sexta-feira, 2 de agosto de 2013

UM QUINTAL. UM MENINO. UM GARNISÉ - GALINÁCEOS II



O menino é considerado um génio lá no quintal.
O menino diz o que lhe apetece.
O menino diz o que lhe apetece ou para fazer gracinha, diz de uma forma convincente o que o mandam dizer e porque não, o que julga que os outros querem ouvir para manter a assistência entretida, embevecida e fascinada pela desenvoltura e facilidade na expressão oral. Nisto, a plateia com os olhos fixos e fio de baba a escorrer-lhe pelo canto da boca, abstém-se de pensar e fica num modo puramente auditivo em estado catatónico.
O menino rejubila pelo efeito que tem na audiência. Os outros não sabem de tudo tanto como o menino, nem das suas próprias ocupações independentemente de há quanto tempo e como as exerçam. O menino julga ter a capacidade de mergulhar nos universos todos e de todos, e vir de lá encharcado de conhecimento, que digere como ninguém para a seguir servir aos que o adoram ouvir. O menino não defeca que isso é uma imundície reservada aos seres menores. Bolsa. Bolsa de uma forma absurdamente sublime com aquele ar enjoado, para todos os que inquestionavelmente querem aproveitar o bolsado.
O menino ás vezes excede-se naquilo que distribui.
Não que lhe seja fácil reconhecer os próprios erros. Não. Quando muito, os eventuais raros erros dele são influenciados por outros. Ele nunca se engana e raramente tem dúvidas. Sabe no entanto que há pelo menos outro assim que também pensa o mesmo de si próprio. É o pináculo-mor! Mas esse é muito mais honesto porque quem queira ser tão sério como ele, teria de nascer duas vezes. Ele que saiba, só ainda nasceu uma vez, ou… porque não mais? Ah! Pois é! Ele só acredita nele próprio e os seus desígnios e opiniões deveriam constituir-se numa religião a seguir por todos. Ele é tão especial e omnisciente que não morre como os outros. Logo, não precisa de voltar a nascer.
Tal como o pináculo-mor, o tal que também é sério e honesto, e que pode fazer toda uma panóplia de cenas maradas com o seu grupo de amigalhaços mais próximos escolhidos a dedo, porque... também são muito sérios e honestos. Ah! E idóneos! E nada lhes chega. E nada lhes cai em cima. Nem a responsabilização das suas sacanices que são pagas com o trabalho dos que estão a babar-se frente à televisão do quintal, enquanto ouvem o menino e milhentas outras coisas mundanas apresentadas narcotica e aditivamente.
Mas entretanto o menino no meio de tanto entusiasmo, empolgou-se e excedeu-se com o tal que é o pináculo da criação. O outro pináculo. O pináculo-mor daquele quintal. Qual garnisé mascarado com tantas cores como um palhaço.

Não devia.
‘’
Não porque não ache que o pináculo-mor em si mereça ser respeitado, mas antes porque o pedestal deve-se manter imaculado, incorrupto e só assim ser merecedor da reverência que lhe é devida. Mas não, o garnisé que lá está em cima alivia-se à vontade, aspergindo de excreções o pedestal onde poisou e tudo à sua volta. Os que estão à espera do ovo do garnisé (como se os garnisés pusessem ovos!...) não o podem enxotar atirando algo que o faça sair, nem gritando, nem soprando. E vão acreditando no ovo do garnisé.
E assim vão esperando, esperando, esperando por uma epifania que tarda e não se anunciará. O Sol vai-se pondo no horizonte e a noite já espreita. A escuridão acerca-se.
O garnisé está numa redoma. Raramente estica o pescoço e de cabeça empertigadamente inclinada, olha para fora com o seu olho esbugalhado, ampliado pela convexidade. O vidro da redoma é tão espesso que ele não vê o que se passa à sua volta e a sua realidade, o seu universo resume-se ao que se passa do lado de dentro do vidro onde apenas os tais amigalhaços têm espaço de acesso, num acesso ilimitado. Pouco mais conhece… sendo que esse pouco mais, é-lhe soprado pelos que lá entram ou por informadores a soldo de outros. Outros que vivem na sombra. Faustosamente. 
Quando raramente o levam dentro da redoma e em cima do pedestal a passear, tem uma predilecção especial por cagarras ou em apreciar animais grandes, nomeadamente vacas. Principalmente o sorriso delas e a satisfação com que ruminam a viçosidade dos pastos.
Uns animais supostamente irracionais, arrebanhados dentro de cercas, serenos, conformados.

Carne para abate.



Hélder

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

EL CONDOR PASA

SANTUARIO DEL CONDOR

PERU - 1996
 


                                                             Por Sofia P. Coelho

 

quarta-feira, 31 de julho de 2013

MARTIN EM BERLIM (II)




As biografias de Luchino Visconti (sigo a de Laurent Schifano, a mais rigorosa e exaustiva) referem um dos factos essenciais da vida do cineasta: Visconti, assim como outras personalidades do cinema italiano, nomeadamente Roberto Rossellini, Luigi Chiarini e Aldo, entre outros, alistou-se nas fileiras da Resistência e participou nas actividades clandestinas dos grupos partisans. Foi detido em casa de um amigo, onde se tinha refugiado pouco depois da carnificina das Fossas Ardentinas. O dirigente nazi Koch, que conduziu pessoalmente o interrogatório de Visconti, deu ordem para que fosse fuzilado. Passou nove dias numa cela de um metro quadrado, antes da sua transferência para prisão Celio para ser entregue aos alemães. A aproximação das tropas aliadas e o ambiente final de caos e confusão fizeram com que os próprios guardas o ajudassem a escapar. Esta marca traumática nunca o abandonou.

Durante os anos sessenta falou-se a todo o momento de compromissos. Pessoalmente, sempre achei que há uma espécie de erro de princípio quando se postula um cinema ou uma literatura obrigatoriamente comprometida politicamente. Um filme não é comprometido de antemão. Torna-se ou não comprometido, quer o realizador o proponha ou não. Alguém se compromete porque tem uma ideia do mundo pela qual daria a vida (por isso invoquei atrás o episódio da condenação à morte de Visconti), e essa é uma atitude ética. Nessa aposta, o máximo que um homem arrisca é a sua própria pessoa. Visconti nunca quis ser um ideólogo, mas somente um realizador de cinema e, como tal, sabia intuitivamente que a verdade da arte não pode residir nunca numa clara mensagem doutrinária, por mais autêntica que seja, mas apenas na sua beleza herética. Apesar do compromisso pessoal de Visconti (repito: pessoal e não artístico), foi alvo de críticas muito agressivas por parte da esquerda, que o acusava de ter representado uns príncipes da indústria que na sua adesão ao Mal e na sua própria queda, são reflexo de uma espécie de auréola épica que, de algum modo, podia estender-se também ao nazismo. Quem assim pensa, e são muitos, não compreendeu nada do filme. Se Visconti não fosse um refinado aristocrata, jamais poderia ter dissecado esse mundo como o fez: se não tivesse retido na memória os pormenores da sua infância (o palácio da Via Cerva, as grandes mesas cobertas de linho, a legião de criados e de servidores, o esplendor do luxo e da riqueza) e também não teria a capacidade de actualizar as suas sensações. Ainda mais, na própria desmesura e exaltação da decadência, no fundo e na forma, existe uma profunda sátira, quase caricatural, de tudo aquilo que o Terceiro Reich tinha de "mise-en-scène", de imitação e pastiche de uma apoteose fingida. O esquema teatral de "Os Malditos", a sua grandiloquência operática, é justamente o que lhe permite explicar a essência do fascismo como simulacro. Dito isto, por muito que eu ame exaltadamente este filme, por muito que os seus defeitos me enterneçam e os seus méritos me incomodem (um dia explicarei este paradoxo), tenho que reconhecer que a História não lhe deu razão. A sua visão das ascensão do nacional-socialismo não se ajusta aos factos conhecidos. O destino dos Krupp - cujo feudo industrial tinha o seu núcleo na cidade de Essen e que são representados no filme pela família Essenbeck - desmente o desenlace crepuscular concebido por Visconti. Na realidade, os grandes industriais que sobreviveram ao nazismo e que inclusivamente reconstruiram os seus impérios no pós-guerra, são mais numerosos do que aqueles que foram destruídos pelo regime. Verifico no alfarrábio que Alfred Krupp, membro das SS, que deteve mais de cem fábricas em Auschwitz, onde trabalhavam deportados reduzidos à condição de escravos e crianças de todas as idades forçados a contribuir para o esforço de guerra até ao esgotamento, foi condenado pelo Tribunal de Nuremberga a 12 anos de prisão. Cumpriu três e foi-lhe devolvida a fortuna. Por outro lado, o Terceiro Reich promoveu uma imensa legião de pequeno-burgueses medíocres, para quem os referentes intelectuais e culturais da grande civilização centro-europeia eram zeros absolutos: vendedores de electrodomésticos e de apólices de seguros, fabricantes de insígnias com a efígie de Hitler, produtores de aspirinas... gente que não aparece em nenhum momento do crepúsculo dos deuses narrado por Visconti. De resto, o cineasta nunca se preocupou muito com a verdade histórica, nem o filme se situa nos limites estritos do contexto histórico. Vai muito para além disso. Num determinado momento, as personagens convertem-se em símbolos. Não é estritamente um filme sobre a origem do nazismo, mas um filme situado nessa época a fim de gerar uma determinada catarse por meio das personagens: é toda uma fábula de denúncia da aliança entre nazis e os grandes industriais alemães. Poderia qualificar-se, como tem sido dito, como uma espécie de Macbeth moderno, onde os magnates da indústria substituem os reis imaginados por Shakespeare. O instrumento do seu poder é o dinheiro. O templo do seu culto é o coração das fundições, essa entranha ardente das fábricas.
De algum modo, Visconti considera que essa história bestial de vontade de poder tem a sua versão contemporânea nos acontecimentos que começam a 2 de Fevereiro de 1933, no momento em que o nazismo se impõe à Alemanha, como se fosse uma data fatídica semelhante às que são anunciadas pelas bruxas da floresta de Birnam. Na biografia que já citei, Laurent Schifano conta que, depois da guerra, o patriarca dos Krupp, sentado no grande salão da sua casa sofria de alucinações e apontava tremendo as sombras espectrais que se amontoavam nas vidraças das janelas exigindo vingança: trabalhadores nus, com o corpo avermelhado pelas chamas, mulheres esfarrapadas, crianças judias. "Quem são estas pessoas", murmurava atormentado como Macbeth: "o que se passa comigo, que qualquer ruído me espanta ? Conseguirei lavar todo este sangue das minhas mãos com todo o oceano de Neptuno ?".
Voltando ao filme: a família desintegra-se, estalam as rivalidades e os ressentimentos. "A moral privada está morta" afirma Aschenbach, o oficial das SS (Helmut Griem) " e antes que as chamas do Reichstag se extingam, os homens da velha Alemanha ficarão reduzidos a cinza", "Houve um tempo em que os sentidos se me congelavam ao ouvir ruídos na noite, e o meu cabelo eriçava-se ao ouvir um conto aterrador. Saciei-me de espantos, e o horror, companheiro da minha mente homicida, não me assusta". Com efeito, os jovens eliminam os velhos, a luta pelo poder desencadeia uma espiral de violência e ambição em que tudo é permitido. O drama, como anunciou Visconti, estala em torno da rainha das abelhas, a mãe nocturna e demoníaca, a mãe instigadora, a mão investida de poder que domina o filho e cuja mão manipula todos os fios, a mãe castradora, cúmplice das preversões e dos crimes, a mãe que finalmente cai e morre através da consumação profanadora do incesto, caindo ela mesma vítima da criatura que engendrou e alimentou, de um modo semelhante à queda dos deuses arrastados pelas forças que eles próprios haviam despertado. Num retorno freudiano, Visconti recupera nos cadernos infantis de Martin um desenho representando uma mulher sangrando e um menino que empunha um punhal e que carrega a seguinte frase: "Martin mata a mamã". A origem do Mal está nesse germe, onde se detectam já os primeiros sintomas (o ovo da serpente).

terça-feira, 30 de julho de 2013

FADO MENOR

Nada nos tinha preparado para isto. Infelizmente, a tristíssima nação portuguesa caiu nas mãos de uma gente ignorante (falta-lhes leitura, estudos, reflexão e pensamento), subserviente de interesses obscuros (que não são, certamente, os do povo português), supinamente incompetente e sumamente estúpida. A sua competência política iguala a de um asno. É altura de lhes explicar uma diferença essencial entre dois conceitos nucleares da filosofia política e que, obviamente, têm um reflexo directo na praxis. Não falo de cátedra (que não possuo, nem nunca ambicionei possuir), nem dou uma lição: procuro apenas compreender melhor a inumanidade e as monstruosidades intelectuais e políticas de um tempo desarticulado. Assim, esta gente precisava de compreender a diferença entre força e poder. Eles têm a força, que lhes advém do facto de terem sido eleitos democraticamente, com um mandato claro de governação. Por outro lado, o poder resulta de um esforço conjunto de todas as pessoas. Nenhuma força é suficientemente grande para vencer o poder; onde quer que a força enfrente o poder, sucumbe. Eles têm a força: legitimidade formal, poder legislativo e executivo, domínio do aparelho repressivo. Nunca terão o poder; não têm a inteligência, o carisma e a cultura suficientes para forjarem os instrumentos necessários para tal. Apesar de estarem loucamente apaixonados pelo poder, aquilo que eles amam tão ardorosamente é uma imagem, um ícone, um fetiche, um fantasma.

domingo, 28 de julho de 2013

PUNO - PERU

 
                                                               Por Sofia P. Coelho
 

SEJER

Não é pequeno feito, nem uma proeza despicienda, ter conseguido destruir em dois anos um país com 900 anos de História. Insatisfeitos com o trabalho realizado e querendo completá-lo, levando-o ao zénite que o seu génio lhes promete  e a que o seu talento os habilita, os nossos homens da direita querem que também a língua, quiçá a literatura e as artes se conformem à ideia que fazem da Nação, imortalizando-os numa eternidade de semi-deuses que não só criam uma nova realidade, como também forjam no aço a linguagem que a representa e lhe dá expressão. Os tratos de polé a que sujeitam a língua mãe, a pobreza do discurso, a indigência da sintaxe, têm por fim criar uma nova língua, que há-de assentar como uma luva no novo homem que almejam criar: empreendedor, poupado, escorreito,amoral. Contrariam a tese de Michel Foucault, segundo a qual a crise do poder começa por ser uma crise do discurso. Sem querer repetir a analogia com a "novilíngua" inventada por George Orwell em 1984 (Pacheco Pereira dixit), direi que estamos em presença de um mecanismo de engenharia linguística sem precedentes na nossa História: a transformação da nossa língua num instrumento operativo ao serviço da política. Assim, depois do "cidadões" e do "façarei" de Cavaco Silva, dos inúmeros dislates do falecido Relvas, ouvimos esta semana Passos Coelho a bradar perante as televisões "Sejemos realistas !". Deve ser um novo verbo, o verbo sejer, que se conjugaria assim;

Eu seje, tu sejes, eles sejem, nós sejemos, eles sejem

Não sei se a Academia já terá incoporado este novo verbo, nem o que Malaca Castanheiro terá a dizer sobre a sua justeza e adequação ao português moderno. Pouco importa. De repente, lembro-me de remodelar um célebre "slogan" do Maio de 68, que passaria a rezar deste modo:

"Cidadões, sejemos realistas, exigemos o impossível !"

sábado, 27 de julho de 2013

MARTIN EM BERLIM (I)



Chamou-se em português "Os Malditos", "La Caduta degli Dei" no original, "Götterdamerung" em alemão. É talvez o mais complexo e labiríntico filme de Luchino Visconti. Tudo começa num ambiente intimista; um jovem pianista (Gunther) toca perante toda a família, reunida para celebrar o aniversário do patriarca da família Essenbeck, a câmara inicia um movimento envolvente em torno do círculo familiar. Tudo está disposto (o cenário, as personagens principais e secundárias) para que o filme reflicta a concepção viscontiana da vida: teatral, cerrada e trágica. É uma espécie de quadro ilusoriamente idílico e aparentemente pacífico, prestes a ser destroçado pelas novas forças que vêm romper o equilíbrio do recanto centro-europeu com o fragor e o rugido das modernas fundições do aço: o clamor do fogo. O fogo dos altos fornos siderúrgicos e do incêndio do Reichstag. Os interesses do império industrial germânico são abocanhados quando entram ao serviço de uma nova noção de Estado, implacável e totalitária. Na família, o conflito dinástico roda em torno da mãe, a abelha-mestra. Entretanto, pelas ruas profanadas, entre fogueiras e cinzas de livros e partituras, desfilam as comitivas nacional-socialistas entoando a "Horst Wessel Lied" e passma os esquadrões bárbaros, impantes de valentia e cegos, como os deuses de Wagner, sob o céu turvo de Berlim.

Todavia, o que torna este filme estranhamente inquietante é o modo como as imagens conseguem fazer com que dois planos completamente opostos  - o moral, centrado numa crítica mordaz, e o estético, diluído num estilismo decadente - apareçam relacionados por uma trama que, em algumas ocasiões, deixa transparecer um vago fascínio. A Alemanha que atrai Visconti é ambígua: é a Alemanha do desastre, das grandes catástrofes em que se funda a vontade de poder - como dizia Paul Claudel: "A ideia de uma catástrofe enorme e real é tão arrebatadora para os alemães, como foi para os franceses a ideia da Revolução" - mas é também a Alemanha de Wagner, obcecada com a morte e o impossível. É a Alemanha de Thomas Mann, especialmente a que foi descrita em "Os Buddenbrook", no qual se inspira, e é a Alemanha de Nietzsche e de Freud. A Alemanha do Iluminismo e a Alemanha das sombras. A Alemanha eterna, fechada sobre si mesma, romântica, faústica e demoníaca. A Alemanha dos filmes de Fritz Lang e de F.W. Murnau. Na mesma cena da abertura encontramos esta dicotomia: frente à sonata de Bach interpretada por Gunther como recital de álgebra pura, estão os acordes estridentes e grotescos de Martin, que entoa uma canção de cabaret, travestido, com as sobrancelhas depiladas e as pestanas postiças, parodiando Marlene Dietrich em "O Anjo Azul" de Joseph Von Sternberg. É essa linha de demarcação entre a civilização e a barbárie que assinala a beira do abismo, não só no subconsciente colectivo alemão, mas também, provavelmente, na mente de Visconti.
A sua perspectiva cinematográfica responde às mesmas tensões que conformam a sua personalidade fragmentada, oscilando entre a sua condição de aristocrata e a sua adesão à ideologia marxista, entre a sua fidelidade conceptual ao realismo revolucionário e o seu amor declarado pelo melodrama e o decadentismo, entre a exaltação de um futuro utópico e o apego sentimental, íntimo, freudiano a um passado impossível. Aos piores anos de ascensão do nazismo (objecto de um outro grande filme, "O Ovo da Serpente" de Ingmar Bergman) contrapõe a pujança agressiva, caricatural, fálica, representada pelo couro engraxado e pelo caos de correias e arreios militares da Juventude hitleriana e das S.A., com a sensibilidade esteticizante reflectida nos sumptuosos  trajes, das perucas, dos véus vaporosos e dos pós de maquilhagem, que emanam um perfume nostálgico e assinalam os traços de uma civilização aristocrática, talvez demasiado débil, quebradiça, moribunda. Talvez nada atraísse tanto Visconti, tão preocupado com os cânones e a harmonia, como as transgressões de Martin, o herdeiro dos Essenbeck: as cenas mais fortes são aquelas que melhor reflectem os sentimentos desencontrados de atracção e repulsa: as perversões morais e sexuais, a violação, os crimes, o mundo pétreo do universo familiar, uma espécie de destino a que é impossível escapar e que culmina no grande deslumbramento sombrio do incesto. Curiosamente, esse mesmo fascínio permite ao cineasta sublinhar aquilo que em termos marxistas poderemos chamar de contradição principal. Que o mesmo é dizer: a que existe entre o poderio industrial dos Essenbeck, o seu passado aristocrático fundado na ordem patriarcal e em determinados valores, o seu grande legado musical, representado pelas sublimes sinfonias clássicas: Bach, Mozart, Mahler, Beethoven, Wagner. Por outro lado, as dissonâncias que resultam da subordinação dos supostos guardiães da civilização ao Terceiro Reich, cavando a sua sepultura quando colaboram com os nazis, a quem desprezam violentamente ("Onda imensa de barbárie excêntrica e vulgaridade primitiva, plebeiamente democrática", no dizer de Thomas Mann). Creio que seria este o único modo de afirmar o contraste, ou o paradoxo, elemento essencial para a compreensão da alma humana. A contradição coloca o espírito em alerta e aguça o engenho. Sem contradição não há drama. E é precisamente o drama que move Visconti como artista e como homem. E foi também desse modo que escolheu comprometer-se politicamente.




THE SUN ALWAYS SHINES ON TV



E, no entanto, ela continua a flutuar, a Jangada de Caca. Continua a flutuar, embatendo em rochedos, encalhando em baixios, uma espécie de "nave dos loucos", arrastando atrás de si ruínas e escombros, putas e sifilíticos. O capitão é cego dos dois olhos, com um gostinho especial pela provocação e uma colossal ignorância das artes da navegação. Por sua vez, o imediato está prenhe de "sentido de Estado" e de sentimentos patrióticos. O resto da equipagem parece saída de um filme de terror em sessões contínuas. A mastreação está podre, o casco mete água, as ratazanas acabaram com todos os víveres, antes de a abandonarem ao seu destino. E continua, por milagre, a flutuar.

Aqueles que nela viajam, só pedem aos políticos que lhes não destruam os meios de sobrevivência material . Expatriados, petrificados, fecham os olhos ao analfabetismo, brutalidade , vulgaridade e narcisismo que minam os pátios do recreio, agora dominado pelos leprosos. Porém, não nos iludamos com a aparente fraqueza desses onanistas: a desumanidade absoluta introduz na Jangada um laço social incompatível com o optimismo beato que, de modos vários, se constitui como o credo desta gente, Neste "mundo do crime", os dominadores nunca se cansam de exercer o domínio. A sua visão do mundo, o acto de fé ideológico que os move, a sua ociosidade e os seus prazeres sádicos, multiplicam o gosto pelo poder. E mantêm a Jangada de Caca a flutuar sem destino.

LAGO TITICACA - II





                                                     Por Sofia P. Coelho

sexta-feira, 26 de julho de 2013

LAGO TITICACA - PERU




 

                                                   
                                                     Por Sofia P. Coelho


quinta-feira, 25 de julho de 2013

OLÁ LISBOA


Olá Lisboa, pela primeira vez
Olá Lisboa, pela primeira vez

Lembro-me de ti
Como se fosse um regresso a casa
As ruas escuras à noite
O medo de quem quer voltar

E passo por ti
Condenado a sentir um vazio
Na hora de te abandonar
A lembrança de quem quer ficar
A cidade por descobrir
Um adeus, vou partir

Lisboa, és só tu e eu
Lisboa, és só tu e eu

Confesso-me a ti
Ó cidade de noite encantada
Lembras-me a vontade
Hoje eu vou ficar

Agarro-me a ti
Confrontado a saudade que sinto
A hora está-se a aproximar
As memórias de quem quer voltar
Um segredo que vou descobrir
O adeus, vou partir

Lisboa, és só tu e eu
Lisboa, és só tu e eu

E passo por ti
Condenado ao vazio
A ansia de querer voltar
O adeus que não te vou dizer

Espero aqui
Com o mar controlado
A história de ter um passado
A idade de te conhecer
A cidade por descobrir
O adeus, vou partir

Lisboa, és só tu e eu
Lisboa, és só tu e eu
 
Tim / Tara Perdida

A JANGADA DE CACA



O que Portugal precisa mesmo é de desaparecer, viajar para outra galáxia, mudar de dimensão, extinguir-se. Trata-se de uma bela ideia que correu mal ao criador por maldição, falta de manutenção, ausência de acompanhamento, etc. Para além do caos político, financeiro e social, para além deste enorme atoleiro em que chafurdamos sem vislumbrar uma margem, um galho seco a que nos agarrarmos, é o conceito, o ideal que morre todos os dias. Não há país que aguente tanta atrocidade, não há nação que sobreviva a tanta estupidez. Se o problema fosse só de uma classe, de um tipo de gente ou de um bando de malfeitores a solução seria fácil. Trabalhosa mas fácil. A restante comunidade eliminaria a raiz do mal e voltaria a restaurar a organização. Mas, infelizmente não. Uma nação morre quando ninguém quer saber dela para nada e a deixa atrofiar dia após dia limitando-se a cumprir as suas funções mais básicas e mais essenciais de bicho. Foram gerações atrás de gerações empenhadas nesta árdua tarefa de enterrar o passado glorioso, as memórias agradáveis, os sacrifícios dos antepassados. Uma após outra, o seu objectivo é instalar-se no poder, alimentar a canalha sem rosto que sempre viveu à grande e apertar o triste, roubar o trabalhador, pisar o desgraçado, numa espiral de mediocridade que acabaria inevitavelmente com qualquer conceito de nação. No séc. XX, só para não andar muito para trás, nos anos setenta uma geração de fascistas foi assaltada por outra de românticos revolucionários e idealistas que não passaram de uma espécie de fascistas “modernaços” mais preocupados em deitar as mãos à travessa do que distribuir a comida. Instalaram-se, serviram-se e dominaram para que hoje outra geração venha tomar conta da mesa. Uma geração sem uma ideia a que possa chamar sua, sem uma personalidade orientada por uma coluna vertebral, um perfeito vazio. Mas altamente eficaz em cumprir as ordens e as orientações recebidas no aviário das jotas, extremamente empenhada em pagar todas as facturas para se poder manter no poder. Assim vai avançando a espiral com o Algarve a meter mais um “l” para ser melhor compreensível aos camónes, assim se apaga completamente a memória de um passado que, mal ou bom, é o que temos e de onde descendemos, esmaga-se a cultura aos níveis mais baixos e mais absurdos a que a criação cultural alguma vez chegou, inventam-se acordos ortográficos de secretaria para destruir a personalidade da língua, baixa-se a espinha a tudo e a todos os que estão lá fora (aos poderosos dizendo sempre que sim, às ex-colónias pedindo muita desculpa pelo ocorrido há séculos, aceitando todo o tipo de desaforo e atrevimento sem reagir), aceitam-se todas as ordens, cumprem-se todas as regras sem discutir. Sem registo de memória, sem personalidade diplomática, sem dinheiro e sem dignidade, estamos mais perto de um país ocupado por uma potência invasora do que de outra coisa qualquer.

E por outro lado que dizer deste povão cobarde e malcheiroso, esperto mas falho de inteligência, manhoso e ignorante? Este povo que tudo aceita por medo, que só tem coragem no café com os amigos, que finge que acredita em tudo não acreditando em nada? Um povo que acha normal explorar os novos, desprezar os velhos e abandonar os seus animais é um povo de merda, um povo que se despreza a si mesmo e que, como tal, assina a declaração da sua inutilidade comunitária. Onde poderá estar o sentido comunitário de um povo que se despreza a si próprio? De um povo alienado e carneiro sem vontade própria que se deixa explorar e ainda que quase agradece no fim?

   Há 20/30 anos atrás o escritor José Saramago lembrou-se de escrever um romance em que a Península Ibérica se separava da Europa pela parte dos Pirinéus e vagueava pelo Atlântico fora. Outros tempos, outras mentalidades. A Literatura tende a embelezar a realidade dando-lhe o menos cruel dos aspectos. Como dizia atrás ao iniciar esta crónica, Portugal precisa de desaparecer. Corrijo: Portugal já desapareceu, é um conceito vago, perdido, nebuloso que já não se consegue vislumbrar muito menos definir. Vagueia perdido pelas várias e possíveis dimensões do espaço à espera que alguma lhe abra a porta e lhe faça o favor de o deixar entrar. Nós, os que aqui estamos não passamos de espectros, fantasmas teimosos que não querem aceitar a realidade, memórias vazias de um tempo que terminou e que não vai continuar nunca mais. Por culpa de todos, sem dúvida. Portugal acabou por mais que continuemos a insistir que isso não é verdade. Só que em vez de se separar da Península Ibérica e vaguear pelo oceano Atlântico como um navio fantasma antes se foi dissolvendo lentamente enquanto boiava fingindo existir, iludido com a sua ideia que afinal não era ideia nenhuma. Portugal acabou, desapareceu como uma jangada de caca.

 

Artur

quarta-feira, 24 de julho de 2013

A CRÓNICA DE COISÍSSIMA NENHUMA


 

Noite solitária em casa, comando na mão e toca a tropeçar sobre as possibilidades do cabo, estupidez, vazio, absurdo. De repente imagens familiares de Londres, jovens bêbados enrolados em tiras de cabedal e tachas distribuídas ao acaso destroem um Rolls Royce com um pé de cabra só pelo prazer de o fazer enquanto gritam o nome de uma amiga que mora para aqueles lados aos berros. John e Sidney. Demasiado familiar, volto atrás, confirmo. Volto a SID AND NANCY realizado por Alex Cox, um documento importante de 1986 que pretende ilustrar os últimos anos do mítico baixo dos “Sex Pistols”, a sua ruptura com a banda na tour aos Estados Unidos e a relação tormentosa e decadente com a sua companheira Nancy. Havia fotografias dele e dos discos nos cadernos e na cabeça da maioria dos adolescentes do meu tempo, era um dos primeiros ícones de uma geração que adorava aquela postura desafiante, degradada e indiferente de fazer música e de estar na vida. O Punk enquanto atitude filosófica e comportamental morria com o seu melhor acabado ícone em 1979 ao fim de uma jornada de decadência e adição inconsequente. No vazio do maior dos vazios os jovens rejeitavam a vida, a sociedade e tudo o que ela tinha (?) para lhes oferecer. Fechavam-se em buracos escuros, em caves imundas enchendo o ar com álcool, heroína, electricidade e uma batida frenética sob a qual se atiravam ao ar, uns contra os outros em urros imperceptíveis se bem que libertadores. Para trás ficavam os hippies, as flores, a utopia e a destruição dela. Tudo era aborrecido e estúpido, as cidades, as pessoas, a vida de uma forma geral. Não se podia mudar nada porque o mundo voltava sempre à sua ordem por mais que fosse abalado. Nada tinha importância, nem a morte. Escrevo neste momento sobre a minha geração, que embora mais nova, acaba por ser completamente inundada pelo espírito destes tempos de vazio e nulidade. Uma homenagem aos que ficaram pelo caminho e um conforto para os que ainda se interrogam à beira dos cinquenta porque é que ainda cá estão. Na altura a sociedade não era nenhuma espécie de inimigo mas antes um buraco imundo onde nada fazia sentido. Trabalhava-se dia após dia para ter direito a existir, as guerras ou a sua ameaça atravessavam as comunidades sem que a vontade dos cidadãos contasse para alguma coisa. No fim, mortos feridos e estropiados, havia sempre aquele grupo restrito que atravessava os pingos da chuva mas nunca se molhava. Chegava ao outro lado, sentava-se e começava a distribuir ordens e propaganda. Por cá tinha havido uma guerra e a seguir uma revolução. A sociedade mudava, ou fingia mudar, seguia os pensamentos de Lampedusa n’ “O Leopardo”  ( “É preciso mudar para que tudo fique na mesma”). Os partidos tomavam conta da propaganda e da ordem, dividiam entre si, mordiam-se na conquista pelo poder, não permitiam que nada acontecesse sem a sua supervisão. Ficou um breve espaço na música. Aí, graças a dois ou três iluminados da rádio e das artes em geral houve um breve tempo em que todas as semanas choviam bandas do céu, bandas que cantavam em português. Por um breve tempo o recreio esteve aberto no 2001, no “Rock Rendez Vous”, mais tarde no “Johny Guitar”. Mas nesta terra em que eram poucos os “livres” e maioritários os cobardes, tudo se foi apagando lentamente como um bico de gás, um candeeiro a petróleo. A mediocridade e a sacanice voltaram da rua, sentaram-se e continuaram o seu trabalho de organizar e dirigir. Pelo caminho muitos foram os caídos nesta guerra sem armas, muitos foram os que desapareceram antes do tempo com muito ainda para dar. Vivia-se como se não houvesse amanhã…porque de facto nunca houve amanhã nenhum digno desse nome, pelo menos para nós. Sexo, acidentes de carro, overdoses, pontos de chegada de uma destruição voluntária que começava no exterior e terminava em nós. Ninguém julgava que chegaria a ter 40 anos. E quem lá chegou assustou-se porque teve que rever a sua vida, as suas prioridades para um tempo que não existia. No fundo, fomos todos um bocado como o Sid. O mundo e a sociedade eram um caldeirão malcheiroso, uma condenação, um absurdo colossal. Sem razão, sem nexo, sem ponta por onde pegar. Era assim que pensávamos, atitude que nos custou a ausência, o silêncio e a indiferença de tudo e de todos. A geração nascida na década de 60 passou por aqui quase sem deixar rasto, sem vontade de deixar o que quer que seja. Agora, quase a chegar aos 50 (poderei estar enganado, mas estou-me cagando), pensamos exactamente da mesma maneira. E quem disser o contrário ou não tiver opinião é porque já não quer mais chatices nem polémicas ou por medo intelectual. Falo dos livres, dos que nunca estiveram à venda, dos que respeitaram os seus valores. Não me refiro à massa anónima e indiferente que passou pela vida a ser conduzida por todas as vontades menos pela sua. O Sid era completamente chanfrado, decadente, toxicodependente, estúpido e inconsequente. Mas os santos não precisam de atestados de sanidade para se fazer o seu culto. Estampam-se em imagens que se guardam na carteira, em pequenas estatuetas colocadas nos recantos do culto, em Cds  nostálgicos e “colectâneos” que nos aquecem as memórias. O Punk enquanto atitude nunca morreu porque foi apenas o enquadramento de uma vontade tão antiga como a própria Humanidade. Nos anos 70 teve esse nome, um tipo de música, uma espécie de liturgia que o acompanhou. Mas o impulso, a vontade de ser livre, o desprezo pela carneirada e pela hipocrisia existiu em todas as épocas, fez parte de todas as gerações. A nós que nunca cá estivemos, a nós que nunca existimos resta-nos fechar o ciclo de memórias, aguentar as feridas e resistir ao “estado das coisas” até morrer. Deixando algumas lembranças, desenhando alguns momentos, quando conseguimos falar diremos: “Fomos assim. Foi assim. Mesmo quando parece que nada se passou, foi assim. Não temos nada para ensinar nem nada para reclamar a não ser a nossa raiva, a nossa Liberdade.” Quanto ao resto, parafraseando esse grande Punk chamado Luís Pacheco: “Puta que os pariu!”

 

Artur

terça-feira, 23 de julho de 2013

LIVRO DE PONTO

I

Todas as manhãs do Mundo são sem regresso.
Pascal Quignard

Todas as recordações são traços de lágrimas

II

Sobre a obra de Franz Kafka já correram oceanos de tinta; escreveram-se bibliotecas inteiras; produziram-se milhares de palestras e colóquios. Neste mesmo blog se tem escrito a torto e a direito sobre Kafka e os raros livros que escreveu. Esta circunstância, brutal na sua evidência, coloca sérias dificuldades a todos aqueles que pensarem ser capazes de dizer qualquer coisa de novo sobre, por exemplo, um livro como "O Processo": a literatura secundária sobre esta obra é como um vírus: multiplica-se diariamente nas universidades, na ensaística literária, no jornalismo especializado. Parasita todos os elementos (dir-se-ia mesmo: todos os parágrafos), todos os constituintes temáticos, formais e de estilo, esgotando totalmente um texto que parece inesgotável e provocando uma espécie de cansaço ou de saturação que se torna insuportável. Creio, no entanto, que este manancial tem um efeito perverso: por muito fina que seja a análise e por muito fortes que sejam os sistemas que a sustentam - psicanálise, estruturalista, post-estruturalista ou tradicional) não só as leituras propostas se revelam insuficientes, como também tornam a obra progressivamente mais incompreensível. Este paradoxo - que Kafka decerto haveria de apreciar - resulta na impossibilidade de uma leitura espontânea do livro, suprimindo de algum modo a sua capacidade de choque e pavor. No fundo, quanto mais se escreve e se lê sobre "O Processo", mais a obra se torna obscura e incompreensível. Excepto, direi eu, numa acepção marxista, ou seja, numa leitura marxista - a única aceitável - que coloque em evidência o facto de que prisão arbitrária de Joseph K., os tribunais opacos que enfrenta e por vezes desafia, a sua morte literalmente bestial, constituírem o alfabeto primário do totalitarismo. A lógica demencial da burocracia que o romance denuncia constitui o dia a dia das nossas profissões, dos nossos litígios e conflitos, das nossas relações com o aparelho estatal e com a fiscalidade, da passividade dos governados e da estupidez dos governantes, mesmo nas democracias mais perfeitas. Eu disse marxista? Na realidade, queria dizer outra coisa qualquer: queria falar da instabilidade e do carácter espectral da vida moderna e das nossas vidas no inferno do neoliberalismo, queria dizer qualquer coisa sobre uma nova física da indeterminação, queria falar da "loucura" kafkiana e do paradoxo da qual ela procede: de uma via metafísica que lhe garante acesso à modernidade. Eu sei lá o que queria dizer. 




terça-feira, 16 de julho de 2013

LISBOA, CRÓNICA ANEDÓTICA



Leitão de Barros

Portugal, 1930
Sinopse:
Série de episódios seguidos da vida Lisboeta. As várias figuras profissionais do bulício da cidade do ardina, ao polícia, ao militar. Os estudos e o lazer dos alunos. As docas e a faina. Os bairros populares, os monumentos e praças do Comércio e Figueira. O trânsito em Lisboa. As actividades domingueiras, os desportos, os turistas. Os velhos e as crianças, símbolos do fim e início de um ciclo de vida.


"Lisboa é um filme sincero, um filme de arte. Leitão de Barros deve orgulhar-se de o Ter composto, e, com ele, todos os portugueses, porque Lisboa está cheia de alma e do sentimento português". (Brum do Canto, Cinéfilo)

"Uma autêntica obra-prima do cinema portugês, verdadeiramente inovadora pela concepção e pela linguagem na história dessa arte, síntese de caminhos formais, lídima expressão da sua (Leitão de Barros) veia de cronista, talvez a mais sincera do seu brilhante espírito." (...)
"A ideia central de "Lisboa" é juntar o documento e a ficção numa crónica fragmentada que, através de subtis ligações interiores, nos revele progrssivamente aquilo a que poderemos chamar a "alma" da cidade e o seu tempo actual e passado, perene, se assim quisermos. Mas a crónica é também "anedótica", entendendo-se a palavra no seu duplo significado: vinha de "anedota", como episódio, e vinha de "anedota", como "história engraçada". Em nenhum momento, mesmo naqueles em que predomina uma certa forma verista, dura, recortada, claramente influenciada pela escola soviética, o filme se pretende "realista", voltando assim as costas à tradução directa e formalmente carregada do real, que era a regra da escola. Esse propósito é brilhantemente transmitido quando, através, de um simples e espontâneo efeito de distanciação, nos mostra a câmara de Costa Macedo e a sua equipa filmando algumas imagens no Saldanha. Diria que Leitão de Barros organizou um fundo de ficção, episódico, anedótico, é certo, para melhor nos revelar a cidade.
A ideia de fragmentação, de pequenos apontamentos inventados e ligados a outros apontamentos puramente documentais, facilita a crónica (...), a sequência dos factos. E facilita também o trabalho de montagem, que era, de facto, o calcanhar de Aquiles do realizador. Tudo depende da pesquisa, da paciência e da invenção. Por outro lado, a presença de actores misturados com personagens da vida real permite a Leitão de Barros aproveitar a sua capacidade histriónica, digamos, para fazer melhor do que o real.
Não se pode deixar de referir um conjunto de apontamentos ligados a esses actores, velhos e novos, que ainda hoje dão ao filme a sua graça, já que a ficção envelhece menos que o documento: o saloio Estevão Amarante olhando os manequins na montra e replicando ao aviso da empregada Josefina Silva "Não pode ver sem tocar?" com o imediato "Eu até era capaz de tocar sem ver!"; Nascimento Fernandes e as suas mãos maravilhosas seduzindo com boquinhas e piscadelas de olho as bonitas condutoras de automóveis; Vasco Santana e Costinha, no eléctrico do Campo Grande, às voltas com um burro que impede a passagem; o grande Chaby Pinheiro, na sua única aparição cinematográfica, no papel de um vendedor da Feira da Ladra que mostra um corno aos compradores; Alves da Cunha, num momento dramático no Arsenal da Marinha, uma das melhores descrições de ambiente operário do nosso cinema; Teresa Gomes na inenarrável cena de "peixeirada" da Praça da Figueira, com evidentes alusões eróticas de peixes e alhos; Erico Braga, galã convencional, descendo a Avenida da Liberdade no seu carro e declarando-se às bonitas transeuntes; o conto do vigário da bilha quebrada, com Perpétua Santos.
Alguns documentos visuais também denotam um extraodinário poder de observação e ganham um sentido profundo no contexto do filme, como esses velhos dos Inválidos do Trabalho construindo os seus caixões, cena que liga com a terra e , através dela, com uma criança, sintetizando o ciclo da vida. E o pitoresco - como ao longo do filme os mais variados tipos populares - alterna com imagens de beleza pura, de notável recorte plástico, como os marinheiros no veleiro e as suas fainas, ou como as imagens das diferentes formas arquitectónicas da cidade. Leitão de Barros não deixa de nos mostrar o bulício da cidade, o seu movimento, culminando o filme na viva descrição de um domingo lisboeta, onde, a par de uma captação insólita de costumes, se transmite um "domingo desportivo" cheio de interesse - corridas de out-boards, provas de atletismo, desafios de futebol, touradas, etc.
Esta transformação do documento em crónica, esta transfiguração anedótica do real, gerou alguns equívocos, pois se exigiu a Leitão de Barros uma maior dose de "verdade", de "verosimilhança", de "realismo", quando era outra coisa que estava em causa, do mesmo modo que uma crónica de um jornal não é uma reportagem. A nossa crítica mais responsável, durante muito tempo, preferiu "Nazaré" e "Maria do Mar" a "Lisboa, Crónica Anedótica", mas eu creio que este é muito mais moderno, muito mais imaginativo, muito mais original, muito mais "cinegráfico", se assim quisermos."

Luís de Pina, in História do Cinema Português, ed. Europa-América, col. Saber, 1986.



"Leitão de Barros recriou, como ninguém, o que mais tarde chamou o lado "pobrete mas alegrete" do "fatalismo sem revolta" do "povo ribeirinho da velha Lisboa". Sob uma aparência desenvolta (o lado "quadro vivo") o que surge nessa "crónica" é o horizonte fechado de uma cidade sem saídas, presa das suas próprias manhas e armadilhas, que não mais deixaria de insinuar-se, em filigrana ou como nota dominante, em quase todos os filmes (comédias ou dramas) que tiveram Lisboa como cenário dominante. Se houvesse que opor um desmentido cabal à lenda da "ville blanche" (cidade branca), emblema fácil e superficial do filme de Tanner dos anos 80, havia que o buscar em todos esses filmes portugueses, em que nunca se pintou cidade mais "escura" e cujo fulgurante marco inicial é o filme de Barros, certamente um dos mais desapiedados olhares de nós próprios sobre nós próprios."

João Bénard da Costa, Histórias do Cinema, col. Sínteses da Cultura Portuguesa, Europália 91, ed. Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1991.