sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

DAS PALAVRAS




E no entanto elas voltam, acabam sempre por voltar. Como bando de pássaros ora disperso ora em formação, no último instante antes de ficar escuro, regressam. Embrulham-se umas nas outras em formas de frases, trazem-me os óculos para que veja melhor. Ficam á espera. Constroem-se, enganam-se, inventam-se, gastam a sua energia em busca de uma história. Essa é a natureza delas.
Entre pausas e algazarras, entre tristezas e sorrisos todas sabem exactamente onde se colocar, onde abrir e fechar os sons de maneira a falar uma de cada vez.
De início escolhem-se vários caminhos sem saída. Volta-se atrás, rasga-se a folha. Cansaço, desespero, o medo de não conseguir dizer, de não saber dizer, de não chegar ao fim. Depois, por um simples desvio que não estava lá antes o caminho que se abre é novo, as pedras vão sendo menos, o piso muito mais seguro e confortável e o Tempo desaparece dos radares. Passa a não haver tempo nenhum a não ser o de inventar, de contar, de trabalhar com as palavras.
E o cenário avança, a história vai ganhando caminho e por um breve, brevíssimo instante, parece que tudo está certo, a realidade não poderia ser mais perfeita. Esse é o momento da construção, o mais confortável dos momentos onde a concentração apaga toda a escuridão e sofrimento à volta. Palavra junta-se a palavra, frase engancha em frase, capítulos, personagens, coerência narrativa. Chegam os fantasmas que se vêm juntar ao trabalho em colaboração com as palavras. Com muitas histórias na bagagem, cada um tem a mais importante para contar, falam todos ao mesmo tempo, protagonistas desse tempo suspenso que os invoca mas nunca da maneira que pensavam ser invocados.
Por fim a história termina. É o tempo das despedidas, de desmontar a barraca e partir outra vez. De forma dispersa ou em formação as palavras voltam a voar em dispersão por um céu fora que começa a amanhecer. Os fantasmas retiram-se deixando contactos para o caso de as suas histórias voltarem a ter relevância. Há alguma nostalgia no ar. As palavras ficaram numa organização que conta histórias, as palavras partiram com os fantasmas ao amanhecer. Mas acabarão por voltar noutra altura. Voltam sempre. As palavras…


Artur

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