terça-feira, 16 de abril de 2013

CARLOS SELVAGEM


 

 


Carlos Tavares de Andrade Afonso dos Santos (1890 – 1973) ficou conhecido para as artes e letras pelo seu pseudónimo literário (Carlos Selvagem), alcunha recebida no Colégio Militar onde fez os seus estudos do ensino secundário entre 1901 e 1907. Destacou-se como militar, jornalista, escritor, autor dramático e historiador.

  Formado em Cavalaria pela Escola do Exército (actual Academia Militar), esteve  no Norte de Moçambique durante a Primeira Guerra Mundial. Da memória desse tempo publicará “Tropa de África” (1919).
 
 

Através de concurso público é escolhido para escrever o compêndio a utilizar nas escolas militares, produzindo para esse fim a obra “Portugal Militar – Compêndio de História Militar e Naval de Portugal desde as origens do Estado Portucalense até ao fim da Dinastia de Bragança” (1931), obra de referência ainda hoje utilizada.

No capítulo literário destaca-se pelas obras de trama histórico, de pendor nacionalista. Uma escrita marcadamente poética, original, onde o conteúdo ideológico e a crítica social se combinam com grande coerência. Das suas obras podemos destacar a nível literário os contos infantis “Picapau – Bonecos Falantes” e o romance “Espada de Fogo”. A nível dramatúrgico vamos encontrar peças de grande repercussão na sociedade portuguesa de então como “Entre Giestas”, “Ninho de Águias”, “Telmo o Aventureiro” e “Dulcineia ou a última aventura de D. Quixote”. Trabalhou diversas vezes com a dupla Amélia Rey Colaço – Robles Monteiro, cabeça de uma das mais importantes companhias teatrais do séc. XX, sendo a sua obra considerada das mais representativas da dramaturgia desse mesmo tempo. De uma forma geral, tanto a vida como a obra de Carlos Selvagem ficam indelevelmente marcados por dois valores fundamentais, dois eixos sobre os quais tudo assenta. São eles a “Moral” e a “Coerência”(*).

Muito mais relevante do que à partida se poderia pensar, a obra de Carlos Selvagem é um importantíssimo instrumento de análise do seu tempo na medida em que se debruça sobre temas incontornáveis tanto da sociedade como da política numa perspectiva equilibrada entre a pedagogia e a formação.

   Enquanto estudioso e defensor do Império Colonial destaca-se a importância a nível histórico da interculturalidade, que questiona alguns dos fundamentos da política colonial do Estado Novo (*). Em termos teatrais, as suas peças representam um quadro emocional agitado, conflituante e revoltado combinado com a actualidade política e económica. As intrigas do quotidiano são reflexos dessa mesma sociedade onde têm lugar. A crónica de costumes não surge de geração espontânea, tem uma razão de ser, é proveniente de um determinado estado de coisas.

Na parte literária, mais diversificada, reconhece-se o testemunho humano em seres comuns, que nem sempre são referências históricas nem pertencentes a elites com ideal moral, como acontece na obra historiográfica (*). As suas personagens, seja qual for o espaço em que se enquadram, traçam rumos marcados tanto pela sorte como pelas consequências dos seus actos. O que se destaca sempre é por um lado a dimensão humanista e por outro, um sistema de valores privilegiados (*).
 
 
 

Em termos políticos, Carlos Selvagem, apesar de nacionalista, tinha as suas divergências com o Estado Novo, culminando nos acontecimentos de Abril de 1947, a primeira tentativa para derrubar Salazar a seguir à II Guerra Mundial. Sob o comando do Almirante Mendes Cabeçadas, o coronel Carlos Santos acaba por integrar um movimento revoltoso que foi baptizado de “Junta de Libertação Nacional” com o objectivo de “repor o espírito inicial democrático do Golpe de 28 de Maio de 1926”. Acabou por ser preso.

 

Artur

 

 

 

(*) “O Olhar de Carlos Selvagem sobre Portugal d’aquém-mar e de além-mar “

 

Jorge, Helena dos Anjos Reis

 

Tese de Doutoramento em Literatura na especialidade de Língua Portuguesa

 

Universidade Aberta

 

2005 (?)

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