quarta-feira, 6 de novembro de 2013

O PÊ PÊ









"A estupidez é a euforia do lugar"
Roland Barthes



Parafraseando Mark Twain, acontece-me dizer: "As notícias sobre a inteligência de paulo portas são manifestamente exageradas". De facto, aquele que era irregovágel, passou também a inenarrável, mercê das suas aventuras no Extremo Oriente: factos, eventos, ditos, paródias totalmente inexplicáveis, por isso impossíveis de narrar. portas é simultaneamente o deserto, o camelo e o viajante, tal a euforia com que habita o lugar. E que lugar é esse ? Não se sabe, muda diariamente, muda hora a hora, minuto a minuto, ao sabor da conveniência do momento, com a máscara dos interlocutores momentâneos, com a premente necessidade de sobreviver a todo o custo. Como as marés, pê pê vai e vem, assume a pose de estadista, despe o fato de lacaio da direita dos interesses, veste a farda do paladino dos reformados, dos contribuintes e dos homens da lavoura, volta a vestir o fato e gravata de vice-primeiro, coloca o letreito que diz "sentido de estado", assume a pele do católico, despe a máscara do democrata-cristão, volta a enfiar o fato do patriota in extremis e por aí fora, sem cansaço nem desconforto. Uma das últimas pérolas que proferiu foi: "os pobres não se manifestam, nem aparecem na televisão". Uma verdade óbvia: toda a gente sabe que os manifestantes estacionam os porsche e os ferrari nos parques subterrâneos antes de enfileirarem nas manifestações. Estas terminadas, rumam às suas mansões na quinta da marinha, comemorando o sucesso dos protestos com champagne francês e lagosta suada. E onde pára a sua famosa "inteligência" no meio de tudo isto ? Em lado nenhum, na verdade. Lá jeito para a intriga e a maquinação, ninguém lho nega. Dissimulação, embuste, denegação da verdade, muito bem. Falta de carácter, instinto de sobrevivência, tenacidade nos ódiozinhos de estimação, ambição sem limites, sem dúvida. Ausência de coluna vertebral, flexibilidade nas convicções, doutrinas gelatinosas, olhinho vivo para as oportunidades, há-de aparecer quem lhe peça meças. Inteligência ? Zero. Porque a verdadeira inteligência não existe sem a ética. Porque as competências que supra ficam reconhecidas, desacompanhadas de uma verticalidade moral a toda a prova não passam de "sepulcros caiados de branco", uma contradição nos termos, um oxímoro. Porque a capacidade para o "sound-byte", ou a habilidade para proferir grandes frases que se reclamam de grandes princípios não demonstrados , é apenas sofisma e máscara, "doxa" sem conteúdo, vento levado pelas palavras.
Por outro lado, o portas é um génio. Consegue reunir em si as personagens Bouvard e Pécuchet, as mais assombrosas personalidades imaginadas por Gustave Flaubert. Se um dia, tomado de um irresistível impulso, alguém se dispusesse a compulsar as várias metamorfoses do portas e as reunisse numa Sagrada Escritura, viria a descobrir que a cola que une o portas-jornalista ao portas-vice, passando pelo portas-ministro da defesa e dos negócios, é uma espécie de equivalência universal, o domínio do relativismo absoluto: o Bem e o Mal são iguais; iguais são também o Belo e o Feio; irmãos gémeos o definitivo e o transitório, o estável e o instável, o antigo e o moderno, os vales e as montanhas, a felicidade e a infelicidade, tudo convergindo na celebração deste novo ídolo, neste majestoso EGO que tudo subsume na sua magnificência e na inestimável grandiosidade que a todos ofusca e que deveria impedir os ímpios como eu de olharem directamente para este Sol. Perplexo, descubro que a Estupidez já não é uma característica de certas ideias. Pelo contrário, tal como um deus equanime, espalha-se por toda a parte, propaga-se em todas as direcções, entre crentes e ateus, entre os camponeses e citadinos, entre matemáticos e líricos. A Estupidez é o sanguinário reino de papel do homem novo que foi anunciado em Junho de 2011.