sexta-feira, 30 de agosto de 2013

SEAMUS HEANEY

                                                                  (1939 - 2013)

terça-feira, 20 de agosto de 2013

O ESPELHO E A REVOLTA


As palavras e a musica nascem à sombra de dois conflitos principais. Entre o homem e o mundo, e entre o homem e a sua própria consciência.. Quando o mundo é mais forte (quase sempre) a consciência reclama, incomoda, faz da revolta um estado natural, muito para além da inutilidade. Quando a consciência vence, o mundo esmaga, extingue, quase anulando a força do Ser. E é neste conflito permanente entre o Ser e a realidade, é neste espaço que explode a criatividade, ultimo e único território onde a Liberdade não se consegue apagar. É por estas bandas que podemos encontrar fenómenos como os "Tara Perdida", sacerdotes da teimosia e da independência criativa. Cinco anos depois de "Nada a Esconder" , a banda volta à  carga com "Dono do Mundo", um trabalho surpreendente apenas para desconhecidos. Fiéis ao seu registo de sempre (punk), sobressai a versatilidade dos arranjos reforçada pela maturidade das guitarras. Ainda e sempre com palavras de intervenção, plenas de raiva e protesto porque, ainda e sempre, nada muda sobre uma realidade imbecilmente parada.
A persistência dos "Tara Perdida", associada à honestidade criativa, cimentou ao longo do tempo o segredo de um sucesso que já se transformou num fenómeno intergeracional. E quando uma banda é apreciada por várias gerações é evidente a razão da sua qualidade.
A luta contra o absurdo da realidade, bem como o estado de revolta inerente, não ocupam todo o espaço da sua proposta musical. Há ainda tempo para repensar o futuro, para manter aberto o diálogo com a consciência. Porque alguém há-de finalmente perceber, como nós percebemos de alguém que nos contou. Porque alguém há-de continuar a afirmar a Liberdade e a Dignidade humanas contra um estado de coisas irracional, violento e injusto, um estado de coisas que vence sempre. Caíremos, geração após geração, derrotados embora dignos, desaparecidos embora livres. Caíremos geração após geração até que um dia serão eles a caír. Porque a força da nossa derrota não é mais do que o esplendor da nossa Razão.
Aos "Tara Perdida" desejamos as maiores felicidades para o futuro. Um grande abraço

Artur

QUANDO WOODSTOCK MORREU EM ALTAMONT

http://altamont.pt/musicas-com-historia-altamont/

Um apontamento extremamente interessante de seguir, de recordação para uns e aprendizagem para outros. Um momento de ruptura na história do rock. Um blog de imensa qualidade. Aconselho vivamente.

Artur

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

THE WATER MARGIN - LIN CHUNG O JUSTICEIRO


E de repente, era Verão na longínqua década de 70 do século passado. As famílias juntavam-se ao longo dos cantos deste Portugal dos pequeninos e celebravam as tão desejadas férias. Ao Sábado depois do almoço os homens ressonavam a sesta e as mulheres lavavam a louça, ensinavam bordados ou davam à língua umas com as outras. As mulheres conseguiram sempre ganhar em qualquer categoria nos campeonatos da versatilidade. Nós, crianças, último e longínquo nível da hierarquia familiar (dois níveis acima de animais domésticos) deixávamos a mesa do almoço e corríamos para a televisão. O Lin Chung era o nosso herói. Gostava principalmente daquele extraordinário narrador ("this men are outlaws, they are bandits") que conseguia meter várias citações, provérbios e ditados populares nas alturas mais quentes em que a porrada fervia. Hoje metem-se comerciais, naquela altura saltava o Confúcio. O episódio acabava e era certo e sabido que até nos deixarem sair para a praia iríamos aplicar os conhecimentos adquiridos, uns nos outros. Era porradaria de meia noite entre primos, irmãos e o mais que estivesse à mão. O cão ladrava, os bibelots caiam no chão, a conversa das mulheres era interrompida, os homens acordavam da sesta. Um(a) iluminado(a) berrava: "Metam essa canalha lá fora antes que partam a casa toda." Abria-se o portal e a manada saía em urros permanentes, qual exército de Lin Chung a caminho da praia, agarrados às toalhas como se fossem mantos, ao soquete em tudo o que estivesse à mão. Nessas gloriosas tardes de Verão ninguém morreu mas também ninguém cumpria religiosamente o período da digestão antes de se atirar ao mar. E tudo graças a esse lendário herói chinês, o extraordinário LIN CHUNG.

Artur

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

A ESCOLA PRIMÁRIA (OU A SUA FALTA) REVISITADA





Caro Professor Doutor Marco António Costa:

Esta missiva tem por objectivo esclarecê-lo sobre algumas especificidades da língua portuguesa que, pelo vistos, V. Exa. ignora. Este desígnio decorre do incómodo que me provoca uma personalidade do calibre de V. Exa. se exprimir erroneamente numa entrevista televisiva, em horário nobre, constituindo um péssimo exemplo para a população em geral e para os estudantes em particular, pondo em perigo todo o esforço de "excelência e rigor" que, com tanto denodo e merecido sucesso, tem vindo a ser implementado pelo Professor Doutor Nuno Crato. É que, veja V. Exa., não basta querer ser "empreendedor" e cheio de "sinergias"; é preciso que tanta sinergia empreendedora se exprima num português minimamente correcto.
De facto, numa entrevista ontem concedida ao Professor Doutor Mário Crespo, V. Exa. referiu-se aos efeitos dos nefastos "swaps" nos seguintes termos: "swaps destinados a mascarar, a esconder, já ouvi maquilhar, dissimular, os adjectivos têm sido muitos..." (sic), e logo a seguir: "instrumentos para maquilhar, dissimular, esconder, modificar, adulterar, o adjectivo é indiferente..." (sic), e ainda "um conjunto de instrumentos financeiros utilizados para deliberadamente esconder a dívida público. Há vários adjectivos que foram usados" (sic). Tal persistência no erro, longe de ser um equívoco passageiro, indica uma convicção. Ora, como toda a gente sabe, uma convicção deste calibre não é boa conselheira e, assente num erro básico, constitui uma catástrofe generalizada e altamente prejudicial para a imagem de V. Exa. E em que consiste esse erro ? No facto de os sintagmas "mascarar, esconder, maquilhar, dissimular, modificar, adulterar, etc." não serem adjectivos, mas sim formas verbais. A diferença, em termos muito gerais, consiste no seguinte: os verbos indicam acções, enquanto que os adjectivos qualificam e conferem atributos a sujeitos ou objectos. Para melhor ilustração de V. Exa, forneço alguns exemplos práticos. na frase "Vou ali à Tecnoforma e já venho", as formas verbais (assinaladas a negrito) são as conjugações do verbo ir (presente do indicativo, primeira pessoa do singular). A frase não contém nenhum adjectivo; apenas formas verbais,advérbios (de modo, já, e complemento à) e um nome próprio, ou substantivo (Tecnoforma). Por outro lado, se eu disser "A Tecnoforma é uma vigarice", o adjectivo é constituído pelo sintagma "vigarice" (assinalado a negrito), que qualifica o nome próprio "Tecnoforma". Aproveitando a ocasião, informo-o que o presente do conjuntivo do verbo ser, não é "sejemos", mas sim "sejamos".
Posto isto, surge-me (infinito pessoal reflexivo do verbo surgir) a seguinte sugestão para resolver esta embrulhada dos malfadados (adjectivo) swaps e dos documentos forjados: não terá sido o Rui Rio a armar toda esta cabala, a fim de embaraçar o Professor Doutor Luís Filipe Menezes e a Professora Doutora Albuquerque ? Medite nisto e creia-me sempre à disposição de V. Exa. para eventuais esclarecimentos e, quem sabe, para um pequeno e modesto lugarzinho como consultor linguístico-político-cabalístico !?

Com os melhores cumprimentos

Arnaldo Mesquita

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

TENHAM MEDO, TENHAM MUITO MEDO




Ontem, o Prof. Dr. António Pires de Lima, nouvel Ministro da Economia deste novo circo governativo, deslocou- se ao Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina, acompanhado de uma legião de empresários, a fim de promover a exploração turística desse litoral, o único do país que ainda preserva a sua beleza natural intocada, os grandes horizontes abertos sobre o mar e sobre os campos, a paz de algumas praias semi-selvagens. Não ficará assim por muito tempo. Esta é uma certeza quase absoluta, a julgar pelo cadastro desta gente que por ali se pavoneou, impante e ronceira, cheia de si mesma e da sua colossal importância, enfeitando-se com as tradicionais e paupérrimas frases pontuadas pelas palavras "sinergia", "empreendedorismo" e baboseiras quejandas. O referido cadastro inclui alguns "feitos" notáveis: foi um ministro do CDS que autorizou o abate de milhares de sobreiros em Benavente (eram árvores pouco empreendedoras), a benefício do Banco Espírito Santo e das suas sinergias; foi um ministro do CDS que, já demitido, despachou centenas de autorizações numa só tarde, lesivas do interesse público (construções ilegais na Serra da Arrábida, etc.). O partido do Jacinto Leite Capelo Rego e de outras luminárias do mesmo calibre, estende a passadeira vermelha para que o BES e outras associações de malfeitores venham a transformar o último recanto do litoral português não conspurcado num outro Algarve, isto é, numa merda em três actos, digno do focinho de quem autoriza tais projectos em benefício de interesses privados e em prejuízo do bem comum, contribuindo para que Portugal continue a ser o país mais feio e abastardado da Europa, uma espécie de sarjeta a céu aberto ou caixote do lixo mobilado com fancaria e ferro-velho, uma representação fiel da cabeça desta gente ordinária, viciosa, corrupta e venal.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

MAIS UMA CRÓNICA DO BAIRRO


 

 

Campo de Ourique, anos 80, fim de uma tarde de Verão. Na tasca do “João dos Cornos” (hoje convertida em restaurante fino para “gourmetzinhos” e papalvos em geral) a happy hour ia a meio caminho da sua duração. O terceiro jarro de vinho acelerava os insultos e aumentava a algazarra entre os bêbados. Juras de vida e morte, promessas de tareias com alguns socos no vazio a fazer de cartões de visita, a voz do papagaio Zebedeu nos intervalos dos insultos ( “ oh cabrão, oh cabrãããõ, já pagaste..?). Zebedeu era o encanto e o ex-libris do “João dos Cornos”. Todos os dias de manhã a gaiola era pendurada cá fora mesmo em frente ao bulício do mercado. Entre assobios a dois tons, “bons dias” e “olás”, o Zebedeu ia cumprimentando os passantes. A partir das cinco da tarde trocava o Cd e o desempenho vocal complicava-se. Talvez por ausência do Sol, o Zebedeu ficava furioso e reclamava. Saltava para o capítulo do vernáculo e desatava a insultar tudo e todos pela falta de luz. Era nessa altura que o dono o vinha buscar para o pendurar lá dentro. A retirada do Zebedeu coincidia com a altura da saída do trabalho, momento de enchente e aumento da clientela.

No Verão não se passava nada no bairro. As férias, o calor e aquele lento passar dos dias contribuíam para que uma espécie de encanto adormecesse as ruas. Não se passar nada, é uma maneira de dizer. Acabava sempre por acontecer qualquer coisa desde o encontro Lisboa – Madrid de danças de salão na Alunos de Apolo em Junho, até ao início do campeonato nacional de futebol em finais de Setembro, passando por ocasionais cenas de violência doméstica virada para o exterior, muito apreciadas enquanto numero de variedades pela população residente. Naquela década fantástica a minha geração resolveu deixar o seu contributo para as actividades de veraneio no bairro. Tratava-se dos acidentes de automóvel, um número sempre atractivo com casa cheia garantida e participação inesgotável da audiência palpiteira. Essa atracção foi magnificamente inaugurada pelo meu amigo Lapas, imortalizado no “Atrás do Pôr do Sol” no papel de “Broncas”. O Lapas, além de ter o pé pesado sobre o acelerador, acabou por se especializar em capotar carros. Ao fim da quinta ou sexta manobra deste tipo, acabou por morrer. Não vos vou contar alguns dos mais incríveis acidentes do género que ele teve porque tenho a certeza que não iriam acreditar, por isso vou-me limitar a referir a tarde de estreia.

Estávamos sentados na esplanada do café quando um tipo entrou esbaforido aos gritos. “ Malta, o Lapas espetou-se, teve um grande acidente, uma cena muito má mesmo, não sei se não haverá mortos. Foi muito violento, venham depressa.” Entre o espanto e a suspeita de exagero lá nos fomos levantando, alguns aproveitando para fazer a finta a pagar a imperial, e correndo na direcção do acontecimento. Quando chegámos o cenário era digno de uma qualquer grande produção cinematográfica. O carro do Lapas estava tombado com o tejadilho encostado às portas da tasca do “João dos Cornos”. Lá dentro os bêbados aos gritos que não conseguiam sair, que iam morrer, etc. O Zebedeu juntava-se ao coro insultando as mães e as mulheres de toda a gente. Dois bombeiros preparavam-se para serrar uma porta para tirar o Lapas lá de dentro. Um deles, que não conhecia o Zebedeu ergueu a cabeça e a voz “  ‘tás a chamar cabrão a quem, pá ?” Lá lhe tivemos que explicar que era um papagaio. A cerca de uma dezena de metros, no cruzamento anterior, uma respeitável e veneranda senhora de idade estava sentada dentro de um Citroen Dyane, branca como a cal. A frente do carro tinha desaparecido o que permitia ver as pernas e os pés da senhora ao ar livre. Balbuciava sons imperceptíveis, recusava-se a sair do carro. Quando finalmente conseguiu falar, repetia insistentemente “o meu marido…os documentos…o meu marido…os documentos” enquanto a bombeira tentava saber se lhe doía alguma coisa, onde morava, etc.  Ora, rebobinando e tentando reconstruir o ocorrido, como diria o policia que apareceu uma hora depois a tresandar a vinho, o Lapas atravessava a quadrícula pombalina do bairro em linha recta. Se o cruzamento lhe dava prioridade, então nem sequer abrandava. Dava-lhe um cheirinho de acelerador para atravessar mais depressa. A senhora do Dyane deslocava-se em marcha lenta, andamento típico para o seu estatuto. Abordou o cruzamento com todas as cautelas, abrandou e deixou apenas que o nariz do carro cheirasse se vinha alguém. O Lapas apareceu exactamente nessa altura, varreu a frente do carro, levantou em duas rodas e foi a dançar até à tasca, acabando por tapar as duas únicas portas com o tejadilho. Estava portanto concluído o número de circo daquela semana, numa verdadeira apoteose folclórica. Felizmente ninguém se aleijou e os estragos limitaram-se a chapa torcida e horas extras para as seguradoras. Não sei se era do ar se da ausência de humidade, o que sei é que no Verão os dias no bairro eram sempre estranhamente excitantes.

 

Artur

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

UM QUINTAL. UM MENINO. UM GARNISÉ - GALINÁCEOS II



O menino é considerado um génio lá no quintal.
O menino diz o que lhe apetece.
O menino diz o que lhe apetece ou para fazer gracinha, diz de uma forma convincente o que o mandam dizer e porque não, o que julga que os outros querem ouvir para manter a assistência entretida, embevecida e fascinada pela desenvoltura e facilidade na expressão oral. Nisto, a plateia com os olhos fixos e fio de baba a escorrer-lhe pelo canto da boca, abstém-se de pensar e fica num modo puramente auditivo em estado catatónico.
O menino rejubila pelo efeito que tem na audiência. Os outros não sabem de tudo tanto como o menino, nem das suas próprias ocupações independentemente de há quanto tempo e como as exerçam. O menino julga ter a capacidade de mergulhar nos universos todos e de todos, e vir de lá encharcado de conhecimento, que digere como ninguém para a seguir servir aos que o adoram ouvir. O menino não defeca que isso é uma imundície reservada aos seres menores. Bolsa. Bolsa de uma forma absurdamente sublime com aquele ar enjoado, para todos os que inquestionavelmente querem aproveitar o bolsado.
O menino ás vezes excede-se naquilo que distribui.
Não que lhe seja fácil reconhecer os próprios erros. Não. Quando muito, os eventuais raros erros dele são influenciados por outros. Ele nunca se engana e raramente tem dúvidas. Sabe no entanto que há pelo menos outro assim que também pensa o mesmo de si próprio. É o pináculo-mor! Mas esse é muito mais honesto porque quem queira ser tão sério como ele, teria de nascer duas vezes. Ele que saiba, só ainda nasceu uma vez, ou… porque não mais? Ah! Pois é! Ele só acredita nele próprio e os seus desígnios e opiniões deveriam constituir-se numa religião a seguir por todos. Ele é tão especial e omnisciente que não morre como os outros. Logo, não precisa de voltar a nascer.
Tal como o pináculo-mor, o tal que também é sério e honesto, e que pode fazer toda uma panóplia de cenas maradas com o seu grupo de amigalhaços mais próximos escolhidos a dedo, porque... também são muito sérios e honestos. Ah! E idóneos! E nada lhes chega. E nada lhes cai em cima. Nem a responsabilização das suas sacanices que são pagas com o trabalho dos que estão a babar-se frente à televisão do quintal, enquanto ouvem o menino e milhentas outras coisas mundanas apresentadas narcotica e aditivamente.
Mas entretanto o menino no meio de tanto entusiasmo, empolgou-se e excedeu-se com o tal que é o pináculo da criação. O outro pináculo. O pináculo-mor daquele quintal. Qual garnisé mascarado com tantas cores como um palhaço.

Não devia.
‘’
Não porque não ache que o pináculo-mor em si mereça ser respeitado, mas antes porque o pedestal deve-se manter imaculado, incorrupto e só assim ser merecedor da reverência que lhe é devida. Mas não, o garnisé que lá está em cima alivia-se à vontade, aspergindo de excreções o pedestal onde poisou e tudo à sua volta. Os que estão à espera do ovo do garnisé (como se os garnisés pusessem ovos!...) não o podem enxotar atirando algo que o faça sair, nem gritando, nem soprando. E vão acreditando no ovo do garnisé.
E assim vão esperando, esperando, esperando por uma epifania que tarda e não se anunciará. O Sol vai-se pondo no horizonte e a noite já espreita. A escuridão acerca-se.
O garnisé está numa redoma. Raramente estica o pescoço e de cabeça empertigadamente inclinada, olha para fora com o seu olho esbugalhado, ampliado pela convexidade. O vidro da redoma é tão espesso que ele não vê o que se passa à sua volta e a sua realidade, o seu universo resume-se ao que se passa do lado de dentro do vidro onde apenas os tais amigalhaços têm espaço de acesso, num acesso ilimitado. Pouco mais conhece… sendo que esse pouco mais, é-lhe soprado pelos que lá entram ou por informadores a soldo de outros. Outros que vivem na sombra. Faustosamente. 
Quando raramente o levam dentro da redoma e em cima do pedestal a passear, tem uma predilecção especial por cagarras ou em apreciar animais grandes, nomeadamente vacas. Principalmente o sorriso delas e a satisfação com que ruminam a viçosidade dos pastos.
Uns animais supostamente irracionais, arrebanhados dentro de cercas, serenos, conformados.

Carne para abate.



Hélder

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

EL CONDOR PASA

SANTUARIO DEL CONDOR

PERU - 1996
 


                                                             Por Sofia P. Coelho

 

quarta-feira, 31 de julho de 2013

MARTIN EM BERLIM (II)




As biografias de Luchino Visconti (sigo a de Laurent Schifano, a mais rigorosa e exaustiva) referem um dos factos essenciais da vida do cineasta: Visconti, assim como outras personalidades do cinema italiano, nomeadamente Roberto Rossellini, Luigi Chiarini e Aldo, entre outros, alistou-se nas fileiras da Resistência e participou nas actividades clandestinas dos grupos partisans. Foi detido em casa de um amigo, onde se tinha refugiado pouco depois da carnificina das Fossas Ardentinas. O dirigente nazi Koch, que conduziu pessoalmente o interrogatório de Visconti, deu ordem para que fosse fuzilado. Passou nove dias numa cela de um metro quadrado, antes da sua transferência para prisão Celio para ser entregue aos alemães. A aproximação das tropas aliadas e o ambiente final de caos e confusão fizeram com que os próprios guardas o ajudassem a escapar. Esta marca traumática nunca o abandonou.

Durante os anos sessenta falou-se a todo o momento de compromissos. Pessoalmente, sempre achei que há uma espécie de erro de princípio quando se postula um cinema ou uma literatura obrigatoriamente comprometida politicamente. Um filme não é comprometido de antemão. Torna-se ou não comprometido, quer o realizador o proponha ou não. Alguém se compromete porque tem uma ideia do mundo pela qual daria a vida (por isso invoquei atrás o episódio da condenação à morte de Visconti), e essa é uma atitude ética. Nessa aposta, o máximo que um homem arrisca é a sua própria pessoa. Visconti nunca quis ser um ideólogo, mas somente um realizador de cinema e, como tal, sabia intuitivamente que a verdade da arte não pode residir nunca numa clara mensagem doutrinária, por mais autêntica que seja, mas apenas na sua beleza herética. Apesar do compromisso pessoal de Visconti (repito: pessoal e não artístico), foi alvo de críticas muito agressivas por parte da esquerda, que o acusava de ter representado uns príncipes da indústria que na sua adesão ao Mal e na sua própria queda, são reflexo de uma espécie de auréola épica que, de algum modo, podia estender-se também ao nazismo. Quem assim pensa, e são muitos, não compreendeu nada do filme. Se Visconti não fosse um refinado aristocrata, jamais poderia ter dissecado esse mundo como o fez: se não tivesse retido na memória os pormenores da sua infância (o palácio da Via Cerva, as grandes mesas cobertas de linho, a legião de criados e de servidores, o esplendor do luxo e da riqueza) e também não teria a capacidade de actualizar as suas sensações. Ainda mais, na própria desmesura e exaltação da decadência, no fundo e na forma, existe uma profunda sátira, quase caricatural, de tudo aquilo que o Terceiro Reich tinha de "mise-en-scène", de imitação e pastiche de uma apoteose fingida. O esquema teatral de "Os Malditos", a sua grandiloquência operática, é justamente o que lhe permite explicar a essência do fascismo como simulacro. Dito isto, por muito que eu ame exaltadamente este filme, por muito que os seus defeitos me enterneçam e os seus méritos me incomodem (um dia explicarei este paradoxo), tenho que reconhecer que a História não lhe deu razão. A sua visão das ascensão do nacional-socialismo não se ajusta aos factos conhecidos. O destino dos Krupp - cujo feudo industrial tinha o seu núcleo na cidade de Essen e que são representados no filme pela família Essenbeck - desmente o desenlace crepuscular concebido por Visconti. Na realidade, os grandes industriais que sobreviveram ao nazismo e que inclusivamente reconstruiram os seus impérios no pós-guerra, são mais numerosos do que aqueles que foram destruídos pelo regime. Verifico no alfarrábio que Alfred Krupp, membro das SS, que deteve mais de cem fábricas em Auschwitz, onde trabalhavam deportados reduzidos à condição de escravos e crianças de todas as idades forçados a contribuir para o esforço de guerra até ao esgotamento, foi condenado pelo Tribunal de Nuremberga a 12 anos de prisão. Cumpriu três e foi-lhe devolvida a fortuna. Por outro lado, o Terceiro Reich promoveu uma imensa legião de pequeno-burgueses medíocres, para quem os referentes intelectuais e culturais da grande civilização centro-europeia eram zeros absolutos: vendedores de electrodomésticos e de apólices de seguros, fabricantes de insígnias com a efígie de Hitler, produtores de aspirinas... gente que não aparece em nenhum momento do crepúsculo dos deuses narrado por Visconti. De resto, o cineasta nunca se preocupou muito com a verdade histórica, nem o filme se situa nos limites estritos do contexto histórico. Vai muito para além disso. Num determinado momento, as personagens convertem-se em símbolos. Não é estritamente um filme sobre a origem do nazismo, mas um filme situado nessa época a fim de gerar uma determinada catarse por meio das personagens: é toda uma fábula de denúncia da aliança entre nazis e os grandes industriais alemães. Poderia qualificar-se, como tem sido dito, como uma espécie de Macbeth moderno, onde os magnates da indústria substituem os reis imaginados por Shakespeare. O instrumento do seu poder é o dinheiro. O templo do seu culto é o coração das fundições, essa entranha ardente das fábricas.
De algum modo, Visconti considera que essa história bestial de vontade de poder tem a sua versão contemporânea nos acontecimentos que começam a 2 de Fevereiro de 1933, no momento em que o nazismo se impõe à Alemanha, como se fosse uma data fatídica semelhante às que são anunciadas pelas bruxas da floresta de Birnam. Na biografia que já citei, Laurent Schifano conta que, depois da guerra, o patriarca dos Krupp, sentado no grande salão da sua casa sofria de alucinações e apontava tremendo as sombras espectrais que se amontoavam nas vidraças das janelas exigindo vingança: trabalhadores nus, com o corpo avermelhado pelas chamas, mulheres esfarrapadas, crianças judias. "Quem são estas pessoas", murmurava atormentado como Macbeth: "o que se passa comigo, que qualquer ruído me espanta ? Conseguirei lavar todo este sangue das minhas mãos com todo o oceano de Neptuno ?".
Voltando ao filme: a família desintegra-se, estalam as rivalidades e os ressentimentos. "A moral privada está morta" afirma Aschenbach, o oficial das SS (Helmut Griem) " e antes que as chamas do Reichstag se extingam, os homens da velha Alemanha ficarão reduzidos a cinza", "Houve um tempo em que os sentidos se me congelavam ao ouvir ruídos na noite, e o meu cabelo eriçava-se ao ouvir um conto aterrador. Saciei-me de espantos, e o horror, companheiro da minha mente homicida, não me assusta". Com efeito, os jovens eliminam os velhos, a luta pelo poder desencadeia uma espiral de violência e ambição em que tudo é permitido. O drama, como anunciou Visconti, estala em torno da rainha das abelhas, a mãe nocturna e demoníaca, a mãe instigadora, a mão investida de poder que domina o filho e cuja mão manipula todos os fios, a mãe castradora, cúmplice das preversões e dos crimes, a mãe que finalmente cai e morre através da consumação profanadora do incesto, caindo ela mesma vítima da criatura que engendrou e alimentou, de um modo semelhante à queda dos deuses arrastados pelas forças que eles próprios haviam despertado. Num retorno freudiano, Visconti recupera nos cadernos infantis de Martin um desenho representando uma mulher sangrando e um menino que empunha um punhal e que carrega a seguinte frase: "Martin mata a mamã". A origem do Mal está nesse germe, onde se detectam já os primeiros sintomas (o ovo da serpente).

terça-feira, 30 de julho de 2013

FADO MENOR

Nada nos tinha preparado para isto. Infelizmente, a tristíssima nação portuguesa caiu nas mãos de uma gente ignorante (falta-lhes leitura, estudos, reflexão e pensamento), subserviente de interesses obscuros (que não são, certamente, os do povo português), supinamente incompetente e sumamente estúpida. A sua competência política iguala a de um asno. É altura de lhes explicar uma diferença essencial entre dois conceitos nucleares da filosofia política e que, obviamente, têm um reflexo directo na praxis. Não falo de cátedra (que não possuo, nem nunca ambicionei possuir), nem dou uma lição: procuro apenas compreender melhor a inumanidade e as monstruosidades intelectuais e políticas de um tempo desarticulado. Assim, esta gente precisava de compreender a diferença entre força e poder. Eles têm a força, que lhes advém do facto de terem sido eleitos democraticamente, com um mandato claro de governação. Por outro lado, o poder resulta de um esforço conjunto de todas as pessoas. Nenhuma força é suficientemente grande para vencer o poder; onde quer que a força enfrente o poder, sucumbe. Eles têm a força: legitimidade formal, poder legislativo e executivo, domínio do aparelho repressivo. Nunca terão o poder; não têm a inteligência, o carisma e a cultura suficientes para forjarem os instrumentos necessários para tal. Apesar de estarem loucamente apaixonados pelo poder, aquilo que eles amam tão ardorosamente é uma imagem, um ícone, um fetiche, um fantasma.

domingo, 28 de julho de 2013

PUNO - PERU

 
                                                               Por Sofia P. Coelho
 

SEJER

Não é pequeno feito, nem uma proeza despicienda, ter conseguido destruir em dois anos um país com 900 anos de História. Insatisfeitos com o trabalho realizado e querendo completá-lo, levando-o ao zénite que o seu génio lhes promete  e a que o seu talento os habilita, os nossos homens da direita querem que também a língua, quiçá a literatura e as artes se conformem à ideia que fazem da Nação, imortalizando-os numa eternidade de semi-deuses que não só criam uma nova realidade, como também forjam no aço a linguagem que a representa e lhe dá expressão. Os tratos de polé a que sujeitam a língua mãe, a pobreza do discurso, a indigência da sintaxe, têm por fim criar uma nova língua, que há-de assentar como uma luva no novo homem que almejam criar: empreendedor, poupado, escorreito,amoral. Contrariam a tese de Michel Foucault, segundo a qual a crise do poder começa por ser uma crise do discurso. Sem querer repetir a analogia com a "novilíngua" inventada por George Orwell em 1984 (Pacheco Pereira dixit), direi que estamos em presença de um mecanismo de engenharia linguística sem precedentes na nossa História: a transformação da nossa língua num instrumento operativo ao serviço da política. Assim, depois do "cidadões" e do "façarei" de Cavaco Silva, dos inúmeros dislates do falecido Relvas, ouvimos esta semana Passos Coelho a bradar perante as televisões "Sejemos realistas !". Deve ser um novo verbo, o verbo sejer, que se conjugaria assim;

Eu seje, tu sejes, eles sejem, nós sejemos, eles sejem

Não sei se a Academia já terá incoporado este novo verbo, nem o que Malaca Castanheiro terá a dizer sobre a sua justeza e adequação ao português moderno. Pouco importa. De repente, lembro-me de remodelar um célebre "slogan" do Maio de 68, que passaria a rezar deste modo:

"Cidadões, sejemos realistas, exigemos o impossível !"

sábado, 27 de julho de 2013

MARTIN EM BERLIM (I)



Chamou-se em português "Os Malditos", "La Caduta degli Dei" no original, "Götterdamerung" em alemão. É talvez o mais complexo e labiríntico filme de Luchino Visconti. Tudo começa num ambiente intimista; um jovem pianista (Gunther) toca perante toda a família, reunida para celebrar o aniversário do patriarca da família Essenbeck, a câmara inicia um movimento envolvente em torno do círculo familiar. Tudo está disposto (o cenário, as personagens principais e secundárias) para que o filme reflicta a concepção viscontiana da vida: teatral, cerrada e trágica. É uma espécie de quadro ilusoriamente idílico e aparentemente pacífico, prestes a ser destroçado pelas novas forças que vêm romper o equilíbrio do recanto centro-europeu com o fragor e o rugido das modernas fundições do aço: o clamor do fogo. O fogo dos altos fornos siderúrgicos e do incêndio do Reichstag. Os interesses do império industrial germânico são abocanhados quando entram ao serviço de uma nova noção de Estado, implacável e totalitária. Na família, o conflito dinástico roda em torno da mãe, a abelha-mestra. Entretanto, pelas ruas profanadas, entre fogueiras e cinzas de livros e partituras, desfilam as comitivas nacional-socialistas entoando a "Horst Wessel Lied" e passma os esquadrões bárbaros, impantes de valentia e cegos, como os deuses de Wagner, sob o céu turvo de Berlim.

Todavia, o que torna este filme estranhamente inquietante é o modo como as imagens conseguem fazer com que dois planos completamente opostos  - o moral, centrado numa crítica mordaz, e o estético, diluído num estilismo decadente - apareçam relacionados por uma trama que, em algumas ocasiões, deixa transparecer um vago fascínio. A Alemanha que atrai Visconti é ambígua: é a Alemanha do desastre, das grandes catástrofes em que se funda a vontade de poder - como dizia Paul Claudel: "A ideia de uma catástrofe enorme e real é tão arrebatadora para os alemães, como foi para os franceses a ideia da Revolução" - mas é também a Alemanha de Wagner, obcecada com a morte e o impossível. É a Alemanha de Thomas Mann, especialmente a que foi descrita em "Os Buddenbrook", no qual se inspira, e é a Alemanha de Nietzsche e de Freud. A Alemanha do Iluminismo e a Alemanha das sombras. A Alemanha eterna, fechada sobre si mesma, romântica, faústica e demoníaca. A Alemanha dos filmes de Fritz Lang e de F.W. Murnau. Na mesma cena da abertura encontramos esta dicotomia: frente à sonata de Bach interpretada por Gunther como recital de álgebra pura, estão os acordes estridentes e grotescos de Martin, que entoa uma canção de cabaret, travestido, com as sobrancelhas depiladas e as pestanas postiças, parodiando Marlene Dietrich em "O Anjo Azul" de Joseph Von Sternberg. É essa linha de demarcação entre a civilização e a barbárie que assinala a beira do abismo, não só no subconsciente colectivo alemão, mas também, provavelmente, na mente de Visconti.
A sua perspectiva cinematográfica responde às mesmas tensões que conformam a sua personalidade fragmentada, oscilando entre a sua condição de aristocrata e a sua adesão à ideologia marxista, entre a sua fidelidade conceptual ao realismo revolucionário e o seu amor declarado pelo melodrama e o decadentismo, entre a exaltação de um futuro utópico e o apego sentimental, íntimo, freudiano a um passado impossível. Aos piores anos de ascensão do nazismo (objecto de um outro grande filme, "O Ovo da Serpente" de Ingmar Bergman) contrapõe a pujança agressiva, caricatural, fálica, representada pelo couro engraxado e pelo caos de correias e arreios militares da Juventude hitleriana e das S.A., com a sensibilidade esteticizante reflectida nos sumptuosos  trajes, das perucas, dos véus vaporosos e dos pós de maquilhagem, que emanam um perfume nostálgico e assinalam os traços de uma civilização aristocrática, talvez demasiado débil, quebradiça, moribunda. Talvez nada atraísse tanto Visconti, tão preocupado com os cânones e a harmonia, como as transgressões de Martin, o herdeiro dos Essenbeck: as cenas mais fortes são aquelas que melhor reflectem os sentimentos desencontrados de atracção e repulsa: as perversões morais e sexuais, a violação, os crimes, o mundo pétreo do universo familiar, uma espécie de destino a que é impossível escapar e que culmina no grande deslumbramento sombrio do incesto. Curiosamente, esse mesmo fascínio permite ao cineasta sublinhar aquilo que em termos marxistas poderemos chamar de contradição principal. Que o mesmo é dizer: a que existe entre o poderio industrial dos Essenbeck, o seu passado aristocrático fundado na ordem patriarcal e em determinados valores, o seu grande legado musical, representado pelas sublimes sinfonias clássicas: Bach, Mozart, Mahler, Beethoven, Wagner. Por outro lado, as dissonâncias que resultam da subordinação dos supostos guardiães da civilização ao Terceiro Reich, cavando a sua sepultura quando colaboram com os nazis, a quem desprezam violentamente ("Onda imensa de barbárie excêntrica e vulgaridade primitiva, plebeiamente democrática", no dizer de Thomas Mann). Creio que seria este o único modo de afirmar o contraste, ou o paradoxo, elemento essencial para a compreensão da alma humana. A contradição coloca o espírito em alerta e aguça o engenho. Sem contradição não há drama. E é precisamente o drama que move Visconti como artista e como homem. E foi também desse modo que escolheu comprometer-se politicamente.