quarta-feira, 7 de novembro de 2018

ALBERT CAMUS

"Celui qui, souvent, a choisi son destin d'artiste parce qu'il se sentait différent, apprend bien vite qu'il ne nourrira son art, et sa différence, qu'en avouant sa ressemblance avec tous. L'artiste se forge dans cet aller retour perpétuel de lui aux autres, à mi-chemin de la beauté dont il ne peut se passer et de la communauté à laquelle il ne peut s'arracher".
---- Albert Camus, Discours du 10 décembre 1957 à Stockholm (Suède)

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Segunda Entrada do Diário Laboratório de 15/3/2018

15/3/2018
(Segunda Entrada)
Completa-se a espera com uma astúcia: transcrever tudo o que passar pela cabeça. Talvez um dia se arrumem as ideias, os escritos, os papéis, os projectos editoriais; se dê destino e propósito a tal corpo.

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

Primeira Entrada do Diário Laboratório de 15/3/2018

15/3/2018
(Primeira Entrada)
É possível compreender aqueles que viveram através da escrita. A realidade prática, com todas as suas dificuldades, repugna. A escrita, pelo contrário, é sortilégio: permanente fuga imaginosa ou um cumprir-se ante a danação alienante de um estrepitoso século, experienciar possibilidades, impossíveis doutro modo, seduzir e até afastar maleitas, na literatura, se é de são vigor ou, no limite, exorcizar a morte pois, enquanto se é pleno a morte nada é.

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Segunda Entrada do Diário Laboratório de 14/3/2018


(Segunda Entrada)

No contar, a importância axial do exercício da minúcia. De outro modo, o perigo da generalização e do vago, da tese e não da história, isto é, da sua circunstância num tempo; o que foi assim e não d'outra maneira qualquer. O que é mais do que a forma. É, em conjunto, inseparável com o seu conteúdo; mas que só o poderia ser naquele momento, com tais personagens, nesse espaço cénico e tudo o mais que seja relevante e que, além disso, é único.

sábado, 20 de outubro de 2018

Primeira Entrada do Diário Laboratório de 14/3/2018


14/3/2018
(Primeira Entrada)
Ventos atrozes os da impaciência.
Os da obsessão fragmentária.
Quisera a obra extensa e, por isso, também intensa pois, num certo sentido, amiúde puramente quantitativo, a respiração dilatada permite a exploração das intensidades intrapsíquicas, do detalhe descritivo, da modelação lenta, por exemplo, de um personagem.
A brevidade, fulguração exígua, tem evidentes limitações.

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Entrada do Diário Laboratório de 13/3/2018


13/3/2018
A ansiedade é sempre um sentimento d’angústia - um aspecto existencial que é uma captura. Sentem-se, obsessivamente, as seguintes perguntas: «porquê eu?»,«porquê eu, nesta conjugação cósmica que fez levantar-se esta urgência?». Porque também há algo de urgência - no fazer, quando se quer restar quedo; no não fazer ainda, quando se exige a espera.
A ansiedade: suster (ou acelerar) a temporalidade específica do contexto ansiogénico, de tal modo que se suspendam as causas ou que se remetam, instantaneamente, para o passado.
Não custa entender que esse sentimento, na escrita, seja lídimo produtor do fragmento: suspende-se o texto no momento em que surja a primeira dificuldade; remetê-lo para o passado, começando logo outro escrito; por igual curto, provisório e já arcaico.

domingo, 14 de outubro de 2018

Entrada do Diário Laboratório de 12/3/2018


12/3/2018
(Consideração)
É algo de terrível a hora-do-lobo.
Tempo de calma e desolação.
É algo de terrível porque se contempla já – isto é, em qualquer momento da vida - a senelescência e a sua miséria, a fauce escancarada da ceifeira, tudo o que se perdeu e, ademais, parece fazer-se presente tudo o que se irá perder.
É também bela a hora-do-lobo pois é a vivência do vício da melancolia.

sábado, 13 de outubro de 2018

Entrada do Diário Laboratório de 11/3/2018


11/3/2018
A literatura não é quem sou mas estou todo nela.
Um modo, quiçá, de me saber em tod’esta errância. Um modo, quem o adivinha?, de entender o devir do mundo e eu nele ou de o compreender na sua faceta mais externa, como se eu nele não existisse.
Um dia, saberei quem fui.
Há um perigo, contudo. Esse é o de viver excessivamente imerso na dimensão poético-literária; e a vida não é isso. Antes pelo contrário, é, em rigor, tudo o que está fora dela.
Melhor a metáfora do espelho ou a de um eco ou, ainda, de fantasmagoria activa pois talvez convenha ao labor estético reduzir o estrépito das coisas a um murmúrio.

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Entrada do Diário Laboratório de 18/2/2018


18/2/2018
Ficção narrativa como função-de-verdade (verdade-do-tempo, bem entendido; está implícito).
Mas, o que é que isso implica?
Um método exploratório cuja pesquisa é descobrimento. Não, o autor não é livre.

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

DIVA


Jean Jacques Beineix
                                       
França, 1981


A primeira de várias lições que aprendi com este filme foi a de que era possível filmar um poema, facto até aí considerado completamente impossível na mais imaginativa e jovem mente que me orientava no final da minha adolescência. Um poema em fundo azul feito de formas e sons que nos agarra desde o primeiro instante atirando-nos para um universo único de sonho e emoção.  O impacto causado por este filme foi de tal maneira profundo que o decidi ver e voltar a ver vezes sem conta sem nunca me cansar ao longo de uma vida inteira. Baseado no livro homónimo de Daniel Odier (1979) com o pseudónimo Delacorta, DIVA representa à partida uma primeira tentativa do cinema francês em se afastar do modo realista até aí imperante na década de 70 bem como o regresso a um estilo melódico e colorido mais tarde definido como cinéma du look (*). Um estilo onde se incluiriam além do próprio Beineix, cineastas como Luc Besson e Leos Carax que privilegiavam o estilo sobre o conteúdo, o espectáculo sobre a narrativa, num visual focado em personagens jovens representantes de uma certa marginalidade na França de Miterrand. Há uma cantora lírica (interpretada pela soprano americana Wilhelmenia Fernandez) que se recusa a fazer registo das suas actuações, um jovem carteiro amante de ópera que consegue uma gravação pirata num concerto, um grupo de mafiosos que procura por todos os meios obter essa mesma fita, uma rede de tráfico de mulheres dirigida por um inspector da policia e sobre tudo isto, Paris. Mas a história acaba por ser o que menos interessa na medida em que o tempo é escasso para absorver tanto a beleza das imagens como do objecto filmado. Mais uma vez o Cinema assume a sua linguagem directa exprimindo-se na sua dimensão mais pura de significação deixando a narrativa e a sequência da acção num plano secundário. Desde a alucinante cena da perseguição no Metro até à explosão de um clássico Citroen branco e imaculado dos anos 30 passando por um farol idílico e um "puzzle" gigantesco que só vamos conseguir entender mesmo no fim vai pairando sobre nós uma área da ópera "La Wally" (1892) do compositor italiano Catalani.  Num filme de enquadramento e folclore típicos da cultura pop, a sua inspiração principal vem do amor à ópera reforçando as possibilidades ilimitadas de diálogo entre estilos, artes e discursos que aparentemente nada têm a dizer entre si. O compasso entre a beleza do canto lírico e a rusticidade dos mafiosos só se interrompe com a inocência do jovem carteiro, bem como com o auxílio dos seus companheiros de aventura.
O cartaz deste filme é uma expressão de identidade visual daquilo que pretende representar, ou seja, um jogo de formas e personagens de várias dimensões em harmonia interactiva. Um fundo azul, rostos inacabados, assustados, caminhos sem direcção, universos distintos comunicantes entre si.
Para mim, para além de um dos filmes da minha vida, DIVA é um poema sobre o vazio das nossas vidas. Mas é também um convite à imaginação e à obrigação que todos temos de construír algo de belo num espaço onde estamos apenas de passagem.





Artur Guilherme Carvalho

(escritor/cinéfilo/crítico de cinema)




(*) Designação atribuída ao crítico de cinema Raphael Bassan em "La Revue Du Cinéma" nº 448 de Maio de 1989.

Publicado na página digital da Cinemateca - Museu do Cinema, na colecção Textos e Imagens. 

Lisboa 05/07/2018

quinta-feira, 7 de junho de 2018

SUNRISE



SUNRISE

F. W. Murnau

EUA, 1927





Foi em Outubro de 1981, ao fim de tarde, que conheci a minha segunda casa.
Ainda nada tinha visto de Murnau, apenas sabia, do que já tinha lido, que era um dos maiores realizadores de sempre, mau grado a curta filmografia, interrompida brutalmente, aos 42 anos de idade, por um acidente de viação cujas concretas circunstâncias nunca foram totalmente esclarecidas.
Já tinha vistos filmes mudos, já me sentia fascinado pelas possibilidades dos silent movies, e até já sabia que Murnau, a esse nível, havia realizado um filme único, quase sem intertítulos – Der Letzte Mann – mas foi só nesse fim de tarde que percebi a verdadeira maravilha que era poder contar uma história de forma intrinsecamente visual, com recurso, essencialmente, a imagens, em que as palavras são meramente acessórias para a dinâmica da narrativa.
Hitchcock – cineasta que me é tão caro – dizia que o verdadeiro Cinema era o mudo, pois começou por ser a arte de contar uma história apenas por imagens e pela capacidade de, utilizando os seus próprios mecanismos, câmara, iluminação, actores, cenários e figuração, torna-la percebível e credível aos olhos dos espectadores.
Sunrise é um exemplo máximo dessa Arte, como, aliás, todos os demais filmes mudos de Murnau, quase todos eles, obras máximas da História do Cinema.
Nosferatu dispensa apresentações pela genialidade da realização, O Último dos Homens é magistral, Tartufo espanta pelo rigor da encenação, Fausto é brilhante no rigor dos enquadramentos e nos espantosos claros-escuros, mas Sunrise é tudo isso junto.
São muitas as suas exegeses, centenas os seus trabalhos de análise, inúmeros os livros que o analisam, pela história, pelos subterfúgios, pelo modo de contar, onde o mesmo é dissecado, plano a plano, fotograma a fotograma.
Nessa medida, apenas quero relatar, um pouco melhor, a impressão que me causou a espantosa história, tão simples nos seus pressupostos e tão singela na forma de ser contada, que quase me faz pensar que qualquer pessoa poderia filmar assim.
O eu vi em Sunrise, nessa tarde de 1981, é que ao lado de uma aparente apologia da felicidade doméstica, o filme mergulhava nalguns dos mistérios mais fundos do ser humano, como o amor, o desejo e a culpa.
Modelo maior disto mesmo, é fabulosa panorâmica, num longo plano único, logo no início do filme, em que acompanhamos a viagem de George O`Brien até Margaret Livingston, a perversa mulher da cidade, a erótica e sensual vamp, pelo qual se perde de desejo, admitindo até matar a sua angélica mulher, para poder vender a sua quinta e partir com aquela para a cidade.
É uma sequência admirável, com alguns pormenores absolutamente geniais.
Os arbustos que cedem à passagem de O`Brien, a atmosfera onírica, a sensação de pecado que emerge das imagens e Margaret Livingston a retocar o rosto e os lábios, assim que se apercebe da aproximação daquele, tudo demonstrado de forma exclusivamente visual, sem a protecção de qualquer som.
Depois há os beijos e vamos percebendo – sempre e só, através da força das imagens - o domínio que aquela mulher, vestida de preto (difusamente iluminada, por contraste com a claridade que sempre recai sobre a simples Janet Gaynor), tem sobre a personagem de George O`Brien e a forma como este dificilmente resiste aos seus encantos.
Exemplo paradigmático disso, é como apesar de, ao princípio, se horrorizar com a sugestão que ela lhe faz de matar a mulher, acabar por admitir essa realidade, assim que vislumbra, num espantoso plano sobreposto, a loucura da movida da cidade e as possibilidades que se lhe abrem quando antevê a possibilidade de a gozar com uma mulher tão atraente e apetitosa.
Por isso, gosto tanto desta fotografia.
O`Brien, vergado ao fascínio do mal, irreversivelmente seduzido pela perversidade absoluta daqueles olhos negros, do cabelo preto, do chapéu escuro, da blusa preta, das pernas com meias de rede, dos sapatos de salto alto e de tudo o que este conjunto promete em conjugação com as delícias do mundo da cidade.
Sabemos todos a continuação da história e como O`Brien passará todo o filme a gerir a culpa de ter preparado o assassínio da sua mulher, a procurar redimir-se e como encara o naufrágio desta como uma punição pelo seu anterior comportamento.
Naquela tarde de Outubro de 1981, estava ainda longe de saber que a culpa seria um conceito que me apaixonaria e que me iria perseguir a vida toda em termos profissionais.
Em Sunrise, esse percurso criminal, de luta entre a honesta ruralidade e a maldade citadina, de culpa e redenção, começa nessa sublime sequência inicial, que esta fotografia reproduz parcialmente.
Também foi com Sunrise, que iniciei um percurso do qual me orgulho como pessoa.
Sunrise foi o primeiro dos muitos filmes que vi na Cinemateca, a casa onde aprendi a ver cinema.
Também por isso, Sunrise é um dos filmes da minha vida.


Renato Barroso

Juiz Desembargador



Nota: Este texto foi publicado originalmente na página digital da Cinemateca - Museu do Cinema
no âmbito da série "Textos e Imagens".


  

segunda-feira, 4 de junho de 2018

AZEITONAS

                  

                                                                         Sofia

terça-feira, 29 de maio de 2018

SINOS QUE TOCAM


                                                             
                                                                       Sofia