terça-feira, 22 de dezembro de 2020

DIÁRIO(S)

 

Vigésimo segundo dia do décimo segundo mês de dois mil e vinte. Nada será como dantes nem se voltarmos a ontem. Todas as decisões que tomamos, se deparadas com a possibilidade de voltar atrás, nunca serão idênticas.
O caminho é sempre em frente, mesmo com regressos extemporâneos e sem bilhetes de volta marcados.
O jardim por acontecer está povoado de memórias. Ainda existem os galhos altos onde a menina mais pequena se refugiava, assim como os troncos marcados a canivete pela menina do meio. A menina maior já não precisa de lanterna nas noites de lua nova. As outras deixaram-lhe o caminho traçado sem fios nem migalhas que os pássaros possam esconder. Há pegadas que seguem o desígnio na terra vermelha.
De vez em quando, no intervalo da chuva, há uma borboleta branca a bater as asas para
secá-las. Ela agarra nela e leva-a para o departamento de veraneio onde as plantas se enraizam, ciente da existência efémera da criatura alada. Outras vezes há o gato que lhe mia um pedido de socorro, por se ter aventurado para longe de casa. Num instante é levado de volta à origem, sem grandes alaridos. Nada será como dantes e tudo poderá ser melhor, mesmo que não pareça. Ontem descobrimos que as festas que as pessoas não fazem umas nas outras são compensadas no lobo-urso que nos encontrou. “ posso tocar nele?””ele faz mal?”, são interrogações que caem por terra antes que eu responda. O olhar doce dele é a própria resposta. Torna-se uma festa quando há consciência (da necessidade) do toque, e quando o retorno acontece.
Um xaile quente envolve a caminhada, uma oração pelas partidas deste ano, uma prece pelas chegadas. Tudo se cumpre.
Elsa Bettencourt. Hoje.

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