sexta-feira, 29 de abril de 2016

UM RIO SEM FIM





Antes de mais nada há uma imagem tranquila de eternidade a fazer as apresentações. Um barqueiro em mangas de camisa orienta a sua barca sobre uma superfície feita de nuvens em direcção ao fim do dia. Seguem-se registos de som quase exclusivamente ambiental, onde os instrumentos se limitam a conduzir as emoções muito suavemente. Este é The Endless River , o décimo quinto e último álbum dos Pink Floyd, uma despedida sincera que vem encerrar cinco décadas de carreira. Baseado em trabalho extraído à partida do último álbum (duas dezenas de horas de gravações não aproveitadas nas sessões de Division Bell  (94)),  Endless River (2014) está todo ele preenchido com a presença de Richard Wright, falecido em 2008 vítima de cancro. Guy Pratt é o músico contratado responsável pelo baixo enquanto que as letras ficaram a cargo de Polly Samson, mulher de Gilmour. Só uma faixa é cantada (“Louder Than Words”) ao longo de todo este trabalho de despedida, disperso, ocasionalmente a fazer o balanço de algumas partes de uma obra que se estendeu por cinco décadas. Nada de novo na concepção que não tenhamos já visto em trabalhos anteriores. Partindo das pontas que ficaram soltas no trabalho anterior e trabalhando o legado de Wright vão compondo novos temas. Tal como Wish You Were Here foi feito sem Barrett mas acusando a sua influência e Division Bell trabalhava as escolhas de Waters deixadas nos trabalhos de The Wall . Se por um lado a maioria dos novos originais acabam por ser as revisões do trabalho anterior e o seu respectivo desenvolvimento, uma grande parte das obras da banda são homenagens aos seus elementos entretanto afastados. Uma constante de elegia dos ausentes e elipse de regresso aos passos anteriores fazem do método dos Pink Floyd uma curiosa e original imagem de marca.
De facto, quando no início o reportório era curto a banda escolheu alargar a duração das músicas para cumprir o tempo de permanência em palco, para compensar os poucos ensaios que faziam improvisavam, usavam efeitos especiais desenvolvendo cada vez mais sofisticadas produções para os seus espectáculos. Com um horizonte criativo à sua frente muito mais vasto do que apenas a música, combinavam-se várias artes que complementavam os seus trabalhos. Em muitas dessas combinações acabaram por nascer fenómenos que ainda hoje complementam a indústria discográfica tal como o conceito de videoclip. Ao longo da audição de Endless River não conseguiremos revisitar toda a vasta obra dos Pink Floyd mas muitas serão as etapas dela para onde seremos transportados. Na faixa “It’s What We Do” revemos “Welcome to The Machine” do album Wish You Were Here , em “Sum” encontramos uma versão mais ligeira de “One of These Days” do álbum Meddle, e por fim, a entrada de “Anisina” parece por um breve instante que vamos ouvir “Us And Them” de Dark Side Of The Moon.
Não sendo o melhor trabalho de sempre é sem dúvida a mais bem acabada forma de a banda se despedir e estabelecer o fim do seu ciclo aos milhões de fãs em todo o mundo. Tudo termina e os Pink Floyd não podiam ser excepção. O seu legado ficará nos anais da História da Música como um dos fenómenos mais importantes registados no seu tempo. Serão talvez no futuro escutados e idolatrados como os compositores clássicos o foram no passado, adquirindo esse estatuto. A mim deixam-me um mapa temporal onde consigo encontrar e relembrar pontos do meu caminho o que não deixa de ser um registo de breve nostalgia melancólica. Continuarei a ouvir e a recordar estes clássicos até eu próprio me meter na barca e navegar sobre um rio de nuvens na direcção do fim do dia.


Artur

sexta-feira, 22 de abril de 2016

MUROS / REINADOS / INDUSTRIA




WATERS

A década de 70 está a chegar ao fim e a obra dos Pink Floyd entra em velocidade de cruzeiro. 1979 marca o ano de saída da mais importante ópera rock de sempre. Concebida quase na totalidade por Roger Waters, The Wall é na sua essência um poema sobre a solidão e a falta de comunicação, uma alucinação introspectiva, uma visão globalizada da massificação cultural e do aniquilamento da liberdade individual, um desafio à tirania e um hino à Liberdade, um tratado da condição humana, qualquer coisa de colossal em todas as vertentes que o queiram analisar. Expresso pela metáfora de um muro a ser construído entre um artista de rock e a sua audiência o álbum foi um êxito estrondoso entre público e críticos com um único single  “Another Brick In The Wall (Part 2), que fez longas estadias nos tops de vendas um pouco por todo o mundo.  The Wall  contém faixas que acabaram por se tornar imagem de marca da banda como “Comfortably Numb” ou “Run Like Hell”. Quase todo ele concebido por Roger Waters o som torna-se cada vez mais hard rock apesar de grandes orquestrações a lembrar tempos passados em temas mais calmos como “Goodbye Blue Sky”, “Nobody Home” ou “Vera”. O predomínio da personalidade de Waters colide com Richard Wright, cuja influência neste trabalho é mínima. Wright acaba por ser afastado durante as gravações regressando depois e desta vez contratado para tocar nos concertos. Ironicamente Wright foi o único elemento da banda a ter lucros na “tournée” do The Wall . Os elevados custos de produção dos espectáculos acabaram em grande prejuízo para a banda. Em 1989 com a queda do Muro de Berlim, Roger Waters foi convidado para tocar The Wall ao vivo no lugar original do muro.
Batendo sucessivos recordes de mais ouvido, mais tocado ou mais comprado, o álbum vendeu só nos Estados Unidos o equivalente a 11,5 milhões de cópias obtendo 23 álbuns de platina.
No cinema Alan Parker realiza PINK FLOYD THE WALL em 1982 onde incorpora praticamente todo o álbum. Na senda do sucesso musical a dimensão cinematográfica também não ficou atrás. Visto por milhões de espectadores por todo o mundo, o filme integrava uma parte de animação da responsabilidade do artista e cartoonista britânico Gerald Scarfe. Interpretado por Bob Geldorf (vocalista dos “Boomtown Rats” e mais tarde organizador do festival Live Aid) e escrito todo ele por Roger Waters, o filme foi considerado por muitos críticos como “o maior vídeo de rock de sempre e também o mais depressivo”. Os únicos temas do duplo álbum que não foram utilizados foram “Hey You” e “The Show Must Go On”. O tema “When The Tigers Broke Free”, apesar de surgir no filme tem um primeiro lançamento sob a forma de single sendo mais tarde integrado na colectânea, Echoes: The Best of Pink Floyd, bem como no relançamento de The Final Cut .
The Wall foi mais um tratado que ocupou a atenção de várias gerações, discutido e ouvido durante anos e anos, ocupando lugar em todas festas de garagem. “Another Brick In The Wall” era cantado por adolescentes europeus despreocupados, estudantes sul africanos que combatiam o regime do apartheid, e de uma forma ou de outra, por todos aqueles que se sentiam de alguma forma injustiçados com os sistemas políticos/ sociais da época. No meu caso The Wall entra na minha existência precisamente na altura em que estou a passar da adolescência à idade adulta. A confrontação com a realidade, a urgência de manter um estado consciente minimamente lúcido, os labirintos da solidão, a busca de respostas, a vida quotidiana, o consumo de drogas, a injustiça,tudo fazia eco na história de Mr Floyd e em todo o seu processo de alucinação e enlouquecimento.
Roger Waters é o timoneiro do grupo em toda esta fase. A sua hegemonia vai-se prolongar para The Final Cut (83), um trabalho dedicado ao seu pai, Eric Fletcher Waters. Ainda mais sombrio de sonoridade o álbum regressa a temas anteriormente debatidos mas com o foco centrado na actualidade temática, nomeadamente a raiva de Waters face à participação da Inglaterra na guerra das Malvinas (“ The Fletcher Memorial Home”) ou uma visão cínica acerca de uma possível guerra nuclear (“Two Suns in the Sunset”). Em virtude da saída de Wright, Michael Kamen e Andy Bown ficam com a responsabilidade dos teclados. Apesar de tecnicamente ser um álbum com a marca Pink Floyd o nome da banda só está referenciado na parte de trás: “The Final Cut – Um requiem para o sonho do pós-guerra por Roger Waters tocado por Pink Floyd: Roger Waters, David Gilmour e Nick Mason”. Waters ficou como o exclusivo criador sendo  The Final Cut uma referência para os seus futuros trabalhos a solo. Apesar de bem acolhido pela crítica o sucesso junto dos fãs foi moderado. Nesta altura  o afastamento e as discussões entre Waters e Gilmour iam-se avolumando ao ponto de não chegarem a gravar juntos ao mesmo tempo no estúdio. Gilmour reclamava a continuação de rock de boa qualidade, criticando Waters por produzir sequências de canções demasiado centradas nas suas letras de crítica social. No fim das gravações não houve tournée. Depois de  The Final Cut  a Capitol Records lançou a colectânea Works fazendo com que a faixa de Waters de 1970 “Embryo” estivesse disponível pela primeira vez num álbum dos Pink Floyd.
Os membros da banda empreendem então caminhos separados gastando o seu tempo em projectos individuais. Gilmour foi o primeiro a lançar About Face (84). Wright juntou-se a Dave Harris para formar uma nova banda Zee, que lançou um álbum experimental Identity um mês depois de Gilmour. Em Maio do mesmo ano Waters lança The Pros and Cons of Hitch Hicking  um trabalho conceptual anteriormente proposto à banda. Em 85 Mason lançou Profiles em conjunto com Rick Fenn e com a participação de Gilmour e do teclista Danny Peyronel.




GILMOUR

Em Dezembro de 1985 Waters descreve a banda como “uma força criativa desgastada” e anuncia a sua saída dos Pink Floyd. Segue-se uma batalha jurídica pela autoria e direitos da marca “Pink Floyd” que opunha Waters de um lado e Gilmour e Mason do outro. O processo acabou por encontrar um entendimento fora dos tribunais.
O primeiro trabalho sem Waters deu pelo título de A Momentary Lapse of Reason (87) . A ausência do letrista de sempre deu lugar ao convite de escritores exteriores à banda. Ezrin e Jon Carin (que escreve “Learning to Fly” além de tocar grande parte dos teclados) assinam os textos, facto bastante mal recebido pelos críticos. Wright também regressou aos trabalhos, inicialmente como musico contratado na fase final das gravações, recuperando o seu estatuto oficial de membro da banda assim que começam a tournée. Por causa das limitadas participações de Right e Mason neste trabalho alguns críticos consideraram que A Momentary Lapse of Reason deveria ser considerado um trabalho a solo de Gilmour, da mesma forma que The Final Cut o teria sido de Waters. Um ano depois saía Delicate Sound of Thunder (88) com parte instrumental co-escrita por Wright (a primeira vez desde 1975) e por Mason.
Em 85 estou em Londres há alguns meses e por um acaso dei por mim numa noite fria de Novembro na Brixton Academy a assistir a um concerto de Pete Towsend e a banda Deep End com a colaboração de Gilmour. Não foi um concerto Pink Floyd mas foi algo de mágico acompanhar os solos de temas como “Love on the Air” e “Blue Light”. Uma tarde para recordar e levar para a cova como uma visita a outra dimensão da existência.
Pela década de 80 continuam os espectáculos ao vivo e a conceptualidade Pink Floyd vai seguindo o seu rumo sempre com novas propostas cénicas. Um desses momentos altos acontece em Veneza num concerto memorável que ocorre na praça de S. Marcos em Veneza em 1989. Muita da assistência acompanha o concerto em embarcações ao largo da praça.Um concerto guardado a ouro nos pergaminhos da minha gravação em VHS. Curiosamente uma gravação que acabou por ficar para sempre amputada das duas primeiras canções porque o meu filho mais velho resolveu gravar uma parte de um episódio da Rua Sésamo na mesma cassette do concerto de Veneza. Ainda hoje tenho essa relíquia de fita magnética religiosamente guardada na qual um coro de simpáticas vaquinhas da Rua Sésamo faz a primeira parte do espectáculo.



UMA INDUSTRIA DE FAZER MUSICA

A carreira dos Pink Floyd continua pelos anos 90 mas agora como uma gigantesca máquina de concertos ao vivo e colectâneas onde se transformam as formas e se inovam os embrulhos. Em 1992 é lançada a caixa Shine On, um set de 9 CD’s onde são relançados vários álbuns de estúdio. Um bónus chamado “The Early Singles” compunha um enquadramento onde, colocando os álbuns ao alto era possível visualizar a imagem da capa de The Dark Side of The Moon . No mesmo ano sai também o álbum a solo  Amused to Death de Roger Waters.
Em 1994 o trabalho do grupo volta acontecer com Wright a participar em pleno. O resultado chamou-se Division Bell e recebeu uma reacção muito mais positiva da crítica por oposição a Momentary Lapse… criticado como cansativo e feito de lugares comuns.
Division Bell é mais um álbum conceptual onde se pode rever a interpretação ou a visão de Gilmour em relação a temas discutidos por Waters aquando da feitura de The Wall.  
Depois do fantasma de Barrett, a influência de Waters, como se a criação sob a chancela Pink Floyd nunca conseguisse ser o resultado de uma personalidade única mas um somatório de influências onde todos acabavam por estar presentes mesmo quando não estavam.
Em 1995 é lançado Pulse, um trabalho ao vivo que inclui várias canções gravadas na tournée de Division Bell  em Earls Court em Londres. Um concerto que conjuga um lado clássico com outro mais moderno da banda, uma simbiose temporal. Seria também a primeira vez em duas décadas que a banda tocaria the Dark Side of The Moon na íntegra.
Em Novembro de 2005 os Pink Floyd são indicados no Hall da Fama da Musica do Reino Unido. Gilmour e Mason compareceram explicando que Wright estava hospitalizado em virtude de uma cirurgia e Waters fez-se aparecer numa transmissão de satélite desde Roma. Waters, Gilmour, Wright e Mason continuarão a trabalhar juntos uns com os outros, ora em trabalhos a solo ora em concertos da banda que juntou as suas existências. Gilmour reconheceu um dia que não havia razão nenhuma para ele e Waters continuarem de costas voltadas. Até porque para trás havia uma vida em comum, um caminho repleto de acontecimentos extraordinários, momentos inesquecíveis que não podia ignorar. Se um dia se encontrassem, naturalmente cumprimentar-se-iam e falariam um com outro como sempre.
E esta afectividade e reconhecimento dos méritos de cada um que sempre pairou sobre o grupo vem apenas reforçar o valor daquela que foi uma das mais marcantes instituições musicais de todos os tempos.
Em 2008 o membro e fundador dos Pink Floyd Richard Wight morre aos 65 anos vítima de cancro. Muita da sua influência ficará no último trabalho da banda, Endless River . Uma obra em forma de requiem que encerrará esta saga sobre uma das melhoes bandas de sempre na história da música.

Artur



terça-feira, 29 de março de 2016

LOUCOS ANOS 70



                                                  (Desde os ecos até ao muro)




No início dos anos 70 a cena psicadélica começa a ficar para trás no caminho dos Pink Floyd e a sua sonoridade torna-se algo estranho e difícil de classificar. A banda alcançava a maturidade inaugurando a sua própria marca. David Gilmour, Roger Waters e Richard Wright conseguem encaixar individualidades, estilos e desempenhos numa sonoridade única. É a grande explosão criativa que contém duas das mais belas obras-primas da história da música ( The Dark Side of The Moon (73)  e Wish You Were Here (75)). Com o empenho e a colaboração de todos os membros da banda o som resultou muito mais elaborado com letras mais filosóficas a vestir o estilo único de uma guitarra de blues de Gilmour, enquadrada por sonoridades mais evidentes do baixo de Waters, tudo conjugado numa extensa harmonia de melodias e teclados de Right. Em estilo de pontuação os coros femininos e o saxofone de Dick Parry.  O máximo da perfeição para toda esta mudança foi atingido com “Echoes", uma canção épica de 23 minutos ocupando todo o lado B do álbum (Meddle (71)),onde longos solos de guitarra e teclado se combinam com mistura de órgãos e sintetizadores. A faixa “Fearless”é prenunciadora do sentimento melancólico que acompanhará os próximos três álbuns da banda. Recebido de forma entusiástica por público e crítica no reino Unido, Meddle é ainda hoje considerado um dos trabalhos mais aclamados da banda.
Obscured by Clouds   foi lançado em 72 enquanto banda sonora para o filme de Barbet Schroeder LA VALLÉE. Embora pouco defendido pela crítica englobava alguns aspectos temáticos que se repetiriam nos álbuns seguintes como, por exemplo, a passagem do tempo, a morte, a vida e a morte do pai Waters na II Guerra Mundial.
Em 1973 acontece o maior sucesso da banda, o álbum que os coloca definitivamente no panteão universal. The Dark Side of the Moon  é apenas um instituição só por si que bateu e ainda hoje continua abater recordes de vendas por todo o mundo. Revelação e identificação para várias gerações, as canções do álbum revestem tentativas de alinhamento da condição humana com os diferentes tipos de pressões que nos assolam no quotidiano. Um conceito concebido por Waters quando numa reunião com a banda em que todos foram desafiados a colocar uma lista de temas sobre a mesa, lista essa a que regressariam várias vezes para compor trabalhos posteriores. A violência e a futilidade da guerra (“Us and Them), a insanidade e as neuroses a relembrar o estado de Syd Barrett (“Brain Damage”), a passagem do tempo (“Time”) são alguns dos pontos altos deste trabalho que conta também com efeitos sonoros incidentais e partes de entrevistas onde se ouve Waters fazer perguntas como : “quando foi a ultima vez que foste violento?”; “tinhas razão?”; “tens medo de morrer?”. A fidelidade do som adquire parâmetros de elevada exigência com o trabalho meticuloso e preciso de Alan Parsons, o engenheiro de som do álbum, enriquecendo a imagem de marca da banda para futuros trabalhos. No colégio interno onde andava houve alguém que teve a ideia de nos acordar às sete da manhã utilizando a instalação sonora onde normalmente soava um cornetim com temas deste álbum. Ainda hoje tenho arrepios e não consigo ouvir até ao fim temas como “Time” e “Money”. Por outro lado, a capa do álbum representava a refracção da luz. Através de um triângulo a luz entra  num raio único e branco transformando-se à saída num arco-íris, a mesma imagem que poderia ser observada num livro de Física do meu 3º (actual 7º ano). É também por essa época que as tardes de Sábado apresentam uma das mais revolucionárias equipas de humor britânico, os Monty Python, que se apresentaram com a sua série da BBC, “Monty Python Flying Circus”. Para os jovens daquele tempo era uma hora sagrada de nonsense e boa disposição. No final dos anos 60 os Pink Floyd paravam as gravações para assistir ao programa. Mais tarde (75) na sua primeira aventura de longa metragem para o cinema MONTY PYTHON AND THE HOLY GRAIL, os Monty contaram com uma preciosa ajuda à produção de bandas como os Led Zeppelin, os Genesis e os Pink Floyd.
Num esforço para rentabilizar a sua recente chegada à fama a banda lança uma colectânea intitulada A Nice Pair , uma mistura de temas dos dois primeiro álbuns. Foi também nesse período de tempo (72) que o realizador Adrian Maben lançou o primeiro filme concerto dos Pink Floyd, LIVE AT POMPEI. A montagem original para cinema apresentava a banda a tocar em 1971 num anfiteatro em Pompeia sem ninguém presente além dos elementos da banda e a equipa de filmagens. A esta rodagem foram acrescentadas imagens gravadas nos bastidores da banda durante as sessões de gravação de  The Dark Side of The Moon nos estúdios de Abbey Road. Esta última recolha de imagens acabou por integrar futuros lançamentos de LIVE AT POMPEI. É também no meu 3ºano (actual 7º) que com 12/13 anos de idade despertei para a idade adulta e uma das minhas primeiras paixões foi a arqueologia. No espaço das actividades circum-escolares, entre várias imagens de monumentos paleolíticos, ruínas romanas e do Antigo Egipto, as que mais me chamaram a atenção foram as das escavações da cidade de Pompeia destruída em 79 DC por uma erupção do vulcão do Monte Vesúvio. A circunstância de surpresa geral que levou a população a ser apanhada e petrificada pela lava e pelas cinzas marcou-me profundamente. Em contraste, os Pink Floyd tocaram para um anfiteatro vazio de público. Uma comparação fascinante.
Depois do sucesso de Dark Side a banda tinha dúvidas em relação ao rumo a tomar. Numa tentativa de regresso ao experimentalismo começam a trabalhar num novo projecto intitulado Household Objects , que consistia em canções tocadas literalmente em objectos caseiros. No entanto o planeamento do álbum foi posto de lado e decide-se voltar aos instrumentos tradicionais. Apesar de não existir nenhuma gravação final deste trabalho, alguns efeitos foram usados no álbum seguinte, Wish You Were Here (75). Comecemos pelo grande instrumental “Shine On You Crazy Diamond”, um tributo a Barrett onde as letras ilustram bem o seu declínio. Regressam os solos de saxofone, a fusão de jazz com uma slide guitar agressiva, sintetizadores. Seguem-se faixas como “Welcome to the Machine” e “Have a Cigar” em jeito de críticas profundas à industria discográfica, tendo a ultima sido cantada pelo cantor folk Roy Harper. Trata-se do terceiro album dos Pink Floyd a alcançar o primeiro lugar nos tops tanto do Reino Unido como dos Estados Unidos. Tal como o anterior ,The Dark Side of The Moon, o êxito junto da crítica foi retumbante. A partir de 1973 a influência de Waters vai-se instalando ao ponto de se tornar a linha dominante da banda.




UM HOMEM RAPADO E CARECA

Numa história mais ou menos conhecida, um homem com cabeça e sobrancelhas integralmente rapadas andou pelo estúdio enquanto a banda procedia às misturas de “Shine On you Crazy Diamond”. Por algum tempo ninguém o reconheceu até que alguém percebeu tratar-se de Syd Barrett. Quando lhe perguntaram como é que tinha ficado assim, rapado e obeso, ele respondeu que tinha uma frigideira na cozinha e que comia bastante carne de porco. Numa entrevista em 2001 para um documentário da BBC, SYD BARRETT: CRAZY DIAMOND (posteriormente lançado em DVD como THE PINK FLOYD STORY AND SYD BARRETT STORY) este episódio é relatado na íntegra. Rick Right diz: “Uma coisa que nunca mais esquecerei. Vinha para as sessões de gravação. Passei pelo estúdio e vi este tipo sentado lá ao fundo. Não o reconheci. Perguntei a alguém quem era ele. Disseram-me que era o Syd. Não queria acreditar. Tinha rapado o cabelo todo…sobrancelhas, tudo…andava aos saltos para cima e para baixo, foi horrível. Acho que o Roger estava a chorar, todos nós estávamos perturbados. Sete anos sem nenhum contacto, e de repente quando vamos gravar aquela faixa, ele aparece. Carma, coincidência? Não sei, mas aquilo foi muito poderoso”.
No mesmo documentário, Nick Mason: “Quando me lembro disso, ainda me consigo lembrar dos olhos dele, mas…tudo o resto estava diferente”.
Roger Waters: “ Eu não tinha ideia de quem seria ele durante algum tempo…”
E por fim David Gilmour: “ Nenhum de nós o reconheceu. Rapado…careca e bastante gordo”. Na versão definitiva de 2006 do documentário, as entrevistas estão em formato completo sem cortes. Aí podemos apreciar muito mais detalhes dos sentimentos e acções dos antigos companheiros de Barrett. A figura ficou de tal maneira inscrita nas suas memórias que voltaria a ser repetida no filme de Alan Parker THE WALL, interpretado por Bob Geldorf.




ANIMALS

Influenciado pelo trabalho do escritor britânico George Orwell (“Animal Farm”/ “O Triunfo dos Porcos”), Animals (77)  apresenta desde logo duas novidades. Em primeiro lugar o facto de ter sido gravado num novo estúdio , o Britannia Row. Em segundo lugar, e muito provavelmente pela influência do punk rock , encontra-se muito mais centrado na sonoridade da guitarra. Para trás ficam as passagens de saxofone e os corais femininos utilizados nos dois álbuns anteriores. O resultado acaba por dar um trabalho de hard rock enquadrado entre duas partes de uma peça acústica. Os temas, influenciados pela obra de Orwell, são reflexos humanos, metáforas da sociedade contemporânea. Cães, porcos e ovelhas ocupam as suas funções na estrutura dentro da qual todos vivem. A crítica não conviveu muito bem com o álbum, chegando mesmo a classificá-lo de entediante e vazio. A capa inicial era para ser uma imagem de um porco gigante insuflável a voar entre as torres da estação energética de Battersea Power Station. No entanto o vento acabou por atrapalhar os planos de controlar o balão. O porco acabou por se tornar um dos mais memoráveis símbolos dos Pink Floyd sendo mais tarde muito utilizado nos seus concertos.
Seguir-se-ia The Wall, mais uma obra prima tão vasta e tão rica que só por si justifica um artigo inteiro.



EU E OS PINK, LONDRES E O MEU TIO

A minha tia mais nova emigrou no início dos anos 70 para Inglaterra, onde ainda hoje vive. No ano em que nasceu o meu primo (74) passei o primeiro de vários natais na casa dos meus tios. O meu tio Frank, quando o conheci tinha uma loja de discos. Era fã de musica clássica mas deitava uma breve olhadela à música contemporânea sempre que entendesse necessário. Vários dos meus primeiros discos/cassettes foram-me dados por ele. Guiava um Austin Woody com frisos exteriores de madeira com Maltesers lá dentro perdidos no chão que rolavam para a frente sempre que travava. Comecei a gostar mais de Pink Floyd por causa dele. Ao Domingo depois do jantar costumávamos ir para o seu escritório ver o resumo da jornada do futebol (fui sócio correspondente do Liverpool durante três anos por causa dele). No berço o meu primo dormia embalado e na aparelhagem, muito baixinho, ouvia-se Pink Floyd.
“Se Bach ou Beethoven fossem vivos nos dias de hoje, a música que eles fariam seria muito parecida com a dos Pink Floyd” – dizia-me enquanto bebia o seu sherry.
No Natal de 78 a sua prenda para mim foram duas caixas com seis álbuns dos Pink Floyd e dois posters. Um deles, as pirâmides de Gizé retratadas com uma lente azul, esteve anos na parede do meu quarto. A obra quase toda à excepção dos dois primeiros álbuns. Apesar de gostar bastante dos Floyd o Punk atraía-me mais, tinha mais movimento. O movimento e a agitação são característicos de um jovem adolescente. Os Floyd ficavam para tempos mais calmos. Voltaria a Inglaterra, voltaria aos Pink Floyd e à casa dos meus tios. Por mais que me afastasse, por mais que não ligasse ou não quisesse saber, os Pink Floy acabavam sempre a bater à minha porta. Por todas as razões e mais uma.



Artur Carvalho

terça-feira, 8 de março de 2016

LONGE DOS HOMENS





LONGE DOS HOMENS

David Oelhoffen

França, 2014

Perdido no interior da Argélia, um homem dirige uma escola primária rodeado de pedras, areia e uma imensa vastidão de território onde nada cresce. Um dia a sua rotina é interrompida pela visita de dois homens, um policia e um prisioneiro. Com as sublevações dos rebeldes e a escassez de homens, Daru é nomeado para escoltar o preso até à povoação mais próxima para aí ser julgado pelo homicídio de um primo. Assim começa a história de LONGE DOS HOMENS, uma adaptação do conto “O Hóspede” inserido na colectânea “O Exílio e o Reino” de Albert Camus. Cercados de pobreza e aridez os homens tentam contrariar as possibilidades de vida insistindo em habitar e continuar a viver num espaço que nada lhes dá. Às vezes respeitam-se, às vezes matam-se e no fim todos acabam por morrer. É neste cenário tantas vezes referido na obra de Camus que o filme se vai desenvolvendo, desenhando na figura do mestre-escola o máximo possível de um exilado na sua própria terra. Alguém que ali nasceu, que ali cresceu e que no entanto é visto pelos locais como um estrangeiro. Enquadrado na aridez do deserto e na solidão humana, David Oelhoffen vai escavando sem pressa nem sobressalto uma narrativa segura que se afirma ao longo dos caminhos de pedra, dos conflitos das armas e da ausência de felicidade. “O Hóspede” é a mola de arranque que o realizador usa como ponto de partida. O filme no entanto vai adquirindo a sua identidade ao lhe acrescentar alguns pormenores e personagens que apenas enriquecem a narrativa original. E sai reforçado desse esforço. Se lhe juntarmos uma excelente fotografia, uma extraordinária banda sonora de Nick Cave e Warren Ellis e uma soberba interpretação de Vigo Mortensen ficamos perante uma das melhores adaptações de Camus para cinema.
Ficamos a saber mais alguma coisa cerca de Daru, que tinha sido combatente na Segunda Guerra Mundial no exército francês, que era viúvo e descendente de emigrantes espanhóis, que no fim vai ter que abandonar a sua escola e procurar a vida noutro lugar.
Dissemos que o filme acrescenta à narrativa em que se baseia. Mas esse acrescento veio apenas reforçar, tornar mais nítida a história que se pretendeu contar nos anos 50.
No meio de um conflito em que não quer tomar partido, confrontado com uma justiça em que não acredita, ocupado com a sua escola, filho de um território que não o reconhece, Daru quer apenas continuar a ensinar as crianças a ler. E no meio de tanta injustiça, debaixo das balas de uma guerra de que não faz parte, hostilizado pelos seus compatriotas enquanto um ser estrangeiro, o mestre-escola tem ainda tempo de afirmar a vida na medida em que tudo faz para devolver o seu preso à liberdade. E assim acaba por acontecer. Mohamed e Daru despedem-se numa encruzilhada do planalto. Daru empurra-o para a sua vida contrariando todas as tendências dominantes naquelas paragens. Porque a solidariedade, a colaboração e a ajuda são os únicos valores que fazem sentido quando mais nada é favorável à condição humana.
Um excelente filme premiado nos festivais de Veneza e Toronto. Um hino à Humanidade.


Artur

quinta-feira, 3 de março de 2016

S/ título

ENQUANTO HOUVER PORTUGAL

                                     
                                                    PARABÉNS COLÉGIO MILITAR

                                                 
                                                    03 - 03 - 1803    -      03 - 03 - 2016

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

DAS PALAVRAS




E no entanto elas voltam, acabam sempre por voltar. Como bando de pássaros ora disperso ora em formação, no último instante antes de ficar escuro, regressam. Embrulham-se umas nas outras em formas de frases, trazem-me os óculos para que veja melhor. Ficam á espera. Constroem-se, enganam-se, inventam-se, gastam a sua energia em busca de uma história. Essa é a natureza delas.
Entre pausas e algazarras, entre tristezas e sorrisos todas sabem exactamente onde se colocar, onde abrir e fechar os sons de maneira a falar uma de cada vez.
De início escolhem-se vários caminhos sem saída. Volta-se atrás, rasga-se a folha. Cansaço, desespero, o medo de não conseguir dizer, de não saber dizer, de não chegar ao fim. Depois, por um simples desvio que não estava lá antes o caminho que se abre é novo, as pedras vão sendo menos, o piso muito mais seguro e confortável e o Tempo desaparece dos radares. Passa a não haver tempo nenhum a não ser o de inventar, de contar, de trabalhar com as palavras.
E o cenário avança, a história vai ganhando caminho e por um breve, brevíssimo instante, parece que tudo está certo, a realidade não poderia ser mais perfeita. Esse é o momento da construção, o mais confortável dos momentos onde a concentração apaga toda a escuridão e sofrimento à volta. Palavra junta-se a palavra, frase engancha em frase, capítulos, personagens, coerência narrativa. Chegam os fantasmas que se vêm juntar ao trabalho em colaboração com as palavras. Com muitas histórias na bagagem, cada um tem a mais importante para contar, falam todos ao mesmo tempo, protagonistas desse tempo suspenso que os invoca mas nunca da maneira que pensavam ser invocados.
Por fim a história termina. É o tempo das despedidas, de desmontar a barraca e partir outra vez. De forma dispersa ou em formação as palavras voltam a voar em dispersão por um céu fora que começa a amanhecer. Os fantasmas retiram-se deixando contactos para o caso de as suas histórias voltarem a ter relevância. Há alguma nostalgia no ar. As palavras ficaram numa organização que conta histórias, as palavras partiram com os fantasmas ao amanhecer. Mas acabarão por voltar noutra altura. Voltam sempre. As palavras…


Artur

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

A INQUIETA CERTEZA DA DÚVIDA


Traços finos, rosto perfeito, corpo discreto, facilmente confundível com um anjo ou algo de angelical em forma humana. Natureza permanentemente inquieta, insegura, insatisfeita. Podia ter sido  pintor, mas optou pela música. Interrogou-se, multiplicou-se para melhor se conhecer, perdeu-se a meio do caminho, voltou a encontrar-se. Este era David Bowie, um artista na plenitude do termo na medida em que para além de criar as suas obras se criava a si próprio um pouco todos os dias. Para mim foi um dos meus primeiros deuses da adolescência. Havia um poster Ziggy Stardust onde o rosto indefinido e penteado em forma explosiva anos 70 não conseguia definir se era um homem ou uma mulher. Ele era diferente de todos os outros porque era apenas ele e as suas contradições e nada se lhe conseguia aproximar. Extravagante, criador das modas antes delas nascerem ou um simples lord engravatado que dava uma conferência de imprensa no Festival de Cannes.

De Bowie, obviamente para além da incontornável carreira como compositor e intérprete há a imagem de uma personalidade que se foi desdobrando como actor. Embora de uma forma muito menos significativa a carreira de Bowie no Cinema acaba por contribuir de alguma forma no reforço e pormenor da sua imagem, que é como quem diz: “do seu imaginário”.

A este propósito retenho três momentos. THE MAN WHO FELL TO EARTH, de Nicholas Roeg (1976); MERRY CHRISTMAS MR LAWRENCE, de Nagisa Oshima (1983); THE HUNGER, de Tony Scott (1983).


No primeiro caso acompanhamos um extraterrestre que vem à terra empenhado em garantir o fornecimento de água para o seu planeta. Thomas Jerome Newton, o nome que adopta, confronta-se então com as contradições e os buracos de uma sociedade onde se pretende encaixar temporariamente. No segundo caso Bowie é o Major Jack Celliers, um homem destemido, mas ao mesmo tempo prisioneiro dos seus fantasmas e das suas angústias. Numa realidade de cativeiro violento e com pouca esperança de sobreviver é Scalliers que espalha com a sua influência e o seu comportamento meio lunático algum otimismo resistente nos seus companheiros. Ao ponto de sacrificar própria vida por eles. Em THE HUNGER John é um vampiro que acompanha a sua mulher há séculos, mas que começa a envelhecer de uma forma muito acelerada. Miriam Baylock seduz os seus amantes com promessas de eternidade após a sua dentada. No entanto esse encantamento termina na altura em que ela os abandona ou deixa de ter interesse por eles.

Em todas estas referências cinematográficas Bowie é um ser “de fora”, um estranho em terra estranha. Alguém que se confronta com uma realidade diferente da sua natureza, um viajante a atravessar o seu caminho. Talvez o retrato mais completo se centre na obra de Oshima na medida em que Celliers vive um conflito absoluto, dentro e fora de si apesar de exibir uma imagem comportamental totalmente diferente. Celliers está preso num campo militar japonês e corre o risco de nunca mais voltar a casa. As pontas soltas que deixou para trás (especialmente a relação com o irmão mais novo) vão continuar assim porque não vai conseguir regressar. Por outro lado a ordem que se lhe apresenta, a realidade com a qual se confronta acaba por se tornar o único desafio válido. É urgente resistir-lhe, é urgente fazer passar a mensagem de que não o consegue derrubar. E transmitir esse entusiasmo aos companheiros, não para os salvar da morte certa, mas para os afastar da derrota inevitável de ceder ao desespero.


Em THE HUNGER a fidelidade secular acaba por ver o fim dos seus dias manifestando-se num envelhecimento acelerado, sem retorno. Nestas três situações distintas Bowie é ele próprio na medida da sua permanente insatisfação. O mundo, a realidade em geral é uma entidade hostil, uma travessia num purgatório de sofrimento e contrariedade que é obrigatório atravessar. Se no fim da linha acabamos por morrer é secundário. A viagem é o contrato para inventar, resistir, fazer nascer universos paralelos a ela. Universos onde beleza, harmonia, estética, justiça e equilíbrio se possam vestir com as roupas da realidade pela simples razão de que nada se pode imaginar e criar se não for real. E estas tarefas normalmente estão reservadas aos anjos.



Hoje Bowie terminou a sua travessia neste purgatório. Uma nova estrela brilha no céu iluminando um pouco mais as nossas noites solitárias. No entanto não ficámos de mãos vazias. Connosco foi deixada uma herança de património musical e estético que nos ajudou a crescer mais um pouco. E é em nome dessa herança que hoje, em vez de lamentar mais uma morte nos devemos curvar e dizer “obrigado”.



Artur


segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

DAVID BOWIE

                                                                     1947 - 2016

                                                        SO LONG MAJOR TOM

domingo, 3 de janeiro de 2016

PRENÚNCIO E PROTECÇÃO



Faz parte da existência por aqui de uns quantos bafejados pela Sorte a que a Vida reserva, ascenderem ao céu várias vezes num ciclo que durará aquilo que o Tempo lhes conceder, e nessa condição, poderem observar coisas de outra perspectiva. 
Eu sou um desses.
Na primeira ascensão deste ano de 2016, é-me oferecido o espectáculo de um pôr do Sol que dura muito mais que aquele a que se assiste com os pés no chão. Sou um sortudo, sem dúvida. 
Mas não sei se sou só eu que consigo ver aqui o olho protector de Hórus, um bom prenúncio para o ano acabado de começar.
Um momento captado... por sorte e voando atrás do Sol.

Segundo uma lenda, o olho esquerdo de Hórus simbolizava a Lua e o direito, o Sol. Durante uma luta, o deus Seth arrancou o olho esquerdo de Hórus, o qual foi substituído por um amuleto, que não lhe dava visão total, colocando então também uma serpente sobre sua cabeça. Depois da sua recuperação, Hórus pôde organizar novos combates que o levaram à vitória decisiva sobre Seth.
Era a união do olho humano com a vista do falcão, animal associado ao deus Hórus. Era usado, em vida, para afugentar o mau-olhado e, após a morte, contra o infortúnio do Além.
O olho esquerdo representa a informação abstracta, controlado pelo lado direito do cérebro, é representado pela Lua, e simboliza um lado feminino, com pensamentos e sentimentos, intuição, e a capacidade de enxergar um lado espiritual.
O olho direito de Hórus representa a informação concreta, que é controlada pelo lado esquerdo do cérebro. Esse lado é responsável pelo entendimento de letras, palavras e números, e é mais voltado ao universo de um modo masculino.
Será o esquerdo ou o direito, o que fixei na imagem?...
Sorte.

Hélder

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

O FIM DA FÊMEA LATINA

Ás vezes o tempo gasto a ver notícias da SIC, por exemplo, é amplamente compensado pela mensagem de esperança que esporadicamente nos é atirada à cara.

Em Braga existe por estes dias, a tradição de beber moscatel de Setúbal e comer bananas. É o Bananeiro.

Pelos vistos. tudo vai para a Rua  do Souto. Entrevistadas várias pessoas, todas assumem gostar mais do moscatel que da banana.
Até aqui tudo normal.

Mas eis que surgem três mancebos que admitem ter deixado as mulheres em casa e a trabalhar, que para eles agora, é hora de banana e moscatel.

Abençoados.

Já é hora de os homens portugueses lançarem o seu grito do Ipiranga e deitarem abaixo a FÊMEA LATINA!

É que já estou farto de ouvir amigos meus a dizer: 

'Ah e tal... Ela é muito minha amiga... Até me AJUDA em casa...'

Amigos meus!
Quando é que deixam essa mentalidade retrógrada de parte?
É que afinal quando os dois trabalham, as tarefas do lar devem ser repartidas! Ou não?
Deixem lá essa ideia do 'ELA AJUDA-ME...' e ponham-nas ao vosso lado a trabalhar em TODAS as tarefas domésticas. Afinal têm dois bracinhos, duas mãozinhas e uma cabecinha. Podem fazer as mesmas coisas em casa que vocês!

E para começar, nada melhor que o tratamento de choque do virar as costas à casa, ir 'póscopos' e deixá-las com o peso total de tratarem de tudo para os preparativos das mesas de Natal. É um excelente começo.

Pode ser que finalmente elas aprendam.

E que eles deixem de ser... Bananas...

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

OS PORTÕES DO AMANHECER



Se entendermos as existências como linhas de vida depressa nos apercebemos que é nos momentos em que elas se cruzam que acontece alguma coisa de importante. Algo que nos fica na memória e nos acrescenta na evolução. A partir desses nós ou cruzamentos tornamo-nos sempre noutra coisa, algo completamente diferente do que éramos antes. Se bem que nunca a tenha considerado como prioritária em relação a outras, o certo é que em momentos decisivos ou importantes da minha existência a banda Pink Floyd sempre se fez notar enquanto efeito sinalizador como mais nenhuma outra ao longo de mais de cinquenta anos. Foi para tentar perceber este mistério que decidi escrever esta série de textos. Comecemos pelo princípio.
Os anos 60 marcaram uma época determinante, um tempo de ruptura e revolução como há muito o mundo não tinha visto. Talvez o elemento mais evidente e mais aglutinador de toda essa mudança tenha sido a música. De facto, nunca como a partir dessa década a música teve um papel tão relevante para a Humanidade ao ponto de se tornar quase a nova religião mais popular. Nos anos 60 aconteceu também uma coisa curiosa. Nasci eu.
É claro que em 67 eu nem sequer ouvia musica, antes vestia um bibe e caminhava para o jardim de infância. Mas os Pink Floyd estavam também no início da sua caminhada. “The Piper At The Gates Of Dawn” nasce nesse ano sendo posteriormente considerado como um dos melhores álbuns de rock psicadélico de sempre. O título tem origem no livro “Wind Of The Willows” (1908) de Kenneth Grahame, mais concretamente no capítulo 7. Tratava-se de um versão pastoral para jovens de evocação à natureza no vale do Tamisa. Uma mistura de misticismo com aventura, camaradagem e moralidade.
Sendo o primeiro e o único trabalho liderado por Syd Barrett podemos ouvir letras povoadas por espantalhos, animais humanizados e gnomos ao longo de passagens instrumentais de rock psicadélico.
Um ano depois as ruas de Paris soltam-se em explosões de Maio, entro para a escola primária e os Pink lançam o seu segundo trabalho: “A Saucerful Of Secrets”. Enquanto eu começava a aprender a ler e a contar, a banda revelava as linhas gerais que marcariam os seus próximos trabalhos. Em múltiplos contextos. Em primeiro lugar a continuidade de um trabalho iniciado com “The Piper…”, povoado de pausas prolongadas e tiradas repetitivas. Mas ao contrário do álbum de estreia completamente dominado pela mão de Syd Barrett, “A Saucerful…” conta apenas com um tema da sua autoria. Uma personalidade transbordante de génio bem como o consumo de ácidos davam lugar a um comportamento cada vez mais alheado de tudo em geral. Barrett deambulava pelo palco, participava ocasionalmente. Outras vezes conseguia estar uma entrevista inteira sem dizer nada. Um dia Waters ia pela estrada fora a conduzir uma carrinha e a recolher os elementos da banda. Alguém perguntou se valia a pena ir buscar o Syd. Todos disseram que não. David Gilmour é escolhido para a substituição. “A Saucerful Of Secrets contará apenas com um tema de Barrett, “Jugland Blues”. Seria a única vez em que todos os elementos dos Pink Floyd trabalhariam no mesmo projecto. Nesse ano a Rolling Stone classificou o álbum de “muito pouco interessante, a roçar a mediocridade”, ressalvando a saída de Barrett como uma das razões principais. Mais tarde os críticos emendaram a mão e reconheceram mérito numa obra “ de ambiente imaginário, um conto de fadas, entre um estado consistente e vívido, e outro espacial e etéreo com longas passagens instrumentais a servir de pontes entre os dois estados”. Barrett afastava-se do projecto mas apenas em termos físicos. O seu espírito ou o seu fantasma no entanto, ficaria de pedra e cal a pairar para sempre sobre o caminho do “fluído cor-de-rosa”. Em 1969 os Pink Floyd fazem a sua primeira incursão no cinema ao assinar a banda sonora do filme “More” de Barbet Schroeder, uma dissertação acerca do consumo, dependência e vertigem da heroína. O álbum com o mesmo nome incide essencialmente num trabalho acústico de baladas folk. No mesmo ano segue-se “Ummagumma”, um misto de estúdio e gravação ao vivo onde se encontram mais aproximações experimentais à música popular como os blues e o folk. Mais tarde todos confessaram ter detestado ambos os álbuns. De volta ao cinema vêm a integrar a banda sonora de ZABRISKIE POINT de Michelangelo Antonioni, partindo daí para “Atom Heart Mother” (70). Apesar de anos mais tarde tanto Waters como Gilmour se lhe referirem como “algo que nasceu de uma boa ideia mas acabou por ser muito mal trabalhado”, o sucesso comercial foi bastante bom. Contando a história de uma  mulher a quem é implantado um pacemaker movido a energia nuclear, a parte mais interessante radica no facto de se recuperarem partes instrumentais de trabalhos anteriores para posterior desenvolvimento. A entrada do tema homónimo do álbum, ao utilizar um extenso registo de orquestra aproxima os Pink Floyd do conceito de Rock Sinfónico. Uma tendência que se continuará a manifestar em “Meddle” (71), mais concretamente na introdução da faixa “Echoes”.
Nos primeiros anos de existência, ao procurar a construção de uma forma, ou mais concretamente de uma identidade, a banda deixa ficar pelo caminho algumas das traves mestras que viriam a influenciar toda a sua obra posterior. O fantasma omnipresente de Barrett, um tempo de consumo e estudo dos efeitos dos ácidos enquanto agentes de expansão da consciência, a procura de outros mundos, outras realidades, enquanto razão directa dessa expansão, o diálogo permanente entre várias formas de expressão artística, o conceito ainda por definir da expressão “multimédia”.
De facto, tanto para mim como para a maioria das pessoas, os primeiros contactos com a realidade não nos oferecem nenhuma tranquilidade nem conforto. Com menos de dois anos deixei de viver com os meus pais e fui para casa de uma avó. Fiz a escola primária em pleno Estado Novo com um crucifixo na sala entre as fotografias do Presidente da República e o Presidente do Conselho. Cá em baixo as aulas eram pontuadas por sessões de reguadas e ponteiradas na cabeça. Tudo isto antes de ter dez anos. Através do rádio, quase sempre ligado em casa, encontrei na música um caminho de fuga e alternativa à realidade, projectando sempre que possível os limites da imaginação para as narrativas dos livros e mais tarde para os filmes na televisão. Era urgente inventar vários mundos para além deste.
Por outro lado, no final da década de 60 o Estruturalismo entrava na ordem do dia. Filósofos e cientistas chegavam à conclusão que o conhecimento se fazia e enriquecia através da dependência e do diálogo entre as várias dimensões desse mesmo conhecimento. As relações definiam os termos. Dando especial destaque à imagem (veja-se as obras de arte que são quase todas as capas dos álbuns), elaborando videoclips engenhosos e alucinados muito antes de serem moda (só nos anos 80 é que se dá a grande explosão deste auxiliar da música) e estando em contacto quase permanente com o cinema, os Pink Floyd desenvolviam e estimulavam o diálogo e a interdisciplinaridade das artes na senda da moda filosófica do seu tempo.
Os anos 70 estavam a começar e com eles um tempo dourado para a banda.


Artur