
A manhã levantava-se devagar, meio envergonhada de luz, debaixo de uma enorme carga de água. Quando o BMW se deteve próximo de uma paragem de autocarro, ainda a Rua Maria Pia estava deserta de tráfego e de pessoas. Uma mulher saiu e fechou a porta do carro, ficando a ver o monstro de chapa azul escura desaparecer para os lados de Alcântara. À sua frente subia a Rua Correia Teles, uma elevação breve mas bastante acentuada que ia estabilizando à medida que atravessava a quadratura do bairro de Campo de Ourique. Para trás, a rua que descia, um dos muitos acessos que conhecia de cor, e que desaguava no caos urbanístico do Casal Ventoso. Noutras alturas teria descido aquela rua no automático até à porta de um «dealer», onde compraria mais uma dose de heroína. Para a pagar havia a receita obtida numa noite de prostituição numa rua de Campolide. Sem saber bem porquê, naquela manhã resolveu esperar um pouco à chuva, antes de descer. Como não tinha nenhuma protecção além do blusão surrado de ganga que lhe disfarçava o frio, a chuva depressa tomou conta dos cabelos, pingando pelos caracóis castanhos em breves fios prateados que a manhã iluminava. Na rua deserta a mulher perguntava-se: “ O que é que eu ando aqui a fazer?”. Uma pergunta mil vezes formulada que outras mil se manteve isolada de resposta. Um absoluto e enorme “nada” do tamanho da solidão daquela rua. Chamava-se Mariana. Sabia que era dependente de heroína, embora já não se lembrasse há quanto tempo. Sabia que tinha um filho que entregara à guarda do pai. Um papel assinado no Tribunal de Família num dia de Sol. Esforçava-se para se tentar lembrar há quanto tempo o tinha feito, sem êxito. Podia ter sido há uma semana, podia ter sido há um mês. O filho deveria ter quatro anos, isso lembrava-se. Tinha sido presa no dia do seu aniversário há não muito tempo. Às vezes tinha saudades dele…Outras não. Esquecia-se que ele existia. Lembrava-se de uma tarde de Sol, sentada na encosta do monte virada para o vale de Alcântara, a ver ao fundo o Tejo a caminho do mar. Podiam estar os dois numa praia a brincar na areia ou a passear à beira mar… Mas eram cada vez menos as suas certezas, cada vez mais curto o seu espaço de lembrar. Por isso decidiu ficar ali mais algum tempo à chuva, tentando alargar esse tempo. Antes que a comichão chegasse, ou as dores que lhe queimavam as entranhas e a punham a urrar como um animal selvagem. Naquela manhã, a chuva forte que caía e limpava as ruas, sem o saber, limpava também o seu corpo, amolecendo as chagas que ali começavam a habitar, atenuando os nódulos negros nos braços, nas pernas, e em todos os espaços onde a agulha se introduzia sem pedir licença. Como não conseguia roubar, prostituía-se. Naquela noite tinham sido quatro, cinco vezes que a sua boca havia tirado o molde de sexos masculinos solitários, erguidos na sombra do interior dos automóveis. O corpo não. Apenas a boca, os lábios, as mãos. Não era capaz de vender o corpo porque já não o tinha. Desaparecia um pouco todos os dias como se um ser estranho instalado no seu ventre a fosse comendo devagar. No reflexo da montra de uma loja confirmava a sua transparência, não se lembrando sequer se alguma vez tinha sido bonita. Certezas, tinha duas. Precisava de heroína para viver e era uma puta. Não havia dúvidas sobre isso, nem sequer desconforto. Apenas uma miséria vegetativa feita de nada e de coisa nenhuma que não parava de crescer. Quantas vezes tinha dito a si própria, olhos na seringa, que aquela seria a última vez? Tantas quantas as que continuou a mentir
Chamava-se Mariana e era bem possível que em tempos tivesse sido bonita. Agora era um pequeno aglomerado transparente de pele e ossos que se passeava à chuva pela Rua Maria Pia às seis e meia da manhã. Ia descer, comprar, consumir. À noite, voltava a sair para se vender numa rua escura de Campolide, fazer dinheiro, para poder voltar a descer, comprar, consumir… Quis chorar por se sentir tão mal, tão sozinha, tão vítima de si própria. Mas tinha-se esquecido de como o fazer. A luz da manhã era agora mais brilhante, mais intensa no cinzento geral das nuvens que haviam abrandado a sua descarga de chuva. As primeiras pessoas começavam a aparecer a caminho do trabalho, agrupando-se de forma automática na paragem do autocarro. Apesar de estarem a alguns metros de Mariana, ninguém a via. Resolveu descer. Que se lixasse o mundo e aquela gente toda num suspiro. É claro que não a podiam ver. Se ela já não se via, não se lembrava de quem tinha sido, não eram os outros que o iam fazer. Naquela manhã ninguém a viu. Só a chuva e o velho blusão surrado de ganga. Ninguém a viu também quando descalçou os sapatos e resolveu atravessar a rua chapinhando nas poças de água. Só o motorista do autocarro reparou no seu rosto tranquilo e nos caracóis castanhos quando não conseguiu parar. E continuou a ver aquele rosto nos seus sonhos e nas sessões com o psicólogo da empresa durante alguns meses. Foi o último e o único a ver o rosto de Mariana, o único a lembrá-lo depois de morrer. Um dia comprou flores e foi colocá-las na sua campa. Desde aí, nunca mais voltou a sonhar com ela…
(Publicado na colectânea de contos “Histórias de Amanhecer”. Papiro Editora 2006)
“Amanheci” novamente ao ler outra história… bonita!
ResponderEliminarArtur, eu gostava mesmo era de as poder ter em papel, gosto de andar com histórias na mala… :) avisas quando sair outra edição?
Ah, é verdade já me esquecia de dizer: "Ganda malha"!!!
Enquanto não consigo convencer a editora vou deixar no blog os 4 primeiros porque estão todos interligados. Obrigado Clarice.
ResponderEliminarARTUR
Venha de lá os outros dois, embora os conheça há muito tempo...
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