sábado, 18 de junho de 2016

PÉROLAS DE SCOLA

UNA GIORNATA PARTICOLARE / UM DIA  INESQUECÍVEL

Ettore Scola

Itália/Canadá 1977



Comecemos pelo princípio. Um plano inteiro com movimento de grua que se move em ascensão pelas traseiras de um espaço urbano composto de vários prédios e que entra para uma janela onda vamos encontrar a protagonista a executar as suas tarefas domésticas. Um movimento de câmara bastante raro ainda hoje estudado em muitas escolas de cinema. Um rádio aos berros que inunda o espaço vazio de pessoas através do qual vamos percebendo tudo o que se vai passando naquele dia 8 de Maio de 1938 em Roma. Todos estão presentes na parada e cerimónias que celebram a visita de Hitler a Itália. Nem todos. Antonietta fica em casa a tratar das suas tarefas domésticas enquanto o seu marido, um funcionário público da Itália fascista se deslocou até às comemorações com os seus seis filhos. Gabriele, um locutor de rádio demitido aguarda a sua deportação para a Sardenha. Nem marido, nem pai, nem soldado, nem sequer fascista, o locutor é homossexual, bilhete garantido para a exclusão de um regime totalitário embriagado com os ventos de guerra que começam a soprar. O encontro entre estes dois vizinhos, sendo muito mais do que a soma de dois corações solitários acaba por se revelar a dissecação de uma ideologia através de um hino à ternura e ao humor.


Antonietta sente-se frustrada e sozinha num mundo onde se limita a cumprir as suas funções de mulher-a-dias da sua casa e parideira. Apesar de já ser mãe de seis filhos o seu marido quer ser pai outra vez e com isso beneficiar do apoio e incentivo à natalidade dado pelo regime. Infiel e bronco transforma a vida da mulher num vazio imenso, impossível de preencher ou de deixar encontrar um espaço mínimo de realização e felicidade. Gabriele por seu lado, a primeira vez que é filmado no seu escritório, tem uma arma em cima da secretária sugerindo a ideia de suicídio. Os dois conversam, trocam histórias, dançam a rumba. Sendo considerado um dos mais belos filmes da história do Cinema, tudo em UNA GIORNATA PARTICOLARE é improvável e surpreendente desde o percurso de cada um dos personagens até ao desempenho dos actores. De facto, dois dos ícones e sex symbols da sua geração, o casal mais adorado do cinema de então envolvem-se numa interpretação sublime e natural de duas figuras simples e tristes que vivem uma tarde de excepção contra todas as possibilidades. Ignorando a homossexualidade do vizinho Antonietta expõe o seu charme, a sua vontade, o seu desejo de se sentir viva nem que seja por uma vez. Eventualmente o casal acaba por se envolver emocionalmente. Mas tudo é tão subtil e belo ao mesmo tempo que por instantes o que vemos é dois seres vítimas do sofrimento e da solidão que acabam por se consolar mutuamente. Enquanto a cidade inteira comemora a tirania e a autoridade e o rádio aos berros nos vai dando conta disso. E é esta fantástica história de subversão e simplicidade que acaba por se tornar um contraponto de bom senso num dia de bebedeira colectiva. Ao fim do dia Antonietta vê pela janela o seu vizinho deixar o prédio escoltado por dois polícias. Lá dentro já deitado está o seu marido que a chama para tratarem de fabricar o seu sétimo filho. Assim termina “um dia inesquecível”…

Artur

quarta-feira, 8 de junho de 2016

UM QUARTO QUE SEJA SEU




Dedicado a Teresa Borges, no dia do seu aniversário.


Assombrada por uma questão aparentemente simples mas que se revelou árdua à medida que as suas pesquisas se desenvolveram, Virginia Woolf percorria, no Outono de 1928, as ruas e os parques de Cambridge, frequentava restaurantes, festas e bibliotecas, consultava dezenas de escritores, homens e mulheres, compulsava montanhas de livros, preocupada sempre com a mesma questão, cuja resposta lhe chegou espontaneamente ao espírito, mas cujo significado considerava tão crucial que procurava discernir-lhe o sentido, estudando o comportamento e os papéis masculinos e femininos, os escritos dos homens sobre as mulheres e os das mulheres sobre os homens : "Que condições são indispensáveis à criação de obras de arte ?" - obras criadas por mulheres, entende-se, e não somente pelos homens, já que, no que se refere aos homens a questão há muito tinha sido respondida através das múltiplas teorias masculinas sobre a arte e sobretudo pela incontestável plétora das suas criações.
Nessa exploração de ruas e de livros, em busca de traços femininos que documentassem um pouco mais do que a inevitável necessidade do quotidiano, Virginia Woolf percepcionava em imaginação "o peso do mutismo, a acumulação da vida inexprimida". Foi assim que no fim da errância por ruas e bibliotecas, chegou à resposta que lhe queimava os lábios "uma mulher deve ter dinheiro e um quarto que seja seu", para poder criar obras de arte, o que, na fórmula de Virginia Woolf, remetia para a escrita de ficção, ficção não no sentido do romance ou da história inventada simplesmente, mas no sentido de toda a relação criativa e voluntária com a realidade, toda e qualquer tentativa subjectiva de a interpretar, penetrar, transformar e recriar. "Eis o que permanece depois de desaparecida a espuma dos dias; aquilo que permanece dos tempos passados, dos nossos amores, dos nossos ódios.. O mundo aparece então na sua nudez, uma vida mais intensa é-lhe insuflada", escrevia ela, e dirigindo-se às mulheres prosseguia : "Já que vos convido a ganharem a vida e a terem um quarto vosso, convido-vos a viver a presença da realidade", essa realidade capaz de metamorfose, mais intensa e rica de ensinamentos.
Neste apelo, que há mais de setenta anos lançava às mulheres, nem por um momento Virginia Woolf se perguntava se as mulheres experimentavam verdadeiramente a necessidade de criarem obras de arte, ou se essa necessidade não era mais do que a expressão de uma moda, o produto de uma época. Julgava a escritora que a aptidão criativa e artística - aquilo que chamamos criatividade - era bem partilhada entre os dois sexos, tal como o bem senso cartesiano. E coube-lhe constatar que séculos de pobreza e de constrangimentos sociais tinham tido tal sucesso na repressão da aptidão criativa das mulheres que a maior parte delas tinham acabado por acreditar que tal aptidão não existia, e reprimido por inconveniente, se não mesmo perversa, tal necessidade - talvez subtilmente despertada - de conferir uma forma nova e subjectiva à realidade; então, por autopunição, não recorriam às suas capacidades; cozinhavam, plantavam, recolhiam, coziam, aleitavam, criavam e enterravam as suas crianças com mais ardor e cada vez mais mudas, e recomeçavam sempre; cozinhando, limpando a casa de alto a baixo, aprovisionando celeiros, reflectindo longamente antes de gastarem um tostão, correndo de aqui para ali ao chamamento do homem, pondo-se sempre e para sempre ao seu serviço, até desaparecerem sem ruído, imperceptivelmente, da realidade que as dominava.
Assim são as coisas, constatava Virginia Woolf. Uma mulher que no século XVI fosse particularmente dotada de nascença - imaginemos que William Shakespeare tinha uma irmã tão genial como ele - enlouqueceria, escreve ela "matar-se-ia ou terminaria os seus dias numa cabana solitária fora da aldeia", banida e expulsa, morreria de fome e não criaria certamente a grande obra de arte.
Woolf estava persuadida que as mulheres deviam a sua evolução criativa a um fenómeno concreto ocorrido no fim do século XVIII : podiam ganhar dinheiro escrevendo: "O dinheiro arrasta as honras, aquilo que foi tido durante tanto tempo como fútil que já não tem retribuição. Sem dúvida, ainda podemos ver com derrisão esses seres (...) mas já não é possível ignorar que lhes pagam pelos seus escritos." Considera essa mudança do fim do século XVIII como mais significativa e importante que "todas as cruzadas e outras guerras das Duas Rosas". E se ela pudesse reescrever a história, consagraria mais atenção ao facto de as mulheres das classes médias se dedicarem mais à escrita que a todas as guerras.
"A vida é para os dois sexos - e vejo-os passar à minha frente, na rua, lado a lado - uma luta incessante, dolorosa e difícil", escrevia Virginia Woolf depois de ter explorado ruas e lugares em busca de uma resposta à questão "Que condições são indispensáveis à criação de obras de arte ?". Essa luta, continua ela, exige uma "coragem inabalável" e mais o quê ? "Confiança em si", responde ela; coragem e confiança em si como aguilhão e substância da criatividade feminina, afim de que as mulheres participem de maneira mais eficaz, mais inventiva e segundo o seu coração, na metamorfose da realidade.

terça-feira, 7 de junho de 2016

Largar



A perda repentina e inesperada de alguém que amamos, provoca uma dor complicada de dissolver.

É um soco no estômago que sufoca a garganta, derrete-se nos olhos e faz questionar o sentido e a razão.

Todas as mágoas, todas as desilusões, frustrações, arrependimentos e, acima de tudo, raivas, ódios e rancores carregam um peso difícil de aliviar. 
Há que largar lastro para hoje ser-se mais leve e estar mais apto a receber o que o Tempo e a Vida nos trazem.

Não deixem de amar hoje, como se fosse o último dia.

O que interessa é agora.
Ontem já foi e amanhã ainda não é.



segunda-feira, 6 de junho de 2016

MAIS UMA CRÓNICA SOBRE COISÍSSIMA NENHUMA


Tudo começou em algum lugar, nem podia ser de outra maneira. Escrever é um acto de generosidade na medida em que quem o faz normalmente não foi obrigado a fazê-lo. Entende que deve traduzir em palavras uma história, um estado de alma e dá-lo aos outros. Mas a actividade da escrita é talvez das mais ingratas que existem na medida em que é quase tão antiga como a Humanidade, o que torna tudo muito mais difícil no que toca à originalidade. Diz-se que já tudo foi escrito, que já tudo foi feito no que à Literatura diz respeito. Está tudo na Bíblia, nas tragédias gregas e na obra de Shakespeare. Daí para cá tudo o que se puder fazer está limitado a variações acerca destes três colossos da memória humana. Convém portanto, se não ler exaustivamente, pelo menos ter uma ideia do que se trata antes de se embarcar na aventura da escrita. No tempo da informação exaustiva em que a ignorância é uma questão de escolha o que acontece é que é precisamente a ignorância que triunfa sobre tudo o resto. Vá-se lá saber porquê…
 Ando há que tempos a “engonhar” um post sobre um dos mais importantes realizadores do século passado (Ettore Scola) mas falta-me a coragem. Há tanto para dizer que dava para escrever pelo menos três livros sobre o assunto. Tantos filmes, tantos momentos altos de uma carreira extraordinária, tantos tratados acerca da condição humana. Uma tragédia de miséria e desgraça de duas horas e meia onde não conseguimos parar de rir, décadas de história contadas sem palavras num espaço de um salão de baile onde se sucedem as modas, o encontro improvável de uma dona de casa e um vizinho homossexual numa Roma deserta onde todos estão numa manifestação que comemora a visita de Hitler à Itália de Mussolini, ou a fuga de um grupo de cortesãos da fúria revolucionária de 1789 em Paris. Tanta informação, tantas questões, tanto motivo para reflectir. Ainda hoje ao fim de muitos anos fico assustado ante a enormidade e o génio. Invento pretextos para adiar, dedico-me a tarefas secundárias, deixo passar o tempo. Com o romance que estou a escrever passa-se o mesmo. Um turbilhão de sentimentos e emoções, um caudal de coisas que quero dizer mas que não se pode despejar de qualquer maneira. Porque há regras para a comunicação, há padrões para as narrativas, porque uma grande parte dos leitores não tem a minha idade nem a minha vivência. No fundo porque o objectivo é bater à porta daquele edifício a que chamam a Linguagem Universal e pedir que me deixem dar uma espreitadela, que me deixem estar só cinco minutos no átrio da casa e respirar. Que pelo menos um dos meus livros consiga saltar do “Cemitério dos Livros Esquecidos” para uma arrecadação dessa enorme casa. E assusto-me outra vez como naquelas tardes em que corria para casa todo esmurrado à espera da água oxigenada, do penso e dos lanches da minha avó. E continuo a andar às voltas, em avanços e recuos, preocupado com o assalto à Língua Portuguesa, sempre fascinado com a ideia de Portugal e com o que os grandes, os clássicos fizeram antes de mim. Por vezes deslumbrado com o que consigo fazer, outras vezes desesperado por me obrigar a despejar esta força para fora. Escrever é também o mesmo que não rebentar por dentro, facto várias vezes comprovado ao longo dos anos. O bem-estar que dá a finalização de um texto nas condições mínimas que tinha sido pensado. A dor de não escrever que se aloja dentro da alma e vai inchando quase até nos sufocar. Porque antes de tudo, serei sempre aquele que se assusta antes de se deslumbrar para se assustar outra vez. Aquele que nunca está satisfeito para pontualmente se poder satisfazer. E no fim sei que acabarei por arrancar e correr até ao fim, terminarei a tarefa. A forma como ela ficar será aquela que tiver que acontecer. Melhor ou pior. Nessa altura o susto e o deslumbramento ficam congelados para dar lugar apenas à acção. O que for, será. Nada a fazer, nada a acrescentar. O mundo é um lugar demasiado grande, as pessoas demasiado complexas, a vida demasiado cruel. Escrevo porque não sei nada sobre eles…continuo a escrever porque nunca os conseguirei perceber. E é nessa entrega sem retorno, nessa tarefa sem êxito, nessa obrigação sem castigo que torno útil o tempo de que disponho para cá andar, que dou sentido ao absurdo que me envolve, que bato timidamente à porta desse palácio encantado e gigantesco onde a maioria dos seres se encontra e convive sem nunca terem sido apresentados.


Artur


quinta-feira, 26 de maio de 2016

IRON MAIDEN 2016



Dia 11 de Julho será a data em que a mítica banda de 40 anos de existência se volta a encontrar com o publico português. Uma relação já longa que começou a 31 de Agosto de 1984 no Pavilhão Infante de Sagres no Porto. Depois disso os Iron Maiden tocaram seis vezes em Cascais, cinco em Lisboa, duas no Algarve e uma em Vilar de Mouros. Uma relação de admiração e carinho mútuo que levou Steve Harris a adquirir um bar, rapidamente tornado ponto de peregrinação (“Eddie’s Bar”), próximo de Faro.


APRESENTAÇÃO

A longevidade deste fenómeno musical que arrasta multidões de todas as idades e esgota concertos em qualquer parte do mundo deve-se em parte a uma vitalidade criativa (novos trabalhos originais com intervalos de dois, no máximo três anos) associada a uma originalidade e postura invulgares no mundo do Rock n’ Roll. Longe de uma aceitação consensual nos meios tradicionais da divulgação (MTV’s e afins), os Iron Maiden subiram a pulso na sua carreira construindo a sua fama em espectaculares actuações ao vivo e no apoio dos fãs que lhes renderam milhões em vendas um pouco por todo o mundo.
Inaugurando a era do British New Wave of Heavy Metal ao lado de nomes como Def Leppard, Motorhead e Judas Priest, o resultado foi uma poderosa e influente combinação de heavy metal com uma atitude punk numa deslumbrante diversidade rítmica. Sem os Iron Maiden não haveria trash nem speed nem death nem hardcore metal nem uma série de palavrões que se poderiam escrever agora para enaltecer a pobreza e o deserto musical que a sua herança preencheu.
A originalidade dos Iron Maiden (IM) apresenta-se-nos de uma forma quase absoluta na medida em que pode ser lida quer ao nível da composição musical quer ao nível das letras. Assim, ao não alinharem com o padrão habitual de canções de 3 minutos (2 coros, 1guitarra solo, coro final) escreviam temas longos e complexos como por exemplo “The Rime of The Ancient Mariner”, 13:45 min. de Rock Progressivo. Por outro lado, em alternativa aos temas do costume no mundo do Rock (Sexo, drogas, etc.) a temática da banda é constantemente influenciada por outras artes como a Literatura, o Cinema, e géneros como a Ficção Científica ou o Folclore. Outra originalidade prende-se com a imagem limpa de drogas que a banda faz questão de transmitir ao longo dos anos.





ICONOGRAFIA/ REFERÊNCIAS/ATITUDE

O “livro” dos IM é como um depósito de memórias do nosso “Inconsciente Colectivo” vestido com as roupagens e os rituais do Heavy Metal. Nada é gratuito nem muito menos acidental. Influências quer literárias quer de referência histórica consistem no ponto de partida para a apresentação da sua arte.
No capítulo literário vamos encontrar temas como “Brave New World” (Aldous Huxley); “Rime of The Ancient Mariner” (baseado num poema com o mesmo título de Samuel Taylor Coleridge, onde a mensagem principal, de acordo com a versão da banda é: “Devemos amar todas as coisas que Deus criou.”); “Seventh Son” (Orson Scott Card); “Lord of The Flies” (William Golding); “Murder in The Rue Morgue” (Edgar Allan Poe); “To Tame a Land” ( Frank Herbert).
Em termos de referências históricas, elas são abundantes ao longo da obra dos IM. Comecemos pelo Antigo Egipto, “Powerslave” é acerca de um Faraó que, por se considerar a si próprio um deus não consegue viver bem com a ideia da morte. Define-se como um slave to the power of death; Guerra da Crimeia – “The Trooper”, baseada numa batalha durante a Guerra da Crimeia entre Britânicos e Russos. Há quem garanta que se baseou no poema “Charge of The Light Brigade”, onde são descritos os horrores da guerra enquanto uma carga de cavalaria britânica se precipita para a morte certa; “Run to The Hills”, inspirado na chegada dos europeus ao continente americano e a reacção dos índios; “Paschendale” – a batalha de Paschendale ou, em português, a terceira batalha de Ypres na I Guerra Mundial; “The Longest Day”, o dia D, o desembarque na Normandia, II Guerra Mundial; “Two Minutes To Midnight”, The Doomsday Clock, a Guerra Fria na ordem do dia numa altura em que o planeta esteve à beira da catástrofe nuclear.

OS ACTORES

Dadas as constantes mudanças que o elenco da banda foi sofrendo ao longo dos anos, é de referir aqui dois nomes importantes na vida da banda. Steve Harris porque é o único elemento original e Bruce Dickinson por ser uma grande parte da imagem da banda nos últimos anos.
Steve Harris, que em adolescente jogou futebol no West Ham, aprendeu a tocar baixo sozinho acabando por desenvolver um estilo único. O seu baixo “galopante” é uma imagem de marca da banda. Escreve e é co-autor da maior parte dos temas
Bruce Dickinson, o homem dos sete instrumentos possui uma energia inesgotável. Praticante de esgrima, chegou a ser 7º no ranking do Reino Unido, piloto de aviação comercial e a voz dos IM. Uma voz original de estilo semi-operático que lhe permite atacar os temas mais irregulares com uma delicadeza e um estilo únicos. Se Bruce é a cara da banda, Steve é o cerébro numa combinação perfeita até à data.



CONCLUSÃO

Fomos vendo aqui muitas das razões que tornam os Iron Maiden um fenómeno não só de Rock metálico como um retrato icónico da espécie humana contado através da sua fantasia criativa. A agressividade, a imagem violenta ou as diversas narrativas de horror e destruição mais não são do que um reflexo da realidade, um testemunho da História, uma fotografia da natureza humana. De acordo com muitos dos fãs, após um espectáculo dos IM há uma sensação de alívio e tranquilidade quando se volta para casa. Como se a violência, a agressividade e todo o género de energia negativa se tivesse libertado durante o concerto. Um curioso ponto de vista a reforçar a experiência inesquecível que é assistir ao vivo a um concerto desta banda.


Artur 

sexta-feira, 13 de maio de 2016

A MÃE DE ELISA



A minha mãe já chegou? Então esteja com atenção porque ela vem – me buscar. Sei porque me disse e quando diz, faz. Tal como quando fizemos a peça de  Natal e ela teve o acidente de carro, apareceu quase à hora do jantar mas apareceu.

Eu sou a Elisa e fiz a chuva

Já a escola se vestia de trajes de noite, uma roupagem que eu desconhecia, o pátio vazio e azul de noite, sem meninos, as portas fechadas, os pais e os professores a saírem uns a seguir aos outros.
Mas eu não tive medo. Sabia que ela vinha… a minha mãe. Porque se ela disse que vinha, não falhava. A minha mãe não promete à toa e sabe perfeitamente que se me prometesse alguma coisa que depois não conseguisse fazer eu iria ficar muito triste

Eu sou a Elisa e fiz a chuva

E apareceu triste com um enorme penso do lado direito da testa, e chorou por não ter visto a peça de teatro da escola em que eu fazia de chuva, e chorámos mas ficámos felizes logo a seguir porque estávamos ali as duas e o pátio deserto de meninos não nos metia medo nenhum

A minha mãe vem me buscar porque disse que vinha. Pouco me importa que me digam que tenho oitenta e três anos e que moro neste lugar e com estas pessoas que tenho dificuldade em reconhecer todas as manhãs

A minha mãe já chegou? Então esteja com atenção quando ela vier e vá logo chamar-me
Ela chega sempre mesmo que venha atrasada. Quando acabei a Faculdade (não me lembro que curso era mas lembro-me da cara de alegria dela), quando tive os filhos, quando fiquei viúva…a minha mãe chegava sempre embalada pelo sorriso, pronta para me abraçar. Mesmo quando não quero comer as mistelas que vocês me dão, mesmo fechando a boca ou cuspindo tudo para o chão, tenho a certeza que se a fossem chamar nada disto aconteceria.

Porque ela tinha sempre um truque novo debaixo da manga que me fazia ficar tranquila, uma frase que me acalmava (não estas porcarias às cores que me fazem engolir ao lanche), uma paciência sábia que me explicava que nada era o fim do mundo mesmo quando tudo parecia perdido.
Nada era uma catástrofe ou um problema qualquer que não tivesse solução 

A minha mãe deve estar quase a chegar, tenho a certeza. Disse que vinha pouco antes de já não me conseguir levantar da cama. Acenou devagar e sorriu. E por isso quando vier não quero perder tempo. Quero-me levantar daqui de uma vez, dar-lhe a  mão e sair para a rua como duas nuvens de chuva que se deixam orientar pelo vento a caminho de casa.

Por isso não tenho medo

Eu sei que ela vem...


Artur  

sexta-feira, 29 de abril de 2016

UM RIO SEM FIM





Antes de mais nada há uma imagem tranquila de eternidade a fazer as apresentações. Um barqueiro em mangas de camisa orienta a sua barca sobre uma superfície feita de nuvens em direcção ao fim do dia. Seguem-se registos de som quase exclusivamente ambiental, onde os instrumentos se limitam a conduzir as emoções muito suavemente. Este é The Endless River , o décimo quinto e último álbum dos Pink Floyd, uma despedida sincera que vem encerrar cinco décadas de carreira. Baseado em trabalho extraído à partida do último álbum (duas dezenas de horas de gravações não aproveitadas nas sessões de Division Bell  (94)),  Endless River (2014) está todo ele preenchido com a presença de Richard Wright, falecido em 2008 vítima de cancro. Guy Pratt é o músico contratado responsável pelo baixo enquanto que as letras ficaram a cargo de Polly Samson, mulher de Gilmour. Só uma faixa é cantada (“Louder Than Words”) ao longo de todo este trabalho de despedida, disperso, ocasionalmente a fazer o balanço de algumas partes de uma obra que se estendeu por cinco décadas. Nada de novo na concepção que não tenhamos já visto em trabalhos anteriores. Partindo das pontas que ficaram soltas no trabalho anterior e trabalhando o legado de Wright vão compondo novos temas. Tal como Wish You Were Here foi feito sem Barrett mas acusando a sua influência e Division Bell trabalhava as escolhas de Waters deixadas nos trabalhos de The Wall . Se por um lado a maioria dos novos originais acabam por ser as revisões do trabalho anterior e o seu respectivo desenvolvimento, uma grande parte das obras da banda são homenagens aos seus elementos entretanto afastados. Uma constante de elegia dos ausentes e elipse de regresso aos passos anteriores fazem do método dos Pink Floyd uma curiosa e original imagem de marca.
De facto, quando no início o reportório era curto a banda escolheu alargar a duração das músicas para cumprir o tempo de permanência em palco, para compensar os poucos ensaios que faziam improvisavam, usavam efeitos especiais desenvolvendo cada vez mais sofisticadas produções para os seus espectáculos. Com um horizonte criativo à sua frente muito mais vasto do que apenas a música, combinavam-se várias artes que complementavam os seus trabalhos. Em muitas dessas combinações acabaram por nascer fenómenos que ainda hoje complementam a indústria discográfica tal como o conceito de videoclip. Ao longo da audição de Endless River não conseguiremos revisitar toda a vasta obra dos Pink Floyd mas muitas serão as etapas dela para onde seremos transportados. Na faixa “It’s What We Do” revemos “Welcome to The Machine” do album Wish You Were Here , em “Sum” encontramos uma versão mais ligeira de “One of These Days” do álbum Meddle, e por fim, a entrada de “Anisina” parece por um breve instante que vamos ouvir “Us And Them” de Dark Side Of The Moon.
Não sendo o melhor trabalho de sempre é sem dúvida a mais bem acabada forma de a banda se despedir e estabelecer o fim do seu ciclo aos milhões de fãs em todo o mundo. Tudo termina e os Pink Floyd não podiam ser excepção. O seu legado ficará nos anais da História da Música como um dos fenómenos mais importantes registados no seu tempo. Serão talvez no futuro escutados e idolatrados como os compositores clássicos o foram no passado, adquirindo esse estatuto. A mim deixam-me um mapa temporal onde consigo encontrar e relembrar pontos do meu caminho o que não deixa de ser um registo de breve nostalgia melancólica. Continuarei a ouvir e a recordar estes clássicos até eu próprio me meter na barca e navegar sobre um rio de nuvens na direcção do fim do dia.


Artur

sexta-feira, 22 de abril de 2016

MUROS / REINADOS / INDUSTRIA




WATERS

A década de 70 está a chegar ao fim e a obra dos Pink Floyd entra em velocidade de cruzeiro. 1979 marca o ano de saída da mais importante ópera rock de sempre. Concebida quase na totalidade por Roger Waters, The Wall é na sua essência um poema sobre a solidão e a falta de comunicação, uma alucinação introspectiva, uma visão globalizada da massificação cultural e do aniquilamento da liberdade individual, um desafio à tirania e um hino à Liberdade, um tratado da condição humana, qualquer coisa de colossal em todas as vertentes que o queiram analisar. Expresso pela metáfora de um muro a ser construído entre um artista de rock e a sua audiência o álbum foi um êxito estrondoso entre público e críticos com um único single  “Another Brick In The Wall (Part 2), que fez longas estadias nos tops de vendas um pouco por todo o mundo.  The Wall  contém faixas que acabaram por se tornar imagem de marca da banda como “Comfortably Numb” ou “Run Like Hell”. Quase todo ele concebido por Roger Waters o som torna-se cada vez mais hard rock apesar de grandes orquestrações a lembrar tempos passados em temas mais calmos como “Goodbye Blue Sky”, “Nobody Home” ou “Vera”. O predomínio da personalidade de Waters colide com Richard Wright, cuja influência neste trabalho é mínima. Wright acaba por ser afastado durante as gravações regressando depois e desta vez contratado para tocar nos concertos. Ironicamente Wright foi o único elemento da banda a ter lucros na “tournée” do The Wall . Os elevados custos de produção dos espectáculos acabaram em grande prejuízo para a banda. Em 1989 com a queda do Muro de Berlim, Roger Waters foi convidado para tocar The Wall ao vivo no lugar original do muro.
Batendo sucessivos recordes de mais ouvido, mais tocado ou mais comprado, o álbum vendeu só nos Estados Unidos o equivalente a 11,5 milhões de cópias obtendo 23 álbuns de platina.
No cinema Alan Parker realiza PINK FLOYD THE WALL em 1982 onde incorpora praticamente todo o álbum. Na senda do sucesso musical a dimensão cinematográfica também não ficou atrás. Visto por milhões de espectadores por todo o mundo, o filme integrava uma parte de animação da responsabilidade do artista e cartoonista britânico Gerald Scarfe. Interpretado por Bob Geldorf (vocalista dos “Boomtown Rats” e mais tarde organizador do festival Live Aid) e escrito todo ele por Roger Waters, o filme foi considerado por muitos críticos como “o maior vídeo de rock de sempre e também o mais depressivo”. Os únicos temas do duplo álbum que não foram utilizados foram “Hey You” e “The Show Must Go On”. O tema “When The Tigers Broke Free”, apesar de surgir no filme tem um primeiro lançamento sob a forma de single sendo mais tarde integrado na colectânea, Echoes: The Best of Pink Floyd, bem como no relançamento de The Final Cut .
The Wall foi mais um tratado que ocupou a atenção de várias gerações, discutido e ouvido durante anos e anos, ocupando lugar em todas festas de garagem. “Another Brick In The Wall” era cantado por adolescentes europeus despreocupados, estudantes sul africanos que combatiam o regime do apartheid, e de uma forma ou de outra, por todos aqueles que se sentiam de alguma forma injustiçados com os sistemas políticos/ sociais da época. No meu caso The Wall entra na minha existência precisamente na altura em que estou a passar da adolescência à idade adulta. A confrontação com a realidade, a urgência de manter um estado consciente minimamente lúcido, os labirintos da solidão, a busca de respostas, a vida quotidiana, o consumo de drogas, a injustiça,tudo fazia eco na história de Mr Floyd e em todo o seu processo de alucinação e enlouquecimento.
Roger Waters é o timoneiro do grupo em toda esta fase. A sua hegemonia vai-se prolongar para The Final Cut (83), um trabalho dedicado ao seu pai, Eric Fletcher Waters. Ainda mais sombrio de sonoridade o álbum regressa a temas anteriormente debatidos mas com o foco centrado na actualidade temática, nomeadamente a raiva de Waters face à participação da Inglaterra na guerra das Malvinas (“ The Fletcher Memorial Home”) ou uma visão cínica acerca de uma possível guerra nuclear (“Two Suns in the Sunset”). Em virtude da saída de Wright, Michael Kamen e Andy Bown ficam com a responsabilidade dos teclados. Apesar de tecnicamente ser um álbum com a marca Pink Floyd o nome da banda só está referenciado na parte de trás: “The Final Cut – Um requiem para o sonho do pós-guerra por Roger Waters tocado por Pink Floyd: Roger Waters, David Gilmour e Nick Mason”. Waters ficou como o exclusivo criador sendo  The Final Cut uma referência para os seus futuros trabalhos a solo. Apesar de bem acolhido pela crítica o sucesso junto dos fãs foi moderado. Nesta altura  o afastamento e as discussões entre Waters e Gilmour iam-se avolumando ao ponto de não chegarem a gravar juntos ao mesmo tempo no estúdio. Gilmour reclamava a continuação de rock de boa qualidade, criticando Waters por produzir sequências de canções demasiado centradas nas suas letras de crítica social. No fim das gravações não houve tournée. Depois de  The Final Cut  a Capitol Records lançou a colectânea Works fazendo com que a faixa de Waters de 1970 “Embryo” estivesse disponível pela primeira vez num álbum dos Pink Floyd.
Os membros da banda empreendem então caminhos separados gastando o seu tempo em projectos individuais. Gilmour foi o primeiro a lançar About Face (84). Wright juntou-se a Dave Harris para formar uma nova banda Zee, que lançou um álbum experimental Identity um mês depois de Gilmour. Em Maio do mesmo ano Waters lança The Pros and Cons of Hitch Hicking  um trabalho conceptual anteriormente proposto à banda. Em 85 Mason lançou Profiles em conjunto com Rick Fenn e com a participação de Gilmour e do teclista Danny Peyronel.




GILMOUR

Em Dezembro de 1985 Waters descreve a banda como “uma força criativa desgastada” e anuncia a sua saída dos Pink Floyd. Segue-se uma batalha jurídica pela autoria e direitos da marca “Pink Floyd” que opunha Waters de um lado e Gilmour e Mason do outro. O processo acabou por encontrar um entendimento fora dos tribunais.
O primeiro trabalho sem Waters deu pelo título de A Momentary Lapse of Reason (87) . A ausência do letrista de sempre deu lugar ao convite de escritores exteriores à banda. Ezrin e Jon Carin (que escreve “Learning to Fly” além de tocar grande parte dos teclados) assinam os textos, facto bastante mal recebido pelos críticos. Wright também regressou aos trabalhos, inicialmente como musico contratado na fase final das gravações, recuperando o seu estatuto oficial de membro da banda assim que começam a tournée. Por causa das limitadas participações de Right e Mason neste trabalho alguns críticos consideraram que A Momentary Lapse of Reason deveria ser considerado um trabalho a solo de Gilmour, da mesma forma que The Final Cut o teria sido de Waters. Um ano depois saía Delicate Sound of Thunder (88) com parte instrumental co-escrita por Wright (a primeira vez desde 1975) e por Mason.
Em 85 estou em Londres há alguns meses e por um acaso dei por mim numa noite fria de Novembro na Brixton Academy a assistir a um concerto de Pete Towsend e a banda Deep End com a colaboração de Gilmour. Não foi um concerto Pink Floyd mas foi algo de mágico acompanhar os solos de temas como “Love on the Air” e “Blue Light”. Uma tarde para recordar e levar para a cova como uma visita a outra dimensão da existência.
Pela década de 80 continuam os espectáculos ao vivo e a conceptualidade Pink Floyd vai seguindo o seu rumo sempre com novas propostas cénicas. Um desses momentos altos acontece em Veneza num concerto memorável que ocorre na praça de S. Marcos em Veneza em 1989. Muita da assistência acompanha o concerto em embarcações ao largo da praça.Um concerto guardado a ouro nos pergaminhos da minha gravação em VHS. Curiosamente uma gravação que acabou por ficar para sempre amputada das duas primeiras canções porque o meu filho mais velho resolveu gravar uma parte de um episódio da Rua Sésamo na mesma cassette do concerto de Veneza. Ainda hoje tenho essa relíquia de fita magnética religiosamente guardada na qual um coro de simpáticas vaquinhas da Rua Sésamo faz a primeira parte do espectáculo.



UMA INDUSTRIA DE FAZER MUSICA

A carreira dos Pink Floyd continua pelos anos 90 mas agora como uma gigantesca máquina de concertos ao vivo e colectâneas onde se transformam as formas e se inovam os embrulhos. Em 1992 é lançada a caixa Shine On, um set de 9 CD’s onde são relançados vários álbuns de estúdio. Um bónus chamado “The Early Singles” compunha um enquadramento onde, colocando os álbuns ao alto era possível visualizar a imagem da capa de The Dark Side of The Moon . No mesmo ano sai também o álbum a solo  Amused to Death de Roger Waters.
Em 1994 o trabalho do grupo volta acontecer com Wright a participar em pleno. O resultado chamou-se Division Bell e recebeu uma reacção muito mais positiva da crítica por oposição a Momentary Lapse… criticado como cansativo e feito de lugares comuns.
Division Bell é mais um álbum conceptual onde se pode rever a interpretação ou a visão de Gilmour em relação a temas discutidos por Waters aquando da feitura de The Wall.  
Depois do fantasma de Barrett, a influência de Waters, como se a criação sob a chancela Pink Floyd nunca conseguisse ser o resultado de uma personalidade única mas um somatório de influências onde todos acabavam por estar presentes mesmo quando não estavam.
Em 1995 é lançado Pulse, um trabalho ao vivo que inclui várias canções gravadas na tournée de Division Bell  em Earls Court em Londres. Um concerto que conjuga um lado clássico com outro mais moderno da banda, uma simbiose temporal. Seria também a primeira vez em duas décadas que a banda tocaria the Dark Side of The Moon na íntegra.
Em Novembro de 2005 os Pink Floyd são indicados no Hall da Fama da Musica do Reino Unido. Gilmour e Mason compareceram explicando que Wright estava hospitalizado em virtude de uma cirurgia e Waters fez-se aparecer numa transmissão de satélite desde Roma. Waters, Gilmour, Wright e Mason continuarão a trabalhar juntos uns com os outros, ora em trabalhos a solo ora em concertos da banda que juntou as suas existências. Gilmour reconheceu um dia que não havia razão nenhuma para ele e Waters continuarem de costas voltadas. Até porque para trás havia uma vida em comum, um caminho repleto de acontecimentos extraordinários, momentos inesquecíveis que não podia ignorar. Se um dia se encontrassem, naturalmente cumprimentar-se-iam e falariam um com outro como sempre.
E esta afectividade e reconhecimento dos méritos de cada um que sempre pairou sobre o grupo vem apenas reforçar o valor daquela que foi uma das mais marcantes instituições musicais de todos os tempos.
Em 2008 o membro e fundador dos Pink Floyd Richard Wight morre aos 65 anos vítima de cancro. Muita da sua influência ficará no último trabalho da banda, Endless River . Uma obra em forma de requiem que encerrará esta saga sobre uma das melhoes bandas de sempre na história da música.

Artur



terça-feira, 29 de março de 2016

LOUCOS ANOS 70



                                                  (Desde os ecos até ao muro)




No início dos anos 70 a cena psicadélica começa a ficar para trás no caminho dos Pink Floyd e a sua sonoridade torna-se algo estranho e difícil de classificar. A banda alcançava a maturidade inaugurando a sua própria marca. David Gilmour, Roger Waters e Richard Wright conseguem encaixar individualidades, estilos e desempenhos numa sonoridade única. É a grande explosão criativa que contém duas das mais belas obras-primas da história da música ( The Dark Side of The Moon (73)  e Wish You Were Here (75)). Com o empenho e a colaboração de todos os membros da banda o som resultou muito mais elaborado com letras mais filosóficas a vestir o estilo único de uma guitarra de blues de Gilmour, enquadrada por sonoridades mais evidentes do baixo de Waters, tudo conjugado numa extensa harmonia de melodias e teclados de Right. Em estilo de pontuação os coros femininos e o saxofone de Dick Parry.  O máximo da perfeição para toda esta mudança foi atingido com “Echoes", uma canção épica de 23 minutos ocupando todo o lado B do álbum (Meddle (71)),onde longos solos de guitarra e teclado se combinam com mistura de órgãos e sintetizadores. A faixa “Fearless”é prenunciadora do sentimento melancólico que acompanhará os próximos três álbuns da banda. Recebido de forma entusiástica por público e crítica no reino Unido, Meddle é ainda hoje considerado um dos trabalhos mais aclamados da banda.
Obscured by Clouds   foi lançado em 72 enquanto banda sonora para o filme de Barbet Schroeder LA VALLÉE. Embora pouco defendido pela crítica englobava alguns aspectos temáticos que se repetiriam nos álbuns seguintes como, por exemplo, a passagem do tempo, a morte, a vida e a morte do pai Waters na II Guerra Mundial.
Em 1973 acontece o maior sucesso da banda, o álbum que os coloca definitivamente no panteão universal. The Dark Side of the Moon  é apenas um instituição só por si que bateu e ainda hoje continua abater recordes de vendas por todo o mundo. Revelação e identificação para várias gerações, as canções do álbum revestem tentativas de alinhamento da condição humana com os diferentes tipos de pressões que nos assolam no quotidiano. Um conceito concebido por Waters quando numa reunião com a banda em que todos foram desafiados a colocar uma lista de temas sobre a mesa, lista essa a que regressariam várias vezes para compor trabalhos posteriores. A violência e a futilidade da guerra (“Us and Them), a insanidade e as neuroses a relembrar o estado de Syd Barrett (“Brain Damage”), a passagem do tempo (“Time”) são alguns dos pontos altos deste trabalho que conta também com efeitos sonoros incidentais e partes de entrevistas onde se ouve Waters fazer perguntas como : “quando foi a ultima vez que foste violento?”; “tinhas razão?”; “tens medo de morrer?”. A fidelidade do som adquire parâmetros de elevada exigência com o trabalho meticuloso e preciso de Alan Parsons, o engenheiro de som do álbum, enriquecendo a imagem de marca da banda para futuros trabalhos. No colégio interno onde andava houve alguém que teve a ideia de nos acordar às sete da manhã utilizando a instalação sonora onde normalmente soava um cornetim com temas deste álbum. Ainda hoje tenho arrepios e não consigo ouvir até ao fim temas como “Time” e “Money”. Por outro lado, a capa do álbum representava a refracção da luz. Através de um triângulo a luz entra  num raio único e branco transformando-se à saída num arco-íris, a mesma imagem que poderia ser observada num livro de Física do meu 3º (actual 7º ano). É também por essa época que as tardes de Sábado apresentam uma das mais revolucionárias equipas de humor britânico, os Monty Python, que se apresentaram com a sua série da BBC, “Monty Python Flying Circus”. Para os jovens daquele tempo era uma hora sagrada de nonsense e boa disposição. No final dos anos 60 os Pink Floyd paravam as gravações para assistir ao programa. Mais tarde (75) na sua primeira aventura de longa metragem para o cinema MONTY PYTHON AND THE HOLY GRAIL, os Monty contaram com uma preciosa ajuda à produção de bandas como os Led Zeppelin, os Genesis e os Pink Floyd.
Num esforço para rentabilizar a sua recente chegada à fama a banda lança uma colectânea intitulada A Nice Pair , uma mistura de temas dos dois primeiro álbuns. Foi também nesse período de tempo (72) que o realizador Adrian Maben lançou o primeiro filme concerto dos Pink Floyd, LIVE AT POMPEI. A montagem original para cinema apresentava a banda a tocar em 1971 num anfiteatro em Pompeia sem ninguém presente além dos elementos da banda e a equipa de filmagens. A esta rodagem foram acrescentadas imagens gravadas nos bastidores da banda durante as sessões de gravação de  The Dark Side of The Moon nos estúdios de Abbey Road. Esta última recolha de imagens acabou por integrar futuros lançamentos de LIVE AT POMPEI. É também no meu 3ºano (actual 7º) que com 12/13 anos de idade despertei para a idade adulta e uma das minhas primeiras paixões foi a arqueologia. No espaço das actividades circum-escolares, entre várias imagens de monumentos paleolíticos, ruínas romanas e do Antigo Egipto, as que mais me chamaram a atenção foram as das escavações da cidade de Pompeia destruída em 79 DC por uma erupção do vulcão do Monte Vesúvio. A circunstância de surpresa geral que levou a população a ser apanhada e petrificada pela lava e pelas cinzas marcou-me profundamente. Em contraste, os Pink Floyd tocaram para um anfiteatro vazio de público. Uma comparação fascinante.
Depois do sucesso de Dark Side a banda tinha dúvidas em relação ao rumo a tomar. Numa tentativa de regresso ao experimentalismo começam a trabalhar num novo projecto intitulado Household Objects , que consistia em canções tocadas literalmente em objectos caseiros. No entanto o planeamento do álbum foi posto de lado e decide-se voltar aos instrumentos tradicionais. Apesar de não existir nenhuma gravação final deste trabalho, alguns efeitos foram usados no álbum seguinte, Wish You Were Here (75). Comecemos pelo grande instrumental “Shine On You Crazy Diamond”, um tributo a Barrett onde as letras ilustram bem o seu declínio. Regressam os solos de saxofone, a fusão de jazz com uma slide guitar agressiva, sintetizadores. Seguem-se faixas como “Welcome to the Machine” e “Have a Cigar” em jeito de críticas profundas à industria discográfica, tendo a ultima sido cantada pelo cantor folk Roy Harper. Trata-se do terceiro album dos Pink Floyd a alcançar o primeiro lugar nos tops tanto do Reino Unido como dos Estados Unidos. Tal como o anterior ,The Dark Side of The Moon, o êxito junto da crítica foi retumbante. A partir de 1973 a influência de Waters vai-se instalando ao ponto de se tornar a linha dominante da banda.




UM HOMEM RAPADO E CARECA

Numa história mais ou menos conhecida, um homem com cabeça e sobrancelhas integralmente rapadas andou pelo estúdio enquanto a banda procedia às misturas de “Shine On you Crazy Diamond”. Por algum tempo ninguém o reconheceu até que alguém percebeu tratar-se de Syd Barrett. Quando lhe perguntaram como é que tinha ficado assim, rapado e obeso, ele respondeu que tinha uma frigideira na cozinha e que comia bastante carne de porco. Numa entrevista em 2001 para um documentário da BBC, SYD BARRETT: CRAZY DIAMOND (posteriormente lançado em DVD como THE PINK FLOYD STORY AND SYD BARRETT STORY) este episódio é relatado na íntegra. Rick Right diz: “Uma coisa que nunca mais esquecerei. Vinha para as sessões de gravação. Passei pelo estúdio e vi este tipo sentado lá ao fundo. Não o reconheci. Perguntei a alguém quem era ele. Disseram-me que era o Syd. Não queria acreditar. Tinha rapado o cabelo todo…sobrancelhas, tudo…andava aos saltos para cima e para baixo, foi horrível. Acho que o Roger estava a chorar, todos nós estávamos perturbados. Sete anos sem nenhum contacto, e de repente quando vamos gravar aquela faixa, ele aparece. Carma, coincidência? Não sei, mas aquilo foi muito poderoso”.
No mesmo documentário, Nick Mason: “Quando me lembro disso, ainda me consigo lembrar dos olhos dele, mas…tudo o resto estava diferente”.
Roger Waters: “ Eu não tinha ideia de quem seria ele durante algum tempo…”
E por fim David Gilmour: “ Nenhum de nós o reconheceu. Rapado…careca e bastante gordo”. Na versão definitiva de 2006 do documentário, as entrevistas estão em formato completo sem cortes. Aí podemos apreciar muito mais detalhes dos sentimentos e acções dos antigos companheiros de Barrett. A figura ficou de tal maneira inscrita nas suas memórias que voltaria a ser repetida no filme de Alan Parker THE WALL, interpretado por Bob Geldorf.




ANIMALS

Influenciado pelo trabalho do escritor britânico George Orwell (“Animal Farm”/ “O Triunfo dos Porcos”), Animals (77)  apresenta desde logo duas novidades. Em primeiro lugar o facto de ter sido gravado num novo estúdio , o Britannia Row. Em segundo lugar, e muito provavelmente pela influência do punk rock , encontra-se muito mais centrado na sonoridade da guitarra. Para trás ficam as passagens de saxofone e os corais femininos utilizados nos dois álbuns anteriores. O resultado acaba por dar um trabalho de hard rock enquadrado entre duas partes de uma peça acústica. Os temas, influenciados pela obra de Orwell, são reflexos humanos, metáforas da sociedade contemporânea. Cães, porcos e ovelhas ocupam as suas funções na estrutura dentro da qual todos vivem. A crítica não conviveu muito bem com o álbum, chegando mesmo a classificá-lo de entediante e vazio. A capa inicial era para ser uma imagem de um porco gigante insuflável a voar entre as torres da estação energética de Battersea Power Station. No entanto o vento acabou por atrapalhar os planos de controlar o balão. O porco acabou por se tornar um dos mais memoráveis símbolos dos Pink Floyd sendo mais tarde muito utilizado nos seus concertos.
Seguir-se-ia The Wall, mais uma obra prima tão vasta e tão rica que só por si justifica um artigo inteiro.



EU E OS PINK, LONDRES E O MEU TIO

A minha tia mais nova emigrou no início dos anos 70 para Inglaterra, onde ainda hoje vive. No ano em que nasceu o meu primo (74) passei o primeiro de vários natais na casa dos meus tios. O meu tio Frank, quando o conheci tinha uma loja de discos. Era fã de musica clássica mas deitava uma breve olhadela à música contemporânea sempre que entendesse necessário. Vários dos meus primeiros discos/cassettes foram-me dados por ele. Guiava um Austin Woody com frisos exteriores de madeira com Maltesers lá dentro perdidos no chão que rolavam para a frente sempre que travava. Comecei a gostar mais de Pink Floyd por causa dele. Ao Domingo depois do jantar costumávamos ir para o seu escritório ver o resumo da jornada do futebol (fui sócio correspondente do Liverpool durante três anos por causa dele). No berço o meu primo dormia embalado e na aparelhagem, muito baixinho, ouvia-se Pink Floyd.
“Se Bach ou Beethoven fossem vivos nos dias de hoje, a música que eles fariam seria muito parecida com a dos Pink Floyd” – dizia-me enquanto bebia o seu sherry.
No Natal de 78 a sua prenda para mim foram duas caixas com seis álbuns dos Pink Floyd e dois posters. Um deles, as pirâmides de Gizé retratadas com uma lente azul, esteve anos na parede do meu quarto. A obra quase toda à excepção dos dois primeiros álbuns. Apesar de gostar bastante dos Floyd o Punk atraía-me mais, tinha mais movimento. O movimento e a agitação são característicos de um jovem adolescente. Os Floyd ficavam para tempos mais calmos. Voltaria a Inglaterra, voltaria aos Pink Floyd e à casa dos meus tios. Por mais que me afastasse, por mais que não ligasse ou não quisesse saber, os Pink Floy acabavam sempre a bater à minha porta. Por todas as razões e mais uma.



Artur Carvalho

terça-feira, 8 de março de 2016

LONGE DOS HOMENS





LONGE DOS HOMENS

David Oelhoffen

França, 2014

Perdido no interior da Argélia, um homem dirige uma escola primária rodeado de pedras, areia e uma imensa vastidão de território onde nada cresce. Um dia a sua rotina é interrompida pela visita de dois homens, um policia e um prisioneiro. Com as sublevações dos rebeldes e a escassez de homens, Daru é nomeado para escoltar o preso até à povoação mais próxima para aí ser julgado pelo homicídio de um primo. Assim começa a história de LONGE DOS HOMENS, uma adaptação do conto “O Hóspede” inserido na colectânea “O Exílio e o Reino” de Albert Camus. Cercados de pobreza e aridez os homens tentam contrariar as possibilidades de vida insistindo em habitar e continuar a viver num espaço que nada lhes dá. Às vezes respeitam-se, às vezes matam-se e no fim todos acabam por morrer. É neste cenário tantas vezes referido na obra de Camus que o filme se vai desenvolvendo, desenhando na figura do mestre-escola o máximo possível de um exilado na sua própria terra. Alguém que ali nasceu, que ali cresceu e que no entanto é visto pelos locais como um estrangeiro. Enquadrado na aridez do deserto e na solidão humana, David Oelhoffen vai escavando sem pressa nem sobressalto uma narrativa segura que se afirma ao longo dos caminhos de pedra, dos conflitos das armas e da ausência de felicidade. “O Hóspede” é a mola de arranque que o realizador usa como ponto de partida. O filme no entanto vai adquirindo a sua identidade ao lhe acrescentar alguns pormenores e personagens que apenas enriquecem a narrativa original. E sai reforçado desse esforço. Se lhe juntarmos uma excelente fotografia, uma extraordinária banda sonora de Nick Cave e Warren Ellis e uma soberba interpretação de Vigo Mortensen ficamos perante uma das melhores adaptações de Camus para cinema.
Ficamos a saber mais alguma coisa cerca de Daru, que tinha sido combatente na Segunda Guerra Mundial no exército francês, que era viúvo e descendente de emigrantes espanhóis, que no fim vai ter que abandonar a sua escola e procurar a vida noutro lugar.
Dissemos que o filme acrescenta à narrativa em que se baseia. Mas esse acrescento veio apenas reforçar, tornar mais nítida a história que se pretendeu contar nos anos 50.
No meio de um conflito em que não quer tomar partido, confrontado com uma justiça em que não acredita, ocupado com a sua escola, filho de um território que não o reconhece, Daru quer apenas continuar a ensinar as crianças a ler. E no meio de tanta injustiça, debaixo das balas de uma guerra de que não faz parte, hostilizado pelos seus compatriotas enquanto um ser estrangeiro, o mestre-escola tem ainda tempo de afirmar a vida na medida em que tudo faz para devolver o seu preso à liberdade. E assim acaba por acontecer. Mohamed e Daru despedem-se numa encruzilhada do planalto. Daru empurra-o para a sua vida contrariando todas as tendências dominantes naquelas paragens. Porque a solidariedade, a colaboração e a ajuda são os únicos valores que fazem sentido quando mais nada é favorável à condição humana.
Um excelente filme premiado nos festivais de Veneza e Toronto. Um hino à Humanidade.


Artur

quinta-feira, 3 de março de 2016

S/ título

ENQUANTO HOUVER PORTUGAL

                                     
                                                    PARABÉNS COLÉGIO MILITAR

                                                 
                                                    03 - 03 - 1803    -      03 - 03 - 2016

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

DAS PALAVRAS




E no entanto elas voltam, acabam sempre por voltar. Como bando de pássaros ora disperso ora em formação, no último instante antes de ficar escuro, regressam. Embrulham-se umas nas outras em formas de frases, trazem-me os óculos para que veja melhor. Ficam á espera. Constroem-se, enganam-se, inventam-se, gastam a sua energia em busca de uma história. Essa é a natureza delas.
Entre pausas e algazarras, entre tristezas e sorrisos todas sabem exactamente onde se colocar, onde abrir e fechar os sons de maneira a falar uma de cada vez.
De início escolhem-se vários caminhos sem saída. Volta-se atrás, rasga-se a folha. Cansaço, desespero, o medo de não conseguir dizer, de não saber dizer, de não chegar ao fim. Depois, por um simples desvio que não estava lá antes o caminho que se abre é novo, as pedras vão sendo menos, o piso muito mais seguro e confortável e o Tempo desaparece dos radares. Passa a não haver tempo nenhum a não ser o de inventar, de contar, de trabalhar com as palavras.
E o cenário avança, a história vai ganhando caminho e por um breve, brevíssimo instante, parece que tudo está certo, a realidade não poderia ser mais perfeita. Esse é o momento da construção, o mais confortável dos momentos onde a concentração apaga toda a escuridão e sofrimento à volta. Palavra junta-se a palavra, frase engancha em frase, capítulos, personagens, coerência narrativa. Chegam os fantasmas que se vêm juntar ao trabalho em colaboração com as palavras. Com muitas histórias na bagagem, cada um tem a mais importante para contar, falam todos ao mesmo tempo, protagonistas desse tempo suspenso que os invoca mas nunca da maneira que pensavam ser invocados.
Por fim a história termina. É o tempo das despedidas, de desmontar a barraca e partir outra vez. De forma dispersa ou em formação as palavras voltam a voar em dispersão por um céu fora que começa a amanhecer. Os fantasmas retiram-se deixando contactos para o caso de as suas histórias voltarem a ter relevância. Há alguma nostalgia no ar. As palavras ficaram numa organização que conta histórias, as palavras partiram com os fantasmas ao amanhecer. Mas acabarão por voltar noutra altura. Voltam sempre. As palavras…


Artur