Voltando atrás, lembro-me de ser ainda adolescente e de ter lido um livro onde havia dois ou três personagens que tinham em comum a solidão. Enquanto um se enfiava na biblioteca a ler livros por ordem alfabética, outro chegava ao grau de consciência em que conhecia a repulsa de si próprio. Segurando uma pedra na mão à beira mar, umas patas começam a crescer dela, a mão que a segura torna-se o mesmo ser e, uma náusea insuportável começa a subir por ele acima, estimulando o vómito.
O autodidacta, sem orientação intelectual visível, ia tranquilamente na letra “C” (não me lembro se seguia títulos ou autores,) o intelectual deprimido ia-se enojando de si próprio, perdendo pelo caminho todas as razões de conforto para se manter vivo, para justificar o acordar de mais um dia. Ambos habitavam numa localidade perto do mar, ambos sentiam no correr dos dias o desperdício existencial da condição humana.
Principalmente porque no essencial, nada muda, porque ninguém aprende com os erros do passado, porque as tragédias humanas insistem em se repetir e sacrificar as sucessivas gerações que vão nascendo. Para lá do brilhante resultado narrativo do pensamento de um filósofo, com o passar do tempo, tanto o Autodidacta como o jovem pensador tornam-se o mesmo homem, coabitando o mesmo corpo em momentos diferentes. A sede de conhecimento de um jovem, a necessidade de compreender a vida e o mundo são suficientes para entreter, até mesmo adiar a constatação, a conclusão final sobre a maldição da condição humana. Amontoam-se livros, lê-se sempre mais e mais porque se quer saber, conhecer, os outros e nós mesmos. Depois o tempo vai passando até que um dia, contemplando a enormidade de uma biblioteca, tentando inventar mais espaço para mais livros, alguma coisa acontece. Alguma coisa que nos diz que seria melhor pegar naqueles livros todos e oferecê-los, deitá-los ao lixo. Porque não nos serviram, ou não nos servem para nada. Conhecer a miséria, ter consciência da desgraça, saber que outros sofreram o que nós vamos sofrendo, e nada poder fazer para alterar o curso das coisas, é frustrante. Tanto conhecimento para tudo ficar na mesma. O Tempo a entrar e a sair da nossa mente em círculos. Um rato que corre dentro de uma roda maior que ele. E então, caminhamos perto do mar, a paisagem mais parecida com o universo que nos é permitido conhecer neste mundo. Seguramos uma pedra na mão. Uma pedra cujo musgo se transforma em pelo, umas patas que dela começam a sair. De repente essa pedra funde-se com a mão e esse bicho repugnante somos nós. A náusea sobe por mim acima. Na biblioteca há mais um tipo a ler, sôfrego de conhecimento. Um puto autodidacta que anda de bicicleta e prende as pernas das calças com molas da roupa. Que me cumprimenta levantando a mão do guiador, quando nos cruzamos.. Fecha-se na biblioteca ao fim da tarde, depois de sair das obras. Está lá agora. Fascinado com aquilo que se consegue aprender. Eu estou na praia, ajoelhado sobre a minha dor. Vomito para cima das ondas. Choro observando o mar. Rogo-lhe que me adopte como seu filho…
Artur
E és!
ResponderEliminarObrigado por me lembrares Elsa. Bjs
ResponderEliminarFica dificil...depois mais fácil...depois dificil, outra vez...
ResponderEliminarTemos que nos ir lembrando!! Uns aos outros!! Para que nenhum de nós se esqueça!!
Bjss