quarta-feira, 31 de maio de 2017

DIA MUNDIAL DO TRIPULANTE DE CABINE - O GLAMOUR E A POIA

Entre tantas travessias do oceano que separa a Europa das Américas, há sempre algumas que se tornam peculiares porque quando para o homem é uma situação rotineira, as circunstâncias das convergências universais logo o desarmam pela coisa inesperada, que ao sê-lo obrigam-no o repensar que ao cabo de três décadas em velocidade Warp e em materializações e desmaterializações nas margens de cada continente, afinal... ainda não viu tudo.

Farto de jornais e revistas que nada acrescentam, vi a PIL'ali à mão (PIL - Passenger Information List). Não resisti ao apelo do momento e decidi ir em demanda de nomes peculiares. Sucesso. Apontei-os.
Mal sabia eu nesse momento que pouco depois estaria a engendrar a ligação da poia com os nomes apontados para me rir um bocado.

Para já, nomes. Nomes de gente real, saídos da cabeça de irreais baptizantes registados numa única lista qualquer:
Tercília, Careta, Tumbeiro, Cezana, Joanadarc, Santa Ivanir, Deusa Cypriano, Clelder, Zamprogno, Eslania, Zileide, Zeneide, Glaucia, Heimlich, del Puppo, Auzenir, Poli, Mori, Maranganhe, Paccou, Malizia, Mariuza Uliana, são alguns dos nomes de companheiros só desta viagem que pretendo registar para se algum dia quiser baptizar alguma personagem que a imaginação possa parir.

(Parindo)
Depois as situações. 
Podia começar pelo Gustavo que quer ser Gustava porque nasceu no corpo errado. Talvez uma das transformações mais bem conseguidas que eu vi, denunciado pela voz de cana rachada...  mas não. Remeto-me antes para as situações particulares que obrigam por exemplo a desmontar do enorme glamour das viagens aéreas para conseguir ir até ao chão da casa de banho resgatar uma poia tão solitária, redondinha e bem feita, que até faz suspeitar de algum canídeo à solta que confrontado com a própria impossibilidade de chegar com o rabinho à sanita, se rende à força da sua natureza e delicadamente a depõe no chão, mesmo defronte dela. Agora que penso nisso, há uma probabilidade esmagadoramente maior de o canídeo ou canídea ser portador de um dos nomes que mencionei, por exemplo 'del Puppo', ou saído do Paccou, que a possibilidade de eu ganhar o Euromilhões e assim por breves segundos, deixar de existir neste plano enquanto apanho 'poops' do chão de uma casa de banho de uma nave voadora. Nem a Santa Ivanir, e muito menos a Deusa Cypriano me valeram nesta hora de aflição e apneia, na qual não me lembro por ter deixado de existir nesses breves segundos, se terei feito alguma Careta ou se algum Careta me a terá deixado. O que é certo é que foi uma Malizia da parte de quem fez tal trabalho e por isso mereceria um pena idêntica à sofrida pela Joanadarc. Julgo que a Mariuza estará inocente, já que foi feita entre o Brasil e Portugal... suspeitos mesmo será a dupla Poli e Mori, que nos remete para dois operacionais da Mafia calabresa. Ou Maranganhe que deve ser primo afastado do Gungunhana. Tumbeiro, pode ser nome de bobo zombeteiro, sempre à espera de pregar uma peça. Já as Tercília, Eslania, Zileide, Zeneide, Glaucia e Auzenir, deixam-me uma dúvida maior quanto à sua culpabilidade. Tal como a Cezana, que deve ser artista pintora e o que estava no chão, pela forma como estava, era mais da área de escultura, não evidenciando sequer ter sido pintada à pistola. Muito menos o resultado de uma manobra de Heimlich, a algum engasgado que a expelisse pela bocarra.
E para finalizar, Zamprogno as mãos no lume que Clelder está inocente, enquanto me divirto a ver os convidados a entrar na casa de banho descalços, como sempre acontece em todos os voos. Não será contudo, aquele que estendendo os pés para além do seu domínio durante as nove horas de duração da travessia, manteve as bases esticadas mas devidamente calçadas em território alheio.
Viva a poia!
E a poia a quem a deixou.

30 de Maio de 2017

Hélder Martins




sábado, 6 de maio de 2017

ATÉ LOGO TIA



Tanto quanto sei, continuo à espera que venhas do trabalho ao fim da tarde encostado ao parapeito da varanda que é maior que eu, para irmos dar uma voltinha antes do jantar. Se estivermos no Verão sei que poderei contar com um gelado na pastelaria, se estivermos no início do mês até pode acontecer que me compres um carrinho de miniatura na papelaria. Sei que quando chegares, apesar de cansada ou desiludida com o namorado o teu rosto estará sempre desenhado com um sorriso e uma palavra amigável para me dar. Por isso quando a tarde começa a chegar ao fim corro para a varanda e encosto-me ao parapeito que é maior que eu a espreitar para o fim da rua à espera de te ver chegar. E conversaremos sobre tudo e nada como velhos amigos a caminho da pastelaria e depois a caminho do jardim enquanto saboreamos um gelado.
Tanto quanto sei não me lembro de ter conhecido alguém mais generoso do que tu, mesmo quando era malcriado ou proferia frases irresponsáveis que percebia logo a seguir que te deixavam triste. Triste como eu fiquei quando te foste embora começar uma nova vida noutras paragens, triste como quando me lembro de ti depois de partires outra vez. Da primeira vez cheguei a abrir as tuas gavetas e a meter a cabeça lá dentro para cheirar os restos da tua presença. Agora restam-me as lembranças de uma vida, a história de nós os dois que começa lá atrás, muito atrás quando usava calções e andava sempre esfolado nos joelhos. A vida continuou, a vida continua sempre. As pessoas que amamos nunca chegam verdadeiramente a morrer, arranjam um lugar na mesinha da sala no meio das fotografias dos outros que foram antes. É onde tu moras agora. Doce, meiga, tolerante e bonita como sempre foste. Com as barbatanas que te ajudavam a nadar na praia que eu depois herdei, com os melhores natais da minha vida em tua casa em Inglaterra com o meu tio e o meu primo. Com aquela tarde na baixa londrina em que um adolescente desastrado como eu só fez asneiras, só disse disparates perante o teu ar tranquilo e compreensivo. Consegui despejar uma Coca Cola por cima de mim e encher um cachorro quente com mostarda de Dijon que não conhecia até deitar fumo das orelhas, tropeçar numa velha “bifa” no metro que ia caindo ao chão. Ter treze anos é tão estúpido e tão solitário que se não houver ninguém que nos vigie pode-se rapidamente precipitar numa tragédia. Mas não foi assim porque estavas lá tu. Foste mais uma vez a garantia, a tolerância, o conselho amigável que me dizia: “não é grave se falhares…de vez em quando acontece…”; “ parece que é o fim do mundo mas amanhã o mundo continua…e tu também”. Queria dizer-te tanta coisa, agradecer-te, segurar outra vez as tuas mãos nas minhas, abraçar-te quase até ao sufoco. Para que saibas que não me esqueço de ti nem da longa caminhada que fizemos ao longo de uma vida inteira. Para que saibas que te agradeço profundamente a permanente disponibilidade, a delicada mão sempre estendida para uma festa, uma ajuda, a mão que tantas vezes me lavou o rabo. Não me esqueço, nunca o vou fazer. Não me esqueço que terminei o meu primeiro romance em tua casa num Verão acidentado, onde depois de muita maluqueira, muita confusão, muitos “anos 80” decidi apanhar o primeiro autocarro em Victoria Station e bater-te à porta. Lá estavas tu e o tio e o Chris e os dois gatos (o Snowy e o Smokey), lá estavam vocês todos em forma de família e porto de abrigo, albergue exclusivo, lá estavas tu e o teu sorriso. Não me esqueço. Fiquei a dormir no teu quarto para poder “trabalhar melhor”. Ganhei peso com o teu empadão, ganhei cor, voltei à vida. Não me esqueço. Como qualquer miúdo de calções e joelhos esfolados à espera da água oxigenada e do penso rápido encostado a um parapeito de uma varanda maior que eu.
Tanto quanto sei as pessoas têm que morrer, é o problema de se estar vivo. Mas as histórias, os caminhos que as pessoas fazem juntas, os natais, a porta sempre aberta, tudo isso fica vivo de forma permanente. Como aquela mesinha ao canto da sala onde caminhas para a água com as barbatanas debaixo do braço. Um dia sei que acabarei por ir parar lá. E quando isso acontecer vou correr atrás de ti de calções e joelhos esfolados para que passes a água oxigenada e coles o penso rápido. E, quem sabe, pode ser que depois consigamos ir à pastelaria comprar um gelado e passear até ao jardim. Eu sei que tu vais voltar a aparecer por trás da esquina. Muitos beijinhos tia Paula.



Artur

domingo, 26 de março de 2017

SILENCE




SILENCE

Martin Scorsese

EUA, 2016



Para abordarmos este título, inspirado na obra homónima de Shusaku Endo (1923 – 1996) com o título original “Chinmoku”, com resultados minimamente esclarecedores, teremos que atravessar dois territórios incontornáveis. O diálogo cultural entre o Ocidente e o Oriente por um lado, e o diálogo ou a peregrinação interior do homem de fé dentro de si próprio. Publicado em 1966 “Chinmoku” retrata  a odisseia de dois padres jesuítas (Sebastião Rodrigues e Francisco Garupe) que partem para o Japão à procura do seu mentor Cristóvão Ferreira empenhados em desmentir o boato de apostasia de que era acusado. Pelo caminho vão ser confrontados com uma ordem social e política que reprime, proíbe e extermina os cristãos num Japão em processo de unificação e reforço da autoridade central.
Considerado por muitos como um dos mais importantes romances do séc. XX, “Chinmoku” levanta várias questões interessantes quer de carácter colectivo, quer individual. De que forma é que a cristandade se poderia comprometer com uma cultura estrangeira? Pela força? Por aliança? Por acomodação? E se desfizéssemos um fato e o tentássemos transformar num kimono, qual seria o resultado final? Por outro lado que deus é este que acompanha um crente na total adversidade sem nunca se manifestar? Que deus é este que em vez de aliviar o sofrimento aos seus seguidores opta por os acompanhar no martírio?
No ano de 1543 um barco mercante português a caminho da China é desviado do seu curso por uma tempestade que o empurra para a costa de Kyushu. Começa a partir daqui um riquíssimo e extraordinário diálogo de séculos entre duas culturas diametralmente opostas que, com momentos altos e baixos, sempre se conseguiu manter dialogante, criativa e vantajosa para ambas as partes. Seguindo-se ao intercâmbio comercial e cultural veio a religião. S. Francisco Xavier é o primeiro cerca de 1540 a erguer junto com a ordem dos jesuítas, uma estrutura em rápido desenvolvimento. Em trinta anos o território do Japão contava com 200 igrejas, 75 padres e cerca de 300 mil crentes. Apoiados pelos daimyo (barões locais) os cristãos por sua vez fortaleciam o controle político. A partir do final do séc. XVI quando o Shogun Tokugawa Ieyasu inicia o seu esforço determinado em unificar o país vê nos cristãos e na sua comunidade um inimigo aos seus objectivos. Começam as operações de obrigação da nova religião aos caminhos da clandestinidade. A primeira ordem de expulsão dos jesuítas do Japão data de 1587. Em 1603, vinte e seis cristãos são crucificados em Nagasaki. Os agora cristãos clandestinos (Kakure kirishitan) passam a ser perseguidos, torturados e mortos por causa da sua fé. Têm no entanto a possibilidade de se salvar negando a sua religião havendo para o efeito o acto de apostasia que consiste na colocação do pé sobre um ícone cristão (a imagem de Jesus ou da Virgem Maria), fumi-e.
Sebastião e Francisco chegam ao Japão no rescaldo da rebelião de Shimabara (1637 – 1638) onde o Shogunato Tokugawa conseguiu uma importante vitória, eliminando todos os restantes Kirishitan. Em contacto com estas comunidades clandestinas, Sebastião e Francisco vão experienciar todo um desfile de perseguições, crueldade e tortura pontuados pelo Judas permanente, Kichijiro, que não só denuncia os sacerdotes como comete apostasia mais do que uma vez. Arrepende-se e volta a pecar numa sequência interminável.  Em todo o martírio deus permanece silencioso, não se manifestando de nenhuma forma. Sebastião está disponível para oferecer o sacrifício da sua vida pela fé mas em vez disso as autoridades japonesas vão eliminando cada vez mais cristãos locais até que ele negue a sua fé. Tudo vai mudar com o encontro com Cristóvão Ferreira. Confirmado o acto de negação da sua fé o antigo mentor do jovem jesuíta tenta aos poucos confrontá-lo com a inutilidade do sacrifício, com o nulo valor de um acto simbólico, com a ideia de que se Cristo estivesse ali escolheria poupar as vidas daqueles que vão morrendo enquanto Sebastião não negar a sua fé. Sebastião acaba por pisar o ícone e até ao fim dos seus dias torna-se um japonês de religião e de costumes.
No cinema esta é a terceira vez que se faz uma adaptação do livro de Endo. Em 1971 Matsuhiro Chinoda realizou SILENCE e em 1996 João Mário Grilo assina OS OLHOS DA ÁSIA. 
Teizo Matsumura no ano 2000 (opera) e James Mac Millan em 2002 (Sinfonia nº 3 “Silence”) complementaram a componente musical do tema.
Posto isto resta saber o que é que Scorsese acrescenta a tudo aquilo que já foi feito em relação a este momento literário extraordinário. Uma excelente fotografia e uma narrativa cinematográfica composta por requintados quadros. De resto o estereotipo dos japoneses que ora são criaturas medonhas em estado quase selvagem ou tiranos sanguinários indiferentes ao sofrimento dos outros. Enquadramento histórico, zero. O aspecto do diálogo ou choque cultural é pura e simplesmente minimizado, reduzido a meia dúzia de balelas sobre religião. O conflito interno de Sebastião amplamente documentado no livro original em Scorsese limita-se à multiplicação das várias caretas de Andrew Garfield. Se quiser saber o que vai na cabeça de Sebastião, o espectador que adivinhe.  
Por fim o filme é demasiado longo, repetitivo, chato e inconclusivo. O original de Chinoda conta a mesma história em menos meia hora. As cenas dos cristãos massacrados bem como o acto da apostasia repetem-se vezes sem fim até à náusea. Por fim a narrativa abre uma série de portas que não consegue fechar e aponta vários caminhos que depois acaba por não percorrer. Vale a indústria americana carregar aos ombros o sucesso e a originalidade para justificar e fazer crescer a sua margem de lucro. Mas não vale tudo na luta pela ocupação da barraca das farturas.


Artur

terça-feira, 14 de março de 2017

O ANJO DA HISTÓRIA VOLTA A ATACAR




Ocorreu-me que Portugal necessita desesperadamente de uma guerra civil. Ou melhor, não, não precisa de uma guerra civil; precisa, isso sim, de uma revolução como deve ser, à moda antiga, com munições reais em vez de cravos nos canos das G3. No livro "A Balada das Praia dos Cães" de José Cardoso Pires - cuja acção decorre no final dos anos 60 - uma personagem declarava ao Inspector da PJ que "Portugal é um país pasteurizado a merda !". 50 anos passados, depois de termos percorrido todo o círculo, de termos feito a circum-navegação, de termos dado pinotes e cambalhotas, depois de uma Revolução e de milhentos actos falhados, estamos outra vez no mesmo sítio "pasteurizados a merda". Portugal precisava, dizia eu, de uma revolução a sério, daquelas com pelotões de fuzilamento em cada esquina, que nos livrasse para sempre de banqueiros e ex-banqueiros; da rapaziada dos "off-shores"; das bancadas parlamentares do PSD e do CDS ( e das respectivas "jotas"); de alguns parlamentares da chamada "esquerda democrática"; de grande parte dos sindicalistas; de alguns juízes e magistrados que envergonham diariamente a Justiça, emporcalhando-lhe o nome; dos empresários que diariamente, de dedinho em riste e vozinha aflautada nos pregam moral e bons costumes;  de "jornalistas" avençados, desleais e corrompidos; de alguns professores universitários que passeiam a sua ignorância e incompetência por debaixo das surradas e sebentas togas com que assistem aos actos oficiais; enfim de toda uma escumalha de traidores, parasitas e idiotas que enxameiam a nossa vida pública, poluindo-a com a sua bovina estupidez. Podemos sonhar que a nossa Place de Grève é o Rossio, com os rios de sangue derramados pela gentalha a escorrerem alacramente pela Baixa Pombalina e indo desaguar no Terreiro do Paço, onde formariam um lago pantanoso logo aproveitado pelos turistas que, descalçando as xanatas, os sapatos de ténis e os borzeguins variados logo se poriam a chapinhar alegremente no sangradouro, borrifando-se uns aos outros com os escarlates e odoríferos pingos derramados pelos modernos miguéis de vasconcelos. Depois de cumprido este doloroso dever, poderíamos então renascer "inteiros e limpos", numa nova madrugada, prontos a recomeçar. Portugal seria então o espanto, a admiração e a inveja do Mundo e passaria por cima do V Império de Vieira para o VI Império, passando a chamar-se República Messiânica de Portugal: seria neste torrão abençoado que o Jesus Cristo Redentor voltaria para nos absolver dos pecados e cumprir a Promessa que a sua natureza simultaneamente humana e divina implica.
Ou esta nova Revolução acontece, ou só nos resta esperar por uma tempestade de merda que nos arraste a todos  para o rio Tejo, em direcção ao mar aberto.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

NAZARÉ - Canhões, Bombas e Foliões






Em pleno Carnaval, ocorre-me falar do canhão.

Não, não é uma qualquer passista sambista extremamente encalorada, que em vez de se despojar da sua roupita pelas terras onde o Verão aperta nesta altura e o samba é natural, escolhe dançar quase como veio à luz, por terras lusas onde a temperatura do ar, nem assim lhe aplaca o afogueamento.
O canhão a que me refiro, é exactamente o da Nazaré.
Ora com a divulgação global dos seus enormes disparos por Garret MacNamara, o Canhão da Nazaré, conseguiu uma projecção que nenhum secretário de estado do turismo, alguma vez almejou na recente história portuguesa.
Pois bem, chegou aos ouvidos de todas as bombas perdidas e desprezadas que flutuam por esses oceanos fora, que este sim! Este é um canhão digno de qualquer bomba, nem que tenha mais de setenta anos! E até a Carmen Dell'Orefice, que nos seus fantásticos 83 anos de idade, continua a arrebentar corações, perguntou qual era o orifício de entrada para aceder a este canhão.
Entretanto, a turba circundante da Nazaré ao ouvir falar em bombas apanhadas junto à costa fora da época estival, depressa se acercou o mais possível da propalada bomba, que ainda por cima não tinha uma peça de roupa que fosse a cobrir o seu aerodinâmico corpinho.
Julgo, é que não sabiam que podia mandá-los a todos até ás nuvens, mesmo sem lhe tocarem com um dedo que fosse.

Hélder

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

RUI EDUARDO SANTANA BRITO





RUI 1944-2017


"Eu experimentei uma singular impressão, durante os momentos em estive ao seu lado. Não foi um sentimento de piedade que me sobreveio, ao assistir à morte dum homem que me era caro, porque ele, Equécrates, parecia-me uma pessoa feliz na sua maneira de proceder e nas suas palavras (...) Por isso não se apoderou de mim nenhum sentimento de compaixão, como pareceria natural, ao assistir a um espectáculo doloroso, nem tão-pouco de prazer, como sucedia nas nossas conversações filosóficas habituais (...) Foi um sentimento estranho, uma mistura singular de prazer e de dor o que nessa ocasião senti em mim, considerando que ele, em breve, partiria desta vida".  Platão "Fédon"


Partiria ? Não tenho sobre isso qualquer certeza, nem quero ter. Sei que nunca partirá da minha vida e da vida de muitos outros que o conheceram e amaram. A generosidade com que dispôs da sua vida e a partilhou com os outros; a ironia com que olhava para a vida - umas vezes de fino recorte, outras de pesado sarcasmo - sua e alheia; a capacidade única de reconhecer instantaneamente o ridículo e o fátuo e de zurzir o pomposo, de se distanciar das pequenas ou grandes ambições, de procurar e reconhecer o Belo, de procurar e reconhecer o Bem. E procurava-os e reconhecia-os naqueles de quem gostava e também nos livros, filmes e discos que amou com paixão; e ainda nas cidades e nos lugares de que se apropriava e tornava seus como se os habitasse permanentemente.
Foi um construtor, um disseminador de conhecimentos e paixões, alguém que via nos outros o melhor que eles tinham para dar e os estimulava a dá-lo, que se entregava com a confiança própria das naturezas sensíveis e sublimes, fazendo dos outros pessoas melhores do que tinham sido, justamente porque acreditava nelas e nelas investia tudo: a amizade, o amor, a cumplicidade, a esperança.
Partiste ? Haveremos de voltar a ver-nos.

MFA





Como se sabe, o MFA, Movimento das Forças Armadas, fez o 25 de Abril de 74, foi parte integrante do período pós-revolucionário, e um elemento fundamental durante o PREC (processo revolucionário em curso).
Lembrei-me dele no passado dia 21 de Janeiro, porque estando em Boston, testemunhei uma de muitas manifestações populares em território americano. Uma imensa manifestação chamada Marcha das Mulheres, que além das mulheres tinha em igual percentagem, homens e crianças, a um nível como há décadas não acontecia por aquelas paragens.
Desde manhã cedo, dirigiram-se ao parque central da cidade, Boston Common, ostentando na grande maioria e transversalmente a sexo ou idade, barretes rosa convictamente enfiados cabeça abaixo.
A manifestação fez-se. A Marcha das Mulheres também. Com homens e crianças. E mulheres. A uma delas ainda ouvi dizer que não tinha queimado o soutien "para isto". Com o "isto", referia-se à tomada de posse de Trump no dia anterior. Não sei se o terá comprado só para o queimar, como forma de mostrar uma posição, o que é estúpido, se para se libertar de algo que a aprisionava, o que já é compreensível.

E lembrei-me do MFA, porque com a cidade em pleno estado de levantamento, acabei por dar por mim no MFA de Boston, que nada tendo a ver com forças armadas, tem contudo a ver com revolução de concepções e mentalidades, e os testemunhos que essas mudanças foram deixando pela História e na humanidade.
O Museum of Fine Arts de Boston, congrega no espaço de um grande edifício, os elementos culturais que testemunham a evolução de diversas civilizações que apareceram, algumas desapareceram e outras ainda, subsistem na casa de todos nós, este planeta que habitamos.

É na variedade cultural que se pode ver a verdadeira riqueza humana. A História palpitante nos objectos expostos das mais variadas áreas, remetem para lições que se não forem aprendidas ou deixadas esquecidas, tenderão a repetir-se.

E aqui voltamos à manifestação que decorria a um par de quilómetros de distância dali, não podendo eu deixar de fazer a analogia entre a década anterior à Segunda Guerra Mundial e a actualidade, pensando como terá sido possível que nos anos trinta do século passado, tivesse havido um ser que com o seu carisma conseguiu unir toda uma nação em torno de um projecto holocáustico, depois de com os seus discursos populisticamente inflamados, trazer à flor da pele de um povo tudo o que de mais negativo poderia espremer.
O resultado nefasto, saldou-se em milhões de inocentes mortos e cicatrizes que perduram até aos nossos dias e continuam a fazer vítimas.

O que possa estar a acontecer neste momento nos Estados Unidos, é algo verdadeiramente assustador.

Um fanfarrão alarve com a delicadeza de um marialva exibicionista emborrachado,  tem a chave do Portão do Inferno.

Hélder


quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

ZERO ABSOLUTO

Estamos próximos do 
ZERO ABSOLUTO!
Estranhamente no mês de Janeiro em Portugal, as temperaturas aproximam-se do zero, o que não deixa de ser esquisito porque há dois dias tive a oportunidade de comprovar que no Recife, estado do Pernambuco, Brasil, estavam uns insuportáveis 30°C, e lá também é Janeiro deste ano.

 E o
ZERO ABSOLUTO
Também pode ser configurado por pagar:
- livros escolares todos os anos, quando nos outros países da Europa são gratuitos e providenciados pelo Estado;
- portagens numa viagem de autoestrada, no valor do que os alemães ou os suíços pagam por ano em percursos ilimitados;
- os custos da electricidade que não permitem que muitas famílias se aqueçam;
- uma justiça ineficaz, fragilizada pela mediocridade que a tomou;
- uma informação noticiosa que é manipulada por quem nela manda;
- um serviço nacional de saúde incoerente e ineficaz, que não respeita os utentes;
- bancos privados, com dinheiros públicos;
E já agora, lá por fora, ocorre-me um arauto do Armagedeon que está prestes a ter as chaves do portão do inferno.
Isto sim, é frio.
Muito frio.
E no entanto, andamos há tantos anos a patinar.

Hélder 

sábado, 14 de janeiro de 2017




Em silêncio como naqueles instantes que antecedem a alvorada. Em silêncio sem ouvir o que o padre diz antes dos diligentes funcionários da funerária começarem os preparativos em torno da urna e a carregarem para dentro da carrinha. Saímos discretamente cá para fora, tiramos o maço dos cigarros, e em silencio damos lume uns aos outros. Levanta-se a cabeça a cheirar a chuva, adivinham-se as artroses e as mazelas em geral, os filmes e as cenas de cada um sem ser necessário falar. Há uma vida inteira para trás onde se leu e aprendeu essa extensa biografia que somos nós. Antes de entrar no cemitério mais um cigarro, revista em redor, contabilidade de figuras e figurões presentes, cumprimentos atrasados aos familiares que ainda não tínhamos visto e caminhada fora até à campa. Passos rendilhados sobre a gravilha, tosses isoladas, pássaros ao longe a voar entre ciprestes. Mais umas breves palavras do padre que ninguém ouve, caixão à cova, flores e pedaços de terra simbólicos que o seguem em silêncio. Alguém abre a boca e entoa o grito de guerra. Paralisados de solenidade cumprimos o ritual em berrata organizada totalmente alheia ao resto das pessoas. Os pássaros calam-se e voam assustados para outras paragens. Segue-se um silêncio solene, vibrante, absoluto. Últimos olhares sobre a campa que é agora coberta pelos coveiros. Ultima despedida calada  e retomamos o passo rendilhado até ao lado de fora, até ao portão tentando adivinhar quem será o próximo, avaliando as trombas e os corpos um dos outros. Mais um cigarro antes da partida final, cumprimentos e abraços que tudo resumem sem ter que recorrer às palavras. Anos de vida desde miúdos a jogar uns com os outros no recreio, no campo de futebol, no balneário, nos jantares de confraternização, nas depressões, na morte. Um todo indivisível feito de respeito e solidariedade onde cada um é o ser único que sempre foi. Conhecemos tão bem a vida como conhecemos a morte. Sem delírios, sem surpresas…sem medo. Porque nos aprendemos a organizar e a proteger uns aos outros como a matilha muito novos. Fizeram de nós guerreiros ensinando-nos a lutar. E nós lutámos. Iniciaram-nos na ordem antiga onde ninguém morre, apenas muda de habitação no cosmos. E nós ocupamos as cadeiras que nos foram destinadas e respeitámos os que partiram e ensinámos os mais novos.  Porque lutar não é sempre vencer mas não lutar é  perder sempre. E nós não desistimos…de lutar e de nos proteger. Andamos mais devagar, dizemos as mesmas coisas várias vezes, perdemos mais tempo a aturar os médicos e a tomar comprimidos, estamos cada vez mais surdos para ouvir o mundo e o que nele se passa. Sem dúvida. Mas isso não quer dizer que deixámos de pensar, de acordar todos os dias, de esquecer quem somos, quem seremos depois da morte. Por isso não são precisas frases a circular entre nós. Chega uma expressão de cara, um olhar, um gesto seco. Os outros vêm depois, os outros continuarão a obra. Não há fracassos nem desilusões nem vitórias absolutas. Apenas tempos diferentes que exigem comportamentos diferentes. Ninguém caminhará sozinho, ninguém morrerá sozinho.   A solidão nunca se apresentará como filha única porque sobre ela estaremos sempre NÓS.


Artur

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

O JORNALISMO, O DESCRÉDITO, O MEXILHÃO E O SONHO

No 4º Congresso dos Jornalistas Portugueses, manifestou-se a preocupação com a descredibilização da actividade.
Têm razão. É um assunto assaz relevante.

Depois de uma semana e mais alguns dias, primeiro a ser avisado para a violência das imagens da agressão a um jovem, a seguir, gratuitamente e sem o ser.
Há anos a encaixar a forma como são dadas as notícias sobre bancos privados e injecções de dinheiros públicos para os salvar, agora até a CGD, mais um comissionista chamado Sérgio Monteiro que não se vislumbra bem nem como nem porquê, continua com a missão destruidora que lhe foi confiada no anterior desgoverno, sem nada de relevante que não seja o fracasso na solução do Novo Banco. Herança pesada deixada por um quase ilibado 'tonelágico' Salgado, a quem vão pedir contas à Avenida da Liberdade, quando com uma pesquisa simples, se encontra a casa dele em Cascais.
A omissão acerca dos condenados e foragidos à justiça, como Armando Vara, a dever 5 anos de prisão efectiva aos calabouços, Dias Loureiro e Hélder Bataglia, a monte... continuem vocês com outros nomes e outras situações, de certeza lembrar-se-ão respectivamente de outros e outras...
Querem fazer crer que a Coragem e determinação de um punhado de Homens num dia de Abril de há umas décadas, mudaram um país e a dignidade de um povo, quando continuo a ver que os princípios de Democracia e Igualdade, que os inspiraram, tornaram-se apenas em nobres palavras arrastadas pela lama da pouca vergonha e do descaramento.
Um país onde o analfabetismo deu lugar à iliteracia. Juntam-se as letras, lêem-se as palavras mas não se compreende o que está escrito. Muito menos se conhecem os grandes escritores, poetas e artistas, da História portuguesa e universal, recente ou mais longínqua. Pessoa é mais estimado e conhecido no Brasil, por uma elite que consegue ter acesso ao ensino superior, que no país onde nasceu.
Em Portugal é a mediocridade que se instala e se consolida, graças à ineficácia de uma justiça bacoca, cujas leis são feitas pelos medíocres  a beneficiar os medíocres.
Houve até um deles, que sem qualquer respeito pela Vida, alarvemente culpou a "peste grisalha" pelo estado a que chegou o país do qual se vai servindo e do qual vai sorvendo. Um 'grisalho' indignado, tornou pública a sua indignação pela enorme falta de respeito e esta justiça, a justiça de um 'estado de direito', dizem, condenou-o a reparar tamanha desfaçatez indemnizando o monstro com €3.000,00.
É este o país de Abril? O país da democracia e igualdade?
Não será antes o país cuja casa do povo, a Assembleia da República, foi tomada pelos grandes escritórios de advogados, independentemente do partido mais votado, servindo quem lhes paga, os verdadeiros donos do dinheiro, que afinal sempre o foram desde há séculos?
Quando há pouco mais de um ano contactei todos os meios de comunicação social que me lembrei para denunciar o atraso numa operação bancária que demorou mais de duas semanas, e por lei não podia ter levado mais de três dias, sem obter qualquer resposta, dúvidas tivesse eu sobre opções editoriais, teriam essas ficado desvanecidas. Já não as tinha, e as certezas confirmaram-se.
Um indivíduo, sozinho contra um banco, ou contra uma grande empresa, não tem hipótese nenhuma de sucesso.
O que me leva ao mais profundo descrédito sobre justiça, igualdade e até democracia, que afinal se revelam proporcionais ao recheio da própria carteira e da posição e colocação de 'amigos'.

E todo este texto porquê?
Porque ontem o senhor carteiro deixou-me uma carta das Finanças, cujo interior me trazia uma multa de €25,00, porque me atrasei 5 dias a pagar o IUC no valor de €52,00 de um carro com 7 anos, há quase 2 anos.
Pior foi o caso de uma pessoa conhecida que na noite do último dia do prazo se lembrou que tinha de pagar os €5,00 dessa taxa, foi no dia seguinte ao balcão das Finanças e disseram-lhe que não podia pagar ali, tinha de ser no Multibanco, e ainda tinha de aguardar pela multa.

Tudo isto nada mais é que um alerta, para que todos os que tiveram a pachorra de ler isto até ao fim, não se esqueçam de pagar o IUC dentro do prazo.
Este democrático estado de direito, precisa de todos os nossos cêntimos para resgatar bancos, por exemplo, ou perdoar dívidas fiscais a grandes empresas. A GALP, por exemplo.

Resgatai-vos a vós mesmos e esquecei a proporcionalidade do castigo.
O mexilhão não pensa nisso.
Só leva com o peso da onda.
Repetidamente.
Mas há mexilhões que sonham.

Hélder

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

ESTADO LÍQUIDO








Estado líquido.

Os pavilhões do Parque D. Carlos I nas Caldas da Rainha, construídos inicialmente para albergar quem ia em busca de alívio para as suas maleitas, recorrendo ás águas sulfurosas do Hospital Termal, localmente referido como 'dos banhos', depois quartel onde o meu avô materno assentou praça, mais tarde escola secundária onde estudei durante um ano lectivo, estão num total estado de abandono e degradação.
É pena.
Um dia destes, se nada for feito entretanto, passarão do estado sólido ao estado de saudade.
E isso é líquido.

Hélder

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

ESCOLHAS ERRADAS/ RAZÕES CERTAS




Estupefacção, surpresa, admiração, espanto, desorientação em geral. Este tem sido um ano de mudanças vertiginosas, umas atrás das outras, um ano em que nada acontece como era suposto acontecer. Primeiro o Brexit e a saída do Reino Unido da União Europeia e agora a eleição de Donald Trump para Presidente dos Estados Unidos. Digamos que, de um modo geral, foram feitas as escolhas erradas pelas razões certas. Não que estas referidas mudanças venham a mudar grande coisa no panorama habitual da vida de cada um. O que é novidade é que, a pouco e pouco as populações vão dando corpo a uma enorme frustração e, ao mesmo tempo, a transmitir uma crescente repulsa pelo modo como as coisas funcionam, um aviso sério a um sistema político e económico que está esgotado e que vai perdendo de dia para dia a sua credibilidade. Pessoalmente não acredito que Donald Trump venha mudar seja o que for. Será obrigado a ler e a seguir a pauta que lhe será apresentada como todos os outros antes dele. Se se desviar será afastado…de uma maneira ou de outra. O que não anula a intenção de milhões de pessoas de ter votado muito mais contra um estado de coisas do que propriamente na mensagem e nas ideias de um candidato.
De forma consciente ou não, a maioria das pessoas orientou as suas escolhas tendo em conta as consequências de uma forma de fazer política que dura há décadas e que veio gradualmente a asfixiar as suas vidas, a matar as suas esperanças, a enterrar os seus sonhos. Um mundo onde a política se submeteu à economia que por sua vez sucumbiu aos ditames do poder financeiro, sem rosto, silencioso mas tremendamente actuante e eficaz. Uma política de permanente invenção de um inimigo novo a cada dez anos, de grupos terroristas que  nascem do dia para a noite, de atentados que eliminam homens comuns a caminho do trabalho, a assistir a um espectáculo ou que simplesmente se sentam numa esplanada a beber um café. Atentados que nunca deixam de acontecer e cuja única reacção é reduzir os direitos de liberdade e circulação em nome do reforço da segurança. Uma obsessão cantada a toda a hora de crescimento económico onde as grandes corporações são os únicos beneficiados. Um mundo onde a evolução da tecnologia em vez de aliviar a pressão do trabalho apenas amplia o desequilíbrio da sociedade e a escravatura ao crédito por mais que se venda a ideia de liberdade individual através de todo o tipo de maquinetas.
Basicamente, vendendo até ao enjoo o conceito do mercado livre, do egocentrismo tecnológico, dos direitos das minorias, do “politicamente correcto”, aquilo que realmente se promove é a transferência de riqueza do indivíduo para as grandes corporações, a dependência económica dos bancos para conseguir seja o que for para viver, a desagregação de todas as dimensões comunitárias de solidariedade e coexistência pacífica, o enfraquecimento da identidade colectiva. Numa palavra, a cobro de uma sociedade mais justa e mais livre aquilo que temos é um asilo de alienados, uma multidão de miseráveis que se vão odiando mutuamente num espaço cada vez mais controlado e cada vez menos livre. A liberdade de expressão, a capacidade de discordar, a liberdade de pensamento, tudo isso é diariamente combatido, diminuído, posto a ridículo a um ponto em que qualquer ser livre comece a sentir vergonha e medo de o ser. Estas são as linhas gerais da actuação de um sistema que nos tem governado nas ultimas décadas. De forma consciente ou inconsciente as populações aproveitam o seu ultimo espaço de liberdade (o voto) e começam a passar uma mensagem importante. Já nem toda a gente está disposta a continuar assim, a colaborar com todos os ditames, a acreditar em toda a propaganda, a ser escravizada pacificamente. Donald Trump não será a resposta nem o agente que virá liderar a mudança. Será mais um clone de um política impiedosa, gananciosa, sem rosto, exterminadora da raça humana. No entanto o que importa é este sinal em que as pessoas ignoraram a propaganda e votaram contra. Terão sido as escolhas erradas embora pelas razões certas. E essas têm que ver com a Humanidade e a sua vontade de viver livre e em paz. De não odiar só porque lhe dizem para o fazer. De aceitar o outro e a diferença como uma parte do seu enriquecimento em vez de medo pela sua extinção. Será um começo indefinido e tímido mas é seguramente o arranque para qualquer coisa, um movimento numa nova direcção. O que sabemos é que este sistema começa a ter os dias contados, esgotou os seus recursos e aproxima-se do fim. O que virá depois é uma incógnita. O que é importante é as lições que retiraremos com a mudança.
Aguardemos…


Artur 

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

UM ANO SILENCIOSO






Tem sido um ano parado aqui por estas bandas. De facto 2016 é um sério candidato ao ano em que menos se produziu desde que este blog existe. Não posso falar pelos outros membros, apenas por mim. E por mim direi que, sem querer explanar nenhum tipo de justificação, no essencial tenho passado o tempo a observar e a tentar compreender aquilo que se vai passando à minha volta. Em primeiro lugar direi que quando não tenho nada que entenda relevante a partilhar me remeto ao silêncio. Estou a ficar velho com todas as vicissitudes que este processo implica, nomeadamente de adaptação e recriação da postura existencial. Faço parte de uma geração que viveu a juventude numa correria do presente sem se preocupar se estaria viva com quarenta ou cinquenta anos. Muitos estavam certos e gastaram as energias em tempo útil. Os outros, os que atingiram esses marcos etários viram-se de repente em terras desconhecidas, rodeados de novos desafios e novas tarefas para as quais não se prepararam minimamente. Por isso tiveram que (se) reinventar. Substituindo a pressa e a sofreguidão pela sabedoria e assertividade vi o pior da minha geração destacar-se no palco da política, dando azo às mais mesquinhas e torpes qualidades do ser humano. “Sinais dos tempos” dirão alguns. Sem dúvida. Devíamos ter feito mais, devíamos ter feito melhor para mudar o estado das coisas, devíamos não ter colaborado tanto com uma série de coisas que sempre entendemos erradas, anacrónicas do ponto de vista humano. Pois devíamos. Quem disse “não”, quem não colaborou, desapareceu. Não vou discutir quem é que estava certo. Restou a música enquanto espaço de criação e solidariedade, um espírito ainda hoje presente. Foi pouco? Não sei.
Por outro lado o mundo avançou a uma velocidade tremenda reinventando praticamente quase todo o nosso quotidiano. A informação circula a uma velocidade vertiginosa a par com a oferta cultural. O eixo de profundidade do consumo de uma obra deslocou-se para um alargamento abrangente do horizonte do conhecimento. As imagens da net sobrepuseram-se à leitura demorada de um romance no que às massas diz respeito. Dantes ouvíamos um disco vezes e vezes sem conta até saber quase de cor todas as músicas nele contidas. Hoje ouvem-se dez minutos, duas faixas de um trabalho e passa-se ao acontecimento seguinte. O conceito de cinefilia teve que voltar a ser escrito a partir do momento em que praticamente todos os filmes se encontram à distância de um clique no youtube.  Os blogs foram perdendo leitores e eficácia à medida que que se instalava o Facebook. O lugar para a reflexão em geral foi-se encolhendo.
As linguagens sucedem-se a uma velocidade vertiginosa. As cassetes de fita magnética deram lugar aos suportes digitalizados, depois tudo se encontra na net, deixando de lado o instinto de acumular exemplares em casa.
E é nesta vertigem do tempo que nos interrogamos, perdidos em pressupostos que de absolutos passam a relíquias, para que serve escrever, fazer filmes, escrever canções…tentar dominar uma linguagem que depois desaparece.
Não sei. E foi precisamente por ter mais dúvidas que certezas ao longo de toda a minha vida que decidi escrever, desenhar histórias, partilhar entretenimento. Não desisto de o fazer porque não sei fazer mais nada. Refugio-me na convicção que enquanto houver quem escreva histórias, haverá quem as queira ler, ouvir, ver na fala das imagens. Talvez a um ritmo mais lento, menos prioritário, enquanto tento descobrir outros aspectos da vida. Mas continuarei. Aqui por este blog as histórias vão continuar, as crónicas e as imagens também. Porque sim.
Obrigado a todos aqueles que nos visitam e continuam a visitar. Obrigado a todos aqueles que deixam aqui a sua opinião, a sua mensagem. Quando era novo não percebia nada desta vida. Hoje, a caminho de velho, continuo a não perceber. Por isso escrevo e continuarei a escrever o que me vai na alma, a inventar histórias, a desfiar memórias. Para quê? Para não me esquecer que ainda estou vivo.
Um abraço das Partes do Todo.

Artur