terça-feira, 9 de agosto de 2022

ATREVENDO-ME A NADA QUERER SER

 

Atrevo-me a dizer que não me apetece dizer nada. Ficar esquecido num canto e deixar esgotar o frenesim que foi toda uma vida a correr atrás de metas, sonhos, objectivos nunca alcançados, ou conquistados mas nunca conseguidos. Atrevo-me a dizer que me sinto melhor quando estou calado a observar o tempo que acontece, a folha da árvore que ondula com a brisa, o gato a espreguiçar-se sobre o muro. Ter muito para dizer e não haver recipiente onde o despejar torna-se inútil, frustrante, deprimente. As histórias escrevem-se para serem transmitidas a um receptor, pressupõem uma reacção, uma resposta. As histórias são breves pedaços de comunicação, memórias partilhadas, tempo dividido. Mas a ligação do indivíduo que simplesmente se cala e observa o tempo a acontecer, a Natureza que se manifesta, é também uma espécie de comunicação.

Dizem que o Universo mantém um diálogo permanente connosco desde o dia que nascemos. Na maior parte das vezes estabelece essa comunicação através de sinais. Imagens, números, estruturas, o comportamento do corpo, sonhos, leituras, etc, que provocam em nós alguma reacção, actuam um sistema qualquer que…dá sinal. Podem ser avisos em relação ao caminho que se apresenta adiante. Podem ser necessidades de corrigir a rota ou pode ser simplesmente que exista dentro de nós uma linguagem sinalizadora que funciona como a sala de navegação de uma existência. Normalmente não se conseguem decifrar com a razão…sentem-se, fazem pressentir, ressoam, tornam-se reconhecíveis. Por isso levam algum tempo até se conseguirem esclarecer. Se houver algum caminho a percorrer neste universo e se for essa a nossa tarefa permanente, então os sinais são para interpretar enquanto grupo de regras dessa viagem. O caminho, esse, continua sempre, sem se interromper, sem hesitações, indiferente à decifração.

Deixemos no ar enigmas e mensagens cifradas ou, muito simplesmente, comunicações que não fazem sentido nenhum. Aparentemente acabarão por o fazer em algum lugar, em algum tempo.

Atrevo-me a dizer que na maior parte das vezes não me apetece dizer nada, guardo as memórias numa caixa e fico a ver a coloração de uma flor ou a caminhada do gato sobre o muro assim que estão encerradas as cerimónias da sua higiene diária. E distraio-me ao fim da tarde com o melro pontual que aterra sobre a relva do jardim em busca de uma minhoca para o jantar. Tudo já foi inventado, para quê pretender a forma original, para quê escrever melhor que o outro? Escreve-se e pronto. Quando me apetece, quando a voz interior fala mais alto e sai pelas entranhas, quando me lembro daquela história que ouvi, daquela personagem que cruzou o meu caminho. Não que tenha interesse nenhum para ninguém querer ouvir. Simplesmente resulta de um acto de higiene diária que se executa sobre o muro que separa o absurdo do racional, a vontade da inércia, a vida da morte. O muro fica, os passos da saída sobre ele são executados com estilo e o Sol volta a descer no horizonte enquanto um melro atrevido nos olha encantado com uma minhoca pendurada no bico.

 

Artur

segunda-feira, 4 de julho de 2022

PETER BROOK


 


                                                                         1925  -  2022

segunda-feira, 30 de maio de 2022

DE SAÍDA TUDO VAI ANDANDO

 


 

A realidade, o quotidiano em geral, a vida como a conhecemos está de saída. Fica de pé à porta do nosso quarto, dá-nos alguns minutos para fazer o saco vai lá para fora à espera Não que nos ralemos muito com o assunto. Continuamos a viver exactamente da mesma maneira, a cometer os mesmos erros e a desprezar aquilo a que deveríamos dar valor. Que se lixe. As pragas vão caíndo uma a seguir à outra, a guerra e a consequente destruição total vai pairando em cima das nossas cabeças mas ninguém se rala desde que não lhe toque pela porta. Van Gogh escreveu a certa altura que a humanidade tinha sido uma experiência que correu mal ao Criador. Nos dias que correm podemos imaginar o Criador a recolher os tubos de ensaio, a lavar as amostras e a limpar o laboratório antes de desligar as luzes e ir à sua vida. E mesmo estes tempos apocalípticos acabam por ter as suas vantagens. Há uma quantidade de imbecis que nunca mais voltaremos a ver, um sem fim de dores que irão desaparecer e se voltarmos a acordar noutro lado qualquer saberemos que estamos vivos de alguma maneira. Não que tudo seja mau na humanidade…de maneira nenhuma. O problema é que no cenário em que nos encontramos foi sempre o pior de nós que prevaleceu, foram sempre as qualidades mais negativas a ter mais força e a dominar os dias. Por isso não estou preocupado com coisa nenhuma. Se for o vazio total será a consciência zero e a preocupação nula, se for outro tipo de existência, dá-me a sensação que não vou ter que pagar impostos. Por isso, marchemos contentes e felizes a caminho da destruição final porque nada mais há a fazer.

Artur

quarta-feira, 18 de maio de 2022

DA SABEDORIA EM GERAL


 

“A Sabedoria edificou a sua casa, lavrou as suas sete colunas.”

Livro dos Provérbios, IX.I

 

Para perceber é preciso tempo, diria alguém mais velho ou mais sábio a alguém menos entendido. Ou talvez não. Talvez aqueles quem têm alguma coisa a dizer, algum conselho a dar não sejam exactamente homens sábios. Talvez sejam simplesmente “sabedores” em vez de sábios, tipos que relatam partes do caminho a quem chega lá de trás e ainda não o conhece no local em que se encontra.

 (ganda seca, até faz lembrar a entrada daquela famosa série “Lin Chung O Justiceiro” do final dos anos 70, onde cenas colossais de pancadaria eram interrompidas por citações de Confúcio ou de um outro sábio qualquer para grande azar do espectador adolescente que queria era ver acção, isto é, tareia da boa)

Talvez essa espécie de pessoas (os sábios) sejam tipos de uma fibra diferente que faz passar a sua mensagem de todas as maneiras menos através da palestra, do conselho, da aula. Talvez sejam tipos capazes de com um breve apontamento, uma história, uma alegoria, conseguir fazer passar um tratado de conceitos, filosofias, aspectos existenciais que o receptor consegue apreender com rapidez e evoluír mais um bocado no seu trajecto.

(Por acaso, nos tempos que correm não faço a mínima ideia do que será bom senso, lógica determinativa, evolução, desenvolvimento no que à nossa espécie diz respeito. Para onde vamos, o que é que andamos aqui a fazer, quem é que apagou a luz, como é que tudo é desprovido de sentido são as questões que mais me assaltam quando me lembro do sítio onde estou).

Devo ter conhecido dois ou três sábios ao longo da minha vida. Um deles, o padre Viana, era um jesuíta que passou três anos na paróquia da área onde eu morava em miúdo. De manhã levantava-se e empurrava a estante dos livros até à janela aberta porque entendia que eles precisavam de apanhar ar. Ao fim da tarde voltava a empurá-los de volta ao sítio original. Era o recordista das confissões (actividade que detestava). As velhas de sempre mal tinham tempo de se ajoelhar já eram bombardeadas com a penitência e a absolvição e toca a andar que ele tinha mais que fazer. Era um erudito, dava aulas de Teologia na Universidade e o seu mundo era o estudo, o conhecimento e a espiritualidade. Não julgava, não criticava nem impunha. Limitava-se a responder acerca daquilo que lhe perguntavam, a executar a sua tarefa profissional de forma institucional sem se deixar envolver. Eu, como outros do bairro, rapidamente nos rendíamos aquela figura peculiar de padre do conhecimento, muito mais empenhado em explicar os mistérios do universo do pensamento do que em impor condutas, julgar comportamentos, elencar o caderno dos castigos para aqueles que se portavam mal. Às vezes era visto à noite em passada larga à volta da igreja a apanhar ar antes de ir dormir. Um autêntico comboio a deitar fumo do seu cachimbo ao qual nos juntávamos por vezes. Nessas voltas eternas em torno da igreja falava-se de tudo e de nada. Nenhum tema era incómodo para ele. Temas da actualidade social e política, temas de outras religiões, espiritismo, fenómenos estranhos, Filosofia, História, etc.  De vez em quando uma pausa para contemplar a margem Sul do Tejo e o Seminário de Almada onde tinha feito os seus estudos antes de ingressar na Ordem. Recordava as tardes de jogatinas de futebol ao fim de semana e da alegria que isso lhe dava. A vontade de rir a correr com mais vinte alunos de batina até aos pés e sapatos de trabalho, dado que era proibido o uso de calções ou camisolas adequadas à prática desportiva. Graças ao padre Viana fiquei a saber os clássicos gregos com uma ótima nota a Filosofia no fim do secundário. Em marcha rápida às voltas e voltas ao redor da igreja ia-se visitando a Escola de Atenas como quem vai a casa da família de um amigo. Sócrates, Platão, Aristóteles, eram-nos apresentados de uma forma desassombrada, as razões de ser da forma como pensavam, o tempo em que viviam, etc, etc.

Em poucas sessões nocturnas acabámos por nos tornar amigos. De tal maneira que, uma vez por outra, combinávamos um jantar. Havia no entanto duas épocas específicas em que não se podia contar com ele. Em Outubro e em Junho o padre Viana fazia o seu retiro nos arredores de Lisboa. Durante uma semana numa cela fria e húmida de um convento abandonado praticava o jejum e a meditação a kilómetros de distância da povoação mais próxima. Ora acontece que esse convento era conhecido por estar associado a acontecimentos bizarros que ocorriam na sua proximidade. Em grupos de amigos havia sempre alguém que tinha uma história para contar, normalmente assustadora. Ou de corujas que se atravessavam na estrada e desapareciam, gritos de vozes ao longe, até mesmo a falha mecânica temporária de um carro que deixou de trabalhar de um momento para o outro. Quando soubemos do paradeiro dos retiros do padre Viana, o Rodrigo que era mais velho e que já tinha lido mais alguns livros do que o resto da malta lançou-lhe o desafio num jantar.

- Não tem medo de estar sozinho num local daqueles de que se contam histórias terríveis e assustadoras ? – ao que ele respondia descontraído

- Oh meu amigo, eu sou padre. Acredito em Deus. É na graça dele que me entrego. Se tivesse dúvidas ou medo de alguma coisa tinha que escolher outra profissão.

E ficávamos por ali sem mais esclarecimentos. Havia água num regato que por lá passava que lhe mataria a sede. De resto só levava um missal, um terço e um saco-cama. O resto era meditação e oração. Purificação para uma nova época. Mito urbano ou espaço assombrado o certo é que até eu me aventurei (de dia) por aquelas bandas com mais dois “valentões” numa tarde primaveril. Por sugestão ou puro cagaço, o certo é que não nos aproximámos mais do que uns cinquenta metros do local. Voltámos para trás com a ideia reforçada da coragem e singularidade daquele homem de meia-idade que nunca contava tudo o que sabia.

Numa noite de festa de fim de ano lectivo e santos populares voltámos a jantar todos juntos. Talvez devido ao calor toda a gente bebeu mais um pouco do que devia. Após a breve troca de informações (as notas finais e os desejos de continuidade escolar), já depois das sobremesas o padre Viana anunciou que depois do Verão seria colocado numa nova paróquia ainda por determinar. Nós seríamos sempre bem-vindos se o quiséssemos visitar. Na semana seguinte faria mais um dos seus retiros. Ficámos calados a digerir o jantar e a informação. Olhámos uns para os outros como quem interroga quem é que vai fazer a pergunta. O Rodrigo voltou a avançar. Contou a nossa breve aventura de cagarolas e de como não nos conseguimos aproximar do convento em ruínas. E disse qualquer coisa como nunca o iríamos esquecer, nem a sua amizade nem a sua coragem de asceta em permanecer sozinho num lugar daqueles. O padre Viana sorriu, mandou vir uma bagaceira e acendeu o cachimbo. Depois olhou em redor.

- Já que para o ano não vou estar cá quero-vos deixar uma lembrança antes de partir. Aquele lugar de que vocês tanto falam em ignorância e medo foi em tempos habitado por um grupo de monges que fazia voto de silêncio. Viviam do que produziam numa horta e dedicavam o seu tempo à meditação e oração. Durante as invasões francesas houve um esquadrão de cavalaria inimigo que passou por ali. Quando deram com o convento roubaram os mantimentos, pilharam as poucas relíquias que lá existiam, incendiaram o edifício e massacraram todas aquelas duas dezenas de almas que lá viviam. Desde esse trágico dia nunca mais ninguém lá viveu. Ficaram as paredes e o regato como únicos testemunhos do que uma vez terá sido um espaço habitado por alguém. E agora digam-me vocês..?  Que espécie de vibrações é que poderia ter um lugar onde tudo isto aconteceu?

 

Artur

quarta-feira, 6 de abril de 2022

QUARTO DIA DO QUARTO MÊS

 Quarto dia do quarto mês de dois mil e vinte e dois.

Os dias agora contam-se de forma diferente.
Vejam bem o que nos fizeram e nós sem sabermos quem nem porquê. Primeiro obrigam-nos a ficar em casa , depois fazem-nos medo por sair dela, proíbem o toque e a interação, e resumem as vidas dentro dum ecrã.
Os repórteres de todos os canais tornam-se nos emissários responsáveis por trazer tudo o que está para lá da porta da rua. A nossa imaginação, atordoada por dois anos de dramas, doenças, confinamentos e vacinas,responsabiliza-se pelo resto. Um dia lá longe alguém há-de estudar o stress pós traumático coletivo por estes anos de obscurantismo.
O número de mortos pelo virus passou a segundo plano e aquela guerra lá longe mas que dizem ser perto é tratada como se fosse à nossa porta.
Corremos para as filas do combustível como para a do papel higiénico. Uma semana baixa, outra semana sobe, e nós fantoches seguimos a onda num drop de iludido controle. A fome continua em África e morre-se dela mais do que em todas as batalhas na Europa. Há inundações na cidade maravilhosa e, que eu saiba, ainda não se descobriu nenhuma forma de solidariedade que canalize as venturas para as desventuras, nem transforme o dinheiro da guerra em fundos fiduciários mais concretos para o drama do Mediterrâneo central. Há os fundos da seca e os fundos de todas as calamidades. Aqui ao lado há um vulcão indeciso e gente assustada. Nem sei se alguém está a cuidar do coração dos que mais precisam. Ainda ontem vi um senhor a chorar porque os santos da igreja quase vazia estavam no chão como precaução dum abalo que pode vir mais forte ou não.
Não sei que máscara deva usar ou se lhe junte uma venda com tampões acoplados. Fico-me pelo botão vermelho do lado direito do comando e desligo.
Há uma casa por acabar e terra por plantar.
Quanto aos senhores disto tudo desgosto tanto duns como doutros. Nem o autocrata, nem o ator, nem o velhinho se safam do mar das mentiras. Nem nós.
Elsa Bettencourt a plantar o que semeou

sábado, 19 de março de 2022

LETRAS DOS AÇORES





«Meu querido pai, Cheguei bem à ilha grande depois duma viagem curta e de coração pesado. Não contava começar o oitavo ano longe de tudo onde cresci, nem a aprender tanto caminho de cor. Choro bastante, mas em compensação dou também lugar às gargalhadas. Sou boa a imitar sotaques e já estou especialista em “miquélense”.»
"Cartas de Chegada", Elsa Bettencourt (in) 𝘼𝙫𝙚𝙣𝙞𝙙𝙖 𝙈𝙖𝙧𝙜𝙞𝙣𝙖𝙡 — 𝙁𝙞𝙘𝙘̧𝙤̃𝙚𝙨, 𝙋𝙤𝙣𝙩𝙖 𝘿𝙚𝙡𝙜𝙖𝙙𝙖 𝙉.º𝟯, Ed. Artes e Letras, 2022.

sexta-feira, 18 de março de 2022

O AQUÁRIO


 

Janta-se em silêncio na cervejaria do bairro a contar as luzes lá fora através do aquário das sapateiras em estado de semivida, às voltas no mesmo sítio. Rostos de sempre e outros que não conheço distribuem-se ao longo do balcão, olham com ar científico para o telemóvel enquanto esperam pela imperial e, por cima das nossas cabeças a eterna televisão a debitar imagens de guerra, de vidas destruídas, manobras diplomáticas, tácticas de progressão no terreno. A bola ficou guardada por instantes no armário do Inconsciente Colectivo, à espera de melhores dias.  A guerra é como aquelas visitas indesejadas que se sentam à nossa mesa sem ninguém as convidar e em três tempos estão a dirigir os temas da conversa, não deixam ninguém falar e fazem cair uma tremenda azia sobre o nosso apetite. Às vezes como no balcão, outras apanho esta mesa que fica mesmo em cima da janela ampla para a rua onde posso comer em silêncio a olhar lá para fora. Na cervejaria onde sempre vim, logo a seguir à esquina, primeiro pela mão do meu pai antes dele partir para Angola, lembro-me perfeitamente de um jantar em silêncio horas antes dele embarcar. Não podia haver choraminguices dado que se estava num local público. E como também não havia razões para comemorar, comia-se calado a olhar lá para fora poucos anos antes de chegar o aquário dos crustáceos. Os carros eram diferentes, as pessoas vestiam-se de outra maneira, mas a televisão encavalitada num canto do tecto debitava imagens de África, helicópteros, paradas militares, mensagens de boas festas dos soldados em Dezembro, um almirante muito velho a distribuir medalhas em Junho. As imperiais, os bitoques e o senhor Amadeu agarrado à alavanca da cerveja e a rosnar pelo canto do olho

Puta da guerra

Porque um filho dele lá, depois outro, felizmente voltaram vivos. O meu pai também, mas o Luis que namorava a minha tia, não voltou. Casavam daí a meses, a minha tia andou anos a carregar uma depressão. Depois tudo acabou e voltou a bola, os títulos, os lances que não eram penalty, tudo aos berros em nome de clubes e cores. Depois as cores passaram a partidos políticos, havia noite de festa nas eleições, cada um debitava a sua posta enquanto a televisão debitava concelhos, distritos, percentagens, números de deputados. E com os partidos políticos veio também um aquário enorme que o sr. Amadeu colocou mesmo em frente à vitrine com o intuito de chamar a clientela. Uma inovação que só as hábeis e diligentes mãos do Aurélio conseguiam manipular. Desde o ritual da manga arregaçada até à luva de borracha as primeiras operações anfíbias eram espectáculo garantido com todos os presentes a suspirar por uma dentada de uma tenaz à qual o Aurélio se esquivava com mestria.

Eh, homem! Parece que nasceste para isto… - diziam no fim para disfarçar a inveja

 Anos mais tarde o meu primeiro filho a fazer o voo de adaptação na cervejaria, os pés a balouçar sem chegar ao chão, o aquário com as sapateiras a andar às voltas para cima e para baixo, a empurrar-se para chegar a lugar nenhum e logo a seguir a rua e as pessoas, os prédios e os automóveis. Lá em cima na televisão a guerra no Iraque, a invasão do Koweit, o deserto, as variantes diplomáticas e nós em silêncio para não acordar os demónios mais negros que povoam o planeta, a tentar passar nos intervalos da chuva a ver se eles não nos viam. Eu, um pai maçarico não me queria despedir de um filho tão pequeno e mergulhar num remoinho de infernos se esses infernos se alargassem até ali à cervejaria. Por isso comíamos em silêncio. Uns anos mais tarde mais um filho e desta vez a antiga Jugoslávia a desfazer-se aos pedaços, em ódio de uns contra os outros, genocídios, atiradores furtivos a disparar sem nexo sobre a população indefesa, movimentações diplomáticas, cidades destruídas. As sapateiras no aquário a treparem em susto umas para cima das outras a tentar fugir das mãos certeiras do Aurélio, o senhor Amadeu a secar um copo com o pano de muitas voltas e a rosnar por cima do olho

Puta da guerra

Enquanto as imperiais para lá e para cá, enquanto os bitoques, as moelas a chiar na frigideira, enquanto as sapateiras a saltar do aquário sem perceber bem o que lhes ia acontecer, cheias de medo, de frio, cheias de alho, de barriga para o ar e tenazes imóveis.

 

Depois foi o Iraque outra vez, e a Síria, e o Afeganistão, e o Líbano e em toda a parte e em parte nenhuma, a televisão sempre por cima das nossas cabeças, as imagens da selvajaria e da destruição, mortos, vidas viradas do avesso para sempre, cidades destruídas e sempre o silêncio ao ver aquilo tudo. Tudo caladinho a ver se os demónios da guerra não se lembram deste lugar

Os bitoques e as imperiais, as canecas e as moelas a chiar na frigideira, as pessoas, o aquário com as sapateiras lá dentro, uma e outra vez, um e outro ano sem parar.

E nós todos, uma geração depois da outra, enfiados num enorme aquário chamado cervejaria a correr para lá e para cá sem sair do lugar, encavalitados uns nos outros a tentar escapar à diligente mão do funcionário da morte para não sermos capturados e enviados para um poço negro de onde nunca mais se regressa.

 

Artur


terça-feira, 15 de março de 2022

ENTRE O PALCO E A PLATEIA

 Décimo quinto dia do terceiro mês de dois mil e vinte e dois. Ainda se atualiza os dados pandémicos do dia neste lugar cheio de árvores em todas as janelas. Não os ouvia antes, nem os ouço agora. Sinto-os no olhar dos mais velhos em forma de interrogação esgazeada entre as filas do pão e do papel higiénico, do álcool gel e da gasolina sobrevalorizada. No meu é como se o areal se tivesse mudado para as pálpebras e retina.

Tudo encareceu, sobretudo o que não se encontra.
Tudo rareou, sobretudo o que não se compra.
Além da banalização do mal, banalizou-se tudo o que mais nos prejudica e tudo o que nos eleva como entes humanos. A compaixão e a empatia manobra-se através dos vidros pelos técnicos estudiosos do polegar para cima ou para baixo e das técnicas de evasão do sentir mais fundo. Afinal já andamos a ser treinados para viver através da espessura do filtro que nos protege. Na dúvida desenhamos um sorriso sobre a máscara. Estamos proibidos de contactar o essencial por risco de contágio de qualquer sentimento sem antídoto em qualquer prateleira digital. O medo, a culpa, a impotência e a raiva servem-se às colheradas misturadas com mel, imagens de primavera, e a coragem dos inocentes. Interrompo o pensamento para ir dar um abraço a uma das minhas pessoas preferidas que está a poucos quilómetros de mim. Regresso dois dias depois às palavras daqui e aos pensamentos dali. Tenho sorte e agradeço. Reclamo da tinta que não seca e de tudo o que acho que posso controlar. Desligar os serviços noticiosos volta a ser urgente para bem da sanidade mental que tanto sofreu estes últimos dois pares de anos. Não me enganei nas contas! Para mim são dois pares porque o meu confinamento começou mais cedo, antes de qualquer pandemia, com limitações ditadas pelo meu corpo e pelos médicos. Novamente, só posso ter a veleidade de controlar a minha bolha. Só posso ajudar dentro dos meus limites. Não vou apontar dedo nenhum a ninguém porque não está na minha natureza nem quero que esteja. Se me pedirem a opinião digo o de sempre. Não gosto de senhores da guerra seja de que nacionalidade forem. Também não gosto que explorem a minha sensibilidade com imagens de sofrimento seja de que ser for. Há uma falsa sensação de que só agora é que todos os males acontecem. A sério? Por onde é que temos andado? Onde é que estamos quando precisam de nós? No meu caso, e porque eu estou sempre bem disposta, até sobram os dedos duma mão para contar as presenças preciosas que me agarraram com força para eu não cair. Sei-vos de cor meus raros amigos e sei porque muitas vezes me são mais íntimos do que o meu espírito é a mim. Deixem que a poesia de todas as coisas vos toque e façam o que sabem fazer. O barril do petróleo ou o preço do óleo, a invasão das privacidades ou das cidades, os vírus eminentes ou narizes proeminentes, são os fios que seguram as marionetas quando as querem pôr no devido palco. Aproveitemos a vida e o que resta dela. Abraço-vos.

terça-feira, 25 de janeiro de 2022

Vislumbres de um Sol d’Inverno

Saiu na revista TriploV um conjunto de narrativas curtas de minha autoria intitulada «Vislumbres de um Sol d’Inverno». Fica aqui o primeiro conto dessa colectânea:

 

O Poço

 

 

Aqui estou, olhando mais uma vez para o intenso negrume deste poço sem fundo. Fascina-me. Venho aqui muitas vezes para contemplar essa escuridão total que parece subir e contaminar o próprio ar, atraindo a luz, engolindo-a inteira, roubando a sua hialina claridade. Atiro pedrinhas só para as ver desaparecerem para nunca mais, pois nunca as ouvi embater no solo e tenho para mim que este poço não termina nunca. Entendamos-nos, houve um tempo, em que eu, imbuído de uma certa ingenuidade científica, tentei determinar com rigor qual a exacta profundidade deste abismo e todos os resultados que obtive foram inconclusivos. Primeiro, usei de meios rudimentares mas eficientes — um peso atado a um fio — mas não logrei encontrar meada suficientemente longa ainda que, juntando vários segmentos extensíssimos, tivesse obtido uma sonda com vários quilómetros. Depois, adquiri meios muito mais sofisticados que julgava eficazes, porém também eles se mostraram inúteis: ultra-sons e doppler, até um medidor laser que, em teoria pode determinar a distância da Terra à Lua, mas não a profundidade deste poço. Por fim desisti. Para quê este afã de obter uma certeza métrica quando o poço aí está, numa serena e quase imperturbável quietude. Ouviram bem, há, por vezes, movimento nessa escuridão de lonjura na forma de uns reflexos prateados que parecem ser escamas e um som de asas possantes e lentas, fazendo-me especular se o poço não é habitado e que essas criaturas enigmáticas têm tanta curiosidade para saber o que está cá fora como eu de conhecer quem nele vive. Se fosse mais novo e mais ágil e mais afoito talvez ainda pensasse em tentar uma expedição descendente, munido de escafandro, oxigénio e uma grua. Assim, resignei-me a vir para aqui contemplá-lo, pensar na vida e, de vez em quando, atirar as tais pedrinhas mudas para esta imensidão. No entanto, o poço chama-me, conheci-o toda a minha vida — pois descobri-o quando criança — e desde o primeiro momento tem exercido a sua sedução misteriosa, uma vertigem de abismo, promessa de emoção derradeira antes do fim, se fim houver, se chão tiver, se o fundo se puder alcançar e como, cada vez, com o passar dos anos, tenha menos a perder, sinto nos ossos e na víscera que breve chegará o momento do salto, do mergulho terminal nessa vastidão vertical e saberei, talvez, o que esconde, até onde vai ou, porventura, morrerei, de velho, em plena queda.

 

 

Leiam o conjunto completo em: https://triplov.com/vislumbres-de-um-sol-dinverno/

 

quinta-feira, 13 de janeiro de 2022

Teogonia Dois: 2. Um Deus Cansado

Tinha toda a eternidade, mas impacientava-se. Como? Um deus impaciente? Talvez por capricho, impulsividade e poder que ele o contrário à sua vontade nunca foi de admitir mas, mais do que isso, mesmo no que criasse era imperfeito. A modelação do barro genésico requer calma, a exacta e reflectida ponderação. Não basta dizer «faça-se» que a coisa fica feita. Quero dizer, feita ainda pode ficar, não será, contudo, coisa de que se orgulhe depois.

Era, pois, um deus imperfeito. Mas, não se iludam, era naquele panteão magnífico, um dos mais fortes e poderosos, temido pelos homens, e pelos outros deuses. Capaz de vergar a Natureza ao seu capricho, desafiava Fortuna e destino, impondo o que quisesse até mesmo às Parcas. Coitadas, cortavam o fio do que será quando ele mandava e não quando devia ser. E ele queria-o muitas vezes porque era, já o sabeis, impaciente como ninguém.

Mas era a descomunal potência genésica o seu principal atributo.

Criava animais exóticos e inverosímeis cuja função era desconhecida até mesmo para eles que, depois de experimentarem o que era viver, logo se deixavam morrer, após a angústia da perplexidade e sem deixar descendência. Eram rudes esses bichos. Não houvera tempo para detalhes na tamanha impaciência do deus e a bestialidade das criaturas , magníficas de pujança, além de suicidárias, tornava-as cruéis. Ainda bem que duravam pouco. De outro modo, seriam  o terror dos homens e dos outros animais que assistiam, incrédulos, àquela proliferação de monstros.

Em contrapartida, quando saiam plantas das suas mãos criadoras, elas espalhavam-se por todo o lado de modo incontrolável, ameaçando sufocar, na sua exuberância, todo o mundo. Porém, mais uma vez, porque eram imperfeitamente formadas, logo feneciam às primeiras chuvas ou, então, era esta nossa divindade que se irritava e as apagava da face da terra enviando um grande cataclismo que não poupava ninguém.

O pior era que tais fracassos, ferindo-lhe o orgulho, o tornavam ainda mais impulsivo e impaciente, ao ponto de uma exasperação endemoninhada o dominar. E assim lhe crescia uma fúria, tão descontrolada que nenhuma hecatombe ou vingança, castigo ou generosidade lhe podiam aplacar o ódio.

 

segunda-feira, 10 de janeiro de 2022

Diário Laboratório 2021: 15 /1/2021

 Há, porém, outras fontes de bloqueio para o texto longo (sobretudo na ficção narrativa):

1. O facto dos escritos-de-base estarem «perdidos» ou muito fragmentados, etc.

2. Existirem várias versões concorrentes, a ponto de o projecto se tornar incoerente.

3. Receio de falta de verosimilhança narrativa.

4. Tédio de trabalhar muito tempo no mesmo projecto.

5. Convicção na falta de originalidade da ideia-de-base.

domingo, 9 de janeiro de 2022

A PREPARAR O ROLO PARA CONTINUAR A PINTAR.

 Oitavo dia do primeiro mês de dois mil e vinte e um.

Sei que não é efeito da dose de reforço mas efeito da vida a acontecer. Há partidas inevitáveis e chegadas também. Há um todo que não se controla e outro tanto que se pode controlar. E há a falsa sensação de controle que existe como um placebo que cuida de todos os anseios e disfarça todas as incapacidades. Cheguei a casa a correr para me agarrar a um paracetamol só porque quero terminar o que já comecei antes que comecem os calafrios que nem sei se vão acontecer. A gata do meio brincava com o que me parecia um rato e não a contrariei até perceber que voa. Por isso relembro-me do dia em que encontrei um pintarroxo no meio do caminho agrícola das courelas. Estava aflito duma asa e não conseguia recuperar o voo. Parei o carro, saí e peguei nele. Nem tentou fugir e pu-lo no meu colo de encontro ao peito e à pele, no lugar onde as mães confortam os filhos. No dia seguinte já estava recuperado mas mal protegido da gatinha lambona. Fiz-lhe uma pira e encomendei-lhe o espírito esvoaçante ao deus dos pássaros e a São Francisco. Nesse dia voltei atrás, a todos os pássaros que se cruzaram comigo ao longo da vida até chegar ao primeiro, aquele que escondi dentro da gaveta da minha cómoda para poder cuidar dele. Quando começou a piar a minha mãe deu por ele. Fizemos uma papa de farelos e demos-lhe água. Ela disse-me pela primeira vez que, se interferimos com a natureza ao ponto de salvar um animal,temos que ser responsáveis por ele até estar em condições de voltar a ela. Corri para a gata do meio, a Gaya, e tirei-lhe o pardal moribundo da boca. Chorei até encharcar-lhe as penas mas não o larguei até ao último pulsar do peito pequeno que estava de encontro ao Monte de Vénus da minha mão esquerda. Fiz o que todos queremos para o nosso último suspiro que é o conforto duma mão amada. Nestes tempos em que se banalizou a morte em tempo recorde, que se legislou a ausência de toque, que se obrigou a existência asséptica da convivência dos corpos, resta a empatia como exercício de sobrevivência do espírito que se quer límpido. E resta muito se soubermos dar músculo à memória mais antiga da nossa existência. Relembro-me, novamente, dos últimos pedidos de minha mãe. Desses pedidos ressalvo o mais importante. Ela repetiu-o ao longo da minha criação, durante 38 anos, que foi a idade com que me teve e a idade que eu tinha quando ela se foi. Sabia que eu era uma “cabeca no ar” e reforçou a ideia até que, quando chegou o momento, eu não me esqueci de lhe pedir a extrema unção. Vi a agitação e a calma, o antes e o depois. Pergunto-me se, nestes tempos de máscaras e álcool , plásticos e painéis,isolamentos e muito medo, essa unção tão  necessária estará a ser feita. Onde fica a espiritualidade e a benção de existir no meio desta loucura pandémica? Onde fica o toque, a pele, o calor do peito dum ente amado, o conforto duma mão apertada sem luva nem desinfetante? 

Não sei se é efeito do reforço, da terceira dose, ou da minha condição de quase eremita, ou dum pequeno pássaro que tive a honra de untar a fronte com as lágrimas da minha incapacidade.

Elsa Bettencourt

Diário Laboratório 2021: 14/1/2021

 O bloqueio fundo do tormento do fragmento provém do terror ínsito ao infinito da possibilidade.