É curioso como tudo o que brota do solo vulcânico da ilha de Santorini, tem um travo adocicado.
Alhos, cebolas, pepinos, limões e o que mais se possa não pensar que o seja, é doce.
Para os pseudo-democratas do eurogrupo, FMI, BCE, UE, FEE, que dos povos intervencionados pela Troika se vão governando (e também dos outros que ainda não deram por isso), não haverá açúcar que lhes adoce a boca nos próximos dias.
Afinal como eu dizia há uns dias atrás, adoro a cozinha grega mas faltava aferir a exacta qualidade dos seus tomates.
Parece que os têm e em muito bom. Pena que no povo europeu para mim mais parecido com os gregos, nós, a qualidade dos solanáceos não seja nem de perto nem de longe equivalente - por cá, continua-se a querer viver a ilusão do está tudo bem e de um estado de direito que não o sendo, é tudo o resto.
O povo do país que deu a Democracia ao mundo, pôs-se uma vez mais nos cornos do Minotauro para a defender.
É que afinal para além de todos os aspectos económicos e financeiros, é a dignidade um povo e em última análise a Democracia que estão em causa.
Após o desaparecimento prematuro
de João Ribas, a única questão a colocar seria a de saber se haveria Tara Perdida para além de João Ribas?
A resposta
saiu na última semana do mês passado e consiste num redondo e absoluto SIM.
Trata-se de um excelente trabalho de onze faixas onde a banda, ao mesmo tempo
que faz o luto pela perda tão importante e dolorosa do seu mais carismático
elemento, constrói de forma paciente e
meticulosa a transição para uma nova etapa da sua vida revelando uma enorme
maturidade (humana e artística).
O Punk quando não é um movimento é uma
atitude e não desaparece enquanto existirem os requisitos que lhe dão origem. A
pressão social, a injustiça, a identidade urbana, o vazio da condição humana,
as drogas, o cheiro permanente de uma derrota declarada e absoluta muito antes
de nascermos, tudo isto se mantém. E ainda estamos muito longe do dia em que
irá acabar. Em Portugal o Punk está
vivo e os Tara Perdida são a sua grande referência. Têm uma identidade intacta
desde a primeira hora, são seguidos por um público fiel composto por várias
gerações e trazem na bagagem uma obra consistente. LUTO é o sétimo título de
originais dessa obra e, para além da carga emocional que transporta revela-se
acima de tudo num atestado de vida de uma instituição que está para durar.
Num trabalho
marcado por mais guitarras do que electricidade e mais harmonias do que
explosões, a maturidade da banda é revelada no trabalho em torno de três
registos perfeitamente diferenciados. O incontornável Punk Rock, o Rock Puro e
a balada. Se no primeiro caso estamos numa normalíssima “evolução na
continuidade” (com “Lista Negra” e “Lodo” à cabeça) , no segundo vamos nos
deparar com um verdadeiro refinamento de ourives de uma arte que nunca morre
(“Luta”, “Nuvem” e “Histórias de Silêncio”).
As baladas incluem uma das mais belas dos últimos anos, “Até ao Fim “,
devidamente acompanhada por “Morfina”.
Falámos atrás
em vitalidade, maturidade, e, no fundo, numa nova etapa que está aberta para os
Tara Perdida. No dizer dos elementos da banda, a partir daqui todos os
trabalhos e todos os espectáculos serão dedicados ao João Ribas. Um ser
demasiado grande para ser esquecido. No entanto no seu lugar estará Tiago
Afonso, antigo guitarrista e vocalista dos Easy Way. A vida continua porque tem
que continuar e essa atitude foi assimilada na perfeição pela banda. Ao João
Ribas a nossa eterna homenagem…aos Tara Perdida o nosso eterno desejo da
continuação do excelente trabalho feito até aqui.