Sofia
terça-feira, 12 de dezembro de 2017
sábado, 9 de dezembro de 2017
CRÓNICAS DO BAIRRO…DA VIDA EM GERAL OU DO TEMPO QUE PASSA
Almoço no bairro com o meu pai há uma vida inteira. Umas
vezes num restaurante, outras noutro sem poiso fixo. Murmúrios de conversa de
circunstância e comentários da última jornada da bola entre garfadas e o eterno
jarro de tinto da casa. Não se trata bem de comunicação mas antes de provas de
vida trocadas ao sabor da refeição. Para o outro saber que estamos cá. A
comunicação nunca foi o nosso forte. Personalidades demasiado vincadas, egos
famintos de atenção, e apesar de tudo uma certa cordialidade, um certo respeito
que se consegue subentender na forma como se gerem os silêncios. Admiração e
respeito ao invés de desafio e rivalidade de machos alfa. Ou seja, não deixando
de haver pontes estabelecidas de comunicação, digamos que as viagens de
travessia é que não se acumulam…não gostam de se exagerar preservando-se assim
as margens e a boa convivência entre elas.
Dizia o meu pai no outro dia que a malta do tempo dele já
quase morreu toda. Inspiro, meto uma garfada de comida na boca para não a abrir
e olho lá para fora para o bairro. O mesmo bairro que nunca é o mesmo, a mesma
realidade urbana por onde as modas e as gerações vão passando, a nossa aldeia
onde vivemos desde o meu bisavô no início do séc. XX. É claro que a tua malta
já morreu quase toda, o que é que esperavas? Estás cá tu e isso é que importa.
Ainda podemos atravessar as pontes de vez em quando e falar um com o outro, ou
gerir os silêncios, o que vai dar ao mesmo. Ainda hoje da manhã a abrir o You
Tube tive mais um flash de tempo. Os gajos das bandas que eu ouvia em miúdo
estão carecas, barrigudos, os gajos da minha idade estão mais para avôs do que
para qualquer outra coisa. Se estou muito tempo sem ver um amigo noto logo a
diferença. A música é a mesma, não envelhece como o bairro. De operário a
classe média, de cagalhão chique a zona histórica urbana classificada será
sempre o mesmo espaço, a mesma aldeia situada no planalto de onde só se
consegue sair descendo. Estou velho Pai, estou a começar a coleccionar dores e
dormências em lugares que nem sabia que existiam, troco impressões sobre o
simpósio médico com os amigos, fico naquela mesa do fundo nos casamentos dos
filhos. Aquela ao lado da das crianças, decorada com bengalas, reumatismo e
alergias ao glúten. Mas continuamos a rir uns com os outros. Continuamos a
fazer das nossas sempre que podemos e a saúde permite. Mas já não é como era.
Há menos força, menos intensidade, menos resistência. Do meu lado também já
morreram muitos ao longo dos anos. Mas eu ainda vou estando por aqui e tu
também. Ainda vamos conseguindo almoçar nos restaurantes do bairro entre
silêncios e jarros de tinto da casa. A viagem vai-se aproximando do fim com a
vantagem de nunca haver data marcada para tal. Um dia simplesmente termina. E a
travessia desta mistura de loja de brinquedos com galeria de horrores continua
a ser a mesma cagada malcheirosa que sempre foi. Onde se sofre todos os dias
para de vez em quando ter direito a um rebuçado. E aguenta-se…vai-se
aguentando. Os gajos do teu tempo estão todos a morrer e os do meu a tornar-se
avozinhos. São os tempos, é a roda da vida, é o bairro que se renova reciclando
gerações e modas. Só ele continua de pé. Nós servimo-nos do seu espaço e do seu
afecto, chamamos-lhe “aldeia”, e vamos fazendo a manutenção das pontes por onde
conseguimos comunicar uns com os outros. É assim…foi sempre assim. Engulo com a
ajuda de um pouco de vinho, volto o olhar para dentro outra vez.
Então e aquele fora-de-jogo no Domingo? Viste no resumo?
Grande roubalheira…
Artur
quinta-feira, 30 de novembro de 2017
TODAS AS ESTRADAS ACABAM NO FIM DO CAMINHO
A única coisa que faz sentido é uma música enquanto é
tocada/cantada; a única coisa que faz sentido é um livro enquanto é lido, um
filme enquanto está a ser visionado. Nada mais. Só interessa amar enquanto se
ama. Quando nos pomos a falar sobre isso, já o amor deixou a sala e foi lá para
fora há muito tempo. Em miúdos os nossos pais, os professores, os adultos em
geral, diziam sempre a mesma coisa : “façam-se à vida…” E nós fazíamo-nos, ela
é que nunca se quis fazer a nós. Por isso pegámos na força bruta da nossa
juventude e atirámo-nos à estrada a querer saber, viver, beber a vida toda num
dia só porque o amanhã era um ser tão distante, tão longínquo das nossas
preocupações que provavelmente nem sequer existia. E correu-se estrada fora,
ouvindo o vento, falando com as árvores, rindo com o mar. A vida que tinham
para nos dar era demasiado pequena, demasiado absurda, demasiado cruel para
sequer conseguir ter uma conversa com ela. Depois havia a arte, havia a
capacidade de criar mundos fora deste mundo, sonhar, recordar outra coisa
qualquer que, à força de a querermos tinha forçosamente que existir. E existiu,
e aconteceu, pelo menos enquanto a tentávamos desenhar com uma guitarra, com um
papel e uma caneta, com uma câmara de filmar. Novos mundos eram construídos e
era durante essa construção que estavam vivos, era durante esse desempenho que
se tornavam reais. Continuava-se vivo para voltar sempre ao sonho, a esse lugar
agradável onde não fazia frio nem cheirava mal. Onde livres eram os seres e infinitas
as suas possibilidades. Onde o gajo do lado era uma mão estendida que ajudava, um
cigarro dividido, uma ideia partilhada, um braço que protegia, pedia ajuda. E
nós ajudávamos.
Estrada percorrida, muitos foram os que ficaram para trás,
por culpas de tudo e de todos mesmo das suas vontades. Não houve acusações, nem
julgamentos, nem sequer a raiva da ausência. Era apenas o absurdo gigantesco
desta vida a cumprir-se sobre as nossas existências. Mais tarde adultos mas
sempre com a mesma curiosidade, o espírito de entre ajuda, observando as novas
gerações e a continuar tentar perceber. Ouvi-los, pedir-lhes emprestados por
instantes os seus óculos para ver o seu olhar. Ser porque é, estar porque sim,
morrer porque tem de ser. Fez-se o que se podia fazer, ou o que foi deixado
fazer ou o resultado de uma luta eterna entre a Liberdade e a estupidez humana.
A vida não faz sentido nenhum…nunca fez. O problema dos
homens livres é aperceberem-se disso ainda jovens. É como uma maldição que
nunca mais nos deixa vestida de lágrimas e feridas para lamber ao fim do dia. Por
isso quando morremos estamos apenas a
seguir esse guião horroroso e mal escrito que nunca quisemos aceitar mas que
nos condena a todas as horas pelo crime de estarmos vivos, pela ousadia de
querermos viver e continuar. E no fim não continuamos. Transformamo-nos em
memória que alugará um espaço no coração daqueles que amámos. E aí o Amor volta
a fazer sentido. Não por que se fale dele mas porque dá continuação ao acto de
amar. E só assim ele consegue existir.
Artur
terça-feira, 7 de novembro de 2017
CAMUS
ALBERT CAMUS 7-11-1913 - 4-1-1960
"Não creio suficientemente na razão para subscrever o progresso. Nem em nenhuma Filosofia da História. Creio, porém, que os homens não deixaram de aumentar a consciência que têm do seu destino. Não ultrapassámos a nossa condição, e, no entanto, conhecemo-la melhor".
L'Été
terça-feira, 24 de outubro de 2017
BESTIÁRIO ou A BRANCA DE NEVE E OS SETE MATULÕES
"Quando o leão está ferido, até os cães e as hienas lhe mordem os calcanhares"
Provérbio africano
Os incêndios doeram, doeram mesmo muito. São como uma gangrena no tecido natural, moral, social e económico do país. Não creio que no tempo que me resta de vida volte a ver algumas das paisagens deslumbrantes que, felizmente, me foram dadas a ver em muitos recantos portugueses, aqueles mesmos que os chacais que pululam nas televisões agora lamentam e choram, sem nunca lá terem posto os pés, como se fossem eles os poetas de uma Arcádia que nunca existiu, fingindo serem os arautos de um bucolismo que os aterroriza e que não compreendem. Nunca compreenderam, nem sequer quando redigiam aquelas redacções manhosas e mal enjorcadas que, na 4ª classe, se faziam acompanhar de líricas bordaduras de florzinhas, árvorezinhas e uma vaquinhas pastando no seu sossego. Isso, antes de enjoarem com a leitura de Sá de Miranda (os que o leram) e torcerem o nariz enojado ao Torga (o Torgão, como eles dizem, rindo-se muito da muita graça da pilhéria).
Para além desta dor, uma outra, moral e ética se vem infiltrar, não me deixando sossegado: a dor de assistir à bancada do Governo, um conjunto de pessoas decentes e honestas, qual leão ferido, a ser açulado e enxovalhado pelos cães, babecos e hienas da oposição. Para continuar com a metáfora e as analogias zoológicas, é confrangedor ver a cristas e o soares, coadjuvados por aquele do cabelo oleoso (agora não me lembro do nome dele, mas é um que dizia que "todas as crianças devem ter um pai e uma mãe" - a propósito da lei da co-adopção, recusando-se ele próprio a reconhecer um filho natural), pelo outro que, numa só noite e depois de o governo a que pertencia já estar demitido, assinou 300 despachos como ministro do ambiente, incluindo aquele que autorizava o abate de centenas de sobreiros e um outro que autorizava um colega de partido a edificar uma casa no parque natural da Serra da Arrábida, por aquele monte de banha que já foi de um partido de extrema-direita, pelo duartinho de Mação e por todos os outros e outras que, se tivessem um pingo de vergonha na cara se voltariam a esconder debaixo daquela pedra a que chamam "lar doce lar", de onde saíram a rastejar para virem ocupar o lugar de de-puta-dozinhos e abarbatarem as sinecuras e as merdomias que lhes estão garantidas só por abanarem a cabeça para cima e para baixo, à ordem do líder, como aqueles cãezinhos que antigamente povoavam as traseiras dos carros. Pelo que se vê, por mais voltas que demos, voltamos sempre à zoologia e aos seus avatares. A esta hora estão eles na Assembleia da República a cacarejar, grunhir, zurrar, ladrar, mugir como animais dementes ou doentes de cio. O que nos leva à segunda parte do título deste texto: cansa tanta pornografia, aborrece tanta obscenidade, nauseia tanta falta de respeito e de auto-respeito. Acolitados por uma escumalha de pulhas, canalhas e vendidos com carteira de jornalista que lhes transformam os grunhidos em maviosos gemidos de virgem em noite de núpcias (daquelas que a indústria pornográfica tanto gosta de mostrar) a corja exulta, enquanto escorrega com prazer no unto da vulgaridade. Parafraseando o título do último disco dos The National: SLEEP WELL BEASTS.
quarta-feira, 9 de agosto de 2017
FOUCAULT
A obra de Michel Foucault tem sido objecto de múltiplas interpretações e de numerosos comentários numa grande variedade de disciplinas: psiquiatria, psicanálise, sociologia, crítica literária ou artísticas, ciências políticas, etc. De todas essas interpretações - se é que de uma interpretação se trata -, escolheria sempre a colectânea de ensaios "Michel Foucault" de Gilles Deleuze, quanto mais não fosse porque me comove a profunda afinidade entre os dois filósofos e o modo como os seus pensamentos dialogam, um diálogo que a morte de Foucault não interrompeu. De qualquer modo, e para além dessa diversidade de "usos", que reflecte a própria diversidade da obra, é possível encontrar um fio condutor que corre através de todos os seus textos recentrando-a em torno de uma questão eminentemente filosófica (quase diria : "a única questão eminentemente filosófica"): a questão da verdade, considerando que o homem se encontra reflectido nesses textos como "animal de verdade", embora Foucault tenha operado um descolamento importante dessa interrogação. Recordemos: a questão clássica da filosofia é: desde que fundamento pode um sujeito conhecer o mundo ? De Platão a Kant, passando por Espinosa, trata-se de reflectir um nó originário e interior, uma parentalidade de essência, uma correlação irredutível entre a alma e a verdade, entre o sujeito e o conhecimento. Em Foucault, a relação do sujeito com a verdade não se reflecte a partir do nexo interior do conhecimento, mas é construído a partir da relação exterior da história. A questão já não é: desde que fundamento um sujeito pode conhecer verdades sobre o mundo ? Mas: quais os processos históricos das estruturas de subjectivação se encontram ligadas aos discursos de verdade ? Trata-se então, de descrever historicamente os procedimentos pelos quais, na história, os discursos de verdade transformam, alienam, configuram os sujeitos e através dos quais as subjectividades se constróem e se trabalham através de um dizer-verdade.
Não querendo tentar explicar aqui todo o pensamento de Foucault (coisa que não teria competência para fazer), efectuo um salto quântico para a vertente desse pensamento que verdadeiramente me interessa: o que Foucault procurou fazer foi encontrar, como matriz dos discursos verdadeiros, os discursos de poder. O conceito de "vontade de saber" serve-lhe para enquadrar essa análise: é preciso opor o desejo de conhecimento à vontade de saber. O desejo de conhecimento, de Platão e Aristóteles a Espinosa, é o que relaciona e ata um sujeito e uma verdade pré-dados num acordo interior, desde sempre secretamente unidos, de tal modo que o movimento pelo qual o sujeito conhece a verdade realiza a sua natureza imemorial. A vontade de saber, dos sofistas a Nietzsche e Freud, descobre por detrás da busca de verdade o jogo sempre em movimento das pulsões ou dos instintos de domínio: a relação do sujeito com a verdade é uma relação de poder que se liga à exterioridade da história, apoiada por práticas e interesses sociais. É nestas coordenadas que o pensamento de Foucault se revela essencial para compreendermos os nossos tempos: depois de décadas de uma ilusão de liberdade e de realização individuais, voltamos à questão essencial: as técnicas de verdade (a verdade como tecnologia, a verdade como produção de realidade e como procedimento de subordinação dos indivíduos) produzem a realidade em vez de a reflectirem. É assim que a doença mental, a delinquência, o mercado, a sexualidade, o Estado (noções relevantes da política, da economia ou das ciências sociais) não existem: são qualquer coisa que não existe, mas que não deixa de ser real e verdadeira; a verdade apoiada por sistemas de poder, produz a realidade do que não existe, constrangendo as existências materiais a assemelharem-se a essa realidade: é assim que o asilo pode ser descrito como uma máquina de fabricar loucos, em nome de uma ciência médica da doença mental. Este exemplo, que retiro da obra "Histoire de la Folie À L'Âge Classique", mas que poderia ser encontrado em múltiplos equivalentes de "Vigiar e Punir", remete para a conclusão (provisória) que pretendo retirar: por um lado, o sujeito constitui-se e inventa-se, resiste aos grandes sistemas políticos de domínio a partir de um movimento de verdade inquieta; mas por outro lado, os discursos de verdade instituídos, socialmente aceites, encerram-no numa monotonia inerte dos hábitos e certezas comuns. A filosofia de Foucault reivindica finalmente uma fidelidade total à lição socrática: mais do que fundar a verdade do verdadeiro, a sua função é a de inquietar e perturbar o regime das evidências.
terça-feira, 8 de agosto de 2017
terça-feira, 18 de julho de 2017
A DIFICULDADE EM USAR OS CONCEITOS E O TOTALITARISMO
“Biológica e culturalmente
sou um rafeiro e orgulho-me de ser o produto intelectual e físico de todas as
classes, raças e nações, orgulho-me de não pertencer a uma “raça pura” nem a
uma “classe pura”…
Wilhelm Reich
Quanto mais tempo perdemos em nos dividir e subdividir até à
exaustão, quanto mais tempo gastamos a julgar ou a compararmo-nos com o “outro”,
mais perdemos enquanto espécie, enquanto organização social e, em última
análise, em enfraquecimento do espírito. Qualificar uma etnia como marginal é
repetir comportamentos do passado que terminaram em tragédias colossais. Não
pode ser uma etnia inteira culpada do mesmo comportamento mas vários cidadãos
que a compõem no que à sociedade e à lei diz respeito. A homossexualidade não é
uma anomalia da espécie humana mas apenas uma escolha de prática sexual. A
grande anomalia é a própria espécie humana que em milhares de séculos neste
planeta não conseguiu evoluir alem da destruição do meio ambiente onde vive, resolver
problemas básicos como a fome, o controle demográfico e a própria organização
social para uma dimensão mais justa e equilibrada onde todos os seus membros
pudessem viver em paz. Uma espécie que venera deuses que nunca viu mas não
hesita em destruir a Natureza onde caminha todos os dias e que lhe permite e
faculta o simples fenómeno da vida. Uma espécie muito mais concentrada na
guerra e na destruição do “outro” do que na evolução natural da existência. Uma
espécie alimentada a intolerância, ganância e iniquidade, selvagem e perigosa
para as outras espécies com que divide o espaço onde habita.
Não, não é uma etnia que é toda ela marginal e fora da lei,
serão elementos dessa etnia como de todas as outras. Porque a cidadania é isso
mesmo, o compromisso entre o HOMEM individualizado e a sociedade, os seus
pares. Em termos de infracção das leis só existe um conceito material, o de
CIDADÃO. Tal como o racismo não é argumento para a estupidez, a acção ilegal ou
a incapacidade. Por isso o “politicamente correcto” atingiu dimensões fatais de
afastamento e incompreensão que de nada servem a não ser para continuar a
dividir, continuar a separar. Portanto haverá marginais de todas as cores e
religiões como haverá cidadãos dignos e responsáveis de todas as cores e
religiões. A República e a Democracia foram inventadas para precisamente
unificar a espécie no seu denominador comum. Iguais perante a lei e os seus
pares. Seres humanos. Que um engenheiro troque estes dois conceitos, não sendo
tolerável não é extraordinariamente grave. Agora que um Professor de Direito o
faça, das duas, uma. Ou é um completo ignorante que se doutorou por baixo da
mesa ou, mais grave ainda, é alguém que intelectualmente despreza estes
princípios básicos da Democracia e da República e que se situa ao nível da
ideologia totalitária.
Que um venerando médico com uma vida académica e científica
prestigiada qualifique a homossexualidade como uma anomalia, que dizer então?
Que guardou na gaveta todo o seu capital humanista, que se limitou a ajuizar
através dos seus princípios culturais, que resolveu chamar a atenção? Francamente
não sei. O que sei é que não são as práticas homossexuais que provocam doenças
ou tenham sequer algum risco epidémico que coloque a Humanidade em risco. Deixo
para a diferença de tempos e de valores culturais a frase infeliz.
O que assusta é que quando se começa a perseguir os outros
por isto e por aquilo, em pouco tempo cairemos no tempo de uma só voz, um só
conceito, uma só verdade. E a História está cheia de episódios semelhantes que
terminaram da pior maneira para milhares e milhares de vítimas. O nosso
problema não é a diferença do outro. O nosso problema é como enfraquecer e
exterminar esta condição de escravos de que meia dúzia de espertos consegue
alimentar-se há séculos. O nosso problema é ser roubados todos os dias, passar
fome e frio, morrer em guerras que não são nossas e continuar a apontar o dedo
ao outro, ao “diferente”. O nosso problema é não conseguir viver num ambiente
limpo e saudável porque a economia tem que crescer, a produtividade tem que
aumentar. Mas aumentar para chegar aonde? À nossa melhoria de vida? Depois dos
computadores trabalhamos menos, produzimos menos, somos menos escravos? Não. E
o que é que insistimos em fazer? Apontar o dedo ao “outro”, matar o outro
porque adora um deus diferente do nosso.
Enquanto os grupos políticos e os grupos de interesse
através das suas máquinas de propaganda, vulgo grupos de comunicação, dançam um
fandango colorido acerca de responsabilidades, chafurdice na tragédia e outros
tantos comportamentos inúteis e repetitivos que nos adormecem num sono
alienado, enquanto os fogos ardem e as pessoas morrem sem necessidade, por
outro lado há outro país que se mobiliza e arranca para os lugares fustigados e
transporta consigo comida, roupa e utensílios de todo o género. Há uma vaga de
solidariedade espontânea que se ergueu sem que ninguém lhe pedisse. E são estes
comportamentos que nos interessam, são estas atitudes que valem. As vedetas que
continuem a dançar no aquário e a cantar a cantiga que lhes foi encomendada. Há
muito mais vida do outro lado da vida. E pouco nos interessam as cores, as
religiões ou o politicamente correcto de uma tragédia. O que nos interessa é
sobreviver como um só, contra quem nos quer exterminar, contra quem nos quer a
dormir, contra quem nos engana com divisões. Uma espécie num planeta…é o que
nós somos. E estamos a ser cada vez mais.
Artur
quarta-feira, 12 de julho de 2017
SUMMER THOUGHTS
Triste de quem é feliz
Vive porque a vida dura
Nada na alma lhe diz
Mais que a lição da raiz
Ter por vida a sepultura
Fernando Pessoa in "Quinto Império"
quarta-feira, 31 de maio de 2017
DIA MUNDIAL DO TRIPULANTE DE CABINE - O GLAMOUR E A POIA
Entre tantas travessias do oceano que separa a Europa das Américas, há sempre algumas que se tornam peculiares porque quando para o homem é uma situação rotineira, as circunstâncias das convergências universais logo o desarmam pela coisa inesperada, que ao sê-lo obrigam-no o repensar que ao cabo de três décadas em velocidade Warp e em materializações e desmaterializações nas margens de cada continente, afinal... ainda não viu tudo.
Farto de jornais e revistas que nada acrescentam, vi a PIL'ali à mão (PIL - Passenger Information List). Não resisti ao apelo do momento e decidi ir em demanda de nomes peculiares. Sucesso. Apontei-os.
Mal sabia eu nesse momento que pouco depois estaria a engendrar a ligação da poia com os nomes apontados para me rir um bocado.
Para já, nomes. Nomes de gente real, saídos da cabeça de irreais baptizantes registados numa única lista qualquer:
Tercília, Careta, Tumbeiro, Cezana, Joanadarc, Santa Ivanir, Deusa Cypriano, Clelder, Zamprogno, Eslania, Zileide, Zeneide, Glaucia, Heimlich, del Puppo, Auzenir, Poli, Mori, Maranganhe, Paccou, Malizia, Mariuza Uliana, são alguns dos nomes de companheiros só desta viagem que pretendo registar para se algum dia quiser baptizar alguma personagem que a imaginação possa parir.
(Parindo)
Depois as situações.
Podia começar pelo Gustavo que quer ser Gustava porque nasceu no corpo errado. Talvez uma das transformações mais bem conseguidas que eu vi, denunciado pela voz de cana rachada... mas não. Remeto-me antes para as situações particulares que obrigam por exemplo a desmontar do enorme glamour das viagens aéreas para conseguir ir até ao chão da casa de banho resgatar uma poia tão solitária, redondinha e bem feita, que até faz suspeitar de algum canídeo à solta que confrontado com a própria impossibilidade de chegar com o rabinho à sanita, se rende à força da sua natureza e delicadamente a depõe no chão, mesmo defronte dela. Agora que penso nisso, há uma probabilidade esmagadoramente maior de o canídeo ou canídea ser portador de um dos nomes que mencionei, por exemplo 'del Puppo', ou saído do Paccou, que a possibilidade de eu ganhar o Euromilhões e assim por breves segundos, deixar de existir neste plano enquanto apanho 'poops' do chão de uma casa de banho de uma nave voadora. Nem a Santa Ivanir, e muito menos a Deusa Cypriano me valeram nesta hora de aflição e apneia, na qual não me lembro por ter deixado de existir nesses breves segundos, se terei feito alguma Careta ou se algum Careta me a terá deixado. O que é certo é que foi uma Malizia da parte de quem fez tal trabalho e por isso mereceria um pena idêntica à sofrida pela Joanadarc. Julgo que a Mariuza estará inocente, já que foi feita entre o Brasil e Portugal... suspeitos mesmo será a dupla Poli e Mori, que nos remete para dois operacionais da Mafia calabresa. Ou Maranganhe que deve ser primo afastado do Gungunhana. Tumbeiro, pode ser nome de bobo zombeteiro, sempre à espera de pregar uma peça. Já as Tercília, Eslania, Zileide, Zeneide, Glaucia e Auzenir, deixam-me uma dúvida maior quanto à sua culpabilidade. Tal como a Cezana, que deve ser artista pintora e o que estava no chão, pela forma como estava, era mais da área de escultura, não evidenciando sequer ter sido pintada à pistola. Muito menos o resultado de uma manobra de Heimlich, a algum engasgado que a expelisse pela bocarra.
E para finalizar, Zamprogno as mãos no lume que Clelder está inocente, enquanto me divirto a ver os convidados a entrar na casa de banho descalços, como sempre acontece em todos os voos. Não será contudo, aquele que estendendo os pés para além do seu domínio durante as nove horas de duração da travessia, manteve as bases esticadas mas devidamente calçadas em território alheio.
Viva a poia!
E a poia a quem a deixou.
30 de Maio de 2017
Hélder Martins
sábado, 6 de maio de 2017
ATÉ LOGO TIA
Tanto quanto sei, continuo à
espera que venhas do trabalho ao fim da tarde encostado ao parapeito da varanda
que é maior que eu, para irmos dar uma voltinha antes do jantar. Se estivermos
no Verão sei que poderei contar com um gelado na pastelaria, se estivermos no
início do mês até pode acontecer que me compres um carrinho de miniatura na
papelaria. Sei que quando chegares, apesar de cansada ou desiludida com o
namorado o teu rosto estará sempre desenhado com um sorriso e uma palavra
amigável para me dar. Por isso quando a tarde começa a chegar ao fim corro para
a varanda e encosto-me ao parapeito que é maior que eu a espreitar para o fim
da rua à espera de te ver chegar. E conversaremos sobre tudo e nada como velhos
amigos a caminho da pastelaria e depois a caminho do jardim enquanto saboreamos
um gelado.
Tanto quanto sei não me lembro de
ter conhecido alguém mais generoso do que tu, mesmo quando era malcriado ou
proferia frases irresponsáveis que percebia logo a seguir que te deixavam
triste. Triste como eu fiquei quando te foste embora começar uma nova vida
noutras paragens, triste como quando me lembro de ti depois de partires outra
vez. Da primeira vez cheguei a abrir as tuas gavetas e a meter a cabeça lá
dentro para cheirar os restos da tua presença. Agora restam-me as lembranças de
uma vida, a história de nós os dois que começa lá atrás, muito atrás quando
usava calções e andava sempre esfolado nos joelhos. A vida continuou, a vida
continua sempre. As pessoas que amamos nunca chegam verdadeiramente a morrer,
arranjam um lugar na mesinha da sala no meio das fotografias dos outros que
foram antes. É onde tu moras agora. Doce, meiga, tolerante e bonita como sempre
foste. Com as barbatanas que te ajudavam a nadar na praia que eu depois herdei,
com os melhores natais da minha vida em tua casa em Inglaterra com o meu tio e
o meu primo. Com aquela tarde na baixa londrina em que um adolescente
desastrado como eu só fez asneiras, só disse disparates perante o teu ar
tranquilo e compreensivo. Consegui despejar uma Coca Cola por cima de mim e
encher um cachorro quente com mostarda de Dijon que não conhecia até deitar
fumo das orelhas, tropeçar numa velha “bifa” no metro que ia caindo ao chão.
Ter treze anos é tão estúpido e tão solitário que se não houver ninguém que nos
vigie pode-se rapidamente precipitar numa tragédia. Mas não foi assim porque
estavas lá tu. Foste mais uma vez a garantia, a tolerância, o conselho amigável
que me dizia: “não é grave se falhares…de vez em quando acontece…”; “ parece que
é o fim do mundo mas amanhã o mundo continua…e tu também”. Queria dizer-te
tanta coisa, agradecer-te, segurar outra vez as tuas mãos nas minhas,
abraçar-te quase até ao sufoco. Para que saibas que não me esqueço de ti nem da
longa caminhada que fizemos ao longo de uma vida inteira. Para que saibas que
te agradeço profundamente a permanente disponibilidade, a delicada mão sempre
estendida para uma festa, uma ajuda, a mão que tantas vezes me lavou o rabo.
Não me esqueço, nunca o vou fazer. Não me esqueço que terminei o meu primeiro
romance em tua casa num Verão acidentado, onde depois de muita maluqueira,
muita confusão, muitos “anos 80” decidi apanhar o primeiro autocarro em
Victoria Station e bater-te à porta. Lá estavas tu e o tio e o Chris e os dois
gatos (o Snowy e o Smokey), lá estavam vocês todos em forma de família e porto
de abrigo, albergue exclusivo, lá estavas tu e o teu sorriso. Não me esqueço.
Fiquei a dormir no teu quarto para poder “trabalhar melhor”. Ganhei peso com o
teu empadão, ganhei cor, voltei à vida. Não me esqueço. Como qualquer miúdo de
calções e joelhos esfolados à espera da água oxigenada e do penso rápido
encostado a um parapeito de uma varanda maior que eu.
Tanto quanto sei as pessoas têm
que morrer, é o problema de se estar vivo. Mas as histórias, os caminhos que as
pessoas fazem juntas, os natais, a porta sempre aberta, tudo isso fica vivo de
forma permanente. Como aquela mesinha ao canto da sala onde caminhas para a
água com as barbatanas debaixo do braço. Um dia sei que acabarei por ir parar
lá. E quando isso acontecer vou correr atrás de ti de calções e joelhos
esfolados para que passes a água oxigenada e coles o penso rápido. E, quem
sabe, pode ser que depois consigamos ir à pastelaria comprar um gelado e
passear até ao jardim. Eu sei que tu vais voltar a aparecer por trás da
esquina. Muitos beijinhos tia Paula.
Artur
domingo, 26 de março de 2017
SILENCE
SILENCE
Martin Scorsese
EUA, 2016
Para abordarmos este título, inspirado na obra homónima de
Shusaku Endo (1923 – 1996) com o título original “Chinmoku”, com resultados
minimamente esclarecedores, teremos que atravessar dois territórios
incontornáveis. O diálogo cultural entre o Ocidente e o Oriente por um lado, e
o diálogo ou a peregrinação interior do homem de fé dentro de si próprio. Publicado
em 1966 “Chinmoku” retrata a odisseia de
dois padres jesuítas (Sebastião Rodrigues e Francisco Garupe) que partem para o
Japão à procura do seu mentor Cristóvão Ferreira empenhados em desmentir o
boato de apostasia de que era acusado. Pelo caminho vão ser confrontados com
uma ordem social e política que reprime, proíbe e extermina os cristãos num
Japão em processo de unificação e reforço da autoridade central.
Considerado por muitos como um dos mais importantes romances
do séc. XX, “Chinmoku” levanta várias questões interessantes quer de carácter
colectivo, quer individual. De que forma é que a cristandade se poderia
comprometer com uma cultura estrangeira? Pela força? Por aliança? Por
acomodação? E se desfizéssemos um fato e o tentássemos transformar num kimono,
qual seria o resultado final? Por outro lado que deus é este que acompanha um
crente na total adversidade sem nunca se manifestar? Que deus é este que em vez
de aliviar o sofrimento aos seus seguidores opta por os acompanhar no martírio?
No ano de 1543 um barco mercante português a caminho da
China é desviado do seu curso por uma tempestade que o empurra para a costa de
Kyushu. Começa a partir daqui um riquíssimo e extraordinário diálogo de séculos
entre duas culturas diametralmente opostas que, com momentos altos e baixos,
sempre se conseguiu manter dialogante, criativa e vantajosa para ambas as
partes. Seguindo-se ao intercâmbio comercial e cultural veio a religião. S.
Francisco Xavier é o primeiro cerca de 1540 a erguer junto com a ordem dos
jesuítas, uma estrutura em rápido desenvolvimento. Em trinta anos o território
do Japão contava com 200 igrejas, 75 padres e cerca de 300 mil crentes.
Apoiados pelos daimyo (barões locais)
os cristãos por sua vez fortaleciam o controle político. A partir do final do séc.
XVI quando o Shogun Tokugawa Ieyasu inicia o seu esforço determinado em
unificar o país vê nos cristãos e na sua comunidade um inimigo aos seus
objectivos. Começam as operações de obrigação da nova religião aos caminhos da
clandestinidade. A primeira ordem de expulsão dos jesuítas do Japão data de
1587. Em 1603, vinte e seis cristãos são crucificados em Nagasaki. Os agora
cristãos clandestinos (Kakure kirishitan) passam a ser perseguidos, torturados
e mortos por causa da sua fé. Têm no entanto a possibilidade de se salvar
negando a sua religião havendo para o efeito o acto de apostasia que consiste
na colocação do pé sobre um ícone cristão (a imagem de Jesus ou da Virgem Maria), fumi-e.
Sebastião e Francisco chegam ao Japão no rescaldo da
rebelião de Shimabara (1637 – 1638) onde o Shogunato Tokugawa conseguiu uma
importante vitória, eliminando todos os restantes Kirishitan. Em contacto com
estas comunidades clandestinas, Sebastião e Francisco vão experienciar todo um
desfile de perseguições, crueldade e tortura pontuados pelo Judas permanente,
Kichijiro, que não só denuncia os sacerdotes como comete apostasia mais do que
uma vez. Arrepende-se e volta a pecar numa sequência interminável. Em todo o martírio deus permanece silencioso,
não se manifestando de nenhuma forma. Sebastião está disponível para oferecer o
sacrifício da sua vida pela fé mas em vez disso as autoridades japonesas vão
eliminando cada vez mais cristãos locais até que ele negue a sua fé. Tudo vai
mudar com o encontro com Cristóvão Ferreira. Confirmado o acto de negação da
sua fé o antigo mentor do jovem jesuíta tenta aos poucos confrontá-lo com a
inutilidade do sacrifício, com o nulo valor de um acto simbólico, com a ideia
de que se Cristo estivesse ali escolheria poupar as vidas daqueles que vão
morrendo enquanto Sebastião não negar a sua fé. Sebastião acaba por pisar o
ícone e até ao fim dos seus dias torna-se um japonês de religião e de costumes.
No cinema esta é a terceira vez que se faz uma adaptação do
livro de Endo. Em 1971 Matsuhiro Chinoda realizou SILENCE e em 1996 João Mário
Grilo assina OS OLHOS DA ÁSIA.
Teizo Matsumura no ano 2000 (opera) e James Mac Millan em
2002 (Sinfonia nº 3 “Silence”) complementaram a componente musical do tema.
Posto isto resta saber o que é que Scorsese acrescenta a
tudo aquilo que já foi feito em relação a este momento literário
extraordinário. Uma excelente fotografia e uma narrativa cinematográfica
composta por requintados quadros. De resto o estereotipo dos japoneses que ora
são criaturas medonhas em estado quase selvagem ou tiranos sanguinários
indiferentes ao sofrimento dos outros. Enquadramento histórico, zero. O aspecto
do diálogo ou choque cultural é pura e simplesmente minimizado, reduzido a meia
dúzia de balelas sobre religião. O conflito interno de Sebastião amplamente
documentado no livro original em Scorsese limita-se à multiplicação das várias
caretas de Andrew Garfield. Se quiser saber o que vai na cabeça de Sebastião, o
espectador que adivinhe.
Por fim o filme é demasiado longo, repetitivo, chato e
inconclusivo. O original de Chinoda conta a mesma história em menos meia hora.
As cenas dos cristãos massacrados bem como o acto da apostasia repetem-se vezes
sem fim até à náusea. Por fim a narrativa abre uma série de portas que não
consegue fechar e aponta vários caminhos que depois acaba por não percorrer.
Vale a indústria americana carregar aos ombros o sucesso e a originalidade para
justificar e fazer crescer a sua margem de lucro. Mas não vale tudo na luta
pela ocupação da barraca das farturas.
Artur
terça-feira, 14 de março de 2017
O ANJO DA HISTÓRIA VOLTA A ATACAR
Ocorreu-me que Portugal necessita desesperadamente de uma guerra civil. Ou melhor, não, não precisa de uma guerra civil; precisa, isso sim, de uma revolução como deve ser, à moda antiga, com munições reais em vez de cravos nos canos das G3. No livro "A Balada das Praia dos Cães" de José Cardoso Pires - cuja acção decorre no final dos anos 60 - uma personagem declarava ao Inspector da PJ que "Portugal é um país pasteurizado a merda !". 50 anos passados, depois de termos percorrido todo o círculo, de termos feito a circum-navegação, de termos dado pinotes e cambalhotas, depois de uma Revolução e de milhentos actos falhados, estamos outra vez no mesmo sítio "pasteurizados a merda". Portugal precisava, dizia eu, de uma revolução a sério, daquelas com pelotões de fuzilamento em cada esquina, que nos livrasse para sempre de banqueiros e ex-banqueiros; da rapaziada dos "off-shores"; das bancadas parlamentares do PSD e do CDS ( e das respectivas "jotas"); de alguns parlamentares da chamada "esquerda democrática"; de grande parte dos sindicalistas; de alguns juízes e magistrados que envergonham diariamente a Justiça, emporcalhando-lhe o nome; dos empresários que diariamente, de dedinho em riste e vozinha aflautada nos pregam moral e bons costumes; de "jornalistas" avençados, desleais e corrompidos; de alguns professores universitários que passeiam a sua ignorância e incompetência por debaixo das surradas e sebentas togas com que assistem aos actos oficiais; enfim de toda uma escumalha de traidores, parasitas e idiotas que enxameiam a nossa vida pública, poluindo-a com a sua bovina estupidez. Podemos sonhar que a nossa Place de Grève é o Rossio, com os rios de sangue derramados pela gentalha a escorrerem alacramente pela Baixa Pombalina e indo desaguar no Terreiro do Paço, onde formariam um lago pantanoso logo aproveitado pelos turistas que, descalçando as xanatas, os sapatos de ténis e os borzeguins variados logo se poriam a chapinhar alegremente no sangradouro, borrifando-se uns aos outros com os escarlates e odoríferos pingos derramados pelos modernos miguéis de vasconcelos. Depois de cumprido este doloroso dever, poderíamos então renascer "inteiros e limpos", numa nova madrugada, prontos a recomeçar. Portugal seria então o espanto, a admiração e a inveja do Mundo e passaria por cima do V Império de Vieira para o VI Império, passando a chamar-se República Messiânica de Portugal: seria neste torrão abençoado que o Jesus Cristo Redentor voltaria para nos absolver dos pecados e cumprir a Promessa que a sua natureza simultaneamente humana e divina implica.
Ou esta nova Revolução acontece, ou só nos resta esperar por uma tempestade de merda que nos arraste a todos para o rio Tejo, em direcção ao mar aberto.
terça-feira, 28 de fevereiro de 2017
NAZARÉ - Canhões, Bombas e Foliões
Em pleno Carnaval, ocorre-me falar do canhão.
Não, não é uma qualquer passista sambista extremamente encalorada, que em vez de se despojar da sua roupita pelas terras onde o Verão aperta nesta altura e o samba é natural, escolhe dançar quase como veio à luz, por terras lusas onde a temperatura do ar, nem assim lhe aplaca o afogueamento.
O canhão a que me refiro, é exactamente o da Nazaré.
Ora com a divulgação global dos seus enormes disparos por Garret MacNamara, o Canhão da Nazaré, conseguiu uma projecção que nenhum secretário de estado do turismo, alguma vez almejou na recente história portuguesa.
Pois bem, chegou aos ouvidos de todas as bombas perdidas e desprezadas que flutuam por esses oceanos fora, que este sim! Este é um canhão digno de qualquer bomba, nem que tenha mais de setenta anos! E até a Carmen Dell'Orefice, que nos seus fantásticos 83 anos de idade, continua a arrebentar corações, perguntou qual era o orifício de entrada para aceder a este canhão.
Entretanto, a turba circundante da Nazaré ao ouvir falar em bombas apanhadas junto à costa fora da época estival, depressa se acercou o mais possível da propalada bomba, que ainda por cima não tinha uma peça de roupa que fosse a cobrir o seu aerodinâmico corpinho.
Julgo, é que não sabiam que podia mandá-los a todos até ás nuvens, mesmo sem lhe tocarem com um dedo que fosse.
Hélder
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