a suspirar
por uma dentada de uma tenaz à qual o Aurélio se esquivava com mestria.
Eh, homem! Parece que nasceste para isto… - diziam no fim
para disfarçar a inveja
Anos mais tarde o meu
primeiro filho a fazer o voo de adaptação na cervejaria, os pés a balouçar sem
chegar ao chão, o aquário com as sapateiras a andar às voltas para cima e para
baixo, a empurrar-se para chegar a lugar nenhum e logo a seguir a rua e as
pessoas, os prédios e os automóveis. Lá em cima na televisão a guerra no Iraque,
a invasão do Koweit, o deserto, as variantes diplomáticas e nós em silêncio
para não acordar os demónios mais negros que povoam o planeta, a tentar passar
nos intervalos da chuva a ver se eles não nos viam. Eu, um pai maçarico não me
queria despedir de um filho tão pequeno e mergulhar num remoinho de infernos se
esses infernos se alargassem até ali à cervejaria. Por isso comíamos em silêncio.
Uns anos mais tarde mais um filho e desta vez a antiga Jugoslávia a desfazer-se
aos pedaços, em ódio de uns contra os outros, genocídios, atiradores furtivos a
disparar sem nexo sobre a população indefesa, movimentações diplomáticas,
cidades destruídas. As sapateiras no aquário a treparem em susto umas para cima
das outras a tentar fugir das mãos certeiras do Aurélio, o senhor Amadeu a secar
um copo com o pano de muitas voltas e a rosnar por cima do olho
Puta da guerra
Enquanto as imperiais para lá e para cá, enquanto os
bitoques, as moelas a chiar na frigideira, enquanto as sapateiras a saltar do
aquário sem perceber bem o que lhes ia acontecer, cheias de medo, de frio,
cheias de alho, de barriga para o ar e tenazes imóveis.
Depois foi o Iraque outra vez, e a Síria, e o Afeganistão, e
o Líbano e em toda a parte e em parte nenhuma, a televisão sempre por cima das
nossas cabeças, as imagens da selvajaria e da destruição, mortos, vidas viradas
do avesso para sempre, cidades destruídas e sempre o silêncio ao ver aquilo
tudo. Tudo caladinho a ver se os demónios da guerra não se lembram deste lugar
Os bitoques e as imperiais, as canecas e as moelas a chiar
na frigideira, as pessoas, o aquário com as sapateiras lá dentro, uma e outra
vez, um e outro ano sem parar.
E nós todos, uma geração depois da outra, enfiados num
enorme aquário chamado cervejaria a correr para lá e para cá sem sair do lugar,
encavalitados uns nos outros a tentar escapar à diligente mão do funcionário da
morte para não sermos capturados e enviados para um poço negro de onde nunca
mais se regressa.
Artur
terça-feira, 15 de março de 2022
ENTRE O PALCO E A PLATEIA
Décimo quinto dia do terceiro mês de dois mil e vinte e dois. Ainda se atualiza os dados pandémicos do dia neste lugar cheio de árvores em todas as janelas. Não os ouvia antes, nem os ouço agora. Sinto-os no olhar dos mais velhos em forma de interrogação esgazeada entre as filas do pão e do papel higiénico, do álcool gel e da gasolina sobrevalorizada. No meu é como se o areal se tivesse mudado para as pálpebras e retina.







