sexta-feira, 29 de abril de 2011

quinta-feira, 28 de abril de 2011

A FAMILIA PRUDÊNCIO


Princípio dos anos 70, um trabalho de animação para um público específico e com uma intenção didáctica. O mundo rural e a correcta utilização dos pesticidas.

O MÊS EM QUE ESTIVÉMOS EM PARTE NENHUMA

Abril passou-me ao lado, como uma lebre apressada ao amanhecer numa charneca inglesa pintada de nevoeiro. Trabalha-se, faz-se uma pausa para terminar tarefas atrasadas, pagar contas, acompanhar as vidas que dependem de nós e, volta-se ao trabalho. Não o vi, enquanto o país se engasga em comentadores gastos de discursos liquefeitos em inevitabilidades, enquanto o país deixa mais uma vez de ser país para respeitar a vontade do exterior, em que se levantam os estandartes da beatada e das cabeças coroadas para entreter o pagode. O eterno pagode, a eterna farsa, os eternos personagens da mesma história repetida até ao vómito. Abril passou-me ao lado enquanto os gigantes financeiros sem rosto acumulam riqueza e dão continuidade ao processo de genocídio sobre a humanidade. Quem não tem dinheiro não tem direito à vida. Abril passou-me ao lado enquanto a União Europeia se deixa afogar nos meandros da sua própria burocracia, enquanto se enterra na sua própria inércia, sem uma atitude digna desse nome para precaver e fazer face ao primeiro momento de gravidade da sua história. Abril passou-me ao lado com a porta da Assembleia fechada para obras, balanço, intervalo de regime, adiamento de Liberdade. Abril passou a correr como uma lebre e já quase não me lembro do sabor da rua, quando a rua gritava e se podia respirar. Estou velho e moribundo e já nem força tenho para julgar, encontrar culpados, descobrir razões, sugerir caminhos. Falhei…redondamente. Isso é mais que certo. Falhei quando gritei menos, falhei quando me deixei abater e não reagi. Falhei quando não me quis sujar, quando achei que não valia a pena. Falhei quando não insisti, quando não me ofereci ao sacrifício para a passagem da liberdade das outras gerações. E voltei a falhar quando não morri lá atrás com os outros que tiveram que sair mais cedo. Falhei desde o dia em que nasci, simplesmente porque não fui fabricado para vencer.
Abril passou-me ao lado mas ainda há um rasto para trás. Um rasto de memória escrito e em imagens, há amigos, família, amor, bons momentos, filhos, sobrinhos, gente com quem dividimos um cigarro, uma gargalhada, uma refeição. E essa estrada é o trilho sagrado sobre o qual construi a minha história. Houve lágrimas e risos, houve amor e ódio, noites loucas de eternidade e celebração, houve concertos de rock e overdoses, houve noites em branco e despedidas inesperadas, houve arte à solta, amigos até à morte, livros fatais e filmes inesquecíveis.
Abril passou-me ao lado, mas a minha vida não.

Artur

domingo, 17 de abril de 2011

O DESNECESSÁRIO RESGATE DE PORTUGAL

«O pedido de ajuda de Portugal para as suas dívidas junto do Fundo Monetário Internacional e da União Europeia na última semana deve servir de aviso para todas as democracias.

As crises que começaram com os resgates da Grécia e Irlanda no ano passado tiveram uma feia reviravolta. Contudo, este terceiro pedido de resgate não é realmente sobre dívida. Portugal teve uma forte performance económica nos anos 90 e estava a conseguir a sua recuperação da recessão global melhor do que muitos outros países na Europa, mas viu-se sob injusta e arbitrária pressão dos correctores, especuladores e analistas de rating de crédito que, por visão curta ou razões ideológicas, conseguiram forma de afastar uma administração democraticamente eleita e potencialmente amarrar as mãos da próxima.

Se deixadas sem regulação, estas forças de mercado ameaçam eclipsar a capacidade dos governos democráticos — talvez até da América — para fazerem as suas próprias escolhas sobre impostos e despesas.

As dificuldades de Portugal eram admitidamente semelhantes às da Grécia e Irlanda: para os três países, a adopção do Euro há uma década significou que tiveram de ceder o controlo das suas políticas monetárias, e um repentino incremento dos níveis de risco que regulam os mercados de obrigações atribuíram às suas dívidas soberanas foi o gatilho imediato para os pedidos de resgate.

Mas na Grécia e Irlanda o veredicto dos mercados reflectiu profundos e facilmente identificáveis problemas económicos. A crise portuguesa é bastante diferente; não houve uma genuína crise subjacente. As instituições e políticas económicas em Portugal que alguns analistas financeiros vêem como potencialmente desesperadas tinham alcançado notável sucesso antes desta nação ibérica de dez milhões ser sujeita às sucessivas ondas de ataque dos mercados de obrigações.

O contágio dos mercados e redução de notação, que começaram quando a magnitude das dificuldades da Grécia emergiu no início de 2010, transformaram-se numa profecia que se cumpriu a si própria: ao aumentar os custos da dívida portuguesa para níveis insustentáveis, as agências de rating forçaram Portugal a procurar o resgate. O resgate deu poder aos ‘salvadores’ de Portugal a pressionarem por impopulares políticas de austeridade que afectaram empréstimos de estudantes, pensões de reforma, subsídios sociais e salários públicos de todos os tipos.

A crise não é culpa do que Portugal fez. A sua dívida acumulada está bem abaixo do nível de nações como a Itália que não foi sujeita a tão devastadoras avaliações. O seu défice orçamental é mais baixo do que muitos outros países europeus e estava a diminuir rapidamente graças aos esforços governamentais.

E quanto às perspectivas de crescimento do país, que os analistas convencionalmente assumem serem sombrias? No primeiro quarto de 2010, antes dos mercados empurrarem as taxas de juro nas obrigações portuguesas para os limites, o país tinha uma das melhores taxas de recuperação económica na União Europeia. Numa série de reformas — encomendas industriais, inovação empresarial, realização educacional, e crescimento das exportações — Portugal igualou ou mesmo ultrapassou os seus vizinhos do Sul e até da Europa Ocidental.

Por que razão, então, foi tão desclassificada a dívida portuguesa e a sua economia empurrada para o limite? Há duas possíveis explicações. Uma é o cepticismo ideológico em torno do seu modelo económico misto, que suportava empréstimos às pequenas empresas, em conjunto com algumas grandes companhias públicas e um robusto estado-providência. Os mercados fundamentalistas detestam intervenções de estilo keynesiano em áreas da política interna portuguesa — que evitavam uma bolha e preservavam a disponibilização de rendas urbanas baixas — quanto a assistência aos pobres.

A falta de perspectiva histórica é outra explicação. O nível de vida dos portugueses cresceu muito nos 25 anos que se seguiram à revolução democrática de Abril de 1974. Nos anos 90 a produtividade laboral cresceu rapidamente, as empresas privadas aprofundaram o investimento com a ajuda do governo, e partidos tanto de centro-direita como de centro-esquerda apoiaram o aumento da despesa social. Por altura do fim do século o país tinha uma das taxas de desemprego mais baixas da Europa.

Em justiça, o optimismo dos anos 90 deu origem a desequilíbrios financeiros e ao gasto excessivo; os cépticos quanto à saúde da economia portuguesa apontam para a sua relativa estagnação entre 2000 e 2006. Apesar disso, no início da crise financeira global em 2007, a economia estava de novo a crescer e o desemprego a descer. A recessão acabou com essa recuperação, mas o crescimento retomou-se no segundo quarto de 2009, mais cedo do que noutros países.

Não se podem culpar as políticas domésticas. O primeiro-ministro José Sócrates e o governo socialista mexeram-se para cortar no défice enquanto promoviam a competitividade e controlavam a despesa pública; a oposição insistia que podia fazer melhor e forçou o senhor Sócrates a demitir-se este mês, preparando o palco para novas eleições em Junho. Isto é normal em política, não um sinal de confusão ou incompetência como alguns críticos de Portugal acenaram.

Podia a Europa ter evitado este resgate? O Banco Central Europeu podia ter comprado de forma agressiva as obrigações de Portugal e protegido o país do pânico mais recente. Regulação da União Europeia e dos Estados Unidos sobre o processo utilizado pelas agências de rating para avaliar a fiabilidade de crédito da dívida de um país é essencial. Distorcendo as percepções dos mercados sobre a estabilidade portuguesa, as agências de rating — cujo papel em fomentar a crise hipotecária nos Estados Unidos está amplamente documentado — armadilharam tanto a sua recuperação económica como a sua liberdade política.

No destino de Portugal reside um claro aviso para os outros países, os Estados Unidos incluídos. A revolução portuguesa de 1974 inaugurou uma onda de democratização que varreu o globo. É bem possível que 2011 possa marcar o começo de uma onda de invasão da democracia por mercados desregulados, com Espanha, Itália ou Bélgica como próximas vítimas potenciais.

Os americanos não iriam gostar muito se instituições internacionais tentassem dizer a Nova Iorque, ou a outra qualquer cidade americana, para abandonar as suas leis de controlo de rendas. Mas é este precisamente o tipo de interferência que agora acontece em Portugal — tal como aconteceu na Grécia ou Irlanda, apesar desses países terem maiores responsabilidades no seu destino.Apenas governos eleitos e os seus líderes podem assegurar que esta crise não acaba por minar os processos democráticos. Até agora parecem ter deixado tudo nas mãos da imprevisibilidade dos mercados de obrigações e das agências de rating.»



Robert M. Fishman

Professor de Sociologia da Universidade de Notre Dame, Indiana

Fonte: NEW YORK TIMES

O CÂNDIDO

A primeira imagem que tenho dele é a de um puto de estatura média no meio do recreio a tentar chamar a atenção dos outros. Gritava: “Todos contra mim!” e a seguir aguentava uma chuva de miúdos que lhe caíam em cima em gritaria de manada descontrolada. Estávamos a na terceira classe da instrução primária (agora, terceiro ano). O Cândido fazia isto duas vezes por semana. Passada a avalanche da manada, levantava-se todo sujo e com a roupa fora do lugar, sacudia-se e lá voltava ao seu caminho como se nada fosse. Era um tipo bem disposto e tranquilo armado de um sorriso sincero, desconcertante. Nesses dois anos em que estivemos juntos na mesma turma (classe) convivíamos a jogar à bola ou ao “guelas” (berlinde a três covas). De vez em quando fazia-se intervalo. O Cândido corria para o meio do recreio e gritava: “Todos contra mim”.
Num Domingo em que passava de carro com o meu tio pela Praça de Espanha, vi o Cândido. Junto com mais alguns miúdos, aproveitava os semáforos fechados para vender tabaco de contrabando no meio do trânsito. Fiquei depois a saber que ele e os outros, eram mandados pelos pais para ganhar alguns trocos. Como eram menores a polícia nada podia fazer para os deter. Na segunda-feira perguntei-lhe se também podia ir com ele, para fazer uns trocos. A resposta foi imediata. Quais trocos? Todo o dinheiro que fazia era para entregar ao pai dele. E se fizesse pouco, além de trabalhar o Domingo inteiro, ainda se candidatava a um valente arraial de porrada. E tudo isto ele dizia com a maior das simplicidades, com se de um evidência se tratasse. Não havia justiça nem injustiça. As coisas aconteciam assim e era dessa maneira que ele vivia…com o que tinha.
Depois de concluída a escola primária, eu fui para um colégio interno e deixei de ver o Cândido. Encontrei-o já com 15 anos numa esquina do bairro. Nessa altura já dominava por completo a técnica de roubar auto-rádios, vendia e consumia quase todos os tipos de droga. Mas o sorriso era o mesmo, apenas o brilho dos olhos é que tinha escurecido. Já tinha passado uns meses no reformatório, acabando por sair através de um sistema de semi-internato. Desde que frequentasse as aulas de uma escola técnica e apresentasse bons resultados ficava libertado. Não estava a correr mal. Faria tudo para não voltar aquele sítio. Mesmo estudar. Convidou-me para ir assistir a um jogo de andebol da escola dele. Não mostrei muito entusiasmo. Ele insistiu. Os vigilantes controlavam a obrigatoriedade das entradas. Quem não fosse era penalizado. Mas também não era para demorar muito. Dez minutos depois estaríamos todos cá fora. Dez minutos? Mas isso não chegava nem ao intervalo do jogo. “Garanto-te que são dez minutos. Vem comigo que depois percebes. Acabei por ir. A escola do Cândido era composta por toda a espécie de adolescentes problemáticos, todos com cadastro no mundo do crime. Chagámos ao pavilhão, as equipas entraram e começou a partida. A bancada de apoio da escola dele podia configurar a Liga de Juniores de um congresso de gangsters de Chicago. Aos dez minutos houve um da primeira fila que se levantou virado para a tribuna. Ergueu um braço no ar e deu início ao primeiro cântico de apoio à equipa. Vindo do nada uma voz colectiva entoava uma só frase: “C…a da mãe deles, c…a da mãe deles, c…a da mãe deles.” Parecia ser o pavilhão que cantava na vibração do zinco do telhado, no ranger dos tacos de madeira, no eco das bolas rematadas à baliza. Logo a seguir a policia aproximava-se deles para os dissuadir. Os primeiros insultavam a autoridade, cuspiam, começavam a cair as primeiras descargas de reposição da ordem. Seguia-se a debandada geral para fora do pavilhão. Os dez minutos do Cândido eram verdade. Fomos lanchar para uma pastelaria. Falámos de tudo e mais alguma coisa. Para ele os dias continuavam a ser encarados da mesma maneira. Um atrás do outro, despidos de propósito e de racionalidade. Expliquei-lhe que estava numa altura em que teria de decidir qual a minha futura área de estudos. Que não sabia ainda muito bem o que fazer com a minha vida. Ele respondeu-me que tinha sorte numa coisa. Ainda tinha uma vida para escolher.
Anos mais tarde, já tinha entrado na faculdade, voltei a saber dele. Tinha morrido com uma overdose num jardim anónimo de Lisboa ao anoitecer. Com 20 anos, o intrépido desafiador tinha sido derrotado. Não sei se nesse dia gritou “Todos contra mim” como fazia no recreio da escola primária. Não sei quantos é que lhe caíram em cima dessa vez em que não se voltou a levantar todo sujo com a roupa esfrangalhada. Sei apenas que era um puto sem uma réstia de maldade. Um tipo com um sorriso sincero, desconcertante, que não questionava o azar de ter nascido no lado errado da vida nem as tareias que ela lhe dava quase todos os dias. Sei apenas que ainda hoje me lembro dele de vez em quando. E para não chorar decido cantar a linda canção que ele me ensinou num jogo de andebol. “C……a da mãe deles”.

Artur

quarta-feira, 13 de abril de 2011

O 2 CAVALOS



Continuando no capítulo das memórias, vale a pena (re)ver este apontamento publicitário a um conhecido e popular modelo de automóvel. A lengalenga era um ponto de honra para os mais pequenos. Decorá-la e papagueá-la na escola era sinal de superioridade, desembaraço e, é claro, de risota geral.

terça-feira, 12 de abril de 2011

VAMOS DORMIR



Nos anos 60 era assim que os mais velhos nos convenciam a ir para a cama. O filme de animação, ao contrário do relógio, da noite ou da escuridão, é que determinava nas nossas cabeças de criança que devíamos ir dormir.

domingo, 10 de abril de 2011

SERMÃO DA MONTANHA




Aqui as palavras nada podem. O ar escasseia e obriga a poupar a conversa. Aqui o voo solitário da águia suspende o tempo em volta de uma corrente de ar quente rodopiante, permanente. Aqui o vento penteia a neve do pico, o Sol joga às sombras nas encostas e as cabras pastam indiferentes. Aqui neste lugar deixamos de ser, se é que alguma vez fomos. Aqui há qualquer coisa de divino no silêncio que respira entre os rochedos, qualquer coisa parecida com a eternidade. Nada a dizer, nada a fazer, esmagados por esta evidência do universo. Como dois miúdos de calções que se enganaram numa esquina do caminho das brincadeiras e vieram dar a este espectáculo. O susto, a surpresa, o medo. Uma mão que ganha vida e se desloca instintivamente para agarrar a outra que chama por ela. Antes que a emoção nos obrigue a fazer chichi nos calções…

Artur

Paisagem montanhosa da Nova Zelândia. Fotos de Sofia P. Coelho

sexta-feira, 1 de abril de 2011

CHIEDO ASILO


Marco Ferreri

França/Itália 1979

Diz o povo que: “Quem se quer bem, sempre se encontra” e é uma grande verdade. Tanto para pessoas como para livros ou filmes. Aconteceu-me, já há muito tempo, ter visto um filme italiano na RTP2 e de ter ficado simplesmente fascinado, apaixonado, devastado, cilindrado, esmagado por ele. Pela simplicidade da sua leitura, pela evidência das suas propostas, pela narrativa libertária que emanava. Tempos mais tarde quis recomendá-lo a um amigo mas já não fui capaz, ou por outra, o título dado ao filme não ajudava a encontrá-lo em lado nenhum. Há poucos dias atrás vou comprar um compacto de 5 filmes da obra de Ferreri e sai-me de entre os títulos O REFÚGIO DAS CRIANÇAS. Algo de familiar se acendeu em mim. Peguei na caixa, li a ficha técnica e fez-se luz. Aquele que já tinha sido O ENCANTADOR DE CRIANÇAS e O AMIGO DAS CRIANÇAS, aparecia agora sob um novo nome. Traduções à parte, por isso é que prefiro os títulos originais. Assim não há como errar.
Voltando ao que interessa, CHIEDO ASILO é um filme extraordinário de 1979, que nos conta a história de um educador de infância pouco ortodoxo que estabelece com a sua classe um novo programa pedagógico baseado na interacção com as próprias crianças. Desde introduzir uma televisão até usar um burro como mascote da aula, Roberto esforça-se por aplicar métodos de ensaio que, agradando às crianças, não agradam assim tanto aos pais. Para ajudar à festa, tem como assistente um adolescente seu amigo que, apesar de bastante empenhado, tem algum atraso no seu desenvolvimento cognitivo. Empenhado em resistir às forças dominantes, Roberto vai sendo confrontado, não só com a escolha dos seus métodos, mas também com as suas escolhas existenciais. O mundo libertário e de estruturação individual, em que as crianças se tornam donas do seu próprio destino é também o espaço de fuga do professor para não se confrontar com a realidade. Sabendo que a sua namorada (mãe de uma das suas alunas) está grávida, Roberto não tem a melhor das reacções. A sua insistência num mundo utópico embora belo e livre, afasta-o também da responsabilidade perante a frustração e os desaires da existência. Como se, ao tentar emancipar as crianças para um destino melhor e mais livre, acabasse por ficar refém desse mundo que pretendia libertar.
Urso de Prata em Berlim, o filme reafirma o pendor anarquista do realizador, se bem que de uma forma muito mais humana e enternecedora em relação aos anteriores. Roberto Begnini (que também assina o argumento) é um actor muito menos exuberante mas muito mais natural do de A VIDA É BELA.A grande lição de CHIEDO ASILO é a de que também os utópicos, os libertários, os sonhadores e as crianças deviam ter o seu espaço, o seu lugar no mundo. E não têm. Nem tudo deveria ser objecto, razão e consequência da realidade, sempre cruel e injusta. Devia haver uma bolha de ar, como o frasco onde Roberto colocou a rã, para ela respirar. Devia haver um espaço para se ouvir o seu acordeon numa praia no Mediterrâneo. Devia haver uma palavra na boca daquele miúdo que nunca fala. Porquê? Porque nem todos somos feitos de raiva e frustração…

Artur