sábado, 27 de abril de 2013

ANÁLISE GERACIONAL





É sempre um exercício arriscado quando se aborda a problemática geracional contemporânea, os conflitos e os contributos para um dado momento histórico. Especialmente porque tendemos sempre a caír nessa armadilha de Narciso que acaba por só encontrar virtudes na nossa e defeitos em todas as outras. Tendo perfeita consciência de correr esse risco, quero que saibam também que me estou nas tintas para isso e que prosseguirei assim mesmo numa análise pessoal dos factos e das evidências. Mas acabemos com este paleio de intenções, generalidades e frases feitas e passemos ao que realmente importa.

Para começar poderia dizer que um bom critério de avaliação de uma geração passa inquestionávelmente pela forma como ela se relacionou com dois agentes fundamentais ao longo do tempo em que viveu. Primeiro a comunidade em que se inseriu, e segundo, a geração dos seus filhos. Por aqui teremos uma abordagem minimamente sólida com critérios materiais que produzirão efeitos concretos. Se é certo que todas as gerações construiram ou ajudaram a construir a História, vale a pena avaliar de que forma se desenvolveu esse processo. Os exemplos variam e podem começar na Idade Média, no tempo da construção das catedrais. Ora, tratando-se de empreitadas que demoravam por vezes décadas a terminar, seria necessário duas e três gerações para a sua construção. A primeira empenhava todo o seu esforço e todo o seu tempo na feitura de uma obra que só os seus netos conseguiriam ver concluída. Mas há outros exemplos como o de uma geração que se entrega à resistência e combate a um invasor para a sobrevivência da comunidade e garantia do seu futuro, ou a descoberta científica ou tecnológica que permitiria a melhoria das condições de vida no futuro. Um critério linear de observação e avaliação do papel de uma geração é aquele que se prende com o resultado do seu trabalho para com o futuro de uma comunidade, bem como a generosidade ou o egoísmo para com as gerações mais novas. Sendo generosos e solidários para com os mais novos, os mais antigos estão a preservar tanto a evolução como a garantia de um futuro para a comunidade. Se pelo contrário, uma geração mais velha se apropria do esforço dos mais novos para satisfazer os seus interesses de grupo, colocando-os ao seu dispôr sem lhes estender a mão, então além de estar aberto o conflito acaba por estar em perigo a própria comunidade. Se uma tribo sacrifica ou negligencia os interesses e o bem estar dos mais novos, então essa tribo arrisca-se a desaparecer e a sua extinção é mais do que previsível senão merecida. Muitas vezes as gerações mais velhas, uma vez instaladas, esquecem rapidamente que a sua duração nesta vida é limitada e que caminham sobre a terra por empréstimo como inquilinos e nunca como proprietários. Nem a terra nem a comunidade são propriedade de ninguém mas antes uma perpetuação de movimento onde cada geração faz uma parte do trabalho geral.

Posto isto voltemos ao nosso país, voltemos ao drama destes dias que correm em que nos arriscamos a deixar de ter um país. Salvaguardando todas as excepções que houver que salvaguardar generalizemos sobre a maioria por ser essa a facção relevante do rasto deixado nos corredores do tempo. Antes do 25 de Abril havia um país em guerra, as gerações no poder sacrificavam uma juventude inteira nessa guerra cujos objectivos e ganhos colectivos eram mais do que discutíveis. No 25 de Abril essa mesma geração rebelou-se, “virou a mesa” do regime político e instalou um novo sistema. Sistema esse que dura há quase 40 anos e onde a Democracia permitiu uma evolução em muitos níveis que nos fez recuperar muito do tempo perdido em praticamente todas as áreas do desenvolvimento civilizacional. Essa geração, além de mudar de regime, rapidamente se instalou no poder afastando inapelavelmente a outra, a que a queria sacrificar numa guerra. Até lhes chamavam o pessoal do “caga e tosse”, velhos e dispensáveis. Ora esse “caga e tosse” teria na altura cerca de 60/70 anos enquanto que a nova geração andaria pelos 30, 30 e poucos. E hoje, como é que se configura o quadro etário do poder político? Em grande parte, os que tinham 30 continuam por lá, só que agora têm a mesma idade dos antigos “caga e tosse”. E os de 50 anos para baixo? Dir-me –ão: estão agora a chegar ao poder. Pois estão e com desempenhos de arrepiante estupidez, ignorância e incompetência em geral. Vamos tentar ver porquê.

A geração de 30 anos no 25 de Abril, uma vez instalada tratou de montar um sistema extremamente rígido e eficaz, um edifício robusto que defendesse a sua posição. Assim se foi instalando em todas as àreas da sociedade não dando espaço nem pretextos para que outras gerações tentassem reclamar o seu lugar quando fosse chegada a hora. Erigindo filtros altamente apertados e sofirticadíssimos à entrada do poder e das salas de decisão (vulgo partidos), a única porta de entrada seria essa pequena saliência, esse estreito caminho sem o qual nada seria possível. E é desta maneira que se criaram as “jotas” ou juventudes partidárias, autênticos viveiros de ignorantes e incompetentes, fábricas de “yes men” cuja única função era dizer que sim a quem estava em cima, não questionar nem pôr em causa. Assim se preservou a geração anterior no poder e assim assistimos a esta parada de inúteis que hoje se colocam à frente dos principais partidos do espectro político. Quem não entrasse neste jogo, quem pensasse pela sua própria cabeça, quem questionasse o estado das coisas, era arrumado na gaveta do anonimato. Faça um esforço e observe algumas bancadas da Assembleia da República. Há-de reparar que, por vezes encontra deputados de 60 e 70 anos. Outras vezes jovens de 30, 30 e tal anos. Mas de 40 e 50, muito poucos e, nalguns casos (Partido Comunista), nenhum.

Haverá muitas outras razões para termos chegado a este quadro dramático e desesperante que quase destrói Portugal de vez, mas foi sem dúvida e mais uma vez o egoísmo e a ganância de uma geração mais velha que muito contribuiu para que este estado de coisas fosse possível. Como a própria História indica, de vez em quando uma nova geração cansada de ser utilizada e negligenciada pelo sistema, toma o futuro nas suas mãos e deita esse sistema abaixo. Que seja depressa é o que eu mais desejo.



Artur

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