segunda-feira, 15 de abril de 2024

NÃO VÁS PARA AÍ


 


No princípio tudo é fascínio e aventura, tudo é um universo para desbravar, um espaço à espera de conquista. Não há dores nem receios, hesita-se pouco. Descemos vagarosamente os degraus de pedra e entramos suavemente na maré. Depois vamos ganhando mais confiança e arriscamos um mergulho. Primeiro nos degraus mais baixos e pouco a pouco subindo até lá acima. Contemplando o horizonte introduzimos a vertigem do salto. Em poucas tentativas já somos amigos do mar e passamos horas a brincar com ele, nadando nas suas águas, mergulhando, percorrendo os caminhos de um mundo diferente do nosso. Às vezes uma voz fraca faz-se ouvir ao longe.

 

          Não vás para aí

 

E nós vamos e continuamos a ir sem ligar nenhuma a avisos longínquos. Ficamos na água até bater o queixo e voltamos para casa ao fim do dia. Nesse tempo não há preocupações nem vertigens, não há medo nem frio.

 

Depois qualquer coisa vai acontecendo com o passar do tempo. O passo desacelera, o corpo aumenta de peso, a paciência muda de capacidade. Continua a vontade de saltar para dentro de água mas de uma forma mais moderada. Uma vez por outra a vontade de nadar mas o frio e as dores começam a pesar no corpo. Já não apetece lá ficar tanto tempo, há muitas coisas para fazer. E uma voz soa lá longe.

    Não vás para aí

E em certos dias não vamos. Preferimos passear ao fim da tarde pelo passeio marginal. Continuamos amigos, continuamos a passar tempo juntos mas desta vez de um forma mais ponderada. Em vez de nadar todos os dias começamos a apreciar o diálogo mais calmo, o passeio, a contemplação do outro mundo ao lado do nosso.

 

   Não vás para aí

 

E num instante os anos passam e a vontade que era toda começa a encolher. As pernas, o fôlego e o passar dos dias encolhem com ela. Estabelecem limites, impõem disposições, ditam a severidade das regras. Voltamos ao mar, voltamos sempre lá para visitar um amigo mas precisamos de uma sombra, de um lugar para nos sentarmos. E ficamos a ver os outros mais novos que caminham pela marginal ou os outros ainda mais novos que mergulham despreocupados. Já não é uma voz a dizer

 

   Não vás para aí

 

É outra coisa que sai cá de dentro, outra coisa que se veste em forma de aviso, autoritária.

 

  Não podes ir para aí

 

De maneira que nos deixamos por ali ficar sentados a sentir a brisa ao fim da tarde, os cheiros do mar e continuamos a nossa conversa com um velho amigo. O Tempo não termina, encolhe como os nossos corpos, vai-se ajeitando como um gato antes de se deitar dando voltas e voltas. Tudo fica mais pequeno até desaparecer. E de repente damos conta que estávamos dentro de um filme, ou de uma máquina que filmava e que aos poucos a lente vai-nos absorvendo até aos limites do enquadramento. Depois somos levados até nos tornarmos parte da maquinaria que produz as imagens e que faz correr toda a acção. E ao longe voltará a fazer-se ouvir uma voz

 

   Não vás para aí

 

A mesma que sempre ouvimos e à qual nunca obedecemos. Nessa altura percebemos. Não era do mar que ela estava a falar.

 

   Não vás para aí

 

E nós vamos na mesma, como sempre fomos, sem lhe dar ouvidos…

 

Artur

 

(Imagem de Luis Pereira)

domingo, 7 de abril de 2024

É DOMINGO

 



Aqui também é domingo e os sinos já tocaram. O frasco de café está quase a acabar e eu conto cada colherada até ao último contacto. Não guardo fotografias nem rancores, fecho as portas destas memórias bem fechadas atrás de mim e construo novos caminhos sobre os mais antigos, aqueles que existiam muito antes de nós. Acordei para ver mais um episódio de Little Bird e com eles fiz a cerimónia de despedida do Niizh. O vento continua a soprar e eu tenho mais pontos para contar no meu primeiro pano de arraiolos. Os animais, um a um vêm saudar-me, as árvores dançam a valsa do vento de oeste e o pinheiro bravo maior mantém-se de pé apesar da ferida que trespassa a casca até ao cerne. Tem mais de duzentos anos e guarda a paisagem até ao florescimento da última pinha.
Aqui estamos, no sétimo dia do quarto mês de dois mil e vinte e quatro, entre guerras e pesares, alegrias e mal estares, nesta janela que requer um paninho com vinagre para limpar a vista salpicada de maresias e poeiras, em vésperas de eclipse solar parcial (só)aqui nos Açores. Entretanto é altura de colher as pétalas de flor de laranjeira espalhadas pelo chão para tisanas de noites tranquilas. É domingo.

Elsa Bettencourt