sexta-feira, 11 de março de 2011

REINALDO FERREIRA - REPORTER X



Há pessoas que, não estando em nenhum lado conseguem estar em toda a parte, acordando nos outros a mais escondida porção de imaginação adormecida. Pessoas que se deslocam muito confortavelmente entre a realidade e a ficção, entre este mundo e outros, sem se sentir obrigados a estabelecer barreiras entre eles .Reinaldo Ferreira (1897 – 1935), também conhecido como Repórter X, era um desses raros exemplos. O seu mito nasce de um erro do tipógrafo do jornal “A Tarde”. Confundindo “repórter” com Reinaldo, e “X” com um arabesco que pretendia dizer “Ferreira”, uma série de artigos sobre a ditadura de Primo de Rivera em Espanha, perfaz o baptismo jornalístico.
Demasiado condicionado no trabalho de repórter e demasiado limitado num país provinciano de interesses, Reinaldo Ferreira começa a inventar reportagens sensacionais, misturando o real com o fantástico, limitando a realidade objectiva ao ponto de partida para sucessivas e intermináveis vagas de imaginação. O que o público tomava por audaciosas reportagens era afinal fruto da imaginação de Reinaldo Ferreira, que no aconchego do gabinete ou na cama compunha as mais prodigiosas criações novelescas. Inventa entrevistas (Conan Doyle, Mata Hari), escreve crónicas de lugares onde não se encontrava, projecta o futuro em Lisboa e no Porto no ano de 2000, contribui para a criação de mitos a partir do nada. O seu mais relevante exemplo será a “recolha” das ultimas palavras do Presidente Sidónio Pais, assassinado na estação do Rossio no final de 1918: “Morro bem, salvem a Pátria”. Ora o que acontece é que nem Reinaldo Ferreira presenciou o sucedido, nem o Presidente teve tempo para dizer nada depois de alvejado duas vezes no peito. O que é certo é que ainda hoje há muita gente que tem como reais as tais palavras que o presidente moribundo nunca chegou a pronunciar. Estas invenções, ou distorções da realidade, à medida que começam a ser percebidas chegam mesmo a criar um termo próprio para aquilo que era ficção: “reinaldices”. Ao que Reinaldo Ferreira responde com a desculpa que “estava a reporterxizar”.
Trabalhando em praticamente todos os jornais mais importantes do seu tempo, desde “O Século” até ao “Primeiro de Janeiro”, passando pela “Capital”, Reinaldo Ferreira era acima de tudo, o mais importante criador de literatura policial e de aventuras do seu tempo. Acompanhando o mundo em capitais como Paris, acabou por desenvolver um estilo novelístico povoado de seres extraordinários em cenários fantásticos para grande deleite dos seus leitores. Homem dos “sete instrumentos”, a sua vida passa também pela criação teatral e pela realização cinematográfica enquanto argumentista e realizador. Consumidor confesso de drogas (essencialmente ópio e morfina), Reinaldo Ferreira morre prematuramente aos 38 anos, deixando para trás uma vasta colecção de títulos, crónicas e peças de teatro, reveladores do génio imaginativo permanentemente inquieto. Rever a sua obra é também entrar no espírito dos anos “20” do século passado, num tempo tão agitado e tão propenso à criação de universos fantásticos, como era a mente agitada do Repórter X.

Artur