quarta-feira, 11 de setembro de 2019

1450 cm3 de João Nuno Teixeira




"Quem proclama uma teoria do progresso coloca-se irremediavelmente a si mesmo como participante, portador e ponto de culminação no drama do progresso. Quem mostra uma teoria da decadência faz-se valer a si mesmo como um afectados pelo drama da decadência, quer seja como aquele que protesta, se resigna ou aguenta. Quem diagnostica renascimentos ou épocas de mudança põe-se a si mesmo em jogo como parteira, como piloto da mudança ou até como candidato à reencarnação. E quem profetiza a ruína, declara-se como moribundo, como quem ajuda a morrer, como carpideira ou, por fim, como explorador dos restos da cultura que está agonizante."

Peter Sloterdijk 



Ante este estranho e fascinante objecto  - e chamo-lhe "objecto" à falta de outro substantivo que o possa subsumir, visto que  o próprio autor o classifica como um "não-livro" - confesso-me incapaz de constituir um discurso crítico, pelo menos no sentido tradicional e clássico que o cânone atribui a "crítico".
Assim, sinto-me tentado a classificá.lo como uma dose massiva de lucidez, um tipo de clarividência que o mundo contemporâneo parece rejeitar, mergulhado que está na estupidificação maciça e numa deriva que parece conduzir-nos para a apatia ou ataraxia generalizada, impelindo-nos para um beco sem saída ôntico e para um abismo para o qual corremos com brio e denodo, uivando alegremente com os lobos.
O projecto insano e maravilhoso de reescrever a História da Humanidade, a que o João Nuno se entrega com uma intensidade que é difícil ignorar e que somos compelidos pela leitura a acompanhar, não se compagina de nenhum modo com facilitismos e imediatismos. Requer, pelo contrário, que punhamos na leitura e na constituição do sentido o mesmo tipo de intensidade, o mesmo despojamento de regras, a mesma indiferença em relação a padrões que constituem o âmago de uma obra literária (objecto, não-livro, texto, tessitura, aquilo que entendermos que é) que está na sua génese e que prefere ignorar os limites e estabelecer o seu próprio padrão, a sua singular e irrepetível métrica.
A pergunta que me perseguiu desde a primeira leitura (e que não se atenuou com a segunda, e muito menos com a terceira) é : existirá uma modalidade rigorosamente lógica e demonstrável do conhecimento humano sobre esse mesmo ser humano que conhece ? A resposta de "1450 cm3" parece ser - arrisco.me mesmo muito nesta hipótese - não, não existe. Apontando para aquilo a que Hermann Broch chamava "desintegração axiológica, João Nuno Teixeira sustenta um mundo, uma "humanitas" que não é passível de ser representada como uma totalidade fixa, estável e para sempre cognoscível, afirmando que a suposta perenidade da condição humana, em vez de garantir essa mesma estabilidade, se constitui como o ponto de partida de uma interrogação permanente, de uma problematização que não cessa; Adão não acaba de acabar, coexiste permanentemente com os seus duplos e, até, com a sua negação.
Queira ou não queira o autor - e muitas vezes os autores não sabem exactamente aquilo que querem ou querem o contrário daquilo que obtêm - aquilo a que chega é à posição de um sujeito epistemológico e à constituição de um campo de observação que representa a personalidade humana na sua abstracção mais extrema, o que é equivalente a dizer: na sua concretude mais radical.
As pressões a que o autor sujeita a linguagem roçam por vezes os limites da inteligibilidade. É um risco assumido: desconstruir as estruturas linguísticas para depois as reconstruir indica uma incansável vontade de reconstituir o mundo através da linguagem e assim fazer com que esta "fale". Atente-se nesta passagem (capítulo IV "Fome de Infinito"): «Criador. O criador ? O criador ! A é a circunstância do tempo, modo e lugar. A quinta essência está nas mãos tenras de uma criança. As fossas nasais do demiurgo estavam perto. Por onde andaria ? [...] Espaço, Tempo. O espaço e o tempo inscrevem-se na obscuridade do paradoxo. Nada mais perverso que o tempo: tira o que não se tem e dá o que já se possui. inventando a sua proclamada lógica». Atente-se, então, na progressão das repetições, na musicalidade difusa que pretende, e consegue, criar um sentido a partir de uma permutação de relações metamórficas e de relações potenciais. Se cito esta passagem, podendo citar muitas outras, é porque ela me parece emblemática do tom geral da obra e de uma afirmação constante de que não existe nenhuma expressão, ou melhor, de que não existe nenhum código expressivo, cuja origem seja um vazio total; é assim que esta obra põe em jogo princípios de uma coerência tão difusa e multímoda que por vezes sentimos dificuldade em classificá-los ou incluí-los numa visão ordenada. Mas, perante esta obra, para que precisamos de um a visão ordenada ? Para coisa nenhuma, na realidade; basta que nos libertemos da "tirania do sentido" e nos deixemos embarcar no profundíssimo questionamento que oscila entre a hipótese transcendente do criacionismo e a criação humana como criação ex nihil sem porquê nem sentido que lhe seja anterior ou final; o velho sonho da libertação das teorias da causalidade não anda longe daqui. Felizmente.
Uma obra que põe em causa o sentido do sentido deveria fazer parte do currículo de qualquer cidadão que se respeite como tal. Desconheço, obviamente, qual será o destino desta obra - como será acolhida, quantos leitores encontrará, que reacções provocará. Quanto a mim, reputo-a como um dos mais estimulantes, exigentes e gratificantes livros portugueses dos últimos anos, merecendo figurar como um monumento à Ironia e à capacidade de desinstalação. O que não é dizer pouco: é através de obras como esta, que avançam por meio de uma prodigalidade de pressupostos teóricos, culturais e linguísticos, que o homem se pode libertar do tempo, superar momentaneamente a sua presença e o presente da sua própria morte pontual.




sábado, 17 de agosto de 2019

ALEXANDRE, O GRANDE EMPRESÁRIO E COMPANHIA

Morreu Alexandre Soares dos Santos.

O omnipresidente Marcelo evocou a personalidade singular de Alexandre Soares dos Santos e o seu relevante papel na vida económica, social e cultural portuguesa.
A última coisa que considero ser Marcelo, é desatento ou distraído. Mas aqui existe uma clara desconformidade na nota emitida à imprensa portuguesa. O relevante papel na vida económica, social e cultural que ele deveria mencionar, não é na portuguesa, mas sim na holandesa já que é na Holanda que o grupo Jerónimo Martins paga os seus impostos. Se for eu, não posso e até aconteceria essa minha eventual aspiração (que não tenho) ser olhada como antipatriótica. Um grande grupo económico, pode. E pode também pagar ordenados miseráveis aos seus funcionários. E pode também  exigir o cumprimento de horários e sacrifícios muito para além do humanamente aceitável.
Tal como Belmiro ou Amorim e outros ‘grandes empresários’ que já deixaram este plano da existência, a única coisa que devemos aprender com eles, é a forma como não repetir a sua acção e exemplo de responsabilidade para com quem para eles trabalha.
É por isso que o ‘branqueamento’ da memória de alguém após a sua morte, seja quem for, não passa de pura hipocrisia. No caso de Marcelo a este propósito, não é. É mais grave.
Na morte, o que fica é a memória de quem parte e as suas acções enquanto por cá andou.
O elogio marcelístico é redutor e formatador, contribuinte explicativo da pequenez de um Portugal absurdamente desigual.
Um lugar onde o sacrifício de milhares ou milhões de portugueses, é justificável no lucro de outros poucos, pouquíssimos, em milhares ou milhões.
Que esta gente na morte, encontre a paz que a ganância ilimitada não lhes permitiu em vida.

Em última análise, são estes os verdadeiros donos de Portugal e dos lugares onde se legisla e decide.

Ao povo, nada.

Hélder 

terça-feira, 13 de agosto de 2019

ENTÃO? AINDA CÁ ANDAS?





Naqueles tempos a Faculdade era um espaço estranho e grandioso para os seus alunos mais novos. Tinha tanto de fascinante como de fascizante no que às relações humanas dizia respeito. Por um lado era o último patamar da formação, o último desafio antes da vida adulta. A sabedoria, a cultura e as inteligências bailavam entre si fazendo-nos sentir importantes, proprietários progressivos de um pedaço de conhecimento…quase donos de um pedaço do universo. As estatísticas diziam que, naquele tempo, apenas cerca de 38% de cada geração chegava ali. Por outro lado a enorme quantidade das cargas de trabalho, as pautas sempre a nivelar por baixo e a vomitar notas baixas e muitos dos mestres distantes e austeros concorriam para a desmotivação e o desalento.
Ele era um merdas como tantos outros em todos os tempos e em todas as gerações. Um Assistente ainda novo que seguia o regente da cadeira como um cãozinho amestrado sempre disponível para qualquer recado, rir das piadas idiotas do velho, em suma, sempre pronto para qualquer habilidade requerida em nome de um doutoramento futuro. Por isso não só não lhe vou dar um nome como nem sequer uma alcunha. Era um merdas e pronto.
O Manuel da Horta (nome propositadamente fictício) era e é ainda hoje, um dos meus melhores amigos de sempre. Um tipo tranquilo, conciliador, afável, conversador e, acima de tudo, um dos seres mais inteligentes que conheci. Volta na volta surpreendia-nos com comportamentos fora do comum, como por exemplo fazer questão de atravessar a rua para cumprimentar pessoas de que não gostava. Ou fazer uma declaração de amor a uma betoneira das obras ( mas isso já em épocas “festivas”).
Chegámos à Faculdade convencidos que éramos uns geniozinhos e que, uma vez ali, o resto do caminho seria um pic nic no parque. Não foi. Um após outro fomos nos habituando ao sabor amargo da derrota, das notas negativas, dos chumbos. O Manuel foi o último a atravessar esta experiência dolorosa. Na oral do cadeirão do 1º ano, com o tal merdas, terminou o dia com um chumbo e um requinte de humilhação pela sua ignorância. Ficou de tal modo traumatizado que no ano lectivo seguinte resolveu não meter os papeis de dispensa e avançar para o SMO (Serviço Militar Obrigatório). Ofereceu-se voluntário para os Rangers.
Na altura, ao abrigo da lei militar havia a possibilidade de fazer o curso com marcações de exames todos os meses, uma forma de minimizar o impacto do afastamento quotidiano das aulas. O Manuel aproveitou esse regime.
A tropa é de certa maneira uma grande Faculdade da Vida onde se somam várias cadeiras de vários saberes. É também uma escola que nos ajuda a crescer de uma forma mais rápida e nos despe de muitas inibições. Corre-se de manhã em tronco nu com um frio glacial, caminham-se kilómetros, dão-se uns tiros, levam-se uns socos, etc,etc. Como dizia outro merdas de um Alferes que me deu recruta: “Procura-se que o instruendo termine a sua formação tendo adquirido uma certa “rusticidade”…”
Na segunda vez que o Manuel veio de Lamego foi directo à secretaria da Faculdade antes de ir a casa, não tendo sequer tirado a farda. Na fila viu que, mesmo à sua frente estava o merdas que o tinha chumbado na época anterior. Não pensou duas vezes. Alçou da mão e pregou-lhe uma palmada enorme nas costas que o fez saltar dois lugares na fila involuntariamente. – Então? Ainda cá andas? – o outro, meio atordoado virou-se para trás. – Ainda cá ando? Mas você conhece-me de algum lado? – O Manuel não perdeu a pose e ripostou: - Schh…vira-te para a frente e caladinho senão ainda levas outra. –
Nessa noite com mais um amigo e no meio das imperiais da cervejaria do bairro contou-nos a façanha como quem explica que foi comprar cigarros. Foi o que lhe saiu naquele momento e pronto. Estava feito. Eu e o outro amigo ficámos embasbacados a olhar para ele. Ainda ia repetir o exame. E se lhe calhasse outra vez aquele gajo? O Manuel mantinha-se tranquilo. Era muito azar levar duas vezes com o mesmo gajo numa oral. Ainda para mais ele estava fardado, de modo que nem o iria reconhecer.
Um mês depois o Manuel foi outra vez à oral da tal cadeira que tinha reprovado no ano anterior. Azar dos Távoras, o tipo que lá estava à espera dele era o mesmo que tinha levado a pantufada na fila da secretaria. O Manuel nem teve tempo de responder a nada. A primeira frase do outro foi: - Então ainda cá andas?


Artur

terça-feira, 30 de julho de 2019

I WAS INTERRUPTED




I WAS INTERRUPTED – NICHOLAS RAY ON MAKING MOVIES

Logo no início da Introdução ao volume, Susan Ray narra um episódio ocorrido no Festival de San Sebastián 1974 : depois da exibição do filme The Parallax View, o realizador Alan J. Pakula abordou Nicholas Ray, apertou-lhe calorosamente a mão, fez uma vénia e pronunciou a palavra “Maître”. O episódio, para além do valor simbólico e ilustrativo da relação de filiação entre uma nova geração de realizadores e o cineasta veterano que, de múltiplas formas, para essa mesma geração representava a potência e o acto do cinema, suscitou em Susan interrogações e perplexidades que expressa desta forma: “What is a Master and what makes Nick one ? And what this mastery of his mean to me ?”. Pois bem, este livro acaba por ser uma resposta cabal a tais interrogações, nascidas de uma perplexidade, ou de uma indeterminação, no conceito original de “Mestre”. De facto, o que ela (Susan) confessa é que à vida e à obra de Nicholas Ray faltaram alguns dos predicados que normalmente associamos ao conceito: a calma, a ordem e o controlo. Susan Ray poderia ter levado a sua perplexidade um pouco  mais longe e colocado a questão de uma outra forma, talvez com conotações políticas e sociológicas; o que significaria nessa época e nesse contexto ser visto como um Mestre ? Que poderes pessoais era preciso ter para que, num universo especificamente americano, tendencialmente irreverente e contestatário, ainda ser possível reconhecer essa figura, quando ressoavam os ecos dos brados “Plus de Maîtres !” que os estudantes franceses não se tinham cansado de gritar a plenos pulmões durante o Maio de 68. As duas questões – as dúvidas de Susan Ray e a dimensão político-social do problema – interpenetram-se e, como já dissemos, esta obra constitui-se como tentativa bem sucedida de encontrar uma resposta, já que o seu núcleo fundamental é constituído por transcrições de lições dadas por Nicholas Ray no Harpur College de Nova Iorque (a maior parte) e também no Lee Strasberg Institute da Universidade de Nova Iorque entre 1971 e 1978, com intermitências resultantes das circunstâncias tumultuosas da vida do cineasta. Numeradas de I a XV, essas “lições” apenas podem ser assim designadas por abuso ou facilidade de linguagem; de lições, no sentido estrito e académico do termo, nada têm. Não são, nem de longe nem de perto, modelos de transmissão de um saber, de uma “techne” ou de práticas que habilitem alguém a realizar um filme ou a nele interpretar uma personagem; não discutem teorias, nem procuram chegar à essência do cinema; não proclamam verdades eternas, nem sequer aquelas outras que são passíveis de debate e crítica; não emanam de nenhuma espécie de autoridade a quem prestar reverência.
A aura carismática de Nicholas Ray e o romance da “persona” no acto pedagógico constituem justamente o fulgurante carácter desta espécie de diálogos socráticos através dos quais Ray olha para os seus discípulos como iguais, fazendo-lhes mais perguntas do que aquelas que lhe são feitas. Um espantoso exemplo do seu “método” encontra-se na “Class V”. Ray não está completamente seguro de ter conseguido transmitir aquilo que entende por “acção” e o seu carácter de utensílio de interpretação dos actores. Compreende que é uma noção complexa, difícil, singular e pessoalíssima. E é através do diálogo com os seus discípulos que se vai progressivamente aproximando da noção e esclarecendo o seu conteúdo e alcance, densificando-a e clarificando-a em simultâneo: “PETE: Should the way in wich I carry out my action go along with what the action ? NICHOLAS RAY: It certainly should, because your action is an expression of the nature of your character. At the same time it helps clarify your character, his rhythm, how he does what he wants to do. Your action helps you make the transition from “If I were” to “I am”. Consider this dialectic: content determines form and form conditions content. Now apply it to your choice of action. What was your action here Nat ? NAT: Well, first I wanted to go to the couch. NR: Why ? NAT: So I could say hello. NR: Wouldn’t you say hello at the door ? NAT: I wanted to kiss her. NR: Why ? Are you deeply in love ? Is it the first chance you had to kiss her ? Is it the first time you’ve seen her ? Is it love at first sight ? Why ?”.
E o diálogo prossegue nesta toada até Ray conseguir extrair uma intuição, um acontecimento de lucidez e de compreensão, algo que só os verdadeiros Mestres obtêm, mesmo dos menos dotados dos seus discípulos.
Embora algo se tenha perdido na passagem a escrito destas emocionantes experiências maiêuticas de diálogo e aprendizagem mútua, ainda assim conseguimos captar as intensas vibrações de sentido e de intenção que perpassam como uma corrente eléctrica entre Nicholas Ray e os seus alunos. E voltamos às respostas às interrogações e perplexidades de Susan Ray: a calma e a ordem do Mestre são adquiridas por Ray em pleno exercício da função, não lhe são prévias, não existem antes de se exercerem, como se o magistério colocasse em suspensão e adiasse as angústias da luta contra o alcoolismo, a doença e a interminável agonia da sua obra nesses anos terminais.
Mestre, portanto. Não querendo fazer jogos de palavras, diríamos que a autoridade (auctoritas) de Ray como Mestre se fundamenta na sua “autoridade / autorismo” – aquilo que tem para ensinar é o seu próprio exemplo.
De resto, e para além das “classes” (?), o volume contém documentos e fragmentos extremamente valiosos para todos os que se interessam por cinema e pela obra de Ray (sendo as duas entidades sinónimos e consonâncias); reminiscências, excertos de argumentos, reflexões sobre alguns dos filmes que dirigiu, correspondência, constituindo o conjunto uma poderosa meditação sobre a arte cinematográfica. Seria imperdoável deixar de referir o brilhante esboço bio-filmográfico da autoria de Bernard Eisenschitz, um dos autores que melhor compreendeu Nicholas Ray.

No longínquo encontro de 1974, Alan Pakula dirigiu-se a Ray como “Maître”. Ainda bem que o fez, já que a alternativa em inglês teria sido “Master”.




quarta-feira, 24 de julho de 2019

RUTGER HAUER




                                                                      1944 - 2019

MEMÓRIA DE MIM




De repente e sem me esforçar muito, lembrei-me que era celta, lusitano e fenício. A memória inscrita nos meus genes era uma selecção ou uma mistura ou tudo a um tempo de uma história antiga de povos e culturas que trocaram mercadorias, ódios e aprendizagens. De correrias pelo mato, caminhadas por montanhas, trocas em mercados, campos cultivados, pescas, barcos navegados pelos caminhos do mar De gente que acabou por se misturar entre a vida e a morte num mesmo território. Depois, sem forçar a memória, percebi que era judeu, cristão e árabe. O meu Deus era um gajo que tinha várias camisolas que ia trocando ao sabor das estações e dos tempos mas era sempre o mesmo. Os tipos que achavam que falavam em nome dele é que eram apenas e só uma cor, uma camisola, uma coisa qualquer contra a outra cor, dividiam para dominar, entrar nas nossas vidas e dizer como as deveríamos viver. No fim as camisolas lutavam entre si, morriam e matavam em nome do mesmo Deus e os tipos que falavam em nome dele engordavam, enriqueciam, dominavam a maioria. Uma empresa com várias filiais mas um único presidente.
Sem fazer um grande esforço percebi que era português, castelhano, francês, que respirava o mesmo ar, dividia umas gargalhadas ao fim da tarde, numa paisagem mediterrânica desenhada a azeitonas, pão e vinho tinto. Que sofria o mesmo transtorno com as tempestades, que suava a mesma sede com as secas prolongadas, que batia o dente da mesma maneira quando chegavam os cortantes ventos do Inverno.
De repente percebi que era europeu, e africano e asiático, e a minha única dúvida era sobre qual deles teria sido primeiro.
E fui branco, preto, amarelo e vermelho e dancei as danças da chuva, rodopiei as voltas do folclore, fiquei nostálgico ao som dos blues, saltei com o bater dos tambores, deixei que a música fosse falando por mim, deixei a música tocar a sua única melodia.
Percebi que para ser um teria que ser  tudo e todos. Em breve serei nada…

Artur

domingo, 14 de julho de 2019

ATÉ QUE A MANHÃ NOS RECORDE




Tudo o que nos resta são memórias. Tudo o que nos resta, tudo o que nos sustenta, tudo o que nos identifica. Somos feitos de passado e recordação,  o único património que realmente importa. Continuaremos a recordar, a lembrar, a visitar o que aconteceu atravessando a escuridão da noite, o negro da insónia, agitado e imparcial, aterrador e absurdo até ao regresso da luz, até que a manhã nos recorde.

E na travessia que seria supostamente uma desculpa para uma busca de qualquer coisa, um suposto encontro anunciado, vamos percebendo que não há nada para encontrar…tudo para construir. O caminho não é uma busca mas uma acto criativo permanente onde nos vamos inventando um pouco todos os dias. Com pedaços do passado, memórias, mágoas e alegrias, tudo apontado num caderno cada vez mais gasto de tanto escrever.

Passamos a vida a dizer adeus porque nada fica junto a nós eternamente. Passamos a vida a encontrar e a perder e sempre a recordar. Somos feitos de memórias, esse é o nosso cimento. Quando caímos aqui não somos nada, não nos reconhecemos em lado nenhum, não somos parte nem todo. Insistimos em caminhar, hesitantes, frágeis. Damos a mão a companheiros de percurso para evitar cair, para prender alguma coisa … Passamos metade da vida confusos, desajustados e com medo. Medo do vazio, medo do outro, medo de nós. E no medo plantamos a coragem, na hesitação a certeza, na memória o reencontro. O voltar ao que sempre fomos reforçados pela experiência da travessia. A celebração de um novo Ser reforçado, recriado e fortalecido.

Passo a passo vamos construindo alguma coisa, alguma coisa que nunca dura para sempre, que se gasta, consome, afasta e acaba por terminar. Somos feitos de memórias e passamos metade da vida a recordar, a lembrar o que já não temos, a mastigar despedidas e outra metade a erigir o edifício novo em que nos tornamos…para logo a seguir terminar. Puta de vida tão estranha.

E continuaremos obstinados a criar qualquer coisa que seremos para não ficar presos em becos sem saída feitos de lágrimas e respostas mortas antes de nascer.

Recordaremos pela noite fora, até que um dia a manhã nos recorde.

Levantados do chão, a caminho do mar, para conquistar o céu.


Artur

terça-feira, 9 de julho de 2019

IN MEDIA RES




Editados conjuntamente pela Midas, os filmes "Alumbramiento" e "La Mort Rouge" de Victor Erice são acompanhados por "Victor Erice : Paris-Madrid Aller-Retous", de Alain Bergala, que integrou a mítica série documental "Cinéma de Notre Temps", concebida e dirigida por André S. Labarthe. 
Em "La Mort Rouge", o cineasta relata em 32 minutos a sua experiência cinematográfica, aos cinco anos de idade, quando assistiu ao filme "The Scarlet Claw / A Garra Vermelha", realizado por Roy William Neill em 1944, exibido num local mítico e majestoso (além de assombrado), o velho Cinema Kursaal em San Sebastián. A voz do cineasta, a voz do narrador, relata aquilo que fundou permanentemente a sua "relação com as imagens em movimento", retomando a pulsação dos temas a três tempos da suas obras anteriores: o medo, a infância, o cinema ("O Espírito da Colmeia", 1973, "El Sur", 1982) referindo-se à sua história pessoal e à da Espanha no pós-guerra civil. É um filme composto de fotografias e de imagens de arquivo, propondo uma inscrição precisa no passado (data, local, eventos), com um enorme poder evocativo, capaz de desvelar aquilo que pode existir naqueles buracos que a acção do tempo cruza tanto na memória pessoal como nos livros de História. Na realidade, o subtítulo, ou título alternativo, "Solilóquio" remete para um "documentário interior", com escolhas múltiplas na imagem (filmagem no presente, imagens de arquivo, reconstituição dos tempos entre 1946 e 2005) e no som (alternância por vezes ambígua entre a primeira e terceira pessoa do singular) e na montagem que insistem no seu conjunto sobre a "proximidade e o afastamento entre o adulto no presente e a criança no passado" e que resultam numa extraordinária perturbação que dá conta da inconsistência do sujeito: "Quem é aquele que se recorda ?", pergunta o cineasta. Renovando o seu compromisso com "a relação - e a oposição - que se estabelece entre história e poesia" nos seus filmes, Victor Erice junta-se a uma vasta corrente historiográfica (e cinematográfica) interessada nos mecanismos de ligação entre o passado e o presente e pelo carácter aporético de qualquer reconstituição integral que não poder ser abordada senão através de estilhaços, pequenos fragmentos de verdade. Parece-me, assim - e é isso que, provavelmente, mais me perturba no filme - que "La Mort Rouge" procura refazer em laboratório, como se se tratasse de uma experiência científica, as operações ambíguas e incertas da memória. É assim que o filme repousa sobre o princípio daquilo que poderíamos chamar de "vai-e-vem" estruturado entre 1946 e 2005 - ou seja entre o tempo da criança sobre a qual pesa a dor universal de uma sociedade devastada e o tempo do narrador, que pergunta sobre aquilo em que "estes fantasmas se transformaram". É assim que se forma um exemplo daquilo que é possível fazer com o tempo: dar-lhe forma e sentido, abri-lo à compreensão dos outros, de tal modo que o passado se encarna na continuidade do presente. No écrã, essa encarnação do tempo é ela mesma figurada por um local, teatro da primeira emoção cinematográfica de Erice. O cineasta estabelece com esse décor uma primeira camada do tempo: aquela sobre a qual foi deposta a "experiência crucial" dos seus cinco anos de idade. A experiência de projecção do Gran Kursaal não anda longe de uma ideia do cinema como lugar de expressão de um "trauma", trauma esse que não se pode definir simplesmente como um acontecimento externo, por muito violento e aterrorizante que seja, mas como uma ligação do perigo interno ao perigo externo, do presente ao passado. Para um cineasta que afirma que a história do cinema é um elemento da nossa memória que se confunde com a história do século na nossa própria biografia, o filme que restitui a sua primeira experiência cinematográfica carrega consigo o pesado fardo de reencontrar aquilo que se perdeu na Espanha de Franco : uma relação vital entre o cinema e o mundo.
Colocados ao longo de uma escala temporal muito longa da história da Espanha entre 1973 e 2001,as obras de Erice anteriores a "La Mort Rouge" parecem, de modo retrospectivo, serem relançadas num mesmo tempo - o do "pacto de esquecimento", selado em 1939 pela vitória nacionalista, de "construir sem olhar para trás", prolongado muito para além da morte do pequeníssimo, insignificante, medíocre e mesquinho ditador. Por sua vez, o filme de 2005 liga-se a uma nova sociedade preocupada em estabelecer uma narrativa comum do passado. Seja como for, é um dos mais belos, intensos e emocionantes filmes da história do cinema.

quinta-feira, 20 de junho de 2019

Diário Laboratório (primeira entrada) de 18/3/2018

(Primeira Entrada)
Cumprir-se o variegado da vida mas em escrita. É essa plurivocidade que alimenta - de que se deve alimentar - a ficção.

sábado, 15 de junho de 2019

Diário Laboratório (quarta entrada) 16/3/2018

(Quarta Entrada)
Pensa de outro modo, vale a pena. Podem não gostar de ti e perseguirem-te. Tirarem-te a fazenda ou manterem-te na penúria.
Mas, vale a pena porque, então, poderás reencontrar os clássicos.

domingo, 9 de junho de 2019

Diário Laboratório (terceira entrada) 16/3/2018

(Terceira Entrada)
A grande virtude do vício é que obriga à repetição obsessiva.

Para seres escritor - não interessa se bom, se mau - basta sentires que a literatura é um filtro narcótico qualquer.

quarta-feira, 5 de junho de 2019

THE TRAIL OF TEARS






   The Brave Cherokee By John Howard Payne

O’ soft fills the dew on the twilight descending
And night over the distant forest is bending
Like the storm spirit, dark o’er the tremulous rain
But midnight enshrouded my lone heart in it’s dwelling
A tumult of woe in my bosom is swelling
And tear unbefitting the warrior is telling
That hope has abandoned the brave Cherokee
  
Can a tree that is torn from its root by the fountain
The pride of the valley; green spreading and fair
Can it flourish, removed to the rock of the mountain
Unwarmed by the sun and unwatered by care?
Though vesper be kind, her sweet dews in bestowing
No life giving Brook in its shadows is flowing
And when the chill winds of the desert are blowing
So droops the transplanted and lone Cherokee
    Sacred graves pf my sires, and I left you forever
How melted my heart when I bade you adieu
Shall joy light the face of the Indian? Ah, never
While memory sad has the power to renew.

As flies the fleet deer when the bloodhound has started
So fled the winged hope from the poor broken hearted
Oh, could she have turned ere forever departing
And beckons with smiles to her sad Cherokee
Is it the low wind through the wet willows rushing
That fills with wild numbers my listening ear?
Or is it some hermit rill in the solitude gushing
The strange playing minstrel, whose music I hear?
Tis the voice of my father, slow, solemnly stealing
I see his dim form by yon meteor kneeling
To the God of the White man, the Christian appealing
He prays for the foe of the dark Cherokee
Great spirit of good, whose abode is in Heaven,
Whose wampum of peace is the bow in the sky
Wilt though give to the wants of the calmorous ravens,
Yet turn a deaf ear to my piteous cry?
O'er the ruins of home, o'er my heart's desolation
No more shalt though hear my unblest lamentation
For death's dark encounter, I make preperation
He hears the last groan of the wild Cherokee


domingo, 26 de maio de 2019

O URSO ABSTENCIONISTA



No único dia em que todos os cidadãos são iguais ao exercer os seus direitos, segundo o que o primeiro-ministro de Portugal disse esta manhã (não concordo e por defeito porque a “igualdade” é utópica, mais ainda se me quiser comparar a um político), a força ou fraqueza política portuguesa incontestavelmente vencedora foi a ABSTENÇÃO.
Entretanto, os comentadeiros que vão bolsando opiniões nos vários canais generalistas, desvalorizam a descredibilização a que este resultado realmente vota a classe política, porque não vêem (não querem ver nem querem que se veja assim) a abstenção como um acto de revolta e repúdio pelo regabofe generalizado dos alarves à volta do ‘tacho nostri’ mas exclusivo deles.

Assinado,
O Urso

domingo, 19 de maio de 2019

AS HISTÓRIAS QUE A HISTÓRIA CONTA




Wook.pt - Que fazer contigo, pá?




"Que fazer contigo, pá?"

Carlos Vale Ferraz


Como num teatro vazio num bairro fora de prazo, a companhia de um outrora grande sucesso de bilheteira volta-se a encontrar num esforço final para finalizar o processo da memória. Fazendo um balanço das suas vidas, dançando com o passado, apresentam uma nova peça. A população que anteriormente assistiu e aplaudiu entusiasmada está velha, desmotivada, a maioria morreu. Restam os jornais antigos, os registos, os museus, os contornos da historiografia em geral para confirmar, não a verdade, não a qualidade das intenções mas tão somente a existência dos actores, a vaga descrição da narrativa, um ou outro aspecto cénico mais relevante. Quem ainda se lembrar, por defeito de ofício ou simples curiosidade do processo histórico, um transeunte acidental que fôr a passar nesse momento, acaba por desfrutar de um espectáculo raro e único. O de como a ficção acaba por ser a forma mais eficaz de transmitir a verdade. "Transmitir" não significa "adquirir" e muito menos "possuir".
A verdade como todos sabemos nunca se consegue capturar…escorre como um líquido caprichoso por todas as falhas e buracos do tempo a grande velocidade…é temporariamente verdadeira.
Ruben, herói do 25 de Abril, derrotado no 25 de Novembro decide envolver-se em acções violentas durante o período seguinte. Encurralado acabará por se exilar em Paris deixando os seus companheiros entregues à sua sorte. Na capital francesa conhecerá um Outro que se fará passar por ele, acabando por serem confundidos por todos. Do confronto fatal um acabará por morrer. O sobrevivente regressa então a casa empenhado em resgatar o seu passado, em recontar a sua história. Não se considera um desertor, muito menos um traidor. Os seus antigos companheiros bem como os  inimigos da altura é que já estão noutra fase da existência e ficam sem saber o que fazer dele.
Em traços gerais este é o último trabalho de Carlos Vale Ferraz, uma ficção corajosa e despojada de quem viveu por dentro toda esta fase mais tumultuosa da nossa História recente. Sem pudores identitários facilmente se consegue ir buscar à realidade a maioria dos personagens. Homens e mulheres que estando ainda vivos alguns, não deixam de assumir o seu estatuto de fantasmas na medida em que o seu tempo de pisar o palco ficou décadas lá atrás. Nesse sentido o primeiro grande desafio deste romance é o de uma viagem pelas terras da incerteza e da improbabilidade, essa ténue linha entre Passado e Presente, entre realidade e ficção. Se por um lado esta é a história de um homem a quem impuseram um destino maior do que ele conseguia carregar é ao mesmo tempo a história daqueles que procuraram através da perseguição de ideais acelerar a História em relação ao simples tempo cronológico. Defendendo os mais fracos, os indefesos, os esquecidos do edifício social, mais tarde concluem que estes nunca os viram como libertadores mas antes como vítimas dos mesmos carrascos que se refugiavam (ou queriam refugiar) na protecção do seu mundo precário do qual não faziam parte. Essa facção que tinha tanto de idealista como de violenta regressará ao(s) seu(s) mundo(s) de origem perante o triunfo da falsidade, da mentira e do egoísmo da maioria das pessoas e que transforma o discurso  oficial numa simples questão de conveniência. Do outro lado, os que se deixam recrutar pelos eternos donos do poder, movidos pelo conformismo, pela ganância ou pelo simples egoísmo, esses acabarão sem perceber quem são ou onde pertencem.

      "os homens que procuram a felicidade copiam os embriagados que não conseguem encontrar a própria casa, apesar de saberem que a têm"  



Entre a inquietude e o servilismo, entre a resignação e o desassossego, há os que se conformam e há os que reagem. E no fim todos os actores deste espectáculo vão acabar com as mãos sujas, as memórias recriminadas e o tempo desenhado. As tempestades caem sobre todas as cabeças e depois chegam ao fim. Nada fica como dantes. Ruben, ou Simão Dutra, volta a casa para fechar pontas soltas deixadas pelo caminho. De uma forma ou de outra o reencontro consigo próprio, o acerto de contas com o passado e a  impermanência do seu destino são a própria respiração do processo histórico, o oxigénio do destino dos homens. Tudo muda, ninguém vence, ninguém perde, e todos terminam de formas e em circunstâncias que pouco ou nada têm a ver com aquilo que imaginaram.

Uma excelente rearrumação da memória, um romance empolgante, um pedaço de História onde a ficção cumpre o seu papel maior.  

Artur

terça-feira, 14 de maio de 2019

SERMÃO AOS MATRAQUILHOS

Regresso a "Sermão Aos Matraquilhos" - regressarei sempre -, para partilhar algumas reflexões que a obra me suscita. E começo sempre por referir a singularidade deste livro no conjunto da obra do Artur, uma singularidade que não implica ruptura ou descontinuidade, mas antes um prolongamento e um desenvolvimento da sua marca autoral: a fixação e estabilização de temas que formam uma mundivisão e um ponto de vista único e original que agora se confrontam com um novo horizonte de referência: a experimentação com a linguagem, as suas possibilidades e limites, uma operação com a qual os criadores artísticos medem, ao menos uma vez durante o seu percurso, o alcance e o potencial dos seus meios expressivos. No diálogo "Íon", Platão sugere que os escritores (poetas e tragediógrafos) são, por assim dizer, "vazios" e que esse esvaziamento corresponde à sua abertura à incomensurabilidade da linguagem. Só através desse processo se pode esperar alcançar alguma coisa de tangível sobre a capacidade que a  linguagem, neste caso a linguagem literária, tem de dizer muito mais do que significa e de significar mais do que diz. É possível que o postulado heideggeriano da autonomia da linguagem e da sua prioridade em detrimento do seu estatuto utilitário alcance em "Sermão Aos Matraquilhos" uma das suas expressões: notamos a que ponto "sentido", "efeito emocional" e "conotação" estão amalgamados com os meios de execução, isto é, com a capacidade de a linguagem dizer o Ser, dizer o homem, falar o Ser e o homem, mais do que ser falada por ele. É assim que este "Sermão" aposta no sentido, na ressurreição das artes da memória, na tensão constante em direcção ao entendimento (como diria Martin Heidegger : "somos aquilo que compreendemos ser"), na crença de que é unicamente graças à escuta da liberdade humana que murmura ou proclama em altos berros que saberemos retirar do abismo, das cinzas vivas da queimadura total, aquilo que resta do sentido da nossa condição, ou seja da nossa vida. Resgatar aquilo que sobra das ruínas. Ruínas... a não pertença do homem ao mundo, ou melhor, ao mundo dos outros homens; uma espécie de inimizade elementar e inegociável entre ser e existência. Percorre a obra um conjunto de sintomas que nos dão conta dessa inimizade: a inquietude, o desassossego, a instabilidade, a desinstalação, a sensação de que é o leitor que está a ser profundamente lido pelo livro. Outro sintoma, ainda: o estilo como uma metafísica, uma leitura do Ser, que nos prepara para aquilo que se espera resultar, no sentido próprio do termo, numa explicação de um texto que desemboca, na minha opinião, numa anti-metafísica difusa: a recuperação de uma tese de Michel Foucault segundo a qual, o Homem morreu, isto é, já não se pode falar do Homem como um conceito metafísico, e sim de homens, de indivíduos, com as suas consciências, a sua liberdade, os seus actos e as suas circunstâncias. 

Como sabemos, os sermões são peças de oratória, com um elevado grau de complexidade e riqueza retórica, destinados a transmitir argumentos teológicos e/ou ensinamentos morais e éticos. Em Portugal, a figura do sermão atingiu o apogeu com os célebres sermões do Padre António Vieira, que se contam entre as grandes obras engendradas pelo espírito humano. Vieira compreendia que a mera retórica é uma espécie de cemitério das realidades humanas ou, na melhor das hipóteses, o seu hospital dos inválidos. Tal como Vieira, o Artur recusa liminarmente a retórica pela retórica e rejeita os três modos de expressão da cultura contemporânea quando se quer referir às circunstâncias do homem na contemporaneidade: o sarcasmo negro, a sátira, a farsa, o circo multimédia: mostra-nos que vida e destino se confundem e são a mesmíssima coisa; que todo o destino é dramático e trágico na sua dimensão profunda: somos aquilo que o mundo nos convida a ser e que nesse sentido, viver é lidar com o mundo: ou lhe respondemos ou o contrariamos. O homem falhado é somente aquele que não apela a nenhuma circunstância fora de si. Albert Camus não desdenharia subscrever esta ideia. Como também não desdenharia pensar que a vida, individual ou colectiva, pessoal ou histórica, é a única entidade do universo cuja essência é o perigo. É, rigorosamente falando, drama; qualquer vida é a luta, o esforço para ser ela mesma. E ela mesma com as outras vidas. É essa a lição essencial: a única coisa que conta é a entre-ajuda, a solidariedade, a certeza de nos salvamos juntos ou juntos perecemos. Na sua aparente simplicidade, este ensinamento tem um conteúdo ético extraordinariamente valioso. Aliás, tem o único conteúdo ético capaz de nos elevar acima da vulgaridade e da banalidade.

Finalmente, gostaria de dizer duas palavras sobre a construção da obra. O sentido do drama/tragédia, levou o autor a construir uma estrutura triádica, protagonizada por personagens/vozes que, sendo altamente simbólicas, não deixam de ser de carne e osso; escutamos os seus monólogos, auscultamos  a corrente de consciência a que dão expressão e sentimos também a sua materialidade, o pulsar inquieto das suas vidas. João, Pedro e Gonçalo são "personagens" no sentido grego do termo: "personas", as máscaras que os actores usavam para encarnarem as vidas que lhes cabia representarem e para esconderem ou dissimularem as suas verdadeiras identidades. Este terceto transforma-se por vezes em quinteto, sendo as duas personagens adicionais (o Gimbras e a D. Lurdes) duas pessoas verdadeiras e não personagens: são aquilo que são, tiveram a coragem de se transformarem naquilo que são e nunca se perdem no labirinto do que foi desta e não daquela maneira, do que foi e poderia ter sido. Pairando acima de todos, determinando tudo, a ausência/presença de Matilde, a verdadeira heroína trágica, a personagem mais fulgurante que o Artur já criou, aquela que molda o seu próprio destino e cuja dimensão só apreendemos quando está prestes a desaparecer. A que vive e morre assumindo o ideal das tragédias gregas, à imagem e semelhança das suas antepassadas (Electra, Antígona, Ifigénia et allia): já que nascemos, é melhor morrer jovem, depois de termos atingido o auge da nossa existência, enquanto a luz ainda brilha e o fulgor não se extinguiu. 

domingo, 12 de maio de 2019

GRISALHO PEIXOTO, O ESPANTALHO

Peixoto, deputado ainda mais pequeno que os pequenos deputados,
Não gostou da reacção de um cidadão aos ditos por ele bolsados.
Logo ele que agora que também já deve estar bem grisalho, 
Chamou de “peste grisalha” aos que deveriam ser respeitados e por isso, merecia era levar com um malho.

Pois que levou o indignado cidadão a tribunal,
Que não se podia de Peixoto falar mal.
E ao que se metia pelos olhos dentro de qualquer ser equilibrado,
Considerou o tribunal
Estar o cidadão endiabrado.

Vai daí, foi condenado quatro mil euros pagar ao pequeno Peixoto,
Medida de punição a tal afronta,
Que mesmo tão injusta, cabia ao incomodado roto,
E assim, de Justiça, nem ponta.

Não se ficou no entanto o anónimo ofendido cidadão,
Que afinal por ser isso mesmo, um de nós.
Seguiu para o tribunal europeu com a contestação.
Resultando na condenação do estado feroz.

De quatro a Peixoto, passou a seis ao cidadão,
Recebeu Peixoto, e pagamos nós 
Ri-se Peixoto, e pagamos nós
O cidadão indignado fica ressarcido de tamanha devassidão,
Mas continuamos a pagar nós, uma justiça tão obtusa que parece uma filhós.


A filhós não faz sentido?
É como aquilo que se lhe parece.
Ah! E com o deputado grisalho, que bem se podia montar num carvalho.

Hélder 



sábado, 11 de maio de 2019

DIA 18 DE MAIO




No próximo dia 18 de Maio/ Sábado, vou estar na Livraria Fábrica de Braço de Prata a apresentar o meu último romance pelas 19:30.  Serão oradores o Arnaldo Mesquita e a Sofia Fonseca Costa. Uma oportunidade para quem não pôde estar presente na Cinemateca no mês passado. Fico à vossa espera.

Artur

sexta-feira, 3 de maio de 2019

NÓS, OS PARTISTAS





Julgo que esta é a primeira vez em que todos aparecemos na mesma imagem, daí poder-se falar em acontecimento histórico. São 12 anos de actividade onde tentamos estabelecer um diálogo com o visitante acidental apresentando as nossas propostas, exprimindo as nossas opiniões, partilhando as nossas experiências. Da Literatura para o Cinema, da Fotografia para a Crónica, da Filosofia para a Poesia, do texto experimental à simples prova de vida. E se é certo que os diálogos com a assistência não se podem considerar muito activos ou participados, o facto é que o número de visitantes reforça um conforto considerável naquilo que à nossa expansão diz respeito.  "Não conversam mas visitam-nos com bastante frequência", tal como num centro de dia onde reside o parente velho que teima em não desaparecer. E é essa teima que nos mantêm a voltar aqui uma e outra vez. Porque achamos que ainda temos alguma coisa para dizer, porque ainda nos sentimos fascinados em ver o nosso trabalho publicado dentro de um ecran de computador que pode chegar a milhões de pessoas, porque simplesmente nos apetece. Somos um Blog, somos uma equipa e gostamos de falar com vocês.
Cumprimentos de "As Partes do Todo"…

A Gerência

Da esquerda para a direita: o Arnaldo, o Helder, a Sofia, o Artur e o João

domingo, 28 de abril de 2019

RENASCE A ESPERANÇA

É com grande agrado e renovada esperança que acolhemos a notícia da aprovação pela Comissão de Educação da Câmara dos Deputados do Brasil de um requerimento para discutir a revogação do Acordo Ortográfico. A iniciativa parte de um deputado do Partido da República (centro-direita), (Jaziel Pereira de Sousa) e foi subscrita pela deputada do Partido Cidadania (antigo Partido Comunista), Paula Belmonte.
Mais uma vez será o Brasil a tomar a vanguarda da defesa da Língua Portuguesa, do respeito pelas suas diversas especificidades e variantes, contrariando uma padronização ilógica, irresponsável e totalmente caótica de uma das mais importantes ferramentas identitárias de qualquer povo.
A Língua evolui da rua para os gabinetes e não ao contrário. Transforma-se através da vivência quotidiana em vez de caprichos laboratoriais ou pretensas unificações com contornos pouco esclarecedores quanto às consequências pretendidas.
Que seja uma lição para toda esta classe política vergada a todas as vontades menos à daqueles que deveria representar.

Viva  a Língua Portuguesa.

sexta-feira, 26 de abril de 2019

Diário Laboratório (segunda entrada) 16/3/2018

(Segunda Entrada)
Sempre me apaixonaram o vago & o vário. A imensidão do vago & do vário. A imensidão difusa do vago & a imensidão profusa do vário.

Plasmá-los em escrita é tarefa para a acumulação do fragmento: porque é curto & truncado faz nascer o vago. Quando é multiplicação de si difusiva, irrestrita, faz brotar o vário.



Tarantino Style 

Sofia 

sábado, 20 de abril de 2019

TU SABES, MEU





Lembras-te daquele livro que lemos no mesmo Verão depois dos exames? E daquele filme com o….aquele que se casou com a…tu sabes, meu. Lembras-te quando fomos acampar para aquele sítio ali…não muito longe de…logo a seguir a…? Não te lembras?
Houve um tempo e um caminho e dentro deles estivemos nós?  Houve dores e alegrias, eternidades e apocalipses, lágrimas e gargalhadas. Isso lembro-me. Tenho é dificuldade em encontrar as datas, dar um nome aos dias, aos sítios… Mas lembro-me, sem dúvida que me lembro. Como tu te deves lembrar, de certeza. Estavas lá tanto como eu, afinal as nossas vidas nunca se chegaram a afastar muito, antes correram como linhas paralelas que ocasionalmente se cruzaram no infinito. Este infinito que eu sei que existe, que aconteceu mas que me custa estabelecer tempos, colar etiquetas como na arrecadação de um museu. Ás vezes parece aquele filme do gajo que acordava todos os dias no mesmo dia. Como é que era o título do filme? Com aquele actor, o…que também entrou naquele filme do… quando éramos miúdos e nos borrávamos de medo? Tu sabes, meu.
Tu sabes tão bem como eu, ninguém está a inventar, ninguém consegue inventar uma vida, desenhar um espaço que é o nosso como se fosse para sempre. Um espaço onde cabemos confortáveis com as nossas memórias como um zeloso bibliotecário encarregue da segurança dos seu livros. Um lugar à prova de tempo e de acidentes que nunca pode acabar enquanto nos conseguirmos lembrar. Naquele lugar onde nascemos e fomos à escola, nascem agora outros que nunca vão saber quem fomos, nem os nossos nomes nem os nossos livros, nem os nossos filmes. O cinema foi abaixo, a Livraria já não existe, a livraria do senhor…daquele que coxeava e vendia jornais ao princípio numa esquina do jardim. Aquele, o…tu sabes.
Lembro-me mas vou-me lembrando cada vez com menos força. Sempre que volto aos assuntos do passado é como se perdesse uma parte, como se o tudo fosse caíndo aos bocados até não ser nada. Também acontece contigo? Então deve ser por isso que há coisas de que não nos conseguimos lembrar. E quando ninguém se lembrar seja do que for essa coisa desaparece. Não morre porque deixa de  ser lembrada e quando uma coisa deixa de ser lembrada deixa simplesmente de existir. Nunca aconteceu.
A morte é como aquela gaja que namorou contigo há muitos anos. Aquela…a que depois casou com o…aquele, tu sabes. É diferente, tem textura, faz sofrer, impõe-se, deixa marca.
Mas nós não. Nós vamo-nos lembrando de cada vez menos coisas, a vida vai perdendo bocados como nós. E daqui a nada nem uma voz perguntará sobre quem fomos ou hesitará em pedir os nossos nomes a um interlocutor dando pistas difusas de partes das nossas vidas.
Daqui a nada será como se nada tivesse acontecido…a nossa vida, as nossas dores e as nossas alegrias. Outras gerações nos sucederão iludidas da sua imortalidade, condenadas a deixar de ser recordadas. E não vejo mal nenhum nisso. Como dizia aquele gajo…o que morreu ainda novo com….tu sabes,meu…


Artur




sexta-feira, 19 de abril de 2019


                                         "Sermão aos Matraquilhos" nos Cinemas.........
                                     talvez

Diário Laboratório (primeira entrada) 16/3/2018

16/3/2018 
(Primeira Entrada)
Não fazer agora. Não fazer ainda. Não fazer nunca?
Ou, ao contrário, fazer & fazer & não esperar?
Ou, gozar a vida no langor dela? Deixar o entorpecimento da vitalidade apoderar-se de tudo, assenhorando-se da energia e ambição, do contrato, implícito, com os outros - «vive escondido e na obscuridade de ti próprio até seres um estranho que se estranha».

segunda-feira, 15 de abril de 2019

IMPERMANÊNCIA

De um rebento, cresceu e se fez grande. Tão grande e tão verde, que nada a parecia abalar.
Viu um sem número de vidas chegar e partir.
Mas na Vida nada é permanente. Nada é imutável. Nada é para sempre. E o seu tempo também acabou. O Tempo ensina que a impermanência é a regra.
E caiu por terra e foi arrastada pelas águas que a levaram por rios, até ao grande oceano que lhe completou a viagem e devolveu-a a uma praia onde estava um coração de pedra.
Se as árvores têm coração, ele deve estar no centro da raiz com que se agarram à terra e à Vida.
Lá colocado, nem o coração de pedra bateu nem o tronco ganhou folhas verdes. Não se acelera nem altera a essência do curso mais intrínseco da Natureza. O da Vida e o da morte.
Se tudo é pó de estrela, a seu tempo, o ciclo completar-se-á uma vez mais e as partículas que formam esta massa inanimada, um dia voltarão a ter energia própria, quem sabe, consciência.
E quando a vierem a ter, que seja com um coração quente.
São os que fazem falta e os de pedra, servem para lembrar essa necessidade.

(Observando e deixando-me ir solto... solto...)

Hélder

terça-feira, 26 de março de 2019

APRESENTAÇÃO DE "SERMÃO AOS MATRAQUILHOS" NA CINEMATECA



No passado Sábado, dia 23 de Março, estive na Cinemateca para apresentar o meu último livro, "Sermão aos Matraquilhos". Mais uma ocasião para juntar amigos e familiares em torno das letras, das palavras e da partilha de uma história contada. Foram oradores o Arnaldo Mesquita (o meu irmão/amigo/ prefaciador crónico) e a Sofia Fonseca Costa, responsável pela revisão do texto junto da Emporium Editora. Estiveram também presentes os partistas Sofia Vaz Pinto, o olhar deste blog e de todas as capas anteriores dos meus livros já publicados e o João Matos, personalidade criativa, multifacetada, escritor, pensador, desenhador e, acima de tudo um amigo e companheiro também destas andanças d'As Partes do Todo.
Uma das razões porque dediquei uma vida aos caminhos das palavras e dos livros, aos trilhos abertos enquanto contador de histórias é o facto de nunca sabermos como uma história vai acabar, quantas pessoas vai tocar e de que maneira. Uma vez concluída a obra ganha vida própria como um filho que se torna adulto e deixa a casa paterna/materna.O retorno é sempre motivo de orgulho e satisfação. Porque quando escrevemos é sempre para os outros que o fazemos, sejam eles próximos ou desconhecidos. Sem saber falamos uns com os outros, encorajando, amparando, estimulando, rindo chorando,amando. A prova de tudo isto que eu disse encontra-se no texto seguinte que a Sofia Fonseca Costa teve a amabilidade de reproduzir. É por causa dela e de outras pessoas como ela que eu escrevo e não desisto. Para manter abertas as pontes da comunicação e livres os corredores da solidariedade humana. Só por isso já valeu a pena. Obrigado Arnaldo, obrigado Sofia, obrigado a todos por retirarem das minhas palavras o conforto de uma história bem contada que os conseguiu cativar.

         Artur Guilherme Carvalho





Quando cheguei, havia alguém de braços abertos à minha espera.
Só na apresentação do meu livro é que estava no mesmo estado de inquietude. Atestei, até, que o livro era cuidado, por mim, como se fosse meu. É o que faço naqueles em que toco e nos quais trabalho, mas este é mais do que meu. Sou eu.
Havia alguém de braços abertos à minha espera. "Sofia, ainda bem que veio! Tenho ali um presente para si."
Sabem, os que me conhecem, que tenho dificuldade em aceitar prendas.
Nesta semana, também eu comprei um. Porque quis. Porque pude. E porque sim. Tal como o presente que recebi, em sinal de agradecimento, que trouxe para casa.
O livro sou eu. É inquietante, intenso, faz-nos querer parar, recuar, fugir e, ainda assim, não querer largar, é a vida a acontecer à frente dos nossos olhos. E a morte também. A morte por força da vontade suicida.
Falei pouco. Muito pouco. E estive sempre, ao contrário do habitual, munida de notas para ter um fio condutor que se perdeu assim que me apresentei e disse o nome do livro.
Naquela sala, naquele espaço cheio de câmaras de filmar, cadeiras, poltronas, pessoas encantadoras e peças da história do nosso cinema, eu quase não falei. Por outro lado, chorei e pedi desculpa por não estar a cumprir aquilo para que tinha sido convidada.
É que eles não sabiam, mas naquele instante, naqueles minutos que foram meus, não era a Sofia crescida que ali estava. Era a menina de 15 anos que hoje falou sobre suicídio com uma multidão de desconhecidos. Falou sobre a necessidade de nos salvarmos uns aos outros. Sobre a importância dos afectos, dos físicos aos emocionais. Pediu para que passassem a estar mais atentos porque o mundo está cheio de coisas menos boas, menos felizes e, na verdade, de muita merda gratuita que só nos diminui.
Sabia o quão difícil me seria. E fui enfrentar o medo das recordações mais difíceis e falar sobre suicídio.
Falava, na quarta-feira, ao almoço, sobre o quanto mudamos quando somos directamente confrontados com a nossa própria finitude.
Hoje foi o mesmo. Apresentei o livro, da melhor maneira que consegui, escudando-me em citações do autor, mas no fundo, era o grito de socorro que devia ter dado lá longe no tempo.
As palavras são mágicas. Têm este condão de nos fazer viajar, andar no tempo e (re)viver.
Em duas horas, para além da minha parte, falámos de Kafka, Bukowski, Platão, retórica, vida, morte, cinema, história de arte, música, museus, Mértola, Beja, entidades jurídicas, filosofia e do quão importantes são, de facto, as coisas pequenas.
Chorei e comigo choraram outras pessoas, tão ou mais emocionadas que eu. A voz fraquejou algumas vezes. O queixo tremeu. Os olhos marejaram-se e transbordaram. E pedi desculpa.
No final, fui acolhida em abraços. Daqueles tão fortes que quase nos juntam cada caco que caia no chão.
"Parabéns pela apresentação e por viver assim. Nota-se que é uma pessoa intensa. Não mude nem peça desculpa por chorar quando é essa a sua vontade. Não chore por ter essa sensibilidade rara. Orgulhe-se disso."
Fui apresentar um livro sobre vida, matraquilhos, música e senti que o pedido de ajuda da menina de 15 anos que lá estava a falar, a dizer que se chama Sofia Fonseca Costa, entre outras coisas, foi ouvido.
Oiçam também, por favor, aqueles que estiverem ao vosso alcance.
No livro, todos ficam em silêncio depois da perda. A vocalista da banda suicidou-se. E os restantes membros sentem e sabem que, no fundo, perderam um pouco da própria voz de cada um.
Estejam, portanto, mais presentes na vida uns dos outros. Abracem-se, se forem de abraços. Não fujam do que vos faz ou pode vir a fazer feliz. Não julguem. Cada pessoa tem a sua verdade. Digam uns aos outros que são importantes. Digam e mostrem quem é o melhor do vosso dia, aquela pessoa que vos faz vibrar, quando parece não haver mais nada para além do cansaço. Agradeçam tudo o que têm. Façam por ter mais, se é isso que querem, sem esquecer a partilha.
Só se vive uma vez, para quem não acredita em reencarnação, mas todos os dias há quem se sinta morrer um bocadinho mais. Estejam atentos, dando o lugar do vosso umbigo à vida do outro.

"Andámos por aqui, como vocês andam agora, a tentar que os dias amanheçam sempre felizes, que a vida nos sorria e que o amor não nos abandone. Andámos por aqui empenhados em descobrir a máquina da felicidade e nem o manual de instruções conseguimos encontrar. Mas vale sempre a pena... a procura e o resto. As pedras no caminho, os buracos, as dores e as tristezas. Vale sempre a pena desde que saibamos amar os outros, os amigos, os filhos, aqueles que nos ajudam a voltar ao trilho quando tropeçamos. Não temos nada para vos deixar, nada para vos ensinar que vocês não venham a aprender sozinhos." Artur Guilherme Carvalho, n'O Sermão aos matraquilhos
E, no regresso a casa, caminhei perto de amores perfeitos, fui parar ao Tejo. Agradecer a escolha que fiz, ainda mais miúda do que com 15 anos, de me dar às palavras. De todas as que já escolhi, foi esta a mais feliz.

                 Sofia Fonseca Costa