"Só existe um problema filosófico realmente sério: o suicídio. Julgar se a vida vale ou não vale a pena ser vivida é responder à pergunta fundamental da filosofia. O resto, se o mundo tem três dimensões, se o espírito tem nove ou doze categorias, vem depois.”
Albert Camus
Texto: Paula Guimarães
Encenação: Diogo Infante
Interpretação: Sérgio Praia
Exibição até 29 de Junho no Teatro da Trindade
A morte é a questão mais absoluta de todas as civilizações. O suicídio é o tema mais absoluto de toda a Filosofia. No modo como lidamos e reflectimos um e outro conseguimos encontrar a medida e o relacionamento com os nossos padrões de cultura, a nossa organização mental, o entendimento de nós próprios.
Um homem apresenta-se-nos no palco, separado do público através de um gradeamento prisional. Uma voz off procede ao interrogatório. O crime de que é acusado? O homicídio de várias pessoas por vontade das mesmas. A partir daqui partimos numa viagem alucinante onde são descritas histórias de várias pessoas que, tendo escolhido a morte não tiveram a força ou a coragem de o fazer sozinhas. Por isso recorreram aos serviços deste homem, o Eutanasiador, que as ajudou a cumprir a sua vontade. Escolhendo o processo, assinando um contrato de prestação de serviços, assumindo a sua escolha para memória futura.
E ao longo deste quase monólogo vamos assistir ao desenrolar de um enorme novelo de questões que são mais familiares no nosso quotidiano do que à primeira vista poderiam parecer. Logo à cabeça o direito à escolha. O direito de um indivíduo decidir soberanamente acerca do términus da sua existência, a figura clássica do suicídio. A dignidade de morrer minimizando o sofrimento e a degradação inevitáveis do corpo. A fronteira entre o conceito de crime e o de culpa.
Apresentando-se como um ser amoral, hedonista, insensível e sedutor, o Eutanasiador acaba por se revelar ao mesmo tempo um assassino material, um manipulador e um manipulado. Fascinado pela morte vê ao mesmo tempo nessa actividade um “nicho de mercado”, uma forma de ganhar dinheiro apesar do contratempo da publicidade lhe dificultar o trabalho. Se por um lado não pode pôr um anúncio a oferecer os seus serviços também não pode contar com a clientela para os recomendar a outros potenciais clientes... O humor negro pontua a carga dramática como forma de aligeirar o ambiente. Uma atmosfera onde ninguém se consegue sentir confortável e dentro da qual se vai construindo um convite a cada um para fazer parte da estrutura dramática. Tema tabu, a eutanásia, tal como a morte, é ainda hoje um tema incómodo, um impecilho que se varre para debaixo do tapete no discurso da sociedade. Todos sabemos que existe, todos sabemos que a nossa existência acabará um dia, mas isso não é assunto para conversar. E dentro desse desconforto escondemos desejos que ainda menos revelamos. Há um momento em que o Eutanasiador se vira para os interrogadores e lhes pergunta:
- Se calhar até têm alguma inveja do meu trabalho. Quantas vezes não desejaram matar este ou aquele e, simplesmente, não tiveram coragem de o fazer...ou admitir?
Nesta altura não é só o interrogador que é interpelado, mas cada um de nós.
Por fim o Eutanasiador deixa-se capturar. Não por falha própria mas para dessa forma poder dar testemunho da sua actividade, do seu profissionalismo, para que o mundo conheça o seu nome e a eficácia do seu desempenho. Por isso vai deixando pistas, desleixa-se. Aqui não sabemos se o motivo para pôr um fim na sua carreira se deverá apenas a uma necessidade de divulgação do seu trabalho, a uma exigência de gratificação do ego, ou se também o seu fim se aproxima (há um espasmo durante o interrogatório indicador de algum problema de saúde). Não sabemos. O texto não nos dá direcções, não debate conceitos nem estados de consciência. Aquilo que faz, e de uma forma brilhante é confrontar-nos, interrogar-nos, pôr-nos a pensar. E é nesta inquietude estimulante que reside grande parte do êxito desta obra.
Autora premiada, jurista de formação e formadora na área do envelhecimento e do direito das pessoas idosas e com demência, Paula Guimarães alcança aqui mais um patamar de qualidade e enriquecimento do património cultural no seu já longo trajecto criativo. A encenação de Diogo Infante é perfeita, envolvente e ao mesmo tempo estimulante do princípio até ao fim. Por fim a interpretação do actor Sérgio Praia revela sobriedade, realismo e um posicionamento que rapidamente transforma o seu texto num diálogo com uma plateia de caras conhecidas, amigos de longa data habituados a longas conversas.
Tudo isto somado, estamos perante um grande momento de teatro, uma proposta desafiante fora da caixa, em suma, num belo momento de criação cultural.
Artur Guilherme Carvalho



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