domingo, 3 de julho de 2016
quarta-feira, 29 de junho de 2016
PÉROLAS DE SCOLA 5
CHE STRANO CHIAMARSE FEDERICO /
QUE ESTRANHO CHAMAR-SE FEDERICO
Ettore Scola
Itália, 2013
Para falarmos sobre um filme que
é essencialmente um manifesto de ternura poderíamos começar com uma imagem de
ternura. Uma imagem onde um miúdo de nove anos de idade descreve em voz alta a
interpretação de uns desenhos satíricos da autoria de Federico Fellini a um avô
cego. Dez anos depois de GENTE DI ROMA, contrariando todas as possibilidades,
Scola decide homenagear o seu amigo Fellini vinte anos depois da sua morte.
Para isso recorre ao seu depósito de memórias desde o momento em que chega a
Roma, o seu primeiro trabalho como caricaturista e o encontro com Federico na
redacção do jornal humorístico Marc’
Aurellio. Nessa altura já Fellini dava os seus primeiros passos no capítulo
da realização. Scola, onze anos mais novo, só mais tarde entrará na indústria
na qualidade de argumentista. E é este tempo de amizade e profunda admiração
que resulta numa deambulação a um tempo nostálgica e estética ao núcleo de uma
obra imensa de um dos maiores criadores cinematográficos de sempre.
Tal como ao longo de toda a sua
obra, Scola nunca se cansou de nos surpreender, encontrando sempre novas
fórmulas para apresentar as suas propostas. Neste caso, estando muito longe de
qualquer referência testamentária, de qualquer intenção de nos dar uma lição, o
que Scola nos deixa é a homenagem a um Mestre que o marcou definitivamente nos
mais tenros anos da sua aprendizagem. Uma homenagem à obra, à arte e à
personalidade de um génio. E, mesmo não sendo próximos da obra de Fellini,
qualquer um se consegue apaixonar rapidamente pelo seu trabalho. Este é talvez
o maior encanto do filme.
Escrito em parceria com as suas
duas filhas Paola e Sílvia, o filme vai levar-nos a uma visita guiada ao prazer
partilhado dos desenhos, de fazer filmes e aos amigos em comum (Mastroianni,
Ruggero Maccari, Emio Flaiano, Scarpelli, todos eles referências na história do
cinema italiano seja como actores, seja como realizadores ou argumentistas).
Estacionando no mítico estúdio 5 da Cinnecittá, onde Fellini rodou a maior
parte dos seus filmes nas décadas de 60 e 70 faz-se uma reconstrução de alguns
cenários à medida que somos introduzidos ao processo criativo do artista.
Misturados com extractos dos próprios filmes de Fellini há uma dimensão
documental a complementar a fantasia ou, melhor dito, o processo de criar
fantasias.
Por outro lado as noites sem fim
deambulando por Roma no Lincoln de Fellini que sofria de insónias. A mania de
dar boleia a quem encontrassem para ouvir a sua história e daí partir para a
construção de uma personagem ou de um novo argumento.
Recordando o amigo, exibindo a
admiração sem limites pelo génio, com uma narrativa fluida e funcional, CHE
STRANO CHIAMARSE FEDERICO acaba por ser um caderno de apontamentos partilhado
com o público onde a única intimidade que ficamos a conhecer é a do criador com
a construção da obra, a do génio com o empenho em tornar a vida por momentos
mais colorida e suportável, a do deslumbramento inesgotável do Ser pelas
possibilidades encontradas de fabricação da fantasia.
Obrigado aos dois…
Artur
sábado, 25 de junho de 2016
PÉROLAS DE SCOLA 4
BRUTTI, SPORCHI I CATTIVI/ FEIOS,
PORCOS E MAUS
Ettore Scola
Itália, 1976
Estamos na década de 70 do século
passado num bairro de barracas da periferia de Roma. Através de um lento e
englobante plano-sequência vamos sendo apresentados aos vários elementos do clã
Mazzatela à medida que se levantam para um novo dia. Uma jovem adolescente sai para a rua com uns recipientes na mão para ir buscar água. Saltita na
inocência dos seus 12/13 anos enquanto caminha por um cenário de porcaria,
feito de habitações precárias, poças de água e caos urbano em geral.Mais tarde
voltaremos a vê-la a recolher as crianças do bairro para um “infantário”
improvisado feito de uma cerca de arame semelhante a um galinheiro gigante.
Giacinto é o patriarca desta agremiação vagamente familiar composta por gente
que trabalha nem sempre nas mais nobres actividades. Por ter queimado um olho
com cal viva recebeu uma indemnização de um milhão de liras do seguro que
esconde avidamente. Um milhão que o resto da família cobiça urdindo toda a
espécie de malfeitorias para se conseguir apropriar dele.
Esta é em síntese a intriga
básica de (na minha opinião) uma das mais belas e mais brutais obras-primas da
história do Cinema por ser pouco comum na abordagem, cruel na descrição e impiedosa na análise.
O filme acompanha um grupo de
marginais em geral que enquanto tenta sobreviver tudo faz para ocupar ou destruir o espaço alheio. O dia da pensão da avó é o dia de festa dos netos que
rapidamente dividem o dinheiro à porta dos serviços na presença de uma anciã demente
que passa os dias em frente à televisão. O dinheiro ocupa o lugar do filtro
maior ou, se calhar, do filtro absoluto em que se desenvolvem as suas
existências. Não há espaço para identidade, dignidade ou sequer consciência
porque isso seria perder tempo, ficar para trás, deixar de ser ou de estar
vivo. As análises filosóficas ou sequer sociológicas ficam na gaveta deixando à
vista o osso duro da condição humana que encarna o “espírito do tempo” onde
tudo é dinheiro, vantagem, sobrevivência pura e dura. Nada que não seja feito
no resto da sociedade pelas outras camadas só que essas têm tempo para
construir álibis, desenhar teorias, elaborar justificações. Neste bairro de
barracas onde se avista ao longe a cúpula da Basílica de S. Pedro no Vaticano
não há espaço para a piedade, o sentimento ou o sonho.
E sendo uma tragédia do princípio
ao fim, ao exibir a condição humana na sua forma mais animalesca não
conseguimos deixar de rir. Não conseguimos desenhar a fronteira entre o drama e
a comédia, elementos indivisos do nosso comportamento, equilíbrio instável sem
o qual não seria possível suportar o fardo da nossa condição. Os pobres vão
morrer pobres e não são nenhuma espécie de heróis por causa disso, não acolhem
consciência política, não alimentam qualquer tipo de esperança em relação ao
futuro. Nasceram condenados àquela condição que os empurrou para a
sobrevivência a qualquer preço, para a bestialidade e para todas as categorias
dos mais primários instintos animalescos que nos assistem. Alegoria destas últimas considerações poderia
ser a extraordinária cena em que Giacinto, percebendo ter sido alvo de
envenenamento corre para o mar e injecta água salgada pela boca abaixo
auxiliado pela bomba de uma bicicleta para poder vomitar. Em O MILAGRE DE MILÃO
(De Sicca) os pobres encontram a sua libertação através da morte, em VIRIDIANA
(Luís Buñuel) ao ser oferecida hospitalidade numa casa senhorial campestre a um
grupo de vagabundos, a primeira coisa que se lembram de fazer no dia em que
estão sozinhos é dar uma festa e destruir a casa toda. Em FEIOS PORCOS E MAUS a
brutalidade e o grotesco das relações humanas explode em cada gesto embalada
pela condenação da miséria.
No fim ao nascer de mais um dia,
a jovem adolescente que no princípio acompanhámos com os baldes a caminho da
água retoma a sua rotina diária. Saltita enquanto caminha mas quando a câmara a
deixa ver de corpo inteiro reparamos que está grávida.
Tragédia hiper relista, crueldade
acutilante, grotesco permanente, hilaridade, tristeza, e até ternura são as
componentes constantes deste colosso da condição humana. Sem respostas rápidas
nem soluções fáceis e muito menos teorias reconfortantes. Uma sociedade
bestificada sem identidade nem compaixão só poderá produzir bestas que não
sabem quem são ocupadas apenas em destruir o que não lhes pertence.
Se lhes forem dadas as condições
ideais o ser humano é capaz do melhor e do pior.
Ficamos à espera de saber o que
seria se existissem as ferramentas para fazer o melhor.
Um colosso que deveria ser visto
por todos.
Artur
sexta-feira, 24 de junho de 2016
PÉROLAS DE SCOLA 3
França/ Itália/ Argélia 1983
Tudo começa como se de um
qualquer espectáculo de café-concerto se tratasse. Acendem-se as luzes, as
pessoas vão chegando e começa a música. O mesmo espaço e o mesmo grupo de
pessoas que nos irão contar meio século de História da França através de seis quadros vivos, dançando ao longo do
tempo. Baseado num espectáculo musical, uma pantomima imaginada e dirigida por
Jean-Claude Penchenat e interpretada pelo grupo Thêatre du Campagnol em
Châtenay-Malabry, LE BAL resulta de uma adaptação para cinema co-escrita por
Ettore Scola, Ruggero Maccari, Furio Scarpelli e o próprio Penchenat.
Começamos por ouvir La Valse au Dénicheur , ver uma bandeira
da Frente Popular e a data…1936. Segue-se a transformação do espaço em abrigo
contra os bombardeamentos. Estamos em 1944. A entrada de um oficial alemão dá-nos a
imagem da ocupação em França. Em 1946 chegam os soldados americanos e com eles
o jazz.
Mais uma vez Scola repete a
fórmula já ensaiada anteriormente, isto é, aborda o tema histórico de forma
indirecta através dos mais desprendidos e mais comuns aspectos da realidade.
Neste caso concreto consegue aperfeiçoar o método propondo-nos um filme mudo.
De facto, são os ruídos do exterior, as músicas, as modas e as danças que nos
vão contando o passar dos anos, que nos vão colocando em cada época enquanto as
pessoas limitam a mudar de pele. São sempre os mesmos sendo sempre em momentos
diferentes o que dá uma curiosa relação visual entre o tempo e o homem. No fim
de cada “tempo” a imagem fica parada e transforma-se numa fotografia que ficará
pendurada numa parede mesmo ao lado do bar.
Tal como num espectáculo de vaudeville sucedem-se os quadros
pitorescos e curtos de humor instantâneo que vão decorando os espaços em que a
música se faz notar mais baixa. Como o do calmeirão magrinho que leva o tempo
todo a tentar vencer a timidez e convidar uma senhora para dançar, sem êxito,
ou o “riquinho” desesperado que perante o abandono da sua amante resolve
cheirar uma linha de coca sobre a mesa, linha essa exterminada pelo pano de
limpeza de um empregado diligente.
Em 1956 impera o samba e as saias
que rodam em grande efeito. Até que aos poucos os casacos de cabedal pretos
comecem a ocupar a pista de dança e a impor o Rock’n ‘Roll.
E com uma canção dos Beatles em
fundo chegam os anos 60. Lá fora ruído de multidões e sirenes da polícia.
Jovens manifestantes refugiam-se no recinto com os olhos irritados pelo gás
lacrimogéneo. Maio de 1968.
Por fim chegam os anos oitenta
(1983) e começa-se a desmontar o cenário. Faz-se ouvir um relógio, os
dançarinos retiram-se, o barman apaga as luzes. Como uma caixinha de música a
três dimensões por onde estivemos a espreitar viajámos ao longo de meio século
através da música e das modas sem ouvir uma única palavra. Uma coreografia do
tempo onde o movimento vai trocando as suas impressões com o espectador. Uma
linguagem diferente onde nos vamos integrando, ouvindo e dançando.
domingo, 19 de junho de 2016
PÉROLAS DE SCOLA 2
LA NUIT DE VARENNES/ A NOITE DE VARENNES
Ettore Scola
França/ Itália 1982
A 20 de Junho de 1789 uma
carruagem com a família real tenta a sua fuga de Paris que arde sob o fogo da
Revolução. Dias mais tarde o rei Luís XVI e a rainha Maria Antonieta acabam por
ser capturados na povoação de Varennes, precipitando uma trágica série de
acontecimentos reforçada pela desconfiança e pelo ódio à monarquia. A acção do
filme, que não acompanha em directo as várias peripécias desta fuga atribulada,
centra-se numa segunda carruagem algumas horas atrasada em relação à primeira,
onde viaja um grupo extremamente improvável de personagens, cada um com o seu
destino e motivação diferentes. Uma condessa austríaca que tinha sido aia da
rainha (Hanna Schygulla), o filósofo e escritor libertino Restif de la Bretonne
(Jean Louis Barrault), o revolucionário americano Thomas Paine (Harvey Keitel),
um Casanova em plena velhice (Marcelo Mastroianni), uma viúva a caminho da sua
propriedade (Laura Betti), um juiz e uma cantora de ópera (Andrea Ferrol).
Baseado no romance de Catherine
Rihoit ( “La Nuit de Varennes oú
l’impossible n’est pas Français”)
o filme tem a particularidade de desenvolver a análise histórica de forma
indirecta através dos diálogos entre personagens de ficção sem que isso
prejudique o rigor ou sequer a verosimilhança dos factos. Naquela carruagem um
passo atrás dos acontecimentos os conceitos de “vida”, “mudança”, medo” e
“solidão” vão sendo debatidos e avaliados através de várias perspectivas quer
sociais quer etárias. Através da avaliação dos tempos de mudança e incerteza em
que se encontram mergulhados fala-se de política e de Filosofia. Neste
autêntico road movie de
reconstituição histórica confrontam-se os tempos modernos com os antigos e
descreve-se o esboço de uma nova ideologia principalmente através das
intervenções de Paine ou de Restif. A ordem antiga é defendida pela condessa
austríaca. Numa coisa parecem estar todos de acordo. “A idiotice é a pior das
traições e não há nenhuma revolução que consiga acabar com ela”. Percebe-se que
a revolução é uma consequência directa do sofrimento da população em geral. Mas
também é evidente que os filhos dessa revolução, ao destruírem os valores da
ordem antiga não têm a mínima ideia acerca daquilo que vão construir no seu
lugar. Fica aberta a porta para um tempo de vazio e incerteza. A discussão
acesa entre o jovem estudante que insulta abertamente o decrépito Casanova faz
antever o resvalar da revolução para a brutalidade e a violência gratuita, para
o regime de terror que se irá seguir.
Mas os tempos mudam sempre como o
cenário de um palco e o que se mantém somos nós os seres humanos essa espécie
construtora de todas as ordens antigas e modernas. A vida acabará por continuar
de uma forma ou de outra e o que nos distingue será a forma como respeitamos e
vivemos com os nossos valores. Se por um lado a atracção da condessa pelo
revolucionário americano se vai reforçando nem por isso as suas ideias são alvo
de cedência. Perto do fim do filme vemos uma cena em que a condessa veste um
manequim com um manto do rei que tinha trazido de Paris e, de seguida, rende a
sua homenagem ajoelhando-se na sua frente.
Sendo um filme de reconstituição
histórica LA NUIT DE VARENNES é também uma lição de vida que nos relembra o
modo como tudo é tão efémero e de como somos muito mais iguais do que alguma
vez poderíamos imaginar em tempos de normalidade. Respiramos o mesmo ar, temos
o mesmo medo, sonhamos os mesmos sonhos. E tudo é tão frágil que pouco ou nada
vale se não nos soubermos colocar nesta
trágica comédia onde a História, o Medo, o Amor, a Vida e a Morte
brincam com as nossas existências sem dó nem piedade. Um grande filme,
portanto.
Artur
sábado, 18 de junho de 2016
PÉROLAS DE SCOLA
UNA GIORNATA PARTICOLARE / UM DIA INESQUECÍVEL
Ettore Scola
Itália/Canadá 1977
Ettore Scola
Itália/Canadá 1977
Comecemos pelo princípio. Um
plano inteiro com movimento de grua que se move em ascensão pelas traseiras de
um espaço urbano composto de vários prédios e que entra para uma janela onda
vamos encontrar a protagonista a executar as suas tarefas domésticas. Um
movimento de câmara bastante raro ainda hoje estudado em muitas escolas de
cinema. Um rádio aos berros que inunda o espaço vazio de pessoas através do
qual vamos percebendo tudo o que se vai passando naquele dia 8 de Maio de 1938
em Roma. Todos estão presentes na parada e cerimónias que celebram a visita de
Hitler a Itália. Nem todos. Antonietta fica em casa a tratar das suas tarefas
domésticas enquanto o seu marido, um funcionário público da Itália fascista se
deslocou até às comemorações com os seus seis filhos. Gabriele, um locutor de
rádio demitido aguarda a sua deportação para a Sardenha. Nem marido, nem pai,
nem soldado, nem sequer fascista, o locutor é homossexual, bilhete garantido
para a exclusão de um regime totalitário embriagado com os ventos de guerra que
começam a soprar. O encontro entre estes dois vizinhos, sendo muito mais do que
a soma de dois corações solitários acaba por se revelar a dissecação de uma
ideologia através de um hino à ternura e ao humor.
Antonietta sente-se frustrada e
sozinha num mundo onde se limita a cumprir as suas funções de mulher-a-dias da
sua casa e parideira. Apesar de já ser mãe de seis filhos o seu marido quer ser
pai outra vez e com isso beneficiar do apoio e incentivo à natalidade dado pelo
regime. Infiel e bronco transforma a vida da mulher num vazio imenso,
impossível de preencher ou de deixar encontrar um espaço mínimo de realização e
felicidade. Gabriele por seu lado, a primeira vez que é filmado no seu
escritório, tem uma arma em cima da secretária sugerindo a ideia de suicídio.
Os dois conversam, trocam histórias, dançam a rumba. Sendo considerado um dos
mais belos filmes da história do Cinema, tudo em UNA GIORNATA PARTICOLARE é
improvável e surpreendente desde o percurso de cada um dos personagens até ao
desempenho dos actores. De facto, dois dos ícones e sex symbols da sua geração,
o casal mais adorado do cinema de então envolvem-se numa interpretação sublime
e natural de duas figuras simples e tristes que vivem uma tarde de excepção
contra todas as possibilidades. Ignorando a homossexualidade do vizinho
Antonietta expõe o seu charme, a sua vontade, o seu desejo de se sentir viva
nem que seja por uma vez. Eventualmente o casal acaba por se envolver
emocionalmente. Mas tudo é tão subtil e belo ao mesmo tempo que por instantes o
que vemos é dois seres vítimas do sofrimento e da solidão que acabam por se
consolar mutuamente. Enquanto a cidade inteira comemora a tirania e a
autoridade e o rádio aos berros nos vai dando conta disso. E é esta fantástica
história de subversão e simplicidade que acaba por se tornar um contraponto de
bom senso num dia de bebedeira colectiva. Ao fim do dia Antonietta vê pela
janela o seu vizinho deixar o prédio escoltado por dois polícias. Lá dentro já
deitado está o seu marido que a chama para tratarem de fabricar o seu sétimo
filho. Assim termina “um dia inesquecível”…
Artur
quarta-feira, 8 de junho de 2016
UM QUARTO QUE SEJA SEU
Dedicado a Teresa Borges, no dia do seu aniversário.
Assombrada por uma questão aparentemente simples mas que se revelou árdua à medida que as suas pesquisas se desenvolveram, Virginia Woolf percorria, no Outono de 1928, as ruas e os parques de Cambridge, frequentava restaurantes, festas e bibliotecas, consultava dezenas de escritores, homens e mulheres, compulsava montanhas de livros, preocupada sempre com a mesma questão, cuja resposta lhe chegou espontaneamente ao espírito, mas cujo significado considerava tão crucial que procurava discernir-lhe o sentido, estudando o comportamento e os papéis masculinos e femininos, os escritos dos homens sobre as mulheres e os das mulheres sobre os homens : "Que condições são indispensáveis à criação de obras de arte ?" - obras criadas por mulheres, entende-se, e não somente pelos homens, já que, no que se refere aos homens a questão há muito tinha sido respondida através das múltiplas teorias masculinas sobre a arte e sobretudo pela incontestável plétora das suas criações.
Nessa exploração de ruas e de livros, em busca de traços femininos que documentassem um pouco mais do que a inevitável necessidade do quotidiano, Virginia Woolf percepcionava em imaginação "o peso do mutismo, a acumulação da vida inexprimida". Foi assim que no fim da errância por ruas e bibliotecas, chegou à resposta que lhe queimava os lábios "uma mulher deve ter dinheiro e um quarto que seja seu", para poder criar obras de arte, o que, na fórmula de Virginia Woolf, remetia para a escrita de ficção, ficção não no sentido do romance ou da história inventada simplesmente, mas no sentido de toda a relação criativa e voluntária com a realidade, toda e qualquer tentativa subjectiva de a interpretar, penetrar, transformar e recriar. "Eis o que permanece depois de desaparecida a espuma dos dias; aquilo que permanece dos tempos passados, dos nossos amores, dos nossos ódios.. O mundo aparece então na sua nudez, uma vida mais intensa é-lhe insuflada", escrevia ela, e dirigindo-se às mulheres prosseguia : "Já que vos convido a ganharem a vida e a terem um quarto vosso, convido-vos a viver a presença da realidade", essa realidade capaz de metamorfose, mais intensa e rica de ensinamentos.
Neste apelo, que há mais de setenta anos lançava às mulheres, nem por um momento Virginia Woolf se perguntava se as mulheres experimentavam verdadeiramente a necessidade de criarem obras de arte, ou se essa necessidade não era mais do que a expressão de uma moda, o produto de uma época. Julgava a escritora que a aptidão criativa e artística - aquilo que chamamos criatividade - era bem partilhada entre os dois sexos, tal como o bem senso cartesiano. E coube-lhe constatar que séculos de pobreza e de constrangimentos sociais tinham tido tal sucesso na repressão da aptidão criativa das mulheres que a maior parte delas tinham acabado por acreditar que tal aptidão não existia, e reprimido por inconveniente, se não mesmo perversa, tal necessidade - talvez subtilmente despertada - de conferir uma forma nova e subjectiva à realidade; então, por autopunição, não recorriam às suas capacidades; cozinhavam, plantavam, recolhiam, coziam, aleitavam, criavam e enterravam as suas crianças com mais ardor e cada vez mais mudas, e recomeçavam sempre; cozinhando, limpando a casa de alto a baixo, aprovisionando celeiros, reflectindo longamente antes de gastarem um tostão, correndo de aqui para ali ao chamamento do homem, pondo-se sempre e para sempre ao seu serviço, até desaparecerem sem ruído, imperceptivelmente, da realidade que as dominava.
Assim são as coisas, constatava Virginia Woolf. Uma mulher que no século XVI fosse particularmente dotada de nascença - imaginemos que William Shakespeare tinha uma irmã tão genial como ele - enlouqueceria, escreve ela "matar-se-ia ou terminaria os seus dias numa cabana solitária fora da aldeia", banida e expulsa, morreria de fome e não criaria certamente a grande obra de arte.
Woolf estava persuadida que as mulheres deviam a sua evolução criativa a um fenómeno concreto ocorrido no fim do século XVIII : podiam ganhar dinheiro escrevendo: "O dinheiro arrasta as honras, aquilo que foi tido durante tanto tempo como fútil que já não tem retribuição. Sem dúvida, ainda podemos ver com derrisão esses seres (...) mas já não é possível ignorar que lhes pagam pelos seus escritos." Considera essa mudança do fim do século XVIII como mais significativa e importante que "todas as cruzadas e outras guerras das Duas Rosas". E se ela pudesse reescrever a história, consagraria mais atenção ao facto de as mulheres das classes médias se dedicarem mais à escrita que a todas as guerras.
"A vida é para os dois sexos - e vejo-os passar à minha frente, na rua, lado a lado - uma luta incessante, dolorosa e difícil", escrevia Virginia Woolf depois de ter explorado ruas e lugares em busca de uma resposta à questão "Que condições são indispensáveis à criação de obras de arte ?". Essa luta, continua ela, exige uma "coragem inabalável" e mais o quê ? "Confiança em si", responde ela; coragem e confiança em si como aguilhão e substância da criatividade feminina, afim de que as mulheres participem de maneira mais eficaz, mais inventiva e segundo o seu coração, na metamorfose da realidade.
terça-feira, 7 de junho de 2016
Largar
A perda repentina e inesperada de alguém que amamos, provoca uma dor complicada de dissolver.
É um soco no estômago que sufoca a garganta, derrete-se nos olhos e faz questionar o sentido e a razão.
Todas as mágoas, todas as desilusões, frustrações, arrependimentos e, acima de tudo, raivas, ódios e rancores carregam um peso difícil de aliviar.
Há que largar lastro para hoje ser-se mais leve e estar mais apto a receber o que o Tempo e a Vida nos trazem.
Não deixem de amar hoje, como se fosse o último dia.
O que interessa é agora.
Ontem já foi e amanhã ainda não é.
segunda-feira, 6 de junho de 2016
MAIS UMA CRÓNICA SOBRE COISÍSSIMA NENHUMA
Tudo começou em algum lugar, nem
podia ser de outra maneira. Escrever é um acto de generosidade na medida em que
quem o faz normalmente não foi obrigado a fazê-lo. Entende que deve traduzir em
palavras uma história, um estado de alma e dá-lo aos outros. Mas a actividade
da escrita é talvez das mais ingratas que existem na medida em que é quase tão
antiga como a Humanidade, o que torna tudo muito mais difícil no que toca à
originalidade. Diz-se que já tudo foi escrito, que já tudo foi feito no que à
Literatura diz respeito. Está tudo na Bíblia, nas tragédias gregas e na obra de
Shakespeare. Daí para cá tudo o que se puder fazer está limitado a variações
acerca destes três colossos da memória humana. Convém portanto, se não ler
exaustivamente, pelo menos ter uma ideia do que se trata antes de se embarcar
na aventura da escrita. No tempo da informação exaustiva em que a ignorância é
uma questão de escolha o que acontece é que é precisamente a ignorância que
triunfa sobre tudo o resto. Vá-se lá saber porquê…
Ando há que tempos a “engonhar” um post sobre
um dos mais importantes realizadores do século passado (Ettore Scola) mas
falta-me a coragem. Há tanto para dizer que dava para escrever pelo menos três
livros sobre o assunto. Tantos filmes, tantos momentos altos de uma carreira
extraordinária, tantos tratados acerca da condição humana. Uma tragédia de
miséria e desgraça de duas horas e meia onde não conseguimos parar de rir,
décadas de história contadas sem palavras num espaço de um salão de baile onde
se sucedem as modas, o encontro improvável de uma dona de casa e um vizinho
homossexual numa Roma deserta onde todos estão numa manifestação que comemora a
visita de Hitler à Itália de Mussolini, ou a fuga de um grupo de cortesãos da
fúria revolucionária de 1789 em Paris. Tanta informação, tantas questões, tanto
motivo para reflectir. Ainda hoje ao fim de muitos anos fico assustado ante a
enormidade e o génio. Invento pretextos para adiar, dedico-me a tarefas
secundárias, deixo passar o tempo. Com o romance que estou a escrever passa-se
o mesmo. Um turbilhão de sentimentos e emoções, um caudal de coisas que quero
dizer mas que não se pode despejar de qualquer maneira. Porque há regras para a
comunicação, há padrões para as narrativas, porque uma grande parte dos
leitores não tem a minha idade nem a minha vivência. No fundo porque o
objectivo é bater à porta daquele edifício a que chamam a Linguagem Universal e
pedir que me deixem dar uma espreitadela, que me deixem estar só cinco minutos
no átrio da casa e respirar. Que pelo menos um dos meus livros consiga saltar
do “Cemitério dos Livros Esquecidos” para uma arrecadação dessa enorme casa. E
assusto-me outra vez como naquelas tardes em que corria para casa todo
esmurrado à espera da água oxigenada, do penso e dos lanches da minha avó. E
continuo a andar às voltas, em avanços e recuos, preocupado com o assalto à
Língua Portuguesa, sempre fascinado com a ideia de Portugal e com o que os
grandes, os clássicos fizeram antes de mim. Por vezes deslumbrado com o que
consigo fazer, outras vezes desesperado por me obrigar a despejar esta força
para fora. Escrever é também o mesmo que não rebentar por dentro, facto várias
vezes comprovado ao longo dos anos. O bem-estar que dá a finalização de um
texto nas condições mínimas que tinha sido pensado. A dor de não escrever que
se aloja dentro da alma e vai inchando quase até nos sufocar. Porque antes de
tudo, serei sempre aquele que se assusta antes de se deslumbrar para se
assustar outra vez. Aquele que nunca está satisfeito para pontualmente se poder
satisfazer. E no fim sei que acabarei por arrancar e correr até ao fim,
terminarei a tarefa. A forma como ela ficar será aquela que tiver que
acontecer. Melhor ou pior. Nessa altura o susto e o deslumbramento ficam
congelados para dar lugar apenas à acção. O que for, será. Nada a fazer, nada a
acrescentar. O mundo é um lugar demasiado grande, as pessoas demasiado
complexas, a vida demasiado cruel. Escrevo porque não sei nada sobre
eles…continuo a escrever porque nunca os conseguirei perceber. E é nessa
entrega sem retorno, nessa tarefa sem êxito, nessa obrigação sem castigo que
torno útil o tempo de que disponho para cá andar, que dou sentido ao absurdo
que me envolve, que bato timidamente à porta desse palácio encantado e
gigantesco onde a maioria dos seres se encontra e convive sem nunca terem sido
apresentados.
Artur
quinta-feira, 26 de maio de 2016
IRON MAIDEN 2016
Dia 11 de Julho será a data em
que a mítica banda de 40 anos de existência se volta a encontrar com o publico
português. Uma relação já longa que começou a 31 de Agosto de 1984 no Pavilhão
Infante de Sagres no Porto. Depois disso os Iron Maiden tocaram seis vezes em
Cascais, cinco em Lisboa, duas no Algarve e uma em Vilar de Mouros. Uma relação
de admiração e carinho mútuo que levou Steve Harris a adquirir um bar,
rapidamente tornado ponto de peregrinação (“Eddie’s Bar”), próximo de Faro.
APRESENTAÇÃO
A longevidade deste fenómeno
musical que arrasta multidões de todas as idades e esgota concertos em qualquer
parte do mundo deve-se em parte a uma vitalidade criativa (novos trabalhos
originais com intervalos de dois, no máximo três anos) associada a uma
originalidade e postura invulgares no mundo do Rock n’ Roll. Longe de uma
aceitação consensual nos meios tradicionais da divulgação (MTV’s e afins), os
Iron Maiden subiram a pulso na sua carreira construindo a sua fama em espectaculares
actuações ao vivo e no apoio dos fãs que lhes renderam milhões em vendas um
pouco por todo o mundo.
Inaugurando a era do British New Wave of Heavy Metal ao lado
de nomes como Def Leppard, Motorhead e Judas Priest, o resultado foi uma
poderosa e influente combinação de heavy
metal com uma atitude punk numa
deslumbrante diversidade rítmica. Sem os Iron Maiden não haveria trash nem speed nem death nem hardcore metal nem uma série de
palavrões que se poderiam escrever agora para enaltecer a pobreza e o deserto
musical que a sua herança preencheu.
A originalidade dos Iron Maiden
(IM) apresenta-se-nos de uma forma quase absoluta na medida em que pode ser
lida quer ao nível da composição musical quer ao nível das letras. Assim, ao
não alinharem com o padrão habitual de canções de 3 minutos (2 coros, 1guitarra
solo, coro final) escreviam temas longos e complexos como por exemplo “The Rime
of The Ancient Mariner”, 13:45 min. de Rock Progressivo. Por outro lado, em
alternativa aos temas do costume no mundo do Rock (Sexo, drogas, etc.) a
temática da banda é constantemente influenciada por outras artes como a
Literatura, o Cinema, e géneros como a Ficção Científica ou o Folclore. Outra
originalidade prende-se com a imagem limpa de drogas que a banda faz questão de
transmitir ao longo dos anos.
ICONOGRAFIA/ REFERÊNCIAS/ATITUDE
O “livro” dos IM é como um
depósito de memórias do nosso “Inconsciente Colectivo” vestido com as roupagens
e os rituais do Heavy Metal. Nada é gratuito nem muito menos acidental. Influências
quer literárias quer de referência histórica consistem no ponto de partida para
a apresentação da sua arte.
No capítulo literário vamos
encontrar temas como “Brave New World” (Aldous Huxley); “Rime of The Ancient
Mariner” (baseado num poema com o mesmo título de Samuel Taylor Coleridge, onde
a mensagem principal, de acordo com a versão da banda é: “Devemos amar todas as
coisas que Deus criou.”); “Seventh Son” (Orson Scott Card); “Lord of The Flies”
(William Golding); “Murder in The Rue Morgue” (Edgar Allan Poe); “To Tame a
Land” ( Frank Herbert).
Em termos de referências
históricas, elas são abundantes ao longo da obra dos IM. Comecemos pelo Antigo
Egipto, “Powerslave” é acerca de um Faraó que, por se considerar a si próprio
um deus não consegue viver bem com a ideia da morte. Define-se como um slave to the power of death; Guerra da
Crimeia – “The Trooper”, baseada numa batalha durante a Guerra da Crimeia entre
Britânicos e Russos. Há quem garanta que se baseou no poema “Charge of The
Light Brigade”, onde são descritos os horrores da guerra enquanto uma carga de
cavalaria britânica se precipita para a morte certa; “Run to The Hills”,
inspirado na chegada dos europeus ao continente americano e a reacção dos
índios; “Paschendale” – a batalha de Paschendale ou, em português, a terceira
batalha de Ypres na I Guerra Mundial; “The Longest Day”, o dia D, o desembarque
na Normandia, II Guerra Mundial; “Two Minutes To Midnight”, The Doomsday Clock,
a Guerra Fria na ordem do dia numa altura em que o planeta esteve à beira da
catástrofe nuclear.
OS ACTORES
Dadas as constantes mudanças que
o elenco da banda foi sofrendo ao longo dos anos, é de referir aqui dois nomes
importantes na vida da banda. Steve Harris porque é o único elemento original e
Bruce Dickinson por ser uma grande parte da imagem da banda nos últimos anos.
Steve Harris, que em adolescente
jogou futebol no West Ham, aprendeu a tocar baixo sozinho acabando por
desenvolver um estilo único. O seu baixo “galopante” é uma imagem de marca da
banda. Escreve e é co-autor da maior parte dos temas
Bruce Dickinson, o homem dos sete
instrumentos possui uma energia inesgotável. Praticante de esgrima, chegou a
ser 7º no ranking do Reino Unido, piloto de aviação comercial e a voz dos IM.
Uma voz original de estilo semi-operático que lhe permite atacar os temas mais
irregulares com uma delicadeza e um estilo únicos. Se Bruce é a cara da banda,
Steve é o cerébro numa combinação perfeita até à data.
CONCLUSÃO
Fomos vendo aqui muitas das
razões que tornam os Iron Maiden um fenómeno não só de Rock metálico como um
retrato icónico da espécie humana contado através da sua fantasia criativa. A
agressividade, a imagem violenta ou as diversas narrativas de horror e
destruição mais não são do que um reflexo da realidade, um testemunho da
História, uma fotografia da natureza humana. De acordo com muitos dos fãs, após
um espectáculo dos IM há uma sensação de alívio e tranquilidade quando se volta
para casa. Como se a violência, a agressividade e todo o género de energia
negativa se tivesse libertado durante o concerto. Um curioso ponto de vista a
reforçar a experiência inesquecível que é assistir ao vivo a um concerto desta
banda.
Artur
sexta-feira, 13 de maio de 2016
A MÃE DE ELISA
A minha mãe já chegou? Então esteja com atenção porque ela
vem – me buscar. Sei porque me disse e quando diz, faz. Tal como quando
fizemos a peça de Natal e ela teve o
acidente de carro, apareceu quase à hora do jantar mas apareceu.
Eu sou a Elisa e fiz a chuva
Já a escola se vestia de trajes de noite, uma roupagem que
eu desconhecia, o pátio vazio e azul de noite, sem meninos, as portas fechadas,
os pais e os professores a saírem uns a seguir aos outros.
Mas eu não tive medo. Sabia que ela vinha… a minha mãe.
Porque se ela disse que vinha, não falhava. A minha mãe não promete à toa e sabe
perfeitamente que se me prometesse alguma coisa que depois não conseguisse
fazer eu iria ficar muito triste
Eu sou a Elisa e fiz a chuva
E apareceu triste com um enorme penso do lado direito da
testa, e chorou por não ter visto a peça de teatro da escola em que eu fazia de
chuva, e chorámos mas ficámos felizes logo a seguir porque estávamos ali as
duas e o pátio deserto de meninos não nos metia medo nenhum
A minha mãe vem me buscar porque disse que vinha. Pouco me
importa que me digam que tenho oitenta e três anos e que moro neste lugar e com
estas pessoas que tenho dificuldade em reconhecer todas as manhãs
A minha mãe já chegou? Então esteja com atenção quando ela
vier e vá logo chamar-me
Ela chega sempre mesmo que venha atrasada. Quando acabei a
Faculdade (não me lembro que curso era mas lembro-me da cara de alegria dela),
quando tive os filhos, quando fiquei viúva…a minha mãe chegava sempre embalada
pelo sorriso, pronta para me abraçar. Mesmo quando não quero comer as mistelas
que vocês me dão, mesmo fechando a boca ou cuspindo tudo para o chão, tenho a
certeza que se a fossem chamar nada disto aconteceria.
Porque ela tinha sempre um truque novo debaixo da manga que
me fazia ficar tranquila, uma frase que me acalmava (não estas porcarias
às cores que me fazem engolir ao lanche), uma paciência sábia que me explicava
que nada era o fim do mundo mesmo quando tudo parecia perdido.
Nada era uma catástrofe ou um problema qualquer que não
tivesse solução
A minha mãe deve estar quase a chegar, tenho a certeza.
Disse que vinha pouco antes de já não me conseguir levantar da cama. Acenou
devagar e sorriu. E por isso quando vier não quero perder tempo. Quero-me
levantar daqui de uma vez, dar-lhe a mão e
sair para a rua como duas nuvens de chuva que se deixam orientar pelo vento a
caminho de casa.
Por isso não tenho medo
Eu sei que ela vem...
Por isso não tenho medo
Eu sei que ela vem...
Artur
sexta-feira, 29 de abril de 2016
UM RIO SEM FIM
Antes de mais nada há uma imagem
tranquila de eternidade a fazer as apresentações. Um barqueiro em mangas de
camisa orienta a sua barca sobre uma superfície feita de nuvens em direcção ao
fim do dia. Seguem-se registos de som quase exclusivamente ambiental, onde os
instrumentos se limitam a conduzir as emoções muito suavemente. Este é The Endless River , o décimo quinto e
último álbum dos Pink Floyd, uma despedida sincera que vem encerrar cinco
décadas de carreira. Baseado em trabalho extraído à partida do último álbum (duas
dezenas de horas de gravações não aproveitadas nas sessões de Division Bell (94)), Endless River (2014) está todo ele preenchido com a presença
de Richard Wright, falecido em 2008 vítima de cancro. Guy Pratt é o músico contratado
responsável pelo baixo enquanto que as letras ficaram a cargo de Polly Samson,
mulher de Gilmour. Só uma faixa é cantada (“Louder Than Words”) ao longo de todo este
trabalho de despedida, disperso, ocasionalmente a fazer o balanço de algumas
partes de uma obra que se estendeu por cinco décadas. Nada de novo na concepção
que não tenhamos já visto em trabalhos anteriores. Partindo das pontas que
ficaram soltas no trabalho anterior e trabalhando o legado de Wright vão
compondo novos temas. Tal como Wish You Were
Here foi feito sem Barrett mas acusando a sua influência e Division Bell trabalhava as escolhas de
Waters deixadas nos trabalhos de The Wall
. Se por um lado a maioria dos novos originais acabam por ser as revisões
do trabalho anterior e o seu respectivo desenvolvimento, uma grande parte das
obras da banda são homenagens aos seus elementos entretanto afastados. Uma
constante de elegia dos ausentes e elipse de regresso aos passos anteriores
fazem do método dos Pink Floyd uma curiosa e original imagem de marca.
De facto, quando no início o
reportório era curto a banda escolheu alargar a duração das músicas para
cumprir o tempo de permanência em palco, para compensar os poucos ensaios que
faziam improvisavam, usavam efeitos especiais desenvolvendo cada vez mais
sofisticadas produções para os seus espectáculos. Com um horizonte criativo à
sua frente muito mais vasto do que apenas a música, combinavam-se várias artes
que complementavam os seus trabalhos. Em muitas dessas combinações acabaram por
nascer fenómenos que ainda hoje complementam a indústria discográfica tal como
o conceito de videoclip. Ao longo da audição de Endless River não conseguiremos revisitar toda a vasta obra dos
Pink Floyd mas muitas serão as etapas dela para onde seremos transportados. Na
faixa “It’s What We Do” revemos “Welcome to The Machine” do album Wish You Were Here , em “Sum”
encontramos uma versão mais ligeira de “One of These Days” do álbum Meddle, e por fim, a entrada de
“Anisina” parece por um breve instante que vamos ouvir “Us And Them” de Dark Side Of The Moon.
Não sendo o melhor trabalho de
sempre é sem dúvida a mais bem acabada forma de a banda se despedir e
estabelecer o fim do seu ciclo aos milhões de fãs em todo o mundo. Tudo termina
e os Pink Floyd não podiam ser excepção. O seu legado ficará nos anais da
História da Música como um dos fenómenos mais importantes registados no seu
tempo. Serão talvez no futuro escutados e idolatrados como os compositores
clássicos o foram no passado, adquirindo esse estatuto. A mim deixam-me um mapa
temporal onde consigo encontrar e relembrar pontos do meu caminho o que não
deixa de ser um registo de breve nostalgia melancólica. Continuarei a ouvir e a
recordar estes clássicos até eu próprio me meter na barca e navegar sobre um rio
de nuvens na direcção do fim do dia.
Artur
sexta-feira, 22 de abril de 2016
MUROS / REINADOS / INDUSTRIA
WATERS
A década de 70 está a chegar ao
fim e a obra dos Pink Floyd entra em velocidade de cruzeiro. 1979 marca o ano
de saída da mais importante ópera rock de sempre. Concebida quase na totalidade
por Roger Waters, The Wall é na sua
essência um poema sobre a solidão e a falta de comunicação, uma alucinação
introspectiva, uma visão globalizada da massificação cultural e do
aniquilamento da liberdade individual, um desafio à tirania e um hino à
Liberdade, um tratado da condição humana, qualquer coisa de colossal em todas
as vertentes que o queiram analisar. Expresso pela metáfora de um muro a ser
construído entre um artista de rock e a sua audiência o álbum foi um êxito
estrondoso entre público e críticos com um único single “Another Brick In The
Wall (Part 2), que fez longas estadias nos tops de vendas um pouco por todo o
mundo. The Wall contém faixas que acabaram por se tornar
imagem de marca da banda como “Comfortably Numb” ou “Run Like Hell”. Quase todo
ele concebido por Roger Waters o som torna-se cada vez mais hard rock apesar de grandes
orquestrações a lembrar tempos passados em temas mais calmos como “Goodbye Blue
Sky”, “Nobody Home” ou “Vera”. O predomínio da personalidade de Waters colide
com Richard Wright, cuja influência neste trabalho é mínima. Wright acaba por
ser afastado durante as gravações regressando depois e desta vez contratado
para tocar nos concertos. Ironicamente Wright foi o único elemento da banda a
ter lucros na “tournée” do The Wall .
Os elevados custos de produção dos espectáculos acabaram em grande prejuízo
para a banda. Em 1989 com a queda do Muro de Berlim, Roger Waters foi convidado
para tocar The Wall ao vivo no lugar
original do muro.
Batendo sucessivos recordes de
mais ouvido, mais tocado ou mais comprado, o álbum vendeu só nos Estados Unidos
o equivalente a 11,5 milhões de cópias obtendo 23 álbuns de platina.
No cinema Alan Parker realiza
PINK FLOYD THE WALL em 1982 onde incorpora praticamente todo o álbum. Na senda
do sucesso musical a dimensão cinematográfica também não ficou atrás. Visto por
milhões de espectadores por todo o mundo, o filme integrava uma parte de
animação da responsabilidade do artista e cartoonista britânico Gerald Scarfe.
Interpretado por Bob Geldorf (vocalista dos “Boomtown Rats” e mais tarde
organizador do festival Live Aid) e escrito todo ele por Roger Waters, o filme
foi considerado por muitos críticos como “o maior vídeo de rock de sempre e
também o mais depressivo”. Os únicos temas do duplo álbum que não foram
utilizados foram “Hey You” e “The Show Must Go On”. O tema “When The Tigers
Broke Free”, apesar de surgir no filme tem um primeiro lançamento sob a forma
de single sendo mais tarde integrado
na colectânea, Echoes: The Best of Pink
Floyd, bem como no relançamento de The
Final Cut .
The Wall foi mais um tratado que ocupou a atenção de várias
gerações, discutido e ouvido durante anos e anos, ocupando lugar em todas
festas de garagem. “Another Brick In The Wall” era cantado por adolescentes
europeus despreocupados, estudantes sul africanos que combatiam o regime do
apartheid, e de uma forma ou de outra, por todos aqueles que se sentiam de
alguma forma injustiçados com os sistemas políticos/ sociais da época. No meu
caso The Wall entra na minha
existência precisamente na altura em que estou a passar da adolescência à idade
adulta. A confrontação com a realidade, a urgência de manter um estado
consciente minimamente lúcido, os labirintos da solidão, a busca de respostas,
a vida quotidiana, o consumo de drogas, a injustiça,tudo fazia eco na história
de Mr Floyd e em todo o seu processo de alucinação e enlouquecimento.
Roger Waters é o timoneiro do
grupo em toda esta fase. A sua hegemonia vai-se prolongar para The Final Cut (83), um trabalho dedicado
ao seu pai, Eric Fletcher Waters. Ainda mais sombrio de sonoridade o álbum
regressa a temas anteriormente debatidos mas com o foco centrado na actualidade
temática, nomeadamente a raiva de Waters face à participação da Inglaterra na
guerra das Malvinas (“ The Fletcher Memorial Home”) ou uma visão cínica acerca
de uma possível guerra nuclear (“Two Suns in the Sunset”). Em virtude da saída
de Wright, Michael Kamen e Andy Bown ficam com a responsabilidade dos teclados.
Apesar de tecnicamente ser um álbum com a marca Pink Floyd o nome da banda só
está referenciado na parte de trás: “The
Final Cut – Um requiem para o sonho
do pós-guerra por Roger Waters tocado por Pink Floyd: Roger Waters, David
Gilmour e Nick Mason”. Waters ficou como o exclusivo criador sendo The
Final Cut uma referência para os seus futuros trabalhos a solo. Apesar de
bem acolhido pela crítica o sucesso junto dos fãs foi moderado. Nesta
altura o afastamento e as discussões
entre Waters e Gilmour iam-se avolumando ao ponto de não chegarem a gravar
juntos ao mesmo tempo no estúdio. Gilmour reclamava a continuação de rock de
boa qualidade, criticando Waters por produzir sequências de canções demasiado
centradas nas suas letras de crítica social. No fim das gravações não houve
tournée. Depois de The Final Cut a Capitol Records lançou a colectânea Works fazendo com que a faixa de Waters
de 1970 “Embryo” estivesse disponível pela primeira vez num álbum dos Pink
Floyd.
Os membros da banda empreendem
então caminhos separados gastando o seu tempo em projectos individuais. Gilmour
foi o primeiro a lançar About Face
(84). Wright juntou-se a Dave Harris para formar uma nova banda Zee, que lançou
um álbum experimental Identity um mês
depois de Gilmour. Em Maio do mesmo ano Waters lança The Pros and Cons of Hitch
Hicking um trabalho conceptual
anteriormente proposto à banda. Em 85 Mason lançou Profiles em conjunto com Rick Fenn e com a participação de Gilmour
e do teclista Danny Peyronel.
GILMOUR
Em Dezembro de 1985 Waters
descreve a banda como “uma força criativa desgastada” e anuncia a sua saída dos
Pink Floyd. Segue-se uma batalha jurídica pela autoria e direitos da marca
“Pink Floyd” que opunha Waters de um lado e Gilmour e Mason do outro. O
processo acabou por encontrar um entendimento fora dos tribunais.
O primeiro trabalho sem Waters
deu pelo título de A Momentary Lapse of
Reason (87) . A ausência do
letrista de sempre deu lugar ao convite de escritores exteriores à banda. Ezrin
e Jon Carin (que escreve “Learning to Fly” além de tocar grande parte dos
teclados) assinam os textos, facto bastante mal recebido pelos críticos. Wright
também regressou aos trabalhos, inicialmente como musico contratado na fase
final das gravações, recuperando o seu estatuto oficial de membro da banda
assim que começam a tournée. Por causa das limitadas participações de Right e
Mason neste trabalho alguns críticos consideraram que A Momentary Lapse of Reason deveria ser considerado um trabalho a
solo de Gilmour, da mesma forma que The
Final Cut o teria sido de Waters. Um ano depois saía Delicate Sound of Thunder (88) com parte instrumental co-escrita
por Wright (a primeira vez desde 1975) e por Mason.
Em 85 estou em Londres há alguns
meses e por um acaso dei por mim numa noite fria de Novembro na Brixton Academy
a assistir a um concerto de Pete Towsend e a banda Deep End com a colaboração
de Gilmour. Não foi um concerto Pink Floyd mas foi algo de mágico acompanhar os
solos de temas como “Love on the Air” e “Blue Light”. Uma tarde para recordar e
levar para a cova como uma visita a outra dimensão da existência.
Pela década de 80 continuam os
espectáculos ao vivo e a conceptualidade Pink Floyd vai seguindo o seu rumo
sempre com novas propostas cénicas. Um desses momentos altos acontece em Veneza
num concerto memorável que ocorre na praça de S. Marcos em Veneza em 1989. Muita
da assistência acompanha o concerto em embarcações ao largo da praça.Um
concerto guardado a ouro nos pergaminhos da minha gravação em VHS. Curiosamente
uma gravação que acabou por ficar para sempre amputada das duas primeiras
canções porque o meu filho mais velho resolveu gravar uma parte de um episódio
da Rua Sésamo na mesma cassette do concerto de Veneza. Ainda hoje tenho essa
relíquia de fita magnética religiosamente guardada na qual um coro de
simpáticas vaquinhas da Rua Sésamo faz a primeira parte do espectáculo.
UMA INDUSTRIA DE FAZER MUSICA
A carreira dos Pink Floyd
continua pelos anos 90 mas agora como uma gigantesca máquina de concertos ao
vivo e colectâneas onde se transformam as formas e se inovam os embrulhos. Em
1992 é lançada a caixa Shine On, um
set de 9 CD’s onde são relançados vários álbuns de estúdio. Um bónus chamado
“The Early Singles” compunha um enquadramento onde, colocando os álbuns ao alto
era possível visualizar a imagem da capa de The
Dark Side of The Moon . No mesmo ano sai também o álbum a solo Amused to Death de Roger Waters.
Em 1994 o trabalho do grupo volta
acontecer com Wright a participar em pleno. O resultado chamou-se Division Bell e recebeu uma reacção
muito mais positiva da crítica por oposição a Momentary Lapse… criticado como cansativo e feito de lugares
comuns.
Division Bell é mais um álbum conceptual onde se pode rever a
interpretação ou a visão de Gilmour em relação a temas discutidos por Waters
aquando da feitura de The Wall.
Depois do fantasma de Barrett, a
influência de Waters, como se a criação sob a chancela Pink Floyd nunca
conseguisse ser o resultado de uma personalidade única mas um somatório de
influências onde todos acabavam por estar presentes mesmo quando não estavam.
Em 1995 é lançado Pulse, um trabalho ao vivo que inclui
várias canções gravadas na tournée de Division
Bell em Earls Court em Londres. Um
concerto que conjuga um lado clássico com outro mais moderno da banda, uma
simbiose temporal. Seria também a primeira vez em duas décadas que a banda
tocaria the Dark Side of The Moon na
íntegra.
Em Novembro de 2005 os Pink Floyd
são indicados no Hall da Fama da Musica do Reino Unido. Gilmour e Mason
compareceram explicando que Wright estava hospitalizado em virtude de uma
cirurgia e Waters fez-se aparecer numa transmissão de satélite desde Roma.
Waters, Gilmour, Wright e Mason continuarão a trabalhar juntos uns com os
outros, ora em trabalhos a solo ora em concertos da banda que juntou as suas
existências. Gilmour reconheceu um dia que não havia razão nenhuma para ele e
Waters continuarem de costas voltadas. Até porque para trás havia uma vida em
comum, um caminho repleto de acontecimentos extraordinários, momentos
inesquecíveis que não podia ignorar. Se um dia se encontrassem, naturalmente
cumprimentar-se-iam e falariam um com outro como sempre.
E esta afectividade e
reconhecimento dos méritos de cada um que sempre pairou sobre o grupo vem
apenas reforçar o valor daquela que foi uma das mais marcantes instituições
musicais de todos os tempos.
Em 2008 o membro e fundador dos
Pink Floyd Richard Wight morre aos 65 anos vítima de cancro. Muita da sua
influência ficará no último trabalho da banda, Endless River . Uma obra em forma de requiem que encerrará esta
saga sobre uma das melhoes bandas de sempre na história da música.
Artur
terça-feira, 29 de março de 2016
LOUCOS ANOS 70
(Desde os ecos até ao muro)
No início dos anos 70 a cena psicadélica começa a
ficar para trás no caminho dos Pink Floyd e a sua sonoridade torna-se algo
estranho e difícil de classificar. A banda alcançava a maturidade inaugurando a
sua própria marca. David Gilmour, Roger Waters e Richard Wright conseguem
encaixar individualidades, estilos e desempenhos numa sonoridade única. É a
grande explosão criativa que contém duas das mais belas obras-primas da
história da música ( The Dark Side of The Moon (73) e Wish
You Were Here (75)). Com o empenho e a colaboração de todos os membros da
banda o som resultou muito mais elaborado com letras mais filosóficas a vestir
o estilo único de uma guitarra de blues
de Gilmour, enquadrada por sonoridades mais evidentes do baixo de Waters, tudo
conjugado numa extensa harmonia de melodias e teclados de Right. Em estilo de
pontuação os coros femininos e o saxofone de Dick Parry. O máximo da perfeição para toda esta mudança
foi atingido com “Echoes", uma canção épica de 23 minutos ocupando todo o lado B
do álbum (Meddle (71)),onde longos
solos de guitarra e teclado se combinam com mistura de órgãos e sintetizadores.
A faixa “Fearless”é prenunciadora do sentimento melancólico que acompanhará os
próximos três álbuns da banda. Recebido de forma entusiástica por público e
crítica no reino Unido, Meddle é ainda hoje considerado um dos trabalhos mais
aclamados da banda.
Obscured by Clouds foi lançado em 72 enquanto banda sonora para o
filme de Barbet Schroeder LA VALLÉE. Embora pouco defendido pela crítica
englobava alguns aspectos temáticos que se repetiriam nos álbuns seguintes
como, por exemplo, a passagem do tempo, a morte, a vida e a morte do pai Waters
na II Guerra Mundial.
Em 1973 acontece o maior sucesso
da banda, o álbum que os coloca definitivamente no panteão universal. The Dark Side of the Moon é apenas um instituição só por si que bateu e
ainda hoje continua abater recordes de vendas por todo o mundo. Revelação e identificação
para várias gerações, as canções do álbum revestem tentativas de alinhamento da
condição humana com os diferentes tipos de pressões que nos assolam no
quotidiano. Um conceito concebido por Waters quando numa reunião com a banda em
que todos foram desafiados a colocar uma lista de temas sobre a mesa, lista
essa a que regressariam várias vezes para compor trabalhos posteriores. A
violência e a futilidade da guerra (“Us and Them), a insanidade e as neuroses a
relembrar o estado de Syd Barrett (“Brain Damage”), a passagem do tempo (“Time”)
são alguns dos pontos altos deste trabalho que conta também com efeitos sonoros
incidentais e partes de entrevistas onde se ouve Waters fazer perguntas como :
“quando foi a ultima vez que foste violento?”; “tinhas razão?”; “tens medo de
morrer?”. A fidelidade do som adquire parâmetros de elevada exigência com o
trabalho meticuloso e preciso de Alan Parsons, o engenheiro de som do álbum,
enriquecendo a imagem de marca da banda para futuros trabalhos. No colégio
interno onde andava houve alguém que teve a ideia de nos acordar às sete da
manhã utilizando a instalação sonora onde normalmente soava um cornetim com
temas deste álbum. Ainda hoje tenho arrepios e não consigo ouvir até ao fim
temas como “Time” e “Money”. Por outro lado, a capa do álbum representava a
refracção da luz. Através de um triângulo a luz entra num raio único
e branco transformando-se à saída num arco-íris, a mesma imagem que poderia ser
observada num livro de Física do meu 3º (actual 7º ano). É também por essa
época que as tardes de Sábado apresentam uma das mais revolucionárias equipas
de humor britânico, os Monty Python, que se apresentaram com a sua série da
BBC, “Monty Python Flying Circus”. Para os jovens daquele tempo era uma hora
sagrada de nonsense e boa disposição. No final dos anos 60 os Pink Floyd
paravam as gravações para assistir ao programa. Mais tarde (75) na sua primeira
aventura de longa metragem para o cinema MONTY PYTHON AND THE HOLY GRAIL, os
Monty contaram com uma preciosa ajuda à produção de bandas como os Led Zeppelin,
os Genesis e os Pink Floyd.
Num esforço para rentabilizar a
sua recente chegada à fama a banda lança uma colectânea intitulada A Nice Pair , uma mistura de temas dos
dois primeiro álbuns. Foi também nesse período de tempo (72) que o realizador
Adrian Maben lançou o primeiro filme concerto dos Pink Floyd, LIVE AT POMPEI. A
montagem original para cinema apresentava a banda a tocar em 1971 num
anfiteatro em Pompeia sem ninguém presente além dos elementos da banda e a
equipa de filmagens. A esta rodagem foram acrescentadas imagens gravadas nos
bastidores da banda durante as sessões de gravação de The
Dark Side of The Moon nos estúdios de Abbey Road. Esta última recolha de
imagens acabou por integrar futuros lançamentos de LIVE AT POMPEI. É também no
meu 3ºano (actual 7º) que com 12/13 anos de idade despertei para a idade adulta
e uma das minhas primeiras paixões foi a arqueologia. No espaço das actividades
circum-escolares, entre várias imagens de monumentos paleolíticos, ruínas
romanas e do Antigo Egipto, as que mais me chamaram a atenção foram as das
escavações da cidade de Pompeia destruída em 79 DC por uma erupção do vulcão do
Monte Vesúvio. A circunstância de surpresa geral que levou a população a ser
apanhada e petrificada pela lava e pelas cinzas marcou-me profundamente. Em
contraste, os Pink Floyd tocaram para um anfiteatro vazio de público. Uma
comparação fascinante.
Depois do sucesso de Dark Side a
banda tinha dúvidas em relação ao rumo a tomar. Numa tentativa de regresso ao
experimentalismo começam a trabalhar num novo projecto intitulado Household Objects , que consistia em
canções tocadas literalmente em objectos caseiros. No entanto o planeamento do
álbum foi posto de lado e decide-se voltar aos instrumentos tradicionais.
Apesar de não existir nenhuma gravação final deste trabalho, alguns efeitos
foram usados no álbum seguinte, Wish You
Were Here (75). Comecemos pelo grande instrumental “Shine On You Crazy
Diamond”, um tributo a Barrett onde as letras ilustram bem o seu declínio.
Regressam os solos de saxofone, a fusão de jazz com uma slide guitar agressiva,
sintetizadores. Seguem-se faixas como “Welcome to the Machine” e “Have a Cigar”
em jeito de críticas profundas à industria discográfica, tendo a ultima sido
cantada pelo cantor folk Roy Harper. Trata-se do terceiro album dos Pink Floyd
a alcançar o primeiro lugar nos tops tanto do Reino Unido como dos Estados
Unidos. Tal como o anterior ,The Dark Side
of The Moon, o êxito junto da crítica foi retumbante. A partir de 1973 a influência de Waters
vai-se instalando ao ponto de se tornar a linha dominante da banda.
UM HOMEM RAPADO E CARECA
Numa história mais ou menos
conhecida, um homem com cabeça e sobrancelhas integralmente rapadas andou pelo
estúdio enquanto a banda procedia às misturas de “Shine On you Crazy Diamond”.
Por algum tempo ninguém o reconheceu até que alguém percebeu tratar-se de Syd
Barrett. Quando lhe perguntaram como é que tinha ficado assim, rapado e obeso,
ele respondeu que tinha uma frigideira na cozinha e que comia bastante carne de
porco. Numa entrevista em 2001 para um documentário da BBC, SYD BARRETT: CRAZY
DIAMOND (posteriormente lançado em DVD como THE PINK FLOYD STORY AND SYD
BARRETT STORY) este episódio é relatado na íntegra. Rick Right diz: “Uma coisa
que nunca mais esquecerei. Vinha para as sessões de gravação. Passei pelo
estúdio e vi este tipo sentado lá ao fundo. Não o reconheci. Perguntei a alguém
quem era ele. Disseram-me que era o Syd. Não queria acreditar. Tinha rapado o
cabelo todo…sobrancelhas, tudo…andava aos saltos para cima e para baixo, foi
horrível. Acho que o Roger estava a chorar, todos nós estávamos perturbados.
Sete anos sem nenhum contacto, e de repente quando vamos gravar aquela faixa,
ele aparece. Carma, coincidência? Não sei, mas aquilo foi muito poderoso”.
No mesmo documentário, Nick
Mason: “Quando me lembro disso, ainda me consigo lembrar dos olhos dele,
mas…tudo o resto estava diferente”.
Roger Waters: “ Eu não tinha
ideia de quem seria ele durante algum tempo…”
E por fim David Gilmour: “ Nenhum
de nós o reconheceu. Rapado…careca e bastante gordo”. Na versão definitiva de
2006 do documentário, as entrevistas estão em formato completo sem cortes. Aí
podemos apreciar muito mais detalhes dos sentimentos e acções dos antigos
companheiros de Barrett. A figura ficou de tal maneira inscrita nas suas
memórias que voltaria a ser repetida no filme de Alan Parker THE WALL,
interpretado por Bob Geldorf.
ANIMALS
Influenciado pelo trabalho do
escritor britânico George Orwell (“Animal Farm”/ “O Triunfo dos Porcos”), Animals (77) apresenta desde logo duas
novidades. Em primeiro lugar o facto de ter sido gravado num novo estúdio , o
Britannia Row. Em segundo lugar, e muito provavelmente pela influência do punk rock , encontra-se muito mais
centrado na sonoridade da guitarra. Para trás ficam as passagens de saxofone e
os corais femininos utilizados nos dois álbuns anteriores. O resultado acaba
por dar um trabalho de hard rock enquadrado entre duas partes de uma peça
acústica. Os temas, influenciados pela obra de Orwell, são reflexos humanos,
metáforas da sociedade contemporânea. Cães, porcos e ovelhas ocupam as suas
funções na estrutura dentro da qual todos vivem. A crítica não conviveu muito
bem com o álbum, chegando mesmo a classificá-lo de entediante e vazio. A capa
inicial era para ser uma imagem de um porco gigante insuflável a voar entre as
torres da estação energética de Battersea Power Station. No entanto o vento
acabou por atrapalhar os planos de controlar o balão. O porco acabou por se
tornar um dos mais memoráveis símbolos dos Pink Floyd sendo mais tarde muito
utilizado nos seus concertos.
Seguir-se-ia The Wall, mais uma obra prima tão vasta e tão rica que só por si
justifica um artigo inteiro.
EU E OS PINK, LONDRES E O MEU TIO
A minha tia mais nova emigrou no
início dos anos 70 para Inglaterra, onde ainda hoje vive. No ano em que nasceu
o meu primo (74) passei o primeiro de vários natais na casa dos meus tios. O
meu tio Frank, quando o conheci tinha uma loja de discos. Era fã de musica
clássica mas deitava uma breve olhadela à música contemporânea sempre que
entendesse necessário. Vários dos meus primeiros discos/cassettes foram-me
dados por ele. Guiava um Austin Woody com frisos exteriores de madeira com Maltesers lá dentro perdidos no chão que
rolavam para a frente sempre que travava. Comecei a gostar mais de Pink Floyd
por causa dele. Ao Domingo depois do jantar costumávamos ir para o seu
escritório ver o resumo da jornada do futebol (fui sócio correspondente do
Liverpool durante três anos por causa dele). No berço o meu primo dormia
embalado e na aparelhagem, muito baixinho, ouvia-se Pink Floyd.
“Se Bach ou Beethoven fossem
vivos nos dias de hoje, a música que eles fariam seria muito parecida com a dos
Pink Floyd” – dizia-me enquanto bebia o seu sherry.
No Natal de 78 a sua prenda para mim foram
duas caixas com seis álbuns dos Pink Floyd e dois posters. Um deles, as
pirâmides de Gizé retratadas com uma lente azul, esteve anos na parede do meu
quarto. A obra quase toda à excepção dos dois primeiros álbuns. Apesar de
gostar bastante dos Floyd o Punk atraía-me mais, tinha mais movimento. O
movimento e a agitação são característicos de um jovem adolescente. Os Floyd
ficavam para tempos mais calmos. Voltaria a Inglaterra, voltaria aos Pink Floyd
e à casa dos meus tios. Por mais que me afastasse, por mais que não ligasse ou
não quisesse saber, os Pink Floy acabavam sempre a bater à minha porta. Por
todas as razões e mais uma.
Artur Carvalho
terça-feira, 8 de março de 2016
LONGE DOS HOMENS
LONGE DOS HOMENS
David Oelhoffen
França, 2014
Perdido no interior da Argélia,
um homem dirige uma escola primária rodeado de pedras, areia e uma imensa
vastidão de território onde nada cresce. Um dia a sua rotina é interrompida
pela visita de dois homens, um policia e um prisioneiro. Com as sublevações dos
rebeldes e a escassez de homens, Daru é nomeado para escoltar o preso até à
povoação mais próxima para aí ser julgado pelo homicídio de um primo. Assim
começa a história de LONGE DOS HOMENS, uma adaptação do conto “O Hóspede”
inserido na colectânea “O Exílio e o Reino” de Albert Camus. Cercados de
pobreza e aridez os homens tentam contrariar as possibilidades de vida
insistindo em habitar e continuar a viver num espaço que nada lhes dá. Às vezes
respeitam-se, às vezes matam-se e no fim todos acabam por morrer. É neste
cenário tantas vezes referido na obra de Camus que o filme se vai
desenvolvendo, desenhando na figura do mestre-escola o máximo possível de um
exilado na sua própria terra. Alguém que ali nasceu, que ali cresceu e que no
entanto é visto pelos locais como um estrangeiro. Enquadrado na aridez do
deserto e na solidão humana, David Oelhoffen vai escavando sem pressa nem
sobressalto uma narrativa segura que se afirma ao longo dos caminhos de pedra,
dos conflitos das armas e da ausência de felicidade. “O Hóspede” é a mola de
arranque que o realizador usa como ponto de partida. O filme no entanto vai
adquirindo a sua identidade ao lhe acrescentar alguns pormenores e personagens
que apenas enriquecem a narrativa original. E sai reforçado desse esforço. Se
lhe juntarmos uma excelente fotografia, uma extraordinária banda sonora de Nick
Cave e Warren Ellis e uma soberba interpretação de Vigo Mortensen ficamos
perante uma das melhores adaptações de Camus para cinema.
Ficamos a saber mais alguma coisa
cerca de Daru, que tinha sido combatente na Segunda Guerra Mundial no exército
francês, que era viúvo e descendente de emigrantes espanhóis, que no fim vai
ter que abandonar a sua escola e procurar a vida noutro lugar.
Dissemos que o filme acrescenta à
narrativa em que se baseia. Mas esse acrescento veio apenas reforçar, tornar
mais nítida a história que se pretendeu contar nos anos 50.
No meio de um conflito em que não
quer tomar partido, confrontado com uma justiça em que não acredita, ocupado com
a sua escola, filho de um território que não o reconhece, Daru quer apenas
continuar a ensinar as crianças a ler. E no meio de tanta injustiça, debaixo
das balas de uma guerra de que não faz parte, hostilizado pelos seus
compatriotas enquanto um ser estrangeiro, o mestre-escola tem ainda tempo de
afirmar a vida na medida em que tudo faz para devolver o seu preso à liberdade.
E assim acaba por acontecer. Mohamed e Daru despedem-se numa encruzilhada do
planalto. Daru empurra-o para a sua vida contrariando todas as tendências
dominantes naquelas paragens. Porque a solidariedade, a colaboração e a ajuda
são os únicos valores que fazem sentido quando mais nada é favorável à condição
humana.
Um excelente filme premiado nos
festivais de Veneza e Toronto. Um hino à Humanidade.
Artur
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