
Já olhei para este quadro de Paula Rego centenas de vezes, sempre com um misto de angústia e inquietude, incapaz de o decifrar, ou temendo interpretá-lo como ele aparece na sua terrível fulguração. É uma figura humana (uma mulher ? uma rapariga ?) cujo esgar lembra inequivocamente o de um cão que arreganha ameaçadoramente a dentadura, garras fixas no solo como se estivesse a ponto de dar um salto e abocanhar uma presa ou um pedaço de comida. As pernas/patas de trás retesam-se para esse impulso ameaçador e agressivo. E, de repente, não; o cão quer voar, ser uma ave, talvez uma ave de rapina, uma majestosa águia, um mortífero e veloz falcão, e não consegue descolar do solo. Se alguma vez o conseguisse, não passaria de uma ridícula galinha ou uma desastrada avestruz (sendo que a patada da avestruz em desespero pode matar um leão). Isto, esta coisa, este ente, esta figura de cão que quer voar e não pode, somos nós, os portugueses, amarrados a um destino que não escolhemos, vítimas dos crimes,da ganância e da negligência dos vultos sombrios que nos governaram e doutros, daqueles que se preparam para nos governar. Esta triste figura do cão agachado nas suas quatro patas, castigado pela sua condição, humilhado pela sua impotência, desesperado e incapaz de se ver ao espelho somos nós, os portugueses.
Ao teu post só me resta uma crítica. São muito poucas as vezes que passas por aqui. Parece mal os parceiros do blog elogiarem-se mutuamente. Mas estou-me cag.....para isso. Um grande abraço Mesquita. Volta mais vezes
ResponderEliminar“um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas" Guerra Junqueiro.
ResponderEliminarActualíssimo!...
Abraço!