Há uma floresta acolhedora com árvores esguias em direcção ao céu e um tapete verde amarelo e castanho que nos cumprimenta no amarrotado de cada passada. Há um Sol e uma Lua em cada passo do caminho, que se apresentam como eternos, e que nascem e terminam a cada dia. Há um castelo lá ao fundo e uma vaga música que se insinua no ar como fumo de alguma chaminé. Há memórias de lama e de pedras muito pesadas, há bagagens de lágrimas e sofrimento, daquilo que não aconteceu…ou que aconteceu com força a mais. Há a ausência dos que foram e os momentos em que rimos com eles. E atravessamos o prado com mais calma, com mais firmeza. Há um caminho para trás que se vai apagando sozinho transformado em nuvem que nos apagará a nós no fim.
No fim da floresta há um campo aberto antes de chegar ao castelo. O dia vai a meio, não há vento e a temperatura é agradável. E entre um e outro as memórias vão passando nas muralhas como um filme onde me (re) vejo como protagonista. São histórias registadas no caminho com a colaboração de outros “eus” como eu.
Um cão que encontrei na rua e que trouxe para casa e que de vez em quando se ia embora durante vários dias. Passava noites à procura dele pelas ruas, incomodava os vizinhos, até que por fim, lá o encontrava. Dias depois fazia a mesma coisa. Um dia partiu e eu decidi não ir mais atrás dele.
Uma amante mais velha e generosa em que se encolheu a generosidade. Poupando sorrisos, economizando gentilezas, escondendo disponibilidades. Um dia fiquei à porta de casa dela a mão suspensa antes da campainha. Não toquei, dei meia volta, fui-me embora.
A certa altura as histórias continuam a passar nas paredes do castelo, há outros espectadores no campo aberto, eu levanto-me e atravesso a ponta levadiça. Vou entrar quando a música que paira noa ar se torna muito mais audível e se aproxima de mim num abraço. É uma espécie de harmonia relembrada em momentos que ficaram para trás do caminho. Momentos em que senti que de alguma maneira tudo estava no seu lugar, e eu, apesar de navegar em sucessivas tempestades tinha também um espaço que me pertencia. E essas breves memórias guardam em mim apenas o seu registo. De alguma forma já não me pertencem... No momento em que decido não ir atrás delas. E quando decido que elas não me pertencem decido também sobre mim. Não sou...não existo. Ou melhor, existe em mim a função de um registo, a recordação de um pormenor do caminho. E então percebo que eu sou o caminho em vez de um coleccionador de instantes. Eu sou o caminho eterno que regista mas que não se detém. Eu não sou eu nem o outro mas uma realidade dinâmica que nunca está parada.
Aqui, no castelo do desapego, não se lamentam as falhas nem se celebram as conquistas. Para trás o caminho acaba por desaparecer e nós desaparecemos com ele.
Eu tinha um cão, mas ele insistia em fugir, eu tinha uma amante mas ela enjoou-se de mim. Eu tive um amigo...
E não aconteceu nada, não se passou nada a não ser um vento leve que soprou na floresta e tomou o meu nome por empréstimo. Um vento que foi e que deixou de ser para que outro vento viesse ondular na copa das árvores.
E no Castelo do Desapego as imagens desfilam nas muralhas um última vez antes de desaparecerem para sempre, antes de desaparecermos de nós e voltarmos ao absoluto de um Todo a que sempre pertencemos, a um teatro onde representamos a peça até ao fim e aguardamos um novo guião e uma nova personagem para continuar a caminhar.
Artur

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