quarta-feira, 13 de novembro de 2013

DO AMOR E DA ETERNIDADE








Escrever, dizer qualquer coisa sobre este filme, percute em mim uma velha e verdadeira proposição, segundo a qual "escrever sobre arte é o mesmo que dançar sobre arquitectura". Eu, que não sei dançar, arrisco esboçar os primeiros passos de uma coreografia que me coloca à beira do abismo. Comecemos.

Falo de "To The Wonder", realizado por Terrence Malick, o mais secreto, tímido e reservado dos cineastas, nada de espantar para aqueles que conhecem e amam os seus filmes, essas obras de arte cujo coração é habitado por espectros, sempre incertos, continuamente indeterminados. Alguém sabe de onde vem este cinema ? Para onde vai, que lugar habita ? A quem, a que se dá , quem poderá capturar a sua natureza ? Coloco as perguntas, sem me interessar pelas respostas. E a quem interessariam as respostas ? A obra de Malick é composta por vozes perdidas, sempre à procura de algo, de alguém, de alguma coisa, de nada.
No começo do filme vemos alguns planos captados por telemóvel, oferecendo às personagens um tempo suspenso mas também uma aspereza nova em Malick : a anamorfose, o ruído video, os erros cromáticos. Esta mudança no regime da imagem é uma novidade no seu cinema, tanto mais perturbadora quanto a sentimos como verdadeira e sincera. Na verdade é possível dançar sobre este filme. Aliás, Marina não faz outra coisa, desde que o realizador resolveu atirar pela borda fora o excesso de bagagem, tudo o que é supérfluo : diálogos, exposição, regras clássicas do enquadramento, montagem, etc, etc.

O que é um amor, o que é o amor ? Que sinais me envias que eu leio como sinais do amor ? Que signos nos oferece o mundo ? Na obra de Malick a linguagem sempre foi objecto de um tratamento muito cuidadoso e sempre ressoou com um timbre muito particular; aqui força ainda mais além esse radicalismo, começando o filme em francês, continuando em inglês, polvilhando-o de espanhol e italiano, cantando-o em russo. Esta última língua não é uma coincidência: Malick poderia ser Hipolite Terentiev interrogando o Príncipe Michkine: "Que beleza salvará o mundo ?". A beleza de Marina ? Uma espécie de Natalia Filipovna menos dura mas igualmente partilhada. No fim de contas o filme adopta de maneira quase literal a ideia de um amor partido em dois. De um lado, um sentimento virado para a bondade, a doçura, a atenção ao outro incorporado na personagem de Jane, calma e serena entre os bisontes; do outro, um amor-paixão, cruel e despedaçado como a personagem Marina. Entre essas duas mulheres, um Neil reduzido a algumas palavras, forçado ao silêncio pela montagem do filme que o não deixa exprimir-se em palavras, frases, diálogos. A ausência de palavras não significa o silêncio ou o mutismo no cinema de Malick, revestindo-se de outra natureza: distancia a personagem Neil daquilo mesmo que ele é : uma sequência equívoca mostra a tradução do diálogo em linguagem gestual por uma intérprete, a surda-muda mexe as mãos, a intérprete fala, o padre escuta: todos presentes no plano,  indicando que tudo é movimento,palavra e flutuação. É nessa perspectiva que deve ser compreendida a atenção dada aos rostos: grandes planos sobre as rugas, as marcas, as cicatrizes que enchem o quadro : outros tantos signos da visão de corpos enfraquecidos, sozinhos, perdidos na imensidão de paisagens maravilhosas (o Mont Saint-Michel, campos povoados por bisontes, planícies, o sol escaldante, a maré que desce...).

A morte pesa sobre as imagens de "To The Wonder", ou melhor, o espectro da mortalidade: Marina está doente ? De que sofre ? Ou trata-se antes do filho morto de Jane ? No fim de contas, este filme transforma a pergunta presente em "A Árvore da Vida" (porquê a morte ?) na pergunta "o que é a morte ?"

Como todas as narrativas, "To The Wonder" cria suficientes aberturas que se tornam brechas, falhas que conferem ao filme uma ambiguidade radical, devida à natureza íntima do cinema de Malick : o final dos seus filmes nunca é o fim do mundo, ou de um mundo, mas a perplexidade, a abertura para outra coisa qualquer.

Afinal, esta pequena e humilde reflexão sobre o filme contém quase tantas interrogações  como afirmações. Como se dançasse sobre areias movediças. Marina é menos uma dançarina do que uma mulher que não chega a dançar: o seu corpo, próximo da dança contemporânea, não exprime a ligeireza da dança como ideia de um corpo libertado da gravidade, da terra, tornado metáfora, pássaro, flor ou roda que gira em torno de si mesma. Ela sonha com a elevação, com tornar-se essa roda, mas raramente é aérea. Desliza em círculos, não conseguindo tornar-se o signo da criança nietzschiana. Como acontece com o padre, a alegria está-lhe vedada, e sem esse dom, as palavras, fossem elas as palavras dos Evangelhos, e os movimentos, fossem eles os de uma bailarina, não são nada. A esses movimentos, desordenados, sem consistência nem duração, carregados de negatividade, é preciso opor a verdadeira dança de Pocahontas, e as corridas de mãe e filhos em "A Árvore da Vida" : puras expressões do corpo que não estão separadas de si mesmas; plenitude do ser, eternidade do movimento, ou movimento da eternidade, que não é senão alegria. A alegria pretende a eternidade, não como qualquer coisa de que está separada, mas como o seu espaço de expressão. Ou melhor: a alegria não quer nada, não pretende nada : quem quer alguma coisa nunca está alegre, já que a vontade tem que ser pensada a partir da ideia de uma falta ou de uma ausência e a partir dessa negatividade. A alegria não quer a eternidade, ela é a eternidade, a experiência da eternidade.



quinta-feira, 7 de novembro de 2013

O ABSURDO E A FELICIDADE

1. Albert Camus concebe, desde a adolescência, uma obra. Nem mais nem menos. Sem cessar, com uma tenacidade que a sua biografia atesta, desce ao fundo dos seus ciclos em tríptico : um romance, um ensaio, uma peça de teatro, escapando velozmente às armadilhas do nihilismo e do cinismo, rompendo com o absurdo e passando à revolta – cada vez menos à revolução. Chegado aos trinta anos, visa um ciclo da felicidade e da serenidade. É sobre essa dualidade, ou sobre essa dupla faceta do seu pensamento, que me proponho reflectir.
2. Dando-se conta do absurdo da condição humana numa obra que comporta as três dimensões – romanesca, filosófica e teatral – Camus empreende a tarefa de compreender o sentimento de estranheza que nasce do “divórcio entre o homem e a sua vida, entre o actor e o décor”, escreve em “O Mito de Sísifo, Ensaio Sobre o Absurdo”, publicado em 1942. A tomada de consciência do não-sentido da vida é para ele, pelos menos de início, a constatação de um fracasso : o desejo de clareza do homem bate de frente contra a irracionalidade do mundo. O seu encontro não faz sentido, é absurdo. Mas, segundo Camus, essa lucidez pode tornar-se o motor da liberdade que acompanha a necessidade de lutar pela felicidade. Como opera esta alquimia que torna compatíveis o absurdo e a felicidade ?
3. Em “Noces”, quatro ensaios poéticos em prosa publicados em 1939, Camus fornece uma primeira resposta. O primeiro, intitulado “Noces à Tipasa”, celebra o amor que assume os tons do mar e do sol, esse mar que o autor conheceu na Argélia natal: entrar em comunhão com a natureza equivale a ultrapassar a ausência de resposta do mundo. Vale a pena revisitar esse excerto de texto, profundamente luminoso e esclarecedor:
 “Dans un sens, c’est bien ma vie que je joue ici, une vie à gout de Pierre chaude, pleine de soupirs de la mer et des cigales qui commencent à chanter maintenant. La brise est fraîche et le ciel bleu. J’aime cette vie avec abandon et veux en parler avec liberté: elle me donne l’orgueil de ma condition d’homme. Pourtant, on me l’a souvent dit : il n’y a pás de quoi être fier. Si, il y a de quoi: ce soleil, cette mer, mon coeur bondissant de jeunesse, mon corps au goût de sel et l’immense décor òu la tendresse et la gloire se recnontrent dans le jaune et le bleu. C’est à conquérir cela qu’il me faut appliquer ma force et mês ressources”.
 Sob condição de abandonar a esperança vã de um outro mundo, a recusa do suicídio é uma outra resposta que é dada, mais uma vez, em “O Mito de Sísifo”, no qual o problema inicial consiste em “julgar se a vida vale ou não a pena ser vivida”. Com efeito, o absurdo poderia conduzir a uma motivação para o abandono da vida: todos nós pensámos nisso algum dia, escreve Camus. Mas é preciso não ceder ao desejo de anular a consciência, o que consistiria em redobrar o absurdo. O importante é conferir peso à vida pela acção “aqui e agora”, sem procurar a salvação algures, como a fé religiosa incita a fazer. Não nos podemos esquivar da morte, projectando a vida eterna, nem da vida, através de um divertimento no sentido que Pascal condenava no século XVII, ou seja, recorrendo a um desvio ou a uma recusa da ideia da nossa finitude. È a lucidez assumida que bane o suicídio e a esperança vã, e permite dizer sim à vida definitivamente. Reconhecer que a condição humana é sem esperança e sem amanhã convida o homem a viver plenamente a sua liberdade e a escolher a felicidade. Este caminho é balizado pelo nosso comprometimento físico, carnal, com o mundo, no qual o nosso corpo tem sempre um estádio de avanço sobre o espírito (“Habituamo-nos a viver antes de adquirirmos o hábito de pensar”). Aceitar a necessidade do absurdo, é avançar na espessura do mundo, indo colher a alegria lá, onde ela se encontra.
 4. Camus cita Nietzsche a fim de ilustrar esta “moral de grandes ares” que descreve aquilo que merece ser vivido: o francês partilha com o filósofo alemão a sua hostilidade para com os grandes conceitos que devem conferir sentido à vida. Em vez de reflectir sobre Deus ou sobre as grandes abstracções conceptuais, Camus convida a falar sobre a vida, a bater-se por ela, num sentido altruísta, como precisam as teses de “O Homem Revoltado”, publicado em 1951. Matar inocentes, afirma, é um crime que desnatura a revolta. Se o absurdo do mundo não é um tema novo – Franz Kafka já o tinha cruamente retratado em inúmeros textos – jamais tinha sido encarado, antes de Albert Camus, como uma fonte de gratificação pessoal. Este novo hedonismo, individual e despojado de todo o artificialismo ideológico, está longe de ser o maior contributo de Camus para a antropologia filosófica do século XX, sendo, no entanto, aquele que mais me comove, e que me parece mais pertinente, neste dia em que se comemoram os 100 anos do seu nascimento e neste tempo em que não há no mundo claridade suficiente, nem sol, nem mar, nem nada.

 Arnaldo Mesquita

CENTENÁRIO DO NASCIMENTO DE ALBERT CAMUS




No dia 7 de Novembro de 1913, Albert Camus nasce em Mondovi, Argélia francesa, no seio de uma humilde família pied-noir. O pai ( Lucien Camus), morto na batalha do Marne durante a I Guerra Mundial era descendente de uma família francesa oriunda de Bordéus que compunha um primeiro grupo de colonos a estabelecer-se na Argélia. A mãe, meio surda, pertencia a uma família de ascendência espanhola (os Sintés) vinda de Minorca. Com a partida do pai para a guerra a família muda-se com o irmão e a mãe para a casa da avó materna em Argel onde, no espaço de três divisões sem água corrente nem electricidade, viviam mais dois irmãos de Catherine Camus.

Graças aos esforços de dois professores decisivos na sua existência, Albert Camus consegue escapar a uma vida de pobreza e desse modo contrariar a sina das suas modestas origens. Durante a escola primária é o seu professor Louis Germain que lhe reconhece capacidades para continuar os seus estudos liceais, fazendo-o trabalhar horas extras contrariando a orientação da avó que o queria a trabalhar o mais cedo possível. Em 1923 Camus é admitido no liceu onde tem consciência pela primeira vez do seu estatuto de pobreza. Até aí (escola primária) eram todos pobres, portanto não havia termos de comparação. Em 1930, já na Universidade de Argel, o jovem estudante de Filosofia vê-se confrontado com outro elemento trágico na sua curta vida. No hospital Mustapha (“o hospital de um bairro pobre”) é-lhe diagnosticada uma tuberculose pulmonar. Esta doença, que na época significava uma inequívoca ameaça de morte obrigá-lo-á a desistir de uma actividade que praticava com paixão, o futebol. De facto, e até ao fim da sua vida, Albert Camus será sempre um fervoroso adepto do Racing Universitaire de Argel, onde era guarda-redes. O futebol ficará sempre guardado num lugar especial do seu coração.Nesse mesmo ano prepara a licença em Filosofia, com Jean Grenier, uma personalidade absolutamente decisiva na sua vida: faz-lhe descobrir Friedrich Nietzsche. Permanecerá para sempre fiel a esse homem e aos seus ensinamentos.

A miséria que acompanha os seus primeiros passos associada à aparição prematura da ideia de morte na sua vida condicionarão definitivamente a construção da sua obra futura. Pela miséria identificam-se as dimensões e os desequilíbrios que o poder causa nas sociedades bem como a enorme injustiça que as constrói. Revoltado e incapaz de aceitar esta perversão da condição humana encontra o nihilismo. Talvez por ser oriundo de um mundo humilde e ter conseguido o acesso à instrução e á cultura após enorme esforço pessoal não se contenta em ser um artista Procura fazer do mundo uma visão coerente onde se poderá inscrever alguma regra de vida, uma moral. Se numa primeira análise é levado a descobrir o conceito do “absurdo”, esse é apenas um ponto de partida para encontrar uma saída, um caminho que o conduzirá através da revolta e do amor.

Ameaçado de morte em plena juventude eis outra poderosa manifestação do conceito de “absurdo”, um dos mais importantes a desenvolver no início da sua obra.

   Quando recebe o Prémio Nobel de Literatura (1957) Camus explica a estrutura da sua obra.


    “ Tinha um plano preciso quando comecei a minha obra: em primeiro lugar queria exprimir a negação sob três formatos. Romanesco ( “O Estrangeiro”) ; Dramatúrgico (“Calígula”, “O Equívoco”); Ideológico (“O Mito de Sísifo”). Em seguida antevia o aspecto positivo ainda sob três formatos: Romanesco (“A Peste”) ; Dramatúrgico (“Estado de Sítio” , “Les Justes”); Ideológico (“O Homem Revoltado”). Antevejo uma terceira fase em torno do tema do amor.”




A POLÍTICA


Em termos políticos ou de carreira política Camus milita várias propostas de esquerda, propostas essas que nunca o conseguirão preencher na totalidade espalhando críticas e coleccionando dissabores nessa mesma esquerda. Desde a sua ambígua posição em relação à independência da Argélia até às ferozes críticas ao regime soviético Camus manteve-se unicamente fiel a si mesmo, alheio a modas ou conjunturas. Em 1935 inscreve-se no PC francês vendo nele um meio de “sanar as desigualdades entre europeus e nativos argelinos”. Nunca se afirmando marxista nem que tivesse lido “Das Kapital” não deixava de se sentir entusiasmado pelas possibilidades abertas pelo movimento comunista à Humanidade. Em 1936 é fundado o Partido Comunista Argelino. Camus colabora nas actividades do Parti du Peuple Algérien valendo-lhe desentendimentos e desaprovação dos seus camaradas comunistas. Na sequência dessa atitude em 1937 é denunciado como trotskista e expulso do patido. A partir daí Camus vai-se aproximar do movimento anarquista francês. Escreve para publicações anarquistas como Le Libertaire, La révolution Proletarienne e Solidariedad Obrera ( da central sindical CNT).  Aliou-se aos anarquistas no apoio aos levantamentos na Alemanha Oriental em 53, em 56 na Polónia e, nesse mesmo ano, solidarizando-se com a revolução na Hungria.

Em relação à guerra da Argélia (54) as suas posições, entendidas como demasiado ambíguas, mais não faziam do que revestir um dilema moral. Camus era favorável a uma autonomia do território defendendo que os que nasceram na Argélia, independentemente das suas origens, deveriam viver e ser livres na sua terra. Chega a defender as acções do governo francês contra a revolta argumentando que o levantamento argelino era parte de uma nova “espécie de imperialismo” liderado pelo Egipto na sequência de uma ofensiva soviética para cercar a Europa e isolar os Estados Unidos.

Durante toda a sua vida Camus foi um forte opositor a todo o tipo de totalitarismo. Sempre activo com a Resistência Francesa durante a ocupação alemã, dirigindo o jornal Combat , é também um dos primeiros a condenar a os excessos da vitória sobre os colaboradores, opondo-se de forma absoluta tanto à intolerância como à pena de morte. É na sequência desta oposição absoluta a todo o tipo de totalitarismo que ocorre a ruptura com Sartre, adepto de um marxismo radical aplicado pela “política das massas”.

Em parte explica a sua posição ao longo do ensaio sobre a Liberdade e a Revolta n’ “O Homem Revoltado”, uma enorme interrogação à “política revolucionária de massas” e uma crítica a um regime soviético totalitário, um estado policial e repressivo.


LITERATURA


Entre o escritor que pensava e o pensador que escrevia, Albert Camus desenvolve uma obra literária privilegiando a criação ao ensaio, o romance ao tratado de filosofia, optando por alargar o seu trabalho ao maior numero de homens em vez de um circulo restrito e académico de interlocutores. Enquanto escrevia a sua tese acerca de Platão e Santo Agostinho, Camus acusou o fascínio e a influência do trabalho destes dois filósofos na sua obra. No seu livro “Confissões”, Santo Agostinho desenvolve a ideia de uma ligação entre Deus e o resto do mundo. Camus defendia que a experiência pessoal do indivíduo poderia tornar-se um ponto de referência para os escritos filosóficos e literários. Mais tarde concluiria que a ausência de crença religiosa pode ser acompanhada pelo desejo de “salvação e significado”. Esta linha de pensamento criava um paradoxo tornando-se uma ameaça para o conceito de “absurdo” na obra de Camus.

O Prémio Nobel de Literatura é-lhe atribuído no ano de 1957 pela “sua importante produção literária que, com grande lucidez, aborda os problemas contemporâneos da consciência humana, bem como pelos escritos contra a pena de morte (“Reflexões Sobre a Guilhotina”) “


A 4 de Janeiro de 1960 Albert Camus e o seu amigo e editor Michel Gallimard morrem num acidente de viação. Após a sua morte foram publicados dois títulos ( “A Morte Feliz” e “O Primeiro Homem”)


Falar da obra de Albert Camus é tentar compreender e sistematizar o pensamento de um dos mais importantes pensadores/escritores da segunda metade do século XX. Ao comemorarmos o centenário do seu nascimento, iremos ao longo deste mês publicar vários textos sobre a sua obra. Mais do que comemorar interessa-nos sobretudo divulgar e debater quais foram as suas influências nos dias de hoje. Obrigado a todos aqueles que quiserem participar ou simplesmente conversar connosco.


Artur  







quarta-feira, 6 de novembro de 2013

O PÊ PÊ









"A estupidez é a euforia do lugar"
Roland Barthes



Parafraseando Mark Twain, acontece-me dizer: "As notícias sobre a inteligência de paulo portas são manifestamente exageradas". De facto, aquele que era irregovágel, passou também a inenarrável, mercê das suas aventuras no Extremo Oriente: factos, eventos, ditos, paródias totalmente inexplicáveis, por isso impossíveis de narrar. portas é simultaneamente o deserto, o camelo e o viajante, tal a euforia com que habita o lugar. E que lugar é esse ? Não se sabe, muda diariamente, muda hora a hora, minuto a minuto, ao sabor da conveniência do momento, com a máscara dos interlocutores momentâneos, com a premente necessidade de sobreviver a todo o custo. Como as marés, pê pê vai e vem, assume a pose de estadista, despe o fato de lacaio da direita dos interesses, veste a farda do paladino dos reformados, dos contribuintes e dos homens da lavoura, volta a vestir o fato e gravata de vice-primeiro, coloca o letreito que diz "sentido de estado", assume a pele do católico, despe a máscara do democrata-cristão, volta a enfiar o fato do patriota in extremis e por aí fora, sem cansaço nem desconforto. Uma das últimas pérolas que proferiu foi: "os pobres não se manifestam, nem aparecem na televisão". Uma verdade óbvia: toda a gente sabe que os manifestantes estacionam os porsche e os ferrari nos parques subterrâneos antes de enfileirarem nas manifestações. Estas terminadas, rumam às suas mansões na quinta da marinha, comemorando o sucesso dos protestos com champagne francês e lagosta suada. E onde pára a sua famosa "inteligência" no meio de tudo isto ? Em lado nenhum, na verdade. Lá jeito para a intriga e a maquinação, ninguém lho nega. Dissimulação, embuste, denegação da verdade, muito bem. Falta de carácter, instinto de sobrevivência, tenacidade nos ódiozinhos de estimação, ambição sem limites, sem dúvida. Ausência de coluna vertebral, flexibilidade nas convicções, doutrinas gelatinosas, olhinho vivo para as oportunidades, há-de aparecer quem lhe peça meças. Inteligência ? Zero. Porque a verdadeira inteligência não existe sem a ética. Porque as competências que supra ficam reconhecidas, desacompanhadas de uma verticalidade moral a toda a prova não passam de "sepulcros caiados de branco", uma contradição nos termos, um oxímoro. Porque a capacidade para o "sound-byte", ou a habilidade para proferir grandes frases que se reclamam de grandes princípios não demonstrados , é apenas sofisma e máscara, "doxa" sem conteúdo, vento levado pelas palavras.
Por outro lado, o portas é um génio. Consegue reunir em si as personagens Bouvard e Pécuchet, as mais assombrosas personalidades imaginadas por Gustave Flaubert. Se um dia, tomado de um irresistível impulso, alguém se dispusesse a compulsar as várias metamorfoses do portas e as reunisse numa Sagrada Escritura, viria a descobrir que a cola que une o portas-jornalista ao portas-vice, passando pelo portas-ministro da defesa e dos negócios, é uma espécie de equivalência universal, o domínio do relativismo absoluto: o Bem e o Mal são iguais; iguais são também o Belo e o Feio; irmãos gémeos o definitivo e o transitório, o estável e o instável, o antigo e o moderno, os vales e as montanhas, a felicidade e a infelicidade, tudo convergindo na celebração deste novo ídolo, neste majestoso EGO que tudo subsume na sua magnificência e na inestimável grandiosidade que a todos ofusca e que deveria impedir os ímpios como eu de olharem directamente para este Sol. Perplexo, descubro que a Estupidez já não é uma característica de certas ideias. Pelo contrário, tal como um deus equanime, espalha-se por toda a parte, propaga-se em todas as direcções, entre crentes e ateus, entre os camponeses e citadinos, entre matemáticos e líricos. A Estupidez é o sanguinário reino de papel do homem novo que foi anunciado em Junho de 2011.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

ELOGIO DE PEDRO PASSOS COELHO

 
 
 
“Svendenborg chamava às suas visões memorabilia”
 
Arthur Rimbaud

 

 

      Que demónio terá instilado em Pedro Passos Coelho (PPC) a ideia messiânico-sebástica, inspirada num milenarismo apocalíptico e escatológico, segundo a qual teria nascido para ser o “salvador da Pátria”, o homem providencial que iria tirar Portugal da sua inércia e da sua situação catastrófica, e uma espécie de Beato Salú destinado a salvar os “empreendedores” e a condenar a uma irremediável fogueira os inertes, os preguiçosos e todos aqueles que dependem de subsídios para sobreviver e que estão a impedir que o país se desenvolva e cresça segundo os desígnios iluminados dos primeiros ? Se me refiro a um demónio (retirando-lhe a carga teológica) é justamente porque não há nenhuma explicação racional e lógica para a representação que este homem faz de si mesmo e do seu papel histórico. Não será certamente pela sua estatura intelectual, já que não se lhe conhece um estudo, um ensaio, vá lá, uma única ideia solitária que lhe confira esse estatuto. Aliás, para saber do que falo, dei-me ao trabalho de ler a “obra” que publicou em 2010 (Difel) e que intitulou singelamente “Mudar”. Confesso que foi uma tarefa penosa, quase uma tortura: maçudo, enfadonho, mal escrito (até para os padrões daqueles que, por meia dúzia de tostões, de dispõem ao frete de redigir as obras que outros hão-de assinar), o “livro” é uma sucessão de ideias vagas, propósitos piedosos e teses alheias, mal digeridas e pior compreendidas. Há mais ensaística, ideologia e argumentação numa lista telefónica das Páginas Amarelas do que neste amontoado de torpezas mascaradas de boas intenções. Perplexo, constato o seguinte: o “livro” foi escrito segundo uma atroz e infindável sucessão mecânico-associativa que remete para o caos de uma mente em negação (não sou eu que estou doente, é o mundo !) e que se esgota nalgumas ínfimas e últimas essencialidades e “verdades”. PPC (ou alguém por ele) utiliza farrapos de linguagem, reduzindo o material linguístico a dois registos essenciais: clichés e banalidades, tudo organizado num ritmo redundante, pontuado aqui e acolá por catadupas verbais que levam a própria linguagem ad absurdum. É o preço a pagar por formatar a realidade à nossa medida: reduzir tudo a um campo de batalha monomaníaco em que ficam restos e dejectos verbais; vive-se do fragmento, do aforismo, da ruína verbal. Mas, o “livro” tem um mérito: não esconde nada deste projecto demoníaco que veio a ser posto em prática, destruindo o país e deixando atrás de si um rasto de pobreza, de humilhação e de indignidade. Como diz Ingmar Bergman no começo de “O Ovo da Serpente”: “Através da fina membrana, vê-se já o réptil em formação”.
 
    Verdadeiramente, PPC é o “homem cheio de qualidades”, ou a antítese de Ulrich, o protagonista do romance “O Homem Sem Qualidades”, de Robert Musil. Lembrar-se-ão que essa personagem concentra o seu agir/pensar, ou o seu pensar/agir, no “sentido de possibilidade” dos acontecimentos e pratica um “ensaísmo” como forma de vida. Precisamente o contrário da ilusão de PPC: julgava ele que ignorando a possibilidade dos acontecimentos, ou seja, a realidade concreta e material da sociedade e dos homens, a realidade haveria de se vergar a um pensamento tão claro e sublime e a “verdade” dos postulados que enuncia teria necessariamente que aparecer como uma evidência escrita na pedra para que todos os homens a entendessem e aceitassem. Nunca saberemos quem encontrou ele na Estrada de Damasco, mas conhecemos os efeitos nefastos do seu providencialismo. Como muito bem viu Pacheco Pereira, haveremos de sair desta crise algum dia, superando os seus aspectos económicos e financeiros. Mas, no que concerne às feridas morais, éticas e sociais, essas nunca hão-de cicatrizar definitivamente. Por tudo isso, PPC é verdadeiramente um “escritor” da crise, ou o “escritor” da crise. Acima de tudo, “Mudar” é uma autobiografia intelectual, ou melhor, uma radiografia, cinzenta e árida, mostrando um interior vazio e revelando uma ossatura sinistra. Entenda-me quem o quiser fazer.
 
          Arnaldo Mesquita


domingo, 27 de outubro de 2013

LOU REED

                                                                      1942 - 2013

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

domingo, 6 de outubro de 2013

ATACAMA - RUSH HOUR IN THE SKY







                                                      Sofia Vaz Pinto

sábado, 5 de outubro de 2013

CHILE - DESERTO DE ATACAMA



 
 




                                                               Por Sofia Vaz Pinto

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

LIVRO DE PONTO - OUTONO





1. Parabéns a todas as nulidades, incompetentes e sevandijas que, salvas raras e honrosas excepções, foram eleitos neste Domingo, de norte a sul do país, nas regiões autónomas e nas Ilhas Selvagens. Dispõem de mais quatro anos para desbaratarem dinheiros públicos em obras inúteis, empregarem familiares, vizinhos e conhecidos, adjudicarem obras a amigos e, de um modo geral, continuarem a contribuir para que Portugal vença o prémio de País Mais Feio da Europa, através das autorizações avulsas que vão concedendo para edificações várias: hóteis e "resorts" parolos de luxo em zonas protegidas; campos de golfe em cima das arribas; urbanizações em zonas de paisagem protegida, reserva ecológica ou agrícola. A todos eles desejo um mandato cheio de propriedades.

2. passos coelho e o resto do "gang" não tiveram tempo de ler Jean-Jacques Rousseau. É compreensível: as licenciaturas medíocres obtidas por favor em universidades privadas medíocres; o tempo passado em conspirações, manigâncias e negociatas, subindo a pulso na hierarquia das "jotas"; os anos gastos a esmifrar o Estado dos seus recursos, tratando de transferir capitais que deveriam servir para desenvolver o país e que, ao invés, foram parar aos bolsos dos privados, não lhes deram oportunidade de tomarem contacto com o conceito de "contrato social", indispensável a todos aqueles que almejam desempenhar cargos políticos, e não apenas "ir ao pote". Assim, proponho que se lhes transmita o conceito filosófico-político em doses suaves e homeopáticas. Por exemplo, na feliz formulação de Ana Cristina Leonardo, a única que os partidários do "para trás mija a burra" conseguirão entender:

"Então fazemos assim: Vocês não nos lixam a vida, e nós não vos fodemos a tromba".

3. Passando a coisas sérias: recupero neste Outono o conceito de "emigração interior", que Hannah Arendt desenvolveu num ensaio sobre Lessing, referindo-se aos judeu que, perseguidos na Alemanha se retiravam da vida pública e deixavam de fazer parte de uma sociedade que os rejeitava e decidia aniquilar. Reformulo esse conceito: sujeitos que estamos à iniquidade de um poder político ilegítimo e atroz, que governa contra o povo que o elegeu e a favor de interesses obscuros que o manipulam e orientam, devemos preservar uma espécie de último reduto da nossa intimidade: emigrantes no nosso próprio país, exilados internos, podemos distanciar-nos - ainda que por momentos - da degradada vida pública e política, procurando refúgio na invisibilidade do pensamento e do sentimento nostálgico. Tal atitude, permitir-nos-à, um dia, conhecermos estes "anos de chumbo" e tal conhecimento esclarecerá as razões pelas quais suportámos tudo isto. Como Nietzsche observou: "Quando olhamos para o abismo, o abismo também olha para nós".

4. "Fontes fidedignas" relatam que o último conselho nacional do ppd não tratou de analisar as razões da monumental derrota sofrida pelo partido nas últimas autárquicas, nem de debater mudanças de rumo aconselhadas pelo aviso que o povo português lhes endereçou: tratou-se antes de encontrar formas de perseguir e aniquilar todos aqueles que não alinharam no discurso oficial e se perfilaram contra as escolhas do bando, tudo servido por gritaria, insultos, pateadas, ameaças físicas, palavreado de taberna e linguagem de carroceiro. As máscaras caíram. Por detrás das máscaras estão outras máscaras. E assim até ao infinito. Nada que nos espante. Só é de espantar, ou melhor, de ficar estarrecido de nojo, de vergonha e de horror o facto de aceitarmos ser governados por estes delinquentes. De facto, Portugal bateu no fundo.

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

DESTERRO: A ESPERA DO SILÊNCIO



E no entanto a vida continua. Com os mesmos dramas, carregando as mesmas dores, as mesmas perguntas sem resposta, a mesma ansiedade de estar vivo. O filho de um amigo meu produz esta curta metragem confortando a minha frustração, adoçando o meu desânimo. Provando que a arte e a vida são gémeas de um mesmo corpo, de uma mesma alma, de um mesmo tempo. A simplicidade com que as palavras voam ao sabor da brisa incerta e inconsequente transformadas no gesto de uma dança. A dureza de um cenário nu polvilhado de focos de iluminação espalhados ao acaso. A vida é uma descoberta dolorosa da impossibilidade. A criação é o canto cristalino e maravilhoso de quem a carrega. Um canto que atravessa gerações e se eleva ao céu de uma plenitude. O Ser e a Humanidade que se recordam em cada dia das danças esquecidas do baile da eternidade. Força Diogo.

Artur

terça-feira, 24 de setembro de 2013

ADEUS PEDRO


Lembro-me que fazias anos, lembro-me que nos juntámos vagamente na área de Cascais e, principalmente, lembro-me que à saída do restaurante marraste que havias de regressar a Lisboa de mota. E assim foi. Á pendura na mota do Tomás, capacete branco na cabeça, pés no ar a tactear apoio no vazio. Lembro-me do GNR a mandar parar e a perguntar ao Tomás se ele não sabia que não podia transportar o filho de mota e da cara de parvo que fez no momento em que tiraste o capacete da cabeça. Nesse ano a tua alcunha passou a ser o “astronauta pequenino”. E como este, lembro-me de dezenas de episódios em que me fartei de rir contigo, das sessões de “bélinhas” nas testas uns dos outros, das bebedeiras antológicas na Cervejaria Europa, das jam sessions de guitarra e  piano em tua casa. Ontem tive a triste notícia que te tinhas ido embora, uma dor  aumentada pelo facto de ainda há uma semana termos estado juntos a jantar. É certo que o teu estado de saúde já não era animador mas nada fazia prever este desfecho em tão pouco tempo. No tempo em que virávamos litros de cerveja na Cervejaria Europa a vida não fazia sentido nenhum. Hoje foi apenas mais uma confirmação. O que te queria dizer… sei lá o que é que te queria dizer. Acho que o que queria dizer-te foi aquilo que sempre te disse ao longo destes 20/30 anos de amizade. O que te queria dizer era que serás sempre, como sempre, um de nós. Elemento desta família fabulosa que são os nossos amigos. Que o teu tamanho só nos distraiu durante a primeira hora em que te conhecemos para nunca mais se perceber sequer que existia. É claro que para as alcunhas era certo e sabido, mas também, essa era uma regra aplicável a toda a gente. Todos tínhamos um pé, um olho torto, no fundo a marca que nos individualizava e distinguia do resto das pessoas, marca essa através da qual se abria a porta para a entrada das alcunhas. Lembro-me que eras exímio jogador de matraquilhos na defesa, de que tocavas lindamente, da tua preocupação connosco, com os outros. 

Parece que tudo tem que ter um fim na lei desta vida, na ordem natural das coisas, neste enunciado absurdo e caricato de regras que nos são impostas desde o dia em que nascemos. Mas na nossa tribo, não. Aqui tudo faz sentido porque há uma espécie de fio condutor que nos une, um fio tecido com solidariedade e amor. Por ele continuamos presos ao Tomás, que já marchou há mais de vinte anos, sabendo que ele também pensa em nós de vez em quando. Aliás, tenho a certeza que o gajo que vai estar à tua espera à saída do túnel encostado a uma “ninja” verde com um capacete branco na mão…tenho a certeza de que esse gajo é o Tomás e que ele te vai levar de regresso a casa. A casa para onde todos acabaremos por voltar um dia. Hoje foi a tua vez. Um grande abraço Pedro. A gente um dia destes encontra-se…

 

Artur