segunda-feira, 5 de outubro de 2009

FUMO NA CARA


BLUE IN THE FACE

Wayne Wang/ Paul Auster

EUA, 1995

No bairro de Brooklyn em Nova Iorque, a loja de tabaco de Auggie Wren, fotógrafo amador, é como que um oásis no deserto de cimento, onde se pode encontrar um pouco daquele sentido de pertencer a algum lugar. Um aviso ao estilo de memorando para que nas grandes cidades não se perca de vista o atractivo dos pequenos espaços à escala do homem, sob pena de se tornarem invisíveis.
Pegando nas sobras do que não se aproveitou em SMOKE (FUMO), a dupla Wang/ Auster acabou por alcançar um compromisso com a Miramax para rodar em seis dias BLUE IN THE FACE. Composto por cenas que não ultrapassam os dez minutos, é a improvisação e a espontaneidade que dita o trabalho dos actores neste regresso ao mundo da Brooklyn Cigar Company. Os actores de SMOKE aparecem agora mais distantes dos seus papéis, mais longe das exigências de uma estrutura narrativa convencional. A improvisação e o ambiente mais descontraído acabam por retratar de forma natural o bairro de Brooklyn ao nível da sua diversidade urbana histórica e mítica. Daí as imagens de arquivo dos dias áureos dos “Brooklyn Dodgers” e o triste dia da demolição do seu estádio. A fantasia e a nostalgia encontram-se na visita do fantasma de Jackie Robinson a Vinnie, para o convencer a não fechar a tabacaria em nome da comunidade.
Se em SMOKE o tema do bairro e da comunidade era tratado pela via emocional, da família e dos amigos, em BLUE IN THE FACE o que se retrata é o bairro enquanto ser individual na imensidão do seu espaço vivido, na urgência da sua não extinção. Daí a complementaridade das duas obras não ser de estranhar.
Tudo se resume pois, numa homenagem à filosofia de bairro e num alerta para a descaracterização desse tipo privilegiado de espaço dentro das grandes metrópoles urbanas. O bairro, reservatório de vivência, afectividade, comunhão, encontro e reunião dos seus habitantes, é provavelmente o último reduto da solidariedade comunitária nas grandes cidades.

Artur

3 comentários:

sofia disse...

Deu-se conta que numa dezena e tal de anos nunca tinha observado cuidadosamente onde se punha o sol no seu Bairro. Que vergonha! Sabia que era algures para os lados do rio, tal como sabia que as galinhas não têm dentes.
Sentou-se no terraço e esperou , mas o anoitecer não lhe trouxe certezas. As nuvens teimosas borraram a precisão do acontecimento e inudaram o céu de laranja. Registou o momento num fotograma e prometeu a si mesma não voltar a olhar. Afinal o sol cai onde quisermos!

elbett disse...

Triste, triste, é saber que a maior parte, não faz a minima ideia do lado em que ele nasce, muito menos onde se pôe! São só yyy a deambular por aí!!

Artur Guilherme Carvalho disse...

A propósito do Sol e das pessoas que o procuram, aconselho ECCE BOMBO (FERRO-VELHO), um filme de Nanni Moretti de 1978. Um grupo de amigos decide ir ver o nascer do dia para uma praia. Acabam por não ver nada e o Sol nasce nas costas deles. Metáfora das nossas vidas.