segunda-feira, 30 de setembro de 2013
DESTERRO: A ESPERA DO SILÊNCIO
E no entanto a vida continua. Com os mesmos dramas, carregando as mesmas dores, as mesmas perguntas sem resposta, a mesma ansiedade de estar vivo. O filho de um amigo meu produz esta curta metragem confortando a minha frustração, adoçando o meu desânimo. Provando que a arte e a vida são gémeas de um mesmo corpo, de uma mesma alma, de um mesmo tempo. A simplicidade com que as palavras voam ao sabor da brisa incerta e inconsequente transformadas no gesto de uma dança. A dureza de um cenário nu polvilhado de focos de iluminação espalhados ao acaso. A vida é uma descoberta dolorosa da impossibilidade. A criação é o canto cristalino e maravilhoso de quem a carrega. Um canto que atravessa gerações e se eleva ao céu de uma plenitude. O Ser e a Humanidade que se recordam em cada dia das danças esquecidas do baile da eternidade. Força Diogo.
Artur
terça-feira, 24 de setembro de 2013
ADEUS PEDRO
Lembro-me que fazias anos,
lembro-me que nos juntámos vagamente na área de Cascais e, principalmente,
lembro-me que à saída do restaurante marraste que havias de regressar a Lisboa
de mota. E assim foi. Á pendura na mota do Tomás, capacete branco na cabeça,
pés no ar a tactear apoio no vazio. Lembro-me do GNR a mandar parar e a
perguntar ao Tomás se ele não sabia que não podia transportar o filho de mota e
da cara de parvo que fez no momento em que tiraste o capacete da cabeça. Nesse
ano a tua alcunha passou a ser o “astronauta pequenino”. E como este, lembro-me
de dezenas de episódios em que me fartei de rir contigo, das sessões de
“bélinhas” nas testas uns dos outros, das bebedeiras antológicas na Cervejaria
Europa, das jam sessions de guitarra
e piano em tua casa. Ontem tive a triste
notícia que te tinhas ido embora, uma dor
aumentada pelo facto de ainda há uma semana termos estado juntos a
jantar. É certo que o teu estado de saúde já não era animador mas nada fazia
prever este desfecho em tão pouco tempo. No tempo em que virávamos litros de
cerveja na Cervejaria Europa a vida não fazia sentido nenhum. Hoje foi apenas
mais uma confirmação. O que te queria dizer… sei lá o que é que te queria
dizer. Acho que o que queria dizer-te foi aquilo que sempre te disse ao longo
destes 20/30 anos de amizade. O que te queria dizer era que serás sempre, como
sempre, um de nós. Elemento desta família fabulosa que são os nossos amigos.
Que o teu tamanho só nos distraiu durante a primeira hora em que te conhecemos
para nunca mais se perceber sequer que existia. É claro que para as alcunhas
era certo e sabido, mas também, essa era uma regra aplicável a toda a gente.
Todos tínhamos um pé, um olho torto, no fundo a marca que nos individualizava e
distinguia do resto das pessoas, marca essa através da qual se abria a porta
para a entrada das alcunhas. Lembro-me que eras exímio jogador de matraquilhos
na defesa, de que tocavas lindamente, da tua preocupação connosco, com os
outros.
Parece que tudo tem que ter um
fim na lei desta vida, na ordem natural das coisas, neste enunciado absurdo e
caricato de regras que nos são impostas desde o dia em que nascemos. Mas na
nossa tribo, não. Aqui tudo faz sentido porque há uma espécie de fio condutor
que nos une, um fio tecido com solidariedade e amor. Por ele continuamos presos
ao Tomás, que já marchou há mais de vinte anos, sabendo que ele também pensa em
nós de vez em quando. Aliás, tenho a certeza que o gajo que vai estar à tua
espera à saída do túnel encostado a uma “ninja” verde com um capacete branco na
mão…tenho a certeza de que esse gajo é o Tomás e que ele te vai levar de
regresso a casa. A casa para onde todos acabaremos por voltar um dia. Hoje foi
a tua vez. Um grande abraço Pedro. A gente um dia destes encontra-se…
Artur
segunda-feira, 23 de setembro de 2013
terça-feira, 17 de setembro de 2013
UMA RESIGNAÇÃO INQUIETA

“Procuro retratar o
que não deveria ser possível
como se fosse.
Ozu retrata o que
deveria ser possível
como se fosse.”
Kenji Mizoguchi
Considerado no seu país como o
mais japonês dos realizadores japoneses, cujos filmes só teriam interesse para
um auditório exclusivamente doméstico, Yasujiro Ozu (1903 – 1963) e a sua obra
foram um segredo bem guardado ao longo de muitos anos do passado século, tendo
alcançado o reconhecimento universal já após a sua morte. De facto, tendo como
tema central a família, e utilizando sempre o mesmo enquadramento sociológico,
a classe média, poderíamos facilmente atribuir-lhe de forma muito superficial a
categoria de “telenovela” da realidade nipónica. A simplicidade aparente dos
seus filmes transforma-se numa reflexão profunda acerca dos problemas de todos
os homens independentemente da sua cultura ou origem social. Os conflitos
internos de cada um, as relações familiares, a impossibilidade comunicacional,
a gestão da frustração, a separação e perda inevitáveis aquando das passagens
pelo matrimónio ou pela experiência da morte. Dramas vulgares de gente vulgar
sob um manto de aceitação contida e resignada, efeito muito criticado pela
geração de cineastas que se lhe segue.
Nos filmes de Ozu não há heróis
nem vilões, os sentimentos ilustrados são tudo menos grandiosos, extremos.
Todas as pessoas são pessoas comuns. Se bem que haja variações de acordo com as
suas condições económicas, as relações familiares e os seus dramas são
idênticos. Os seus mundos vagueiam em círculos concêntricos, toda a gente se
conhece e todos gostam de todos. Quem não pertence à família directa é vizinho,
colega da escola, camarada da guerra, professor, colega no trabalho.
Numa primeira fase (1927 – 33),
ainda no período do cinema mudo, Ozu irá realizar cerca de duas dezenas de
filmes que se dividem entre a comédia e o realismo social. Desta fase é de
destacar o seu primeiro êxito tanto comercial como a nível da crítica, falamos
de NASCI, MAS… (Umarete wa Mita Keredo) de 32, um filme que ilustra o tema
fundamental da sua obra. Dois irmãos insistem na ideia de que o seu pai é o
maior e decidem dar uma sova no filho do seu patrão para o provar. Em reacção à
atitude de humilhação e subserviência do pai, que se desdobra em pedidos de
desculpas na sequência da briga, resolvem entrar em greve de fome. Ao
observá-lo a entrar para o carro do patrão de manhã, todo contente, percebem
que afinal ele será sempre um empregado que nunca chegará a patrão. Embora bem
definidas as diferenças de níveis de vida nenhum dos lados é mais ou menos
favorecido por causa disso. Tão ridículo é o pai dos miúdos a fumar e a fazer
exercício como o patrão a brincar com a sua máquina de filmar atrás da porta do
escritório e de uma placa que diz “Privado”. Da relação e do desequilíbrio
social para o conflito pai-filho, vemos uma fila indiana de crianças na escola
na aula de educação física e caímos logo a seguir numa outra fila, agora de uma
série de empregados de escritório sentados às suas secretárias exibindo expressões
de sonolência. As instituições que nos absorvem a todos, a escola e o
escritório, impõem uma ordem sem sentido independentemente do estatuto
económico-social.
O conteúdo dos filmes de Ozu ao
longo dos anos 30 tem sido catalogado de “realismo consumado” ou “confirmado”.
Numa época em que floresce a literatura proletária, em que cineastas como
Mizoguchi realizam filmes de leitura nitidamente esquerdista, pondo em causa
toda uma estrutura injusta e diferenciada de classes sociais, Ozu mantém-se fiel
aos dramas típicos de um classe média baixa composta por gente comum. Se bem
que a pobreza faça parte do seu quotidiano, tal como as diferenças de classe, a
mensagem que se pode ler é de aceitação. Uma aceitação alvo de muitas críticas.
Mas se Ozu se afastou dos dramas da classe mais pobre no pós-guerra, mais tarde
acabou por continuar a mergulhar os seus personagens nos mesmos problemas de
sempre. Ozu nunca viu a vida como especialmente desesperante ou particularmente
alegre. Nalguns casos foi através da alegria que encontrou alguma verdade no
homem insignificante. Nos anos 30 o homem “insignificante” foi apanhado no meio
da Grande Depressão; nos anos, 50 não. A preocupação de Ozu com as dificuldades
da vida em ambos os períodos foi muito além das contradições da economia e da
sociedade para se focar num outro nível. O da gestão das expectativas e das
frustrações, da desilusão e da aceitação, do enquadramento do homem através do
cenário familiar. Não se trata de uma questão de ideologia mas de opção artística.
DIÁLOGO, CENÁRIO E A CÂMARA NO CHÃO
Os diálogos eram de um
importância extrema no método de Ozu, sendo mesmo a primeira fase de qualquer
dos seus trabalhos. Eram escritos em parceria com o seu argumentista de muitas
décadas (Noda) focados em actores específicos. Assim como o tempo fílmico está
sujeito à sequência do diálogo, também o espaço por onde os personagens se vão
revelando está sujeito a padrões ou arquétipos geográficos. O lar, o salão de
chá, o restaurante, o bar são os espaços onde não só tem lugar o diálogo como
influenciam e adequam o estado de espírito dominante em que esse mesmo diálogo
tem lugar. Recordações e preocupações
sociais no restaurante, desilusões e nostalgia no bar, problemas domésticos em
casa. Os cenários, sempre limpos e bastante iluminados, não são muito
diferentes de um filme para outro. O despojo cenográfico apenas reforça o papel
dos diálogos. Por outro lado a paisagem, o Plano Geral é também secundarizado
em benefício dos actores e das suas palavras. Em PRIMAVERA TARDIA (BASUHN,
1949) Ozu nunca nos mostra a famosa vista sobre a cidade da varanda do templo
de Kiyomizu, antes filmando virado para dentro mostrando os personagens a
apreciarem a paisagem. Em O FILHO ÚNICO (HITORI MUSUKO, 1936) e A HISTÓRIA
(VIAGEM A) DE TÓQUIO (TOKYO MONOGATARI, 1963), as únicas paisagens urbanas que
visualizamos dizem respeito a um indiferenciado aglomerado de prédios atrás dos
carros ou através das janelas dos autocarros. Sobrepondo-se ao tempo e ao
cenário, a prioridade máxima recaía sobre os actores e o seu modo de
representar. Ozu exigia máxima concentração no mais banal dos movimentos,
evitava a representação demasiado emotiva ou denunciada, criando um clima de
extrema contenção. Por vezes o cenário apresenta-se despido de actores que ou
já saíram de cena ou ainda vão entrar. São momentos de silêncio mas ao mesmo
tempo janelas de reflexão, pausas narrativas que indicam um universo que existe
e respira para lá dos personagens.
A extrema formalização da técnica
de Ozu traz consigo um pormenor até hoje longe de ser consensual quanto à
interpretação. Falamos do ângulo baixo de filmagem. De facto, em nenhum filme
de Ozu os seus personagens são vistos de cima. A colocação da câmara ao nível
do chão, em vez de corresponder ao ângulo de visão de um japonês acomodado no “tatami”
da sua casa, observa-o de baixo. Seja uma visão do corredor, um ângulo da mobília ou alguém deitado no chão, a
perspectiva obriga o espectador a observar de baixo para cima. Masahiro Shinoda chamou-lhe o “ponto de vista de uma entidade
divina inferior a observar a acção humana”. O efeito corresponde a obrigar o
espectador a uma reverência involuntária face à celebração da vida de todos os
dias. Se por um lado o universo de Ozu é composto por personagens contidos,
respeitadores da vida e agentes de um quadro emocional mediano sem oscilações,
por outro, ao fazer a apresentação desse mesmo universo ao público, obriga-o a
venerar essa mediania resignada.
CONCLUSÃO
O desenvolvimento formal da obra
de Ozu consiste essencialmente na refinação e apuramento dos problemas básicos
do quotidiano através de arquétipos, quer de situações quer de personagens. Em
pleno tempo de guerra, 1941, HAVIA UM PAI, o problema essencial é a separação
entre pai e filho. Em 1959, OHAYO a família confronta-se com dificuldades por
causa da disparidade entre o mundo dos adultos e o das crianças. Em TOKYO STORY
os pais confrontam-se com a desilusão causada pelo desenvolvimento da vida dos
seus filhos. Os pais na sua contínua apreciação da vida tentam provar que a
felicidade é ilusória. Nada acontece a não ser porque tem que acontecer, apesar
de ser incontornável uma enorme ausência de satisfação. Despojado da influência
do drama ou da felicidade, o que OZU procura é a ascensão do ser humano que
absorva e sinta a vida na sua totalidade independentemente da sua justiça, do
seu prazer, da sua dor. Uma postura muito influenciada pela cultura Zen do seu
país. A quietude e a aceitação, que não significam necessariamente
concordância, obrigam o ser a abarcar muito mais o mistério da vida do que
contrariando o estado das coisas. Daí a chegada tardia da sua obra aos ecrans
ocidentais. No entanto a recepção mundial dos seus filmes foi imediata. Talvez
pela admiração da atenção dada aos pormenores, talvez pela afirmação da
personalidade do realizador, talvez pela concordância com algumas das suas
fórmulas de apresentar a vida. Os filmes de Ozu não estavam destinados aqueles
que procuram soluções utópicas. No seu universo não há espaço para o amor
romântico e apaixonado, para o sucesso individual de quem triunfa na vida, e
muito menos para uma bem sucedida comunicação entre os seres. Apenas a
aceitação, nunca felicidade, fez parte dos seus personagens independentemente
de classe social, nível cultural ou género. Evitando o virtuosismo técnico e a
estrutura do drama foi directamente ao essencial da condição humana. A vida é
uma “estucha”…
Artur
quinta-feira, 12 de setembro de 2013
O TEMPO DAS HIENAS
Passos isolados num andar
solitário pelas ruas desertas de mais uma noite sobre a cidade. Os cigarros
sabem a vésperas de ataques cardíacos, o álcool acende os sinais vermelhos nos
painéis da morte que se aproxima. Luto com todos eles, sento-me à mesa a
negociar, a pedinchar mais um pouco de tempo, só mais um pouco, o necessário
para acabar o próximo romance. Depois é o que se quiser, estou preparado para
me ir embora sem mágoas, ressentimentos ou tristezas na bagagem. Sei que tem
havido muita coirice da minha parte mas os estímulos são nada e tudo continua
como sempre. Nada faz sentido, nunca fez, pensamento familiar de décadas.
Porque é que haveria de fazer? Está escrito em algum lado? No céu, por exemplo,
na eternidade? Alguém viu o sentido desta merda? Alguém o escondeu no bolso?
Pouco importa. O sentido procura-se, combate-se por ele quando há força e
ingenuidade para o procurar. Continuo a andar pela cidade adormecida com a
guitarra aos ombros, amiga de muitas datas importantes, companheira de sempre,
testemunha, cantigas com amigos numa arrecadação perdida de um prédio
esquecido. Os poemas, as músicas, o resultado dessa procura. Resultado, não.
Não resulta nada desta caminhada a não ser lágrimas e recordações. Caderno de
memórias é o mais apropriado. E, no fundo, é nisso que nos convertemos…em
registadores de memórias. O pensamento chegou cedo para não mais partir. Os
olhos que viam o mundo aos vinte anos são os mesmos olhos que observam agora.
Um país a sair lentamente dos escombros de uma ditadura, um assomo de
progresso, ideias mais humanitárias e uma corja eterna a vigiar pela sombra,
sem nome nem rosto, uma corja imortal que se esconde à espera da melhor altura
para voltar à carga. As hienas que passam horas a observar a manada, seja ele
de zebras ou búfalos, não importa. Este tempo é o das hienas, todo o tempo foi
sempre delas. Nós, o resto, a manada, distrai-se com a brevidade dos pastos
verdes a pensar que eles vão estar sempre ali. Só mais um bocado, cochicho eu
com a morte qual amante desesperado a recuperar uma longa abstinência, só mais
uma antes de partir, só mais um golo a coroar o festival de bola de um jogo
fantástico. A nossa equipa…a nossa equipa não se senta á mesa das hienas, não
tem direito às iguarias nem às lembranças, não pagou a factura da colaboração.
E agora pouco importa quando tudo se desmorona e os cigarros começam a saber a
ataques cardíacos, a passada uma contínua linha solitária, o sentido que não
existe mas que sempre se procurou, as cantigas à volta da arrecadação
clandestina, as histórias que a noite conta. A história que me falta fazer como
testamento de qualquer coisa, tarefa acabada de uma missão que não foi
confiada, o whisky com sabor de morte anunciada. Só mais um pouco. Só mais um
pouco e partirei de livre vontade, feliz, sem estrabuchar. Partirei com o olhar
dos outros que partiram antes, corolário lógico do sentido que nunca existiu.
Mas também com as lágrimas deles, com o olhar da perplexidade da injustiça, com
a raiva pela ignorância do sofrimento gratuito, da barbaridade inútil. Nada faz
sentido, nunca fez. Talvez as canções, talvez as histórias que contamos uns aos
outros em noites escondidas em arrecadações clandestinas. Talvez… Por isso vejo-me obrigado a mendigar
mais um pouco para acabar a próxima história, a última, não tem importância.
Deixar terminá-la antes de fazer a mala. Nada faz sentido e tudo tem de acabar.
Mas, só desta vez, deixem-me terminar.
Artur
quarta-feira, 11 de setembro de 2013
sexta-feira, 30 de agosto de 2013
segunda-feira, 26 de agosto de 2013
terça-feira, 20 de agosto de 2013
O ESPELHO E A REVOLTA
A persistência dos "Tara Perdida", associada à honestidade criativa, cimentou ao longo do tempo o segredo de um sucesso que já se transformou num fenómeno intergeracional. E quando uma banda é apreciada por várias gerações é evidente a razão da sua qualidade.
A luta contra o absurdo da realidade, bem como o estado de revolta inerente, não ocupam todo o espaço da sua proposta musical. Há ainda tempo para repensar o futuro, para manter aberto o diálogo com a consciência. Porque alguém há-de finalmente perceber, como nós percebemos de alguém que nos contou. Porque alguém há-de continuar a afirmar a Liberdade e a Dignidade humanas contra um estado de coisas irracional, violento e injusto, um estado de coisas que vence sempre. Caíremos, geração após geração, derrotados embora dignos, desaparecidos embora livres. Caíremos geração após geração até que um dia serão eles a caír. Porque a força da nossa derrota não é mais do que o esplendor da nossa Razão.
Aos "Tara Perdida" desejamos as maiores felicidades para o futuro. Um grande abraço
Artur
QUANDO WOODSTOCK MORREU EM ALTAMONT
http://altamont.pt/musicas-com-historia-altamont/
Um apontamento extremamente interessante de seguir, de recordação para uns e aprendizagem para outros. Um momento de ruptura na história do rock. Um blog de imensa qualidade. Aconselho vivamente.
Artur
Um apontamento extremamente interessante de seguir, de recordação para uns e aprendizagem para outros. Um momento de ruptura na história do rock. Um blog de imensa qualidade. Aconselho vivamente.
Artur
segunda-feira, 12 de agosto de 2013
THE WATER MARGIN - LIN CHUNG O JUSTICEIRO
E de repente, era Verão na longínqua década de 70 do século passado. As famílias juntavam-se ao longo dos cantos deste Portugal dos pequeninos e celebravam as tão desejadas férias. Ao Sábado depois do almoço os homens ressonavam a sesta e as mulheres lavavam a louça, ensinavam bordados ou davam à língua umas com as outras. As mulheres conseguiram sempre ganhar em qualquer categoria nos campeonatos da versatilidade. Nós, crianças, último e longínquo nível da hierarquia familiar (dois níveis acima de animais domésticos) deixávamos a mesa do almoço e corríamos para a televisão. O Lin Chung era o nosso herói. Gostava principalmente daquele extraordinário narrador ("this men are outlaws, they are bandits") que conseguia meter várias citações, provérbios e ditados populares nas alturas mais quentes em que a porrada fervia. Hoje metem-se comerciais, naquela altura saltava o Confúcio. O episódio acabava e era certo e sabido que até nos deixarem sair para a praia iríamos aplicar os conhecimentos adquiridos, uns nos outros. Era porradaria de meia noite entre primos, irmãos e o mais que estivesse à mão. O cão ladrava, os bibelots caiam no chão, a conversa das mulheres era interrompida, os homens acordavam da sesta. Um(a) iluminado(a) berrava: "Metam essa canalha lá fora antes que partam a casa toda." Abria-se o portal e a manada saía em urros permanentes, qual exército de Lin Chung a caminho da praia, agarrados às toalhas como se fossem mantos, ao soquete em tudo o que estivesse à mão. Nessas gloriosas tardes de Verão ninguém morreu mas também ninguém cumpria religiosamente o período da digestão antes de se atirar ao mar. E tudo graças a esse lendário herói chinês, o extraordinário LIN CHUNG.
Artur
quinta-feira, 8 de agosto de 2013
A ESCOLA PRIMÁRIA (OU A SUA FALTA) REVISITADA
Caro Professor Doutor Marco António Costa:
Esta missiva tem por objectivo esclarecê-lo sobre algumas especificidades da língua portuguesa que, pelo vistos, V. Exa. ignora. Este desígnio decorre do incómodo que me provoca uma personalidade do calibre de V. Exa. se exprimir erroneamente numa entrevista televisiva, em horário nobre, constituindo um péssimo exemplo para a população em geral e para os estudantes em particular, pondo em perigo todo o esforço de "excelência e rigor" que, com tanto denodo e merecido sucesso, tem vindo a ser implementado pelo Professor Doutor Nuno Crato. É que, veja V. Exa., não basta querer ser "empreendedor" e cheio de "sinergias"; é preciso que tanta sinergia empreendedora se exprima num português minimamente correcto.
De facto, numa entrevista ontem concedida ao Professor Doutor Mário Crespo, V. Exa. referiu-se aos efeitos dos nefastos "swaps" nos seguintes termos: "swaps destinados a mascarar, a esconder, já ouvi maquilhar, dissimular, os adjectivos têm sido muitos..." (sic), e logo a seguir: "instrumentos para maquilhar, dissimular, esconder, modificar, adulterar, o adjectivo é indiferente..." (sic), e ainda "um conjunto de instrumentos financeiros utilizados para deliberadamente esconder a dívida público. Há vários adjectivos que foram usados" (sic). Tal persistência no erro, longe de ser um equívoco passageiro, indica uma convicção. Ora, como toda a gente sabe, uma convicção deste calibre não é boa conselheira e, assente num erro básico, constitui uma catástrofe generalizada e altamente prejudicial para a imagem de V. Exa. E em que consiste esse erro ? No facto de os sintagmas "mascarar, esconder, maquilhar, dissimular, modificar, adulterar, etc." não serem adjectivos, mas sim formas verbais. A diferença, em termos muito gerais, consiste no seguinte: os verbos indicam acções, enquanto que os adjectivos qualificam e conferem atributos a sujeitos ou objectos. Para melhor ilustração de V. Exa, forneço alguns exemplos práticos. na frase "Vou ali à Tecnoforma e já venho", as formas verbais (assinaladas a negrito) são as conjugações do verbo ir (presente do indicativo, primeira pessoa do singular). A frase não contém nenhum adjectivo; apenas formas verbais,advérbios (de modo, já, e complemento à) e um nome próprio, ou substantivo (Tecnoforma). Por outro lado, se eu disser "A Tecnoforma é uma vigarice", o adjectivo é constituído pelo sintagma "vigarice" (assinalado a negrito), que qualifica o nome próprio "Tecnoforma". Aproveitando a ocasião, informo-o que o presente do conjuntivo do verbo ser, não é "sejemos", mas sim "sejamos".
Posto isto, surge-me (infinito pessoal reflexivo do verbo surgir) a seguinte sugestão para resolver esta embrulhada dos malfadados (adjectivo) swaps e dos documentos forjados: não terá sido o Rui Rio a armar toda esta cabala, a fim de embaraçar o Professor Doutor Luís Filipe Menezes e a Professora Doutora Albuquerque ? Medite nisto e creia-me sempre à disposição de V. Exa. para eventuais esclarecimentos e, quem sabe, para um pequeno e modesto lugarzinho como consultor linguístico-político-cabalístico !?
Com os melhores cumprimentos
Arnaldo Mesquita
quarta-feira, 7 de agosto de 2013
TENHAM MEDO, TENHAM MUITO MEDO
Ontem, o Prof. Dr. António Pires de Lima, nouvel Ministro da Economia deste novo circo governativo, deslocou- se ao Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina, acompanhado de uma legião de empresários, a fim de promover a exploração turística desse litoral, o único do país que ainda preserva a sua beleza natural intocada, os grandes horizontes abertos sobre o mar e sobre os campos, a paz de algumas praias semi-selvagens. Não ficará assim por muito tempo. Esta é uma certeza quase absoluta, a julgar pelo cadastro desta gente que por ali se pavoneou, impante e ronceira, cheia de si mesma e da sua colossal importância, enfeitando-se com as tradicionais e paupérrimas frases pontuadas pelas palavras "sinergia", "empreendedorismo" e baboseiras quejandas. O referido cadastro inclui alguns "feitos" notáveis: foi um ministro do CDS que autorizou o abate de milhares de sobreiros em Benavente (eram árvores pouco empreendedoras), a benefício do Banco Espírito Santo e das suas sinergias; foi um ministro do CDS que, já demitido, despachou centenas de autorizações numa só tarde, lesivas do interesse público (construções ilegais na Serra da Arrábida, etc.). O partido do Jacinto Leite Capelo Rego e de outras luminárias do mesmo calibre, estende a passadeira vermelha para que o BES e outras associações de malfeitores venham a transformar o último recanto do litoral português não conspurcado num outro Algarve, isto é, numa merda em três actos, digno do focinho de quem autoriza tais projectos em benefício de interesses privados e em prejuízo do bem comum, contribuindo para que Portugal continue a ser o país mais feio e abastardado da Europa, uma espécie de sarjeta a céu aberto ou caixote do lixo mobilado com fancaria e ferro-velho, uma representação fiel da cabeça desta gente ordinária, viciosa, corrupta e venal.
terça-feira, 6 de agosto de 2013
MAIS UMA CRÓNICA DO BAIRRO
Campo de Ourique, anos 80, fim de
uma tarde de Verão. Na tasca do “João dos Cornos” (hoje convertida em
restaurante fino para “gourmetzinhos” e papalvos em geral) a happy hour ia a meio caminho da sua
duração. O terceiro jarro de vinho acelerava os insultos e aumentava a
algazarra entre os bêbados. Juras de vida e morte, promessas de tareias com
alguns socos no vazio a fazer de cartões de visita, a voz do papagaio Zebedeu
nos intervalos dos insultos ( “ oh cabrão, oh cabrãããõ, já pagaste..?). Zebedeu
era o encanto e o ex-libris do “João dos Cornos”. Todos os dias de manhã a
gaiola era pendurada cá fora mesmo em frente ao bulício do mercado. Entre
assobios a dois tons, “bons dias” e “olás”, o Zebedeu ia cumprimentando os
passantes. A partir das cinco da tarde trocava o Cd e o desempenho vocal
complicava-se. Talvez por ausência do Sol, o Zebedeu ficava furioso e
reclamava. Saltava para o capítulo do vernáculo e desatava a insultar tudo e
todos pela falta de luz. Era nessa altura que o dono o vinha buscar para o
pendurar lá dentro. A retirada do Zebedeu coincidia com a altura da saída do
trabalho, momento de enchente e aumento da clientela.
No Verão não se passava nada no
bairro. As férias, o calor e aquele lento passar dos dias contribuíam para que
uma espécie de encanto adormecesse as ruas. Não se passar nada, é uma maneira
de dizer. Acabava sempre por acontecer qualquer coisa desde o encontro Lisboa –
Madrid de danças de salão na Alunos de Apolo em Junho, até ao início do
campeonato nacional de futebol em finais de Setembro, passando por ocasionais
cenas de violência doméstica virada para o exterior, muito apreciadas enquanto
numero de variedades pela população residente. Naquela década fantástica a
minha geração resolveu deixar o seu contributo para as actividades de veraneio
no bairro. Tratava-se dos acidentes de automóvel, um número sempre atractivo
com casa cheia garantida e participação inesgotável da audiência palpiteira.
Essa atracção foi magnificamente inaugurada pelo meu amigo Lapas, imortalizado
no “Atrás do Pôr do Sol” no papel de “Broncas”. O Lapas, além de ter o pé
pesado sobre o acelerador, acabou por se especializar em capotar carros. Ao fim
da quinta ou sexta manobra deste tipo, acabou por morrer. Não vos vou contar
alguns dos mais incríveis acidentes do género que ele teve porque tenho a
certeza que não iriam acreditar, por isso vou-me limitar a referir a tarde de
estreia.
Estávamos sentados na esplanada
do café quando um tipo entrou esbaforido aos gritos. “ Malta, o Lapas
espetou-se, teve um grande acidente, uma cena muito má mesmo, não sei se não
haverá mortos. Foi muito violento, venham depressa.” Entre o espanto e a
suspeita de exagero lá nos fomos levantando, alguns aproveitando para fazer a
finta a pagar a imperial, e correndo na direcção do acontecimento. Quando
chegámos o cenário era digno de uma qualquer grande produção cinematográfica. O
carro do Lapas estava tombado com o tejadilho encostado às portas da tasca do
“João dos Cornos”. Lá dentro os bêbados aos gritos que não conseguiam sair, que
iam morrer, etc. O Zebedeu juntava-se ao coro insultando as mães e as mulheres
de toda a gente. Dois bombeiros preparavam-se para serrar uma porta para tirar
o Lapas lá de dentro. Um deles, que não conhecia o Zebedeu ergueu a cabeça e a
voz “ ‘tás a chamar cabrão a quem, pá ?”
Lá lhe tivemos que explicar que era um papagaio. A cerca de uma dezena de
metros, no cruzamento anterior, uma respeitável e veneranda senhora de idade
estava sentada dentro de um Citroen Dyane, branca como a cal. A frente do carro
tinha desaparecido o que permitia ver as pernas e os pés da senhora ao ar
livre. Balbuciava sons imperceptíveis, recusava-se a sair do carro. Quando
finalmente conseguiu falar, repetia insistentemente “o meu marido…os documentos…o
meu marido…os documentos” enquanto a bombeira tentava saber se lhe doía alguma
coisa, onde morava, etc. Ora,
rebobinando e tentando reconstruir o ocorrido, como diria o policia que
apareceu uma hora depois a tresandar a vinho, o Lapas atravessava a quadrícula
pombalina do bairro em linha recta. Se o cruzamento lhe dava prioridade, então
nem sequer abrandava. Dava-lhe um cheirinho de acelerador para atravessar mais
depressa. A senhora do Dyane deslocava-se em marcha lenta, andamento típico
para o seu estatuto. Abordou o cruzamento com todas as cautelas, abrandou e
deixou apenas que o nariz do carro cheirasse se vinha alguém. O Lapas apareceu
exactamente nessa altura, varreu a frente do carro, levantou em duas rodas e
foi a dançar até à tasca, acabando por tapar as duas únicas portas com o
tejadilho. Estava portanto concluído o número de circo daquela semana, numa
verdadeira apoteose folclórica. Felizmente ninguém se aleijou e os estragos
limitaram-se a chapa torcida e horas extras para as seguradoras. Não sei se era
do ar se da ausência de humidade, o que sei é que no Verão os dias no bairro
eram sempre estranhamente excitantes.
Artur
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