terça-feira, 23 de janeiro de 2018

CAHIERS DU CINÉMA NÚMERO 1 ABRIL DE 1951






Sob a autoridade intelectual e a tutela moral de André Bazin, nascia em 1 de Abril de 1951 a revista “Cahiers du Cinéma”. Bazin – sem dúvida, o mais importante e influente teórico do pós-guerra – tinha vindo a construir o seu pensamento em torno do complexo, controvertido e discutido conceito de “ontologia da imagem fotográfica” e de uma noção que haveria de percorrer um longo caminho e conhecer numerosas e frutíferas ramificações: aquela que postulava que o estilo de um cineasta devia tanto à estética quanto à ética. Por outro lado, a sua postura crítica, altamente idiossincrática, determinava que um filme devia ser dissecado, desmontado e analisado sob diversos ângulos até se tornar inteligível, exigindo que as próprias metodologias de análise constituíssem um horizonte de inteligibilidade indiscutível. E logo nesse número inicial se identifica essa preocupação pedagógica que se manteria ao longo de toda a “série amarela”, senão mesmo depois e apesar de submerso nos tumultos criados pelos “jovens turcos” e pela fase guerrilheira dos excessivamente politizados e absurdamente radicais anos 70. De qualquer forma, foi com base nesta cartilha, actualizada e revista que os “Cahiers du Cinéma” cartografaram o cinema dos anos 50 e das décadas posteriores, construindo de raiz uma cultura cinematográfica à escala planetária. Quando um dia se estabelecer uma história comparada das revistas de cinema, verificar-se-ão as crises, os erros de juízo, os excessos de linguagem, o fundamentalismo de algumas afirmações, a abusiva combatividade, mas, sobretudo, iremos descobrir aquela identidade e aquele carisma que permanece constante em todas as suas metamorfoses, as suas horas de glória, tudo aquilo que a singulariza e distingue das suas rivais, tudo o que a torna um ícone imediatamente reconhecível, mesmo para aqueles que nunca leram uma linha. Seria exagerado e abusivo dizer que os “Cahiers” inventaram tudo e tudo descobriram; quem estiver minimamente familiarizado com a literatura cinematográfica da época descobre imediatamente as influências recíprocas, o trânsito de perspectivas, modos de abordagem e filiações recíprocas; mas seria de manifesta má-fé não considerar que a “montagem” de todos esses elementos deu origem a um outro paradigma, totalmente novo, no panorama do universo crítico e teórico, que apostou tudo na “mise-en-scène” em detrimento do “tema” aparente dos filmes e assente nos arcanos da teoria de autor.
Voltando ao início dos inícios, a primeira capa exibe Gloria Swanson numa cena do filme “Sunset Boulevard” de Billy Wilder, como se fosse uma figura de proa dos antigos navios, rosto, corpo, vulto, estátua iluminada, apontando aos navegantes o caminho a seguir e, tal como essas figuras tutelares, protegendo-os dos monstros. A mesma actriz, representando no mesmo filme, reaparece no editorial que nos revela que a nova revista é pensada como um prolongamento de “La Revue du Cinéma”, desaparecida em 1949 , e dedicada à memória do seu fundador Jean-George Auriol. Ao nome de André Bazin, juntam-se Joseph-Maria Lo Duca, Jacques Doniol-Valcroze e Alexandre Astruc no núcleo duro, pensadores que que transformam a revista num verdadeiro manifesto crítico, pleno de sentido e de sentidos , originando uma nova grelha conceptual e perceptiva, da qual destaco o artigo “Pour En Finir Avec La Profondeur de Champ”, assinado obviamente por André Bazin, que o revelam como um pensador de rara profundidade e complexidade quando demonstra que registar a realidade e desenvolver os efeitos do real permite ao cinema  fazer emergir a verdade íntima dessa mesma realidade, justamente aquilo que designou como “verdade ontológica”. Compreender este teorema é compreender a essência do cinema.
De resto, este número inicial é também uma festa para o sentido visual: das 78 páginas que o compõem, 20 são dedicadas a magníficas fotografias  (muitas vezes sem qualquer relação com textos ou críticas, reproduzidas apenas pelo prazer que suscitam e pelo seu poder de atracção) e a publicidade da época, toda ela um programa à parte, que vale a pena comtemplar.

                Resta dizer que, de muitos modos, os “Cahiers” se tornaram uma espécie de meta-revista, ou seja, são em si mesmos uma reflexão sobre o que deve ser e que lugar deve ocupar uma revista de cinema e que essa intenção está já inscrita no ato fundador que este primeiro número materializa  e que se prolonga em todas as suas fases (“série amarela”,  nova vaga, estruturalista, freudiana, comunista, maoísta, deleuziana, recentrada, etc.), pelo que cada leitor poderá escolher a sua;  genericamente, estão todas condenadas à excelência.


Nota: Este texto foi originalmente publicado na página da Cinemateca Portuguesa - Museu do Cinema, na rubrica "Textos & Imagens".

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

FLUTUAÇÕES




                                         


                                                                       Sofia

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

CAMUS E O FIM DA ESTRADA

Há 58 anos, a 4 de Janeiro de 1960, Albert Camus morria num acidente de automóvel perto de Villeblevin a cerca de 90 Kms de Paris.




quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

BOAS FESTAS







        Este blog deseja a todos os seus leitores um parêntesis na loucura e no absurdo de todos os dias, alguns momentos de paz e descontração em família, uma refeição agradável numa sala aquecida, uma sesta num sofá acolhedor e a vontade de não deixar fugir o sonho, a esperança, a ambição e a vontade de trazer sempre bem guardada esta identidade que nos faz elevar e sentir melhor através da solidariedade e do respeito pelos nossos vizinhos e pelo ambiente em que vivemos.

sábado, 9 de dezembro de 2017

CRÓNICAS DO BAIRRO…DA VIDA EM GERAL OU DO TEMPO QUE PASSA




Almoço no bairro com o meu pai há uma vida inteira. Umas vezes num restaurante, outras noutro sem poiso fixo. Murmúrios de conversa de circunstância e comentários da última jornada da bola entre garfadas e o eterno jarro de tinto da casa. Não se trata bem de comunicação mas antes de provas de vida trocadas ao sabor da refeição. Para o outro saber que estamos cá. A comunicação nunca foi o nosso forte. Personalidades demasiado vincadas, egos famintos de atenção, e apesar de tudo uma certa cordialidade, um certo respeito que se consegue subentender na forma como se gerem os silêncios. Admiração e respeito ao invés de desafio e rivalidade de machos alfa. Ou seja, não deixando de haver pontes estabelecidas de comunicação, digamos que as viagens de travessia é que não se acumulam…não gostam de se exagerar preservando-se assim as margens e a boa convivência entre elas.
Dizia o meu pai no outro dia que a malta do tempo dele já quase morreu toda. Inspiro, meto uma garfada de comida na boca para não a abrir e olho lá para fora para o bairro. O mesmo bairro que nunca é o mesmo, a mesma realidade urbana por onde as modas e as gerações vão passando, a nossa aldeia onde vivemos desde o meu bisavô no início do séc. XX. É claro que a tua malta já morreu quase toda, o que é que esperavas? Estás cá tu e isso é que importa. Ainda podemos atravessar as pontes de vez em quando e falar um com o outro, ou gerir os silêncios, o que vai dar ao mesmo. Ainda hoje da manhã a abrir o You Tube tive mais um flash de tempo. Os gajos das bandas que eu ouvia em miúdo estão carecas, barrigudos, os gajos da minha idade estão mais para avôs do que para qualquer outra coisa. Se estou muito tempo sem ver um amigo noto logo a diferença. A música é a mesma, não envelhece como o bairro. De operário a classe média, de cagalhão chique a zona histórica urbana classificada será sempre o mesmo espaço, a mesma aldeia situada no planalto de onde só se consegue sair descendo. Estou velho Pai, estou a começar a coleccionar dores e dormências em lugares que nem sabia que existiam, troco impressões sobre o simpósio médico com os amigos, fico naquela mesa do fundo nos casamentos dos filhos. Aquela ao lado da das crianças, decorada com bengalas, reumatismo e alergias ao glúten. Mas continuamos a rir uns com os outros. Continuamos a fazer das nossas sempre que podemos e a saúde permite. Mas já não é como era. Há menos força, menos intensidade, menos resistência. Do meu lado também já morreram muitos ao longo dos anos. Mas eu ainda vou estando por aqui e tu também. Ainda vamos conseguindo almoçar nos restaurantes do bairro entre silêncios e jarros de tinto da casa. A viagem vai-se aproximando do fim com a vantagem de nunca haver data marcada para tal. Um dia simplesmente termina. E a travessia desta mistura de loja de brinquedos com galeria de horrores continua a ser a mesma cagada malcheirosa que sempre foi. Onde se sofre todos os dias para de vez em quando ter direito a um rebuçado. E aguenta-se…vai-se aguentando. Os gajos do teu tempo estão todos a morrer e os do meu a tornar-se avozinhos. São os tempos, é a roda da vida, é o bairro que se renova reciclando gerações e modas. Só ele continua de pé. Nós servimo-nos do seu espaço e do seu afecto, chamamos-lhe “aldeia”, e vamos fazendo a manutenção das pontes por onde conseguimos comunicar uns com os outros. É assim…foi sempre assim. Engulo com a ajuda de um pouco de vinho, volto o olhar para dentro outra vez.
Então e aquele fora-de-jogo no Domingo? Viste no resumo? Grande roubalheira…


Artur 

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

TODAS AS ESTRADAS ACABAM NO FIM DO CAMINHO



 


A única coisa que faz sentido é uma música enquanto é tocada/cantada; a única coisa que faz sentido é um livro enquanto é lido, um filme enquanto está a ser visionado. Nada mais. Só interessa amar enquanto se ama. Quando nos pomos a falar sobre isso, já o amor deixou a sala e foi lá para fora há muito tempo. Em miúdos os nossos pais, os professores, os adultos em geral, diziam sempre a mesma coisa : “façam-se à vida…” E nós fazíamo-nos, ela é que nunca se quis fazer a nós. Por isso pegámos na força bruta da nossa juventude e atirámo-nos à estrada a querer saber, viver, beber a vida toda num dia só porque o amanhã era um ser tão distante, tão longínquo das nossas preocupações que provavelmente nem sequer existia. E correu-se estrada fora, ouvindo o vento, falando com as árvores, rindo com o mar. A vida que tinham para nos dar era demasiado pequena, demasiado absurda, demasiado cruel para sequer conseguir ter uma conversa com ela. Depois havia a arte, havia a capacidade de criar mundos fora deste mundo, sonhar, recordar outra coisa qualquer que, à força de a querermos tinha forçosamente que existir. E existiu, e aconteceu, pelo menos enquanto a tentávamos desenhar com uma guitarra, com um papel e uma caneta, com uma câmara de filmar. Novos mundos eram construídos e era durante essa construção que estavam vivos, era durante esse desempenho que se tornavam reais. Continuava-se vivo para voltar sempre ao sonho, a esse lugar agradável onde não fazia frio nem cheirava mal. Onde livres eram os seres e infinitas as suas possibilidades. Onde o gajo do lado era uma mão estendida que ajudava, um cigarro dividido, uma ideia partilhada, um braço que protegia, pedia ajuda. E nós ajudávamos.
Estrada percorrida, muitos foram os que ficaram para trás, por culpas de tudo e de todos mesmo das suas vontades. Não houve acusações, nem julgamentos, nem sequer a raiva da ausência. Era apenas o absurdo gigantesco desta vida a cumprir-se sobre as nossas existências. Mais tarde adultos mas sempre com a mesma curiosidade, o espírito de entre ajuda, observando as novas gerações e a continuar tentar perceber. Ouvi-los, pedir-lhes emprestados por instantes os seus óculos para ver o seu olhar. Ser porque é, estar porque sim, morrer porque tem de ser. Fez-se o que se podia fazer, ou o que foi deixado fazer ou o resultado de uma luta eterna entre a Liberdade e a estupidez humana.  
A vida não faz sentido nenhum…nunca fez. O problema dos homens livres é aperceberem-se disso ainda jovens. É como uma maldição que nunca mais nos deixa vestida de lágrimas e feridas para lamber ao fim do dia. Por isso quando morremos  estamos apenas a seguir esse guião horroroso e mal escrito que nunca quisemos aceitar mas que nos condena a todas as horas pelo crime de estarmos vivos, pela ousadia de querermos viver e continuar. E no fim não continuamos. Transformamo-nos em memória que alugará um espaço no coração daqueles que amámos. E aí o Amor volta a fazer sentido. Não por que se fale dele mas porque dá continuação ao acto de amar. E só assim ele consegue existir.

Artur

ZÉ PEDRO

               


                                                                   1956  -  2017


                                                                    Até sempre

terça-feira, 7 de novembro de 2017

CAMUS




ALBERT CAMUS 7-11-1913 - 4-1-1960


"Não creio suficientemente na razão para subscrever o progresso. Nem em nenhuma Filosofia da História. Creio, porém, que os homens não deixaram de aumentar a consciência que têm do seu destino. Não ultrapassámos a nossa condição, e, no entanto, conhecemo-la melhor".

L'Été

terça-feira, 24 de outubro de 2017

BESTIÁRIO ou A BRANCA DE NEVE E OS SETE MATULÕES



"Quando o leão está ferido, até os cães e as hienas lhe mordem os calcanhares"

Provérbio africano


Os incêndios doeram, doeram mesmo muito. São como uma gangrena no tecido natural, moral, social e económico do país. Não creio que no tempo que me resta de vida volte a ver algumas das paisagens deslumbrantes que, felizmente, me foram dadas a ver em muitos recantos portugueses, aqueles mesmos que os chacais que pululam nas televisões agora lamentam e choram, sem nunca lá terem posto os pés, como se fossem eles os poetas de uma Arcádia que nunca existiu, fingindo serem os arautos de um bucolismo que os aterroriza e que não compreendem. Nunca compreenderam, nem sequer quando redigiam aquelas redacções manhosas e mal enjorcadas que, na 4ª classe, se faziam acompanhar de líricas bordaduras de florzinhas, árvorezinhas e uma vaquinhas pastando no seu sossego. Isso, antes de enjoarem com a leitura de Sá de Miranda (os que o leram) e torcerem o nariz enojado ao Torga (o Torgão, como eles dizem, rindo-se muito da muita graça da pilhéria). 
Para além desta dor, uma outra, moral e ética se vem infiltrar, não me deixando sossegado: a dor de assistir à bancada do Governo, um conjunto de pessoas decentes e honestas, qual leão ferido, a ser açulado  e enxovalhado pelos cães, babecos e hienas da oposição. Para continuar com a metáfora e as analogias zoológicas, é confrangedor ver a cristas e o soares, coadjuvados por aquele do cabelo oleoso (agora não me lembro do nome dele, mas é um que dizia que "todas as crianças devem ter um pai e uma mãe" - a propósito da lei da co-adopção, recusando-se ele próprio a reconhecer um filho natural), pelo outro que, numa só noite e depois de o governo a que pertencia já estar demitido, assinou 300 despachos como ministro do ambiente, incluindo aquele que autorizava o abate de centenas de sobreiros e um outro que autorizava um colega de partido a edificar uma casa no parque natural da Serra da Arrábida, por aquele  monte de banha que já foi de um partido de extrema-direita, pelo duartinho de Mação e por todos os outros e outras que, se tivessem um pingo de vergonha na cara se voltariam a esconder debaixo daquela pedra a que chamam "lar doce lar", de onde saíram a rastejar para virem ocupar o lugar de de-puta-dozinhos e abarbatarem as sinecuras e as merdomias que lhes estão garantidas só por abanarem a cabeça para cima e para baixo, à ordem do líder, como aqueles cãezinhos que antigamente povoavam as traseiras dos carros. Pelo que se vê, por mais voltas que demos, voltamos sempre à zoologia e aos seus avatares. A esta hora estão eles na Assembleia da República a cacarejar, grunhir, zurrar, ladrar, mugir como animais dementes ou doentes de cio. O que nos leva à segunda parte do título deste texto: cansa tanta pornografia, aborrece tanta obscenidade, nauseia tanta falta de respeito e de auto-respeito. Acolitados por uma escumalha de pulhas, canalhas e vendidos com carteira de jornalista que lhes transformam os grunhidos em maviosos gemidos de virgem em noite de núpcias (daquelas que a indústria pornográfica tanto gosta de mostrar) a corja exulta, enquanto escorrega com prazer no unto da vulgaridade. Parafraseando o título do último disco dos The National: SLEEP WELL BEASTS.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

FOUCAULT




A obra de Michel Foucault tem sido objecto de múltiplas interpretações e de numerosos comentários numa grande variedade de disciplinas: psiquiatria, psicanálise, sociologia, crítica literária ou artísticas, ciências políticas, etc. De todas essas interpretações - se é que de uma interpretação se trata -, escolheria sempre a colectânea de ensaios "Michel Foucault" de Gilles Deleuze, quanto mais não fosse porque me comove a profunda afinidade entre os dois filósofos e o modo como os seus pensamentos dialogam, um diálogo que a morte de Foucault não interrompeu. De qualquer modo, e para além dessa diversidade de "usos", que reflecte a própria diversidade da obra, é possível encontrar um fio condutor que corre através de todos os seus textos recentrando-a em torno de uma questão eminentemente filosófica (quase diria : "a única questão eminentemente filosófica"): a questão da verdade, considerando que o homem se encontra reflectido nesses textos como "animal de verdade", embora Foucault tenha operado um descolamento importante dessa interrogação. Recordemos: a questão clássica da filosofia é: desde que fundamento pode um sujeito conhecer o mundo ? De Platão a Kant, passando por Espinosa, trata-se de reflectir um nó originário e interior, uma parentalidade de essência, uma correlação irredutível entre a alma e a verdade, entre o sujeito e o conhecimento. Em Foucault, a relação do sujeito com a verdade não se reflecte a partir do nexo interior do conhecimento, mas é construído a partir da relação exterior da história. A questão já não é: desde que fundamento um sujeito pode conhecer verdades sobre o mundo ? Mas: quais os processos históricos das estruturas de subjectivação se encontram ligadas aos discursos de verdade ? Trata-se então, de descrever historicamente os procedimentos pelos quais, na história, os discursos de verdade transformam, alienam, configuram os sujeitos e através dos quais as subjectividades se constróem e se trabalham através de um dizer-verdade.
Não querendo tentar explicar aqui todo o pensamento de Foucault (coisa que não teria competência para fazer), efectuo um salto quântico para a vertente desse pensamento que verdadeiramente me interessa: o que Foucault procurou fazer foi encontrar, como matriz dos discursos verdadeiros, os discursos de poder. O conceito de "vontade de saber" serve-lhe para enquadrar essa análise: é preciso opor o desejo de conhecimento à vontade de saber. O desejo de conhecimento, de Platão e Aristóteles a Espinosa, é o que relaciona e ata um sujeito e uma verdade pré-dados num acordo interior, desde sempre secretamente unidos, de tal modo que o movimento pelo qual o sujeito conhece a verdade realiza a sua natureza imemorial. A vontade de saber, dos sofistas a Nietzsche e Freud, descobre por detrás da busca de verdade o jogo sempre em movimento das pulsões ou dos instintos de domínio: a relação do sujeito com a verdade é uma relação de poder que se liga à exterioridade da história, apoiada por práticas e interesses sociais. É nestas coordenadas que o pensamento de Foucault se revela essencial para compreendermos os nossos tempos: depois de décadas de uma ilusão de liberdade e de realização individuais, voltamos à questão essencial: as técnicas de verdade (a verdade como tecnologia, a verdade como produção de realidade e como procedimento de subordinação dos indivíduos) produzem a realidade em vez de a reflectirem. É assim que a doença mental, a delinquência, o mercado, a sexualidade, o Estado (noções relevantes da política, da economia ou das ciências sociais) não existem: são qualquer coisa que não existe, mas que não deixa de ser real e verdadeira; a verdade apoiada por sistemas de poder, produz a realidade do que não existe, constrangendo as existências materiais a assemelharem-se a essa realidade: é assim que o asilo pode ser descrito como uma máquina de fabricar loucos, em nome de uma ciência médica da doença mental. Este exemplo, que retiro da obra "Histoire de la Folie À L'Âge Classique", mas que poderia ser encontrado em múltiplos equivalentes de "Vigiar e Punir", remete para a conclusão (provisória) que pretendo retirar: por um lado, o sujeito constitui-se e inventa-se, resiste aos grandes sistemas políticos de domínio a partir de um movimento de verdade inquieta; mas por outro lado, os discursos de verdade instituídos, socialmente aceites, encerram-no numa monotonia inerte dos hábitos e certezas comuns. A filosofia de Foucault reivindica finalmente uma fidelidade total à lição socrática: mais do que fundar a verdade do verdadeiro, a sua função é a de inquietar e perturbar o regime das evidências.