quinta-feira, 4 de julho de 2013

A ÁRVORE DE JOSUÉ


                                                A árvore de Josué - Deserto da Califórnia


Normalmente por alturas do Verão sopravam ventos de mudança, mundos desapareciam enquanto outros se começavam a formar, ciclos fechavam-se para que outros se abrissem. A ordem natural das coisas acelerava o passo como uma dona de casa diligente nas limpezas e arrumações, para que tudo estivesse pronto e funcional antes de caírem as primeiras chuvas. Foi no verão que começámos a viver juntos, foi no Verão que cumpri o último dia do meu serviço militar. De manhã à frente do sargento da secretaria, uns papéis, uns carimbos e os votos de felicidades para uma nova etapa da vida. Do quartel saltei para a estação do comboio com o pensamento há muito deitado ao pé de ti a ver-te acordar. Um saco de lona verde com a trouxa de roupa mínima revolvida lá para dentro e uma K7 do último álbum dos U2 no bolso, o “Joshua Tree”. Estávamos juntos há um ano e tudo corria bem apesar do dinheiro ser curto e os horizontes limitados. Estantes de tábuas e tijolos das obras arrumavam os livros num pequeno apartamento suburbano, posters de filmes pendiam das paredes do corredor, tal como os sonhos que mesmo quando não se vivem todos os dias nem por isso deixam de existir. Segurávamos a vida nas nossas mãos através de um equilíbrio inexplicável mas firme que insuflava felicidade em cada gesto, oxigénio em cada movimento, amor em cada esquina do corpo. Cheguei depois do jantar para te encher de beijos antes de passar a porta da entrada, para deixar a camisola e as calças nas escadas e entrar já nu no quarto enrolado em ti como se fosse a primeira vez, como se o amanhã já não existisse. A música foi tocando no velho rádio da cozinha, as cervejas foram viradas as passas fumadas entre os vários actos das saudades insuportáveis, a cerimónia da alegria arrastou-se pelo calor da noite, “entre saliva e suor” como numa canção dos Rádio Macau. Parecia não haver “amanhã” por que de facto não havia mesmo. Era tudo o que menos interessava nestas paragens onde “as ruas não têm nome”, onde o Ser por mais resistente que seja acaba por soçobrar à força implacável do deserto e do tempo. Mas enquanto dura parece um poema a querer pisar o chão, uma harmonia que não deixa de se fazer ouvir, um acorde de vida no universo da aridez e da morte. Uma árvore de Josué teimosa e persistente a gastar cada dia num acto de resistência. Ainda não tínhamos encontrado aquilo que procurávamos nem iríamos nunca encontrar, esse caminho era apenas feito de imagens soltas que se conseguiam ver uma vez por outra. Imagens poderosas que nos lembravam como seria o filme, o filme que sabíamos que existia mas que não conseguíamos ver. Imagens poderosas como aquela noite quente e abafada no Sul em que dois corpos se fundiram num só com gestos de eternidade, em que dois espíritos desenharam a unidade e a origem. E nessas horas fomos felizes, percorrendo ainda que de uma forma breve alguns corredores desse palácio a que chamam felicidade. Um som a tocar rouco pela madrugada dentro, uma relação estranha com a vida que se consegue amar e odiar ao mesmo tempo, as corridas de que somos feitos ou que nos obrigamos a fazer, acelerados seres exaustos que não saem do sítio, como os bonecos de um jogo de matraquilhos. Alguma coisa muda no entanto, alguma coisa terá que mudar com a nossa breve passagem por estas terras secas e violentas, por estas paragens absurdas, por estes caminhos inúteis. Alguma coisa terá que fazer sentido mesmo quando não tem sentido nenhum. Alguma coisa…

Poderá a música mudar a vida das pessoas? Poderá um disco decidir da vida e da morte dos seres? Não sei. Sei apenas que antes que um novo Verão descesse sobre a Terra o teu ventre inchou e sorriu, tivemos o primeiro filho, éramos pais. Numa noite de felicidade quase perfeita alguma coisa nasceu para dar testemunho pelos anos fora, para atestar da sua veracidade, para que não houvesse dúvidas se teria realmente acontecido. Os anos passaram e os ciclos continuaram a fechar-se para que outros se pudessem abrir. O nosso fechou também. Como uma dona de casa diligente tentei passar à fase das limpezas e arrumações para que tudo estivesse pronto antes das primeiras chuvas. Das várias memórias que vou encostando na estante de tábuas de madeira e tijolos das obras, esta noite terá sempre um lugar destacado. Um lugar para recordar com conforto e alegria quando me estiver quase a convencer que neste imenso e infinito deserto não existe sequer uma árvore de Josué para umas tréguas de sombra.

 

Artur

ADORAÇÃO AO SOL - II



quarta-feira, 3 de julho de 2013

M de MARIA

Do swap ao swamp é um pequeno salto, questão apenas de uma letrinha singela.

130 ANOS DEPOIS

                                                           Franz Kafka - 3 julho 1883

ATLANTIS



Uma vez percebidas as portas para a Atlântida não há vontade nenhuma de voltar para trás, somos abraçados pela recordação de um tempo confortável, por um ambiente harmonioso quase perfeito, pela voz que confirma à memória essa lembrança que apesar de nunca se conseguir ver nem por isso se esqueceu.

Aos meus pés o mar e no olhar a linha do horizonte. O barco ao longe parece sempre parado mas no entanto move-se como a Terra, como o Sol, como tudo, enfim. Tudo está de passagem com breves paragens em algumas estações, recordações, regresso à ilha da minha infância embalado em companhia familiar, tento repetir comportamentos, desembaraçar o corpo, comungar com a Natureza. Saltos do cais ao pôr-do-sol com a maré-cheia, muros para trepar com métodos de osga, corridas na areia, jogatanas de bola com os sobrinhos. Um barco que se mantém imóvel no horizonte mas que afinal nunca parou. Os ossos protestam rangendo humidades, desculpando-se com as artroses, os músculos olham para ti com alguma admiração (“ mas pensas que isto é algum elástico?”) e vingam-se com cãibras fugidias, os bofes começam a bufar muito mais depressa, o coração encosta a bicicleta e fala sozinho a bater ao ritmo que lhe apetece (“ já bati muita estrada, sim senhor…outros tempos, velocípede, outros tempos”) Tal como o barco que parece não andar, andando, também eu não lhes ligo, finjo que pertencem a outro corpo e deixo o meu único aliado (o cérebro) mergulhar comigo da ponte abaixo enquanto o Sol se enrosca vagaroso na manta do Oeste em variações de fogo alaranjado. Os filhos e os sobrinhos são homens feitos, falam de miúdas, cerveja, bandas de rock. Viram-se para os “velhos” quando querem ter uma certeza acerca do tempo em que ainda não tinham cruzado os portões da Atlântida para o lado de cá. Confirmam, desenham sorrisos malandros, observam com a ingenuidade própria de quem começou a caminhar há pouco tempo. Há nisto tudo uma brisa refrescante de felicidade que esvoaça sobre as minhas memórias, as minhas células velhas que se reproduzem cada vez mais devagar. Tudo passa mesmo quando parece não passar, o barco está ali e daqui a bocado deixa de estar, muda de sítio, muito devagar, sobre o portal atlante. Há uma vontade enorme de não voltar para trás, de não regressar à falta de sentido, às ruas do absurdo palmilhadas todos os dias, às mágoas desnecessárias, à futilidade das obrigações e do sacrifício, aos desencontros e às charadas indecifráveis do coração. Olho outra vez para a ilha da minha infância, para as rugas da minha irmã, para as barbas do meu sobrinho mais velho e parece que me encostei à recordação de um tempo confortável, que vesti uma camisola harmoniosa, quase perfeita, um conforto que vem confirmar à memória essa lembrança que apesar de nunca se conseguir ver nem por isso se esqueceu. Não interessa a viagem mas o momento em que estamos, não interessa a paragem mas a continuidade do movimento, não interessa nada. As memórias espalham-se no areal como gaivotas ao fim do dia em busca de alimento. Basta um cachorro cheio de vida, uma criança a correr para debandarem em voo livre e desordenado em todas as direcções. O cão volta para o dono, a criança volta para casa e a praia fica deserta, aberta apenas aos beijos das ondas. E tudo desaparece como se nunca tivesse acontecido. Ás portas da Atlântida recordamos a casa de onde viemos e recusamos voltar atrás, em frente às recordações queremos ser o que fomos sabendo que nunca é possível inverter a direcção da linha do tempo. Que nada está parado mesmo quando parece não andar, que as gerações passam como as ondas, beijando o areal onde as memórias aterram ao fim do dia. Voltar a beber da garrafa das recordações não é o mesmo que regressar ao passado. Voltar a encontrar as gaivotas espalhadas no areal e correr até as dispersar é como quem pega na vassoura e vem apenas apagar o rasto que deixou. É explicar o caminho àqueles que nos seguem. Uma vez percebidas as portas para a Atlântida, uma vez encontrado o caminho de regresso a casa, nunca se volta para trás. Respeita-se a lei do movimento contínuo e dá-se início ao caminho. De repente o barco que passava devagar na linha do horizonte, as gaivotas que bicavam o chão da praia, a vida de todos os dias, as mágoas e as charadas indecifráveis do coração, tudo desapareceu, tudo se desfez pacificamente ao sabor dos beijos que as ondas desenham na humidade do areal. Porque nunca houve princípio nem fim mas um perpétuo continuar.

 

Artur

terça-feira, 25 de junho de 2013

A COMUNA DE PARIS – CONCLUSÃO


 

   Com algumas divergências sectoriais, uma grande parte da esquerda, extrema-esquerda e anarquistas reclamam para si a herança da Comuna de Paris. O seu exemplo foi de facto modelo inspirador para várias revoluções que se lhe seguiram na História (os conselhos soviéticos da revolução russa ou as colectividades da revolução espanhola.  Uma herança no entanto desfigurada, desvirtuada e desviante. Apesar de Marx ter visto nela a emancipação do trabalho, a vitória de Versailles, ou seja, do modelo burguês, deixou “desempregada” a forma que deveria permitir essa mesma emancipação. A capacidade que poderia ter emancipado mudou de rumo e foi pervertida tornando-se instrumento de alienação. Este processo, durante muito tempo atenuado pelas sucessivas conquistas sociais, adquiriu um carácter de fatalidade absoluta com a queda da esperança nascida na revolução. Ou uma espécie de triunfo do mercantilismo sobre  o trabalho. O tesouro perdido da Comuna não pertence aos seus participantes. Ele é adivinhado pelos seus adversários por ameaçar a sua ordem e por Marx que tenta ler o conceito capaz de transformar o mundo. Dois dias após a “Semana Sangrenta”, a 30 de Maio de 1871, em frente do Conselho Geral da Internacional, Marx lê o seu longo “Adresse”, também conhecido pelo título de “A Guerra Civil em França”, a história imediata da Comuna. Este texto, que Engels define como “o acto de tornar conscientes as tendências inconscientes da Comuna” é o ponto em que o acontecimento vai perder a actualidade por se ter transformado no seu significado para o futuro.

A Comuna não foi nem será um elemento marxista. A leitura que ele faz dela é que a coloca definitivamente na vanguarda de qualquer processo revolucionário futuro. E porquê? Porque se a Comuna inspirou revoluções futuras a emancipação económica do trabalho nunca foi alcançada em nenhum dos casos. Porque a várias transformações do poder acabaram sempre por alienar o modelo operário em função de um modelo capitalista ou mercantil concentrado (p. ex. no próprio aparelho do Estado). Porque a natureza do conceito de “poder” se manteve por mais que esse poder fosse tomado e mudado de mãos.

A grande lição da Comuna de Paris repousa no facto de ter inscrito na memória humana que há um outro caminho para combater a tirania sem ser necessário instalar outra no seu lugar. Que é possível inverter o edifício piramidal da Democracia numa sociedade mais alargada à participação dos cidadãos em liberdade e com respeito pela individualidade de cada um. Que o primeiro beneficiário do lucro do trabalho é o seu produtor, o operário que criou a riqueza. E, finalmente, que é possível outro mundo mais livre e mais justo onde todos podem ter o seu espaço, a sua opinião e a sua vontade atendida. Utopia? Claro que sim, no sentido de que é utopia tudo aquilo que ainda falta fazer. Quantas utopias nasceram naqueles dois breves meses de revolução que hoje são dados adquiridos nas sociedades modernas?

 

Artur

segunda-feira, 24 de junho de 2013

OS ÚLTIMOS DIAS – COMMUNARDS CONTRA VERSAILLAIS


                                            Um grupo de Communards após o fuzilamento

   A partir de 21 de Março os “de Versalhes” desenvolvem a guerra civil e iniciam o seu ataque começando por ocupar o forte do monte Valérie a Oeste de Paris; a 2 de Abril ocupam Courbevoie e Puteaux. As forças dos “communards” reagem com mais entusiasmo do que organização. A 3 de Abril a Comuna lança um contra ataque em direcção a Versalhes sendo as suas forças rechaçadas em Rueil e Châtillon. Duas das suas principais figuras (Flourens e Duval) são mortos. A ordem antiga não permite nem tolera a existência da ordem nova.  A tolerância e o espírito de voluntariado tornam-se elementos de fraqueza ante um dilúvio de dificuldades que se acumulam. Acreditando na força da conciliação, um elemento de acção social, é-se confrontado com a violência, um elemento de acção política.

Como demonstra a correspondência telegráfica de Jules Favre, que havia negociado a paz com os alemães, Thiers beneficia do apoio do chanceler Bismarck. Enquanto que na assinatura do armistício ficou convencionado que o limite de soldados franceses na região de Paris não seria superior a 40 mil, Bismarck liberta rapidamente 60 mil prisioneiros de guerra que se juntarão aos 12 mil disponíveis às mãos de Thiers. No fim da “Semana Sangrenta” serão 130 mil. Face a este exército numeroso a Comuna dispõe oficialmente de um efectivo mal preparado e indisciplinado de 194 mil homens, numero dificilmente conseguido segundo registos da época. As estimativas feitas por analistas contemporâneos vão de 10 mil (Camille Petain) a 41500 (Cluseret, delegado para a guerra desde 5 de Abril).

Ao longo do mês de Maio os versallais vão conquistando posições até que no dia 21, auxiliados por um traidor que lhes deixa aberta uma entrada, atravessam o portão do bastião 64 entrando pela porta de Saint-Claud. A partir daqui vai seguir-se um enorme massacre que ficará baptizado com o nome da “Semana Sangrenta”. Fuzilamentos, mutilações e todo o tipo imaginável de sevícias será aplicado aos vencidos. Uma repressão que tem o apoio incondicional dos republicanos da Assembleia Nacional, " para preservar a Republica ainda frágil". Será o caso de Léon Gambeta, Jules Ferry, ou Jules Grévy. A maior parte dos escritores (Zola e George Sand p. ex.) é hostil à Comuna. Para François Furet “todos estes mortos voltaram a repetir o feito de 1848 ao atravessarem o fosso que separa a esquerda operária do republicanismo burguês”.
 
 
         Cemitério de Pére Lachaise em Paris - Muro de homenagem aos Communards mortos


Os tribunais pronunciarão 10137 condenações das quais 97 à morte, 25 a trabalhos forçados e 4586 à deportação (a maioria para a Nova Caledónia), e as restantes a penas de prisão com duração variável.

Curiosamente a grande maioria dos dirigentes da Comuna consegue escapar não apenas à morte em combate como às execuções sumárias e ao julgamento dos tribunais. Em nove elementos do Comité de Saúde Pública, um, Delescluze escolhe morrer na barricada, Billioray é feito prisioneiro. Os outros sete conseguem fugir de Paris e rumar ao exílio. Regressarão em 1880 beneficiando de amnistia.
 
Artur

domingo, 23 de junho de 2013

PORTUGAL AO VIVO E PARA A ETERNIDADE – A ALMA PORTUGUESA



    Estádio do Restelo, 20 anos depois. O frio e o vento fora de época foram os únicos intrusos de mais uma noite mágica para a música portuguesa e para o Rock’ n Roll em geral. Um dia depois do Solstício de Verão e a maior Lua Cheia do ano ajudaram a construir a homília para 15 mil fiéis entregues sem reservas à comemoração do “Portugal Ao Vivo” de 1993. Preço dos bilhetes e condições atmosféricas estoicamente superadas pela qualidade da proposta musical desdobrada nas diversas variantes.
Ainda com Sol a hostilidades abriram com Sétima Legião, seguros e empenhados nos seus êxitos de sempre, seguidos por uns Madredeus a compensar as contrariedades de executar a sua música num espaço adverso para o seu registo. Um estádio de futebol ao ar livre para uma banda muito mais adequada ao espaço fechado, ao anfiteatro de acústica concentrada. Mesmo assim um bom desempenho e uma afirmação de qualidade com um elenco renovado. Resistência e Xutos & Pontapés sempre ao seu mais alto nível, a primeira no registo da originalidade e execução de uma música que afirma as suas raízes e desenvolve a sua originalidade num contexto genuinamente português. Aquelas seis ou sete guitarras que tocam todas aos mesmo tempo não estão a tocar flamengo, não são influenciadas por nenhum fandango do exterior mas antes a sequência directa de uma alma herdada por uma cultura de séculos, o aperfeiçoamento de influências e a renovação de uma voz, uma harmonia de cordas, uma identidade que se reafirma e que por cá andará ainda por muitos séculos. Xutos a fechar com a fórmula habitual de se apresentarem em palco. Revisão da matéria dada, êxitos antigos misturadas com duas novas canções à laia de experiência, propostas para auscultar a reacção dos crentes. A “Casinha” a fechar o delírio. Uma banda de profissionais absolutos que sabem como ninguém alimentar e estimular a sua relação com os fãs de todas as gerações. Nada de novo, portanto.

E deixamos o melhor para o fim. No meu entender a melhor e mais surpreendente actuação da noite, os GNR. Já não os via há muitos anos e, como tal, já me tinha esquecido do que normalmente acontece nas suas actuações ao vivo. Na altura como agora, todas as expectativas superadas, a surpresa e a sensação de “papo cheio” no fim. Êxitos antigos com arranjos novos a dar mais um salto na direcção do céu. Particular destaque para “Asas”, “Efectivamente” ou até mesmo o “Dunas”. Profissionalismo, honestidade criativa, respeito pelo público, o Rock N’ Roll no seu mais elevado nível.

Num dos mais mágicos lugares da cidade de Lisboa, no estádio de futebol mais bonito de Portugal com a maior Lua Cheia do ano as guitarras tocaram até chegar ao céu, os corações bateram mais depressa, Portugal voltou a deixar a sua marca no rasto e no pó das estrelas. No céu voltámos a escrever a nossa ALMA. Alma que não querendo ser mais nem menos que as outras, será sempre diferente. Fica a sugestão várias vezes feita por estes dias. Seria muito bom, agradável, simpático e cultural, uma iniciativa destas todos os anos. A Alma Portuguesa agradece.

 

Artur

A COMUNA DE PARIS III



AS IDEIAS E AS SEMENTES

 

Da autonomia do cidadão e da comuna decorrem diversos direitos que, para se realizarem na plenitude pressupõem uma absoluta independência administrativa bem como as condições necessárias para que o indivíduo se realize enquanto homem e trabalhador. Para tal são impostas as seguintes medidas: eliminação do exército regular e da policia, laicidade e gratuitidade do ensino, separação da Igreja e do Estado, responsabilização e revogabilidade dos detentores de funções públicas, direito ao trabalho e garantia para o trabalhador de participação na riqueza produzida, liberdade de imprensa, protecção da infância e da velhice, direito à saúde, sistema de garantia comunal contra o desemprego, a indigência, a miséria e todas as causas resultantes da opressão. Segundo Marx, a Comuna de Paris foi “a forma política encontrada que permitiu realizar a emancipação económica do trabalho” E porquê? Por “ se apresentar na sua essência enquanto um governo da classe operária.”

Á partida são tomadas medidas de carácter simbólico como a adopção da bandeira vermelha e a retoma do calendário republicano (ano 79 da República). A proclamação de 22 de Março anuncia que os membros da assembleia municipal estarão sempre sob vigilância, sujeitos a críticas, controlados e responsabilizados pelos seus actos. É a consagração do governo do, pelo e para o povo. Uma democracia directa assente na cidadania activa, renovada pelo espírito da constituição de 1793 que consagra o direito à insurreição, “o mais sagrado dos direitos e o mais imprescindível dos deveres” (artigo XXXV da Declaração dos direitos do Homem e do Cidadão de 1793).

 

 A Imprensa

A liberdade de imprensa é restaurada a 19 de Março pelo comité central da Gare du Nord e os jornais anti- communards continuam a ser publicados nomeadamente Le Journal des Débats et La Liberté  fiel às políticas de Thiers. Mas em breve a Comuna irá perseguir e tentar silenciar as publicações “favoráveis aos interesses do exército inimigo”. O que não consegue na plenitude na medida em que os jornais da oposição facilmente aparecem e desaparecem nas ruas de Paris. Por outro lado a imprensa fiel à Comuna não consegue ser distribuída fora de Paris dada a vigilância e o controle montado pelas forças fiéis ao governo de Thiers.

 

                               Nathalie Lemel
 
                                                                                                                    Elisabeth Dmitrieff
 
A Emancipação Feminina

Durante este período, e sob a orientação de Elisabeth Dmitrieff (uma aristocrata russa) e Nathalie Lemel é constituído um dos primeiros movimentos femininos de massas, a Union des Femmes pour la Defense de Paris et les soins aux Blessés. A União começa por reclamar o direito ao trabalho e a igualdade salarial. Por influência deste grupo a Comuna irá reconhecer a união de facto ao atribuir, p. ex., uma pensão às viuvas dos soldados mortos, casados ou juntos maritalmente, tal como aos órfãos, legítimos ou não.

 

A Justiça

A maior parte dos profissionais da justiça havia saído de Paris (ficaram apenas dois notários em actividade) por isso era necessário colmatar essa ausência. Uma tarefa muito difícil de executar com ideias a mais e meios a menos. Instaura-se o casamento por livre consentimento (com uma idade mínima de 16 anos para as raparigas e 18 para os rapazes), as crianças desde que legitimadas são consideradas como de absoluto direito; é decretada a gratuitidade de todos os actos notariais (doações, testamentos, contrato de casamento); fica proibida a detenção ou a busca sem mandato; é criada uma inspecção das prisões.

 

O Ensino

No ensino passa-se um pouco a mesma coisa que com a justiça. A maior parte do pessoal administrativo havia abandonado a cidade, os professores do ensino secundário e superior eram pouco apoiantes da Comuna, deixando liceus e faculdades abandonadas. Édouard Vaillant, é encarregado de reformar o sector prevendo-se medidas que visem a uniformização da formação primária e profissional. São inauguradas duas escolas de formação profissional, uma para rapazes e outra para raparigas. É interdito o ensino confessional e declarada a laicidade da escola, os símbolos religiosos são retirados das salas de aula. Em alguns bairros é decretado o ensino laico e gratuito. Os professores recebem uma remuneração de 1500 francos anuais e 2000 os directores das escolas. Haverá igualdade salarial entre homens e mulheres.

 

Cultos

Em termos de culto a Comuna decreta o fim da Concordata de 1802 que definia o catolicismo enquanto religião da maioria dos franceses. Na fase final do Império as classes populares parisienses são bastantes hostis ao catolicismo, demasiado cúmplice dos sectores conservadores e do regime em geral. A 2 de Abril a Comuna decreta a separação da Igreja e do Estado bem como o confisco dos bens das congregações religiosas.

 

Em pouco tempo a mudança torna-se uma realidade e a cidade, ao se apropriar da sua autonomia vê-se confrontada com um novo tempo, uma modernidade portadora de soluções adequadas. Mas o passado não se deixa intimidar nem se retira com facilidade.

 

sábado, 22 de junho de 2013

A COMUNA DE PARIS II


 
 
A CONSTRUÇÃO
 
CONCEITO DE COMUNALISMO

 

A “iluminação colectiva” ou a acção determinante de uma comunidade em se organizar, defender ou afirmar não resulta de um explosão inesperada de inspiração ou sequer na sequência de uma noite em que foi distribuída droga estragada nas ruas. Ela ocorre quando a força dos acontecimentos e o movimento da sociedade atingem uma súbita e absoluta sintonia na leitura da História. Já percebemos que as convulsões sociais tinham sido frequentes nas décadas anteriores e como os regimes haviam sido depostos com frequência. No séc. XIX uma insurreição nas ruas era uma situação frequente. Então porque é que um acontecimento que tem a duração de breves meses inspirou e estimulou o interesse tanto de historiadores como de teóricos políticos ao longo de várias gerações até aos nossos dias? É o que vamos tentar perceber de seguida. Por ter sido tão breve, a primeira revolução proletária conservou toda a sua virtude; por ter sido reprimida com uma brutalidade exagerada para que a sua ideia fosse eliminada para a eternidade, a memória da Comuna de Paris ganhou ecos reforçados.

A Revolução de 1789 tinha sido a revolução dos burgueses, esta era a altura de o povo ter a sua. Esta é a primeira ideia de fundo que vai animar a Comuna de Paris no seu ponto de partida. Não se tratava de inventar a Democracia visto que ela já existia. Tratava-se de afinar o seu funcionamento, corrigir os seus defeitos. No essencial a Democracia reside na relação de confiança que os cidadãos delegam nos seus representantes através do exercício eleitoral. Só que na maior parte das vezes, aqueles que são eleitos tendem a afastar-se dos seus eleitores e a sua actuação não consegue ser controlada. A Comuna começa por tentar dar uma resposta a esta questão viciada e pervertida. Através do Comunalismo a proximidade será a primeira prerrogativa dos delegados eleitos. Assim os representantes do povo estarão mais perto dos seus eleitores, serão controláveis e passíveis de serem demitidos. O Comunalismo assenta em quatro princípios essenciais: associação, autonomia, federação, união. A “federação” opõe-se ao conceito de Estado porque é resultante de uma “união” por “associação” livremente consentida pelas colectividades autónomas; o Estado assenta num modelo de autoridade centralizador e convergente. A “união” é diferente da “unidade”. A Federação é o resultado de uma escolha, o exercício de uma responsabilidade. Ela assenta no desenvolvimento harmonioso dos grupos autónomos e dos indivíduos que os constituem num movimento de reciprocidade. Uma grande parte desta concepção deriva do pensamento de Proudhon, para quem a associação “é o termo complementar do individualismo pois o indivíduo sem poder vive isolado”. Substituído o eixo centralizador pelo da união não haverá mais lugar para um chefe dentro do grupo comunal. A associação é a garantia da liberdade, que só se pode verificar no âmbito da colectividade.

A 26 de Março são feitas as eleições com uma população desfalcada já que uma grande parte dos habitantes havia seguido com o governo para Versalhes. O Conselho eleito reflectirá essencialmente a representação das classes populares e da pequena burguesia parisiense. Assim vamos encontrar 25 operários, 12 artesãos, 4 empregados de serviços, 6 comerciantes, 3 advogados, 3 médicos, 1 farmacêutico, 1 veterinário, 1 engenheiro, 1 arquitecto, 2 artistas plásticos e 12 jornalistas. Estão representadas todas as tendências políticas republicanas e socialistas até ao grupo dos anarquistas. Em breve duas tendências começam a ganhar forma no Conselho da Comuna. Primeiro a maioria, os jacobinos, brancos (blanquistes) e independentes. Para eles a política traz consigo o elemento social; reconhecem-se enquanto continuadores da facção dos “montagnards” de 1793, não sendo contrários às medidas centralizadoras, ou autoritárias; votarão todas as medidas de reforma social da Comuna. A minoria, ou os minoritários era um grupo constituído por radicais e “internacionalistas” proudhonianos empenhados em promover as reformas sociais e anti-autoritárias; são fervorosos adeptos da “Republica Social”.

Um pouco por toda a parte a população junta-se e discute o momento, propõe soluções,  pressiona os eleitos e ajuda a administrar a própria Comuna. A construção do futuro torna-se um trabalho colectivo.

A partir de 29 de Março o Conselho da Comuna formará dez comissões (executiva, militar, da subsistência, finanças, justiça, segurança, trabalho, industria, serviços públicos e ensino). A Comuna irá administrar Paris até ao dia 20 de Maio. Inúmeras medidas  vão ser tomadas e aplicadas durante esses 70 dias de actividade legislativa considerável, sendo a sua maioria abolida após o fim da Comuna. Algumas só voltarão a ser recuperadas várias décadas depois.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

A COMUNA DE PARIS - I


I – ORIGENS

 

 

Durante praticamente todo o séc. XIX a França atravessa uma série de experiências políticas mais ou menos autoritárias ao longo das quais a democracia e o regime republicano se configuram em breves experiências passageiras. Primeiro Império,  Restauração, Monarquia de Julho e Segundo Império, são as referências historiográficas que ilustram este percurso. A Comuna de Paris vai encontrar as suas referências na Primeira República e no governo revolucionário de 1792, além da insurreição popular de Junho de 1848, durante o período da Segunda República, reprimida brutalmente pelo governo saído da revolução de Fevereiro de 1848.

Em Julho de 1870 Napoleão III entra em guerra contra a Prússia, uma guerra que o conduz rapidamente à derrota. Enquanto os estados germânicos ocupam o norte do país, um governo de defesa nacional instala-se fora de Paris. Humilhados, os franceses apercebem-se que o império alemão se faz proclamar na galeria dos espelhos do Palácio de Versalhes. A 28 de Janeiro de 1871 Jules Favre e o chanceler alemão Bismarck assinam um armistício que prevê o intervalo das hostilidades durante quinze dias, período prolongável por mais tempo, bem como a convocação de uma assembleia nacional encarregue de decidir acerca da continuidade da guerra ou da conclusão da paz. Esta guerra de 1870 tinha deixado marcas profundas na população que havia atravessado um cerco extremamente duro, e que apesar da terrível fome conseguiu mesmo assim resistir cerca de três a quatro meses ao inimigo. A ideia do armistício é por isso extremamente mal recebida pela população. De acordo com o historiador Jean-Jacques Chevalier “ os insurgentes eram acometidos de um patriotismo de esquerda associado à vergonha do desespero da derrota”.

A assembleia, para além de nomear três bonapartistas para lugares chave como o Governador (general Vinoy), o comandante da guarda nacional (general d’Aurelie de Paladines) e o chefe da Prefeitura de Policia (Louis Ernest Valentim), transfere o cerco para Versalhes e começa de imediato a fazer leis anti populares como o fim do soldo pago aos guardas nacionais e o fim da moratória sobre os efeitos do comércio, medida que provocará a falência a vários artesãos e comerciantes.

Por outro lado a limitação gradual tanto do direito à greve como à da liberdade de imprensa ao longo dos anos conjugaram-se no desenho do aumento da insurreição popular. Várias vezes as classes desfavorecidas parisienses haviam derrubado regimes políticos (1830, 1848) através das suas acções revolucionárias quando pressentiam que as suas pretensões não eram atendidas. Com a assembleia eleita em 1870, composta por dois terços de deputados monárquicos de várias tendências e bonapartistas, os parisienses sentem-se desconfiados.

O acordo do armistício permitiu aos germânicos ocupar partes da cidade de Paris como os Champs- Elysées. Acto considerado de provocação pela população, quando durante o cerco os inimigos nunca haviam conseguido entrar na cidade.

A insurreição da Comuna de Paris tem início a 18 de Março de 1871. Um acontecimento que tem raízes prévias na guerra contra a Prússia, o cerco de Paris e a derrota. O povo de Paris decide resistir numa demonstração de personalidade e numa afirmação de mudança política, sentindo-se traído pelo seu governo que optou por negociar com o inimigo e desprezar a vontade de encontrar soluções para uma reforma da sociedade.

 
A 17 de Março de 1871 Adolphe Thiers e o seu governo decidem enviar o exército a Paris a meio da noite para recuperar os canhões da Guarda nacional estacionados em Montmartre. Considerando-se proprietários desses canhões pelo simples facto de os terem pago através de subscrição pública durante a guerra contra a Prússia, os parisienses opõem-se à ideia. Capturam o general que comanda a operação e fuzilam-no imediatamente. Ao amanhecer a população reforça a sua oposição. Um pouco por toda a parte os representantes governamentais são capturados, levantam-se barricadas nas ruas, uma parte substancial do exército adere ao movimento popular. Era o início da insurreição.

 
Artur

quinta-feira, 20 de junho de 2013

O GIGANTE ACORDOU

A todo o povo brasileiro, ao gigante que acordou e ao futuro com dignidade, justiça e paz, este blog deixa aqui o seu abraço solidário. 

CADAQUÉS - ESPANHA






                                                    Por Sofia P. Coelho

JAMES GANDOLFINI

                                                                     1961 - 2013