segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

O TERCEIRO EXCLUÍDO

1. Ao contrário do discurso mentiroso, cheio de patranhas bacocas, sentimentos piedosos e votos hipócritas da "Mensagem de Natal" de Sua Excelência o Primeiro Ministro, a mensagem de Natal deste "blog" é uma mensagem de verdade, cheia de significado e de uma singular, inusitada e descabida propensão para a esperança. Repetimos as palavras de Teilhard de Chardin: "Jesus Cristo não veio ressuscitar os mortos; veio ressuscitar os vivos".

Ressuscitemos, pois.

2. "Mas nós continuamos sempre. Somos o povo que sobrevive. Não conseguem acabar connosco. Não nos podem esmagar, vamos continuar sempre, pai, porque somos o povo"

A Mãe Jodd de "As Vinhas da Ira"


Porque somos o povo... Hão-de passar gasparzinhos, africanistas de Massamá, portas, audi soares, cristas, teixeiras da cruz, macedos dos impostos, luso-brasileiros relvas, cratinos da (des)educação e hão-de desaparecer no caixote do lixo da História (juntamente com os patrões e donos desta gentalha; mercados, troika, bancos e agências financeiras) e nós - o povo - ainda cá estaremos.

domingo, 25 de dezembro de 2011

PLEASE, PLEASE, PLEASE, LET ME GET WHAT I WANT

Good times for a change
See, the luck I've had
Can make a good man
Turn bad

So please please please
Let me, let me, let me
Let me get what I want
This time


Haven't had a dream in a long time
See, the life I've had
Can make a good man bad


So for once in my life
Let me get what I want
Lord knows, it would be the first time
Lord knows, it would be the first time

domingo, 18 de dezembro de 2011

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

ESCUTA, GASPARZINHO !

"Os hindus do deserto fazem uma promessa solene: não comer peixe !"

Goethe "Máximas e Reflexões"


Eu explico-te : Na verdade, há neste voto uma dialéctica suspensa já que, por um lado, obedece à necessidade e, por outro, envolve uma decisão de quem foi tocado pelo sonho da prodigalidade : poder viver dentro de água.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Um método muito, muito, perigoso

Não é Freud quem quer, mas quem pode. Ora, eu posso e quero ser o Dr. Freud durante um breve momento e psicanalisar a direita portuguesa. Dir-me-ão: qual a utilidade do exercício ? o que se poderá obter ao analisar a direita mais estúpida da Europa ? o que se alcançará penetrando nesse vazio insondável, nesse deserto sem fim, nessas catacumbas de inanidade ? Pois bem, a esses cépticos eu respondo : a resolução de um persistente enigma, enigma esse que me tem intrigado atrozmente e que passo a enunciar: qual a razão do ódio tenaz que essa gentalha tem votado a José Sócrates (ódio pessoal, não político, entenda-se bem) ? A recente onda de histeria que os agitou até à loucura depois da última aparição pública do recente estudante de Filosofia, onde tem ela a sua origem ? Finalmente, através de uma intuição muito poderosa, consegui chegar a uma resposta, a uma iluminação que estou pronto a partilhar com todos vós: não é o ódio que os agita, mas sim o amor, ou melhor, o desejo animal, primitivo, cavernícola. À menor menção do nome ou ao mais leve traço de aparição iconográfica de Sócrates, logo as hormonas de ministros e ministras, secretários e secretárias de estado, deputados, jotas e demais militantes do CDS e do PSD entram em feroz ebulição e, sem mesmo terem a coragem de o confessarem a si próprios, sentem-se completamente dominados pelo irreprimível desejo de lhe saltarem para cima, destroçarem-lhe as roupas e fornicarem com ele até se derreterem. O impulso masturbatório, logo satisfeito à socapa no recato dos gabinetes, ou na fundura macia dos estofos de couro dos Audi A7 (em Vespas não é possível) ou dos BMW de serviço, provoca-lhes um sentimento de culpa que nem a ida ao confessionário dos muito católicos poderá apaziguar. Nem ida ao confessionário, nem penitências, nem jejuns, nem mesmo a utilização de cilícios poderá apagar esse fogo que os consome e os não deixa sossegar. Só um acontecimento transcendente poderia, enfim, trazer-lhes a paz que agora não alcançam: depois de "comerem" metaforicamente o homem (fornicando-o até à morte) assarem-no lentamente numa grande fogueira e degustarem prazenteiramente o seu corpo, comendo-o agora literalmente, pedaço a pedaço (começando por aquele que todos nós sabemos), até nada restar da orgia canibal senão os corpos suados e lambuzados de sangue e vísceras, finalmente satisfeitos num último estremeção de prazer

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

ROSETE


UM "ska" nostálgico de uma banda fantástica de um tempo em que tudo era incerto, todas as noites uma aventura, uma descoberta.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

ACERCA DO MEDO



CONFERÊNCIAS DO ESTORIL 2011

Depois não digam que não lhes explicaram...ou tentaram explicar, o que vai dar ao mesmo.

domingo, 4 de dezembro de 2011

VISITANDO HEMINGWAY



Uma boa introdução é normalmente o prenúncio de um bom livro. Assim como uma boa jornada será a antecâmara de um bom encontro. E assim foi naquele dia em que, conduzindo durante largas milhas sobre a água, acabamos por chegar à morada, ao destino daquela longa caminhada. No ponto mais a Sul da América do Norte (Key West) estamos a 90 milhas (140Km) de Cuba. À volta só o mar e mais mar, oceano até enjoar.
Uma visita a um velho amigo não se pode confundir com nenhum acto simbólico ou religioso, mesmo que só nos tenhamos conhecido através dos seus livros.
O homem poderia mesmo receber-nos de duas maneiras. Ou com um cano de caçadeira apontado à cabeça: “Get the hell out of my property”; ou com uma garrafa de cognac na mão convidando para uma longa conversa sobre livros, caça, pesca, aventuras em geral, a Guerra Civil Espanhola, enquanto vários gatos passariam pela sala indiferentes às gargalhadas e aos pensamentos mais profundos.
Como nunca tive muito jeito para crente, e já não tenho idade para peregrino, o mais certo seria dizer-lhe que li “Paris é uma festa” com 18 anos e que desde então nunca mais parei de o ler. Que ele foi um dos autores mais influentes que me levaram a querer ser escritor (ou contador de histórias). Recordaria aquele célebre diálogo do homem que sai de uma igreja e é surpreendido por uma amiga que lhe pergunta o que é que ele esteve a fazer. “ A acender uma vela por todos aqueles que amo.” – responde . Ela então insiste: “Mas tu não acreditas…” Ele sorri. “Pois não.” Nessa altura dir-lhe-ia que tenho um grande amigo que faz o mesmo sempre que vai a Nova Iorque. Dirige-se à catedral de St. Patrick e acende uma vela por todos aqueles que ama. E também não acredita. Tal como eu não acredito em deuses para venerar nem dou à vida mais importância do que ela merece. Duas grandes lições que Hemingway nos deixou. Por isso não poderia aparecer na sua casa de joelhos a cantar hinos religiosos e a chamar-lhe pai de todos os escritores. Entrei nela como um homem, sobre os meus passos, e sentindo¬-me extremamente confortável com o bem-estar que se respirava em cada sala. Como se o dono da casa tivesse saído no dia anterior. Uma casa igual à sua forma de escrever: honesta e confortável. Uma casa com um jardim extraordinário e acolhedor, habitado pelos verdadeiros donos, os gatos. Cerca de 60 felinos descendentes dos seus gatos iniciais, que se passeiam pelo meio dos turistas, que brincam uns com os outros indiferentes a tudo, que entram e saem da casa como se nada fosse.

A piscina, o anexo onde se encontrava o escritório, o quarto, as casas de banho, tudo se perpetua sem uma perturbação na harmonia de uma habitação funcional. O tempo parou ou, simplesmente, a vida continuou indiferente muito para lá da morte ou da notoriedade. Qualquer coisa continua indiferente às regras da vida e do destino. A casa, o jardim, os gatos, tudo continua como se fosse uma festa.
Obrigado Hemingway. Um dia haveremos de nos encontrar…outra vez.

Artur

terça-feira, 29 de novembro de 2011

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

QUEM DEVE O QUÊ, AFINAL...

http://www.bbc.co.uk/news/business-15748696

Ao consultar o link acima referenciado, da BBC NEWS BUSINESS, ficamos com um quadro mais esclarecido acerca da economia mundial, sobretudo relativamente aos montantes de dívida de cada país. As agências de rating estão a saír cada vez pior na fotografia, tanto pela duvidosa honestidade das suas conclusões como da ligação a poderes ou rostos não conhecidos que estão a fazer lucros imorais com esta palhaçada toda. Está na hora de uma ampliação consciente da movimentação cívica de todos os europeus. Ou nos despachamos ou não estaremos cá para seja o que fôr. Primeiro voltamos todos a ser pobrezinhos para os riquinhos se continuarem a encher. Depois, os que sobreviverem esperam pelas migalhas generosas daqueles que os roubaram. Ou, dizendo de outra maneira: estamos a passar da fase Civilizacional para a fase da Lei da Selva.

domingo, 27 de novembro de 2011

O TESTAMENTO DOS POBREZINHOS

“ Não é possível, nas zonas menos populosas sustentar os investimentos feitos com a ambição de assegurar água de boa qualidade.”

Assunção Cristas, Min. Do Ambiente, Correio da Manhã em 23/11/2011


Os pobrezinhos têm que perceber que vão ter que morrer para os outros conseguirem manter o seu nível de qualidade de vida. As zonas menos populosas que se vão abastecer de água ao raio que as parta porque a água é mais necessária na rega dos campos de golf, essa fonte milionária de receitas de turismo e desenvolvimento económico cujo IVA não subiu, onde os bacanos se vão pavonear e dar ao taco e fazer umas festas daquelas que fazem os bacanos quando se encontram todos, e vão lá as revistas que também são deles para fazer reportagens. Apesar de carregados com cada vez mais impostos, o Estado está cada vez mais fraquinho para andar a abastecer populações com água de qualidade. Assim vai vender a exploração, vai privatizar o serviço, vai dar essa responsabilidade a outro. Outro que vai fazer dessa responsabilidade uma actividade lucrativa e que, quando lhe apetecer, desliga a torneira e marcha na direcção de outro negócio mais rentável. Os pobrezinhos têm que se convencer que há luxos a que não se podem dar, apesar de no passado terem sido quase obrigados a endividar-se até ao pescoço pelas leis, pelos bancos e pelas políticas dos bacanos para, por exemplo, comprar a sua própria casa. Os pobrezinhos têm que se convencer que apesar de pertencermos a um país que no passado conseguia ocupar os últimos lugares em quase todos os índices de desenvolvimento na União Europeia, esse tempo acabou. Esse fausto, essa vida ociosa com Saúde, Educação, Justiça e Segurança Social, todo esse luxo acabou porque afinal não há dinheiro. Essa fonte esbanjadora de direitos, tentativa de equilíbrio de assimetrias sociais e respeito pela fragilidade, essa irresponsável protecção aos mais fracos, aos incapazes, aos deficientes, esse regabofe de dinheiro mal gasto tinha que acabar. Esse devaneio civilizacional com direitos para todos, mais protecção do trabalho, mais igualdade de tratamento, cidadania, qualidade de vida, bem-estar, todos estes luxos se transformaram numa despesa incomportável, que não pode continuar.
Volta tudo a viver na floresta, a beber água da fonte, a cheirar mal, a participar como carne para canhão nas guerras dos bacanos entre eles, e a fazer aquelas coisas que os pobrezinhos costumam fazer. Depois, se se portarem bem, uma vez por semana terão direito a uma visita ao castelo dos bacanos para receber a esmolinha destas almas profundamente devotas e tementes a Deus.
Os pobrezinhos têm que perceber que a Lei da Selva é a melhor opção para a resolução de todos os nossos problemas. Quem estiver apto sobrevive, quem não estiver desaparece. Mesmo que os bacanos roubem todos os créditos de aptidão que os pobrezinhos entretanto adquiriram.

Artur

GUERNICA



Conta-se que, durante a ocupação alemã da França durante a II Guerra Mundial, Picasso participou numa exposição onde se incluía o famoso quadro que registava o massacre resultante do bombardeamento desnecessário da aldeia basca pela aviação alemã. Um oficial alemão aproximou-se do quadro e deteve-se a observá-lo durante algum tempo. Depois virou-se para o autor.
- Foi você que fez isto? - Picasso voltou-se para ele calmamente.
- Não...foram vocês.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

DEVOTOS DO ONANISMO








Os Gregos antigos consideravam bárbaros todos aqueles que não falassem a sua língua. As linguagens dos outros povos pareciam-lhes como borborigmos ou balbuceios infantis, sendo essa a origem fonética do termo (babar, baba, barbaroi). Noutra dimensão, os bárbaros, por não falarem o grego, estavam excluídos da cultura e do grau de civilização que os helénicos tinham atingido e, não a compreendendo, ambicionavam unicamente destruí-la e colocarem no seu lugar o seu modo de vida cavernícola e primitivo. São inúmeros os relatos angustiados de gregos e romanos por causa da ameça permanente dos bárbaros às portas da cidade. Nós, os portugueses de 2011, já não tememos os bárbaros às portas da Cidade; eles já estão cá dentro e são eles que agora a governam.


Na terminologia castrense designam-se como "danos colaterais" as vítimas civis de determinadas acções militares; todos aqueles que estavam no sítio errado à hora errada, não constituindo do ponto de vista ético-moral ou jurídico qualquer embaraço para quem empreende a acção. Temos pena, mas... Para estes godos que nos (des) governam, e sobretudo para os seus mandantes, o povo português é um dano colateral. Temos imensaaaaaa pena, mas...


Aliás, dizer que estes godos nos governam só pode resultar de uma extrema benevolência (afinal, estamos na quadra natalícia...). Esta rapaziada, afinal, não passa de um vicariato, constituindo-se como mandaretes da filial portuguesa da Goldman Sachs e, num nível abissalmente patológico, numa Central do Ódio Institucional: O Primeiro odeia a lógica, a gramática, a sintaxe e, de um modo geral, a língua materna, preferindo quiçá, uma qualquer forma de crioulo originado em Massamá; a ministra da justiça - uma criatura que expele ódio e azedume por todos os poros - odeia os advogados, os presos preventivos, os arguidos, os condenados, os culpados e os inocentes, exceptuando desse ódio universal os grandes escritórios de advocacia, precisamente aqueles que facturaram milhões à custa dos negócios ruinosos que engendraram para o Estado, beneficiando os grupos privados que capturaram o aparelho estatal e nos conduziram à actual situação; o Audi Mota Soares odeia os desfavorecidos, os pensionistas, os desempregados, os beneficiários do RSI e , de um modo geral, toda esta malta pindérica que por um ou outro motivo vive dependurada das altas benesses que a Segurança Social lhe proporciona; o Macedo "Carinha Laroca" ex-Impostos odeia os doentes, médicos, enfermeiros, hospitais e Serviço Nacional de Saúde, perdendo-se de amores pelos seguros privados, sobretudo aqueles que são vendidos na mercearia do grupo financeiro para o qual trabalha/trabalhou (riscar o que não interessa); o luso-brasileiro Relvas odeia a RTP e o serviço público de televisão (não confundir com o serviço privado do mensalão), autarcas bolcheviques e o povinho que não votou PSD; Álvaro O Português de Vancouver, odeia as ideias que não se enquadrem na sua visão cosmopolita do Mundo, cabendo nessa triste e abrangente categoria TODAS AS IDEIAS; Gasparzinho odeia os funcionários públicos e os trabalhadores em geral, considerando-os os grandes culpados do défice e da dívida e uma gentalha ignorante e iletrada que não se familiarizou com as teorias de George Friedman e dos Chicagos Bois (perdão, onde se lê "Bois", deve ler-se "Boys"; mais uma vez as gralhas tipográficas a prejudicarem a qualidade da prosa); Assunção Cristas não odeia ninguém; coitadinha ainda não sabe onde caiu nem o que anda por ali a fazer; o Branquinho também se exceptua deste ódio universal e viscoso; adora os submarinos e os Pandur e orgulha-se do garbo dos militares em parada, já não achando tanto graça quando os mesmos se manifestam em frente ao Ministério do Gasparzinho; o Crato talibã odeia professores, alunos e auxiliares, sobretudo aqueles que subvertem as altas concepções que possui da educação, ou seja, de si mesmo; Portas odeia Portugal mantendo-se longas temporadas no exterior, a promover a nossa imagem e a nossa economia, com os brilhantes resultados que se têm visto; Viegas, o excelente gastrónomo, odeia o cinema, o bailado, as artes plásticas, o teatro e Diogo Infante. E por aqui me fico, que já me estou a sentir à beira do vómito e conspurcado por esta maré viva de ódio e mesquinhez, mas não sem antes referir duas notórias excepções a tamanha sanha: existem duas classes profissionais que estão isentas desta baba viscosa, não porque não mereçam ser odiadas e execradas, mas porque o temor que inspiram a Gasparzinho e Cia. se sobrepõe ao ódio: tal como todos os cobardes (que são, como se costuma dizer, fracos com os fortes e fortes com os fracos) refugiam-se em subterfúgios justificativos do tremor que os assola perante os militares (que têm os meios suficientes e necessários para provocar revoluções e golpes de estado) e perante as polícias (que lhes asseguram a tranquilidade através da repressão da putativa agitação social, coisa que, de resto, o Primeiro fez questão de pré-anunciar há alguns meses atrás, não vá o Diabo tecê-las...). E assim vamos. A este rolo compressor da inteligência chama-se XIX Governo Constitucional.


Para terminar, queria só relembrar a resposta de Roland Barthes à revista "Lire", quando questionado sobre o conceito de estupidez: "A estupidez é a euforia do lugar".

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

MIDNIGHT IN PARIS


Woody Allen

EUA, Espanha, 2011



Hemingway achava entediante escrever sobre a América. Para ele tudo o que tinha realmente interesse estava situado no continente europeu. A tarefa de escrever sobre o seu país natal ficava para Scott Fitzgerald. Por outro lado, a crítica americana nunca se entendeu com Woody Allen (ou Cassavettes) ao contrário da sua congénere europeia. Sendo um produto perfeito da cultura americana, a obra de Woody Allen não se inscreve no entanto na parte dominante que a essa mesma cultura diz respeito. Fundamentalmente, e nunca deixando de ser americanos, o que os dois autores evidenciam é, para além de uma enorme admiração pela cultura europeia, uma consciência do fenómeno cultural a uma escala global. E essa quebra das barreiras do entendimento pode ser extensível à própria forma como o criador entende o seu tempo, os outros tempos, buscando aqui e ali o seu espaço de cumplicidade com aqueles que, não estando, estão sempre. E à meia-noite, se estivermos no lugar certo em Paris, ao toque dos sinos estaremos a embarcar para um Peugeot dos anos 20 a caminho de uma festa com todos aqueles que admiramos. E é isso que acontece neste filme, onde a realidade, a comédia, o sarcasmo e a ironia se entrelaçam subtilmente.
Fazendo a viagem inversa de A ROSA PÚRPURA DO CAIRO, em que os personagens de um filme saltavam da tela para a realidade, neste caso é a própria realidade que troca de roupa e se veste como há 90 anos atrás. Gil (Owen Wilson) é um argumentista bem sucedido em Hollywood que quer tornar-se escritor. Aproveitando uma viagem com a sua noiva (Inez) a Paris, sonha com a possibilidade de se fixarem naquela cidade. Uma mansarda com clarabóia, os mercados de rua e a nostalgia dos seus criadores preferidos marcam um fascínio que em nada é acompanhado por ela. Inez personifica a América saloia e endinheirada, de fascínio instantâneo e imediatamente esquecido. Uma menina mimada que na primeira oportunidade aproveita para se envolver com um antigo colega da Faculdade, um pedante que sabe sobre tudo e mais alguma coisa, mesmo quando não sabe. Aí está a parábola da relação do realizador com o público americano atrás referida… Gil é Woody Allen, representa como ele, e torna-se o lado fraco do filme na medida em que não corresponde em termos comportamentais à expectativa apaixonada do escritor que pretende ser. É demasiado passivo, neurótico, demasiado deslumbrado com o passado, pouco seguro de si para um argumentista de sucesso na indústria cinematográfica. Carla Bruni tem um aparição interessante, nem muito forçada nem exagerada. A sua presença é bastante agradável e cumpre na plenitude a sua função de actriz secundária.
Cole Porter, Fitzgerald (Scott e Zelda), Picasso, Hemingway, Gertrude Stein, Dali, e muitos outros, apresentam-se como uma selecção dos anos 20, cada um com a sua característica, mais de apresentação formal do que de realidade humana. Assim como Paris se apresenta mais na sua qualidade de postal turístico do que de uma realidade urbana mais crua. Mas nada disso afecta o espírito do filme, antes pelo contrário. Ao embarcar para uma realidade fora da nossa realidade, o realizador convida-nos a visitar um lugar mais idealizado do que experienciado, ou vivido. E essa dimensão corporiza-se em Amanda, inicialmente amante de Picasso, por quem Gil acaba por se apaixonar. Enquanto Gil é fascinado pelos anos 20, onde tudo aconteceu, Amanda tem exactamente a mesma opinião sobre a “Belle Époque”, o tempo em que terminava o século XIX e o XX começava. Nesse tempo, em pleno Moulin Rouge, Gil e Amanda despedem-se depois de perceberem que é impossível ficarem juntos. Mesmo noutros tempos, ou em tempos idealizados não há finais felizes. E não há porque as pessoas sonham com o que não têm, idealizam o que não viveram, com toda a injustiça que essa atitude acarreta.
De volta ao seu tempo, Gil termina o seu noivado com Inez e decide que vai ficar a morar em Paris. No ar fica um possível encontro com a vendedora de discos antigos (Cole Porter) no mercado de rua.
Midnight em Paris deve ser visto mais como um encontro entre amigos, uma reunião de companheiros dos mesmos ideais. Uma ternura dividida com os espectadores europeus que sempre se mantiveram e mantêm fiéis ao génio deste realizador.

Artur

JOBS




segunda-feira, 7 de novembro de 2011

MARGINALIA

Marginalia: anotações, comentários, sublinhados, sinais gráficos deixados por um leitor na margem e à margem do texto impresso


"Não encontrarás novos países, não descobrirás novas margens. A cidade seguir-te-á..."





Sei de Kavafy pela paixão avassaladora de Marguerite Yourcenar: o grande espírito da escritora gostava de se apaixonar por homens que amavam outros homens. Essa qualidade do seu destino, que alguns considerariam trágica, tornou-se com o passar do tempo uma "imagem do pensamento", como diria Walter Benjamin, uma luz que ilumina uma zona obscura daquela que outrora foi Crayencour antes de ser Yourcenar.



Que poderia o velho Kavafy oferecer à jovem Marguerite ? O quê, para além dessa vagabundagem poética pelo Mediterrâneo, entre as ruínas do mundo grego e esses vislumbres de Adriano e do inalcançável Antínoo para o qual o Imperador, no auge da dor, mandou construir cidades e milhares de estátuas e ao qual erigiu um culto digno do jovem deus afogado nas águas do Nilo ? Curiosa inversão de papéis: Kavafy torna-se, de algum modo, um Antínoo idoso, poeta e sábio, e Marguerite desempenha o papel do amante que, não podendo consumar a paixão, dedica o resto da vida ao culto do amado desaparecido ainda em vida.



A sombra de Kavafy vagueia entre os velhos cafés de Alexandria, pára durante um momento frente às lojas de especiarias aspirando os odores misturados e apreciando as pirâmides de cores, compra uma laranja e fá-la rodar devagar entre as mãos enquanto se dirige para o porto. Marguerite não voltou a Alexandria. Não voltará jamais.



"Não digas que o teu ouvido te enganou ou que não era senão um sonho... Comovido, mas sem te abandonares às orações e às súplicas dos cobardes, experimenta um último prazer ao escutar os sons dos delicados instrumentos do cortejo divino, e saúda Alexandria, que não voltarás a ver"







quarta-feira, 2 de novembro de 2011

I Always Contradict Myself


Os gregos antigos não tomavam nenhuma decisão - política, administrativa, financeira, militar, etc - sem consultarem previamente o Oráculo de Delfos. Depois, faziam exactamente o contrário daquilo que tinha sido predito e aconselhado pelo Oráculo.





O SONHO


(Foto de Sofia P. Coelho)
O sonho partiu ao amanhecer, deixando nos lençóis um breve rasto que se podia cheirar. O barco caiu no degrau da linha do horizonte antes de desaparecer atrás das vagas monótonas e da bruma do mar. Os passos que se foram desenhando ao longo da praia desapareceram nos primeiros instantes da próxima maré-cheia. Ficou o piar das gaivotas, um cachimbo apagado que adormeceu na mesa da sala, uma página escrita até metade com uma frase por acabar. A vida foi tropeçando cada vez mais vezes nas pedras e nos buracos da areia, foi perdendo vontade e chama, à medida que a noite caminhava sem destino para a manhã se instalar. As pernas deslizaram sem vontade para fora da cama, deixando que os pés se fossem enterrando na realidade, o corpo flutuou pelo mar dentro, esquecido do frio. O cigarro acendeu-se ao fim de várias tentativas sopradas pelo vento. E deixou-se queimar, perdido no meio dos dedos.
Tudo se apresentava ou tentava apresentar na sua melhor forma antes de desaparecer. Tudo começava em força para melhor poder acabar. E o que ficava repetia-se, repetia-se até à exaustão, sem fim. Era o que entrava e saía desta monotonia que marcava alguma coisa. O que começava e corria tranquilamente na essência do seu fim. O que ficava para se repetir pertencia a este lugar. Mas tudo o resto, tudo o que não era mais do que breve visitante, tudo o que estava de passagem, tudo aquilo que tinha um fim era apenas a força da vida do quadro inteiro. Sem esse elemento passageiro, os ciclos não tinham significado, não serviam para nada. Esse elemento que éramos nós, os intrusos, temporários utilizadores dos cenários eternos repetidos sobre si próprios. E não havia magia nem significados escondidos nem propósitos transcendentes nem nada a não ser a normalidade com que tudo acontece, mesmo quando acontece de forma anormal.
A página escreveu-se, a frase terminou, o cachimbo fumou-se, o amor explodiu, a fogueira ardeu. E quem partiu fechou a porta da casa alugada e devolveu as chaves ao dono. Alguém ficou na praia a dizer adeus até o adeus partir também, perdido no meio dos dedos. O sonho partiu ao amanhecer…

Artur

sábado, 29 de outubro de 2011

VIRA O DISCO...

Diálogo entre Colbert e Mazarino durante o reinado de Luís XIV extraído da peça de teatro Le Diable Rouge, de Antoine Rault:

Colbert: Para encontrar dinheiro, há um momento em que enganar [o contribuinte] já não é possível. Eu gostaria, Senhor Superintendente, que me explicasse como é que é possível continuar a gastar quando já se está endividado até ao pescoço...
Mazarino: Se se é um simples mortal, claro está, quando se está coberto de dívidas, vai-se parar à prisão. Mas o Estado... o Estado, esse, é diferente!!! Não se pode mandar o Estado para a prisão. Então, ele continua a endividar-se... Todos os Estados o fazem!
Colbert: Ah sim? O Senhor acha isso mesmo ? Contudo, precisamos de dinheiro. E como é que havemos de o obter se já criámos todos os impostos imagináveis?
Mazarino: Criam-se outros.
Colbert: Mas já não podemos lançar mais impostos sobre os pobres.
Mazarino: Sim, é impossível.
Colbert: E então os ricos?
Mazarino: Os ricos também não. Eles não gastariam mais. Um rico que gasta faz viver centenas de pobres.
Colbert: Então como havemos de fazer?
Mazarino: Colbert! Tu pensas como um queijo, como um penico de um doente! Há uma quantidade enorme de gente entre os ricos e os pobres: os que trabalham sonhando em vir a enriquecer e temendo ficarem pobres. É a esses que devemos lançar mais impostos, cada vez mais, sempre mais! Esses, quanto mais lhes tirarmos mais eles trabalharão para compensarem o que lhes tirámos. É um reservatório inesgotável."

domingo, 23 de outubro de 2011

AND JUSTICE FOR ALL


AND JUSTICE FOR ALL

Norman Jewison

EUA, 1979

Num tribunal de Baltimore a funcionar a tempo inteiro, advogados, juízes, policias e funcionários judiciais vivem uma azáfama diária sem muito tempo para respirar. A complexidade e a urgência do funcionamento do sistema acelera os ritmos de vida, a um ponto em que é difícil reflectir sobre o mais importante de todas aquelas tarefas. A correcta administração da justiça e as consequências humanas do resultado do trabalho dessa gigantesca máquina que deve garantir “justiça para todos”. Arthur Kirkland (Al Pacino) é um jovem advogado dividido entre essa existência stressante e a correcta defesa dos direitos dos cidadãos.
Dividido entre o drama e a comédia causada pelas circunstâncias do quotidiano, o filme acompanha a vida desses funcionários da justiça, as suas misérias e contradições e centra-se na luta divisória comportamental entre o lado prático e material da vida e o das consciências. Perante um conflito interior insanável os seres humanos ou estoiram submergidos nessa contradição ou desenvolvem defesas, desvios comportamentais para se defenderem. Um advogado (Jeffrey Tambor), quando percebe que, através de uma habilidade técnica consegue pôr em liberdade um homem que a seguir assassina duas crianças, enlouquece temporariamente. Um juiz, antigo veterano na Guerra da Coreia, ensaia comportamentos suicidas nos intervalos da sua actividade. Passeia-se com um código civil na mão e um revólver debaixo do braço. Outro juiz (John Forsyth), inflexível e extremamente duro na aplicação da lei revela-se um pervertido implacável. E é este mesmo juiz que vai nomear Kirkland para seu defensor. Encurralado, Arthur vê-se obrigado a aceitar a defesa de um homem que já o tinha mandado prender por desrespeito ao tribunal. Se recusar, está sujeito a ser expulso da ordem e impossibilitado de exercer advocacia. É este paradoxo que vai crescendo na cabeça de Kirkland ao ponto de explodir em pleno julgamento. O filme levanta questões extremamente importantes em torno da moralidade humana e do confronto que é continuar válido e vivo dentro do sistema e, ao mesmo tempo defender essa mentalidade, esses valores de justiça e humanismo que todos transportamos.
Mais uma grande interpretação de Al Pacino no filme que se seguiu ao PADRINHO, com a particularidade de contracenar com o seu grande mestre do Actors Studio. Lee Strasberg interpreta o avô que vive num lar e que tem grandes falhas de memória. Um filme a que todos devemos voltar de vez em quando.

Artur

sábado, 22 de outubro de 2011

O CORNO DO RINOCERONTE

Lembro-me de há alguns anos atrás ter visto um filme russo onde uma família se apresentava numa hospedaria. O pai, devidamente fardado de oficial do exército, explicava que tinha acabado de ser destacado para aquela cidade e que procurava alojamento temporário enquanto não encontrava uma casa. A história é-nos contada enquanto memória do filho entretanto adulto. O oficial, que afinal era seu padrasto, a mãe e o rapaz, ficavam então alojados, conquistando a simpatia dos outros hóspedes e do dono (ou dona) da estalagem. Passados alguns dias, o respeitoso oficial aparece com uma série de convites para a ópera. Convites esses que faz questão de oferecer a todos os seus vizinhos de quarto. Há uma sessão nessa noite e alguém lhe facultou os bilhetes. Toda a gente agradece a generosidade do novo hóspede e prepara-se para a grande noite. Enquanto estão todos na ópera, o oficial, a mulher e o enteado tratam de esvaziar literalmente tudo o que podem da pensão vazia. Despacham-se para o comboio e partem para outra cidade a fim de dar mais um golpe. Esta situação ocorre duas ou três vezes, até que o falso militar acaba por ser detido e preso. Mas isto passa-se num filme.
Na vida real o colectivo continua sistematicamente a ser entretido e insiste em ser roubado. Só que os ladrões conseguem sempre escapar e não precisam de falsas identidades, nem de apanhar o comboio para fora da cidade.
Chama-se o pagode para a rua e avançam as variedades. O jogador que abandonou a selecção porque amuou, os impostos dos ricos, os cornos de rinocerontes que valem uma fortuna, a taxação da fast food, julgamentos da grande corrupção, vale tudo no elenco da distracção. Agitam-se ao vento bem alto todas estas notícias vazias com grande alarido. E depois é deixar passar uns tempos, deixar o esquecimento ganhar espaço, inventar novas distracções. O pagode guincha de delírio, ri e vocifera consoante a dança. E no fim, volta para casa e percebe que já lá não tem nada. Foi gamado para além do tutano, foi roubado até à alma, porque muitas vezes o roubo acaba-lhe com a vida. E o serviço noticioso é esta ópera errática apresentada todos os dias a todas as horas, sempre da mesma maneira em todas as diferentes salas de exibição (TVs). Já não chega roubar-nos de todas as maneiras e feitios, já não chega alargar mais ainda o fosso entre senhores e escravos, agora até o próprio espectáculo, até o próprio entretenimento está a tornar-se de muito má qualidade. A distracção já não cumpre o seu objectivo porque as mentiras estão cada vez mais mal contadas. As ideias dos argumentistas estão fracas e os seus argumentos pouco credíveis. Os actores representam cada vez pior e convencem cada vez menos. A opera está a degradar-se a olhos vistos. E, pelo andar da carruagem, vamos acabar todos a vaiar a companhia, ou a nem sequer ir ao teatro. Porque muitos de nós estarão mortos antes disso.

Artur

sábado, 15 de outubro de 2011

A SOFIA NOS STATES


É com muito orgulho e satisfação que anuncio aqui que a partista e nossa amiga Sofia P. Coelho está a competir no terceiro concurso anual de fotografia em torno do parque natural de Yosemite, o 2011 Ansel Adams Gallery Photo Contest. Por estas bandas já sabíamos que trabalhávamos ao lado de uma excelente fotógrafa... Agora é a vez do mundo o reconhecer. Sofia, muitos beijinhos de parabéns e que corra tudo pelo melhor. És linda!

Artur, Arnaldo e João

Mais informações, aqui:
http://www.theanseladamsgallery.com/wp-content/plugins/wp-photocontest/view.php?post_id=4&order=chrono

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

FEIRA DO LIVRO DO TRIPULANTE




Está a decorrer até dia 21 a primeira Feira do Livro do Tripulante nas instalações do Sindicato Nacional do Pessoal de Voo da Aviação Civil (SNPVAC) na Av. Gago Coutinho. Apresentando cerca de 30 autores, esta primeira iniciativa pretende não só dar a conhecer algo mais sobre a actividade dos tripulantes como promover o debate e divulgação literária. Com iniciativas diárias todas as tardes de 2ª a 6ª, o programa da Feira conta com vários convidados que, não sendo tripulantes, estão de alguma forma relacionados ou com as suas vidas ou com as suas actividades. De facto, trata-se de uma classe profissional que acumula as mais diversas actividades paralelas, indo desde escritores a artistas plásticos, actores, cantores líricos, arquitectos, advogados e até médicos. A actividade de tripulante de cabine, apesar de pouco esclarecida junto da opinião pública, permite, pelas suas características próprias, um espaço paralelo de intervenção na sociedade que vai muito mais além do simples desempenho profissional. Quase a chegar a meio da sua duração, a Feira do Livro é mais uma iniciativa nesse sentido. Pela minha parte enquanto autor, estarei presente no próximo dia 21, 6ª Feira, no dia do encerramento, juntamente com o João Pais, o Afonso de Melo (amigo e jornalista) e o Carlos Lopes (amigo e Professor de Português) para um debate em volta dos livros das histórias e de tudo o resto que a assistência quiser falar. Agradeço desde já à comissão que organizou (José Ceitil, José Borges e José Brás) e ao SNPVAC e à APTCA (Associação Portuguesa dos Tripulantes de Cabine) o apoio decisivo que tornou esta iniciativa uma realidade. A entrada é livre e o programa pode ser consultado no site da Associação. Dependendo do sucesso que tiver agora, está aberta a porta para outra iniciativa igual no próximo ano. Se gostam de livros e de histórias escritas por tripulantes então não percam esta I Feira do Livro do Tripulante.

Artur

sábado, 8 de outubro de 2011

LOCAL HERO




LOCAL HERO

Bill Forsyth

Reino Unido, 1983

Um bom filme é como uma receita extraordinária em que nenhum dos ingredientes falha, nem na quantidade nem no papel decisivo que representa para a degustação final. Um nível de perfeição que ultrapassa a vontade e o empenho de cada elemento que o compõe, transcendendo-se desta forma através do superior desígnio do “perfeito colectivo”. Foi isso que aconteceu em LOCAL HERO, daí tratar-se de um filme a que regresso várias vezes.
Tudo começa nos escritórios da Knox Oil and Gas, uma gigante petrolífera americana, quando o excêntrico patrão, Harper (Burt Lancaster), convoca o jovem executivo Mac Intyre (Peter Riegert) para uma reunião no seu gabinete. A grande petrolífera pretende construir uma refinaria no norte de Escócia, já está tudo planeado até ao mais ínfimo detalhe, excepto um pequeno pormenor. Há uma aldeia costeira no caminho do progresso. A tarefa de Mac Intyre é a de viajar para lá e iniciar o plano das indemnizações aos habitantes de Ferness. A escolha recaiu nele porque, o nome assim o indica, se trata de um descendente de escoceses, o que facilitará a aproximação aos mais desconfiados. Mac Intyre, muito mais habituado a tratar de dados estatísticos, a fazer projecções e a armazenar ficheiros no pequeno espaço do seu escritório, não fica muito contente com esta nova missão, embora lhe seja completamente impossível recusar. Além do mais, Mac Intyre é descendente de emigrantes húngaros. Os pais escolheram aquele novo apelido no acto da naturalização, pensando tratar-se de um nome tipicamente americano. Está dada a partida para uma série de equívocos que se seguem uns aos outros até ao fim do filme. Nenhuma certeza ficará de pé.
O primeiro choque começa de imediato com a chegada do executivo americano da grande cidade a uma pacata aldeia com pouco menos de um centena de habitantes. Espaços diferentes, tempos diferentes, velocidades diferentes, existências diferentes. O choque cultural é inevitável, simbolizado talvez pela existência de um único telefone, uma cabine pública. Cada vez que Mac Intyre quer telefonar para o seu patrão tem que fazer uma colecta de moedas, e nunca chega. Os telemóveis ainda não tinham sido inventados. A reacção inicial de extrema desconfiança por parte dos aldeões não facilita o trabalho de um espírito prático e empreendedor, habituado a obter resultados rápidos no seu trabalho. Para estabelecer a ponte entre os dois tipos de interesses há o “chico-esperto” da terra, Gordon Urquhart (Denis Lawson), dono do único hotel e contabilista nas horas vagas. Casado com Stella (Jennifer Black), uma mulher que despertará uma paixão incómoda a Mac Intyre. Outra mulher importante nesta história será Marinna (Jeanny Seagrove), uma bióloga marinha que vê com muito maus olhos as consequências ambientais que a refinaria causará na região. Para uma simples aldeia piscatória, existe uma abundância de personagens excêntricos, desde um padre negro (perplexo quando Mac Intyre lhe pergunta quanto é que quer pela igreja e pelo cemitério) até um motociclista misterioso, passando por um eremita que vive na praia (Bem Knox, Fulton Mackay) e um visitante ocasional, o marinheiro russo Victor (Christopher Rozycki).
Sobre toda esta aparente desestabilização provocada na pacata aldeia de Ferness pairam também momentos que ainda desorganizam mais a narrativa. Por um lado a grande paixão de Harper pela astronomia. Numa das conversas na cabine telefónica, Mac Intyre é obrigado a descrever o céu por cima da cabeça sem nada perceber de observação de estrelas. Será o interesse pelos céus que vai levar o grande patrão da Knox Oil a deslocar-se pessoalmente à aldeia para verificar in loco as extraordinárias condições de observação astronómica que a região proporciona. Depois temos ainda um motociclista misterioso, que todos na aldeia conhecem, que de tempos a tempos passa em grande velocidade, mas que nunca para. Uma homenagem a Fellini em ARMACORD, onde se desenrola uma cena igual.
Finalmente, quando os aldeões se convencem a ceder, a fazer contas e a esfregar as mãos de contentes com o que vão fazer com as indemnizações, tudo volta ao princípio. Afinal o dono de todos aqueles terrenos é o eremita que vive na praia, Ben, e não está disposto a vender coisa nenhuma. Após uma longa conversa entre Harper e Ben, aquele decide construir a refinaria no alto mar e dotar a aldeia de um equipamento de observação astronómica. O representante da Knox Oil na Escócia (Danny) sugere juntar ao observatório um instituto de pesquisa oceanográfica, presenteando assim os anseios da sua grande paixão, Marina. Os dois reunidos poderiam chamar-se Harper’s Institute. Harper concorda e manda MacIntyre de regresso a casa para tratar das papeladas. Mais tarde já no seu apartamento em Houston, MacIntyre deambula pela casa lentamente. Depois pega no telefone e faz uma chamada. Do outro lado do mundo, uma cabine telefónica toca isolada na aldeia. Ninguém atende. Em crescendo começa a ouvir-se o tema “Going Home” dos Dire Straits.
É a extrema ingenuidade narrativa que torna LOCAL HERO num filme de uma humanidade grandiosa, na medida em que é real, e honesta a forma como se apresenta. As contradições fazem o nosso quotidiano, não há verdades absolutas e o mundo pára quando nos reunimos num bar a ouvir musica, independentemente do lugar de onde vimos. É essa solidariedade, esse companheirismo e essa “infantilidade” que nos mantém vivos muito para lá de qualquer feito que consigamos alcançar, por mais grandioso que seja. O resto é o céu, a aurora boreal, um motociclista misterioso e uma cabine telefónica que toca sozinha na solidão da noite.


Artur

terça-feira, 4 de outubro de 2011

MARGINALIA



"Marginalia: anotações, comentários, sublinhados, sinais gráficos deixados por um leitor na margem e à margem do texto impresso"

A dada altura da entrada "Desempacotando a minha biblioteca" (pg. 209 "Imagens de pensamento", Assírio & Alvim, Lisboa), escreve Walter Benjamin : "De todas as formas de obter livros, a que se considera mais louvável é escrevê-los. Alguns de vocês estarão a pensar, divertidos, na grande biblioteca que o mestre-escola Wuz de Jean Paul foi acumulando com o tempo, recorrendo ao expediente de escrever ele próprio todas as obras cujos títulos lhe interessavam nos catálogos das feiras, mas que ele não podia comprar. Os escritores são de facto pessoas que escrevem livros, não por pobreza,mas por insastifação com os livros que poderiam comprar, mas não lhes agradam." Aquilo que Benjamin deixa subentendido é que não são as carências materiais, mas as existenciais que levam os escritores ao exercício da escrita; querem ver no papel as palavras, ideias e conceitos que ainda lá não estão, mas precisam absolutamente de estar; as histórias que ainda foram articuladas;as que ainda não foram bem contadas ou, por último, que precisam ou mereçam ser contadas e expressas na sua própria língua.



segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Á MINUINS E UNDERSTANDS



A Dra. Assunção Cristas, diriginte do MAMAOT (Ministério da Agricultura, do Mar, do Ambiente e do Ordenamento do Território) anunciou recentemente à Nação a urgência do aumento do tarifário da água. Numa comunicação realizada num português impecável, Sua Excelência não se referiu directamente à dimensão económica de tal medida, optando por comentar o efeito imediato e importante da mesma: a consciencialização dos portugueses em relação ao consumo do precioso líquido, fazendo-os compreender que o mesmo é um bem, logo tendo um custo. O conceito é tão profundo e tão brilhante que não me atrevo a abordá-lo sem estar munido dos meus óculos de sol (factor 500). No entanto, encho-me de coragem para antecipar alguns efeitos pedagógicos: os desempregados passarão a ter mais cuidado na altura de encherem as piscinas (compradas com empréstimos do BPN) e, quando lhes apetecer a refrescante banhoca no meio das tropicais palmeiras que enfeitam e embelezam os seus jardins poderão optar por um mergulho numa tina de metal (média) cheia de ácido sulfúrico; a rapaziada do ordenado mínimo nacional deixará de lavar os Porsches e os Mercedes no pátio dos condomínios de luxo, passando a considerar a sujidade dos seus automóveis como um símbolo das longas estradas poeirentas que percorrem para atingir o monte alentejano onde passam os fins-de-semana; o pessoal beneficiário do RSI passará a tomar um duche rápido, em vez de amolecer durante horas no "jacuzzi" que equipa a "penthouse". Aliás, para esta última classe de indivíduos, particularmente execrandos, cujo principal passatempo consiste em desperdiçar água, recomendar-se-ia, em caso de reincidência e contumácia, a aplicação de penas de trabalho comunitário que consistiriam, por exemplo, na lavagem dos submarinos (com água do mar) e a rega dos sobreiros de Benavente (com a água sobejante das lavagens de louça). De qualquer modo, podemos inferir das palavras da Dra. Cristas uma importante conclusão sociológica: os portugueses são todos ricos e vivem uma relação de tal modo despreocupada com o dinheiro que ainda não tinham percebido que a água tinha um custo (bem como a eletricidade, o gáz, as comunicações e os combustíveis, dos mais caros de toda a Europa). Pobres, nós ?! Só se for de espírito. Pelo menos, temos assegurado o Reino dos Céus

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

RAY, NICHOLAS RAY



"Estás a despedaçar-me!"

(James Dean em "Rebel Without A Cause")

Porque foi Nicholas Ray tão admirado pelos críticos franceses dos anos 50, e uma tão grande fonte de inspiração para aqueles que viriam a tornar-se os realizadores da Nouvelle Vague ? A resposta reside, talvez, na observação muitas vezes repetida por Ray acerca do limitado contributo do argumento para o resultado final do filme - afirmação que ilumina a sua abordagem decididamente não-literária da arte cinematográfica - e no agudo sentido da dor pessoal e da angústia evocadas pela frase em epígrafe, retirada do seu filme mais conhecido.
Ray foi um marginal em Hollywood, um homem cujo profundo desapontamento com a sociedade americana em geral e com a indústria cinematográfica em particular veio a manifestar-se não apenas na sua conturbada relação com os estúdios cinematográficos, mas também no conteúdo dramático e na força impulsionadora da sua obra. Os seus filmes constituíram, em grande parte, poderosas e profundas contribuições pessoais para aquilo que foi, e ainda é, uma camisa de forças, especializada na produção de entretenimento de massas, homogeneizado e de sentido débil; expressaram a sua consciência de tormento íntimo, solidão e desespero, conflito e confusão, fazendo-o apenas através de meios cinemáticos.
Para Godard, Truffaut, Rohmer, Rivette e outros, Ray era o exemplo acabado de um "auteur", um admirável exemplo de um artista, cuja inteligência patente, intensidade de sentimento, e puro amor ao cinema asseguravam que a sua assintaura criativa podia ser viva e facilmente percebida entre toda a tralha constituída pelo cinema comercial norte-americano.
Para mim, para nós (um grande abraço ao Artur, esse maravilhoso cinéfilo, que descobriu e conheceu tantas coisas antes de mim), os seus filmes representam o triunfo do individual sobre a segura e branda conformidade do sistema, alinhando com Von Stroheim, Buster Keaton ou Orson Welles - talentos de ambiçaõ massiva ("bigger than life", outro título de um dos maiores filmes de Ray), originalidade e génio esmagados pela lógica implacável do sistema filistino que imperava em Hollywood.
Ray possuía aquilo a que os gregos chamavam "sabedoria de Sileno", ou seja, a capacidade de reconhecer o sentido trágico e pessimista da vida humana, de olhar com coragem essa condição e de a traduzir em expressão artística. As suas personagens falam muitas vezes por ele próprio - já referi numa postagem anterior a fabulosa frase "I always contradict myself" de "Bitter Victory" - e, assim sendo, poderia ser Ray a proferir a frase "I'm a stranger here myself", dita por Sterling Hayden em "Johnny Guitar". Esta estranheza, esta sensação de desenraízamento, poderá explicar em parte uma das características quanto a mim maiz bizarras do seu percurso artístico: a indiferença em relação aos gostos dominantes, ao polimento estético, ao equilíbrio ,contenção e outros modos de expressão mais convencionais e respeitáveis. Ao mesmo tempo, não foi particularmente inovador, quer em termos técnicos, quer formais; a maior parte das vezes trabalhou no contexto de géneros populares e tradicionais, como o western, o thriller, o filme de guerra ou o melodrama. E é precisamente essa tensão, entre a sua sensibilidade pessoal, e os constrangimentos do cinema comercial, que tornam a sua obra tão interessante, tão duradouramente moderna e de tal maneira influente na obra de sucessivas gerações de cineastas. A sua importância releva não apenas dessa influência, reinvindicada ou não, mas do facto de milhões de jovens continuarem a atestar o poder de "Rebel Without A Cause" na expressão de emoções, realçando o modo como Ray transcendeu o seu tempo com uma visão da vida que continua a afectar-nos: dor, ansiedade, incerteza, violência e solidão são elementos da condição humana, e poucos realizadores, especialmente em Hollywood, os confrontaram tão directa e intensamente, de um modo tão pouco comprometido como Nicholas Ray. Mesmo nos seus filmes mais convencionais, a sua sensibilidade perturbada pelo pessimismo constitui uma força activa na caracterização quer de indivíduos, quer da sociedade. É por isso mesmo que teremos que voltar sempre a esse "corpus"cinematográfico único e pungente que, apesar de tudo, de toda a angústia e mal-estar, celebra a singular e dolorosa preciosidade da vivência humana e da capacidade de alguns indivíduos resgatarem aquilo que resta de dignidade, liberdade e sentido na trágica condição humana. É por isso que sempre voltaremos aos filmes de Nick Ray, relembrando o fabuloso diálogo de "On Dangerous Ground" entre o detective protagonizado por Sterling Hayden e outra personagem:

" - Lixo, é tudo aquilo com que vivemos. Lixo ! Como é que consegues viver com isso ?
- Eu não vivo com isso. Vivo com outras pessoas"

sábado, 24 de setembro de 2011

TRILOGIA DA AUSÊNCIA – EPÍLOGO




A.B. e C.


O Pavilhão do Dramático de Cascais já não existe, a Escola Secundária de Belém-Algés foi demolida, os Ramones já morreram todos (menos um), o tempo daquele tempo evaporou-se e nem a lembrança nostálgica o fará pôr de pé outra vez, regressar das profundezas do passado.
O mais certo é nunca termos estado aqui, nem de passagem. O mais certo é sermos apenas sombras errantes que julgaram ter tido um corpo, uma memória, uma consciência. Breves nuvens de fumo a pairar sobre a assistência enlouquecida de um concerto de uma banda punk nos anos 80. Ruídos de comboios ensurdecedores que nunca aconteceram assustam-nos os sonhos ainda hoje numa terra despojada de sentido, de lógica, de esperança. Nem acusamos nem lamentamos nada, limitamo-nos a recordar como se as recordações tivessem sido factos reais, como se a Vida tivesse alguma vez tido lugar dentro de seres que nunca acreditaram em nada a não ser em si próprios vagamente. Sementes que germinaram e cresceram no anonimato, ignorados, esquecidos, vagamente considerados como dados para estatísticas. Se calhar nunca estivemos aqui, livros perdidos numa estante de um escritório numa casa esquecida pelos arquivos municipais, num canto perdido da cidade.
Se calhar nunca houve uma vida digna desse nome, um caminho bem delineado por marcos e referências, um piso irregular para caminhar, um ponto de partida e outro de chegada. Se calhar nunca houve nada.

Artur

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

TRILOGIA DA AUSÊNCIA III




C.


Gosto de estar nesta casa ao pé do mar, acho que estou em Oeiras, gosto de ficar aqui depois do lanche a observar o fim do dia. De vez em quando aparecem duas lagartixas no rebordo da varanda a quem eu dou migalhas das minhas bolachas. Chamei-lhes Ângelo e Bruno porque têm o nome de dois tipos que de vez em quando me vêm visitar, dois antigos colegas da CIA com que eu trabalhei há muitos anos no Médio Oriente. Como sou reformado pensionista, isso quer dizer que já não posso trabalhar, devo ter sido ferido nalguma missão arriscada. Eles nunca tocam no assunto, um vem de mota, sempre a meio da semana, deve ser antes de ir para casa. Sei porque aparece com o capacete debaixo do braço. A outra casa onde estava era pior que esta. De vez em quando o vizinho ligava uma musica aos berros, uma musica que, depois de muito tempo desligada continuava a tocar na minha cabeça. Às tantas parecia um comboio a andar por cima da casa, um comboio muito ruidoso que eu tinha a certeza que ia fazer cair as paredes, que nos ia soterrar vivos. Nessa altura ficava muito perturbado e desatava a gritar. Depois davam-me injecções e tudo acalmava outra vez. Desde que vim para esta casa perto do mar já não ouço essa musica, limito-me a ficar muito triste se por acaso há barulho à minha volta. Desde que não haja barulho, está tudo bem, consigo desenhar o Zé Carioca com um papel vegetal por cima, consigo ler duas páginas de um livro, um livro qualquer, o que interessa é conseguir terminar uma página que seja, o médico diz que eu estou a fazer progressos apesar de já não me lembrar da idade que tenho. Mas há-de vir, há-de chegar, a memória é muito destruída por causa da medicação forte. No outro dia consegui adaptar um emissor receptor na cauda do Bruno. Isso vai-me permitir localizá-lo durante a noite, saber onde ele está, se está em segurança ou a fugir de algum cão vadio que o queira comer. Não sei a minha idade mas sei que já fui jovem, é óbvio, basta olhar ao espelho para perceber que estou mais perto de morrer do que de outra coisa. Mas perto de morrer estamos nós todos, todos os dias desde que nascemos. A morte é isso, uma companheira permanente e indesejada, uma sombra que caminha colada à nossa sombra. No fundo tudo se resume a uma simplicidade insuportável, uma transparência que se pode ler em três frases e dois acordes de guitarra. O mais assustador é que nunca estamos preparados para uma visão tão simples das coisas. Estamos aqui mas também estamos noutro tempo, noutra dimensão, na nossa juventude a dançar na praia ao amanhecer, num comboio que viaja no espaço a caminho da Nave Mãe, onde está a decorrer um acontecimento fantástico. Eu digo isto porque desconfio que já fiz todas estas viagens que há para fazer, já falei como seres dos outros mundo que me explicaram que está tudo bem, o que é preciso é não exagerar, o que é preciso é que nos vamos amparando uns aos outros ao longo do caminho, sermos amigos, conseguir acompanhar a respiração da montanha. O resto virá, o resto resolve-se por si, a morte não é nada, é apenas mais um meio de transporte entre dimensões. Sei que aqui e agora ajudo as lagartixas ao fim da tarde e, muito depois de eu morrer, elas hão de vir ter comigo, porque é assim, porque somos amigos e os amigos servem para se encontrarem, para se ajudarem, para se empurrar uns aos outros pelo caminho. Os caminhos de pedras só nos são dados a percorrer para aprendermos estas verdades básicas. Uma simplicidade insuportável porque começamos a ler o livro da vida pelos últimos capítulos e não pelas primeiras páginas, como eu faço agora. Assim é que se devia começar, em vez de acreditar em coisas que não estão lá a não ser na imaginação da propaganda que nos formata a cabeça. Nós somos livres, somos sempre livres e o sofrimento serve apenas para fortalecer essa liberdade do espírito, essa conquista obrigatória da evolução do Ser. Lembro-me vagamente de uns quantos pensadores alemães que arrepiaram caminho nesse sentido, só que agora esqueci-me dos nomes deles. E gregos também. E lagartixas que como o mar, nós e o ar que respiramos, fazem todos parte da mesma realidade que não é real, apenas uma imagem para ajudar a aprender, todos somos a parte uns dos outros. O sofrimento é apenas uma ponte para ficarmos mais fortes. A vida, como a julgamos entender, não existe. A Vida nunca existiu.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

TRILOGIA DA AUSÊNCIA – II






B.

Não sei se foi o telefonema da minha mulher (“quando vieres para casa não te esqueças de ir aos frangos, não temos nada para jantar), sempre oportuna, quando estou concentrado a fazer alguma coisa, se foi a cara de palonso do meu cliente que quer pagar menos 50 euros de pensão à mulher dele, se foi a mulher que estava ali a vender castanhas na rua, se foi o olhar vazio daquela rapariga mal vestida e com ar sujo à porta do estádio da Cruz Quebrada quando fui correr de manhã. Nunca sei nada em relação às razões de ser do que quer que seja. Baralho-me a mim mesmo a um ponto que me é extremamente difícil encontrar o caminho e sair em qualquer direcção, da confusão em que me meti. Acho que foi sempre assim. Resolvo as equações mais complicadas com muito mais facilidade do que consigo resolver os meus problemas. No fundo o que eu acho é que os problemas que vou encontrando também me pertencem e, como não os posso resolver sem a colaboração dos outros, acabo por não conseguir resolver nada. E o gajo quer pagar menos 50 euros, a escola dos filhos custa 400 a cada um, e sôtor trate lá disso que a minha ex-mulher não precisa do meu dinheiro para nada, o pai dela é rico, e resolva lá isso, e eu resolvo e escavo na lei a conveniência que mais interessa a este palonso que vai pagar menos 50 à mulher e mais 200 a mim. Mas que é que se pode fazer? O mundo é assim desde muito antes de eu nascer e não foi por eu aparecer que o vento passou a soprar noutra direcção. E faço o que esperam que eu faça desde que me conheço porque essa é a única maneira de não ver a minha mioleira torrada, essa é a única maneira de não me chatearem a cabeça, de pagar a faculdade dos meus filhos, sustentar a casa, encarar o saloio do meu sogro sem precisar do dinheiro dele, atravessar a vida com alguma tranquilidade, pagar a casa de saúde ao Camilo.Inquestinavelmente o mais inteligente de todos nós, infelizmente dominado pela depressão.
E no entanto houve um tempo em que as coisas podiam ter marchado noutra direcção, um tempo em que me distraí a fazer equilibrismo à beira do poço, um tempo em que o desinteresse tomou conta dos dias, um tempo em que nada me interessava. Valeram-me o Ângelo e o Camilo, a sorte de encontrar os gajos certos no momento certo, mesmo antes da precipitação pela ladeira abaixo. Não sei qual das imagens do dia é que me fez regressar aquela noite fantástica em que tudo aconteceu, aquele momento tão determinante que me fez atravessar a agulha da linha para a estação certa, o que sei é que nunca me vou esquecer dele. Não, não, foi aquela rapariga mal vestida e com ar sujo à porta do estádio depois de ter ido correr. Foi no semáforo fechado em que tive que parar com a mota. Vi o Tejo à minha frente e, mais para a esquerda, vi a sala 32 da escola onde estive no 12º ano, a sala onde nos reuníamos para o “charro” das 5 antes de ir para casa, a escola onde conheci o Ângelo e o Camilo, a escola onde a minha vida podia ter escolhido direcções opostas, a escola que já lá não está, como se nada daquele tempo tivesse alguma vez acontecido. A escola onde andámos e a estação de Cascais à espera deles, que desembarcavam de um comboio de Marte com as criaturas mais estranhas lá dentro, “Freaks”, “Punks”, indiferenciados, com ar ausente como se uma potente mistura química estivesse a circular nas condutas do ar das carruagens desde o Cais Sodré. Do concerto lembro-me do princípio e do fim. No Dramático de Cascais os Ramones chegaram com Rockaway Beach, tocaram as primeiras cinco músicas sem parar, indiferentes aos aplausos ( o baterista dava três berros nos últimos compassos da cada musica e eles arrancavam de imediato para a seguinte), finalmente disseram boa noite ou qualquer coisa do género. O pavilhão navegava no espaço descontrolado, as pessoas dançavam, atiravam-se ao chão, urravam e faziam milhares de coisas ao mesmo tempo, nuvens de erva pairavam sobre as nossas cabeças, não havia maneira de evitar respirá-las. Porquê os Ramones? Porque para eles tudo era simples e veloz. Em três frases e dois acordes despachavam os problemas mais difíceis. Para nós bastava estremecer os corpos e ligar à corrente eléctrica que o mundo desaparecia naquele instante, as ondas más saíam porta fora e ficava só a vibração, uma vibração nem boa nem má, mas uma força intensa que nos elevava aos patamares mais elaborados da consciência. A minha mãe não tinha morrido quando eu tinha 15 anos, o meu pai não passava a vida a trabalhar numa multinacional pelo mundo fora e eu não estava sozinho na minha casa no Birre, a meio caminho do Guincho e de Cascais. Os coices da vida não me acertavam e a música era um estado eterno de vibração. Às vezes ainda sinto isso quando aperto as goelas à mota na A5 a caminho de Cascais e obrigo-nos a vibrar a um ponto muito perto da explosão. Não é o caso de hoje. Hoje tenho que ir à igreja. Subo com a mota até ao alto da Serra de Sintra, acendo um “berlaite” e ponho-me a ouvir a respiração da montanha. A outra parte do concerto de que me consigo lembrar é já cá fora. A polícia de choque estava à nossa espera, conversa vai, conversa vem, caem-nos em cima, grande carga de porrada seguida de fuga e aceleração. Como estava perto de casa não tive dificuldade em me esconder com o Ângelo e o Camilo. Depois fomos para a praia acabar a noite. E ao fim de muita carga na cabeça afastei-me um pouco em direcção às rochas. Em cima de uma vi a minha mãe, perguntei-lhe o que estava ali a fazer àquela hora. Não respondeu. Sorriu-me. Fiquei a olhar para ela durante não sei quanto tempo, até que me disse: “Não exageres, Bruno. Não exageres. Eu estou bem, não te preocupes.” Depois disse-me adeus e foi-se embora. Quando voltei para trás encontrei o Camilo. Vinha transtornado, contei-lhe o que se tinha passado. Ele, com a maior naturalidade pôs-me um braço por cima do ombro. “Estava bem a tua mãe?” Disse-lhe que sim. “Então, óptimo. Senta-te aí e vamos beber uma cervejinha.” E assim fizemos. Toda a situação extraordinária naquela noite estava condenada à banalização, as noites mágicas dispõem de uma lógica própria, de um sentido pessoal, de um propósito exclusivo que termina ao amanhecer. Tudo era tão evidente como o mar e as ondas que não se viam de noite mas que nem por isso deixavam de existir. E o amanhecer foi saudado pela nossa própria coreografia de uma das músicas dos “Ramones”. O Sol nascia e nós tocávamos as nossas guitarras e bateria imaginária. “Sheena is a punk rocker, Sheena is a punk rocker yeah” . Desde aí ficámos amigos até hoje, estudámos juntos e seguimos para a faculdade. Se não me tivesse encontrado com eles, talvez hoje não estivesse aqui ao pé da serra a ouvir a respiração do monte encostado à mota. Talvez à beira do poço tivesse escolhido saltar lá para dentro. Talvez não me surpreendesse quando chegasse a casa e a minha mulher me perguntasse: “Então e os frangos?” Talvez não estivesse cá para me lembrar de responder: “Estava fechado.”

quarta-feira, 21 de setembro de 2011


TRILOGIA DA AUSÊNCIA


(A tribute to RAMONES)

Dedicado aos meus companheiros de Blog, Arnaldo, Sofia e João



A.

Tenho uma enorme dificuldade em dar um nome, em nomear uma data à maior parte dos acontecimentos da minha vida, excepto neste caso. Lembro-me perfeitamente que tinha 19 anos, que estava no último ano antes da Faculdade (o 12º), e que o ano lectivo era 1980/81. Estávamos numa escola pré-fabricada em Algés junto ao rio, mesmo ao lado da Doca Pesca. Uma escola que já não existe. Para lá chegar, tínhamos que passar por um túnel subterrâneo, mesmo por baixo do apeadeiro da estação de comboios. Um corredor escuro e fundo atravessado por milhares de pessoas a caminho do trabalho, das aulas, de outro comboio noutra linha. Uma massa anónima e adormecida de seres, mortos-vivos automatizados pela tirania da rotina, do quotidiano, do imperioso almanaque das leis da sobrevivência. Por cima os comboios arrastavam-se num ruído aterrador de aeroporto, a lama e a poeira decoravam o piso consoante a época do ano, máquinas de néon vendiam produtos estranhos, cigarros, bilhetes, pastilhas elásticas. O mais poético som que se conseguia ouvir era o piar das gaivotas à volta dos barcos que regressavam da pesca. Até o rio cheirava mal. Tal como o ronco de demolição dos comboios, a crise anunciava-se em todos os cantos da existência. Entrava como um nevoeiro intrometido e ocupava todas as frestas, todos os espaços, corroendo tudo o que pudesse cheirar a esperança. Colocava uma cancela em todo o tipo de ambições, um peso absoluto no bater dos corações.
Percebia-se a realidade, percebia-se tão bem e de forma tão nítida que não havia nenhuma vontade de querer fazer parte dela. Todas as desculpas e todos os esquemas eram válidos para estar ausente, longe dali. Tudo era tão infinitamente absurdo e desprovido de sentido, tudo era tão pesado e tão doloroso, tudo era uma condenação sem julgamento. O único crime era estar vivo, existir, pensar. E no entanto estudávamos. Mais para manter a inteligência acordada e em forma do que para chegar a algum sítio.
Atravessávamos aquele túnel todos os dias, os comboios desmoronavam-se por cima de nós, os neons das máquinas iluminavam a parvoeira dos nossos dias. Numa parede um grafitti de um boneco feio e um poema ao lado: “I don’t care, about this world, about that girl, about this words, I don’t care…”
E essa era a leitura do dia, a leitura de todos os dias, o farol de nevoeiro que gritava para manter a consciência acordada, o Ser em alerta, a criação em perspectiva. A canção dos Ramones era a única parte daquele túnel que fazia sentido, o único objecto de atenção digno de registo, o único pensamento válido, a única luz sobre as trevas.
Foi portanto com redobrado entusiasmo que recebemos a notícia. O Bruno tinha lido no jornal, não era mentira. E enquanto fumávamos o “charro” das 5 atrás da sala 32, a última sala da escola, jurámos que nem que o mundo caísse, nem que a vaca tossisse, nem que nos fuzilassem logo a seguir, iríamos lá estar. Os Ramones vinham tocar a Cascais e ainda nem sequer estavam no fim da carreira, como a maioria dos que por cá passavam. Era preciso arranjar bilhetes, acima de tudo era preciso conseguir financiamento para comprar os bilhetes. Umas idas à Feira da Ladra com um saco de tralha inútil arrancada do fundo da arrecadação, umas lavagens de carros a vizinhos com pouco tempo, umas tardes a servir no café do bairro, uns caldos Knorr vendidos a putos a fazer de haxixe, era preciso pôr a cabeça a funcionar. Arranjar o dinheiro não foi difícil. Os dias passavam a ter algum sentido, algum propósito. Até o túnel por baixo da estação dos comboios parecia animado nas manhãs mais cinzentas. O irmão mais novo do Camilo tinha 13 anos e também queria ir. Como os pais se opusessem de forma veemente, decidiu fazer greve de fome. Ao terceiro dia o pai do Camilo, um antigo preso político, foi sensível à pretensão do filho. Quando levantou a proibição, no entanto, o miúdo estava tão debilitado que caiu à cama com uma febre enorme. Já não pôde ir.
E finalmente chegou o dia do concerto. Eu e o Camilo embarcámos na estação do Cais do Sodré para uma viagem alucinante. Eram centenas e centenas de pessoas que tinham o mesmo destino, cada um mais alucinado que outro. O comboio era um autêntico circo, um lugar mágico onde as pessoas normais nem se atreviam a entrar. Cabelos compridos, rapados, mulheres com roupas extraordinariamente curtas, vestes negras, música aos berros a saltar de vários rádios, algazarra, coxos, zarolhos e droga, droga de toda a qualidade e feitio que escorria pelas paredes. Comprimidos, erva, haxixe, heroína, ácidos. A Feira circulava pelas carruagens em grande animação. Um cheiro indecifrável a Patchouli e frangos assados. Á nossa frente sentaram-se três tipos mais velhos. Percebia-se que eram veteranos da guerra pelas tatuagens que exibiam nos braços. “Guiné 1969 – 71”, “Os Fantasmas” com a cabeça do personagem da banda desenhada, uma G3 por baixo da frase, “Deve-te a vida…” Eram tipos calados com o olhar vazio, não falavam com ninguém nem ninguém se metia com eles. Instintivamente todos os respeitavam. Tinham estado num quotidiano de inferno. O maior inferno que um homem pode aguentar. Conviveram com as atrocidades, o sangue, o cheiro da morte. O que tinha o cabelo até aos ombros, de vez em quando sacava de um saco de plástico com uma espécie de caramelos derretidos lá dentro. Apertava uma porção com muita paciência até a tirar para fora. Depois comia-a. A seguir passava o saco aos amigos dele. Não conseguíamos tirar os olhos dali. Depois de Oeiras, já na terceira vez em que o saco saiu cá para fora, o dos cabelos compridos ofereceu. Hesitámos. Ele insistiu, tirou um pouco para fora e ofereceu outra vez. Eu comi, o Camilo comeu a seguir. Olharam para nós e foi a única vez que os vimos a rir. – Óleo de haxixe. Vai-vos fazer bem.
Quando chegámos a Cascais já o chão fugia a correr debaixo dos nossos pés. Parecia que tínhamos acabado de viajar na galáxia, de um planeta para outro. O Bruno encontrou-nos à porta da estação. Eu falava com ele com dificuldade.
- Então meu? O que é que estás a fazer num programa de televisão?

sábado, 17 de setembro de 2011

1000-Mensagem

Eis a milésima mensagem. Agora reparei e assim o disse. Um marco, e como o nome indica, mil-partes que fazem o todo das Partes do Todo, plúrimas a 4 vozes, distintas e ainda assim harmonizáveis pois como a imagem completa a palavra esta expande a primeira. E assim, a cosmopolita fotografia da Sofia, o verbo tantas vezes poético & nostálgico do Artur, a verve acerada do Arnaldo. Por mim, escrevinhando e garatujando, dou os meus parabéns e amizade a todos os partistas deste blogue: a quem o faz e a quem o vê.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

MEMÓRIAS DO LADO NEGRO




Há dias em que a estupidez, a ausência de racionalidade, a animalidade dos comportamentos e a nulidade da esperança são tão grandes, que a vontade de escrever é quase nenhuma. Quando não há futuro o presente transforma-se numa imagem diluída de sofrimento e falta de vontade. Um espaço de morte aparente infiltra-se por todas as frestas da existência e vai-se entranhando como um manto de nevoeiro cada vez maior, omnipresente. Nos anos 80 eu andava na casa dos vinte anos e acordava para o mundo real como quem é atirado para um pesadelo. O FMI andava por aqui e nada parecia ser alvo de alegria. Tudo era proibitivo, tudo custava os olhos da cara e praticamente ninguém tinha dinheiro para comprar nada. As estruturas económicas caíam uma após outra como um castelo de cartas, as fileiras de desempregados engrossavam nas filas para os subsídios, para a fome, para o desespero.
A principal razão porque nunca fui saudosista desses tempos é porque não me consigo esquecer das dimensões negras que pairavam sobre eles. Nunca me esqueci daquela família de Setúbal que jantou uma sopa com veneno para os ratos. Um suicídio colectivo a que só escapou o cão. Não tinham dinheiro para nada, pai mãe e dois filhos. Alguém se lembra deles? Havia regiões inteiras assoladas pela fome, bandeiras negras desfilavam nas manifestações, o bispo de Setúbal (D. Manuel Martins) levantava a sua voz de protesto contra as injustiças, contra o descalabro social. A violência tomava conta das ruas, a juventude, sem objectivos, sem futuro e sem lugar na sociedade, entrava no mundo das drogas. Eliminando a consciência, o sofrimento, o desespero, e, muitas e muitas vezes, a própria vida. O serviço militar era obrigatório (desde que não se conseguisse uma cunha de dispensa), como se ainda existisse uma guerra. A escolha de um curso, de uma actividade profissional, era baseada na fraca oferta existente. Poucos escolhiam aquilo em que melhor se poderiam realizar. Por alguma razão, se observarmos bem o espectro político-partidário, dos 50 para os 30 e tais, há um fosso de uma geração nos corredores da política. Como se durante 20 anos ninguém tivesse nascido aqui. E de certa forma, nunca nasceu. Nem a contemplar as maravilhas do 25 de Abril, nem a aplaudir a histeria neo-liberal, nem de boca aberta com o dinheiro que chovia do céu. Porque lhe faltavam as forças, porque lhe faltava a crença, porque se apercebeu demasiado cedo da mentira em que nos envolvem a todas as horas, porque nunca tiveram lugar entre dois mundos. A actividade cultural era praticada em ambiente subterrâneo, afastado dos grandes meios de comunicação. Os artigos circulavam em folhas fotocopiadas, os concertos faziam-se em espaços malditos, se alguém quisesse criar, tinha que o fazer por sua conta e risco. Não havia dinheiro para nada a não ser para pagar a dívida ao FMI.
E era neste ambiente esquizofrénico e deprimente que corriam os dias na maior parte dos anos 80. Finalmente a nossa entrada na União Europeia aliviou um pouco esse tempo negro. Mas poucos entenderam as lições desse tempo. Tão pouco que não descansaram enquanto não repetiram a receita.


Artur

THE MAN WHO SOLD THE WORLD



We passed upon the stair, we spoke in was and when
Although I wasn't there, he said I was his friend
Which came as a surprise, I spoke into his eyes
I thought you died alone, a long long time ago

Oh no, not me
We never lost control
You're face to face
With The Man Who Sold The World

I laughed and shook his hand, and made my way back home
I searched for a foreign land, for years and years I roamed
I gazed a gazeless stare, we walked a million hills
I must have died alone, a long long time ago

Who knows? Not me
I never lost control
You're face to face
With the Man who Sold the World

Who knows? not me
We never lost control
You're face to face
With the Man who Sold the World


David Bowie

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

NICK'S MOVIE



LIGHTNING OVER WATER / NICK'S MOVIE

Documentário/ Dramatização

Wim Wenders / Nicholas Ray

Alemanha Ocidental/ Suécia, 1981

Para entrar em LIGHTNING OVER WATER é necessário, para além da disponibilidade total, um grau elevado de identificação e intimidade. Toda a certeza se desloca sobre gelo fino, capaz de desaparecer e afundar em dúvidas a qualquer instante. Toda a afirmação de vitalidade se despenha no muro intransponível do fim.
Tudo começa em Abril de 1979, quando Wim Wenders faz uma pausa nas rodagens do seu filme HAMMETT (1983) em Hollywood, e vem visitar o seu amigo Nicholas Ray, recentemente operado na sequência de um cancro. Ray sente-se confiante e propõe ao amigo fazerem um filme juntos. Wenders hesita mas não recua. Há ainda tempo de discutirem pormenores, mas o projecto de Ray vai-se dissipando aos poucos, ao ritmo da evolução da sua doença.
Mestre e admirador vêem-se então perdidos no meio das circunstâncias, sem saber que rumo tomar, tendo como única certeza a vontade de não se quererem separar. Porque um hesita sobre o que fazer, porque outro se aproxima do fim, porque não querem estar ausentes desse tempo. A câmara está ali como mais um personagem, na sua função de registar, num círculo de amigos onde os diálogos não são mais do que artifícios, decorações singelas de uma beleza que nos penetra de forma insinuante, muitas vezes desconfortável. Muito para além do Mestre que definha sobre a sua condenação e a admiração do neófito, muito para além do aproveitamento mórbido dos últimos momentos de um moribundo, o que aparece nas imagens é a sequência de uma troca de experiências, de palavras, de um encontro normal de dois amigos com uma câmara ligada, sendo que um deles se prepara para partir.
Um velho que já perdeu tudo, prepara-se para perder a vida, passando os seus últimos dias entre estadias no hospital e no seu “loft” no Soho em Nova Iorque. Carinhosamente tratado pela presença muito discreta da sua mulher, Susan, o velho Ray respira com dificuldade entre leituras de luz, correcções de focagem, colocações de câmara, a azáfama normal de uma equipa de filmagem. Rapidamente deixa de haver lado de cá ou de lá, vai-se filmando ao capricho dos acontecimentos. A morte passa de registo simples, a acto de celebração. Tudo é caótico e desorganizado, estética e emocionalmente.
O filme acompanha Ray numa palestra a estudantes, na direcção de uma peça baseada num texto de Kafka, na tentativa de remontar o seu filme inacabado de 1973, WE CAN’T GO HOME AGAIN, no hospital. Tentando manter a sua dignidade, o gigante moribundo recorda o passado, os actores com quem trabalhou, os problemas com a bebida e as drogas, a revolta contra o sistema, a tortura dos vários projectos inacabados. E, acima de tudo, revela o desconforto causado pela aclamação de vários críticos e cineastas no final dos anos 50, que o colocaram num pedestal. Goddard chega mesmo a afirmar que Nicholas Ray reinventou o cinema, ele “é” o cinema. Tentando viver ao nível dessa reputação, tentando compreender a razão desse fascínio, fica ainda mais desorientado, incapaz de continuar o trabalho que o tornou famoso. Quanto mais tenta definir conceitos, falar sobre a sua arte, menos sentido faz dela, como com a sua vida.
Wenders por seu lado também se afunda em incertezas em relação ao seu projecto em curso em Hollywood, em relação ao documentário, à relação de amizade estabelecida anos antes com uma participação em O AMIGO AMERICANO. Não quer explorar a agonia de um moribundo, desiste, volta atrás, reincide. Ambos se enredam nos paradoxos das suas vidas revelando uma fragilidade própria dos criadores honestos que se colocam em causa a toda a hora.
Há pausas desconcertantes (como quando Ray manda terminar as filmagens), silêncios ensurdecedores, momentos de enorme tristeza. O ritmo das imagens é descontinuado, a progressão narrativa liga e desliga como um electrodoméstico, a montagem comporta-se como se tivesse vontade própria, ou vontade nenhuma. Tal como um filme doméstico, banal, íntimo. E as apreciações dos críticos oscilam ao sabor dessa intimidade, na medida em que se conseguem ou não identificar com ela. Aproveitamento sórdido dos contornos da morte, perfeita concepção infantil do cinema, documentário exasperante e inoperante que se arrasta sobre a notoriedade de um grande realizador, foram algumas das críticas mais contundentes sobre LIGHTNING OVER WATER/NICK’S MOVIE.E não deixam de estar certas na perspectiva de alguém que compra um bilhete e se senta à espera que o entretenham durante cerca de 90 minutos.
Mas se transformarmos a perspectiva do espectador, se decidirmos mergulhar num diálogo entre dois criadores de excelência que nos permitem vê-los como homens normais, vítimas das suas circunstâncias e fragilidades, se percebermos que um deles se prepara para deixar este mundo, se conseguirmos despedirmo-nos com o nosso respeito e a nossa admiração, se tivermos a oportunidade de agradecer a riqueza que a sua obra depositou para sempre nas nossas existências banais, se estivermos sintonizados através do olhar indiscreto de uma câmara, se estivermos disponíveis para assistir ao esforço de dois marginais que se tentam ajudar mutuamente a encontrar o caminho de casa, então, fazemos parte de uma acto de amor. E NICK’S MOVIE é precisamente isso.

Artur