terça-feira, 21 de abril de 2020

CREPÚSCULOS DE FIM DE SEMANA





No meio da confusão habitual em que costuma rolar a minha vida recebi um telefonema madrugador do Ramos da agência. Tinham um papel para mim num filme de um estreante realizador mas com qualidades no currículo. Aceitei sem sequer perguntar o que era. Duas ou três frases, uma participação curta, seguiria por mail. Depois de uma almocinho ligeiro na tasca do bairro regado com uma boa garrafa de tinto alentejano, pus a mochila aos ombros e meti-me no metro a caminho de Sete Rios. A camioneta saiu pouco antes das três. Pelo caminho fui vendo a informação enviada. tinha para aí três intervenções no máximo. Fazia um coronel veterano que estava num lar de idosos e já não jogava com o baralho todo. Era o companheiro de quarto do avô do protagonista, um puto novo à procura de si próprio como é próprio de todos os putos novos. Eu era uma espécie de Kilgore, o tenente coronel marado que comandava a helitransportada no APOCALYPSE NOW. Neste caso um tipo com intervalos de lucidez que falava sozinho e pouco se ralava com o que os outros pensavam dele. Cheguei  duas horas depois com um jeito no pescoço e as pernas dormentes. À minha espera com um cartão com o meu nome estava um jovem simpático de barbas fartas que fazia lembrar o meu filho mais velho. Metemo-nos no carro a caminho do set, planície de um lado e do outro, gado, oliveiras, regas e o calor típico da região em toda a parte. Sempre gostei de fazer de maluco, não sei porquê, sinto-me mais à vontade. Também nunca fui muito bom da cabeça nem me dei com gente que não fosse.  Digamos que, não o sendo, andei sempre por ambientes onde eles eram a maioria, habituei-me como quem descobre uma família e nunca me senti desconfortável. O velho diz umas coisas engraçadas. Veterano dos pára-quedistas, comissões em Angola e na Guiné durante a guerra colonial faz a orientação cronológica dos seus tempos de combatente. Tento meter conversa pelo caminho. Digo que o personagem faz lembrar o tal filme mas o meu interlocutor nunca o viu. Estuda no Técnico, está a fazer uns trocos nas férias…Mas já ouviu o pai dele falar do APOCALYPSE  NOW. Finalmente chegamos ao local das filmagens, um convento antigo com uns claustros refrescados por um pequeno lago,  sebes baixas geometricamente aparadas e canteiros com flores coloridas. Apresentações com a equipa de filmagens, realizador, técnicos, actores. Reconheço o assistente de produção de outros "carnavais" quando fazia figuração em filmes franceses no tempo da faculdade. O André, operador de câmara, duplo, figurante, o homem dos sete instrumentos. Persistente nunca abandonou a actividade. Abdicou de uma vida confortável, família tradicional, estabilidade, por amor à arte. Eu não fui capaz. Voltei agora que estou quase avô, quase reformado, quase….coisa nenhuma. Horários das filmagens num papel. Alvorada às seis. O convento é habitado por uma ordem monástica composta por monges bastante avançados na idade mas cheios de genica e simpatia. Cedem uma parte das instalações, incluíndo o refeitório, e têm como única condição respeitarmos os seus horários. Jantamos ainda de dia em silêncio ouvindo ao fundo cantos gregorianos vindos da igreja. A seguir somos encaminhados para as nossas celas/quartos de dormir. Antes de entrar o André traz uma garrafa de aguardente produzida no convento e ficamos ali na varanda do claustro a beber um último para o caminho. A aguardente é suave e escorre bem. Entro no quarto de uma simplicidade absoluta mas também extremamente limpo. Da janela vejo um pequeno bosque com árvores à contraluz enquanto o Sol se desliga devagar. O crepúsculo é sempre um espectáculo para os sentidos...no Alentejo é uma obra prima de qualidade. Pego no telemóvel e ligo. à Joana, aos meus filhos, a dois amigos. Ninguém atende. O efeito da aguardente começa a bater, primeiro devagar e depois a espreguiçar-se pelo cérebro e pelo seu recente ocupante. Gostava de vos dizer que vos amo muito a todos vocês mas como não atendem vou desligar o telefone que amanhã o dia começa cedo.

Artur


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