sábado, 10 de setembro de 2016

CARTAS DA GUERRA


CARTAS DA GUERRA

Ivo Ferreira

Portugal, 2016


Contrariando um pouco o título, CARTAS DA GUERRA é um filme de amor e transformação interna referenciado através da correspondência de um jovem médico para a sua mulher. Colocado no Leste de Angola durante dois anos (71 - 73) António vai enfrentar todo um cenário que, não lhe pertencendo o acaba por fazer pertencer à força da passagem dos dias. Ultimo reduto de compaixão e racionalidade é naquele apertado espaço das cartas que António tenta manter a sua sanidade mental, alimentar a sua capacidade de resistir e acesa a esperança de que tudo aquilo irá acabar um dia. E de facto, acabando nunca acabou nem nele nem em milhares de jovens que conservaram a sua passagem pela guerra por um vida inteira enquanto segunda pele. Do autor podemos saborear "Os Cus de Judas" em que todo o enquadramento é nesse período, embora uma parte substancial de toda a primeira parte da sua obra seja marcada de forma directa ou indirecta pelo mesmo tema.
Consciente de todo este processo de transformação que vai tomando conta dele, o jovem médico percebe que não sairá dali como entrou. E por isso faz da mulher a guardiã do António que era e que não volta a ser...que não se pode repetir no fim de tudo.
Pessoalmente entendo que este tipo de documento de uma vida (as cartas trocadas com a mulher)  não deveria ser publicado antes da morte do autor. Por várias razões a começar pelo facto de serem demasiado íntimas e acabando na circunstância de pouco ou nada acrescentarem ao interesse colectivo. São momentos demasiado exclusivos ou demasiado intensos que tenham algum interesse em partilhar essa intensidade com outros. No entanto não deixam de ser a oportunidade para fazer um excelente filme onde revisitamos uma realidade histórica que devorou uma geração inteira, geração essa que está agora a chegar ao fim das suas vidas.
Com uma fotografia extremamente bem trabalhada ficamos perfeitamente esclarecidos com o deslumbramento de António pelas paisagens e pela exuberância da vegetação do continente africano. Acompanhamos a riqueza única da avaliação do elemento humano em condições extremas, seja dos portugueses seja dos naturais da terra. O melhor e o pior da espécie humana derramado e distribuído por todos em porções muito semelhantes sem espaço para julgar ou estabelecer prioridades. A consciência política que acaba impreterivelmente por vir ao de cima ao avaliar a glória de um império cansado e velho que insiste em não terminar, teimoso agarrado a qualquer coisa que o prenda no momento em que sopram os ventos da História.
Tudo visto e ponderado estamos perante uma história de amor num cenário de guerra, dentro da mutação de um homem que aprende à força as páginas negras da brutalidade humana, do escritor que nunca mais se esqueceu daquele tempo, do português que carrega consigo a herança, a responsabilidade e a memória de uma época. Um protagonista do seu tempo que manteve à tona da água a esperança na forma de um amor à prova de tudo, um homem que ainda hoje se sente parte daquele filme.

Artur

sábado, 27 de agosto de 2016

NÃO VÁS JÁ




Somos feitos de uma fragilidade tão intensa e tão permanente que até irrita pensar nisso. E por isso não pensamos. Ficamos de lado a representar o nosso papel, a fingir forças que nunca tivemos a convencermo-nos da alegria e da felicidade que nos disfarçam as lágrimas que vão caindo no escuro. A fragilidade estende-se como uma estrada paralela à existência, um abismo terrível e tão profundo que temos poucas hipóteses uma vez caídos lá para baixo. Vamos equilibrando sobre um muro estreito para que isso não aconteça, viramos as costas ao mar e assim ele não existe. Mas está lá…está sempre lá. Por isso, e não tão poucas vezes como isso, de vez em quando há alguém que escolhe cair, tombar para as terras do “não aguento mais” e do “quero que tudo isto se foda, vou mas é mudar de ares que por aqui já tudo deu o que tinha a dar”. E partimos… antes do tempo, antes da vez, mais cedo para não chegar atrasado, mas vamos de uma vez por todas. Nós, os outros, os que cá ficam, arrepiam-se, choram alguém que se matou, cumprem os rituais, borram-se de medo. Porque todos temos o mesmo abismo todos os dias, o mesmo abismo que caminha paralelo a nós. E não sabemos quem será o próximo. Um pé mal colocado, um dia carregado de “nãos”, um problema sem solução, uma conversa que não chega a acontecer, uma tristeza da qual não regressamos e é tudo. Pode ser qualquer um. De cima de uma ponte, de dentro de uma caixa de comprimidos, depois de uma bala com o nosso nome, do alto de um prédio. E não há “porquês”, nem estudos eruditos, nem especulações decorativas, nem tiradas filosóficas nem lágrimas que cheguem. Há apenas uma enorme evidência que é o vazio de um espaço. Há apenas um ser que deixou de estar, que deixámos de ver, com quem não voltaremos a rir. Um ser que se quis ir embora e partiu. Um pavio que não ardeu mais antes de explodir.
É nestas ocasiões que revejo familiares e amigos, é nestas alturas que corro desesperado a abrir a caixa do amor deles por mim e de mim por eles. Para me certificar que não caio, que não vou já, que não me apetece sair mais cedo por vontade minha, para olhar para trás e avaliar o comprimento do meu pavio. Para me certificar que ainda estão cá todos e eu com eles.
Quando olho para trás reparo que já não foram tão poucos como isso. Pessoas como eu, os mesmos sorrisos, as mesmas lágrimas, o mesmo medo.  Porque afinal de contas um suicida é apenas um viajante apressado, alguém que resolve saltar algumas estações antes da estação final. Para trás deixa alguma tristeza naqueles que o amaram e discursos que louvam a sua coragem ou a sua cobardia consoante os casos. Em comum todos querem apenas afastar-se o mais possível do seu precipício pessoal, da sua vertigem particular.
Não te julgo nem te louvo, espero apenas que tenhas encontrado a paz lá nesse lugar para onde foste. E que o peso de existir se tenha tornado mais leve nos teus ombros. Ri-me várias vezes contigo, gostava de ti e é tudo. Adeus Carmo. Um destes dias a gente volta a ver-se.


Artur

domingo, 17 de julho de 2016

CREDO DE SORTE

Ontem, durante as mais de dez horas a caminho daqui, tive tempo de sobra para pensar sobre o que se passou em Nice. 
E ao ler vários jornais, não fui deixando de me lembrar do que se passou na Noruega há uns anos, onde dezenas de jovens e professores foram chacinados numa ilha por um assassino. Não fui deixando de me lembrar dos assassínios recorrentes nas escolas da América do Norte. Não fui deixando de me lembrar dos ataques aos ônibus no Rio de Janeiro. E de outras coisas, onde a conjugação da questão do Tempo e do Lugar definem se se vive, ou se morre.
Exemplos do sucesso de psicopatas são demasiado frequentes. E nesta frequência de acontecimentos absurdos e bizarros, quando acontecem cometidos por ocidentais, o credo religioso não é chamado à baila.

Em Nice foi um terrorista muçulmano, dizem.
A começar por o tipo ser tão muçulmano, que segundo as notícias daquilo que diziam os vizinhos, fumava muito e apanhava constantes bebedeiras. Podia estar frustrado por não ver o amor dele por Allah correspondido, sei lá!... Mas que se Alá veda o consumo de álcool aos seus fiéis, o tipo sendo muçulmano, era poucochinho.
O que é certo é que de terrorista, tem tanto como o norueguês, ou os americanos que entram a matar nas escolas ou discotecas. E sim, é muito, mas não da forma como os que mandam nas notícias querem fazer crer.
Em três jornais, haviam fotos dele. Ao lado umas das outras, o indivíduo retratado não tinha nada em comum. Podiam perfeitamente ser três bem distintos.
Seria a face do mal, já que o mal não tem face?
Os absurdos, como este ou o norueguês, ou os americanos, ou outro estafermo qualquer nem nome deviam ter. 
Atribuia-se um pseudónimo, uma alcunha, o que fosse, porque barbaridades destas, não deviam ter o nome de quem as comete, registado para a posteridade.
E uma vez mais, voltamos à questão da fragilidade da Vida e da imprevisibilidade do que nos espera, que está tão dependente da Sorte.

Saúde e Sorte.

Hélder 

terça-feira, 5 de julho de 2016

ABBAS KIAROSTAMI

                                                                   1940  -  2016

quarta-feira, 29 de junho de 2016

PÉROLAS DE SCOLA 5

CHE STRANO CHIAMARSE FEDERICO /

QUE ESTRANHO CHAMAR-SE FEDERICO

Ettore Scola

Itália, 2013



Para falarmos sobre um filme que é essencialmente um manifesto de ternura poderíamos começar com uma imagem de ternura. Uma imagem onde um miúdo de nove anos de idade descreve em voz alta a interpretação de uns desenhos satíricos da autoria de Federico Fellini a um avô cego. Dez anos depois de GENTE DI ROMA, contrariando todas as possibilidades, Scola decide homenagear o seu amigo Fellini vinte anos depois da sua morte. Para isso recorre ao seu depósito de memórias desde o momento em que chega a Roma, o seu primeiro trabalho como caricaturista e o encontro com Federico na redacção do jornal humorístico Marc’ Aurellio. Nessa altura já Fellini dava os seus primeiros passos no capítulo da realização. Scola, onze anos mais novo, só mais tarde entrará na indústria na qualidade de argumentista. E é este tempo de amizade e profunda admiração que resulta numa deambulação a um tempo nostálgica e estética ao núcleo de uma obra imensa de um dos maiores criadores cinematográficos de sempre.
Tal como ao longo de toda a sua obra, Scola nunca se cansou de nos surpreender, encontrando sempre novas fórmulas para apresentar as suas propostas. Neste caso, estando muito longe de qualquer referência testamentária, de qualquer intenção de nos dar uma lição, o que Scola nos deixa é a homenagem a um Mestre que o marcou definitivamente nos mais tenros anos da sua aprendizagem. Uma homenagem à obra, à arte e à personalidade de um génio. E, mesmo não sendo próximos da obra de Fellini, qualquer um se consegue apaixonar rapidamente pelo seu trabalho. Este é talvez o maior encanto do filme.


Escrito em parceria com as suas duas filhas Paola e Sílvia, o filme vai levar-nos a uma visita guiada ao prazer partilhado dos desenhos, de fazer filmes e aos amigos em comum (Mastroianni, Ruggero Maccari, Emio Flaiano, Scarpelli, todos eles referências na história do cinema italiano seja como actores, seja como realizadores ou argumentistas). Estacionando no mítico estúdio 5 da Cinnecittá, onde Fellini rodou a maior parte dos seus filmes nas décadas de 60 e 70 faz-se uma reconstrução de alguns cenários à medida que somos introduzidos ao processo criativo do artista. Misturados com extractos dos próprios filmes de Fellini há uma dimensão documental a complementar a fantasia ou, melhor dito, o processo de criar fantasias.
Por outro lado as noites sem fim deambulando por Roma no Lincoln de Fellini que sofria de insónias. A mania de dar boleia a quem encontrassem para ouvir a sua história e daí partir para a construção de uma personagem ou de um novo argumento.
Recordando o amigo, exibindo a admiração sem limites pelo génio, com uma narrativa fluida e funcional, CHE STRANO CHIAMARSE FEDERICO acaba por ser um caderno de apontamentos partilhado com o público onde a única intimidade que ficamos a conhecer é a do criador com a construção da obra, a do génio com o empenho em tornar a vida por momentos mais colorida e suportável, a do deslumbramento inesgotável do Ser pelas possibilidades encontradas de fabricação da fantasia.
Obrigado aos dois…



Artur

sábado, 25 de junho de 2016

PÉROLAS DE SCOLA 4


BRUTTI, SPORCHI I CATTIVI/ FEIOS, PORCOS E MAUS

Ettore Scola

Itália, 1976

Estamos na década de 70 do século passado num bairro de barracas da periferia de Roma. Através de um lento e englobante plano-sequência vamos sendo apresentados aos vários elementos do clã Mazzatela à medida que se levantam para um novo dia. Uma jovem adolescente sai para a rua com uns recipientes na mão para ir buscar água. Saltita na inocência dos seus 12/13 anos enquanto caminha por um cenário de porcaria, feito de habitações precárias, poças de água e caos urbano em geral.Mais tarde voltaremos a vê-la a recolher as crianças do bairro para um “infantário” improvisado feito de uma cerca de arame semelhante a um galinheiro gigante. Giacinto é o patriarca desta agremiação vagamente familiar composta por gente que trabalha nem sempre nas mais nobres actividades. Por ter queimado um olho com cal viva recebeu uma indemnização de um milhão de liras do seguro que esconde avidamente. Um milhão que o resto da família cobiça urdindo toda a espécie de malfeitorias para se conseguir apropriar dele.
Esta é em síntese a intriga básica de (na minha opinião) uma das mais belas e mais brutais obras-primas da história do Cinema por ser pouco comum na abordagem, cruel na descrição e  impiedosa na análise.
O filme acompanha um grupo de marginais em geral que enquanto tenta sobreviver tudo faz para ocupar ou destruir o espaço alheio. O dia da pensão da avó é o dia de festa dos netos que rapidamente dividem o dinheiro à porta dos serviços na presença de uma anciã demente que passa os dias em frente à televisão. O dinheiro ocupa o lugar do filtro maior ou, se calhar, do filtro absoluto em que se desenvolvem as suas existências. Não há espaço para identidade, dignidade ou sequer consciência porque isso seria perder tempo, ficar para trás, deixar de ser ou de estar vivo. As análises filosóficas ou sequer sociológicas ficam na gaveta deixando à vista o osso duro da condição humana que encarna o “espírito do tempo” onde tudo é dinheiro, vantagem, sobrevivência pura e dura. Nada que não seja feito no resto da sociedade pelas outras camadas só que essas têm tempo para construir álibis, desenhar teorias, elaborar justificações. Neste bairro de barracas onde se avista ao longe a cúpula da Basílica de S. Pedro no Vaticano não há espaço para a piedade, o sentimento ou o sonho.


E sendo uma tragédia do princípio ao fim, ao exibir a condição humana na sua forma mais animalesca não conseguimos deixar de rir. Não conseguimos desenhar a fronteira entre o drama e a comédia, elementos indivisos do nosso comportamento, equilíbrio instável sem o qual não seria possível suportar o fardo da nossa condição. Os pobres vão morrer pobres e não são nenhuma espécie de heróis por causa disso, não acolhem consciência política, não alimentam qualquer tipo de esperança em relação ao futuro. Nasceram condenados àquela condição que os empurrou para a sobrevivência a qualquer preço, para a bestialidade e para todas as categorias dos mais primários instintos animalescos que nos assistem.  Alegoria destas últimas considerações poderia ser a extraordinária cena em que Giacinto, percebendo ter sido alvo de envenenamento corre para o mar e injecta água salgada pela boca abaixo auxiliado pela bomba de uma bicicleta para poder vomitar. Em O MILAGRE DE MILÃO (De Sicca) os pobres encontram a sua libertação através da morte, em VIRIDIANA (Luís Buñuel) ao ser oferecida hospitalidade numa casa senhorial campestre a um grupo de vagabundos, a primeira coisa que se lembram de fazer no dia em que estão sozinhos é dar uma festa e destruir a casa toda. Em FEIOS PORCOS E MAUS a brutalidade e o grotesco das relações humanas explode em cada gesto embalada pela condenação da miséria.
No fim ao nascer de mais um dia, a jovem adolescente que no princípio acompanhámos com os baldes a caminho da água retoma a sua rotina diária. Saltita enquanto caminha mas quando a câmara a deixa ver de corpo inteiro reparamos que está grávida.
Tragédia hiper relista, crueldade acutilante, grotesco permanente, hilaridade, tristeza, e até ternura são as componentes constantes deste colosso da condição humana. Sem respostas rápidas nem soluções fáceis e muito menos teorias reconfortantes. Uma sociedade bestificada sem identidade nem compaixão só poderá produzir bestas que não sabem quem são ocupadas apenas em destruir o que não lhes pertence. 
Se lhes forem dadas as condições ideais o ser humano é capaz do melhor e do pior.
Ficamos à espera de saber o que seria se existissem as ferramentas para fazer o melhor.
Um colosso que deveria ser visto por todos.

Artur




sexta-feira, 24 de junho de 2016

PÉROLAS DE SCOLA 3



Ettore Scola

França/ Itália/ Argélia 1983

Tudo começa como se de um qualquer espectáculo de café-concerto se tratasse. Acendem-se as luzes, as pessoas vão chegando e começa a música. O mesmo espaço e o mesmo grupo de pessoas que nos irão contar meio século de História da França através de  seis quadros vivos, dançando ao longo do tempo. Baseado num espectáculo musical, uma pantomima imaginada e dirigida por Jean-Claude Penchenat e interpretada pelo grupo Thêatre du Campagnol em Châtenay-Malabry, LE BAL resulta de uma adaptação para cinema co-escrita por Ettore Scola, Ruggero Maccari, Furio Scarpelli e o próprio Penchenat.
Começamos por ouvir La Valse au Dénicheur , ver uma bandeira da Frente Popular e a data…1936. Segue-se a transformação do espaço em abrigo contra os bombardeamentos. Estamos em 1944. A entrada de um oficial alemão dá-nos a imagem da ocupação em França. Em 1946 chegam os soldados americanos e com eles o jazz.
Mais uma vez Scola repete a fórmula já ensaiada anteriormente, isto é, aborda o tema histórico de forma indirecta através dos mais desprendidos e mais comuns aspectos da realidade. Neste caso concreto consegue aperfeiçoar o método propondo-nos um filme mudo. De facto, são os ruídos do exterior, as músicas, as modas e as danças que nos vão contando o passar dos anos, que nos vão colocando em cada época enquanto as pessoas limitam a mudar de pele. São sempre os mesmos sendo sempre em momentos diferentes o que dá uma curiosa relação visual entre o tempo e o homem. No fim de cada “tempo” a imagem fica parada e transforma-se numa fotografia que ficará pendurada numa parede mesmo ao lado do bar.
Tal como num espectáculo de vaudeville sucedem-se os quadros pitorescos e curtos de humor instantâneo que vão decorando os espaços em que a música se faz notar mais baixa. Como o do calmeirão magrinho que leva o tempo todo a tentar vencer a timidez e convidar uma senhora para dançar, sem êxito, ou o “riquinho” desesperado que perante o abandono da sua amante resolve cheirar uma linha de coca sobre a mesa, linha essa exterminada pelo pano de limpeza de um empregado diligente.
Em 1956 impera o samba e as saias que rodam em grande efeito. Até que aos poucos os casacos de cabedal pretos comecem a ocupar a pista de dança e a impor o Rock’n ‘Roll.
E com uma canção dos Beatles em fundo chegam os anos 60. Lá fora ruído de multidões e sirenes da polícia. Jovens manifestantes refugiam-se no recinto com os olhos irritados pelo gás lacrimogéneo. Maio de 1968.
Por fim chegam os anos oitenta (1983) e começa-se a desmontar o cenário. Faz-se ouvir um relógio, os dançarinos retiram-se, o barman apaga as luzes. Como uma caixinha de música a três dimensões por onde estivemos a espreitar viajámos ao longo de meio século através da música e das modas sem ouvir uma única palavra. Uma coreografia do tempo onde o movimento vai trocando as suas impressões com o espectador. Uma linguagem diferente onde nos vamos integrando, ouvindo e dançando.



domingo, 19 de junho de 2016

PÉROLAS DE SCOLA 2


LA NUIT DE VARENNES/ A NOITE DE VARENNES

Ettore Scola

França/ Itália 1982

A 20 de Junho de 1789 uma carruagem com a família real tenta a sua fuga de Paris que arde sob o fogo da Revolução. Dias mais tarde o rei Luís XVI e a rainha Maria Antonieta acabam por ser capturados na povoação de Varennes, precipitando uma trágica série de acontecimentos reforçada pela desconfiança e pelo ódio à monarquia. A acção do filme, que não acompanha em directo as várias peripécias desta fuga atribulada, centra-se numa segunda carruagem algumas horas atrasada em relação à primeira, onde viaja um grupo extremamente improvável de personagens, cada um com o seu destino e motivação diferentes. Uma condessa austríaca que tinha sido aia da rainha (Hanna Schygulla), o filósofo e escritor libertino Restif de la Bretonne (Jean Louis Barrault), o revolucionário americano Thomas Paine (Harvey Keitel), um Casanova em plena velhice (Marcelo Mastroianni), uma viúva a caminho da sua propriedade (Laura Betti), um juiz e uma cantora de ópera (Andrea Ferrol).


Baseado no romance de Catherine Rihoit ( “La Nuit de Varennes oú l’impossible n’est pas Français”) o filme tem a particularidade de desenvolver a análise histórica de forma indirecta através dos diálogos entre personagens de ficção sem que isso prejudique o rigor ou sequer a verosimilhança dos factos. Naquela carruagem um passo atrás dos acontecimentos os conceitos de “vida”, “mudança”, medo” e “solidão” vão sendo debatidos e avaliados através de várias perspectivas quer sociais quer etárias. Através da avaliação dos tempos de mudança e incerteza em que se encontram mergulhados fala-se de política e de Filosofia. Neste autêntico road movie de reconstituição histórica confrontam-se os tempos modernos com os antigos e descreve-se o esboço de uma nova ideologia principalmente através das intervenções de Paine ou de Restif. A ordem antiga é defendida pela condessa austríaca. Numa coisa parecem estar todos de acordo. “A idiotice é a pior das traições e não há nenhuma revolução que consiga acabar com ela”. Percebe-se que a revolução é uma consequência directa do sofrimento da população em geral. Mas também é evidente que os filhos dessa revolução, ao destruírem os valores da ordem antiga não têm a mínima ideia acerca daquilo que vão construir no seu lugar. Fica aberta a porta para um tempo de vazio e incerteza. A discussão acesa entre o jovem estudante que insulta abertamente o decrépito Casanova faz antever o resvalar da revolução para a brutalidade e a violência gratuita, para o regime de terror que se irá seguir.

Mas os tempos mudam sempre como o cenário de um palco e o que se mantém somos nós os seres humanos essa espécie construtora de todas as ordens antigas e modernas. A vida acabará por continuar de uma forma ou de outra e o que nos distingue será a forma como respeitamos e vivemos com os nossos valores. Se por um lado a atracção da condessa pelo revolucionário americano se vai reforçando nem por isso as suas ideias são alvo de cedência. Perto do fim do filme vemos uma cena em que a condessa veste um manequim com um manto do rei que tinha trazido de Paris e, de seguida, rende a sua homenagem ajoelhando-se na sua frente.
Sendo um filme de reconstituição histórica LA NUIT DE VARENNES é também uma lição de vida que nos relembra o modo como tudo é tão efémero e de como somos muito mais iguais do que alguma vez poderíamos imaginar em tempos de normalidade. Respiramos o mesmo ar, temos o mesmo medo, sonhamos os mesmos sonhos. E tudo é tão frágil que pouco ou nada vale se não nos soubermos colocar nesta  trágica comédia onde a História, o Medo, o Amor, a Vida e a Morte brincam com as nossas existências sem dó nem piedade. Um grande filme, portanto.


Artur

sábado, 18 de junho de 2016

PÉROLAS DE SCOLA

UNA GIORNATA PARTICOLARE / UM DIA  INESQUECÍVEL

Ettore Scola

Itália/Canadá 1977



Comecemos pelo princípio. Um plano inteiro com movimento de grua que se move em ascensão pelas traseiras de um espaço urbano composto de vários prédios e que entra para uma janela onda vamos encontrar a protagonista a executar as suas tarefas domésticas. Um movimento de câmara bastante raro ainda hoje estudado em muitas escolas de cinema. Um rádio aos berros que inunda o espaço vazio de pessoas através do qual vamos percebendo tudo o que se vai passando naquele dia 8 de Maio de 1938 em Roma. Todos estão presentes na parada e cerimónias que celebram a visita de Hitler a Itália. Nem todos. Antonietta fica em casa a tratar das suas tarefas domésticas enquanto o seu marido, um funcionário público da Itália fascista se deslocou até às comemorações com os seus seis filhos. Gabriele, um locutor de rádio demitido aguarda a sua deportação para a Sardenha. Nem marido, nem pai, nem soldado, nem sequer fascista, o locutor é homossexual, bilhete garantido para a exclusão de um regime totalitário embriagado com os ventos de guerra que começam a soprar. O encontro entre estes dois vizinhos, sendo muito mais do que a soma de dois corações solitários acaba por se revelar a dissecação de uma ideologia através de um hino à ternura e ao humor.


Antonietta sente-se frustrada e sozinha num mundo onde se limita a cumprir as suas funções de mulher-a-dias da sua casa e parideira. Apesar de já ser mãe de seis filhos o seu marido quer ser pai outra vez e com isso beneficiar do apoio e incentivo à natalidade dado pelo regime. Infiel e bronco transforma a vida da mulher num vazio imenso, impossível de preencher ou de deixar encontrar um espaço mínimo de realização e felicidade. Gabriele por seu lado, a primeira vez que é filmado no seu escritório, tem uma arma em cima da secretária sugerindo a ideia de suicídio. Os dois conversam, trocam histórias, dançam a rumba. Sendo considerado um dos mais belos filmes da história do Cinema, tudo em UNA GIORNATA PARTICOLARE é improvável e surpreendente desde o percurso de cada um dos personagens até ao desempenho dos actores. De facto, dois dos ícones e sex symbols da sua geração, o casal mais adorado do cinema de então envolvem-se numa interpretação sublime e natural de duas figuras simples e tristes que vivem uma tarde de excepção contra todas as possibilidades. Ignorando a homossexualidade do vizinho Antonietta expõe o seu charme, a sua vontade, o seu desejo de se sentir viva nem que seja por uma vez. Eventualmente o casal acaba por se envolver emocionalmente. Mas tudo é tão subtil e belo ao mesmo tempo que por instantes o que vemos é dois seres vítimas do sofrimento e da solidão que acabam por se consolar mutuamente. Enquanto a cidade inteira comemora a tirania e a autoridade e o rádio aos berros nos vai dando conta disso. E é esta fantástica história de subversão e simplicidade que acaba por se tornar um contraponto de bom senso num dia de bebedeira colectiva. Ao fim do dia Antonietta vê pela janela o seu vizinho deixar o prédio escoltado por dois polícias. Lá dentro já deitado está o seu marido que a chama para tratarem de fabricar o seu sétimo filho. Assim termina “um dia inesquecível”…

Artur

quarta-feira, 8 de junho de 2016

UM QUARTO QUE SEJA SEU




Dedicado a Teresa Borges, no dia do seu aniversário.


Assombrada por uma questão aparentemente simples mas que se revelou árdua à medida que as suas pesquisas se desenvolveram, Virginia Woolf percorria, no Outono de 1928, as ruas e os parques de Cambridge, frequentava restaurantes, festas e bibliotecas, consultava dezenas de escritores, homens e mulheres, compulsava montanhas de livros, preocupada sempre com a mesma questão, cuja resposta lhe chegou espontaneamente ao espírito, mas cujo significado considerava tão crucial que procurava discernir-lhe o sentido, estudando o comportamento e os papéis masculinos e femininos, os escritos dos homens sobre as mulheres e os das mulheres sobre os homens : "Que condições são indispensáveis à criação de obras de arte ?" - obras criadas por mulheres, entende-se, e não somente pelos homens, já que, no que se refere aos homens a questão há muito tinha sido respondida através das múltiplas teorias masculinas sobre a arte e sobretudo pela incontestável plétora das suas criações.
Nessa exploração de ruas e de livros, em busca de traços femininos que documentassem um pouco mais do que a inevitável necessidade do quotidiano, Virginia Woolf percepcionava em imaginação "o peso do mutismo, a acumulação da vida inexprimida". Foi assim que no fim da errância por ruas e bibliotecas, chegou à resposta que lhe queimava os lábios "uma mulher deve ter dinheiro e um quarto que seja seu", para poder criar obras de arte, o que, na fórmula de Virginia Woolf, remetia para a escrita de ficção, ficção não no sentido do romance ou da história inventada simplesmente, mas no sentido de toda a relação criativa e voluntária com a realidade, toda e qualquer tentativa subjectiva de a interpretar, penetrar, transformar e recriar. "Eis o que permanece depois de desaparecida a espuma dos dias; aquilo que permanece dos tempos passados, dos nossos amores, dos nossos ódios.. O mundo aparece então na sua nudez, uma vida mais intensa é-lhe insuflada", escrevia ela, e dirigindo-se às mulheres prosseguia : "Já que vos convido a ganharem a vida e a terem um quarto vosso, convido-vos a viver a presença da realidade", essa realidade capaz de metamorfose, mais intensa e rica de ensinamentos.
Neste apelo, que há mais de setenta anos lançava às mulheres, nem por um momento Virginia Woolf se perguntava se as mulheres experimentavam verdadeiramente a necessidade de criarem obras de arte, ou se essa necessidade não era mais do que a expressão de uma moda, o produto de uma época. Julgava a escritora que a aptidão criativa e artística - aquilo que chamamos criatividade - era bem partilhada entre os dois sexos, tal como o bem senso cartesiano. E coube-lhe constatar que séculos de pobreza e de constrangimentos sociais tinham tido tal sucesso na repressão da aptidão criativa das mulheres que a maior parte delas tinham acabado por acreditar que tal aptidão não existia, e reprimido por inconveniente, se não mesmo perversa, tal necessidade - talvez subtilmente despertada - de conferir uma forma nova e subjectiva à realidade; então, por autopunição, não recorriam às suas capacidades; cozinhavam, plantavam, recolhiam, coziam, aleitavam, criavam e enterravam as suas crianças com mais ardor e cada vez mais mudas, e recomeçavam sempre; cozinhando, limpando a casa de alto a baixo, aprovisionando celeiros, reflectindo longamente antes de gastarem um tostão, correndo de aqui para ali ao chamamento do homem, pondo-se sempre e para sempre ao seu serviço, até desaparecerem sem ruído, imperceptivelmente, da realidade que as dominava.
Assim são as coisas, constatava Virginia Woolf. Uma mulher que no século XVI fosse particularmente dotada de nascença - imaginemos que William Shakespeare tinha uma irmã tão genial como ele - enlouqueceria, escreve ela "matar-se-ia ou terminaria os seus dias numa cabana solitária fora da aldeia", banida e expulsa, morreria de fome e não criaria certamente a grande obra de arte.
Woolf estava persuadida que as mulheres deviam a sua evolução criativa a um fenómeno concreto ocorrido no fim do século XVIII : podiam ganhar dinheiro escrevendo: "O dinheiro arrasta as honras, aquilo que foi tido durante tanto tempo como fútil que já não tem retribuição. Sem dúvida, ainda podemos ver com derrisão esses seres (...) mas já não é possível ignorar que lhes pagam pelos seus escritos." Considera essa mudança do fim do século XVIII como mais significativa e importante que "todas as cruzadas e outras guerras das Duas Rosas". E se ela pudesse reescrever a história, consagraria mais atenção ao facto de as mulheres das classes médias se dedicarem mais à escrita que a todas as guerras.
"A vida é para os dois sexos - e vejo-os passar à minha frente, na rua, lado a lado - uma luta incessante, dolorosa e difícil", escrevia Virginia Woolf depois de ter explorado ruas e lugares em busca de uma resposta à questão "Que condições são indispensáveis à criação de obras de arte ?". Essa luta, continua ela, exige uma "coragem inabalável" e mais o quê ? "Confiança em si", responde ela; coragem e confiança em si como aguilhão e substância da criatividade feminina, afim de que as mulheres participem de maneira mais eficaz, mais inventiva e segundo o seu coração, na metamorfose da realidade.

terça-feira, 7 de junho de 2016

Largar



A perda repentina e inesperada de alguém que amamos, provoca uma dor complicada de dissolver.

É um soco no estômago que sufoca a garganta, derrete-se nos olhos e faz questionar o sentido e a razão.

Todas as mágoas, todas as desilusões, frustrações, arrependimentos e, acima de tudo, raivas, ódios e rancores carregam um peso difícil de aliviar. 
Há que largar lastro para hoje ser-se mais leve e estar mais apto a receber o que o Tempo e a Vida nos trazem.

Não deixem de amar hoje, como se fosse o último dia.

O que interessa é agora.
Ontem já foi e amanhã ainda não é.



segunda-feira, 6 de junho de 2016

MAIS UMA CRÓNICA SOBRE COISÍSSIMA NENHUMA


Tudo começou em algum lugar, nem podia ser de outra maneira. Escrever é um acto de generosidade na medida em que quem o faz normalmente não foi obrigado a fazê-lo. Entende que deve traduzir em palavras uma história, um estado de alma e dá-lo aos outros. Mas a actividade da escrita é talvez das mais ingratas que existem na medida em que é quase tão antiga como a Humanidade, o que torna tudo muito mais difícil no que toca à originalidade. Diz-se que já tudo foi escrito, que já tudo foi feito no que à Literatura diz respeito. Está tudo na Bíblia, nas tragédias gregas e na obra de Shakespeare. Daí para cá tudo o que se puder fazer está limitado a variações acerca destes três colossos da memória humana. Convém portanto, se não ler exaustivamente, pelo menos ter uma ideia do que se trata antes de se embarcar na aventura da escrita. No tempo da informação exaustiva em que a ignorância é uma questão de escolha o que acontece é que é precisamente a ignorância que triunfa sobre tudo o resto. Vá-se lá saber porquê…
 Ando há que tempos a “engonhar” um post sobre um dos mais importantes realizadores do século passado (Ettore Scola) mas falta-me a coragem. Há tanto para dizer que dava para escrever pelo menos três livros sobre o assunto. Tantos filmes, tantos momentos altos de uma carreira extraordinária, tantos tratados acerca da condição humana. Uma tragédia de miséria e desgraça de duas horas e meia onde não conseguimos parar de rir, décadas de história contadas sem palavras num espaço de um salão de baile onde se sucedem as modas, o encontro improvável de uma dona de casa e um vizinho homossexual numa Roma deserta onde todos estão numa manifestação que comemora a visita de Hitler à Itália de Mussolini, ou a fuga de um grupo de cortesãos da fúria revolucionária de 1789 em Paris. Tanta informação, tantas questões, tanto motivo para reflectir. Ainda hoje ao fim de muitos anos fico assustado ante a enormidade e o génio. Invento pretextos para adiar, dedico-me a tarefas secundárias, deixo passar o tempo. Com o romance que estou a escrever passa-se o mesmo. Um turbilhão de sentimentos e emoções, um caudal de coisas que quero dizer mas que não se pode despejar de qualquer maneira. Porque há regras para a comunicação, há padrões para as narrativas, porque uma grande parte dos leitores não tem a minha idade nem a minha vivência. No fundo porque o objectivo é bater à porta daquele edifício a que chamam a Linguagem Universal e pedir que me deixem dar uma espreitadela, que me deixem estar só cinco minutos no átrio da casa e respirar. Que pelo menos um dos meus livros consiga saltar do “Cemitério dos Livros Esquecidos” para uma arrecadação dessa enorme casa. E assusto-me outra vez como naquelas tardes em que corria para casa todo esmurrado à espera da água oxigenada, do penso e dos lanches da minha avó. E continuo a andar às voltas, em avanços e recuos, preocupado com o assalto à Língua Portuguesa, sempre fascinado com a ideia de Portugal e com o que os grandes, os clássicos fizeram antes de mim. Por vezes deslumbrado com o que consigo fazer, outras vezes desesperado por me obrigar a despejar esta força para fora. Escrever é também o mesmo que não rebentar por dentro, facto várias vezes comprovado ao longo dos anos. O bem-estar que dá a finalização de um texto nas condições mínimas que tinha sido pensado. A dor de não escrever que se aloja dentro da alma e vai inchando quase até nos sufocar. Porque antes de tudo, serei sempre aquele que se assusta antes de se deslumbrar para se assustar outra vez. Aquele que nunca está satisfeito para pontualmente se poder satisfazer. E no fim sei que acabarei por arrancar e correr até ao fim, terminarei a tarefa. A forma como ela ficar será aquela que tiver que acontecer. Melhor ou pior. Nessa altura o susto e o deslumbramento ficam congelados para dar lugar apenas à acção. O que for, será. Nada a fazer, nada a acrescentar. O mundo é um lugar demasiado grande, as pessoas demasiado complexas, a vida demasiado cruel. Escrevo porque não sei nada sobre eles…continuo a escrever porque nunca os conseguirei perceber. E é nessa entrega sem retorno, nessa tarefa sem êxito, nessa obrigação sem castigo que torno útil o tempo de que disponho para cá andar, que dou sentido ao absurdo que me envolve, que bato timidamente à porta desse palácio encantado e gigantesco onde a maioria dos seres se encontra e convive sem nunca terem sido apresentados.


Artur


quinta-feira, 26 de maio de 2016

IRON MAIDEN 2016



Dia 11 de Julho será a data em que a mítica banda de 40 anos de existência se volta a encontrar com o publico português. Uma relação já longa que começou a 31 de Agosto de 1984 no Pavilhão Infante de Sagres no Porto. Depois disso os Iron Maiden tocaram seis vezes em Cascais, cinco em Lisboa, duas no Algarve e uma em Vilar de Mouros. Uma relação de admiração e carinho mútuo que levou Steve Harris a adquirir um bar, rapidamente tornado ponto de peregrinação (“Eddie’s Bar”), próximo de Faro.


APRESENTAÇÃO

A longevidade deste fenómeno musical que arrasta multidões de todas as idades e esgota concertos em qualquer parte do mundo deve-se em parte a uma vitalidade criativa (novos trabalhos originais com intervalos de dois, no máximo três anos) associada a uma originalidade e postura invulgares no mundo do Rock n’ Roll. Longe de uma aceitação consensual nos meios tradicionais da divulgação (MTV’s e afins), os Iron Maiden subiram a pulso na sua carreira construindo a sua fama em espectaculares actuações ao vivo e no apoio dos fãs que lhes renderam milhões em vendas um pouco por todo o mundo.
Inaugurando a era do British New Wave of Heavy Metal ao lado de nomes como Def Leppard, Motorhead e Judas Priest, o resultado foi uma poderosa e influente combinação de heavy metal com uma atitude punk numa deslumbrante diversidade rítmica. Sem os Iron Maiden não haveria trash nem speed nem death nem hardcore metal nem uma série de palavrões que se poderiam escrever agora para enaltecer a pobreza e o deserto musical que a sua herança preencheu.
A originalidade dos Iron Maiden (IM) apresenta-se-nos de uma forma quase absoluta na medida em que pode ser lida quer ao nível da composição musical quer ao nível das letras. Assim, ao não alinharem com o padrão habitual de canções de 3 minutos (2 coros, 1guitarra solo, coro final) escreviam temas longos e complexos como por exemplo “The Rime of The Ancient Mariner”, 13:45 min. de Rock Progressivo. Por outro lado, em alternativa aos temas do costume no mundo do Rock (Sexo, drogas, etc.) a temática da banda é constantemente influenciada por outras artes como a Literatura, o Cinema, e géneros como a Ficção Científica ou o Folclore. Outra originalidade prende-se com a imagem limpa de drogas que a banda faz questão de transmitir ao longo dos anos.





ICONOGRAFIA/ REFERÊNCIAS/ATITUDE

O “livro” dos IM é como um depósito de memórias do nosso “Inconsciente Colectivo” vestido com as roupagens e os rituais do Heavy Metal. Nada é gratuito nem muito menos acidental. Influências quer literárias quer de referência histórica consistem no ponto de partida para a apresentação da sua arte.
No capítulo literário vamos encontrar temas como “Brave New World” (Aldous Huxley); “Rime of The Ancient Mariner” (baseado num poema com o mesmo título de Samuel Taylor Coleridge, onde a mensagem principal, de acordo com a versão da banda é: “Devemos amar todas as coisas que Deus criou.”); “Seventh Son” (Orson Scott Card); “Lord of The Flies” (William Golding); “Murder in The Rue Morgue” (Edgar Allan Poe); “To Tame a Land” ( Frank Herbert).
Em termos de referências históricas, elas são abundantes ao longo da obra dos IM. Comecemos pelo Antigo Egipto, “Powerslave” é acerca de um Faraó que, por se considerar a si próprio um deus não consegue viver bem com a ideia da morte. Define-se como um slave to the power of death; Guerra da Crimeia – “The Trooper”, baseada numa batalha durante a Guerra da Crimeia entre Britânicos e Russos. Há quem garanta que se baseou no poema “Charge of The Light Brigade”, onde são descritos os horrores da guerra enquanto uma carga de cavalaria britânica se precipita para a morte certa; “Run to The Hills”, inspirado na chegada dos europeus ao continente americano e a reacção dos índios; “Paschendale” – a batalha de Paschendale ou, em português, a terceira batalha de Ypres na I Guerra Mundial; “The Longest Day”, o dia D, o desembarque na Normandia, II Guerra Mundial; “Two Minutes To Midnight”, The Doomsday Clock, a Guerra Fria na ordem do dia numa altura em que o planeta esteve à beira da catástrofe nuclear.

OS ACTORES

Dadas as constantes mudanças que o elenco da banda foi sofrendo ao longo dos anos, é de referir aqui dois nomes importantes na vida da banda. Steve Harris porque é o único elemento original e Bruce Dickinson por ser uma grande parte da imagem da banda nos últimos anos.
Steve Harris, que em adolescente jogou futebol no West Ham, aprendeu a tocar baixo sozinho acabando por desenvolver um estilo único. O seu baixo “galopante” é uma imagem de marca da banda. Escreve e é co-autor da maior parte dos temas
Bruce Dickinson, o homem dos sete instrumentos possui uma energia inesgotável. Praticante de esgrima, chegou a ser 7º no ranking do Reino Unido, piloto de aviação comercial e a voz dos IM. Uma voz original de estilo semi-operático que lhe permite atacar os temas mais irregulares com uma delicadeza e um estilo únicos. Se Bruce é a cara da banda, Steve é o cerébro numa combinação perfeita até à data.



CONCLUSÃO

Fomos vendo aqui muitas das razões que tornam os Iron Maiden um fenómeno não só de Rock metálico como um retrato icónico da espécie humana contado através da sua fantasia criativa. A agressividade, a imagem violenta ou as diversas narrativas de horror e destruição mais não são do que um reflexo da realidade, um testemunho da História, uma fotografia da natureza humana. De acordo com muitos dos fãs, após um espectáculo dos IM há uma sensação de alívio e tranquilidade quando se volta para casa. Como se a violência, a agressividade e todo o género de energia negativa se tivesse libertado durante o concerto. Um curioso ponto de vista a reforçar a experiência inesquecível que é assistir ao vivo a um concerto desta banda.


Artur 

sexta-feira, 13 de maio de 2016

A MÃE DE ELISA



A minha mãe já chegou? Então esteja com atenção porque ela vem – me buscar. Sei porque me disse e quando diz, faz. Tal como quando fizemos a peça de  Natal e ela teve o acidente de carro, apareceu quase à hora do jantar mas apareceu.

Eu sou a Elisa e fiz a chuva

Já a escola se vestia de trajes de noite, uma roupagem que eu desconhecia, o pátio vazio e azul de noite, sem meninos, as portas fechadas, os pais e os professores a saírem uns a seguir aos outros.
Mas eu não tive medo. Sabia que ela vinha… a minha mãe. Porque se ela disse que vinha, não falhava. A minha mãe não promete à toa e sabe perfeitamente que se me prometesse alguma coisa que depois não conseguisse fazer eu iria ficar muito triste

Eu sou a Elisa e fiz a chuva

E apareceu triste com um enorme penso do lado direito da testa, e chorou por não ter visto a peça de teatro da escola em que eu fazia de chuva, e chorámos mas ficámos felizes logo a seguir porque estávamos ali as duas e o pátio deserto de meninos não nos metia medo nenhum

A minha mãe vem me buscar porque disse que vinha. Pouco me importa que me digam que tenho oitenta e três anos e que moro neste lugar e com estas pessoas que tenho dificuldade em reconhecer todas as manhãs

A minha mãe já chegou? Então esteja com atenção quando ela vier e vá logo chamar-me
Ela chega sempre mesmo que venha atrasada. Quando acabei a Faculdade (não me lembro que curso era mas lembro-me da cara de alegria dela), quando tive os filhos, quando fiquei viúva…a minha mãe chegava sempre embalada pelo sorriso, pronta para me abraçar. Mesmo quando não quero comer as mistelas que vocês me dão, mesmo fechando a boca ou cuspindo tudo para o chão, tenho a certeza que se a fossem chamar nada disto aconteceria.

Porque ela tinha sempre um truque novo debaixo da manga que me fazia ficar tranquila, uma frase que me acalmava (não estas porcarias às cores que me fazem engolir ao lanche), uma paciência sábia que me explicava que nada era o fim do mundo mesmo quando tudo parecia perdido.
Nada era uma catástrofe ou um problema qualquer que não tivesse solução 

A minha mãe deve estar quase a chegar, tenho a certeza. Disse que vinha pouco antes de já não me conseguir levantar da cama. Acenou devagar e sorriu. E por isso quando vier não quero perder tempo. Quero-me levantar daqui de uma vez, dar-lhe a  mão e sair para a rua como duas nuvens de chuva que se deixam orientar pelo vento a caminho de casa.

Por isso não tenho medo

Eu sei que ela vem...


Artur