domingo, 26 de maio de 2019

O URSO ABSTENCIONISTA



No único dia em que todos os cidadãos são iguais ao exercer os seus direitos, segundo o que o primeiro-ministro de Portugal disse esta manhã (não concordo e por defeito porque a “igualdade” é utópica, mais ainda se me quiser comparar a um político), a força ou fraqueza política portuguesa incontestavelmente vencedora foi a ABSTENÇÃO.
Entretanto, os comentadeiros que vão bolsando opiniões nos vários canais generalistas, desvalorizam a descredibilização a que este resultado realmente vota a classe política, porque não vêem (não querem ver nem querem que se veja assim) a abstenção como um acto de revolta e repúdio pelo regabofe generalizado dos alarves à volta do ‘tacho nostri’ mas exclusivo deles.

Assinado,
O Urso

domingo, 19 de maio de 2019

AS HISTÓRIAS QUE A HISTÓRIA CONTA




Wook.pt - Que fazer contigo, pá?




"Que fazer contigo, pá?"

Carlos Vale Ferraz


Como num teatro vazio num bairro fora de prazo, a companhia de um outrora grande sucesso de bilheteira volta-se a encontrar num esforço final para finalizar o processo da memória. Fazendo um balanço das suas vidas, dançando com o passado, apresentam uma nova peça. A população que anteriormente assistiu e aplaudiu entusiasmada está velha, desmotivada, a maioria morreu. Restam os jornais antigos, os registos, os museus, os contornos da historiografia em geral para confirmar, não a verdade, não a qualidade das intenções mas tão somente a existência dos actores, a vaga descrição da narrativa, um ou outro aspecto cénico mais relevante. Quem ainda se lembrar, por defeito de ofício ou simples curiosidade do processo histórico, um transeunte acidental que fôr a passar nesse momento, acaba por desfrutar de um espectáculo raro e único. O de como a ficção acaba por ser a forma mais eficaz de transmitir a verdade. "Transmitir" não significa "adquirir" e muito menos "possuir".
A verdade como todos sabemos nunca se consegue capturar…escorre como um líquido caprichoso por todas as falhas e buracos do tempo a grande velocidade…é temporariamente verdadeira.
Ruben, herói do 25 de Abril, derrotado no 25 de Novembro decide envolver-se em acções violentas durante o período seguinte. Encurralado acabará por se exilar em Paris deixando os seus companheiros entregues à sua sorte. Na capital francesa conhecerá um Outro que se fará passar por ele, acabando por serem confundidos por todos. Do confronto fatal um acabará por morrer. O sobrevivente regressa então a casa empenhado em resgatar o seu passado, em recontar a sua história. Não se considera um desertor, muito menos um traidor. Os seus antigos companheiros bem como os  inimigos da altura é que já estão noutra fase da existência e ficam sem saber o que fazer dele.
Em traços gerais este é o último trabalho de Carlos Vale Ferraz, uma ficção corajosa e despojada de quem viveu por dentro toda esta fase mais tumultuosa da nossa História recente. Sem pudores identitários facilmente se consegue ir buscar à realidade a maioria dos personagens. Homens e mulheres que estando ainda vivos alguns, não deixam de assumir o seu estatuto de fantasmas na medida em que o seu tempo de pisar o palco ficou décadas lá atrás. Nesse sentido o primeiro grande desafio deste romance é o de uma viagem pelas terras da incerteza e da improbabilidade, essa ténue linha entre Passado e Presente, entre realidade e ficção. Se por um lado esta é a história de um homem a quem impuseram um destino maior do que ele conseguia carregar é ao mesmo tempo a história daqueles que procuraram através da perseguição de ideais acelerar a História em relação ao simples tempo cronológico. Defendendo os mais fracos, os indefesos, os esquecidos do edifício social, mais tarde concluem que estes nunca os viram como libertadores mas antes como vítimas dos mesmos carrascos que se refugiavam (ou queriam refugiar) na protecção do seu mundo precário do qual não faziam parte. Essa facção que tinha tanto de idealista como de violenta regressará ao(s) seu(s) mundo(s) de origem perante o triunfo da falsidade, da mentira e do egoísmo da maioria das pessoas e que transforma o discurso  oficial numa simples questão de conveniência. Do outro lado, os que se deixam recrutar pelos eternos donos do poder, movidos pelo conformismo, pela ganância ou pelo simples egoísmo, esses acabarão sem perceber quem são ou onde pertencem.

      "os homens que procuram a felicidade copiam os embriagados que não conseguem encontrar a própria casa, apesar de saberem que a têm"  



Entre a inquietude e o servilismo, entre a resignação e o desassossego, há os que se conformam e há os que reagem. E no fim todos os actores deste espectáculo vão acabar com as mãos sujas, as memórias recriminadas e o tempo desenhado. As tempestades caem sobre todas as cabeças e depois chegam ao fim. Nada fica como dantes. Ruben, ou Simão Dutra, volta a casa para fechar pontas soltas deixadas pelo caminho. De uma forma ou de outra o reencontro consigo próprio, o acerto de contas com o passado e a  impermanência do seu destino são a própria respiração do processo histórico, o oxigénio do destino dos homens. Tudo muda, ninguém vence, ninguém perde, e todos terminam de formas e em circunstâncias que pouco ou nada têm a ver com aquilo que imaginaram.

Uma excelente rearrumação da memória, um romance empolgante, um pedaço de História onde a ficção cumpre o seu papel maior.  

Artur

terça-feira, 14 de maio de 2019

SERMÃO AOS MATRAQUILHOS

Regresso a "Sermão Aos Matraquilhos" - regressarei sempre -, para partilhar algumas reflexões que a obra me suscita. E começo sempre por referir a singularidade deste livro no conjunto da obra do Artur, uma singularidade que não implica ruptura ou descontinuidade, mas antes um prolongamento e um desenvolvimento da sua marca autoral: a fixação e estabilização de temas que formam uma mundivisão e um ponto de vista único e original que agora se confrontam com um novo horizonte de referência: a experimentação com a linguagem, as suas possibilidades e limites, uma operação com a qual os criadores artísticos medem, ao menos uma vez durante o seu percurso, o alcance e o potencial dos seus meios expressivos. No diálogo "Íon", Platão sugere que os escritores (poetas e tragediógrafos) são, por assim dizer, "vazios" e que esse esvaziamento corresponde à sua abertura à incomensurabilidade da linguagem. Só através desse processo se pode esperar alcançar alguma coisa de tangível sobre a capacidade que a  linguagem, neste caso a linguagem literária, tem de dizer muito mais do que significa e de significar mais do que diz. É possível que o postulado heideggeriano da autonomia da linguagem e da sua prioridade em detrimento do seu estatuto utilitário alcance em "Sermão Aos Matraquilhos" uma das suas expressões: notamos a que ponto "sentido", "efeito emocional" e "conotação" estão amalgamados com os meios de execução, isto é, com a capacidade de a linguagem dizer o Ser, dizer o homem, falar o Ser e o homem, mais do que ser falada por ele. É assim que este "Sermão" aposta no sentido, na ressurreição das artes da memória, na tensão constante em direcção ao entendimento (como diria Martin Heidegger : "somos aquilo que compreendemos ser"), na crença de que é unicamente graças à escuta da liberdade humana que murmura ou proclama em altos berros que saberemos retirar do abismo, das cinzas vivas da queimadura total, aquilo que resta do sentido da nossa condição, ou seja da nossa vida. Resgatar aquilo que sobra das ruínas. Ruínas... a não pertença do homem ao mundo, ou melhor, ao mundo dos outros homens; uma espécie de inimizade elementar e inegociável entre ser e existência. Percorre a obra um conjunto de sintomas que nos dão conta dessa inimizade: a inquietude, o desassossego, a instabilidade, a desinstalação, a sensação de que é o leitor que está a ser profundamente lido pelo livro. Outro sintoma, ainda: o estilo como uma metafísica, uma leitura do Ser, que nos prepara para aquilo que se espera resultar, no sentido próprio do termo, numa explicação de um texto que desemboca, na minha opinião, numa anti-metafísica difusa: a recuperação de uma tese de Michel Foucault segundo a qual, o Homem morreu, isto é, já não se pode falar do Homem como um conceito metafísico, e sim de homens, de indivíduos, com as suas consciências, a sua liberdade, os seus actos e as suas circunstâncias. 

Como sabemos, os sermões são peças de oratória, com um elevado grau de complexidade e riqueza retórica, destinados a transmitir argumentos teológicos e/ou ensinamentos morais e éticos. Em Portugal, a figura do sermão atingiu o apogeu com os célebres sermões do Padre António Vieira, que se contam entre as grandes obras engendradas pelo espírito humano. Vieira compreendia que a mera retórica é uma espécie de cemitério das realidades humanas ou, na melhor das hipóteses, o seu hospital dos inválidos. Tal como Vieira, o Artur recusa liminarmente a retórica pela retórica e rejeita os três modos de expressão da cultura contemporânea quando se quer referir às circunstâncias do homem na contemporaneidade: o sarcasmo negro, a sátira, a farsa, o circo multimédia: mostra-nos que vida e destino se confundem e são a mesmíssima coisa; que todo o destino é dramático e trágico na sua dimensão profunda: somos aquilo que o mundo nos convida a ser e que nesse sentido, viver é lidar com o mundo: ou lhe respondemos ou o contrariamos. O homem falhado é somente aquele que não apela a nenhuma circunstância fora de si. Albert Camus não desdenharia subscrever esta ideia. Como também não desdenharia pensar que a vida, individual ou colectiva, pessoal ou histórica, é a única entidade do universo cuja essência é o perigo. É, rigorosamente falando, drama; qualquer vida é a luta, o esforço para ser ela mesma. E ela mesma com as outras vidas. É essa a lição essencial: a única coisa que conta é a entre-ajuda, a solidariedade, a certeza de nos salvamos juntos ou juntos perecemos. Na sua aparente simplicidade, este ensinamento tem um conteúdo ético extraordinariamente valioso. Aliás, tem o único conteúdo ético capaz de nos elevar acima da vulgaridade e da banalidade.

Finalmente, gostaria de dizer duas palavras sobre a construção da obra. O sentido do drama/tragédia, levou o autor a construir uma estrutura triádica, protagonizada por personagens/vozes que, sendo altamente simbólicas, não deixam de ser de carne e osso; escutamos os seus monólogos, auscultamos  a corrente de consciência a que dão expressão e sentimos também a sua materialidade, o pulsar inquieto das suas vidas. João, Pedro e Gonçalo são "personagens" no sentido grego do termo: "personas", as máscaras que os actores usavam para encarnarem as vidas que lhes cabia representarem e para esconderem ou dissimularem as suas verdadeiras identidades. Este terceto transforma-se por vezes em quinteto, sendo as duas personagens adicionais (o Gimbras e a D. Lurdes) duas pessoas verdadeiras e não personagens: são aquilo que são, tiveram a coragem de se transformarem naquilo que são e nunca se perdem no labirinto do que foi desta e não daquela maneira, do que foi e poderia ter sido. Pairando acima de todos, determinando tudo, a ausência/presença de Matilde, a verdadeira heroína trágica, a personagem mais fulgurante que o Artur já criou, aquela que molda o seu próprio destino e cuja dimensão só apreendemos quando está prestes a desaparecer. A que vive e morre assumindo o ideal das tragédias gregas, à imagem e semelhança das suas antepassadas (Electra, Antígona, Ifigénia et allia): já que nascemos, é melhor morrer jovem, depois de termos atingido o auge da nossa existência, enquanto a luz ainda brilha e o fulgor não se extinguiu. 

domingo, 12 de maio de 2019

GRISALHO PEIXOTO, O ESPANTALHO

Peixoto, deputado ainda mais pequeno que os pequenos deputados,
Não gostou da reacção de um cidadão aos ditos por ele bolsados.
Logo ele que agora que também já deve estar bem grisalho, 
Chamou de “peste grisalha” aos que deveriam ser respeitados e por isso, merecia era levar com um malho.

Pois que levou o indignado cidadão a tribunal,
Que não se podia de Peixoto falar mal.
E ao que se metia pelos olhos dentro de qualquer ser equilibrado,
Considerou o tribunal
Estar o cidadão endiabrado.

Vai daí, foi condenado quatro mil euros pagar ao pequeno Peixoto,
Medida de punição a tal afronta,
Que mesmo tão injusta, cabia ao incomodado roto,
E assim, de Justiça, nem ponta.

Não se ficou no entanto o anónimo ofendido cidadão,
Que afinal por ser isso mesmo, um de nós.
Seguiu para o tribunal europeu com a contestação.
Resultando na condenação do estado feroz.

De quatro a Peixoto, passou a seis ao cidadão,
Recebeu Peixoto, e pagamos nós 
Ri-se Peixoto, e pagamos nós
O cidadão indignado fica ressarcido de tamanha devassidão,
Mas continuamos a pagar nós, uma justiça tão obtusa que parece uma filhós.


A filhós não faz sentido?
É como aquilo que se lhe parece.
Ah! E com o deputado grisalho, que bem se podia montar num carvalho.

Hélder 



sábado, 11 de maio de 2019

DIA 18 DE MAIO




No próximo dia 18 de Maio/ Sábado, vou estar na Livraria Fábrica de Braço de Prata a apresentar o meu último romance pelas 19:30.  Serão oradores o Arnaldo Mesquita e a Sofia Fonseca Costa. Uma oportunidade para quem não pôde estar presente na Cinemateca no mês passado. Fico à vossa espera.

Artur

sexta-feira, 3 de maio de 2019

NÓS, OS PARTISTAS





Julgo que esta é a primeira vez em que todos aparecemos na mesma imagem, daí poder-se falar em acontecimento histórico. São 12 anos de actividade onde tentamos estabelecer um diálogo com o visitante acidental apresentando as nossas propostas, exprimindo as nossas opiniões, partilhando as nossas experiências. Da Literatura para o Cinema, da Fotografia para a Crónica, da Filosofia para a Poesia, do texto experimental à simples prova de vida. E se é certo que os diálogos com a assistência não se podem considerar muito activos ou participados, o facto é que o número de visitantes reforça um conforto considerável naquilo que à nossa expansão diz respeito.  "Não conversam mas visitam-nos com bastante frequência", tal como num centro de dia onde reside o parente velho que teima em não desaparecer. E é essa teima que nos mantêm a voltar aqui uma e outra vez. Porque achamos que ainda temos alguma coisa para dizer, porque ainda nos sentimos fascinados em ver o nosso trabalho publicado dentro de um ecran de computador que pode chegar a milhões de pessoas, porque simplesmente nos apetece. Somos um Blog, somos uma equipa e gostamos de falar com vocês.
Cumprimentos de "As Partes do Todo"…

A Gerência

Da esquerda para a direita: o Arnaldo, o Helder, a Sofia, o Artur e o João

domingo, 28 de abril de 2019

RENASCE A ESPERANÇA

É com grande agrado e renovada esperança que acolhemos a notícia da aprovação pela Comissão de Educação da Câmara dos Deputados do Brasil de um requerimento para discutir a revogação do Acordo Ortográfico. A iniciativa parte de um deputado do Partido da República (centro-direita), (Jaziel Pereira de Sousa) e foi subscrita pela deputada do Partido Cidadania (antigo Partido Comunista), Paula Belmonte.
Mais uma vez será o Brasil a tomar a vanguarda da defesa da Língua Portuguesa, do respeito pelas suas diversas especificidades e variantes, contrariando uma padronização ilógica, irresponsável e totalmente caótica de uma das mais importantes ferramentas identitárias de qualquer povo.
A Língua evolui da rua para os gabinetes e não ao contrário. Transforma-se através da vivência quotidiana em vez de caprichos laboratoriais ou pretensas unificações com contornos pouco esclarecedores quanto às consequências pretendidas.
Que seja uma lição para toda esta classe política vergada a todas as vontades menos à daqueles que deveria representar.

Viva  a Língua Portuguesa.

sexta-feira, 26 de abril de 2019

Diário Laboratório (segunda entrada) 16/3/2018

(Segunda Entrada)
Sempre me apaixonaram o vago & o vário. A imensidão do vago & do vário. A imensidão difusa do vago & a imensidão profusa do vário.

Plasmá-los em escrita é tarefa para a acumulação do fragmento: porque é curto & truncado faz nascer o vago. Quando é multiplicação de si difusiva, irrestrita, faz brotar o vário.



Tarantino Style 

Sofia 

sábado, 20 de abril de 2019

TU SABES, MEU





Lembras-te daquele livro que lemos no mesmo Verão depois dos exames? E daquele filme com o….aquele que se casou com a…tu sabes, meu. Lembras-te quando fomos acampar para aquele sítio ali…não muito longe de…logo a seguir a…? Não te lembras?
Houve um tempo e um caminho e dentro deles estivemos nós?  Houve dores e alegrias, eternidades e apocalipses, lágrimas e gargalhadas. Isso lembro-me. Tenho é dificuldade em encontrar as datas, dar um nome aos dias, aos sítios… Mas lembro-me, sem dúvida que me lembro. Como tu te deves lembrar, de certeza. Estavas lá tanto como eu, afinal as nossas vidas nunca se chegaram a afastar muito, antes correram como linhas paralelas que ocasionalmente se cruzaram no infinito. Este infinito que eu sei que existe, que aconteceu mas que me custa estabelecer tempos, colar etiquetas como na arrecadação de um museu. Ás vezes parece aquele filme do gajo que acordava todos os dias no mesmo dia. Como é que era o título do filme? Com aquele actor, o…que também entrou naquele filme do… quando éramos miúdos e nos borrávamos de medo? Tu sabes, meu.
Tu sabes tão bem como eu, ninguém está a inventar, ninguém consegue inventar uma vida, desenhar um espaço que é o nosso como se fosse para sempre. Um espaço onde cabemos confortáveis com as nossas memórias como um zeloso bibliotecário encarregue da segurança dos seu livros. Um lugar à prova de tempo e de acidentes que nunca pode acabar enquanto nos conseguirmos lembrar. Naquele lugar onde nascemos e fomos à escola, nascem agora outros que nunca vão saber quem fomos, nem os nossos nomes nem os nossos livros, nem os nossos filmes. O cinema foi abaixo, a Livraria já não existe, a livraria do senhor…daquele que coxeava e vendia jornais ao princípio numa esquina do jardim. Aquele, o…tu sabes.
Lembro-me mas vou-me lembrando cada vez com menos força. Sempre que volto aos assuntos do passado é como se perdesse uma parte, como se o tudo fosse caíndo aos bocados até não ser nada. Também acontece contigo? Então deve ser por isso que há coisas de que não nos conseguimos lembrar. E quando ninguém se lembrar seja do que for essa coisa desaparece. Não morre porque deixa de  ser lembrada e quando uma coisa deixa de ser lembrada deixa simplesmente de existir. Nunca aconteceu.
A morte é como aquela gaja que namorou contigo há muitos anos. Aquela…a que depois casou com o…aquele, tu sabes. É diferente, tem textura, faz sofrer, impõe-se, deixa marca.
Mas nós não. Nós vamo-nos lembrando de cada vez menos coisas, a vida vai perdendo bocados como nós. E daqui a nada nem uma voz perguntará sobre quem fomos ou hesitará em pedir os nossos nomes a um interlocutor dando pistas difusas de partes das nossas vidas.
Daqui a nada será como se nada tivesse acontecido…a nossa vida, as nossas dores e as nossas alegrias. Outras gerações nos sucederão iludidas da sua imortalidade, condenadas a deixar de ser recordadas. E não vejo mal nenhum nisso. Como dizia aquele gajo…o que morreu ainda novo com….tu sabes,meu…


Artur




sexta-feira, 19 de abril de 2019


                                         "Sermão aos Matraquilhos" nos Cinemas.........
                                     talvez

Diário Laboratório (primeira entrada) 16/3/2018

16/3/2018 
(Primeira Entrada)
Não fazer agora. Não fazer ainda. Não fazer nunca?
Ou, ao contrário, fazer & fazer & não esperar?
Ou, gozar a vida no langor dela? Deixar o entorpecimento da vitalidade apoderar-se de tudo, assenhorando-se da energia e ambição, do contrato, implícito, com os outros - «vive escondido e na obscuridade de ti próprio até seres um estranho que se estranha».

segunda-feira, 15 de abril de 2019

IMPERMANÊNCIA

De um rebento, cresceu e se fez grande. Tão grande e tão verde, que nada a parecia abalar.
Viu um sem número de vidas chegar e partir.
Mas na Vida nada é permanente. Nada é imutável. Nada é para sempre. E o seu tempo também acabou. O Tempo ensina que a impermanência é a regra.
E caiu por terra e foi arrastada pelas águas que a levaram por rios, até ao grande oceano que lhe completou a viagem e devolveu-a a uma praia onde estava um coração de pedra.
Se as árvores têm coração, ele deve estar no centro da raiz com que se agarram à terra e à Vida.
Lá colocado, nem o coração de pedra bateu nem o tronco ganhou folhas verdes. Não se acelera nem altera a essência do curso mais intrínseco da Natureza. O da Vida e o da morte.
Se tudo é pó de estrela, a seu tempo, o ciclo completar-se-á uma vez mais e as partículas que formam esta massa inanimada, um dia voltarão a ter energia própria, quem sabe, consciência.
E quando a vierem a ter, que seja com um coração quente.
São os que fazem falta e os de pedra, servem para lembrar essa necessidade.

(Observando e deixando-me ir solto... solto...)

Hélder

terça-feira, 26 de março de 2019

APRESENTAÇÃO DE "SERMÃO AOS MATRAQUILHOS" NA CINEMATECA



No passado Sábado, dia 23 de Março, estive na Cinemateca para apresentar o meu último livro, "Sermão aos Matraquilhos". Mais uma ocasião para juntar amigos e familiares em torno das letras, das palavras e da partilha de uma história contada. Foram oradores o Arnaldo Mesquita (o meu irmão/amigo/ prefaciador crónico) e a Sofia Fonseca Costa, responsável pela revisão do texto junto da Emporium Editora. Estiveram também presentes os partistas Sofia Vaz Pinto, o olhar deste blog e de todas as capas anteriores dos meus livros já publicados e o João Matos, personalidade criativa, multifacetada, escritor, pensador, desenhador e, acima de tudo um amigo e companheiro também destas andanças d'As Partes do Todo.
Uma das razões porque dediquei uma vida aos caminhos das palavras e dos livros, aos trilhos abertos enquanto contador de histórias é o facto de nunca sabermos como uma história vai acabar, quantas pessoas vai tocar e de que maneira. Uma vez concluída a obra ganha vida própria como um filho que se torna adulto e deixa a casa paterna/materna.O retorno é sempre motivo de orgulho e satisfação. Porque quando escrevemos é sempre para os outros que o fazemos, sejam eles próximos ou desconhecidos. Sem saber falamos uns com os outros, encorajando, amparando, estimulando, rindo chorando,amando. A prova de tudo isto que eu disse encontra-se no texto seguinte que a Sofia Fonseca Costa teve a amabilidade de reproduzir. É por causa dela e de outras pessoas como ela que eu escrevo e não desisto. Para manter abertas as pontes da comunicação e livres os corredores da solidariedade humana. Só por isso já valeu a pena. Obrigado Arnaldo, obrigado Sofia, obrigado a todos por retirarem das minhas palavras o conforto de uma história bem contada que os conseguiu cativar.

         Artur Guilherme Carvalho





Quando cheguei, havia alguém de braços abertos à minha espera.
Só na apresentação do meu livro é que estava no mesmo estado de inquietude. Atestei, até, que o livro era cuidado, por mim, como se fosse meu. É o que faço naqueles em que toco e nos quais trabalho, mas este é mais do que meu. Sou eu.
Havia alguém de braços abertos à minha espera. "Sofia, ainda bem que veio! Tenho ali um presente para si."
Sabem, os que me conhecem, que tenho dificuldade em aceitar prendas.
Nesta semana, também eu comprei um. Porque quis. Porque pude. E porque sim. Tal como o presente que recebi, em sinal de agradecimento, que trouxe para casa.
O livro sou eu. É inquietante, intenso, faz-nos querer parar, recuar, fugir e, ainda assim, não querer largar, é a vida a acontecer à frente dos nossos olhos. E a morte também. A morte por força da vontade suicida.
Falei pouco. Muito pouco. E estive sempre, ao contrário do habitual, munida de notas para ter um fio condutor que se perdeu assim que me apresentei e disse o nome do livro.
Naquela sala, naquele espaço cheio de câmaras de filmar, cadeiras, poltronas, pessoas encantadoras e peças da história do nosso cinema, eu quase não falei. Por outro lado, chorei e pedi desculpa por não estar a cumprir aquilo para que tinha sido convidada.
É que eles não sabiam, mas naquele instante, naqueles minutos que foram meus, não era a Sofia crescida que ali estava. Era a menina de 15 anos que hoje falou sobre suicídio com uma multidão de desconhecidos. Falou sobre a necessidade de nos salvarmos uns aos outros. Sobre a importância dos afectos, dos físicos aos emocionais. Pediu para que passassem a estar mais atentos porque o mundo está cheio de coisas menos boas, menos felizes e, na verdade, de muita merda gratuita que só nos diminui.
Sabia o quão difícil me seria. E fui enfrentar o medo das recordações mais difíceis e falar sobre suicídio.
Falava, na quarta-feira, ao almoço, sobre o quanto mudamos quando somos directamente confrontados com a nossa própria finitude.
Hoje foi o mesmo. Apresentei o livro, da melhor maneira que consegui, escudando-me em citações do autor, mas no fundo, era o grito de socorro que devia ter dado lá longe no tempo.
As palavras são mágicas. Têm este condão de nos fazer viajar, andar no tempo e (re)viver.
Em duas horas, para além da minha parte, falámos de Kafka, Bukowski, Platão, retórica, vida, morte, cinema, história de arte, música, museus, Mértola, Beja, entidades jurídicas, filosofia e do quão importantes são, de facto, as coisas pequenas.
Chorei e comigo choraram outras pessoas, tão ou mais emocionadas que eu. A voz fraquejou algumas vezes. O queixo tremeu. Os olhos marejaram-se e transbordaram. E pedi desculpa.
No final, fui acolhida em abraços. Daqueles tão fortes que quase nos juntam cada caco que caia no chão.
"Parabéns pela apresentação e por viver assim. Nota-se que é uma pessoa intensa. Não mude nem peça desculpa por chorar quando é essa a sua vontade. Não chore por ter essa sensibilidade rara. Orgulhe-se disso."
Fui apresentar um livro sobre vida, matraquilhos, música e senti que o pedido de ajuda da menina de 15 anos que lá estava a falar, a dizer que se chama Sofia Fonseca Costa, entre outras coisas, foi ouvido.
Oiçam também, por favor, aqueles que estiverem ao vosso alcance.
No livro, todos ficam em silêncio depois da perda. A vocalista da banda suicidou-se. E os restantes membros sentem e sabem que, no fundo, perderam um pouco da própria voz de cada um.
Estejam, portanto, mais presentes na vida uns dos outros. Abracem-se, se forem de abraços. Não fujam do que vos faz ou pode vir a fazer feliz. Não julguem. Cada pessoa tem a sua verdade. Digam uns aos outros que são importantes. Digam e mostrem quem é o melhor do vosso dia, aquela pessoa que vos faz vibrar, quando parece não haver mais nada para além do cansaço. Agradeçam tudo o que têm. Façam por ter mais, se é isso que querem, sem esquecer a partilha.
Só se vive uma vez, para quem não acredita em reencarnação, mas todos os dias há quem se sinta morrer um bocadinho mais. Estejam atentos, dando o lugar do vosso umbigo à vida do outro.

"Andámos por aqui, como vocês andam agora, a tentar que os dias amanheçam sempre felizes, que a vida nos sorria e que o amor não nos abandone. Andámos por aqui empenhados em descobrir a máquina da felicidade e nem o manual de instruções conseguimos encontrar. Mas vale sempre a pena... a procura e o resto. As pedras no caminho, os buracos, as dores e as tristezas. Vale sempre a pena desde que saibamos amar os outros, os amigos, os filhos, aqueles que nos ajudam a voltar ao trilho quando tropeçamos. Não temos nada para vos deixar, nada para vos ensinar que vocês não venham a aprender sozinhos." Artur Guilherme Carvalho, n'O Sermão aos matraquilhos
E, no regresso a casa, caminhei perto de amores perfeitos, fui parar ao Tejo. Agradecer a escolha que fiz, ainda mais miúda do que com 15 anos, de me dar às palavras. De todas as que já escolhi, foi esta a mais feliz.

                 Sofia Fonseca Costa



     

segunda-feira, 18 de março de 2019

APRESENTAÇÃO






Convido todos os leitores, seguidores e amigos deste blog a estarem presentes no próximo Sábado, dia 23 na Cinemateca para a apresentação do meu último título "Sermão aos Matraquilhos" pelas 17:00 horas. Serão oradores a Sofia Fonseca Costa em representação da Emporium Editora e o Arnaldo Mesquita, membro deste blog.

               Artur

quarta-feira, 13 de março de 2019

VINTAGE MAIL



                                                                      Sofia

terça-feira, 12 de março de 2019

IN THE WATERS OF LOVE


                                
                                                                      Sofia

sábado, 9 de março de 2019

O HOMEM, A TERRA E O MAR



                                                                   Sofia

sexta-feira, 8 de março de 2019

FAMÍLIA


                                                                     Sofia


Nós e a água, um Espírito. Nós e vocês, uma família. A única razão porque nos parecemos dispersar é apenas para reforçar o único Ser que somos. Dentro da onda ou fora dela, juntos em fraterna União. Juntos celebrando a Natureza que nos celebra a nós todos os dias. Celebração, Espírito, Família, Ser.
A totalidade única e indivisível da Vida manifestada e multiplicada por diversas formas, diversos tamanhos, diversas dimensões. O Todo de sermos o Absoluto unicamente significando-nos uns aos outros...uns com os outros...

quinta-feira, 7 de março de 2019

CAMINHOS/ ESTAÇÕES/DESTINOS



                                                                          Sofia

                                    ...da Terra...atravessando o Mar...para alcançar o Céu.

quarta-feira, 6 de março de 2019

CELEBRAÇÃO DA ÁGUA



                                                                       Sofia

segunda-feira, 4 de março de 2019

PIPELINE, NORTHSHORE, OAHU, HAWAI



                                                                  Sofia

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

DURO ATÉ AO FIM








                                                                   Duro prossegue
                                                                  direito ao fim
                                                                 sem pena de nada
                                                                nem de ti nem de mim.



O projecto começado há uns anos atrás com "Puro" vê agora o seu epílogo com "Duro" num refinamento de qualidade e reafirmação de posições extremamente bem acolhido tanto pelo público como pela crítica. Quando vamos ver mais um concerto dos Xutos ou nos preparamos para ouvir um novo trabalho, a escala utilizada parte sempre do nível Bom. O restante escalonamento limita-se a posicionar-se nos níveis de boa qualidade apresentado pelas suas propostas. Neste caso, com "Duro", o mínimo que se pode dizer é que a instituição Xutos & Pontapés, a fábrica de Rock'n Roll trabalha cada vez mais como uma máquina afinada onde todos os seus sectores se obrigam a esticar ao limite máximo as suas capacidades.
Sendo o primeiro trabalho após o desaparecimento de uma das suas peças fundamentais, o luto, a tristeza, a persistência e o hino à vida foram paragens obrigatórias nesta caminhada já longa de quatro décadas que teima em continuar. O Zé Pedro partiu mas o seu legado ficou, cinco temas deste album têm ainda a sua assinatura, e para além disso, a melhor homenagem que lhe podia ser feita pelos seus companheiros de estrada e aventura seria exactamente esta. Continuar enquanto houver força, continuar enquanto houver qualidade.
Á partida destaco quatro temas fortes, "Duro", "Fim do Mundo", "Às Vezes" e "Mar de Outono", dois temas de puro rock e duas baladas fantásticas. Em "Duro" a guitarra de João Cabeleira volta a ser enorme e a letra um cartão de visita de toda uma obra de quem nunca se resignou fiel ao lema "antes quebrar que torcer". "Fim do Mundo" vai em crescendo arrastando a raiva de quem não pára de lutar mesmo sabendo que vai perder no fim, mesmo quando as forças começam a faltar. É Xutos de sempre, de cabeça erguida exibindo a sua razão, a sua dignidade, o seu direito a passar pela vida e ao seu pequeno espaço conquistado por mais pequeno que seja. " Às Vezes" é um hino à fragilidade e à força que todos temos dentro de nós para enfrentar os dias, as relações com os outros, os caminhos do desejo e do amor que se percorrem sem mapa nem bússola. A paz que conquistamos de vez em quando mas que insiste em nos escapar pelos dedos, uma luta permanente.
E depois temos "Mar de Outono", um "baladão à Pink Floyd" como já alguém disse. O sax do Gui a pintar ruas desertas em noites de chuva, a guitarra do Cabeleira a enquadrar um ambiente de mágoa e solidão, a voz do Tim e a bateria ondulante do Kalu.

"o vento cresce, o tempo arrefece
vai ficando escuro neste mar de Outono"

Marinheiros solitários de uma já longa jornada, navegadores cansados mas determinados em não desistir até ao último fôlego, empenhados em seguir a sua demanda.

Dois dos temas de "Duro" não eram novidade na medida em que já tinham sido tocados em espectáculos ao vivo ou usados para outros fins. É o caso de "Alepo", cuja letra é baseada em twiters publicados por uma jovem síria durante a guerra e "Sementes do Impossível", referência musical para a banda sonora do filme ÍNDICE MÉDIO DE FELICIDADE (2017) de Joaquim Leitão. Se numa se retratam os horrores da guerra através do olhar  de uma criança, no outro retrata-se o período recente da crise económica e a forma como esses tempos negros dividiram e castigaram uma família.
Segue-se "Espanta Espíritos" um convite à reflexão acerca do vazio destes tempos repletos de muita informação e pouco conhecimento, muita comunicação e nenhum contacto entre as pessoas. Um tempo assustador e impessoal onde a tecnologia corre o risco de desumanizar a vida e transformá-la num deserto de egos cegos e inconsequentes.
Para finalizar há ainda "Duelo ao Sol" com a colaboração de Carlão (Da Weasel), uma breve incursão no Rap e "Imprevistos".
No cômputo geral "Duro" consiste numa sequência de nove temas que se ouvem com um enorme prazer assinado pela maior banda de Rock de todos os tempos em Portugal.
Esteja onde estiver o Zé Pedro há-de ter o seu sorriso eterno de orelha a orelha e cheio de orgulho pensará:

       "Fui eu que ajudei a fazer isto…"


Artur


quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

SOBRE UM "COMBOIO DE SOMBRAS"



                                                                      Sofia

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

TEM DÓ



                                                                   Sofia

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

ECRAN DEMONÍACO








O temor e a compaixão podem, realmente, ser despertados pelo espectáculo e também pela própria estruturação dos acontecimentos, o que é preferível e próprio de um poeta superior. É necessário que o enredo seja estruturado de tal maneira que quem ouvir a sequência dos acontecimentos, mesmo sem os ver, se arrepie de temor e sinta compaixão pelo que aconteceu; isto precisamente sentirá quem ouvir o enredo do Édipo. Mas produzir este efeito através do espectáculo revela menos arte e está dependente da encenação. E os que, através do espectáculo, não produzem temor mas apenas terror, nada têm de comum com a tragédia; não se deve procurar na tragédia toda a espécie de prazer, mas o que lhe é peculiar.
Aristóteles, Poética, 1453b


 
E assim vim ter à terra dos alemães […] É duro dizê-lo, mas digo-o, por ser verdade: não consigo imaginar nenhum outro povo tão dilacerado como os alemães. Vês operários e não pessoas, pensadores e não pessoas, sacerdotes e não pessoas, senhores e servos, jovens e adultos e não pessoas – não é isto como um campo de batalha, onde mãos e braços e todos os membros se vêem mutilados e misturados entre si, enquanto o sangue derramado se esvai na areia ?
HölderlinHyperion
 
Duas obras há que se constituíram como marcos da literatura cinematográfica, canónicas e definitivas na interpretação e compreensão do cinema expressionista alemão: “Von Caligari  Bis Hitler” (“De Caligari a Hitler”)
[1]de Siegfried Kracauer e “O Écran Demoníaco”[2] de Lotte Eisner. O tempo que sobre elas passou (1947 e 1952, respetivamente) mais não fez do que consolidar e reforçar o estatuto das magníficas visões e das extraordinárias constelações de conceitos que forjaram. A obra de Kracauer, mais densa e argumentativa, sustenta-se num terrível paradoxo, cuja conclusão é à primeira vista difícil de aceitar: o cinema produzido durante a República de Weimar que, é bom recordar, foi o primeiro regime democrático a ser implementado em solo alemão, mais não fez do que preparar a comunidade política para Hitler e o Nazismo; a correlação entre a profunda depressão e a derrota das massas (tema caro a Kracauer, como se pode apreender da leitura do número 7 destes “Textos & Imagens” que comenta a obra “The Mass Ornament”) e a produção cinematográfica é soberbamente explicitada pelo autor, numa tese que, por ser polémica, não deixa de ser válida e profundamente coerente. Como se verá, um mundo de diferenças separa esse livro seminal do de Eisner, embora partam de um mesmo ato fundador: o filme “O Gabinete do Dr. Caligari” (Robert Wiene, 1919). Aliás, esse filme é de tal modo fundamental na caracterização do cinema expressionista alemão que viria a dar origem a uma categoria discursiva globalizante e compreensiva: “caligarismus”, um termo que designa não só as qualidades estéticas desse cinema, mas também a sua profunda relação com a arte expressionista, via de análise que Eisner explora predominantemente. Tão importante como esta valorização dos “vasos comunicantes” entre as artes plásticas expressionistas e o teatro (as conceções teatrais de Max Reinhardt), perfila-se neste texto uma profunda relação com correntes estético-filosóficas alemãs, nomeadamente aquelas que resultam das conclusões de Immanuel Kant na obra “Crítica da Faculdade de Julgar” (Segundo Livro, Analítica do Sublime). Identificamos assim dois eixos principais na interpretação que Eisner faz do cinema expressionista alemão: a relação entre o cinema e os outros domínios artísticos e uma espécie de jogo livre com linhas de pensamento estreitamente ligadas ao pensamento alemão.
Antes de nos debruçarmos sobre esses dois aspetos fulcrais do pensamento de Eisner, convirá referir que a tese central da obra configura uma metafísica da arte: num capítulo significativamente intitulado “Tendência dos alemães para o expressionismo”, a autora encontra na terrível carnificina da I Guerra Mundial e nos seus efeitos na sociedade alemã as razões para o regresso das pulsões para o indeterminado e o obscuro cristalizadas na tendência apocalítica do estilo expressionista que teria consumado uma revolta intelectual que culminava um processo de rutura com os cânones artísticos iniciado nos anos 10, expressando terrores ancestrais e angústias atávicas. Constatamos que, para Eisner, não são os fantasmas da modernidade presentes nas vanguardas que assombram o Expressionismo de uma forma geral e a sua vertente cinematográfica em particular; o que se torna presente é a angústia tal como Jacques Lacan a definiu: não existe sem objeto, existe como uma inquietante estranheza (unheimlichkeit) na qual o agrupamento concetual por contrários congrega o horror e o seu contrário reconfortante, a família, onde coalesce o familiar, e o fantástico que convoca o estranho. É aí que Eisner encontra uma das pedras-de-toque fundamentais na sua interpretação do cinema expressionista, ou seja no gosto pelos contrastes violentos em fórmulas talhadas a “golpes de machado”, na nostalgia do claro-escuro
[1]. Gilles Deleuze, que se debruçou sobre o cinema expressionista alemão na obra “A Imagem-Movimento – Cinema 1”[2], acrescenta uma outra dimensão a esta formulação : “O pensamento é antes de tudo arrombamento e violência, o inimigo, e nada pressupõe a filosofia; tudo começa com misosofia”. Com ou sem estes pressupostos, a interpretação de Eisner remete para uma filosofia do horror que, inevitavelmente atinge os seus limites transcendentais; é o próprio pensamento que se desloca para as profundidades sombrias de um sublime horrífico ou para um trauma pré-filosófico. Termos chegado a esta conclusão permite-nos introduzir a relação do pensamento de Eisner com o meio ambiente filosófico alemão e sobretudo com Kant; para o filósofo, o sublime é uma forma de juízo estético que ascende quando a imaginação é forçada e estendida para além dos seus limites; a violência que sobre ela é exercida em face de uma inapreensível imensidão de poder cria um prazer negativo. Não caberia aqui descrever em toda a sua profundidade e consequências o pensamento de Kant sobre o sublime; para os propósitos deste texto bastará referir que o sublime nos confronta com uma relação direta e subjetiva entre imaginação e razão, tornando-se essa relação importante na medida em que, ao contrário do jogo livre entre imaginação e entendimento que tem lugar no juízo do belo, o sublime reúne as faculdades em torno de uma harmonia discordante, ou um encontro traumático com um exterior que não pode ser assimilado. Ou, nas palavras da autora: “As visões fomentadas por um estado de alma vago e perturbado não podiam encontrar um modo de evocação simultaneamente mais adequado, mais concreto e mais irreal” e, ainda, “O artista expressionista, não receptivo, mas verdadeiramente criador, procura, em vez de um efeito momentâneo, a ‘significação eterna’ dos factos e objectos.” Ou seja, não vêem, têm visões.
Finalmente, importa especificar resumidamente aquilo que Eisner entende ser a fulcral influência das conceções teatrais de Max Reinhardt na génese e desenvolvimento do cinema expressionista: no seu Deutsches Theater de Berlim, este encenador tinha vindo a colocar em cena personagens desprovidas de conotações psicológicas individuais, movendo-se em espaços completamente vazios e varridos por efeitos de luz que deveriam estigmatizar, por meio de intensos claros-escuros, o caráter das personagens. Compreende-se assim a importância de Reinhardt não só no desenvolvimento de um novo tipo de teatro, mas também na definição do novo tipo de cinema expressionista. Nas palavras da própria Lotte Eisner: “Temos considerado sempre o famoso claro-escuro dos filmes alemães como um atributo essencial do expressionismo, derivado de um drama expressionista, O Mendigo, encenado em 1917 por Max Reinhardt”. Esta afirmação e as suas consequências culminarão no reconhecimento da dupla herança do cinema expressionista alemão: a alma faústica e o mundo forjado por Reinhardt que, com a ajuda da luz, cria uma escuridão que é o seu fundo envolvente.

Marginalia: “Um amigo parisiense telefonou-me no fim de Novembro de 1974. Disse-me que Lotte Eisner estava muito doente e provavelmente quase a morrer. Respondi: não pode ser. Ainda não. O cinema alemão não a pode ainda dispensar, não a podemos deixar morrer. Peguei num casaco, numa bússola, num saco de marinheiro e nuns quantos itens indispensáveis. As minhas botas eram tão sólidas, tão novas, que me inspiravam confiança. Pus-me a caminho de Paris pelo caminho mais curto, com a certeza de que ela ficaria viva se eu fosse ter com ela a pé. E além disso, tinha vontade de estar sozinho." Esta aventura é narrada por Werner Herzog na obra “Caminhar No Gelo” editada em 2011 pela Tinta-da-China. Esta aventura ensina-nos que o carácter faústico ainda perdura: Lotte não morreu porque Werner Herzog não quis; Nietszche e o “Super-Homem” também rondam por aqui. Os pactos, esses, são de geometria variável.

Arnaldo Mesquita

O Écran Demoníaco / Lotte Eisner ; trad. João Ribeiro Belo. Lisboa, Editorial Aster, D.L. 1960
Tipologia documental: livro
Cota: 71 (430)
 


[1] “O meu coração costuma sentir-se muito bem nesta penumbra. Quando contemplo a natureza insondável, não sei porque é que esse “ídolo velado”me arranca lágrimas sagradas e felizes […] será esta penumbra o nosso elemento? Será a sombra a pátria da nossa alma?” Hölderlin, Hyperion
[2] Editada pela Assírio & Alvim. Disponível para consulta na Biblioteca.
NOTAS
Lotte Eisner e João Bénard da Costa Ciclo Fritz Lang: Período Americano, 30 de maio de 1983 Fotografia: Papel - produções fotográficas



[1] Disponível para consulta na Biblioteca da Cinemateca nas línguas alemã, francesa, italiana e inglesa. Nunca foi traduzido para português.
[2] Igualmente disponível para consulta nas línguas francesa (na qual foi originalmente escrita), alemã, inglesa e portuguesa, numa excelente tradução de João Ribeiro Belo, editada pela Aster.

Publicado na página da Cinemateca - Museu do Cinema na rubrica "Textos e Imagens".



sábado, 23 de fevereiro de 2019

TRASH ART III



                                                                      Sofia

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

CREAKING FLOOR

                                                                 
                                                                 Sofia