quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

MISTÉRIO

Todos os caminhos da cidade acabam por vir dar aqui, os meus passos, a maré que se despede a caminho da barra, o Sol de Inverno. A linha das casas impecavelmente direita, paralela ao espreguiçar do rio e às histórias que ele vai contando entre pares de namorados esquecidos e pescadores vagarosos. O caminho por esta avenida de tranquilidade sem pensar em nada, sem saber o tempo, sem quase não ser nada a não ser tudo isto porque sim. Vai-se a tarde, gastam-se os passos em linhas sem nexo, em destinos cruzados numa teia de caminhos tricotados, mapas de neurónios vistos de cima. As realidades vão e vêm, as pessoas, as marés, o Sol e as ideias. Ficam as palavras, fica o reflexo de um papel tímido rabiscado, desenhado de letras que teimam em não morrer para dar conhecimento, construir memórias, contar histórias a quem vier depois. Ficam as palavras a mirar-se no reflexo de um vidro, sem desculpas nem hesitações. Ficam, simplesmente. Gasto os meus passos nesta linha entre o rio e a cidade e não gostaria de viver em mais lado nenhum do mundo. Só aqui, a ver memórias ao longe, a desenhar as minhas atrás de uma vitrine enquanto observo casais de namorados vagarosos que regressam a casa e pescadores esquecidos entre linhas imaginárias e baldes de isco. O mistério de estar vivo é a certeza das nossas memórias que para nada servem a não ser a de mandar mensagens muito depois de já não estarmos aqui. Garrafas atiradas à maré com papéis escritos lá dentro na esperança de um dia chegarem a algum lado. Palavras, letras desenhadas num papel apressado antes de regressar a casa. As realidades entram e voltam a sair, as pessoas, as marés, o Sol e as ideias. Ficam as palavras… Artur

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