sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

OLHANDO PARA TRÁS


 


Um dia vais olhar para trás
e sorrir.
Vais perdoar a tempestade
que te atingiu,
a mão que te partiu,
o corpo que ruiu.
Vais olhar para trás
e sorrir
atrás das lágrimas que lavam
como as águas cristalinas do rio.
Vais deixar o velhos hábitos de agradar,
as mãos por fechar,
os corpos por amar.
Vais olhar para trás
na frente dos passos
que acontecem,
caminhos desconhecidos
que pisados se desvanecem.
Um dia nem te vais lembrar
de olhar para trás
de tão longe que fica
e vais seguir em frente
pela noite e pelo dia,
a agradecer cada momento
com a leveza dum pássaro
como pensamento.

sábado, 6 de dezembro de 2025

A DANÇA DO CAOS



 

 

Enquanto o caos vai tomando conta da decoração dos dias vou tentando aproveitar o tempo, ter espaço para respirar e viajar para dentro de mim. A situação já não é nova (nunca foi) só que desta vez tenho a possibilidade do isolamento como um nadador veterano que já não sente tão forte a necessidade de mergulhar todos os dias no mar. Enquanto nada muda para melhor e tudo regressa em vagas sucessivas de falta de lógica e de destruição vou-me aproximando rapidamente do fim de um ciclo, o meu ciclo. E, sinceramente não tenho medo nenhum nem vontade de voltar atrás. Haveria ainda muito para viver ou aprender vivendo? Com certeza que sim, mas a viagem está sempre em movimento e as lições não se apresentam todas da mesma forma nem sequer ao mesmo tempo. A razão transformou-se num concurso de feira em que vende mais o comerciante que berrar mais alto. O Conhecimento foi transformado em apenas mais uma bugiganga que se questiona ou vende como qualquer mercadoria anónima.  As referências dissolveram-se, a mediocridade continua a sua marcha triunfal. Somos seres imperfeitos e muito confortáveis com a nossa imperfeição. Toda a nossa energia está concentrada nas mais primárias necessidades e na obsessiva e imediata satisfação do ego. Basicamente faço parte de uma espécie animal que destrói muito para lá daquilo que necessita, seja para se alimentar seja para o seu habitat. Uma pertença que não me dá qualquer motivo de orgulho e que me cansa cada vez mais.  Dias houve em que conseguia lidar bem com isso. Dias houve em que condescendia sempre na esperança de dias diferentes, na escolha de alternativas. Dias houve em que me remetia ao silêncio ou à concordância por omissão. Hoje acabou-se essa tolerância. Não quero ver nem falar com ninguém para lá do estritamente necessário. Tenho livros que cheguem para passar o tempo, tenho música, tenho filmes. Quando me apagar tudo isto ficará por aqui na mesma que sempre foi. Pessoas, planeta, animais, plantas, caos, destruição, reconstrução, esperança, degradação e caos outra vez.

Todos querem saber de si e ninguém quer saber de nada. A banalidade do mal, a irracionalidade da condição humana que só que consegue corrigir (ainda que de forma temporária) à força de morte e destruição. Este movimento permanente de extermínio da espécie sobre si própria que nunca enfraquece, este asilo de loucos orientados por lógicas absurdas, esta demolição permanente de se poder viver com qualidade e equilíbrio.

Um índio perdido na noite executa a dança da chuva em frente a uma fogueira, uma velha de costas curvadas carrega através da neve um molho de lenha para se poder aquecer, uma criança desenha a figura da mãe a giz no chão num orfanato para poder dormir ao pé dela. E a corrida de nós todos contínua, sem parar a caminho de lado nenhum, sem tempo para reflectir, sem olhos para ver, sem mãos a medir. O caminho desenfreado do ciclo de cada um a caminho do fim e a ausência de razão num inferno permanente.

Um índio perdido na noite executa a dança da chuva, um homem isolado escreve desenfreado as insónias que o assombram e depois é Natal, e depois mete-se o Verão. E vai e volta, vai e volta até ser fim.

 

Artur

sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

A UM SOL QUE BRILHA AGORA


 

Quarto dia do décimo segundo mês de dois mil e vinte cinco.
Tenho escrito bastante e publicado por aqui muito pouco. A minha passagem de ano foi no primeiro de outubro e os maiores presentes chegaram nesse mês como no Natal. Agora é consolidar o trabalho de mais de dois anos em terapia, o cuidado, o respeito, o mimo, a paciência com mãos cheias de amor, para comigo. Estar rodeada por água num torrão de terra que é tão berço como aprendizagem não é coisa leve, não é para meninas de cabeça de vento e sim para senhoras que sabem o que fazem, para onde caminham mesmo na escuridão. Há que ter competências, priorizar sempre o amor próprio e o conforto extremo dentro do desconforto de não estar a um braço de distância daqueles que me tocam mais. Ao longo do ano que agora termina fui priorizando afetos dentro das causas, consolidando laços dentro dos projetos, verbalizando necessidades dentro da abundância, enumerei faltas dentro das presenças, partilhei sentimentos e pensamentos em momentos que tudo parecia feito e dito. Há como uma medula nova dentro deste corpo que se recria em espírito musculado, dando especial atenção ao sentir e pressentir.
Vejo muita tristeza, muita luta inglória, muito desgaste no mostrar em vez de ser, muita afirmação colada e copiada vivida no vazio do conteúdo digital.
Nos intervalos, que são maiores do que cada episódio, remeto-me às obrigações do lar, impostas de mim para mim sem nenhuma intervenção do ego e para o colocar no devido sítio. Desde limpar o pó a lavar o chão de quatro com o afinco de quem faz uma mandala, a cavar um metro de terra ou a fazer casas para os residentes alados e terrestres com a dedicação duma arqueóloga acabada de formar, vale tudo até a educação complementar dos animais que são a família mais próxima e a minha maior responsabilidade. Pelo caminho apanho espinafres selvagens, lancho capuchinhas, recolho pinhas para eventos natalícios, catalogo as árvores novas, tomo um duche gelado, leio a poesia que me sustenta, bebo chá de alecrim que é alegria e pensamento aguçado, sento-me a meditar entre os amigos peludos que me acompanham. Aí converso, neste silêncio, com os meus passados que já desencarnaram, viajo com eles dentro de todas as palavras que trocamos antes e trago-as até ao presente. O sol que brilha agora, antes era uma chama pequenina atrás dum céu cheio de nuvens. Essa luz faz diferença entre o dia e a noite, e é ínfima perante a luz que tenho que manter acesa no centro da existência. É o santo graal de cada um de nós, a responsabilidade de ser melhor, mais gentil, para conosco. Amem-se, não se distraiam com o ruído digital. Cuidem-se, não deixem nenhum milímetro por cuidar. Procurem ajuda técnica para os pensamentos corrosivos. Aceitem uma massagem pelas mãos de quem sabe recolocar a vossa essência no lugar. Combatam os movimentos ditatoriais com movimentos amorosos para com o próximo. Abracem mais, dancem muito, cantem pra caraças até abrir cada alvéolo pulmonar. Estiquem-se. Dobrem-se. Alonguem-se até à folha mais alta e agradeçam até à raiz mais profunda.
Com Amor.