terça-feira, 8 de março de 2016

LONGE DOS HOMENS





LONGE DOS HOMENS

David Oelhoffen

França, 2014

Perdido no interior da Argélia, um homem dirige uma escola primária rodeado de pedras, areia e uma imensa vastidão de território onde nada cresce. Um dia a sua rotina é interrompida pela visita de dois homens, um policia e um prisioneiro. Com as sublevações dos rebeldes e a escassez de homens, Daru é nomeado para escoltar o preso até à povoação mais próxima para aí ser julgado pelo homicídio de um primo. Assim começa a história de LONGE DOS HOMENS, uma adaptação do conto “O Hóspede” inserido na colectânea “O Exílio e o Reino” de Albert Camus. Cercados de pobreza e aridez os homens tentam contrariar as possibilidades de vida insistindo em habitar e continuar a viver num espaço que nada lhes dá. Às vezes respeitam-se, às vezes matam-se e no fim todos acabam por morrer. É neste cenário tantas vezes referido na obra de Camus que o filme se vai desenvolvendo, desenhando na figura do mestre-escola o máximo possível de um exilado na sua própria terra. Alguém que ali nasceu, que ali cresceu e que no entanto é visto pelos locais como um estrangeiro. Enquadrado na aridez do deserto e na solidão humana, David Oelhoffen vai escavando sem pressa nem sobressalto uma narrativa segura que se afirma ao longo dos caminhos de pedra, dos conflitos das armas e da ausência de felicidade. “O Hóspede” é a mola de arranque que o realizador usa como ponto de partida. O filme no entanto vai adquirindo a sua identidade ao lhe acrescentar alguns pormenores e personagens que apenas enriquecem a narrativa original. E sai reforçado desse esforço. Se lhe juntarmos uma excelente fotografia, uma extraordinária banda sonora de Nick Cave e Warren Ellis e uma soberba interpretação de Vigo Mortensen ficamos perante uma das melhores adaptações de Camus para cinema.
Ficamos a saber mais alguma coisa cerca de Daru, que tinha sido combatente na Segunda Guerra Mundial no exército francês, que era viúvo e descendente de emigrantes espanhóis, que no fim vai ter que abandonar a sua escola e procurar a vida noutro lugar.
Dissemos que o filme acrescenta à narrativa em que se baseia. Mas esse acrescento veio apenas reforçar, tornar mais nítida a história que se pretendeu contar nos anos 50.
No meio de um conflito em que não quer tomar partido, confrontado com uma justiça em que não acredita, ocupado com a sua escola, filho de um território que não o reconhece, Daru quer apenas continuar a ensinar as crianças a ler. E no meio de tanta injustiça, debaixo das balas de uma guerra de que não faz parte, hostilizado pelos seus compatriotas enquanto um ser estrangeiro, o mestre-escola tem ainda tempo de afirmar a vida na medida em que tudo faz para devolver o seu preso à liberdade. E assim acaba por acontecer. Mohamed e Daru despedem-se numa encruzilhada do planalto. Daru empurra-o para a sua vida contrariando todas as tendências dominantes naquelas paragens. Porque a solidariedade, a colaboração e a ajuda são os únicos valores que fazem sentido quando mais nada é favorável à condição humana.
Um excelente filme premiado nos festivais de Veneza e Toronto. Um hino à Humanidade.


Artur

quinta-feira, 3 de março de 2016

S/ título

ENQUANTO HOUVER PORTUGAL

                                     
                                                    PARABÉNS COLÉGIO MILITAR

                                                 
                                                    03 - 03 - 1803    -      03 - 03 - 2016

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

DAS PALAVRAS




E no entanto elas voltam, acabam sempre por voltar. Como bando de pássaros ora disperso ora em formação, no último instante antes de ficar escuro, regressam. Embrulham-se umas nas outras em formas de frases, trazem-me os óculos para que veja melhor. Ficam á espera. Constroem-se, enganam-se, inventam-se, gastam a sua energia em busca de uma história. Essa é a natureza delas.
Entre pausas e algazarras, entre tristezas e sorrisos todas sabem exactamente onde se colocar, onde abrir e fechar os sons de maneira a falar uma de cada vez.
De início escolhem-se vários caminhos sem saída. Volta-se atrás, rasga-se a folha. Cansaço, desespero, o medo de não conseguir dizer, de não saber dizer, de não chegar ao fim. Depois, por um simples desvio que não estava lá antes o caminho que se abre é novo, as pedras vão sendo menos, o piso muito mais seguro e confortável e o Tempo desaparece dos radares. Passa a não haver tempo nenhum a não ser o de inventar, de contar, de trabalhar com as palavras.
E o cenário avança, a história vai ganhando caminho e por um breve, brevíssimo instante, parece que tudo está certo, a realidade não poderia ser mais perfeita. Esse é o momento da construção, o mais confortável dos momentos onde a concentração apaga toda a escuridão e sofrimento à volta. Palavra junta-se a palavra, frase engancha em frase, capítulos, personagens, coerência narrativa. Chegam os fantasmas que se vêm juntar ao trabalho em colaboração com as palavras. Com muitas histórias na bagagem, cada um tem a mais importante para contar, falam todos ao mesmo tempo, protagonistas desse tempo suspenso que os invoca mas nunca da maneira que pensavam ser invocados.
Por fim a história termina. É o tempo das despedidas, de desmontar a barraca e partir outra vez. De forma dispersa ou em formação as palavras voltam a voar em dispersão por um céu fora que começa a amanhecer. Os fantasmas retiram-se deixando contactos para o caso de as suas histórias voltarem a ter relevância. Há alguma nostalgia no ar. As palavras ficaram numa organização que conta histórias, as palavras partiram com os fantasmas ao amanhecer. Mas acabarão por voltar noutra altura. Voltam sempre. As palavras…


Artur

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

A INQUIETA CERTEZA DA DÚVIDA


Traços finos, rosto perfeito, corpo discreto, facilmente confundível com um anjo ou algo de angelical em forma humana. Natureza permanentemente inquieta, insegura, insatisfeita. Podia ter sido  pintor, mas optou pela música. Interrogou-se, multiplicou-se para melhor se conhecer, perdeu-se a meio do caminho, voltou a encontrar-se. Este era David Bowie, um artista na plenitude do termo na medida em que para além de criar as suas obras se criava a si próprio um pouco todos os dias. Para mim foi um dos meus primeiros deuses da adolescência. Havia um poster Ziggy Stardust onde o rosto indefinido e penteado em forma explosiva anos 70 não conseguia definir se era um homem ou uma mulher. Ele era diferente de todos os outros porque era apenas ele e as suas contradições e nada se lhe conseguia aproximar. Extravagante, criador das modas antes delas nascerem ou um simples lord engravatado que dava uma conferência de imprensa no Festival de Cannes.

De Bowie, obviamente para além da incontornável carreira como compositor e intérprete há a imagem de uma personalidade que se foi desdobrando como actor. Embora de uma forma muito menos significativa a carreira de Bowie no Cinema acaba por contribuir de alguma forma no reforço e pormenor da sua imagem, que é como quem diz: “do seu imaginário”.

A este propósito retenho três momentos. THE MAN WHO FELL TO EARTH, de Nicholas Roeg (1976); MERRY CHRISTMAS MR LAWRENCE, de Nagisa Oshima (1983); THE HUNGER, de Tony Scott (1983).


No primeiro caso acompanhamos um extraterrestre que vem à terra empenhado em garantir o fornecimento de água para o seu planeta. Thomas Jerome Newton, o nome que adopta, confronta-se então com as contradições e os buracos de uma sociedade onde se pretende encaixar temporariamente. No segundo caso Bowie é o Major Jack Celliers, um homem destemido, mas ao mesmo tempo prisioneiro dos seus fantasmas e das suas angústias. Numa realidade de cativeiro violento e com pouca esperança de sobreviver é Scalliers que espalha com a sua influência e o seu comportamento meio lunático algum otimismo resistente nos seus companheiros. Ao ponto de sacrificar própria vida por eles. Em THE HUNGER John é um vampiro que acompanha a sua mulher há séculos, mas que começa a envelhecer de uma forma muito acelerada. Miriam Baylock seduz os seus amantes com promessas de eternidade após a sua dentada. No entanto esse encantamento termina na altura em que ela os abandona ou deixa de ter interesse por eles.

Em todas estas referências cinematográficas Bowie é um ser “de fora”, um estranho em terra estranha. Alguém que se confronta com uma realidade diferente da sua natureza, um viajante a atravessar o seu caminho. Talvez o retrato mais completo se centre na obra de Oshima na medida em que Celliers vive um conflito absoluto, dentro e fora de si apesar de exibir uma imagem comportamental totalmente diferente. Celliers está preso num campo militar japonês e corre o risco de nunca mais voltar a casa. As pontas soltas que deixou para trás (especialmente a relação com o irmão mais novo) vão continuar assim porque não vai conseguir regressar. Por outro lado a ordem que se lhe apresenta, a realidade com a qual se confronta acaba por se tornar o único desafio válido. É urgente resistir-lhe, é urgente fazer passar a mensagem de que não o consegue derrubar. E transmitir esse entusiasmo aos companheiros, não para os salvar da morte certa, mas para os afastar da derrota inevitável de ceder ao desespero.


Em THE HUNGER a fidelidade secular acaba por ver o fim dos seus dias manifestando-se num envelhecimento acelerado, sem retorno. Nestas três situações distintas Bowie é ele próprio na medida da sua permanente insatisfação. O mundo, a realidade em geral é uma entidade hostil, uma travessia num purgatório de sofrimento e contrariedade que é obrigatório atravessar. Se no fim da linha acabamos por morrer é secundário. A viagem é o contrato para inventar, resistir, fazer nascer universos paralelos a ela. Universos onde beleza, harmonia, estética, justiça e equilíbrio se possam vestir com as roupas da realidade pela simples razão de que nada se pode imaginar e criar se não for real. E estas tarefas normalmente estão reservadas aos anjos.



Hoje Bowie terminou a sua travessia neste purgatório. Uma nova estrela brilha no céu iluminando um pouco mais as nossas noites solitárias. No entanto não ficámos de mãos vazias. Connosco foi deixada uma herança de património musical e estético que nos ajudou a crescer mais um pouco. E é em nome dessa herança que hoje, em vez de lamentar mais uma morte nos devemos curvar e dizer “obrigado”.



Artur


segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

DAVID BOWIE

                                                                     1947 - 2016

                                                        SO LONG MAJOR TOM

domingo, 3 de janeiro de 2016

PRENÚNCIO E PROTECÇÃO



Faz parte da existência por aqui de uns quantos bafejados pela Sorte a que a Vida reserva, ascenderem ao céu várias vezes num ciclo que durará aquilo que o Tempo lhes conceder, e nessa condição, poderem observar coisas de outra perspectiva. 
Eu sou um desses.
Na primeira ascensão deste ano de 2016, é-me oferecido o espectáculo de um pôr do Sol que dura muito mais que aquele a que se assiste com os pés no chão. Sou um sortudo, sem dúvida. 
Mas não sei se sou só eu que consigo ver aqui o olho protector de Hórus, um bom prenúncio para o ano acabado de começar.
Um momento captado... por sorte e voando atrás do Sol.

Segundo uma lenda, o olho esquerdo de Hórus simbolizava a Lua e o direito, o Sol. Durante uma luta, o deus Seth arrancou o olho esquerdo de Hórus, o qual foi substituído por um amuleto, que não lhe dava visão total, colocando então também uma serpente sobre sua cabeça. Depois da sua recuperação, Hórus pôde organizar novos combates que o levaram à vitória decisiva sobre Seth.
Era a união do olho humano com a vista do falcão, animal associado ao deus Hórus. Era usado, em vida, para afugentar o mau-olhado e, após a morte, contra o infortúnio do Além.
O olho esquerdo representa a informação abstracta, controlado pelo lado direito do cérebro, é representado pela Lua, e simboliza um lado feminino, com pensamentos e sentimentos, intuição, e a capacidade de enxergar um lado espiritual.
O olho direito de Hórus representa a informação concreta, que é controlada pelo lado esquerdo do cérebro. Esse lado é responsável pelo entendimento de letras, palavras e números, e é mais voltado ao universo de um modo masculino.
Será o esquerdo ou o direito, o que fixei na imagem?...
Sorte.

Hélder

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

O FIM DA FÊMEA LATINA

Ás vezes o tempo gasto a ver notícias da SIC, por exemplo, é amplamente compensado pela mensagem de esperança que esporadicamente nos é atirada à cara.

Em Braga existe por estes dias, a tradição de beber moscatel de Setúbal e comer bananas. É o Bananeiro.

Pelos vistos. tudo vai para a Rua  do Souto. Entrevistadas várias pessoas, todas assumem gostar mais do moscatel que da banana.
Até aqui tudo normal.

Mas eis que surgem três mancebos que admitem ter deixado as mulheres em casa e a trabalhar, que para eles agora, é hora de banana e moscatel.

Abençoados.

Já é hora de os homens portugueses lançarem o seu grito do Ipiranga e deitarem abaixo a FÊMEA LATINA!

É que já estou farto de ouvir amigos meus a dizer: 

'Ah e tal... Ela é muito minha amiga... Até me AJUDA em casa...'

Amigos meus!
Quando é que deixam essa mentalidade retrógrada de parte?
É que afinal quando os dois trabalham, as tarefas do lar devem ser repartidas! Ou não?
Deixem lá essa ideia do 'ELA AJUDA-ME...' e ponham-nas ao vosso lado a trabalhar em TODAS as tarefas domésticas. Afinal têm dois bracinhos, duas mãozinhas e uma cabecinha. Podem fazer as mesmas coisas em casa que vocês!

E para começar, nada melhor que o tratamento de choque do virar as costas à casa, ir 'póscopos' e deixá-las com o peso total de tratarem de tudo para os preparativos das mesas de Natal. É um excelente começo.

Pode ser que finalmente elas aprendam.

E que eles deixem de ser... Bananas...

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

OS PORTÕES DO AMANHECER



Se entendermos as existências como linhas de vida depressa nos apercebemos que é nos momentos em que elas se cruzam que acontece alguma coisa de importante. Algo que nos fica na memória e nos acrescenta na evolução. A partir desses nós ou cruzamentos tornamo-nos sempre noutra coisa, algo completamente diferente do que éramos antes. Se bem que nunca a tenha considerado como prioritária em relação a outras, o certo é que em momentos decisivos ou importantes da minha existência a banda Pink Floyd sempre se fez notar enquanto efeito sinalizador como mais nenhuma outra ao longo de mais de cinquenta anos. Foi para tentar perceber este mistério que decidi escrever esta série de textos. Comecemos pelo princípio.
Os anos 60 marcaram uma época determinante, um tempo de ruptura e revolução como há muito o mundo não tinha visto. Talvez o elemento mais evidente e mais aglutinador de toda essa mudança tenha sido a música. De facto, nunca como a partir dessa década a música teve um papel tão relevante para a Humanidade ao ponto de se tornar quase a nova religião mais popular. Nos anos 60 aconteceu também uma coisa curiosa. Nasci eu.
É claro que em 67 eu nem sequer ouvia musica, antes vestia um bibe e caminhava para o jardim de infância. Mas os Pink Floyd estavam também no início da sua caminhada. “The Piper At The Gates Of Dawn” nasce nesse ano sendo posteriormente considerado como um dos melhores álbuns de rock psicadélico de sempre. O título tem origem no livro “Wind Of The Willows” (1908) de Kenneth Grahame, mais concretamente no capítulo 7. Tratava-se de um versão pastoral para jovens de evocação à natureza no vale do Tamisa. Uma mistura de misticismo com aventura, camaradagem e moralidade.
Sendo o primeiro e o único trabalho liderado por Syd Barrett podemos ouvir letras povoadas por espantalhos, animais humanizados e gnomos ao longo de passagens instrumentais de rock psicadélico.
Um ano depois as ruas de Paris soltam-se em explosões de Maio, entro para a escola primária e os Pink lançam o seu segundo trabalho: “A Saucerful Of Secrets”. Enquanto eu começava a aprender a ler e a contar, a banda revelava as linhas gerais que marcariam os seus próximos trabalhos. Em múltiplos contextos. Em primeiro lugar a continuidade de um trabalho iniciado com “The Piper…”, povoado de pausas prolongadas e tiradas repetitivas. Mas ao contrário do álbum de estreia completamente dominado pela mão de Syd Barrett, “A Saucerful…” conta apenas com um tema da sua autoria. Uma personalidade transbordante de génio bem como o consumo de ácidos davam lugar a um comportamento cada vez mais alheado de tudo em geral. Barrett deambulava pelo palco, participava ocasionalmente. Outras vezes conseguia estar uma entrevista inteira sem dizer nada. Um dia Waters ia pela estrada fora a conduzir uma carrinha e a recolher os elementos da banda. Alguém perguntou se valia a pena ir buscar o Syd. Todos disseram que não. David Gilmour é escolhido para a substituição. “A Saucerful Of Secrets contará apenas com um tema de Barrett, “Jugland Blues”. Seria a única vez em que todos os elementos dos Pink Floyd trabalhariam no mesmo projecto. Nesse ano a Rolling Stone classificou o álbum de “muito pouco interessante, a roçar a mediocridade”, ressalvando a saída de Barrett como uma das razões principais. Mais tarde os críticos emendaram a mão e reconheceram mérito numa obra “ de ambiente imaginário, um conto de fadas, entre um estado consistente e vívido, e outro espacial e etéreo com longas passagens instrumentais a servir de pontes entre os dois estados”. Barrett afastava-se do projecto mas apenas em termos físicos. O seu espírito ou o seu fantasma no entanto, ficaria de pedra e cal a pairar para sempre sobre o caminho do “fluído cor-de-rosa”. Em 1969 os Pink Floyd fazem a sua primeira incursão no cinema ao assinar a banda sonora do filme “More” de Barbet Schroeder, uma dissertação acerca do consumo, dependência e vertigem da heroína. O álbum com o mesmo nome incide essencialmente num trabalho acústico de baladas folk. No mesmo ano segue-se “Ummagumma”, um misto de estúdio e gravação ao vivo onde se encontram mais aproximações experimentais à música popular como os blues e o folk. Mais tarde todos confessaram ter detestado ambos os álbuns. De volta ao cinema vêm a integrar a banda sonora de ZABRISKIE POINT de Michelangelo Antonioni, partindo daí para “Atom Heart Mother” (70). Apesar de anos mais tarde tanto Waters como Gilmour se lhe referirem como “algo que nasceu de uma boa ideia mas acabou por ser muito mal trabalhado”, o sucesso comercial foi bastante bom. Contando a história de uma  mulher a quem é implantado um pacemaker movido a energia nuclear, a parte mais interessante radica no facto de se recuperarem partes instrumentais de trabalhos anteriores para posterior desenvolvimento. A entrada do tema homónimo do álbum, ao utilizar um extenso registo de orquestra aproxima os Pink Floyd do conceito de Rock Sinfónico. Uma tendência que se continuará a manifestar em “Meddle” (71), mais concretamente na introdução da faixa “Echoes”.
Nos primeiros anos de existência, ao procurar a construção de uma forma, ou mais concretamente de uma identidade, a banda deixa ficar pelo caminho algumas das traves mestras que viriam a influenciar toda a sua obra posterior. O fantasma omnipresente de Barrett, um tempo de consumo e estudo dos efeitos dos ácidos enquanto agentes de expansão da consciência, a procura de outros mundos, outras realidades, enquanto razão directa dessa expansão, o diálogo permanente entre várias formas de expressão artística, o conceito ainda por definir da expressão “multimédia”.
De facto, tanto para mim como para a maioria das pessoas, os primeiros contactos com a realidade não nos oferecem nenhuma tranquilidade nem conforto. Com menos de dois anos deixei de viver com os meus pais e fui para casa de uma avó. Fiz a escola primária em pleno Estado Novo com um crucifixo na sala entre as fotografias do Presidente da República e o Presidente do Conselho. Cá em baixo as aulas eram pontuadas por sessões de reguadas e ponteiradas na cabeça. Tudo isto antes de ter dez anos. Através do rádio, quase sempre ligado em casa, encontrei na música um caminho de fuga e alternativa à realidade, projectando sempre que possível os limites da imaginação para as narrativas dos livros e mais tarde para os filmes na televisão. Era urgente inventar vários mundos para além deste.
Por outro lado, no final da década de 60 o Estruturalismo entrava na ordem do dia. Filósofos e cientistas chegavam à conclusão que o conhecimento se fazia e enriquecia através da dependência e do diálogo entre as várias dimensões desse mesmo conhecimento. As relações definiam os termos. Dando especial destaque à imagem (veja-se as obras de arte que são quase todas as capas dos álbuns), elaborando videoclips engenhosos e alucinados muito antes de serem moda (só nos anos 80 é que se dá a grande explosão deste auxiliar da música) e estando em contacto quase permanente com o cinema, os Pink Floyd desenvolviam e estimulavam o diálogo e a interdisciplinaridade das artes na senda da moda filosófica do seu tempo.
Os anos 70 estavam a começar e com eles um tempo dourado para a banda.


Artur