quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

DER BLAUE ANGEL


Josef Von Sternberg

Alemanha, (1930)

Simbólico a uma série excessiva de níveis, O ANJO AZUL contém em si uma história de decadência, um sopro de vertigem a que nenhum personagem consegue escapar, revisitando uma parábola tão antiga como a Humanidade.
Num raro momento de cooperação entre os estúdios da UFA (Alemanha) com a produtora Paramount, o realizador americano de origem austríaca Josef Von Sternberg (1894-1969) desloca-se á Europa para realizar aquele que será o seu único filme naquele continente após uma carreira bem sucedida em Hollywood desde 1925. Com ele regressa também o actor alemão Emil Jannings, escorraçado com o advento do sonoro e a sua terrível incapacidade de disfarçar o sotaque germânico.
Com a revelação da até aí secundaríssima actriz, Marlene Dietrich, O ANJO AZUL marca o ponto de partida para uma dupla de sucesso em Hollywood nos anos seguintes. De facto, Sternberg e Dietrich seguiram para a América tendo ambos feito cinco filmes entre 1930 e 35.
Baseado no livro “O Professor Unrat” de Heinrich Mann (1871-1950), irmão de Thomas, publicado em 1905, o filme será uma adaptação muito livre em que a parte final é completamente alterada. No livro o Professor apaixona-se por uma cantora de “cabaret”, sendo essa ligação objecto de duro castigo. Unrat perde a cátedra. Determinado em se vingar da sociedade, o Professor passa a militar num movimento político de esquerda, até que é preso. E é precisamente esta parte da vingança, tão ao gosto de um autor de confissão socialista, que não agrada nem a Sternberg nem a Jannings. Ainda hoje se especula porque é que Heinrich Mann – senhor de um feitio difícil e um carácter rigoroso – aceitou a adaptação. Mas foi o que aconteceu.
Naquela cidade carregada de arquétipos cinematográficos típicos dos anos 20 (reconstituição em estúdio de ruas sombrias e tortuosas, manipulação ostensiva de efeito irreal da banda sonora, iluminação expressionista, etc.), todos os caminhos vão dar ao “Anjo Azul”. Os alunos de Rath, que ele surpreende com uma fotografia de Lola, a curiosidade do Professor austero, os viajantes do outro lado do mar…
Rath acaba por se apaixonar pela cantora, pela dona da voz das canções altivas e tristes, por um objecto de desejo. Acaba por ir viver com ela. Esta paixão dará lugar a uma rampa inclinada de decadência verificada no processo de desarticulação do professor para se estatelar na cena em que ele sobe ao palco para imitar um galináceo. O outrora rigoroso e austero Professor dá lugar, por amor, a um velho decadente dentro de uma vestimenta ridícula feita à base de penas a tentar imitar um galo para gáudio de uma assistência ruidosa de gargalhada rápida e alarve. Este é talvez o momento mais triste e doloroso do filme. O da consagração da humilhação pública. A alternativa às lágrimas que Rath não chora por orgulho e por paixão cega.
Mas não é só ele que chega ao fundo do poço. Debaixo de toda uma sensualidade ostensiva e uma capa de mulher-vampiro, Lola acaba também ela enquanto vítima do mundo onde vive. Está simbolicamente assinalado na gargalhada que solta na cara do Professor quando este lhe pede em casamento. No final, esta atitude de escárnio acabará por se juntar ao riso de Mazzepa, uma esperança no coração dela. Na canção final, vestida de negro, a repetição da mesma música apresenta-se agora despida de erotismo, onde toda a fetichização joga em sentido inverso da aparição inicial. Mazzepa e Rath viram as costas, o ruído dos espectadores deixa-se de ouvir, tudo vai ficando gradualmente afunilado de silêncio.
Para Rath há um percurso, acordado pelo foco da lanterna do guarda da noite. Uma possibilidade de regresso à antiga existência. Para Lola tudo é diferente. O seu mundo continuará a repetir-se. As canções continuarão a ser cantadas embora o pássaro nunca se consiga libertar da sua gaiola.
História de amor, clássico de uma época do Cinema de todos os tempos, O ANJO AZUL revela-se encantador tanto na sua simplicidade como na forma como é construído. A grande Escola Alemã dava aqui um dos seus últimos contributos triunfantes para a História do Cinema, marcando a decadência do fim da Alemanha de Weimar a poucos anos do Partido Nacional Socialista ganhar as eleições.
Por todas estas razões, O ANJO AZUL é uma obra de arte obrigatória para qualquer cinéfilo que se preze.

Artur Guilherme Carvalho

1 comentário:

Anónimo disse...

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