sábado, 12 de maio de 2018

COMO UM COMBOIO A RASGAR A NOITE









Na solidão escura do sono, no frio sem respostas para tantas perguntas que se continuam a fazer, nas lágrimas solitárias de uma almofada absorvente, na insónia teimosa de um tempo que passa e continua a passar, num caos de sombras decorado de medos, em tudo o que nos perturba sem nos deixar acontecer…alguma coisa…desejamos que alguma coisa aconteça, que interrompa um ciclo sem luz, alguma coisa que apareça das trevas da noite e que a rasgue de uma vez. Um comboio ruidoso e libertador a caminho do seu destino. Um trilho metálico que gema a cada volta das rodas da locomotiva. Qualquer coisa que se chama com um grito desesperado de interrogação, de raiva e de insistência em cavar uma vala, abrir um espaço de luz que nos alivie por instantes, que nos aqueça, que nos faça uma festa de cabeça e nos dê por pouco tempo que seja a certeza de um conforto, a tranquilidade de um sono despreocupado, a memória de outro lado no universo. Como um comboio a rasgar a noite, uma massa metálica em movimento, uma linha aberta que por onde passa não deixa nada igual ao que estava. Um comboio a rasgar a noite e a dar respostas a seres solitários que desesperam no silêncio. Os carris desenhados pelo correr ritmado do peso das rodas…ou será uma bateria a marcar o ritmo, a dar a entrada para os primeiros acordes? Um farol a acordar  cada buraco escondido, todo e qualquer espaço adormecido obrigado a acordar, um apito estridente suspenso no ar embriagado de vertigem que explode, uma direcção, um destino, uma velocidade alucinada. Ou então uma guitarra rendilhada a saltitar ao longo de uma escala, um solo, uma melodia. Um comboio a rasgar a noite como uma seta que assobia e atravessa o vento a uma velocidade vertiginosa. O baixo a acompanhar o bater do bombo da bateria a delimitar os cantos do ritmo com arranques roufenhos. E depois uma voz, feminina, doce e ao mesmo tempo grave, uma voz de menina a trautear sem letra, apenas uma área inventada que afaga embalando. Com todos os componentes no seu lugar os seres embarcam preparando-se para desfrutar a viagem. Agora sim. A noite pode continuar a ser noite, o frio, o escuro, a solidão e o medo. A imensa tela negra pode continuar absoluta, imponente, pesada sobre a cidade. O comboio arrancou e já nada o vai conseguir fazer parar. E lá dentro há passageiros, espectadores, companheiros de viagem que se empolgam com o som, que se maravilham com a velocidade, que vibram com a harmonia. A sua viagem é agora tudo o que lhes fazia falta para melhor atravessar o vale das sombras. A música é o seu guia por instantes, as canções as carruagens que se vão seguindo atreladas umas às outras. Eventualmente o comboio acabará por chegar ao seu destino, por parar. Mas nessa altura já terá cumprido a sua função. Não sei explicar quem sou mas reconheço-me se me encontrar…
Como um comboio desembestado a rasgar a noite com um potente farol a abrir caminho nas trevas, uma canção ritmada, uma harmonia embalada, um espaço aberto de esperança ou uma pausa para respirar. Um tempo limitado e vertiginoso em que por uma fracção de segundo os seres se apresentam a si mesmos, abraçando-se, reconhecendo-se. Um apito estridente a envergonhar o silêncio. Um tubo metálico que passa numa enorme pausa onde nos conseguimos encontrar. Uma viagem ao interior de quem somos, de quem nunca deixámos de ser. Uma vertigem que passou por aqui e que nos fez aguardar a manhã com muito mais ânimo, vontade e capacidade para continuar.

Artur


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